Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Ciˆ
encias Fisicas e Matem´
aticas
Departamento de Matem´
atica
Dinˆ
amica Populacional e o
Modelo Predador - Presa
Ivo Paulek Junior
Prof. Daniel Norberto Kozakevich, Dr.
Orientador
Florian´
opolis - SC
2013
Ivo Paulek Junior
Dinˆ
amica Populacional e o
Modelo Predador - Presa
Trabalho acadˆemico de gradua¸c˜ao apresentado `a disciplina de Trabalho de Conclus˜ao de Curso, do Curso de Matem´atica -Habilita¸c˜ao Licenciatura, do Centro de Ciˆencias F´ısicas e Matem´aticas da Universidade Federal de Santa Catarina.
Prof. Nereu Estanislau Bu-rin
Florian´
opolis - SC
2013
Esta Monografia foi julgada adequada como TRABALHO DE
CON-CLUS ˜AO DE CURSO no Curso de Matem´atica - Habilita¸c˜ao Licenci-atura, e aprovada em sua forma final pela Banca Examinadora designada pela portaria 17/CCM/13.:
Prof. Nereu Estanislau Burin, Msc. Professor da Disciplina
Banca Examinadora:
Prof. Daniel Norberto Kozakevich, Dr. Orientador
Prof. Sˆonia Elena Palomino Bean, Dra.
Agradecimentos
A Deus, acima de tudo.
Aos meus pais, Maria Clarice Sarturi e Ivo Paulek (in memorian), pelo apoio incondicional e irrestrito, pelo esfor¸co, e pela forma¸c˜ao de pessoa e car´ater dados, que foram sem d´uvidas, fundamentais para conseguir a con-clus˜ao de gradua¸c˜ao.
A minha namorada Bruna Tajima Silveira e sua fam´ılia, pelo amor, ami-zade, dedica¸c˜ao, compreens˜ao e apoio nos momentos mais dif´ıceis dessa ca-minhada.
Ao meu orientador, Prof. Doutor Daniel Norberto Kozakevich, pela ami-zade, orienta¸c˜ao e paciˆencia durante a elabora¸c˜ao do trabalho, que me con-duziram a um maior conhecimento matem´atico.
Aos meus colegas, Carlos, Marcelo, Julianna, Cl´audia, Anderson, Nic´elio, Marco Antˆonio, Jos´e Aparecido, Fabr´ıcio, Monike, Francilaine, Guilherme, Gio, Andr´e e tantos outros que estiverem comigo nessa jornada da gradua¸c˜ao. Ao coordenador do curso, Nereu Estanislau Burin, por todo aux´ılio du-rante a gradua¸c˜ao.
A banca, que prontamente aceitou o convite e dedicaram seu tempo a leitura e contribui¸c˜ao para o aperfei¸coamento do trabalho.
Aos professores e servidores que me ajudaram durante a gradua¸c˜ao, con-tribuindo para minha forma¸c˜ao.
Sum´
ario
Introdu¸c˜ao 9
1 Modelos Matem´aticos e Dinˆamica Populacional 11
1.0.1 Introdu¸c˜ao . . . 11
1.0.2 Uso de Modelos - O Evento em Menor Escala . . . 12
1.0.3 M´etodo Cient´ıfico . . . 12
1.0.4 Modelagem Matem´atica . . . 13
1.0.5 O Que ´E A Modelagem Matem´atica? . . . 13
1.0.6 Passos da Modelagem Matem´atica . . . 13
1.0.7 Tipos de Modelos . . . 14
1.0.8 Utiliza¸c˜oes da Modelagem Matem´atica . . . 15
1.1 Modelos Matem´aticos em Dinˆamica Populacional em Popula¸c˜oes Isoladas . . . 16
1.1.1 Introdu¸c˜ao . . . 16
1.1.2 Dinˆamica Populacional . . . 17
1.1.4 Modelo de Thomas Malthus . . . 22
1.1.5 Modelo de Pierre Verhulst . . . 25
2 Sistemas de Equa¸c˜oes Diferenciais 30 2.1 Sistemas de Equa¸c˜oes Diferenciais . . . 30
2.1.1 Sistemas Lineares de Primeira Ordem . . . 31
2.1.2 Sistemas Autˆonomos . . . 31
2.1.3 Classifica¸c˜ao de pontos de equil´ıbrio em sistemas line-ares no plano de fase . . . 32
2.1.4 Classifica¸c˜ao da estabilidade dos pontos de equil´ıbrio . 40 2.2 Sistemas de Equa¸c˜oes Diferenciais N˜ao - Lineares . . . 40
2.2.1 Rela¸c˜ao entre o Tra¸co e o Determinante da Matriz Ja-cobiana e seus os autovalores . . . 42
3 Modelo Com Intera¸c˜ao entre Esp´ecies 45 3.0.2 Intera¸c˜ao entre esp´ecies . . . 45
3.1 O Modelo Predador - Presa . . . 46
3.1.1 Analisando a Equa¸c˜ao . . . 48
3.1.2 Analisando o Sistema . . . 49
3.1.3 Segundo Modelo . . . 51
3.1.4 Terceiro Modelo . . . 55
3.1.5 Analisando o Sistema . . . 60
Introdu¸
c˜
ao
Esse trabalho tem como objetivo exibir como a modelagem matem´atica, em conjunto com as equa¸c˜oes diferenciais, auxiliam na an´alise de problemas que envolvem a dinˆamica de popula¸c˜oes. O mesmo foi inspirado em um artigo de Eric P. Anapolsky, sobre a an´alise matem´atica das intera¸c˜oes competitivas entre duas esp´ecies, o modelo predador - presa.
O trabalho est´a dividido em trˆes cap´ıtulos.
No primeiro cap´ıtulo, daremos uma abordagem inicial sobre modelagem. O que ´e, como ´e feita, quais suas principais caracter´ısticas... Tamb´em fa-laremos um pouco sobre os primeiros modelos constru´ıdos sobre a dinˆamica populacional de esp´ecies isoladas, que surgiram gra¸cas aos estudos de Thomas Malthus e Pierre de Verhulst.
No segundo cap´ıtulo, vamos exibir alguns conceitos sobre os sistemas de equa¸c˜oes diferenciais, Como, por exemplo, sistemas lineares de equa¸c˜oes diferenciais, a an´alise de seus pontos de equil´ıbrio, sistemas n˜ao lineares de equa¸c˜oes diferencias e como relacionamos os estudos nos pontos de equil´ıbrio dos sistemas lineares e n˜ao lineares. O mesmo servir´a como uma base te´orica para o estudo do modelo predador - presa.
No terceiro cap´ıtulo, falaremos sobre o modelo predador - presa. Daremos uma vis˜ao sobre o que ´e, como foi desenvolvido e faremos uma an´alise dos resultado que Eric P. Anapolsky obteve em seu artigo ao analisar o modelo.
Cap´ıtulo 1
Modelos Matem´
aticos e
Dinˆ
amica Populacional
Neste cap´ıtulo, introduziremos a id´eia de modelagem cient´ıfica e ma-tem´atica. Daremos uma no¸c˜ao inicial de o que ´e, como ´e feita e como a modelagem ajuda a resolver problemas do cotidiano. Tamb´em falaremos so-bre os primeiros modelos de dinˆamica populacional estudados: O Modelo de Malthus e Modelo de Verhulst
1.0.1
Introdu¸
c˜
ao
O que faz os seres humanos diferentes dos outros seres vivos? Segundo a comunidade cient´ıfica, o homem, diferentemente de outros animais, tem consciˆencia de que faz parte de um mundo, um universo e busca entendˆe-lo. Questiona, investiga e estabelece respostas, que s˜ao constantemente atuali-zadas. Quem somos? Para onde vamos? De onde viemos? S˜ao alguns desses questionamentos. Essas perguntas espec´ıficas est˜ao com respostas pouco pre-cisas, j´a que depender´a de onde as buscamos. Ciˆencia, filosofia e religi˜ao, por exemplo, nos d˜ao respostas bastante d´ıspares entre si. Isso ocorre, principal-mente, por causa dos m´etodos utilizados em cada uma dessas ´areas para obter as suas respostas. Cada ´area de conhecimento usa seus pr´oprios mecanismos para investigar e validar suas teorias. N˜ao ´e objetivo desse trabalho respon-der estas perguntas, e tampouco, julgar inv´alidas as ´areas que n˜ao usam o m´etodo cient´ıfico como principal. Queremos deixar claro que, a busca do
ho-mem por respostas o levou a desenvolver v´arios caminhos. Cada um, levando a um destino diferente. E nesse cen´ario, foi necess´ario estabelecer algumas maneira e crit´erios para buscar o destino mais correto. Entrou em cena ent˜ao, Ren´e Descartes, e seu m´etodo, considerado um dos precursores do m´etodo cient´ıfico. Atrav´es da utiliza¸c˜ao de um tratamento l´ogico para a obten¸c˜ao de respostas, dando uma prioridade racional e investigativa, foi obtido um avan¸co significativo da ciˆencia, a partir daquele momento. O m´etodo car-tesiano foi base para o desenvolvimento da modelagem matem´atica, m´etodo abordado nesse trabalho.
1.0.2
Uso de Modelos - O Evento em Menor Escala
Falamos disso para introduzir um dos m´etodos mais usados para respon-der as perguntas do homem, desde sua aurora intelectual at´e os dias de hoje. A modelagem. Segundo o dicion´ario, modelo ´e ”o que se reproduz ou imita”. Assim, a modelagem parte da imita¸c˜ao do objeto de estudo, de uma ma-neira simplificada. Atrav´es do estudo em menor escala, ´e poss´ıvel extrair informa¸c˜oes do evento em maior escala. Obviamente, isso n˜ao pode ser feito sem um rigoroso m´etodo de obten¸c˜ao, an´alise e estudo dos dados. Que n˜ao nos deixe d´uvidas, que mostre a partida,o caminho e o destino final. Hoje a obten¸c˜ao das respostas, ´e feita atrav´es do m´etodo cient´ıfico, proposto por Descartes. E esse ser´a o m´etodo utilizado no nosso trabalho.
1.0.3
M´
etodo Cient´ıfico
M´etodo que teve in´ıcio com as id´eias de Ren´e Descartes, no seu livro ”Discurso do M´etodo”de 1637. Consiste em analisar o evento de maneira, quase que matem´atica. Primeiro, separamos suas hip´oteses iniciais, ent˜ao, coletamos dados para an´alise e logo ap´os, comparamos os resultados obtidos com as hip´oteses inicialmente formuladas. Assim, dependendo do conte´udo obtido, elas seriam validadadas, descartadas ou reelaboradas. Esse m´etodo deu origem a modelagem matem´atica, que, usa m´etodo similar de an´alise de eventos.
1.0.4
Modelagem Matem´
atica
Na busca por respostas a matem´atica desempenhou um papel fundamen-tal. Muito pelo seu car´ater isento, axiom´atico e l´ogico. Por essas carac-ter´ısticas, as respostas na matem´atica s´o s˜ao aceitas ap´os uma r´ıgida an´alise. Ao longo dos anos, principalmente ap´os a divulga¸c˜ao das id´eias de Descartes, a ciˆencia e a matem´atica ficaram cada vez mais ´ıntimas. Um dos m´etodos desenvolvidos,ap´os essa parceria, foi: pensar em um exemplo do evento em menor escala, analis´a-lo, reconhecer seus padr˜oes matem´aticos e ent˜ao us´ a-los para achar as respostas das quest˜oes estudadas. Ou seja, a jun¸c˜ao da modelagem j´a utilizada,com o m´etodo cient´ıfico e o tratamento matem´atico dos dados. E a matem´atica ganhou um nova ´area, a modelagem.
1.0.5
O Que ´
E A Modelagem Matem´
atica?
Segundo Bassanezi (2002), a Modelagem Matem´atica ´e a arte de transfor-mar problemas da realidade em problemas matem´aticos e resˆolve-los interpre-tando suas solu¸c˜oes na linguagem do mundo real. Nessa perpectiva, devemos utilizar um m´etodo confi´avel para a elabora¸c˜ao, constru¸c˜ao e valida¸c˜ao do modelo.Como j´a vimos anteriormente, o m´etodo cient´ıfico (ou cartesiano) ´e o adotado.
1.0.6
Passos da Modelagem Matem´
atica
Os passos da modelagem, seguindo esse m´etodo s˜ao: a) experimenta¸c˜ao, b) abstra¸c˜ao, c) resolu¸c˜ao, d) valida¸c˜ao e e) modifica¸c˜ao.
Na experimenta¸c˜ao, temos as coletas das informa¸c˜oes necess´arias atrav´es de m´etodos laboratoriais. O tratamento estat´ıstico dessas informa¸c˜oes d˜ao confiabilidade nos dados obtidos, ´e fundamental desde esse momento a pre-sen¸ca de um matem´atico, j´a que ele detem os conceitos e conte´udos nes-cess´arios e dar´a a dire¸c˜ao a ser seguida nesse trabalho.
Ent˜ao teremos a fase de abstra¸c˜ao, em que todos os dados obtidos ser˜ao modelados matem´aticamente, atrav´es de f´ormulas e equa¸c˜oes. Nesse est´agio ´e feita a separa¸c˜ao das vari´aveis de estado (que d˜ao a evolu¸c˜ao do sistema) e das
v´ari´aveis de controle (que interferem diretamente no sistema), tamb´em aqui, formulamos como as vari´aveis dadas empiricamente se relacionam. Nessa etapa, estabelecemos nossas perguntas e hip´oteses acerca o caso a ser estu-dado.
Na resolu¸c˜ao, temos a resolu¸c˜ao das equa¸c˜oes e f´ormulas dadas pela fase de abstra¸c˜ao. Elas poder˜ao ser simplificadas para termos um modelo ma-tem´atico mais simples. Esse trabalho ´e feito por um matem´atico, e por tal, pode ser completamente desvinculado da realidade modelada.
A valida¸c˜ao ´e a aceita¸c˜ao ou rejei¸c˜ao do modelo proposto, com base na an´alise dos dados coletados com os dados obtidos atrav´es do modelo na fase de resolu¸c˜ao. Nessa fase s˜ao consideradas as devidas aproxima¸c˜oes dadas a maior ou menor complexidade do sistema, mas dever´a obter-se um m´ınimo de precis˜ao.
Na modifica¸c˜ao, ocorre quando os dados obtidos pelo modelo s˜ao muito distante dos dados coletados orinalmente, tal que necessitamos alterar ou at´e mesmo rever todo o modelo elaborado. Geralmente, isso ocorre quando s˜ao feitas muitas simplifica¸c˜oes no modelo original para o matem´atico, de tal forma que omite vari´aveis fundamentais para o sucesso do mesmo.
1.0.7
Tipos de Modelos
Ao falar a palavra modelo, n˜ao podemos generalizar. Existem v´arios tipos de modelo, mesmo para um mesmo evento. A sua utilidade e sua complexidade levam a uma classifica¸c˜ao dos modelos gerados na modelagem matem´atica. Vejamos alguns deles:
Modelo Objeto ´E um modelo mais geral. Ele acaba por ocultar algumas vari´aveis para simplificar a situa¸c˜ao mas suas vari´aveis s˜ao muito mais est´avel e homogˆeneo.
Modelo Te´orico ´E o modelo mais fiel ao fenˆomeno. Nele, n˜ao podemos abrir m˜ao de nenhuma vari´avel ou detalhe, mesmo que pequeno, do evento real. Ganhamos em fidelidade na solu¸c˜ao mas, muitas vezes, n˜ao h´a uma solu¸c˜ao anal´ıtica. Teremos que buscar as solu¸c˜oes num´ericas,que s˜ao muito mais trabalhosas de obter.
Podemos tamb´em classificar o modelo quanto a matem´atica utilizada nele ou quanto ao fenˆomeno estudado, vejamos
Modelo Linear e Modelo N˜ao-Linear S˜ao modelos em que suas equa¸c˜oes b´asicas, tem essa caracter´ıstica.
Modelo Est´atico e Modelo Dinˆamico Modelo est´atico ´e o modelo que representa um momento em que o sistema n˜ao muda, j´a o modelo dinˆamico leva em conta as varia¸c˜oes de tempo, espa¸co e estado do sistema.
Modelo Educacional e Modelo Aplicativo O modelo educacional ´e um modelo baseado em poucas hip´oteses e inc´ognitas e quase sempre te-mos uma solu¸c˜ao anal´ıtica para o mesmo. Por isso, ´e pouco usado para previs˜oes ou estudos mais aprofundados, mas ´e de grande valia para estudos educacionais. Um exemplo ´e o sistema predador-presa de Lotka-Volterra, que veremos mais adiante. J´a os modelos aplicativos, s˜ao baseados em hip´oteses reais e com um grande n´umero de inc´ognitas que geram numerosas equa¸c˜oes, ao passo que, apesar de mais dif´ıceis de serem tratadas, elas s˜ao mais adequadas e precisas do evento.
Modelo Estoc´astico e Modelo Determin´ıstico Modelos determin´ısticos
s˜ao modelos que se sup˜oem conhecidas todas as vari´aveis, de tal forma que podemos prever precisamente o futuro do sistema. J´a os modelos estoc´asticos, prevˆem o futuro do sistema em termos de probabilidade de acontecimentos.
1.0.8
Utiliza¸
c˜
oes da Modelagem Matem´
atica
Historicamente, apenas a F´ısica e as Engenharias, utilizavam conceitos matem´aticos para resolver e embasar suas quest˜oes. As ciˆencias humanas e naturais utilizavam a linguagem natural para externar seus conceitos e resolver seus questionamentos. Com isso, elas frequentemente eram alvos de amb´ıguidades, de interpreta¸c˜oes equivocadas e de distor¸c˜oes nas suas teorias. A partir do momento em que o m´etodo cartesiano foi adotado, tivemos uma grande melhora nessa situa¸c˜ao. A matem´atica passou a ser adotada, mesmo que ”disfar¸cada”e come¸cou a ser vista com outros olhos.
Nas ciˆencias atuais, vemos um quadro bem positivo para a matem´atica. Cada vez mais, em v´arias ´areas de pesquisa, vemos uma busca por respostas
nos seus m´etodos. Se n˜ao respostas, modelos que indiquem o caminho dela. Isso levou a um avan¸co expressivo da matem´atica e na pr´opria ciˆencia, de tal forma que hoje, algumas teorias s˜ao aceitas ou rejeitadas com base em seu modelo matem´atico. A teoria matem´atica hoje, consiste em um grande trunfo para as outras ciˆencias. Atualmente, a matem´atica nos permite mo-delar, analisar, entender e prever fenˆomenos de todo e qualquer tipo. As equa¸c˜oes diferencias, em especial, s˜ao usadas em quase todos os fenˆomenos f´ısicos,qu´ımicos, biol´ogicos, sociais, etc... Os fenˆomenos demogr´aficos e po-pulacionais s˜ao alguns deles, nos quais vamos nos aprofundar agora.
1.1
Modelos Matem´
aticos em Dinˆ
amica
Po-pulacional em Popula¸
c˜
oes Isoladas
1.1.1
Introdu¸
c˜
ao
Entende-se por dinˆamica populacional, o estudo da varia¸c˜ao em v´arios tempos e espa¸cos das densidades e valores absolutos de uma popula¸c˜ao. Queremos com esse estudo, por exemplo, buscar fatores que interferem nes-ses dados, predizer o crescimento ou o decrescimento da popula¸c˜ao, ver como esse crescimento ou decrescimento se comporta quando h´a intera¸c˜ao de esp´ecies,etc.
O primeiro estudo divulgado nessa ´area, foi do economista inglˆes Tho-mas Malthus no ano de 1798 , em seu artigo ”An Essay on the Principle of Population as it Affects the Future Improvement of Society”. Para o mo-delo de Malthus, a popula¸c˜ao mundial cresceria de uma forma exponencial, enquanto os recursos de sobrevivˆencia cresceria de uma forma aritm´etica. Por´em, Malthus n˜ao considerou que logo a popula¸c˜ao teria uma limita¸c˜ao de recursos e por isso, tenderia a se manter mais ou menos est´avel.
Coube ao matem´atico belga Pierre Verhulst, por volta de 1838, apresentar um modelo que inclu´ısse esse detalhe. Ele argumentou em seu modelo que, o meio em que a popula¸c˜ao vive tem uma capacidade de suportar apenas um certo n´umero m´aximo de membros da sua popula¸c˜ao, com seus recursos de sobrevivˆencia. De tal forma que ele teria uma popula¸c˜ao que tenderia a ficar fixa nesse n´umero, o pr´oprio meio acabaria de limitar a popula¸c˜ao. Esse modelo ´e aceito como o mais correto biol´ogicamente, j´a que n˜ao haveria como
manter um crescimento exponencial, levando em conta o pr´oprio processo de reprodu¸c˜ao e os recursos do meio. No entanto, ele serve para modelar algumas esp´ecies em um curto espa¸co de tempo.
1.1.2
Dinˆ
amica Populacional
Dinˆamica populacional ´e o estudo da varia¸c˜ao em v´arios tempos e espa¸cos das densidades e valores absolutos de uma popula¸c˜ao. A biologia ´e uma das principais ´areas que tem grande interesse nesse estudo. Por exemplo, nos estudos das popula¸c˜oes em ecossistemas com v´arias esp´ecies interagindo entre si, no estudo das popula¸c˜oes de esp´ecies com risco de extin¸c˜ao, no estudo do controle de pragas na agricultura,etc. Outro grande interesse, ´e obter informa¸c˜oes populacionais de n´os mesmos, seres humanos.
Essas informa¸c˜oes s˜ao de grande valor politico e ambiental. A partir do qual, grandes cidades fazem (ou deveriam fazer) seu planejamento urbano, levando em conta os recursos naturais do meio em que est´a estabelecida, da popula¸c˜ao atual e da popula¸c˜ao que a cidade ter´a no futuro. Outra aplica¸c˜ao dos dados ´e para calcular o fator prividenci´ario, que calcula quanto um cidad˜ao receber´a quando se aposentar. Atrav´es de an´alise desses dados, constatamos que hoje a popula¸c˜ao brasileira est´a envelhecendo e crescendo em um ritmo mais lento que nas ´ultimas quatro d´ecadas.
Esses s˜ao alguns dos interesses que motivaram estudos nessa ´area. Vamos agora definir conceitos, que ser˜ao utilizados no decorrer desse tra-balho:
Popula¸c˜ao Definimos popula¸c˜ao como um agrupamento de indiv´ıduos da mesma esp´ecie.
Taxa de Natalidade A taxa de natalidade ´e o valor absoluto de nascimento em uma popula¸c˜ao, em um determinado intervalo de tempo.
Taxa de Mortalidade A taxa de mortalidade ´e o valor absoluto de mortes em uma popula¸c˜ao, em um determinado intervalo de tempo.
Taxa de Crescimento A taxa de crescimento da popula¸c˜ao ´e o valor dado pela diferen¸ca entre a taxa de natalidade e a taxa de mortalidade.
1.1.3
Defini¸
c˜
oes Matem´
aticas Preliminares
Antes de iniciar o estudo matem´atico das duas equa¸c˜oes, faz-se necess´ario introduzir algumas defini¸c˜oes e conceitos.
Taxas de Varia¸c˜oes
Suponha que temos duas quantidades desconhecidas x e y. Sendo que o valor da quantidade y depende do valor da quantidade x. Ou seja, temos uma fun¸c˜ao f (x) = y. Se x variar de x1 para x2, ent˜ao a varia¸c˜ao de x ser´a
(tamb´em chamada de incremento de x). ∆x = x2− x1
assim, a mudan¸ca corresponde em y ´e
∆y = f (x2)− f(x1)
O quociente entre essas duas mudan¸cas
∆y ∆x =
f (x2)−f(x1)
x2−x1
´e denominada taxa de varia¸c˜ao m´edia de y em rela¸c˜ao a x.
Caso queremos aproximar a taxa de varia¸c˜ao m´edia em intervalos cada vez maiores, fazendo x2 cada vez mais pr´oximo de x1, e fazendo ∆x cada vez
mais pr´oximo de 0. O limite dessas taxa de varia¸c˜oes m´edias ´e a chamada de taxa de varia¸c˜ao instantˆanea de y com rela¸c˜ao a x. Essa taxa ´e dada pelo limite: lim ∆x→0 ∆y ∆x = limx 2→x1 f (x2)−f(x1) x2−x1
Defini¸c˜ao 1 Considere o deslocamento de um corpo de um lugar x1 para
outro x2. Suponha que ele estava em x1 no tempo t1 e em x2 no tempo t2.
∆x ∆t =
x2−x1
t2−t1
Caso queremos seu deslocamento instantˆaneo,
lim t2→t1 ∆x ∆t = limt 2→t1 x2−x1 t2−t1
Fisicamente, a taxa de deslocamento m´edio e instantˆaneo do corpo ´e de-nominada velocidade m´edia e velocidade instantˆanea, respectivamente.
Defini¸c˜ao 2 Considere a fun¸c˜ao x = x(t) que d´a o valor de uma popula¸c˜ao no tempo t. Assim, a varia¸c˜ao do tamanho da popula¸c˜ao entre o tempo inicial t1 e final t2 ´e ∆x = x(t2)− x(t1) e a taxa de varia¸c˜ao da popula¸c˜ao ´e dada
por:
∆x ∆t =
x2−x1
t2−t1
E a taxa de varia¸c˜ao instantˆanea ´e dada por
lim t2→t1 ∆x ∆t = limt 2→t1 x2−x1 t2−t1 Derivada
O conceito de derivada est´a relacionado com a taxa de varia¸c˜ao ins-tantˆanea de uma fun¸c˜ao. Fun¸c˜ao que est´a presente em muitos estudos de hoje, como: a taxa de crescimento econˆomico do pa´ıs, a taxa de mortalidade infantil, a taxa de crescimento populacional e por isso, temos a importˆancia do conhecer sua varia¸c˜ao instantˆanea em um dado momento.. Essa taxa de varia¸c˜ao ´e dada pelo c´alculo da derivada da fun¸c˜ao no ponto dado.
Defini¸c˜ao 3 Se uma fun¸c˜ao f ´e definida em um aberto I que cont´em x0,
lim
x→x0
f (x)−f(x0)
x−x0
se ele existir e for finito.
A nota¸c˜ao para a derivada da fun¸c˜ao f no ponto x0 ´e dada por:
f′(x0) ou dxdf(x0)
Geometricamente, a derivada ´e a inclina¸c˜ao da reta tangente a fun¸c˜ao f no ponto x0.
Equa¸c˜oes Diferenciais Ordin´arias
Uma Equa¸c˜ao Diferencial Ordin´aria, (ou EDO)´e uma equa¸c˜ao que en-volve uma fun¸c˜ao e suas derivadas. Quando trabalhando com fun¸c˜oes e suas taxas de varia¸c˜ao, muitas vezes encontramos uma equa¸c˜ao diferencial. Nos dias de hoje, a maioria dos modelos matem´aticos envolve algum tipo de equa¸c˜ao diferencial, sendo grande parte deles advindo de problemas do nosso cotidiano.
Defini¸c˜ao 4 Uma Equa¸c˜ao Diferencial Ordin´aria (EDO) ´e uma equa¸c˜ao da forma
F (x, y(x), y′(x), y′′(x), ..., yn(x)) = 0
envolvendo uma fun¸c˜ao inc´ognita y = y(x) e suas derivadas ou suas dife-renciais. x ´e a vari´avel independente, y ´e a vari´avel dependente e o s´ımbolo y(n) denota a derivada de ordem n da fun¸c˜ao y = y(x).
Exemplo 1 y′ = 15x2
Temos que as fun¸c˜oes y = 5x3 + C com C uma constante, s˜ao solu¸c˜oes
para a equa¸c˜ao acima. Assim, denominamos a solu¸c˜ao da equa¸c˜ao diferencial ordin´arias, as fun¸c˜oes que satisfazem a equa¸c˜ao dada.
Exemplo 2 y′′ = 12x
Que admite a solu¸c˜ao y = 2x3+ C1x + C2
Exemplo 3 y′′ = 0
Que admite as solu¸c˜oes y = 3x, y = 4x, y = 135x, e uma infininidade de solu¸c˜oes.
Vamos agora conhecer um tipo de equa¸c˜ao diferencial que aparecer´a no nosso trabalho:
Defini¸c˜ao 5 Uma Equa¸c˜ao Diferencial Separ´avel, ´e um equa¸c˜ao da forma:
dy
dx = g(x)h(y)
com h(y)̸= 0.
Para resolver essa equa¸c˜ao, basta reescrever na forma
h(y)dy = g(x)dx
e ent˜ao integrar ambos os lados ∫
h(y)dy =∫ g(x)dx
∫
h(y)dy =∫ g(x)dx
Exemplo 4 Resolva a equa¸c˜ao
dy dx =
x y
Reescrevendo a equa¸c˜ao:
xdx = ydy
Integrando ambos os lados: ∫ xdx =∫ ydy Assim obtemos x2 2 + C1 = y2 2 + C2
Reunindo as constantes e isolando y obtemos:
x2− y2 = C
E esta rela¸c˜ao satisfaz a equa¸c˜ao dada.
1.1.4
Modelo de Thomas Malthus
A partir de agora, vamos estudar a parte matem´atica dos modelos de crescimento citados anteriormente, come¸cando pelo o modelo de Thomas Malthus. Esse modelo, foi o primeiro a tentar predizer o comportamento do crescimento das popula¸c˜oes. Vamos constru´ı-lo a partir de agora.
Considere uma fun¸c˜ao x = f (t), que nos d´a um valor da popula¸c˜ao x em um tempo t. Lembrando que temos t > 0. Temos tamb´em que a popula¸c˜ao ´
e isolada e que as taxas de mortalidade e natalidade s˜ao proporcionais a pr´opria popula¸c˜ao.
Assim temos a taxa de varia¸c˜ao do crescimento dada por:
dx(t)
Com n > 0 sendo a taxa de natalidade da popula¸c˜ao e m > 0 sendo a taxa de mortalidade da popula¸c˜ao. Uma an´alise b´asica aqui nos diz que se
m > n a popula¸c˜ao decresce (temos mais mortes que nascimentos) e se n >
m a popula¸c˜ao cresce (temos mais nascimentos que mortes). Fazendo k = n− m temos a equa¸c˜ao:
dx(t)
dt = kx(t) (1.1)
Que ´e a equa¸c˜ao proposta por Malthus,uma equa¸c˜ao diferencial ordin´aria. O que ela nos diz ´e que a taxa de crescimento populacional ´e proporcional a popula¸c˜ao. Assim, quanto maior for a popula¸c˜ao, mais ela crescer´a.
Vamos agora extrair mais informa¸c˜oes dessa equa¸c˜ao. Para resolvˆe-la, podemos transform´a-la em um Problema de Valor Inicial:
{ dx(t)
dt = kx(t)
x(0) = x0
Com x0 sendo a popula¸c˜ao no instante t = 0.
Como temos uma equa¸c˜ao diferencial separ´avel, podemos resolvˆe-la inte-grando ambos os lados da igualdade:
dx dt = kx dx x = kdt ∫ dx x = ∫ kdt ∫ 1 xdx = ∫ kdt ln|x| + C1 = kt + C2
ln|x| = kt + C2− C1
Fazendo C2− C1 = C:
ln|x| = kt + C
Resolvendo a equa¸c˜ao exponencial, se
loge|x| = kt + C
ent˜ao pela defini¸c˜ao de logaritmo
|x| = ekt+C
E assim x > 0.
x = ekt+C = ekt.eC
Colocando eC = A, com A constante.
x = Aekt
Note que
x(0) = Aek.0 = Ae0 = A
Assim, com x = x(t) e A = x(0) = x0 chegamos na solu¸c˜ao geral:
Analisando essa solu¸c˜ao, lembrando que t > 0: i)Se k > 0, ent˜ao lim
t→+∞ x(t) = ∞ e a popula¸c˜ao cresce indefinidamente.
ii)Se k < 0, ent˜ao lim
t→+∞ x(t) = 0 a popula¸c˜ao decresce, tendendo a
ex-tin¸c˜ao.
iii)Se k = 0, ent˜ao lim
t→+∞ x(t) = x0 a popula¸c˜ao permanece constante.
Mas, estudos posteriores a divulga¸c˜ao do trabalho de Malthus, mostra-ram que seu modelo cont´em algumas inconsistˆencias. Por exemplo, n˜ao h´a nenhum meio conhecido que suporte o crescimento exponencial previsto pela equa¸c˜ao, quando a taxa de crescimento ´e positiva. Mesmo fornecendo bons resultados a curto prazo, ela acaba ficando irreal a partir de um determinado tempo.
A parte desses fatos, temos um modelo razo´avel para um primeiro estudo de dinˆamica populacional.
1.1.5
Modelo de Pierre Verhulst
Vimos anteriormente que, se k > 0 (taxa de crescimento da popula¸c˜ao),a popula¸c˜ao tenteria a crescer infinitamente. Diante dessa inconsistˆencia, em 1838 o matem´atico belga Pierre Verhulst propˆos uma modifica¸c˜ao no modelo de Malthus. Como n˜ao h´a um ambiente que consiga manter o crescimento ex-ponencial de uma popula¸c˜ao, Verhulst propˆos a existˆencia de uma popula¸c˜ao limite L suportada pelo mesmo. Levando essa informa¸c˜ao em conta, o cres-cimento n˜ao seria constante. Mas dependeria do valor da popula¸c˜ao em cada instante t observado. Observou tamb´em que a popula¸c˜ao tenderia a aumen-tar, quando o seu valor absoluto estava abaixo dessa capacidade cr´ıtica, e diminuir, quando o valor da popula¸c˜ao estivesse acima da capacidade cr´ıtica. Partindo dessas informa¸c˜oes, introduziu novo fator na equa¸c˜ao de Malthus, que freasse o crescimento populacional conforme a popula¸c˜ao crescia.
Vamos ver agora como foi feita essas modifica¸c˜oes. Partindo da equa¸c˜ao de Malthus:
dx(t)
dt = kx(t)
No seu modelo, o crescimento k ´e uma fun¸c˜ao afim g do valor da pr´opria popula¸c˜ao, e n˜ao constante, como alegou Malthus. Assim, teremos a equa¸c˜ao:
dx(t)
dt = g(x)x(t)
Precisamos de uma fun¸c˜ao g que cumpra as novas hip´oteses dadas por Verhulst. Considerando x(t) o valor da popula¸c˜ao, L a popula¸c˜ao limite que o meio suporta e g(x) o crescimento da popula¸c˜ao:
Se x(t)>L ent˜ao g(x)<0.
Se a popula¸c˜ao ´e maior que a capacidade limite do meio, ent˜ao o seu crescimento dever´a ser negativo e ela dever´a diminuir.
Se x(t)<L ent˜ao g(x)>0.
Se a popula¸c˜ao ´e menor que a capacidade limite do meio, ent˜ao o seu crescimento dever´a ser positivo e ela dever´a aumentar.
Uma fun¸c˜ao crescimento g que atende esse requisito ´e:
g(x) = k−kx(t)L Pois se: x(t)>L⇒ kx(t)L >k e g(x)<0. e x(t)<L⇒ kx(t)L <k e g(x)>0 Assim, teremos dx(t) dt = g(x)x(t) dx(t) dt = (k− kx(t) L )x(t)
Lembrando que x(t) = x: dx dt = (k− kx L)x dx dt = (kx− kx2 L ) dx dt = kx(1− x L) (1.3)
Vamos achar a solu¸c˜ao geral para essa equa¸c˜ao. Note que ela tamb´em ´e uma Equa¸c˜ao Diferencial Separ´avel, assim podemos integrar ambos os lados
dx dt = kx(1− x L) dx x(1−Lx) = kdt ∫ dx x(1−Lx) = ∫ kdt
Para calcular a integral do lado esquerdo da igualdade, vamos recorrer ao m´etodo das fra¸c˜oes parciais. Primeiro vamos desenvolver a express˜ao
1 x(1−Lx) = 1 (x−x2L) = 1 (Lx−x2L ) = L Lx−x2 = L x(L−x)
e ent˜ao, pelas fra¸c˜oes parciais
L
x(L−x)=1x+ 1 L−x
Assim, integrando os dois lados ∫ (1 x+ 1 L−x)dx = ∫ kdt
∫ 1 x dx + ∫ 1 L−x dx = ∫ kdt ln|x| + c1 + (−ln|L − x| + c2) = kt + c3 ln|x| + c1 −ln|L − x| + c2 = kt + c3 ln|x| −ln|L − x| = kt + c3 - c1 - c2 Colocando C = c3 - c1 - c2 ln|x| −ln|L − x| = kt + C
Usando a propriedades de logaritmos
ln|L−xx | = kt + C
e
ln|L−xx | = −kt − C
Resolvendo a equa¸c˜ao exponencial, se
loge|L−xx | = −kt − C
ent˜ao pela defini¸c˜ao de logaritmo
|L−x
x | = e−kt−C = e−Ce−kt
L−x x = L x + −xx = L x − 1 = Ae−kt Assim: L x = Ae−kt+ 1
E temos a solu¸c˜ao geral:
x = Ae−ktL+1
onde A =±e−C.
Para achar o valor de A, lembramos que x = x0 = x(0) Assim, quando
t = 0, temos:
L−x0
x0 = Ae
0 = A
Ent˜ao temos como solu¸c˜ao geral:
x(t) = L
1 + (L−x0
x0 )e
−kt (1.4)
Como podemos ver, quando t vai para o infinito, a solu¸c˜ao geral converge para L. O que era o esperado. Esse segundo modelo, funciona melhor que o modelo de Malthus e hoje ´e um dos mais utilizados para modelar popula¸c˜oes isoladas.
Cap´ıtulo 2
Sistemas de Equa¸
c˜
oes
Diferenciais
Neste cap´ıtulo, vamos introduzir os sistemas de equa¸c˜oes diferenciais, que servir´a de embasamento te´orico para nosso pr´oximo cap´ıtulo.
2.1
Sistemas de Equa¸
c˜
oes Diferenciais
Consideremos uma equa¸c˜ao diferencial de segunda ordem, homogˆenea de coeficientes constantes na vari´avel x, dependente de t.
x′′+ px′ + qx = 0
Vamos fazer uma mudan¸ca de vari´aveis com x′ = y e x” = y′ para convertˆe-la em um sistema linear de duas equa¸c˜oes.
{
x′ = y
y′ =−py − qx
Assim, a resolu¸c˜ao de uma equa¸c˜ao diferencial qualquer, converte-se na resolu¸c˜ao de um sistema linear de duas equa¸c˜oes de primeira ordem.
2.1.1
Sistemas Lineares de Primeira Ordem
Seja um sistema de primeira ordem x′1 = a11x1+ a12x2+ ... + a1nxn+ f1(t) x′2 = a21x1+ a22x2+ ... + a2nxn+ f2(t) ... x′n= an1x1+ an2x2 + ... + annxn+ fn(t) (2.1)
Dizemos que o sistema ´e homogˆeneo se e somente se as fun¸c˜oes fi, i =
1, ..., n s˜ao identicamente nulas. Caso contr´ario, o sistema ´e dito n˜ao - ho-mogˆeneo.
Podemos escrever qualquer sistema linear de n equa¸c˜oes de primeira or-dem sob forma matricial. Basta considerar A(t) = [aij] a matriz dos
coefici-entes, definir os vetores colunas x = [xi] e f(t) = [fi(t)]. Assim, escrevemos
o sistema na seguinte forma matricial:
dx
dt = A(t)x + f(t) (2.2)
2.1.2
Sistemas Autˆ
onomos
Seja o sistema: { dx dt = f (x, y) dy dt = g(x, y) (2.3)
em que a vari´avel livre, t, n˜ao aparece explicitamente. Um sistema com essa caracter´ıstica ´e denominado sistema autˆonomo. Definimos ponto cr´ıtico, ou ponto de equil´ıbrio do sistema autˆonomo, como o ponto(x∗, y∗), tal que
Ou seja, o ponto em que as derivadas do sistema anulam-se.
Sistemas Autˆonomos Lineares
Um sistema com a forma { dx
dt = ax + by dy
dt = cx + dy
(2.4)
´e chamado de sistema autˆonomo linear. Matricialmente escrevemos: [dx dt dy dt ] = [ a b c d ] [ x y ]
Em nosso trabalho, estaremos interessados em analizar o comportamento das trajet´orias nas proximidades do ponto de equil´ıbrio.
2.1.3
Classifica¸
c˜
ao de pontos de equil´ıbrio em sistemas
lineares no plano de fase
Consideremos um sistema linear homogˆeneo, de coeficientes constantes, de duas equa¸c˜oes diferencias na forma matricial:
[dx 1 dt dx2 dt ] = [ a b c d ] [ x1 x2 ]
Queremos achar os pontos de equilibrio do sistema, ou seja, os pontos onde temos { dx 1 dt = ax1+ bx2 = 0 dx2 dt = cx1+ dx2 = 0 (2.5)
´
E f´acil de ver que o ponto (x1, x2) = (0, 0), ´e um ponto de equil´ıbrio.
Nosso interesse ´e saber como as solu¸c˜oes se comportam nas proximidades desse ponto. Sabemos que a solu¸c˜ao geral de um sistema linear de duas equa¸c˜oes diferenciais de primeira ordem pode ser escrita
x = c1eλ1tv1+ c2eλ2tv2 (2.6)
Onde λ1 e λ2 s˜ao os autovalores pr´oprios da matriz dos coeficientes das
equa¸c˜oes e ⃗v1 e ⃗v2 s˜ao os autovetores associados aos autovalores. Vamos agora
analisar o comportamento da solu¸c˜ao no ponto de equilibrio (0, 0) usando essas express˜ao. Faremos uma an´alise qualitativa da solu¸c˜ao no plano de fases, que n˜ao ´e dado em x1 e x2 em fun¸c˜ao de t, mas de x1 em fun¸c˜ao de x2.
O ponto de equilibrio ser´a o centro dos eixos x1 e x2. O caminho
percor-rido no plano de fases pela solu¸c˜ao, ser´a denominada trajet´oria.
Vamos analisar os casos poss´ıveis em fun¸c˜ao dos valores dos autovalores da matriz dos coeficientes. 1
Autovalores Reais, Distintos e de Mesmo Sinal
1 -λ1 < λ2 < 0
Lembrando que a solu¸c˜ao geral ´e dado por
x = c1eλ1tv⃗1+ c2eλ2tv⃗2
Assim, primeiro vamos analisar o que acontece com a solu¸c˜ao geral quando
t tende para o infinito. Como ambas as exponenciais tem expoente negativo,
temos que as parcelas tender˜ao para zero. Ou seja, as solu¸c˜oes se aproximam do ponto de equil´ıbrio conforme o tempo aumenta.
Note que, como λ1 < λ2, a trajet´oria dever´a ser dada pelo dire¸c˜ao do
autovetor ⃗v2, pois a parcela c1eλ1tv⃗1 tende muito mais r´apido para o ponto
de equil´ıbrio que c2eλ2tv⃗2, assim, em tempos muito elevados ela poder´a ser
desprezada e levamos em conta apenas a parcela c2eλ2tv2.
Ou seja,
t → ∞ ent˜ao x → c2eλ2tv⃗2
Veja o plano de fases abaixo:
Figura 2.1: N´o Impr´oprio
Nessa situa¸c˜ao, em que todas as trajet´orias seguem a mesma dire¸c˜ao assint´otica nas proximidades do ponto de equil´ıbrio, ele ´e denominado n´o impr´oprio.
2 -λ1 < λ2 > 0
Essa situa¸c˜ao ´e o oposto ao caso anterior, agora quando t → ∞, temos que x → ∞. Ou seja, para tempos elevados as trajet´orias se afastam do ponto de equil´ıbrio. Elas s´o estar˜ao pr´oximas do ponto de equil´ıbrio, quando
t → −∞. As trajet´orias s˜ao as mesmas do caso anterior, apenas mudando
o seu sentido ( elas saem do ponto de equil´ıbrio, e n˜ao v˜ao em dire¸c˜ao dele, como no caso anterior).
Autovalores Reais, Distintos e de Sinal Diferente
λ2 < 0 < λ1
x = c1eλ1tv⃗1+ c2eλ2tv⃗2
Vamos analisar as trajet´orias nesse caso,
t→ +∞ ent˜ao x → c1eλ1tv⃗1 → +∞
t→ −∞ ent˜ao x → c2eλ2tv⃗2 → +∞
Assim, quando t→ +∞ , as trajet´orias se afastam do ponto de equil´ıbrio seguindo a dire¸c˜ao de ⃗v1. Quando t → −∞ as trajet´orias se afastam do
ponto de equil´ıbrio seguindo a dire¸c˜ao de ⃗v2.
Veja o plano de fases.
Figura 2.2: Ponto de Sela
Esse ponto de equil´ıbrio ´e denominado ponto de sela. Esse nome ´e dado pois em planos de fase tridimensionais, as trajet´orias lembram a forma da sela de um cavalo.
Autovalores Reais e Iguais
Caso I - Existem dois Autovetores Linearmente Independentes
Nesse caso, a solu¸c˜ao geral ´e dada por
x = c1eλtv⃗1 + c2eλtv⃗2 = eλt(c1v⃗1+ c2v⃗2)
E (c1v⃗1 + c2v⃗2) ´e um vetor em que a dire¸c˜ao ser´a determinada pelas
constantes c1 e c2 (condi¸c˜oes iniciais do problema). O sentido da trajet´oria
depender´a do sinal de λ. Se λ < 0:
t→ +∞ ent˜ao x → 0 t → −∞ ent˜ao x → ∞
As trajet´orias se aproximam do ponto de equil´ıbrio conforme t aumenta. Veja o plano de fases:
Figura 2.3: N´o Pr´oprio
Aqui, como cada trajet´oria segue uma dire¸c˜ao distinta nas proximidades do ponto de equil´ıbrio, nomeamos o mesmo como n´o pr´oprio.
Se Se λ > 0, o plano de fases teria a mesma forma, apenas mudando o fato que as trajet´orias iriam para longe do ponto de equil´ıbrio ( sentido oposto).
Caso II -N˜ao Existem dois Autovetores Linearmente Independentes
Assim, recorreremos a um autovetor gen´erico para construirmos a solu¸c˜ao geral: x = c1eλt⃗v + c2eλt(⃗u + t⃗v) = eλt(c1⃗v + c2⃗u + c2t⃗v) Caso λ < 0 t→ +∞ ent˜ao x → eλtc 2t⃗v e x→ 0 t → −∞ ent˜ao x → ∞
Assim, para tempos elevados, as trajet´orias se aproximam-se do ponto de equil´ıbrio, seguindo a dire¸c˜ao do vetor v. Veja o plano de fase:
Figura 2.4: N´o Impr´oprio
Assim, o plano de equil´ıbrio ´e chamado de n´o impr´oprio.
Autovalores Complexos Conjugados
Nesse caso, λ = α± iβ,⃗v = ⃗α ± i⃗β , e a solu¸c˜ao geral ser´a:
x = c1eλαt[cos(βt)⃗α− sen(βt)⃗β] + c2eλαt[cos(βt)⃗α− sen(βt)⃗β] =
eλαt{[c1cos(βt) + c2sen(βt)]⃗α + [−c1sen(βt) + c2cos(βt)]⃗β}
Agora, temos dois casos a considerar:
i) Os auto vetores tem a parte real nula, α = 0
A solu¸c˜ao ´e ent˜ao a express˜ao
x = [c1cos(βt) + c2sen(βt)]⃗α + [−c1sen(βt) + c2cos(βt)]⃗β
Como os vetores ⃗α e ⃗β s˜ao multiplicados por coeficientes que assumem valores peri´odicos no tempo t, a solu¸c˜ao x n˜ao assume qualquer comporta-mento espec´ıfico quando t tende para + ∞ ou - ∞. H´a momentos em que a solu¸c˜ao se aproxima do ponto de equil´ıbrio, para logo depois se afastar, com esse comportamento repetindo-se infinitamente. Assim, teremos o plano de fases abaixo:
E agora designamos o ponto de equil´ıbrio de centro, j´a que as trajet´orias ”orbitam”em seu redor.
ii) Os auto vetores tem a parte real n˜ao nula, α̸= 0 Nesse caso, a solu¸c˜ao geral fica
x = eλαt[c1cos(βt) + c2sen(βt)]⃗α + [−c1sen(βt) + c2cos(βt)]⃗β
Se α < 0, temos que:
t→ +∞ ent˜ao x → 0 t → −∞ ent˜ao x → ∞
As trajet´orias ainda ”orbitam”em torno do ponto cr´ıtico, mas agora, elas aproximam-se cada vez mais a medida que o tempo aumenta, formando uma espiral. O plano de fases ficaria assim:
Figura 2.6: Foco Agora, o ponto equil´ıbrio ´e denominado foco. Se α > 0, o sentido da trajet´oria seria oposto.
2.1.4
Classifica¸
c˜
ao da estabilidade dos pontos de equil´ıbrio
Um ponto de equil´ıbrio ´e est´avel se, para qualquer condi¸c˜ao inicial na sua vizinhan¸ca, a trajet´oria da solu¸c˜ao correspondente permanecer pr´oxima
desse ponto. Um ponto de equil´ıbrio ´e assintoticamente est´avel, se for est´avel e a trajet´oria se aproximar do ponto quando t → +∞ . J´a, um ponto de equil´ıbrio que n˜ao seja est´avel ´e chamado de inst´avel.
2.2
Sistemas de Equa¸
c˜
oes Diferenciais N˜
ao
-Lineares
A an´alise do comportamento da solu¸c˜ao no plano de fase, nas proximi-dades pontos de equil´ıbrio de um sistema linear, ´e relativamente simples. Assim, uma forma de abordarmos um sistema n˜ao linear seria atrav´es de uma aproxima¸c˜ao em um sistema linear. Esse processo ´e chamado de
line-ariza¸c˜ao.
Considere o sistema n˜ao linear, cujo ponto de equil´ıbrio ´e (0, 0). { dx
dt = P (x, y) dy
dt = Q(x, y)
(2.7)
A lineariza¸c˜ao em torno do ponto de equil´ıbrio ´e baseada na expans˜ao em s´erie de Taylor de P (x, y) e de Q(x, y) em torno do ponto (0, 0).
{ dx dt = P (0, 0) + ∂P ∂x(0, 0)x + ∂P ∂y(0, 0)y + RP(x, y)≈ ∂P ∂x(0, 0)x + ∂P ∂y(0, 0)y dy dt = Q(0, 0) + ∂Q ∂x(0, 0)x + ∂Q ∂y(0, 0)y + RQ(x, y)≈ ∂Q ∂x(0, 0)x + ∂Q ∂y(0, 0)y (2.8)
RP(x, y) e RQ(x, y) s˜ao termos desprez´ıveis desde que (x, y) esteja
sufici-entemente pr´oxima de (0, 0). Ou, rigorosamente, RP(x, y) e RQ(x, y)
lim (x,y)→(0,0) RP(x, y) √ x2+ y2 =(x,y)lim→(0,0) RQ(x, y) √ x2+ y2 = 0
Assim sendo, se queremos apenas analisar o que acontece nas proximida-des do ponto de equil´ıbrio, podemos ”substituir”nosso sistema n˜ao linear por seu sistema linear associado, dado por:
{ dx dt = ∂P ∂x(0, 0)x + ∂P ∂y(0, 0)y dy dt = ∂Q ∂x(0, 0)x + ∂Q ∂y(0, 0)y (2.9)
Classifica¸c˜ao de pontos de equil´ıbrio em sistemas n˜ao lineares no plano de fase
Vejamos agora como se associa os autovalores (λ1eλ2) da matriz de
coe-ficientes do sistema linear associado e classifica¸c˜ao do ponto de equil´ıbrio do sistema n˜ao linear original:
• Se λ1 e λ2 n˜ao s˜ao reais e iguais ou n˜ao s˜ao imagin´arios puros, as
trajet´orias do sistema linear associado em (0, 0)s˜ao do mesmo tipo e tem a mesma estabilidade que as do sistema n˜ao linear.
• Se λ1 e λ2 s˜ao reais e iguais, ent˜ao (0, 0) ´e um n´os ou um foco do
sistema n˜ao linear. Se λ1 = λ2 < 0, o ponto ´e assintoticamente est´avel.
Se λ1 = λ2 > 0, o ponto ´e inst´avel.
• Se λ1 e λ2 s˜ao imagin´arios puros, ent˜ao (0, 0) ´e um centro ou um foco
do sistema n˜ao linear e a sua estabilidade ´e indeterminada ( pode ser est´avel, inst´avel ou assint´oticamente est´avel).
As tabelas abaixo resume os casos mencionados:
λ1, λ2
Sistema Linear
Associado Sistema N˜ao Linear
λ1 > λ2 > 0 N´o pr´oprio inst´avel n´o pr´oprio inst´avel
λ1 < λ2 < 0 N´o pr´oprio est´avel n´o pr´oprio est´avel
λ2 < 0 < λ1 Ponto de sela inst´avel Ponto de sela inst´avel
λ1 = λ2 > 0
N´o pr´oprio ou impr´oprio inst´avel
N´o pr´oprio ou impr´oprio ou foco inst´avel
λ1 = λ2 < 0
N´o pr´oprio ou impr´oprio assintoticamente est´avel
N´o pr´oprio ou impr´oprio ou foco assintoticamente
est´avel
Tabela 2 - Autovalores complexos
λ = α± iβ Sistema Linear
Associado Sistema N˜ao Linear
α > 0 Foco inst´avel Foco inst´avel
α < 0 Foco assintoticamente
est´avel
Foco assintoticamente est´avel
α = 0 Centro est´avel
Centro ou foco de estabilidade indeterminada
2.2.1
Rela¸
c˜
ao entre o Tra¸
co e o Determinante da
Ma-triz Jacobiana e seus os autovalores
Seja a matriz E = ( A B C D )
Sabemos que o tra¸co da matriz E ´e dado por:
τ (E) = A + D
Det(E) = AD− BC
Vamos calcular seus autovalores atrav´es do polinˆomio caracter´ıstico:
Det(E− λI) = 0 E− λI = ( A− λ B C D− λ ) Assim, Det(E− λI) = (A − λ)(D − λ) − BC = 0 λ2− λ(A + D) + AD − BC = 0 E temos os autovalores: λ = A+D2 ± √ (−A−D)2−4(AD−BC) 2
λ = A+D2 ±√A2+2AD+D22−4AD−4BC
λ = A+D2 ± √ (A+D)2−4(AD−BC) 2 λ = A+D2 ± √ τ (E)2−4Det(E) 2
Assim, teremos um autovalor complexo caso: √
τ (E)2− 4Det(E) < 0
E o valor de sua parte real ´e dada por:
A+D 2
τ (E) 2
Assim, temos algumas rela¸c˜oes ´uteis para nosso pr´oximo cap´ıtulo, na an´alise qualitativa dos autovalores de uma matriz.
Cap´ıtulo 3
Modelo Com Intera¸
c˜
ao entre
Esp´
ecies
Vamos ver nesse cap´ıtulo, o modelo que ficou conhecido como Predador -Presa, utilizado para predizer a varia¸c˜ao populacional nos locais onde existe a intera¸c˜ao entre duas esp´ecies. Primeiro analisaremos o sistema na sua forma mais b´asica e depois partiremos para dois modelos mais elaborados, adaptados do modelo original.
Introdu¸c˜ao
No cap´ıtulo 1, vimos alguns dos modelos utilizados para predizer a taxa de varia¸c˜ao de popula¸c˜oes isoladas. Neles, n˜ao s˜ao levado em conta a intera¸c˜ao entre esp´ecies em um mesmo meio. Vamos apresentar nesse cap´ıtulo, um modelo de predi¸c˜ao de popula¸c˜oes em que duas ou mais esp´ecies dividem o mesmo territ´orio.
3.0.2
Intera¸
c˜
ao entre esp´
ecies
Esp´ecies de diferentes animais em um meio podem interagir de v´arias maneiras. A ecologia classifica as maneiras de intera¸c˜ao de esp´ecies em duas categorias: intera¸c˜ao harmˆonica e intera¸c˜ao desarmˆonica. Na intera¸c˜ao
harmˆonica, as esp´ecies que interargem entre si n˜ao levam nenhuma desvan-tagem por esse fato ocorrer. Algumas das intera¸c˜ao harmˆonicas s˜ao: mu-tualismo e coopera¸c˜ao, rela¸c˜oes em que ambas as esp´ecies levam vantagem na intera¸c˜ao, sendo o primeiro tipo, obrigat´oria para a sobrevivˆencia de am-bas as esp´ecies,comensalismo, inquilinismo e epifitismo, onde uma esp´ecie ´e beneficiada e a outra ´e neutra, n˜ao sendo beneficiada nem prejudicada.
J´a na intera¸c˜ao desarmˆonica, pelo menos uma das esp´ecies acaba levando preju´ızos por causa da intera¸c˜ao. Temos como exemplos de intera¸c˜oes de-sarmˆonicas: A competi¸c˜ao, que pode ocorrer entre indiv´ıduos da mesma esp´ecie ou entre indiv´ıduos de esp´ecies diferentes, quando dependem dos mesmos fatores ambientais para sua sobrevivˆencia como mesma fonte de alimento, mesmo espa¸co,etc... O parasitismo, quando uma esp´ecie (para-sita) acaba vivendo as custas de outra (hospedeiro), ao extrair os nutrientes nescess´arios para sua subsistˆencia e o Predatismo, onde uma esp´ecie (presa) acaba servindo de alimento para a outra (predador).
Vamos levar em conta para o estudo do modelo, apenas a intera¸c˜ao pre-dat´oria.
3.1
O Modelo Predador - Presa
Os primeiros estudos de modelos com intera¸c˜oes de esp´ecie foram apre-sentados no in´ıcio da d´ecada de 20, no s´eculo XX. Eles tiveram como base o modelo de Malthus. Esse modelo foi proposto, de uma forma independen-temente, por dois matem´aticos. Em 1925 pelo matem´atico austro-h´ungaro, naturalizado norte-americano Alfred J. Lotka e em 1926 pelo matem´atico italiano Vito Volterra. Lotka nasceu em 1880 e faleceu em 1949. Suas pes-quisas contemplaram as ´areas de demografia, fisico-quimica e estat´ıstica. J´a Vito Volterra, nasceu em 1860 e faleceu em 1940. Come¸cou a trabalhar com equa¸c˜oes integrais e voltou sua aten¸c˜ao para a dinˆamica populacional ap´os a Primeira Guerra Mundial.
Os modelos apresentados s˜ao muito utilizados nos dias de hoje, principal-mente na ecologia e na agricultura. Podemos us´a-lo para prever popula¸c˜oes em ecossistemas, dos mais simples os mais complexos, prever quando o dese-quil´ıbrio ocorrer´a , controlar pragas que asolam a produ¸c˜ao agr´ıcola, etc...
O modelo mais simples parte das seguinte hip´oteses:
1. A popula¸c˜ao de presas crescer´a exponencialmente na ausˆencia de pre-dadores.
2. A popula¸c˜ao de predadores se extingue, caso haja falta de presas. Ela n˜ao consegue mudar sua alimenta¸c˜ao para outra presa.
3. Os predadores consomem quantidades infinitas de presas. 4. N˜ao existe nenhuma outra esp´ecie no meio, al´em das duas.
5. N˜ao h´a, durante o processo, altera¸c˜oes no ambiente que favorecer´a uma das duas esp´ecies e tamb´em as adapta¸c˜oes gen´eticas s˜ao lentas.
6. O ambiente ´e totalmente homogˆeneo.
7. N˜ao h´a restri¸c˜oes no meio, e o espa¸co usado para as presas ´e infinito.
Tendo essas hip´oteses, vamos considerar:
x = x(t) uma fun¸c˜ao que d´a o n´umero de presas, em fun¸c˜ao do tempo e
y = y(t) uma fun¸c˜ao que d´a o n´umero de predadores em fun¸c˜ao do tempo. O n´umero de intera¸c˜oes entre os predadores e as presas ser´a dado pelo produto dos dois valores absolutos das popula¸c˜oes dos mesmos, ou seja, xy.
Assim o sistema de equa¸c˜oes Lotka - Volterra fica: { dx(t) dt = ax(t)− bx(t)y(t) dy(t) dt =−αy(t) + βx(t)y(t) (3.1)
como x = x(t) e y = y(t) e ainda usando a nota¸c˜ao de Lagrange para derivadas, temos:
{
x′ = ax− bxy
y′ =−αy + βxy (3.2)
Observando essa equa¸c˜ao, vamos que a taxa de varia¸c˜ao da popula¸c˜ao de presas ´e dada pelo seu crescimento natural ax menos sua captura por preda-dores, dada na equa¸c˜ao por bxy que ´e a taxa de encontros com predadores. Ou seja:
x′ = ax− bxy
Tamb´em que a taxa de varia¸c˜ao da popula¸c˜ao de predadores ´e dada pelo seu crescimento na presen¸ca de presas para consumo, que ´e dada por βxy, que ´e a taxa de encontros com presas, menos o decrescimento causado pela ausˆencia de presas, dado na equa¸c˜ao por αy. Ou seja:
y′ =−αy + βxy
Assim, no caso de ausˆencia de predadores, a equa¸c˜ao que d´a o n´umero de presas fica:
x′ = ax
como a ´e positivo, a popula¸c˜ao de presas aumentar´a, j´a que ´e a ´unica esp´ecie no meio.
J´a no caso da ausˆencia de presas, a equa¸c˜ao que modela o crescimento de predadores fica:
y′ =−αy
como α ´e positivo, a popula¸c˜ao de presas tende a diminuir pela falta de alimento (presas).
3.1.1
Analisando a Equa¸
c˜
ao
Uma outra maneira de ver essa equa¸c˜ao ´e dividir a taxa de varia¸c˜ao das presas, pelo n´umero de presas e a taxa de varia¸c˜ao dos predadores, pelo n´umero de predadores. Para isso, estamos considerando o valor de predadores e presas diferente de zero. Teremos ent˜ao o sistema:
{ x′ x = a− by y′ y =−α + βx (3.3)
Nessa outra vis˜ao, vemos que a taxa de reprodu¸c˜ao m´edia das preses ´e algum a constante. Sua queda ´e dada conforme aumentamos o n´umero de predadores na regi˜ao. Esse fato ´e dado pelo fator by na equa¸c˜ao.
Por outro lado, vemos que a taxa de reprodu¸c˜ao m´edia das presas ´e algum
α constante. Seu aumento ´e causado por um aumento da quantidade de presas que h´a na regi˜ao, representado na equa¸c˜ao por βx.
Em suma,conseguimos ver a depˆencia das intera¸c˜oes para o crescimento das popula¸c˜oes. No caso das presas, em um ambiente sem predadores, a sua popula¸c˜ao aumenta de forma constante. J´a no caso dos predadores, em um ambiente sem presas, sua popula¸c˜ao diminui at´e a extin¸c˜ao.
3.1.2
Analisando o Sistema
Agora, vamos estudar os pontos de equil´ıbrio do sistema Lotka - Volterra. Sabemos que temos um ponto de equil´ıbrio quando suas derivadas s˜ao nulas(n˜ao h´a varia¸c˜ao). Vamos calcular esses pontos do sistema:
{ dx
dt = 0⇔ ax − bxy = 0 dy
dt = 0⇔ −αy + βxy = 0
(3.4)
Na primeira equa¸c˜ao:
ax− bxy = 0 ⇔ x(a − by) = 0 ⇔ x = 0 ou a − by = 0 ⇒ y = ab
Na segunda equa¸c˜ao:
−αy + βxy = 0 ⇔ y(−α + βx) = 0 ⇔ y = 0 ou (−α + βx = 0 ⇒ x = α β
A(0, 0) e B(αβ,ab)
O ponto A ´e o ponto trivial, sem predadores e nem presas as popula¸c˜oes n˜ao v˜ao variar. J´a o ponto B ´e de nosso interesse, pois possui uma popula¸c˜ao positiva. Vamos analisar o comportamento da solu¸c˜ao nas suas proximidades. Primeiro passo ´e linearizar o sistema no ponto B. Para isso, vamos en-contrar a matriz Jacobiana. Sabemos que a Matriz Jacobiana ´e dada por:
J (x′, y′) = ( ∂x′ ∂x ∂x′ ∂y ∂y′ ∂x ∂y′ ∂y ) Como: ∂x′ ∂x = a− by ∂x′ ∂y =−bx ∂y′ ∂x = βy ∂y′ ∂y =−α + βy
A matriz Jacobiana do sistema ´e:
J (x′, y′) = (
a− by −bx βy −α + βy
)
O Jacobiano no ponto de equil´ıbrio ´e:
J (αβ,ab) = ( a− b(ab) −b(αβ) β(ab) −α + β(αβ) ) = ( a− a −b(αβ) β(ab) −α + α ) = ( 0 −αbβ aβ b 0 )
Calculando seus autovalores por det(J− λI) = 0 : J− λI = ( 0 −αbβ aβ b 0 ) -( λ 0 0 λ ) = ( −λ −αb β aβ b −λ ) det(J− λI) = 0 (λ2+ αa) = 0 λ2 =−αa λ =±√−αa
Como temos dois auto-valores imagin´arios conjugados, o ponto ´e ponto de centro. Ou seja, as curvas das solu¸c˜oes s˜ao elipses centradas no ponto de equil´ıbrio.
Veja:
Figura 3.1: Plano de Fases - Modelo 1
3.1.3
Segundo Modelo
Essa primeira apresenta¸c˜ao parece modelar bem a intera¸c˜ao entre uma popula¸c˜ao de presas e predadores em um mesmo espa¸co. Como em toda
an´alise superficial, acabamos por omitir informa¸c˜oes relevantes para uma boa modelagem do objeto de estudo. Por isso, vamos olhar com aten¸c˜ao uma das hip´oteses.
Nos ´e dado que a popula¸c˜ao de presas cresce de acordo com o modelo Malthusiano na ausˆencia de predadores. Sabemos que isso pode ser verdade, em popula¸c˜oes controladas e apenas por um curto per´ıodo de tempo. Na natureza, dispomos das mais diversas formas de controle populacional, de modo que elas acabam por ser limitadas, de uma forma ou de outra. Seja por competi¸c˜ao por alimento, disponibilidade de alimento, tamanho do meio em que ela vive, etc...
Vamos ent˜ao reescrevˆe-la usando o modelo de Pierre Verhulst, que leva essa situa¸c˜ao em conta. Podemos escrever a equa¸c˜ao que d´a a taxa de cres-cimento das pressas da seguinte maneira:
x′ = ax(1− Kx)− bxy
Com K sendo a capacidade m´axima de presas que o ambiente suporta. Como vimos no cap´ıtulo anterior, quando a popula¸c˜ao ´e maior que K, a taxa de crescimento populacional das presas tende a decrescer, quando ela ´e menor que K, a taxa de crescimento tende a aumentar.
Assim, nosso sistema ficar´a: {
x′ = ax(1−Kx)− bxy
y′ =−αy + βxy (3.5)
Uma modelagem bem mais fiel ao caso estudado.
Analisando o Segundo Modelo
Primeiramente, vamos achar os pontos de equil´ıbrio do sistema abaixo: {
x′ = ax(1−Kx)− bxy
Sabendo que o sistema est´a em equil´ıbrio quando x′ = 0ey′ = 0 , temos: { ax(1−Kx)− bxy = 0 −αy + βxy = 0 Assim: ax(1−Kx)− bxy = 0 x(a(1− x K)− by) = 0
Assim x = 0 ´e o primeiro ponto: Continuando a an´alise:
a(1−Kx)− by = 0
a(1− Kx) = by
y = ab(1− Kx)
E o segundo ponto ´e y = ab(1−Kx).
Como n˜ao modificamos a segunda equa¸c˜ao, os pontos de equil´ıbrio s˜ao os mesmo encontrados anteriormente:
x = ab e y = 0 .
Agora temos trˆes pontos de equil´ıbrio:
O ponto A ´e o ponto trivial, j´a explicado. O ponto B ´e diz que na ausˆencia de predadores, e com a popula¸c˜ao inicial no limite K de suporte do ambiente, n˜ao esperamos que aconte¸ca alguma altera¸c˜ao populacional significativa. Vamos analisar o terceiro ponto:
Linearizando e calculando o a Matriz jacobiana do sistema:
∂x′ ∂x = a− 2ax K − by ∂x′ ∂y =−bx ∂y′ ∂x = βy ∂y′ ∂y =−α + βy
A matriz Jacobiana do sistema ´e:
J (x′, y′) = (
a− 2axK − by −bx βy −α + βx
)
Aplicando o ponto (αβ,ab − bβKaα ) na matriz jacobiana, temos:
J (x′, y′) = ( a− 2a( α β) K − b( a b − aα bβK) −b( α β) β(ab − bβKaα ) −α + β(αβ) ) J (x′, y′) = ( a− 2a( α β) K − b( a b − aα bβK) −b( α β) β(ab − bβKaα ) −α + β(αβ) ) J (x′, y′) = ( a−2aαβK − a + βKaα −αbβ aβ b − aα bK −α + α )
J (x′, y′) = ( −aα βK − αb β aKβ−aα bK 0 )
O tra¸co da matrix jacobiana ´e−βKaα, que ´e negativo, pois todos os parˆametros s˜ao positivos. Ent˜ao, o determinante ir´a decidir se o ponto de equil´ıbrio ´e um ponto de sela, um n´o est´avel ou um foco est´avel.
Calculando o determinante:
det(J (αβ,ab − bβKaα )) = (0− (−αbβ.aKβbK−aα)) = (aα(KββK−α)) Que ´e positivo, pois todos os parˆametros s˜ao positivos. Pois
Kβ− α < 0 ⇒ Kβ < α
Lembremos que o valor da popula¸c˜ao de predadores no ponto de equil´ıbrio ´
e ab(1−βKα ). Se Kβ<α ent˜ao teremos βKα > 1 o que nos daria uma popula¸c˜ao negativa de predadores, o que n˜ao faz sentido.
Analisando o ∆ do polinˆomio caracter´ıstico da matriz Jacobiana temos:
∆ = τ − 4 det(J)
∆ = −βKaα - 4 .aα(KββK−α)
Lembrando que Kβ − α < 0, temos que o ∆ < 0, o que nos dar´a um par de autovalores complexos. Como τ < 0, teremos que a parte real dos autovalores complexos negativa, e assim, teremos no ponto um foco est´avel.
3.1.4
Terceiro Modelo
Conseguimos com nosso modelo anterior uma seguran¸ca maior. Se assu-mirmos que os pontos de equil´ıbrio est˜ao suficientemente afastados de ambos os eixos, para proteger cada popula¸c˜ao de perturba¸c˜oes aleat´orias, as solu¸c˜oes
Figura 3.2: Plano de Fases - Modelo 2
que come¸cam pr´oximas a esses pontos s˜ao est´aveis. O que garante que as popula¸c˜oes n˜ao correm risco de extin¸c˜ao, conforme o tempo vai avan¸cando. Mas, apesar disso, temos um problema com o modelo anterior.
Vamos lembrar que a equa¸c˜ao que d´a a popula¸c˜ao das presas ´e
x′ = ax(1− Kx)− bxy
O dano nas presas pelo predador ´e dado por bxy. Que parece fazer sentido, quanto mais encontros entre as esp´ecies, maior ser´a o dano causado pelos predadores nas presas. Dizemos que bx ´e a taxa de sucesso obtido pelos predadores ou tamb´em chamada de taxa de preda¸c˜ao do sistema. De outra maneira, podemos dizer que em um certo intervalo de tempo, um predador deve matar uma certa fra¸c˜ao bx de presas. Se temos 5 predadores e 10 presas, teremos uma certa taxa de sucesso obtida. Agora, se tivermos 5 predadores e 500000 presas, a taxa de sucesso ser´a a mesma? A resposta ´e n˜ao. Os predadores tem uma capacidade limitada de causar dano nas presas ( necessidade alimentar). Sendo assim, faz-se necess´ario altera¸c˜oes em nosso modelo.
Revisando o Modelo - O problema da Preda¸c˜ao Linear
Como vimos anteriormente, n˜ao h´a como manter na natureza a taxa linear de preda¸c˜ao dada na equa¸c˜ao