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Julia Malta (São Paulo, 1987)

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Academic year: 2021

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Julia Malta (São Paulo, 1987)

É artista visual, pós-graduanda em contação de histórias pela Faculdade de Conchas (A Casa Tombada, São Paulo) e bacharel em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, sob orientação de Neide Jallageas.

Tem se dedicado à pesquisa sobre a relação entre imagem e texto nas artes visuais. Desde 2013, vem criando objetos e livros de artista com caráter autobiográfico. Os trabalhos, em sua maioria, se apresentam em pequenos formatos, por meio de diferentes linguagens: são objetos, fotografias, pequenas esculturas e livros, feitos com tecido, bordado, costura, resina. Os títulos e textos de parede se fazem importantes, palavra e imagem são colocados no mesmo patamar. Entre suas principais exposições estão coletivas em espaços como Galeria Art’er, Casa Contemporânea, Galeria Coletivo, Espaço Cultural Conjunto Nacional, Sesc e Galeria 13. Além de sua produção pessoal nas artes visuais, gerencia o espaço cultural independente Assum Espaço Criativo, em São Paulo.

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cartas ao mar de mim

Cartas curtas portando assuntos pessoais, confissões, escritas à máquina e endereçadas a Noah, que descansa dentro do mar de mim. O mar de mim é meu ventre, onde um dia começou e não terminou Noah, que tem o diário de sua infância retratado no trabalho Diário de uma

infância imaginária (a seguir). São cartas para não serem abertas nem lidas, são cartas ao mar

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Cartas ao mar de mim, 2015

Garrafas de vidro, papel e cortiça Dimensões variáveis

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diário de uma infância imaginária

Mais que um fenômeno mecânico preciso. Mais que um mecanismo formado por rodas dentadas pequenas que encaixam umas nas outras e fazem girar outras bem maiores. Mais ainda que uma engrenagem perfeita de rotações internas, secretas, capazes de devolver as coisas a seu exato estado inicial. A caixa de músicas pode nos fazer ver cada parte de cada segundo e, fazendo ver cada parte e cada segundo, pode também revelar pedaços indivisíveis de nossas memórias e vai tão fundo nessa linha divisível que é capaz de encenar uma saudade do que nem chegamos a viver. A caixa de músicas é capaz de guardar o tempo. [A caixa de músicas, texto que integra a montagem do Diário de uma infância imaginária, livro com as memórias imaginadas de um filho perdido ainda no ventre.]

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Diário de uma infância imaginária, 2015

Papel, couro e linha 12 cm x 17 cm

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uma casca de ovo ou

a breve história da humanidade

(A piscina era muito lerda, então a gente começa essa história com o mar.) O mar quente derreteu a areia das praias e os homens acharam todos os tesouros enterrados. Enquanto os homens dormiam, o tesouro fugiu todo para o mar. Os tubarões comeram as coisas brilhantes mas quiseram vomitar. Todos os homens então mergulharam no mar para catar o vômito dos tubarões. Os tubarões morderam os homens, deixaram cada homem sem uma perna.

Milhares de anos depois... Ainda ficou sangue dos homens naquele mar. A galinha chocou seus ovos e os pintinhos nasceram. Sabendo da lenda dos finados homens sem perna que gostavam de tesouros brilhantes, os pintinhos escreveram e desenharam a história da humanidade. Tudo numa pequena casca de ovo branca.

[Primeiro livro da série Pequenos delírios, de livros bordados à mão contendo histórias escritas a quatro mãos, com minha filha, Maria. Uma casa de ovo ou A breve história da humanidade foi feita de barbante e mede 149 passos de Maria (aos 4 anos).]

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Uma casca de ovo ou A breve história da humanidade, 2015

Bordado sobre tecido 113 cm x 19 cm

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pequeno memorial de nós

Objetos pessoais de grande valor afetivo guardados numa caixa de joias: congelados pela resina, representam e homenageiam um momento de vida que acabou, o casamento. Um pequeno memorial para uma pequena história importante.

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Pequeno memorial de nós, 2014

Caixa de joias, resina e espelho jateado 8,5 cm x 5,5 cm x 8,5 cm

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o desfiador de tempo

Havia um homem que dizia ter por ofício desfiar o tempo (importante é não confundir desfiador de tempo com desperdiçador de tempo, pois são atividades completamente distintas). Afirmava a todos que a ele indagavam ser muito complexa a matéria que lhe servia ao trabalho, afinal, os instantes são invisíveis e acontecem num tantinho de tempo tão curto que, além de invisíveis, são imperceptíveis (importante também é reparar que existem coisas invisíveis, mas perfeitamente perceptíveis, a exemplo do vento; e que existem coisas imperceptíveis perfeitamente visíveis, como uma formiga atravessando uma grande avenida na faixa de pedestres – ou fora dela, o que, no caso, é um tanto quanto indiferente). Agora, imagine só um cidadão que trabalha com uma coisa – com o perdão da vagueza linguística – que, além de desutilizar os olhos, também torna completamente desnecessários os miolos – os quais, paradoxalmente, continuam sendo indispensáveis para a execução do tipo complicado de tarefa a que se dispõe um desfiador de tempo. Quanto à definição do ofício, ou do desfiamento do tempo propriamente dito, são muito lógicas as deduções. Se o referido cidadão se ocupasse em fazer um pouco de tempo líquido, sólido ou gasoso e armazenasse o produto num pote, independentemente do tamanho do pote, ele seria, por óbvia conclusão, um guardador de tempo. Se ficasse parado horas a fio, sem pensar ou se mover, ele seria um desperdiçador de tempo; assim como aquele que fizesse um pouco de tempo gasoso e o soltasse no ar feito fumaça (o ar, aliás, é uma coisa que tem muito de tempo… mas isso é vez para outra conversa). Já se ele aceitasse ou comprasse tempos alheios e os guardasse para si, seria um arrecadador de tempo (ofício semelhante ao do guardador de tempo, mas muito diferente por definição). Ao final, mesmo sendo sua profissão muito distinta e de difícil execução, reclamava sempre o desfiador de tempo às autoridades, dizendo que não recebia benefícios empregatícios e que lhe pagavam muito mal.

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O desfiador de tempo, 2011

Bordado sobre tecido 105 cm x 120 cm

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