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A enfermagem profissional no mundo foi erigida a partir das bases científicas propostas por Florence Nightingale, que foi influenciada diretamente pela sua passagem nos locais onde se executava o cuidado de enfermagem leigo e fundamentado nos conceitos religiosos de caridade, amor ao próximo, doação, humildade, e também pelos preceitos de valorização do ambiente adequado para o cuidado, divisão social do trabalho em enfermagem e autoridade sobre o cuidado a ser prestado. Florence Nightingale é considerada a fundadora da enfermagem moderna em todo o mundo, e obteve projeção maior a partir de sua participação como voluntária na Guerra da Criméia, em 1854, quando com 38 mulheres (irmãs anglicanas e católicas) organizaram um hospital para 4000 soldados internos, baixando a mortalidade local de 40% para 2% (Nash, 1980, cit. por Padilha & Mancia, 2005).

O nascimento da enfermagem no Brasil, ao contrário da Inglaterra e dos Estados Unidos onde a enfermeira aparece com a finalidade de atuar no serviço hospitalar, tem como determinação básica o campo da saúde pública. Essa proposta surge como condição para conter as grandes epidemias e as necessidades de trabalhadores especializados para o combate às doenças infectocontagiosas, a cargo das precárias condições de vida da população, aglomeração nos centros urbanos e o processo de migração e imigração que estariam ameaçando o comércio do Brasil com os países importadores nas primeiras décadas do século XX. Nessa perspectiva, sua atuação visava predominantemente o âmbito da saúde pública, compreendida como as práticas de saúde preventivas e de atenção primária, realizadas fora do campo hospitalar e promovidas por órgãos estatais (Rizzotto, 1999).

O movimento sanitarista pautou-se nos princípios da corrente bacteriológica, intervindo de forma impositiva. A execução das ações ficava a cargo da Polícia Sanitária, das Brigadas e das Delegacias Sanitárias, uma vez que inexistiam serviços ambulatoriais e nem a preocupação com políticas que visassem à melhoria da qualidade de vida da população e à prevenção da doença. Logo, o combate às epidemias e ao saneamento das cidades competia muito mais às milícias do que às enfermeiras (Nascimento & Oliveira, 2006).

Diante deste cenário, surge o ensino sistematizado da enfermagem, com o propósito de formar profissionais para garantir o saneamento dos portos, verificando-se dessa maneira o início do atendimento sanitário por profissionais da saúde fora do ambiente dos hospitais. A

caracterização profissional começa a organizar-se na enfermagem, no século XIX. O grande impulso da enfermagem surgiu com a criação do Departamento Nacional de Saúde Pública, em 1922 que, junto com a Fundação Rockfeller, dos Estados Unidos, fundou a Escola de Enfermagem do Departamento Nacional de Saúde Pública, que começou a funcionar em 1923, passando em 1926 a se chamar Escola das Enfermeiras D. Ana Néri. Estruturada sobre o modelo nightingaleano, em 1931 foi considerada oficialmente como escola padrão, servindo de base para equiparação de cursos do gênero no país, e foi incorporada em 1937 à Universidade Federal do Rio de Janeiro (Fontinele Jr., 2000).

A Escola surgia como marco da estruturação da nova profissão de enfermagem, passava a existir então a figura da enfermeira visitadora, como papel de educadora sanitária. Neste momento, “...o Estado Brasileiro institui suas primeiras políticas no campo da saúde, baseada em diretrizes definidas e coordenadas pelos órgãos de saúde, com finalidade de estabelecer a saúde coletiva” (Pires, 1989, cit. por Nascimento & Oliveira, 2006, p.132).

Entretanto, a formação inicial da proposta de Carlos Chagas não ocorreu nos modelos alvitrados. A criação de uma rede geral e única de serviços – o centro de saúde – descentralizada e regionalizada, onde a enfermagem teria um papel definido a cumprir, não se consolidou enquanto modelo de saúde pública. O papel do enfermeiro desenvolvido na época e sua prática era marcada pelo predomínio do direcionamento da atenção à saúde para o campo hospitalar.

As novas experiências no campo da saúde pública, no início dos anos de 1920, também incorporaram o novo paradigma de compreensão do processo saúde/doença, decorrente do avanço da biologia, da fisiologia, da anatomia-patológica, da microbiologia e da bacteriologia. Esse paradigma da medicina clínica, ao mesmo tempo em que exigia outro espaço para se desenvolver, o hospital, provocava um abandono progressivo das medidas de caráter coletivo, privilegiando a assistência individual (Rizzotto, 1999).

A questão central desta análise e reflexão foi desmistificar a articulação do surgimento da Enfermagem Moderna no Brasil com o trabalho desenvolvido visando à saúde pública. Sendo assim, procurou-se reconstruir os diversos momentos, em que ocorreram os acontecimentos envolvidos na criação da Escola Anna Nery, considerada marco inicial da Enfermagem Moderna no País. A análise da organização e da forma de ensino ministrado na referida

escola, parecem ter confirmado a articulação original da enfermagem profissional com a assistência hospitalar curativa e o modelo biomédico vigente (Nascimento & Oliveira, 2006). A consolidação do modelo hospitalocêntrico, fortalece cada vez mais o lugar da enfermagem na equipe de saúde hospitalar, exigindo uma melhor preparação técnico/científica desses profissionais que prestariam cuidados aos doentes e manipulariam os instrumentos. Os conhecimentos teórico-científicos converteram-se em um conhecimento prático, que iriam revestir de maneira singular o atendimento à saúde (Nascimento & Oliveira, 2006).

Em 15 de junho de 1931, consolida o exercício profissional da enfermagem através do Decreto nº 20.109. Somente em 1949, através da Lei nº 775 que dispõe sobre ensino de enfermagem no país, cria os cursos de auxiliar de enfermagem e situa as escolas de enfermagem de nível superior, - que a prática de enfermagem regulamenta o exercício da enfermagem profissional, revogando o Decreto nº 20.109 e concretizando a Lei nº 2.064 de setembro de 1955. A partir de 1961, é implantado definitivamente o nível superior para a formação de enfermeiros (Fontinele Jr., 2000).

Através da Lei do Exercício Profissional nº 7.498, de 25 de junho de 1986, que dispõe sobre o exercício da enfermagem e dá outras providências, e através do Decreto nº 94.406, que regulamenta a referida lei, os profissionais de enfermagem encontram guarida legal em suas atividades (Fontinele Jr., 2000).

Dessa forma, observa-se que o desenvolvimento da enfermagem profissional no Brasil, vem seguindo o modelo americano, que satisfaz mais as necessidades de qualificar os serviços de enfermagem nos hospitais, do que atender as necessidades de saúde da maioria da população (Nascimento & Oliveira, 2006).

O trabalho da enfermagem é realizado por uma equipe com diferentes graus de formação, conforme descrito na Lei 7.498/86, de 25 de junho:

Art.2- A Enfermagem e suas atividades auxiliares somente podem ser exercidas por pessoas legalmente habilitadas e inscritas no Conselho Regional de Enfermagem com jurisdição na área onde ocorre o exercício. …A Enfermagem é exercida privativamente pelo Enfermeiro, pelo Técnico de Enfermagem, pelo Auxiliar de Enfermagem e pela Parteira respeitando os respectivos graus de habilitação.

A Lei nº 7.498/86 ainda dispõe sobre as atividades de enfermagem, especificando as atividades de cada categoria seja no âmbito público ou privado. O Enfermeiro exerce todas as atividades de Enfermagem, cabendo-lhe: direção do órgão de Enfermagem integrante da estrutura básica da instituição de saúde e chefia de serviço e de unidade de Enfermagem; organização e direção dos serviços de Enfermagem e de suas atividades técnicas e auxiliares nas empresas prestadoras desses serviços; planejamento, organização, coordenação, execução e avaliação dos serviços de assistência de Enfermagem; consulta de Enfermagem; prescrição da assistência de Enfermagem; cuidados diretos de Enfermagem a pacientes graves com risco de vida; cuidados de Enfermagem de maior complexidade técnica e que exijam conhecimentos de base científica e capacidade de tomar decisões imediatas. O Técnico de Enfermagem exerce atividade de nível médio, envolvendo orientação e acompanhamento do trabalho de Enfermagem em grau auxiliar, e partipação no planejamento da assistência de Enfermagem, especialmente: participar da programação da assistência de Enfermagem; executar ações assistenciais de Enfermagem, exceto as privativas do Enfermeiro; participar da orientação e supervisão do trabalho de Enfermagem em grau auxiliar; d) participar da equipe de saúde. O Auxiliar de Enfermagem exerce atividades de nível médio, de natureza repetitiva, envolvendo serviços auxiliares de Enfermagem sob supervisão, bem como a participação em nível de execução simples, em processos de tratamento, especialmente: observar, reconhecer e descrever sinais e sintomas; executar ações de tratamento simples; prestar cuidados de higiene e conforto ao paciente; participar da equipe de saúde. A parteira cabe: assistência à parturiente e ao parto normal; identificação das distorcias obstétricas e tomada de providências até a chegada do médico; realização de episiotomia e episiorrafia e aplicação de anestesia local, quando necessária.

Este saber técnico guarda uma relação recíproca com as ações de enfermagem e, em conjunto, no exercício cotidiano do trabalho, constitui o cuidado de enfermagem e o gerenciamento como objeto de trabalho (Peduzzi & Anselmi, 2002).

1.1. Os contextos laborais dos profissionais de enfermagem e saúde ocupacional

A profissão de enfermagem se configura basicamente como prestação de cuidado ao ser humano. Tal cuidado é, antes de tudo, um exercício e uma arte de observação, de saber e de

fazer. Dinâmica que envolve quem cuida e quem é cuidado (seus pacientes). As atividades do enfermeiro não devem se limitar a uma ação técnica a ser estudada e desenvolvida, tal como uma função braçal. Esta profissão está fortemente pautada nas relações humanas, sociais e nas implicações que definem sua prática, de tudo e todos à sua volta (Regis & Porto, 2006).

Ser enfermeiro significa ter como agente de trabalho o ser humano, e, como sujeito de ação, o próprio ser humano. Há uma estreita ligação entre o trabalho e o trabalhador, com a vivência direta e ininterrupta do processo de dor, morte, sofrimento, desespero, incompreensão, irritabilidade e tantos outros sentimentos e reações desencadeadas pelo processo do adoecimento. (Batista & Bianchi, 2006, p.535)

O trabalho pode ser considerado como um espaço importante de relações interpessoais e de representação de socialização e definição de identidades na vida adulta. Em alguns contextos e relações faz-se necessário efetuar modificações adaptativas por parte dos trabalhadores e das instituições, no intuito de manter uma relação saudável com o trabalho (Bertoletti & Cabral, 2007; Santos, 2011).

Neste sentido, a saúde ocupacional está voltada à promoção e à preservação da integridade física e psicológica do trabalhador durante o exercício de sua função, por meio da detecção de fatores que interferem em sua saúde (Porto, Santos, Vasconcelos & Fonseca, 2011).

As instituições hospitalares brasileiras começaram a se preocupar com a saúde dos trabalhadores no início da década de 70, quando pesquisadores da Universidade de São Paulo enfocaram a saúde ocupacional de trabalhadores hospitalares (Gomes, 1974, cit. por Nishide & Benatti, 2004).

O hospital, de maneira geral, é reconhecido como um ambiente insalubre, penoso e perigoso para os que ali trabalham. Desse modo, o ambiente de trabalho pode converter-se em elemento agressor do indivíduo. Qualquer que seja a origem do desequilíbrio, existe a possibilidade de dano para a saúde do trabalhador. O processo adaptativo nem sempre é bem sucedido e pode resultar em adoecimento do trabalhador (Elias & Navarro, 2006; Mauro, Muzi, Guimarães & Mauro, 2004).

A doença ocupacional, embora ainda sem esta denominação, é descrita desde tempos remotos. Hipócrates descreveu o quadro clínico da intoxicação saturnina, Plínio, o aspecto dos trabalhadores expostos ao chumbo, ao mercúrio e a poeiras, Agrícola escreve sobre a “asma dos mineiros”, hoje denominada silicose e Paracelso, a intoxicação pelo mercúrio. Quase dois séculos mais tarde, em 1700, foi publicado “De Morbis Artificum Distriba”, escrito por

Bernardino Ramazzini, conhecido como “Pai da Medicina do Trabalho”, descrevendo doenças de aproximadamente 50 ocupações (Mendes, 1995).

Destacaram também na história, Georgius em 1556 ao observar os acidentes e as doenças mais comuns entre os mineiros, Robert Baker em 1830 e estudioso das obras de Ramazzini, dedicou parte de seu tempo a visitar fábricas e a conhecer a relação entre o trabalho e a doença, sendo nomeado “inspetor médico das fábricas”. Outro marco importante na história foram as Teorias de Taylor e Ford, e suas influências no desenvolvimento do trabalho (Souza, 2010, cit. por Guimarães, Dantas & Brasileiro, 2010).

As relações entre saúde e adoecimento no trabalho têm sido foco de diversos estudos com o olhar direcionado para prejuízos físicos e psíquicos que o trabalho vem causando em inúmeros trabalhadores. As principais causas desses adoecimentos têm relação com a atual organização do trabalho, marcada pela excessiva sobrecarga humana, já que é exigido um trabalho em prolongadas jornadas; um ritmo acelerado de produção; o excesso de tarefas; a automação; ações repetitivas e sem significado, uma vez que há parcelamento de tarefas; uma baixa remuneração em relação à responsabilidade e complexidade das tarefas executadas; entre outros. Em variadas situações, o trabalho perde seu caráter positivo e assume características prejudiciais à saúde do trabalhador. Nesses casos, o trabalho deixa de significar satisfação, ganhos materiais e serviços sociais úteis, para tornar-se sofrimento, exploração, doença e morte (Barboza & Soler, 2003).

Analisando a saúde do trabalhador no contexto da enfermagem, através dos tempos, é possível verificar que esses trabalhadores estão expostos a diversos fatores que comprometem a saúde, gerando índices elevados de acidentes de trabalho e de doenças relacionadas ao trabalho (Santos, 2011).

No relatório Penúria mundial do pessoal de enfermagem: ações prioritárias (2006), referente a estudo sobre as tarefas da enfermagem, o Conselho Internacional de Enfermeiras e a Fundação Internacional Florence Nightingale indicam a melhoria das condições de trabalho como das mais importantes (Associação Brasileira de Enfermagem, 2006).

A saúde ocupacional está voltada à promoção e à preservação da integridade do trabalhador durante o exercício de sua função, por meio da detecção de fatores que interferem em sua saúde, ou seja, melhores condições de trabalho. Avança numa perspectiva interdisciplinar relacionando ambiente de trabalho e trabalhador. Desse modo, instituições de saúde onde

predominem atividades rotineiras, estressantes e cansativas podem converter-se num elemento agressor ao indivíduo e o estudo deste ambiente torna-se essencial para compreender os vários aspectos que assegura a saúde ocupacional dos trabalhadores (Mauro et al., 2004).

Como os afazeres de trabalho dos profissionais de enfermagem nos hospitais representam a maioria dos setores com atividades assistenciais, permanecendo junto aos pacientes várias horas do dia, espera-se que o ambiente seja apropriado para prática de suas tarefas, com inserção de programas voltados a prevenção e conscientização de atividades seguras. Visando, ainda, minimizar os acidentes de trabalho, doenças ocupacionais, bem como proteger a integridade e a capacidade de trabalho do trabalhador (Porto et al., 2011).

No caso da enfermagem, particularmente no ambiente hospitalar, não é uma situação rara se observarem equipes de enfermagem desempenhando suas atividades de forma fragmentada e submetida a diversos riscos ocupacionais. Entre esses riscos encontram-se os biológicos, físicos, químicos e psicossociais. No entanto, os riscos psicossociais encontram-se em evidência em várias pesquisas (Chiodi & Marziale, 2006; Santos, 2011).

A saúde ocupacional no ambiente hospitalar pode iniciar-se pela avaliação dos riscos, que se refere basicamente à identificação e ao estabelecimento de limites e perigos, apesar de que a valoração de riscos se refira à estimativa do risco em comparação a certas normas. No caso do estresse ocupacional, a avaliação dos riscos e a sua valoração pertencem principalmente a fatores psicossociais do trabalho (Guimarães, 2006).

O Ministério do Trabalho, através das normas regulamentares (NR), visa eliminar ou controlar tais riscos ocupacionais. São 32 NRs direcionadas para trabalhador urbano, das quais foram selecionadas algumas de relevância para o trabalhador de saúde: NR-1 Disposições Gerais; NR-4 Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho – SESMT; NR-5 Comissão Interna de Prevenção de Acidentes – CIPA; NR-6 Equipamentos de Proteção Individual – EPI; NR-7 Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional - PCMSO; NR-9 Programa de Prevenção de Riscos Ambientais - PPRA; NR-15 Atividades e Operações Insalubres; NR-16 Atividades e Operações Perigosas; NR-17 Ergonomia; NR-24 Condições Sanitárias e de Conforto nos Locais de Trabalho; NR-26 Sinalização de Segurança; NR-31 Segurança e Saúde no Trabalho em Espaços Confinados; NR-32 (em processo de implementação) Segurança e Saúde no Trabalho em Estabelecimentos de Assistência à Saúde. Os centros de estudos dos hospitais e outros

serviços de saúde, também deverão discutir essa problemática e buscar a assessoria necessária com os técnicos competentes, principalmente em relação a novos riscos (Mauro et al., 2004).