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3. E STRESSE O CUPACIONAL

3.1. Conceituando o estresse

O conceito de risco está diretamente relacionado com eventos negativos de vida, que, quando presentes, aumentam a probabilidade de o indivíduo apresentar problemas (Yunes & Szymanski, 2001). Riscos ocupacionais são todas as situações de trabalho que podem romper o equilíbrio físico, mental e social dos trabalhadores e não somente as situações que originem acidentes e doenças (Bessa, Almeida, Araújo & Silva, 2010; Miranda & Stancato, 2008). Ao se encontrar diante de adversidades, muitas vezes causadoras de estresse ou trauma, o indivíduo se torna suscetível à vulnerabilidade e ao desequilíbrio (Rodrigues & Gasparine, 1992). Assim, as condições de trabalho dos profissionais de enfermagem podem ser consideradas riscos para estes profissionais.

Os riscos psicossociais podem interferir até mais do que fatores físicos no desempenho do trabalho. Existem diversas classificações e significados dos riscos psicossociais. A Organização Internacional do Trabalho - OIT (1986) definiu risco psicossocial em termos da interação entre conteúdo do trabalho, organização do trabalho e gerenciamento, e outras condições ambientais e organizacionais, por um lado, e competências e necessidades dos empregados, de outro (Peiró, 1999, cit. por Guimarães, 2006).

Estas interações que podem provocar riscos influenciam a saúde dos trabalhadores através de sua percepção e experiência. Uma definição de riscos psicossociais no trabalho simplificada é dada da seguinte forma, todos aqueles aspectos do desenho e gerenciamento do trabalho e os contextos social e organizacional têm potencial para causar dano físico ou psicológico (Cox & Griffiths, 1995). Segundo estes autores, os fatores de risco psicossocial do trabalho podem também ser definidos como aquelas características do trabalho que funcionam como “estressores”, ou seja, implicam em grandes exigências no trabalho, combinadas com recursos insuficientes para o enfrentamento das mesmas.

Os riscos psicossociais podem ser categorizados em dois tipos: 1) estressores ou demandas laborais - entendidas como aspectos físicos, sociais e organizacionais que requerem manutenção do esforço e estão associados a certos custos fisiológicos e psicológicos. Algumas exigências psicossociais são a sobrecarga quantitativa (e.g., ter sobrecarga de trabalho a ser feito num período de tempo determinado) ou o conflito de papéis (e.g., ter que responder a demandas que são incompatíveis entre si); 2) a falta de recursos pessoais e laborais, são aspectos físicos, psicológicos, sociais e organizacionais que são funcionais na consecução das metas: reduzem as demandas laborais e estimulam o crescimento e desenvolvimento pessoal e profissional. Existem dois tipos de recursos: pessoais e laborais. Os recursos pessoais fazem referência às características das pessoas, tais como, autoeficácia profissional. Por outro lado, os recursos laborais, são entre outros, o nível de autonomia no trabalho, o feedback ou retroalimentação sobre as tarefas realizadas, e a formação que a organização proporciona ao trabalhador (Guimarães, 2006).

A existência de demandas e a falta de recursos para enfrentá-las têm em geral, consequências negativas nos trabalhadores, na organização, na organização do trabalho, no grupo de trabalho. Quando o trabalhador não dispõe de recursos suficientes surgem as experiências de estresse.

O estresse no trabalho é um dos fenômenos mais difundidos na nossa sociedade porque, na sociedade atual, o trabalho adquiriu uma grande relevância social e porque o interesse pela produtividade e pela eficiência nem sempre é acompanhada de condições de trabalho dignas e adequadas, recursos suficientes para desenvolver tarefas e postos de trabalho que tenham em conta as características das pessoas, as suas necessidades, aptidões e interesses (Martins, 2004).

O termo estresse provém do verbo latim stringo, stringere, strinxi, strictum que tem como significado apertar, comprimir, restringir. A expressão existe na língua inglesa desde o século XIV sendo utilizada, durante bastante tempo, para exprimir uma pressão ou uma contração de natureza física. Apenas no século XIX o conceito se alargou para passar a significar também as pressões que incidem sobre um órgão corporal ou sobre a mente humana (Bicho & Pereira, 2007).

A palavra estresse foi utilizada primeiramente na física, que a caracterizou como sendo o desgaste sofrido por materiais expostos a pressões ou forças. A partir dos séculos XVIII e XIX, o termo aparece relacionado aos conceitos de força, esforço e tensão.O endocrinologista Hans Selye introduziu o vocábulo estresse no meio científico, utilizando-o para nomear as ações de forças mútuas que ocorrem em qualquer parte do corpo. Em seus estudos, no ano de 1926, ele percebeu que muitas pessoas sofriam de várias doenças físicas e apresentavam algumas queixas em comum, tais como: desânimo, fadiga, hipertensão e falta de apetite (Benevides-Pereira, 2002; Meneghini, Paz & Lautert, 2011).

O estresse é quase sempre visualizado como algo negativo que ocasiona um prejuízo no desempenho global do indivíduo. Ao contrário do que muitos pensam o estresse, nem sempre é negativo (Barstow, 1980, cit. por Stacciarini & Tróccoli, 2001). As diferenças entre o estresse positivo e o negativo caracterizam-se como: eustress, o estresse de natureza positiva, a pessoa fica em tensão, atingindo um nível ideal de esforço e é realimentada pelos resultados (acontece a homeostase); e distress, o estresse que se caracteriza pela resposta negativa do sujeito no processo adaptativo, tornando-se vulnerável a uma diversidade de enfermidades (Bernik, 2000).

O termo estresse, tem sido amplamente difundido, ainda hoje, causa certa confusão quanto a sua definição. Historicamente, o termo aparece relacionado ao nome de Hans Selye, médico endocrinologista que denominou o estresse numa perspectiva fisiológica como conjunto de

reações que um organismo desenvolve ao ser submetido a uma situação que exige esforço de adaptação. Pesquisando o efeito de diversos agentes agressores, sistematizou a teoria do estresse, com a formulação do conceito de General Adaptation Syndrome (Síndrome Geral de Adaptação). Assim, ampliou o conceito de estresse, em uma reação inespecífica do organismo a qualquer demanda, que poderá desencadear alterações físicas no organismo sem seletividade. Consiste em três fases: Reação de Alarme, Fase de Resistência e Fase de Exaustão. A Reação de Alarme corresponde a um quadro de reação orgânica diante de uma situação que exige uma homeostase. A Fase de Resistência se estabelece caso o agente estressor mantenha sua ação e caracteriza-se por reação orgânica específica, além de sintomas como insônia, irritabilidade, mudanças de humor, dentre outras. A Fase de Exaustão representa a falha dos mecanismos de adaptação e há o esgotamento do organismo (Limongi-França & Rodrigues, 1999).

De acordo com Sarafino (1990), corroborado por Stacciarini e Tróccoli (2001), o estresse pode ser analisado segundo três formas: como estímulo, como resposta ou como interação ou transação entre ambiente interno e externo do indivíduo, com conceituação segundo distintas abordagens: i) como estímulo, com o enfoque no impacto dos estressores; ii) como resposta, quando examina a tensão produzida pelos estressores; iii) como processo, quando entendido a partir da interação entre pessoa e ambiente.

Abordagens que enfocam os estímulos estressores investigam estímulos advindos do ambiente externo, mais especificamente, a influência de determinados eventos da vida, de natureza genérica, apontando um caráter objetivo dos estressores. Neste sentido, o estresse concebido enquanto estímulo é qualificado como uma variável independente ou um ativador de um processo no sujeito, como a perda de uma pessoa querida, o término de um relacionamento e a mudança de emprego (Santos, 2012). São várias as críticas em torno desta abordagem. A principal delas diz respeito ao fato da presença de eventos tidos como estressores no ambiente em que o sujeito está inserido, não necessariamente implica a ocorrência de estresse. Isto porque é necessário que o sujeito perceba e avalie os estímulos, enquanto estressores, apontando que características situacionais e pessoais podem intervir neste julgamento (Lazarus & Folkman, 1984). Esta abordagem, transacional/interacionista, define o estresse como processo e tem como ideia fundamental não compreender completamente o estresse examinando eventos ambientais (estímulos) e pessoas (respostas) como entidades separadas; em vez disso, considerá-los como conjunto, como uma transação, na qual cada indivíduo deve

ajustar-se de forma contínua aos desafios cotidianos (Lazarus & Launier, 1978, cit. por Straub, 2005).

Assim, abordagens que destacam o processo estressores-respostas se referem ao processo geral em que demandas do ambiente têm impacto no sujeito, dependendo do nível de controle deste. Nesta relação, destaca-se o papel do julgamento/avaliação realizado pelo sujeito, por meio da qual ele atribui valência positiva ou negativa ao possível estressor. Logo, não é o ambiente em si que vem ser estressante, mas a relação entre pessoa e ambiente que pode resultar na ocorrência do estresse (Santos, 2012).

Muitas pesquisas que abordam esta temática se têm direcionado para a relação estresse e ambiente de trabalho. Os estudos sobre estresse ocupacional, de forma geral, têm incorporado fatores psicossociais como elementos presentes neste processo.