Julia Malta (São Paulo, 1987)
É artista visual, pós-graduanda em contação de histórias pela Faculdade de Conchas (A Casa Tombada, São Paulo) e bacharel em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, sob orientação de Neide Jallageas.
Tem se dedicado à pesquisa sobre a relação entre imagem e texto nas artes visuais. Desde 2013, vem criando objetos e livros de artista com caráter autobiográfico. Os trabalhos, em sua maioria, se apresentam em pequenos formatos, por meio de diferentes linguagens: são objetos, fotografias, pequenas esculturas e livros, feitos com tecido, bordado, costura, resina. Os títulos e textos de parede se fazem importantes, palavra e imagem são colocados no mesmo patamar. Entre suas principais exposições estão coletivas em espaços como Galeria Art’er, Casa Contemporânea, Galeria Coletivo, Espaço Cultural Conjunto Nacional, Sesc e Galeria 13. Além de sua produção pessoal nas artes visuais, gerencia o espaço cultural independente Assum Espaço Criativo, em São Paulo.
cartas ao mar de mim
Cartas curtas portando assuntos pessoais, confissões, escritas à máquina e endereçadas a Noah, que descansa dentro do mar de mim. O mar de mim é meu ventre, onde um dia começou e não terminou Noah, que tem o diário de sua infância retratado no trabalho Diário de uma
infância imaginária (a seguir). São cartas para não serem abertas nem lidas, são cartas ao mar
Cartas ao mar de mim, 2015
Garrafas de vidro, papel e cortiça Dimensões variáveis
diário de uma infância imaginária
Mais que um fenômeno mecânico preciso. Mais que um mecanismo formado por rodas dentadas pequenas que encaixam umas nas outras e fazem girar outras bem maiores. Mais ainda que uma engrenagem perfeita de rotações internas, secretas, capazes de devolver as coisas a seu exato estado inicial. A caixa de músicas pode nos fazer ver cada parte de cada segundo e, fazendo ver cada parte e cada segundo, pode também revelar pedaços indivisíveis de nossas memórias e vai tão fundo nessa linha divisível que é capaz de encenar uma saudade do que nem chegamos a viver. A caixa de músicas é capaz de guardar o tempo. [A caixa de músicas, texto que integra a montagem do Diário de uma infância imaginária, livro com as memórias imaginadas de um filho perdido ainda no ventre.]
Diário de uma infância imaginária, 2015
Papel, couro e linha 12 cm x 17 cm
uma casca de ovo ou
a breve história da humanidade
(A piscina era muito lerda, então a gente começa essa história com o mar.) O mar quente derreteu a areia das praias e os homens acharam todos os tesouros enterrados. Enquanto os homens dormiam, o tesouro fugiu todo para o mar. Os tubarões comeram as coisas brilhantes mas quiseram vomitar. Todos os homens então mergulharam no mar para catar o vômito dos tubarões. Os tubarões morderam os homens, deixaram cada homem sem uma perna.
Milhares de anos depois... Ainda ficou sangue dos homens naquele mar. A galinha chocou seus ovos e os pintinhos nasceram. Sabendo da lenda dos finados homens sem perna que gostavam de tesouros brilhantes, os pintinhos escreveram e desenharam a história da humanidade. Tudo numa pequena casca de ovo branca.
[Primeiro livro da série Pequenos delírios, de livros bordados à mão contendo histórias escritas a quatro mãos, com minha filha, Maria. Uma casa de ovo ou A breve história da humanidade foi feita de barbante e mede 149 passos de Maria (aos 4 anos).]
Uma casca de ovo ou A breve história da humanidade, 2015
Bordado sobre tecido 113 cm x 19 cm
pequeno memorial de nós
Objetos pessoais de grande valor afetivo guardados numa caixa de joias: congelados pela resina, representam e homenageiam um momento de vida que acabou, o casamento. Um pequeno memorial para uma pequena história importante.
Pequeno memorial de nós, 2014
Caixa de joias, resina e espelho jateado 8,5 cm x 5,5 cm x 8,5 cm
o desfiador de tempo
Havia um homem que dizia ter por ofício desfiar o tempo (importante é não confundir desfiador de tempo com desperdiçador de tempo, pois são atividades completamente distintas). Afirmava a todos que a ele indagavam ser muito complexa a matéria que lhe servia ao trabalho, afinal, os instantes são invisíveis e acontecem num tantinho de tempo tão curto que, além de invisíveis, são imperceptíveis (importante também é reparar que existem coisas invisíveis, mas perfeitamente perceptíveis, a exemplo do vento; e que existem coisas imperceptíveis perfeitamente visíveis, como uma formiga atravessando uma grande avenida na faixa de pedestres – ou fora dela, o que, no caso, é um tanto quanto indiferente). Agora, imagine só um cidadão que trabalha com uma coisa – com o perdão da vagueza linguística – que, além de desutilizar os olhos, também torna completamente desnecessários os miolos – os quais, paradoxalmente, continuam sendo indispensáveis para a execução do tipo complicado de tarefa a que se dispõe um desfiador de tempo. Quanto à definição do ofício, ou do desfiamento do tempo propriamente dito, são muito lógicas as deduções. Se o referido cidadão se ocupasse em fazer um pouco de tempo líquido, sólido ou gasoso e armazenasse o produto num pote, independentemente do tamanho do pote, ele seria, por óbvia conclusão, um guardador de tempo. Se ficasse parado horas a fio, sem pensar ou se mover, ele seria um desperdiçador de tempo; assim como aquele que fizesse um pouco de tempo gasoso e o soltasse no ar feito fumaça (o ar, aliás, é uma coisa que tem muito de tempo… mas isso é vez para outra conversa). Já se ele aceitasse ou comprasse tempos alheios e os guardasse para si, seria um arrecadador de tempo (ofício semelhante ao do guardador de tempo, mas muito diferente por definição). Ao final, mesmo sendo sua profissão muito distinta e de difícil execução, reclamava sempre o desfiador de tempo às autoridades, dizendo que não recebia benefícios empregatícios e que lhe pagavam muito mal.
O desfiador de tempo, 2011
Bordado sobre tecido 105 cm x 120 cm