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RUN Tese de Doutoramento Anexos Mariana Almeida

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Academic year: 2019

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(1)

Escola Nacional de Saúde Pública

Universidade Nova de Lisboa

Mariana Coimbra Ferreira de Almeida

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(Vol. II) -

ANEXOS

Tese submetida para obtenção do grau de

Doutor em Saúde Pública

Especialidade Promoção da Saúde

Orientação:

Professora Doutora Ana Alexandra Fernandes

Professora Doutora Maria Isabel Loureiro

Lisboa, 2009

(2)
(3)

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NEXO

1

ao Cap. 3

[III-A1]–

Método detalhado:

Amostra, Recolha e Análise de dados ....1-5

A

NEXO

2

ao Cap. 3

[III-A2] –

Entidades

contactadas para entrevistas... 1

A

NEXO

3

ao Cap. 3

[III-A3] –

Guião-Base de entrevista

...1-2

A

NEXO

4

ao Cap. 3

[III-A4] –

Tópicos/Domínios de Vida

: comentários gerais...1-31

A

NEXO

5

ao Cap. 3

[III-A5] –

Dados “Saúde e Doença”

...1-5

A

NEXO

6

ao Cap. 3

[III-A6] –

Dados ESS3

...1-2

A

NEXO

7

ao Cap. 4

[IV-A7] –

Dados Desigualdades Sociais Saúde:

Estudo preliminar...1-22

A

NEXO

8

ao Cap. 5

[V-A8] –

Dados Perfil PT65+:

Descrição-Base (todas as variáveis)....1-80

A

NEXO

9

ao Cap. 5

[V-A9] –

Dados Perfil PT65+:

Associação de Variáveis (ESS3)...1-28

A

NEXO

10

geral

[A10] –

Fontes de Dados:

Algumas Bases de Dados e Estudos...1-4

(4)
(5)

ANEXO 1 (ao Cap. 3 - B)

III– A1 1

ANEXO N.º 1 - O Método detalhado:

Anexo ao Cap. 3 [III-A1]

Amostra, Recolha e Análise de dados

Amostra

A selecção dos participantes foi feita, com se referiu, de acordo com os critérios de neutralização e diversificação de características que se sintetizam no Quadro 1-III-A1.

Dados os propósitos específicos visados, a idade surge como uma questão central, de particular sensibilidade. Sendo inviável, por razões de ordem prática, assegurar uma adequada diversificação (atendendo também às conjugações relevantes com as outras variáveis), optou-se por restringir a sua variação à faixa etária dos 75-84, considerando que esta “idade intermédia” implicaria boa probabilidade de proporcionar contacto com as problemáticas e características mais distintivas das idades avançadas, sem incorrer também numa concentração exclusiva em situações em que a doença e dependência poderão ser já a marca dominante. Optou-se igualmente por “neutralizar” o local de residência, com a decisão de restringir a pesquisa a idosos residentes em meio urbano, numa mesma cidade de dimensão intermédia; a escolha de Faro resultou da facilidade da entrevistadora em estabelecer os necessários contactos nesta cidade.

Foram excluídos idosos institucionalizados (dada a especificidade das problemáticas associadas e essas situações), restringindo-se portanto as entrevistas aos residentes na comunidade. No entanto, considerou-se de interesse explorar potenciais variações associadas à ligação a instituições sociais/serviços específicos para idosos. Estas entidades constituem ainda um ponto de acesso vantajoso para estabelecer o primeiro contacto com os potenciais entrevistados, beneficiando da intermediação de técnicos das mesmas. Foram assim contactadas todas as entidades (no caso, Instituições Particulares de Solidariedade Social) com valências de Centro de Dia, Centro de Convívio e Apoio Domiciliário/Apoio domiciliário integrado (i.e., todas as respostas sociais não residenciais para pessoas idosas e pessoas com dependência), a funcionar na cidade de Faro, bem como outra entidade local a prestar serviços para pessoas nesta faixa etária (Universidade da Terceira Idade)1. Foram entrevistados utentes de cada uma destas instituições (já que se pressupunha poderem abranger públicos distintos) assim como idosos residentes na cidade que não frequentavam nenhum serviço dessa natureza (estes últimos contactados por intermédio de uma pessoa que constituía um conhecimento comum).

Definidas as características que, de acordo com a fundamentação do estudo, importava abranger, as pessoas foram sendo seleccionadas de modo a incluir-se a diversidade procurada e até atingir um nível de saturação da informação, em função dos objectivos em vista. Este último aspecto remete para o carácter progressivo ou iterativo (v.g., Miles, Huberman, 1994; Miller, Crabtree, 1992) do processo de investigação, que se reflectiu também na selecção por via da confirmação/ refinamento das características/variações que importava abarcar com base na análise do material já recolhido.

É de assinalar, em todo o caso, que nem sempre foi possível concretizar todas as conjugações de características mais desejáveis, atendendo à limitações dos públicos abrangidos pelos contactos estabelecidos. Refira-se, em particular, que houve mais dificuldade em conseguir aceder a entrevistados do sexo masculino, que assim são em número bastante inferior ao das mulheres; não se conseguiu também nenhum contacto de escolaridade de nível superior (rara neste população) nem incluir entrevistados nunca casados; em dois casos a idade ficou 1 ano aquém e além dos limites inicialmente estabelecidos. De qualquer modo, considera-se que estes desvios não terão afectado de modo significativo a relevância da composição da amostra, incluindo esta suficiente heterogeneidade e cobertura do que serão as características mais marcantes para os propósitos da pesquisa.

Foram no final retidas 13 entrevistas (de 15 efectuadas2), sendo a composição da amostra sintetizada no Quadro 1-III.

1 Mais informação sobre estas entidades no Anexo 2.

(6)

ANEXO 1 (ao Cap. 3 - B)

III– A1 2 Quadro 1-III: Constituição da Amostra (dimensão total n = 13)

Variável Estratégia Valores definidos Composição final da amostra

Residência Neutralização na comunidade/casa própria n=13

Tipo de Aglomerado Neutralização cidade média dimensão (Faro) n=13

Idade Neutralização (75-84) n=13 (mín.: 74; máx.: 85; média: 80;

moda: 80)

Sexo Diversificação Feminino

Masculino

n= 10 n= 3

Nível de escolaridade Diversificação mín.: não escolarizada (n=1);

máx.: 10 anos escolaridade (n=1); moda: 4 anos escolaridade (n=6) Frequência de instituição

/serviço idosos

Diversificação Apoio Domiciliário

Centro de Dia (instituições A e B) Centro de Convívio

Universidade da Terceira Idade Nenhuma

n=2 (instituição A, B) n=5 (instituição B, C) n=2 (instituição B) n=3 (instituição D) n=3

Estado de Saúde/ Dependência

Diversificação Com significativas restrições de actividade e necess. apoio activ. essenciais

Com restrições relevantes (sem necess. apoio act. essenciais) Sem restrições e/ou doenças

muito valorizadas

n=5 (inclui impossibilidade sair de casa; apoio na higiene pessoal, na mobilidade externa, na gestão financeira, etc., para além de doenças físicas e psíquicas) n=4 (inclui dificuldades mobilidade,

visuais, auditivas, etc.; para além de problemas de saúde diversos) n=4 (inclui porém historial de cancro, osteoporose, necess. cirurgia anca, etc.) Coabitação/(Estado Civil) Diversificação A viver só

A coabitar n=9 (viúvo/a=7; divorciada=2) n=4 (casado/a=4) Situação Familiar Diversificação Sem filhos

Tem filhos n=2 n=11 (inclui situações todos os filhos vivem noutra cidade/país)

Profissão Anterior Diversificação Doméstica exclusivamente (n=1)

Doméstica e outra ocup. parcial/ temporária (vendas, costura) (n=3) Costura (n=2)

Operário/a /Oper.especializ. (n=3) Serviços (n=2)

Técnico/Quadro Médio (N=2)

Situação económica Diversificação Confortável (n=4)

Intermédia (prováveis limitações econ. importância indeterminada) (n=5) Dificuldades importantes (n=4)

Recolha dos dados

A técnica adoptada para a recolha dos dados foi a realização de entrevistas individuais, em profundidade, face a face com os participantes. Considerou-se que, em termos do grau de estrutura/liberdade, a entrevista semi-directiva seria o mais adequado, permitindo aos participantes estruturar o seu pensamento, ao mesmo tempo que obriga ao aprofundamento de pontos que de outro modo poderiam não ser explicitados (v.g., Ruquoy, 1997), tendo-se para o efeito preparado um guião (Anexo 3).

Este apoiou-se em pesquisa bibliográfica prévia, procurando-se adoptar, quando possível, formulações de perguntas semelhantes às utilizadas noutros estudos nacionais e internacionais, qualitativos e quantitativos, de modo a aumentar a possibilidade daquilo a que Miles e Huberman se referem como “converse across studies” (1994, p. 35). De qualquer modo, no quadro do plano de entrevista traçado (remetendo para a terminologia de Ruquoy, 1997), o emprego do guião foi definido como essencialmente flexível, sendo priorizados aspectos como a boa compreensão e motivação dos entrevistados e a qualidade/ fluidez do diálogo, facilitando a livre expressão do pensamento individual, essencial numa pesquisa que, como esta, tem objectivos primariamente exploratórios (Ghiglione, Matalon, 2001). Para além do ajustamento caso a caso no decorrer da entrevista, as questões foram também sofrendo

(7)

ANEXO 1 (ao Cap. 3 - B)

III– A1 3

algumas alterações com base nas entrevistas já realizadas/analisadas, em acordo com o carácter iterativo que caracteriza a pesquisa qualitativa (v.g., Huberman, Miles, 1994; Pope et al., 2000).

Um aspecto, porém, que se procurou respeitar de forma sistemática, foi a lógica sequencial de fundo a que obedece o guião, em que as questões iniciais são mais abertas e genéricas e só progressivamente se vão introduzindo perguntas mais específicas e dirigidas. Assim, começa-se, por exemplo, por indagar sobre as áreas valorizadas em termos de bem-estar/qualidade de vida antes de introduzir qualquer referência à saúde e fazem-se perguntas abertas sobre causalidade em saúde antes de colocar outras mencionado concretamente alguns tipos de determinantes. Tal estratégia, recomendada nomeadamente por Ghiglione e Matalon (2001), serviu o duplo propósito de facilitar o estabelecer da relação com o entrevistado, reforçando uma postura de interesse pelas suas perspectivas pessoais3 e, simultaneamente, evitar/adiar uma “contaminação” excessiva do seu discurso/quadro de referência com a revelação das preocupações e terminologia próprias do entrevistador. Pretendeu-se assim aceder a expressões mais espontâneos da organização de pensamento e linguagem próprios dos entrevistados, para só posteriormente reduzir a “ambiguidade” nas perguntas (Ghiglione, Matalon, ob. cit.), focando a entrevista em tópicos / conceitos predefinidos como relevantes em função do quadro conceptual de referência da pesquisa.

Como se abordará mais detalhadamente a propósito da análise do material recolhido, tal estratégia terá genericamente sortido bom resultado, com a quase totalidade dos entrevistados a adaptar-se bem à situação de entrevista e, tudo indica, a expressar-se com à-vontade. Foram, na prática, significativas as adaptações, caso a caso, do guião e muito frequentes as necessidades de reformulação de questões – que, mesmo assim, não evitaram, dificuldades de compreensão nalguns pontos (quer resultantes de questões linguísticas, quer de limitações auditivas). Uma importante heterogeneidade na interpretação das questões e uma fraca adesão a procedimentos mais estruturados – com destaque para algumas perguntas de resposta fechada incluídas no guião – foram alguns dos aspectos mais salientes na condução das entrevistas, a par da boa adesão a perguntas focando a vida pessoal do entrevistados. De mencionar ainda a forte carga emocional que marcou algumas das entrevistas, devido à natureza dos temas abordados, as dificuldades decorrentes de perturbações mentais patentes em casos pontuais e a mais generalizada disponibilidade e bom acolhimento da situação manifestada pelos entrevistados.

O primeiro contacto com os entrevistados, com breve explicação do estudo, da entrevista e averiguando a disponibilidade para a participação, foi feito por terceira pessoa, conhecida dos mesmos: técnico da instituição4, no caso das pessoas com ligação a uma das entidades contactadas, ou um conhecimento comum, no que respeitou às pessoas sem ligação institucional. No momento de realização da entrevista, a entrevistadora voltou a apresentar breve explicação dos propósitos e natureza da mesma e a confirmar o consentimento de participação, assegurando ainda o anonimato no uso da informação recolhida. Foi ainda requerido consentimento para o registo áudio das entrevistas, obtido em todos os casos. No final foi em geral pedida uma avaliação/reacção dos entrevistados, globalmente favoráveis, com uma excepção.

As entrevistas decorreram, em horário escolhido pelo entrevistado e/ou técnico da instituição, nas instalações dos Centros de Dia/Convívio e da Universidade da Terceira Idade (no caso dos frequentadores destas), em casa do entrevistados (para um dos utentes de apoio domiciliário e para os três entrevistados sem ligação institucional), e numa última situação, num local público da escolha do entrevistado (no caso de um dos alunos da Universidade). As entrevistas efectuaram-se sem a presença de terceiros5, com excepção de duas delas, realizadas em casa, em que houve presença temporária de familiares/amigos. Decorreram em geral em boas condições ambientais – embora em casos pontuais se tenha verificado alguma interferência de ruídos exteriores.

(8)

ANEXO 1 (ao Cap. 3 - B)

III– A1 4

A duração média e mais habitual das entrevistas foi de aprox. 1h15, sendo a mais longa de 2h30 e a mais curta de 30 min. Como se referiu, foram realizadas 15 entrevistas das quais só 13 viriam a ser consideradas para a análise. Duas efectuaram-se em Dezembro de 2006, a título exploratório (vindo porém a ser integradas no corpo de análise já que não se observaram diferenças de relevo face às restantes). A maioria decorreu em Janeiro de 2007 e as duas últimas em Junho do mesmo ano – após a conclusão da análise preliminar das anteriores.

Análise e Interpretação dos dados

São múltiplos os métodos disponíveis para análise qualitativa de entrevistas, adequando-se a uma diversidade de objectivos, pressupostos teóricos, temas, etc. – levando, ao limite, à legitimidade do desenvolvimento de procedimentos próprios para cada pesquisa afirmada, por exemplo, por Maroy (1997).

Miller e Crabtree propõem a organização desta diversidade em torno de 4 padrões idealizados situados num continuum, que tem num extremo o que designam por técnicas “Quase-estatísticas”/’quasi-statistical’ e no outro as análises de “Imersão/cristalização”. No meio do continuum situam-se a abordagem de “Edição”/’Editing’ (mais subjectiva, tipo cortar-colar) e a de “Template” (menos subjectiva, assente na codificação, num codebook) (1992, p. 18) - e é entre estas duas (embora mais próxima da segunda), que se poderá posicionar o procedimento adoptado na presente pesquisa.

A análise incidiu sobre a transcrição integral da gravação áudio das entrevistas6, procedimento que, ao contrário da alternativa de registo directo a partir de grelha, implica uma intervenção menos precoce do trabalho interpretativo (Ruquoy, 1997). No passo seguinte iniciou-se a codificação de grandes blocos do texto com recurso a uma grelha genérica, definida a priori, com base na distinção entre os vários subtemas contemplados no delineamento do estudo, bem como nas próprias perguntas que constituíam o guião. A aplicação da grelha decorreu no entanto por aproximações, sendo esta revista e progressivamente afinada por confronto com o material recolhido. Nessa medida, o procedimento adoptado corresponde ao estilo designado como “Template analysis” (Miller, Crabtree, 1992; Crabtree, Miller, 1992; King, 2007). No entanto, o aprofundar da análise dentro de cada um desses temas prosseguiu depois – ainda que em grau variável entre eles -, de modo essencialmente indutivo, i.e., procurando fazer emergir do próprio texto as categorias mais finas de análise. Este processo interpretativo mais aberto e indutivo é particularmente adequado para uma pesquisa que, como é o caso, tem objectivos primários essencialmente exploratórios e descritivos e que versa sobre temáticas complexas, que, além do mais, não beneficiam de suficiente investigação prévia (v.g. Huberman, Miles, 1994), circunstâncias em não é possível, nem adequado, impor ao material uma grelha de análise pré-definida que restrinja a análise a categorias derivadas de um quadro conceptual/ teórico prévio.

Assim, para o conjunto dos temas, a análise prosseguiu de modo iterativo, num vai-vém repetido entre os dados e a grelha de análise, de modo a ir sucessivamente ajustando/definindo, aprofundado e, nalguns casos, reagrupando as categorias de análise. Neste processo de codificação recorreu-se ao apoio de software de análise qualitativas de dados (Weft QDA, versão 1.0.1).

De modo geral, não se optou por grande nível de detalhe nas categorias de análise, como é ajustado a um estudo com estas características (v.g. Crabtree, Miller, 1992). Não se recorreu também à quantificação, a não ser com referências pontuais que se enquadrarão naquilo que nomeadamente Ghiglione e Matalon (2001) consideram legítimo neste tipo de pesquisa – i.e., usando, por exemplo, as referências à frequência de dado tema como apoio para uma formulação de hipóteses, reconhecidas simplesmente como tal, sem cair na “tentação” de fazer impossíveis inferências estatísticas.

Quanto à apresentação dos dados – a segunda das três componentes interligadas de gestão dos dados contemplados no modelo de análise qualitativa de Miles e Huberman7 (1994) – ela assume também variações

6 A referência aqui é ao material relativo às matérias substantivas em estudo, já que no que concerne às respostas sobre dados de caracterização do entrevistado e outros conteúdos periféricos – com destaque para os momentos de introdução e conclusão da entrevista -, procedeu-se somente ao registo sintético da informação pertinente.

(9)

ANEXO 1 (ao Cap. 3 - B)

III– A1 5

consoante o tópico específico em análise. Recorre-se pontualmente a matrizes mas o formato predominante da apresentação é o texto de síntese, incorporando exemplos (em síntese ou com inclusão de citação) dos testemunhos recolhidos. Em qualquer caso, a orientação genérica é uma apresentação ilustrativa, mais do que exaustiva, do material obtido, em que se procura sobretudo salientar temas e padrões nas suas dimensões de comunalidade e diversidade entre entrevistados.

Tal remete para outra opção metodológica do presente estudo: a do ênfase predominante numa análise horizontal/ transversal aos vários casos (‘cross-case analysis’ na terminologia de Miles e Huberman) e adoptando sobretudo uma estratégia centrada nas variáveis, embora recorrendo também, em diversos graus consonante os tópicos8, à sua conjugação com estratégias centradas nos casos (idem). A integração/mix destes dois tipos de abordagens é advogada por aqueles autores, já que cada uma delas tem vantagens e desvantagens e características tendencialmente complementares (analítica vs. sintética, categorial vs. contextualizada, abstracta vs. figurativa, etc.).

Finalmente, é de salientar que a nível interpretativo, a análise ficou sobretudo pelo plano descritivo, com pontual formulação de hipóteses explicativas mas sem pretensões de “gerar teoria” (como é característico, por exemplo, de uma abordagem do tipo “grounded theory”) – já que a complexidade da temática e o design do estudo (com destaque para a constituição da amostra) não se adequariam a generalizações ou inferências de nível mais elevado, que não constituíam de resto intenção do presente trabalho9.

Várias foram as “tácticas” usadas para gerar significado, recorrendo à expressão de Huberman e Miles e à lista de hipóteses que avançam: desde a procura de temas e padrões comuns, passando pelo estabelecimento de comparações/contrastes até ao procurar de coerência conceptual/teórica pelo recurso a constructos constantes na literatura. Saliente-se no entanto que, para a generalidade das temáticas abordadas, esta última componente, de enquadramento face ao corpo de investigação/literatura existente só se efectuou nas fases mais avançadas na processo – surgindo, na exposição de resultados, na rubrica de “Discussão”.

É assim nesta etapa do processo interpretativo, que, de um modo geral, se torna então mais significativo e sistemático o recurso a um corpo de conhecimento externo ao próprio material recolhido – com destaque para um esforço de referenciação/comparação com resultados obtidos em estudos similares com populações de outros países e de fundamentação de constructos / explicações hipotetizadas com base em literatura empírica ou conceptual. Para alguns tópicos, nesta fase de Discussão dos dados introduziu-se ainda informação de outros estudos nacionais mas de natureza extensiva/quantitativa. Esta integração de informação de fontes e naturezas diferentes é feita pontualmente numa lógica de triangulação – enquanto estratégia que visa confirmar os resultados pela corroboração /convergência de fontes diversas - mas sobretudo visando estender e enriquecer a compreensão das temáticas em discussão com recurso a dados complementares (Creswell, 2003).

Abre-se assim já caminho para a integração mais global dos resultados deste estudo específico com as outras componentes, conceptuais e empíricas, da pesquisa mais ampla de que faz parte. O essencial de tal integração será, no entanto, efectuada noutros capítulos da tese - com destaque para o Cap. 6.

de extracção de significado - conclusion drawing and verification (Miles, Huberman, 1994; Huberman, Miles, 1994). 8 Destaque-se a análise das explicações causais leigas sobre saúde (C.3) em que se identificaram alguns tipos de casos, com base na organização interna de domínios/determinantes favorecidos, e se agruparam ‘clusters’ de entrevistados em função dessas e outras características que tendem a formar determinadas constelações.

(10)

ANEXO 2 (ao Cap. 3 - B)

III – A2 1

ANEXO N.º 2 - Entidades contactadas

Anexo ao Cap. 3 [III-A2]

para realização das entrevistas

Instituições contactadas – alguns dados de caracterização:

Entidade Elementos de caracterização

IPSS1 Respostas Sociais 3 Capacidade Utentes

Serviço de Apoio Domiciliário 40 33

Centro de Convívio 60 60

Associação dos Reformados,

Pensionistas e Idosos do Concelho de

Faro Centro de Dia 50 30

Serviço de Apoio Domiciliário 25 22

Provectus - Associação em Prol da

Terceira Idade Apoio Domiciliário Integrado 15 13

Serviço de Apoio Domiciliário 80 73

Santa Casa da Misericórdia de Faro

Centro de Dia 70 34

UTI 2

UATI - Universidade do Algarve para a Terceira Idade

Certificada como Membro da RUTIS/rede de Universidades da Terceira Idade; 180 Alunos - 35 Disciplinas

(1) Instituições Particulares de Solidariedade Social com Respostas Sociais (não residenciais) para Idosos e Dependentes na cidade de Faro (dados de 2007)

Fonte: Carta Social (http://www.cartasocial.pt/index2.php ; última actualização: 2008-01-28)

(2) Fonte: RUTIS (http://www.rutis.org ; data de actualização desconhecida; consulta em 05.02.2008)

(3) Conceitos [In Carta Social: http://www.cartasocial.pt/conceitos.php ; consulta em 05.02.2008] Serviços e Equipamentos para Idosos

Centro de Convívio: Resposta social, desenvolvida em equipamento, de apoio a actividades sócio-recreativas e culturais, organizadas e dinamizadas com participação activa das pessoas idosas de uma comunidade. Centro de Dia: Resposta social, desenvolvida em equipamento, que consiste na prestação de um conjunto de

serviços que contribuem para a manutenção das pessoas idosas no seu meio sócio-familiar.

Serviço de Apoio Domiciliário: Resposta social, desenvolvida a partir de um equipamento, que consiste na prestação de cuidados individualizados e personalizados no domicílio a indivíduos e famílias quando, por motivo de doença, deficiência ou outro impedimento, não possam assegurar temporária ou permanentemente, a satisfação das necessidades básicas e/ou as actividades da vida diária.

Serviços e Equipamentos para Pessoas em Situação de Dependência

(11)

ANEXO 3 (ao Cap. 3)

III– A3 1

ANEXO N.º 3 - Guião-Base de entrevista

Anexo ao Cap. 3 [III-A3]

Questões incluídas no guião e tema/secção do Cap. 3 em que são abordadas as respectivas respostas:

Secção Questões do Guião

(B- Caract Amos-tra)

C1

C1

(a) (b) (b)

(c)

C2 (c)

* (c)

* (c) (c)

Nome:_____________ Sexo: [M/F] Data de Nasc. __/__/___

Vive em Faro?(Zona)__________ Nasceu cá? [S/N] ________ [se N:] Há quanto anos cá vive?____ Com quem vive?_____ (nº) ________________________(parentesco) É solteiro/casado/viúvo/(separado)divorciado? Está reformado/a? S/N ________ Há quantos anos?____ por (idade) ou por invalidez?

Qual era a sua profissão? _________________ [e/ou Que tipo de trabalho fazia?]_______________

[QV] (Gostaria de começar por falar consigo sobre qualidade de vida...)

[1]• O que significa para si QV, o que acha que é importante para o BE das pessoas, para que tenham uma vida boa? [Se só um tema: Mais alguma coisa importante?]

[se resp. anterior só geral, não pessoal:]• E no seu caso, o que acha que mais contribui para a sua QV e BE? [2]• Considerando todos os aspectos da sua vida, qual o grau de satisfação que sente actualmente? De uma maneira geral diria que está muito satisfeito/ satisfeito/ pouco satisfeito/ ou nada satisfeito?

[3]• Se comparar a sua situação actual com a de há 5 anos, diria que ela melhorou, está quase na mesma ou piorou? - que aspectos é que contribuíram para a sua vida melhorar?

- e que aspectos é que contribuíram para piorar?

[4]• E nos próximos 5 anos, espera que a sua situação pessoal melhore, se mantenha na mesma ou piore? - em que aspectos?

[Envelhecimento]

[5]• Já tem pensado na questão do envelhecimento e do que é envelhecer bem? • [Se SIM] Acha que as suas ideias sobre este assunto mudaram nos últimos 20 anos?

[Saúde] (Gostaria agora de falar consigo sobre saúde...)

[6]• Para si, o que significa ser saudável ou não saudável/o que é ter saúde?

[7]• Como pensa em si próprio, como saudável ou não saudável? S/NS Porquê?

[8]• De uma maneira geral, como considera o seu estado de saúde: Mtº Bom / Bom /Razoável/ Mau/ Mtº Mau? Porquê?

[9]• Pensando em si ou em pessoas que conhece, o que é que influencia/de que depende a saúde das pessoas?

[10]• o que é que acha importante para uma pessoa se manter com saúde? [11] •E para uma doente pessoa se recuperar/ curar?

[12]• Os estudos mostram que os portugueses, e em especial os com mais de 65 anos, são os que dizem ter pior saúde na Europa (Ocidental). O que acha disso/tem alguma ideia sobre porque será assim?

[13]•Acha que a vida que leva é... Mtº saudável / Bastante Saud./Pouco Saud./Nada Saud? Porquê? [14]• Parece-lhe que as pessoas podem fazer algo para mudar (essas) coisas que influenciam a sua saúde?

[Se Sim]: O quê?

[15]• No seu caso, faz alguma coisa para se manter saudável? O quê?

[16]•Vou referir aspectos que algumas pessoas têm achado que têm relação com a saúde e pedir a sua opinião sobre cada um... [Para cada :] …parece-lhe que têm alguma relação/importância para a saúde?

(12)

ANEXO 3 (ao Cap. 3)

III– A3 2 C3

C3

(C2 e B)

(B- Caract Amos-tra)

[Participação]

[17]• Pensando aqui em Faro, tem sugestões de medidas que pudessem ser tomadas por serviços, pela câmara ou pelo governo, relativamente à saúde, BE e QV das pessoas (c/o o sr. /da sua idade)?

[18] •Vê falta de alguma coisa que pudesse ajudar a sua saúde, agora ou no futuro?

[19]...e relativamente ao bairro/zona em que vive, há algo que gostasse de ver mudado ou faça falta?

[20]• E vê algumas medidas que o/a sr/ª por si, ou com seus conhecidos, ou através de organizações a que pertença, pudesse tomar relativamente à saúde, BE e QV das pessoas aqui em Faro?

• Vou referir alguns tipos de situações, e gostaria de saber se já esteve envolvido ou poderia estar interessado nelas: [21]... receber (mais) informação sobre saúde? [S/N] ______ Como/por quem? seu médico; sessão em grupo;

televisão; jornais/revistas/internet

[22]... ter uma palavra a dizer sobre o funcionamento dos serviços de saúde, sociais e outros [23]... participar em grupos ou associações para melhorias na vida do bairro ou da cidade [24]… ter oportunidade de discutir medidas ou políticas da câmara ou do governo

[25]•Que serviços conhece, aqui em Faro, que possam ser úteis – e/ou que façam falta -, para pessoas de idade?

(umas últimas perguntas, para terminar...)

•[Caso não tenha sido referido durante entrevista] Problemas de saúde (de longa duração) mais relevantes____ •[Sofre de alguma das seguintes doenças? Diabetes (Açúcar no sangue) Tensão Alta Reumatismo...

•Durante os últ. 6 meses ou mais sentiu-se limitado em efectuar algumas actividade? S Mtº/alg limit/N (Quais) ___

•Com que frequência é queconvive com amigos/familiares? [Todas as semanas/ 1, 2 vezes p/ mês/ Poucas vezes ao ano/Nunca]

•Frequenta clubes, associações voluntárias, etc.? (Se necess: desporto, cultura, serviços apoio à comunidade)_____ • Qual das seguintes descrições se aproxima mais do que sente relativamente ao seu rendimento actual? [permite viver confortavelm./ _dá para viver/ É difícil viver com o rendimento actual/ É muito difícil viver com o_ rendimento actual]

• Quanto anos de escola completou?___

• [Caso não tenha sido referido durante entrevista]Filhos/Família...____

• Gostaria de acrescentar alguma coisa de que não tenhamos falado? • O que achou desta entrevista?

Subtemas de C2: (a)- definição de saúde (b)- auto-avaliação da saúde

(c)- influência sobre a saúde e determinantes da saúde

(13)

ANEXO 4 (ao Cap. 3 - C)

III– A4 1

ANEXO N.º 4 - Tópicos/Domínios de Vida:

Anexo ao Cap. 3 [III-A4]

Comentários gerais

Transversalmente, no conjunto das entrevistas, encontram-se referências a uma série de temas ou domínios1 que, abordados enquanto determinantes da saúde, factores relevantes para a qualidade de vida, objecto de sugestões/ ”queixas” ou noutros contextos ainda, podem ser úteis como pistas para a compreensão do quadro de vida dos entrevistados (tal como é por eles percebido), dos modos de encarar/ lidar com diversas circunstâncias e ainda, mais especificamente, dos potenciais recursos ou factores de risco/obstáculos a considerar numa intervenção de promoção da saúde e bem-estar.

Por isso mesmo, e embora não constituíssem objecto inicial da pesquisa, se optou pela sua apresentação, sem pretensão de exaustividade, e menos ainda de generalização - que, aliás, em qualquer caso, não poderia aspirar a mais do que ser um “retrato datado” (Fonseca et al., 2005)... A inclusão deste material servirá então sobretudo para ilustrar o tipo de indicações que é possível obter através de depoimentos deste tipo, atestando também a diversidade (e ocasional convergência...) de situações e perspectivas. De qualquer modo, muitos dos aspectos encontrados são comuns aos detectados noutras investigações, tendo a análise efectuada valorizado os elementos que serão mais sugestivos para a intervenção e que sobressaem pela frequência e/ou importância com que surgem nos depoimentos, ou ainda por versarem sobre aspectos habitualmente menos focados/conhecidos. Sempre que possível procurou-se realçar o significado e interrelações que assumem no contexto concreto de vida dos entrevistados, e estratégias por estes adoptadas para lidar com as diversas situações.

•••• Recursos Económicos

Como se viu, este domínio foi expressamente apontado como central para a QV/BE por cerca de um terço dos participantes - sobretudo, pela negativa, em termos da dificuldade de conseguir fazer face às despesas mensais e/ou da aspiração a essa segurança - por exemplo:

Mas era bom era uma pessoa poder - sem esbanjar, sem fazer disparates – poder governar o mês inteiro sem a preocupação “Chegará ou não chegará ao fim do mês? (E01)

Porém esta temática mereceu igualmente comentários noutros momentos ao longo das entrevistas, reforçando-se a ideia de que seja vivenciada como fonte de restrições e preocupação para vários entrevistados. Embora não fosse pedida informação objectiva quanto ao rendimento auferido, e tenha sido com frequência difícil obter uma resposta clara à questão sobre a percepção do mesmo, os dados sugerem que mais de metade dos entrevistados têm de facto pelo menos algumas dificuldades económicas, sendo que vários deles terão mesmo problemas muito significativos (ou teriam, se não contassem com apoio familiar...).

Um dos obstáculos à percepção mais clara da situação dos entrevistados neste plano resulta de uma forma de encarar este tema, que se resumirá talvez bem na expressão “estica-se a perna à medida do lençol”, directamente evocada por duas entrevistadas (E6, E01) mas subjacente também a outros depoimentos: Ele chega mas tenho que o esticar (E1); O rendimento não é muito – mas eu faço sempre chegar (E2); Ele tem de chegar, pois não vem de outro lado, tem de chegar... (E5); Se não der, faço dar! (E9).

Nalguns casos assente numa vida inteira de subsistência/adaptação face à escassez de recursos económicos, é de supor que esta atitude tenderá a subvalorizar as dificuldades efectivamente existentes - por assentar em aspirações modestas e até em valores que envolvem um certo brio associado a essa mesma capacidade de subsistência. Disso parece bem expressivo o seguinte testemunho:

Quando o meu marido era vivo – que o ordenado dele era pequeno – (...)disse-me assim: “Olha, toma lá: é o que tenho para te dar”. E eu (): “Com isto é que vou governar o mês?!” Eu nunca mais me esqueço destas palavras. E ele respondeu-me: “Queres que eu vá roubar?”. E isto ficou aqui gravado. E eu sempre – penso eu que sempre fui bem orientada. () Ele entregava-me os tostões que trazia () e eu dividia aquilo por 30 dias. () E só gastava aquilo que eu podia. ()Portanto, tanto tinha no primeiro dia do mês, como tinha no último. Ninguém me ensinou, foi da minha cabeça. E a minha vida tem sido assim. Nada de... estragar. Que o ordenadinho chegue

(14)

ANEXO 4 (ao Cap. 3 - C)

III– A4 2

até ao fim do () mês!. (...)E o meu marido às vezes dizia-me assim, para gozar comigo (): “Então não tens falta de dinheiro?” “Eu não!” (...) O que é que eu levei muitos anos (), sem comer carne, sem comer fruta, para ter para dar aos filhos. Mas dívidas e essas coisas nunca tive. (E9)

É depois por exemplo na descrição das despesas que podem e não podem fazer - temática espontaneamente recorrente em várias entrevistas - que se vai delineando um retrato um pouco mais claro das limitações impostas pela situação económica que vários vivem. A aspiração essencial, como já se referiu, será sobretudo poder fazer face às despesas mais básicas - sobretudo as ligadas à habitação e alimentação:

Casa, água e luz, comer - já não digo vestir e calçar, porque a maior parte da roupa as minhas filhas dão-me, o calçado é compro porque elas têm um pé maior do que o meu (riso). (E01)

Por exemplo este tipo de referência a que o vestuário está fora do orçamento - usa-se o que se tem e/ou às vezes o que é dado - surge em várias outras entrevistas - em E1 e E6, mas também E5, E8:

Mas eu como não gasto mais nada... ()Não penso na roupa, tenho bastante. Às vezes () dão-me, e eu depois arranjo aquilo tudo, muito bem arranjadinho.

A roupa não se estraga! Já viu () que a gente às vezes até se aborrece da roupa durar tanto! (riso)

Naturalmente para os com rendimentos mais baixos, não está em causa o pagamento de renda de casa aos preços habituais de mercado - os que não têm habitação própria contam por vezes com alugueres antigos de valor muito reduzido (e consequentemente casas com menores condições de habitabilidade, como se viu noutro ponto) - por exemplo: O que vale é que eu pago uma casa barata, barata. Senão, não conseguia (…) Como é que eu podia, se eu fosse

pagar uma casa agora de 40 contos ou coisa assim, como elas são – como é que eu vivia?! (E5);

Pago 10 (contos) de casa, pago água, pago telefone, pago aqui (instituição)... (...)Sexta, sábado e domingo como em casa. Todos os dias tens que comer jantar () ou então bebes o leite mas também custa dinheiro... (E1) Mas como ilustra este último depoimento (e outros), até os gastos com a alimentação são fonte de preocupação.

Uma das referências talvez mais frequentes é aos medicamentos que, em vários casos, constituirão um encargo desproporcionadamente grande:

Tenho gasto muito dinheiro em medicamentos: isso é que é pior! (...) Quando tenho que comprar medicamentos () aí eu não posso comprar outras coisas, vai para os medicamentos já não posso (E2)

(Medicamentos) muito caros. Porque há 2 meses estive um bocadinho assim até... Porque quando é um mês de ir buscar os remédios, aí está um bocadinho atrapalhado. (E1)

O dinheiro que eu ganho tenho que fazer um grande sacrifício para conseguir chegar para os medicamentos – e às vezes nem chega! Não se compra hoje, compra-se amanhã e tal – e é assim que a pessoa se vai governando. (E5) A outra metade (da reforma) é para os remédios – os remédios são caros (E6)

Aliás mesmo para quem tem condições económicas mais razoáveis as despesas com saúde podem ser ainda assim um peso significativo no orçamento familiar:

E depois tenho esse problema (de saúde) – gasto muito dinheiro com médicos; tenho que ir a Lisboa de vez em quando, essas coisas, e então... (E02)

Também os serviços de apoio (Centro de Dia, Apoio Domiciliário), para os que frequentam instituições de solidariedade social, são às vezes apontados como encargo pesado. Os montantes envolvidos são inclusive, na perspectiva de alguns, limitativos do acesso aos serviços que desejariam:

Ainda acho que é um bocadinho caro. (...) Pois acho que todas as pessoas deviam ter... () que tivessem quem as ajudasse, em tudo. E faz falta. Assim os muito velhinhos, não querem vir para estes lugares (Centro Dia), e vai uma Sr.ª tratar deles a casa. Eu, por exemplo, não posso porque o meu ordenado não chega para isso, a minha reforma não chega para isso, é pouca (E6)

A este propósito é de relembrar - como se repete noutro ponto - que a incerteza quanto a poder fazer face a despesas desta natureza em caso de necessidade de maior apoio, pode aumentar a preocupação de alguns com o futuro - por exemplo:

(15)

ANEXO 4 (ao Cap. 3 - C)

III– A4 3

É também de ter presente que nalguns casos as condições de saúde tornam já indispensável ter apoio em algumas tarefas domésticas (por exemplo: o pó e assim, sim, mas o chão não: () como não tenho muito equilíbrio () não posso, vou eu e o balde - E1), o que pode constituir uma despesa difícil ou até impossível de suportar (Mas com a minha reforma () não posso pagar a ninguém, não é? - E3)

Com orçamentos que nem sempre cobrem sequer as necessidades essenciais, a mais simples actividade de lazer pode estar vedada:

Ele chega mas tenho que o esticar. Eu não vou ao bar, não como bolos nem nada disso... Levo uma vida bastante modesta... (E1)

Não posso ir a um café, não posso ir a um cinema. Eu não posso ir a lado nenhum! porque gasto dinheiro. Se eu gastar dinheiro já não posso (E5)

E surgem igualmente testemunhos, de outras oportunidades de participação e sociabilidade serem restringidas por razões económicas - como a pertença a associações, descontinuada no caso de E13 e também E5: Antigamente era sócio (2 associações) – mas era quando trabalhava. Agora depois isso acabou tudo: não há para pagar (E5). E haverá toda uma série de privações, algumas com importantes repercussões emocionais - como demonstram as lágrimas de uma entrevista ao relatar não ter tido, num dado momento, possibilidade económica de comprar presentes de Natal para os familiares mais próximos.

De salientar, para além do mais, as implicações directas que as limitações financeiras podem ter em aspectos relativos aos estilos de vida saudáveis habitualmente recomendados - designadamente:

- a alimentação: Pois se (a mulher - que tem diabetes) pudesse comer tudo, era uma panela de grão com massa, pronto, já estávamos governados. (riso) Assim não pode, tem de comer outras coisas. E tudo essas coisas são caras. (E5) - a actividade física: Andei na ioga – mas tudo isso perdi. Há uma porque depois deixei de ganhar, foi só (aquela) reformazinha (E8)

- e mesmo a adesão à terapêutica: Mesmo que eu queira às vezes comprar medicamentos () que o médico receita, a gente não pode comprar, que o dinheiro não dá (E5)

A este tipo de restrições objectivas acrescem, como se viu, de forma particularmente sublinhada por alguns entrevistados, as preocupações e insegurança alimentadas pela insuficiência de recursos financeiros:

- seja no dia-a-dia (p.ex: eu não digo para a gente esbanjar, mas para as coisas que nós necessitamos, não é estar preocupada: “como é que eu vou arranjar o dinheiro para ir agora ali à farmácia -E1);

- seja face ao futuro (p.ex.: Agora daqui para diante não sei como vai ser! () Mas como eu também já estou no fim da vida... - E5);

com o que acarretam em termos de inevitável redução de bem-estar e até de saúde mental - nas palavras de E5, por exemplo a depressão da mulher: É tudo por causa disso! Por causa do dia a dia, do que passa durante o dia: não poder ter o que precisa.

Interessante é notar que, em especial este potencial impacto numa vertente psicológica, parece só ser valorizado por entrevistados eles próprios directamente afectados por situações desta natureza. Nos mais afluentes o reconhecimento de possíveis consequências negativas das dificuldades económicas, nomeadamente ao nível da saúde, quando existe, tende a limitar-se ao plano material (p.ex. acesso a cuidados de saúde, alimentação, condições de habitação, etc. - ver análise de percepção de determinantes da saúde). Mas encontra-se também o que parece ser mesmo uma certa relutância mais genérica em assumir a dimensão económica como relevante - por exemplo:

Tem um bocadinho, terá um bocado de influência (na saúde), mas... pronto, se estiver ali assim pelo meio também não precisa mais. () O equilíbrio, haver... o razoável (E7)

Embora, como se disse, algumas destas pessoas tenham vivido uma vida inteira de restrições económicas, convém lembrar que há também situações em que tal só se verificou, ou agravou, após a reforma:

Pagavam-me mais dinheiro de ordenado mas não punham lá o meu dinheiro todo - e depois vim para a reforma mínima. E a gente () tem que baixar as orelhas porque tinha que comer! (riso) (E13)

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ANEXO 4 (ao Cap. 3 - C)

III– A4 4

A desproporção sentida entre os aumentos no consumo resultantes da inflação e os nas reformas é aliás objecto de queixa amarga - e da já referida ansiedade acrescida face ao futuro - por alguns entrevistados. Por exemplo:

Porque é engraçado: eu não me importava de me aumentarem a comida - mas aumentassem-me a reforma! Já eu tinha dinheiro para pagar a comida. Mas não senhora! aumentam, aumentam mas ninguém dá nada (...) O ministro agora () a dizer que ia aumentar as consultas ! () Ainda gostava de vê-lo, com a minha reforma... () e viver, pagar casas, pagar tudo! A ver como é que ele vivia. E aumentar!! Então ele não vê que se a pessoa tem 10 tostões, agora compra aquela peça por 10 tostões, fica sem dinheiro nenhum!! () Não sei como é que eles querem que uma pessoa... - se eles não aumentam o dinheiro à gente, como é que a gente vai comprar!?!... Ou como é que a gente vai pagar?! (E13)

A importância atribuída por parte dos entrevistados a questões económicas encontra pois também eco, como se descreve na secção respectiva, em termos de sugestões/necessidades/aspirações expressas quanto à actuação política.

•••• Relacionamentos Interpessoais e Suporte Social Solidão

Como se viu a solidão é um tema referido por muitos entrevistados como problema presente nas suas vidas (p.ex. E1, E2, E9, E13) mas também como risco combatido (E7, E11) e/ou situação já mais ou menos ultrapassada (E01).

Estes últimos casos são particularmente interessantes porque explicitam como é possível, senão superar totalmente o problema, pelo menos reduzi-lo - mas, de uma forma ou de outra, todos os entrevistados que se queixam de solidão tendem também a revelar modos de a minorar. Às vezes tal sucederá “naturalmente” no confronto com a situação:

Vivi muitos anos com a minha mãe (depois faleceu, fiquei sozinha) mas já me habituei. Até já nem me sinto bem quando está alguém (E01)

Não é só de agora, não foi de velha, já em nova era assim. Era uma coisa que eu não gostava era de estar sozinha – e Deus me deu este castigo. (...) Mas a vida das pessoas ensina muita coisa (...) há pessoas: “Ai!, eu não faço!, eu não posso!, eu não...” A gente faz tudo, quando chegar as alturas! (E9)

Mas há também descrições de estratégias que dependem da iniciativa da própria pessoa - por vezes com indicação de forte empenho e determinação:

Eu tento levar a minha vida o melhor possível, vencer uma situação que foi um bocado difícil (viuvez) – claro, é sempre para toda a gente. Mas tenho conseguido vencer, graças a Deus, tentando preencher o tempo com várias coisas, com várias actividades que tenho.(...) Enquanto cá estamos temos obrigação de (...) (E7) Pode ser às vezes útil o apoio de outros:

Eu sei que quando saio de casa (fico mais bem disposta) (Só que) aborrece-me a sair, o mais das vezes. Mas a minha filha puxa-me muito! (...) Tenho (uma amiga), que ela vai a todas e desafia-me muito e eu vou, e ela tem-me ajudado muito! (E02)

Embora variando consoante as pessoas, o “sair de casa”, ocupar-se com actividades várias, usufruir de várias tipos de relações interpessoais e, inclusive, frequentar instituições são algumas das formas mais referidas pelos entrevistados de contrariar a situação ou ameaça de solidão. Mencionado também, em dois casos, o aluguer de um quarto da sua casa. Em contrapartida, como se refere noutro ponto, ir viver para um Lar ou com os filhos de forma geral não se apresenta, entre os entrevistados, como boa solução para a solidão - mesmo para quem com ela mais sofre:

Pois eu não gosto de estar sozinha, mas também não gostava de ir para o lar (...) Para a casa dos filhos, ainda menos. (E9)

Ainda que muitas vezes compensada ou, como no caso anterior, vivida como um mal menor face às alternativas, ou simplesmente aceite com alguma resignação (como uma parte de um balanço mais global de vida):

Estou sozinha, mas também não estou assim tão mal quanto tudo isso (E2)

a solidão é, de qualquer modo, um factor negativo sem dúvida potencialmente importante na vida das pessoas, com implicações diversas2 - por exemplo:

É muito aborrecido, estar em casa sozinha (E2)

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ANEXO 4 (ao Cap. 3 - C)

III– A4 5

Eu o meu mal de há muitos anos é os nervos. Desde que eu fiquei sozinha pois (E9)

De noite é que, quando me vou deitar, penso assim: “Qual será a noite, que eu me vejo aqui aflita, sozinha?” (E9) Às vezes tenho medo de ficar ali numa cama e quem é que eu tenho, não tenho ninguém () Preocupa-me muito (E1) Ás vezes entra aquela saudade, aquela recordação... (E01)

Este última aspecto lembra que a solidão, no seu sentido mais forte pelo menos, parece sobretudo ligada à perda da relação conjugal/de coabitação e à situação de (ficar a) viver sozinho - confunde-se portanto, em parte com a situação de viuvez, abordada adiante. Será também reforçada pela noção de que “não tenho ninguém” remetendo para a perda/escassez de relações familiares de proximidade.

Coabitação/ Relação Conjugal

Como se viu, as relações conjugais tendem a ser destacadas pelos entrevistados sobretudo pela negativa e em dois tipos de situação3 - sobretudo na viuvez, mas também quando marcadamente negativas - circunstâncias em que podem ser importante determinante (desfavorável) ao BE/QV:

A viuvez, é como referimos já, na generalidade da vida dos entrevistados, um evento crítico, podendo ter fortes implicações negativas, não só na altura:

Quando ela morreu... nem quase saía de casa tão pouco (E13)

Tive momentos muito, muito em baixo (...) fases mais negativas da vida (...)(E7)

mas porventura continuando também a afectar o bem-estar muitos anos passados - por exemplo, E1 chora ainda ao referir-se à morte do marido (apesar de ter ocorrido há mais de 10 anos).

As dimensões envolvidas nesta perda serão várias - e embora o material recolhido não as permita aprofundar dá mesmo assim algumas pistas. Para além dos aspectos mais afectivos inerentes à privação de uma relação privilegiada:

como (nos) dávamos bem (E1); fomos amigos a vida toda (E10), e dos ligados à sociabilidade quotidiana:

Com a mulher tinha mais companha, era mais... (E13)

haverá também os decorrentes de ficar sozinho, uma situação que, lembre-se, para mais nunca tendo sido antes experimentada, pode alimentar temores (eu tinha medo de tudo! - E9), em acréscimo a dificuldades de ordem prática:

Foi um bocado difícil, na transição (porque) era o meu marido que tratava (IRS, condomínio, etc.) – depois eu tive que chamar a mim, não estava habituada (E7)

para além do já mencionado espectro de doença súbita ou dependência, que tem óbvias complicações agravadas para quem não tenha um apoio próximo.

Mas, como sugerem alguns testemunhos, o ultrapassar das dificuldades não só é possível (pelo menos parcialmente):

tive azar, o meu marido morreu (tão cedo) - mas já sofri, já passámos... (E02) como pode até ter repercussões positivas na autoconfiança individual:

Então alguma vez eu pensava ficar viúva e ficar sozinha em casa? Nem, nem, nem pensar!” (...) Mas a vida das pessoas ensina muita coisa (...) A gente faz tudo, quando chegar as alturas! (E9)

Quer dizer, tive momentos muito, muito em baixo, muito... mas que pensei: “eu sou capaz de ultrapassar isto, eu hei-de vencer, tem de ser! eu tenho que viver” e portanto, “vamos lá, depende muito de ti. Há coisas que tu podes ocupar a tua vida, que te podem ajudar - e é isso que tu vais fazer!” E tenho conseguido, graças a Deus tenho conseguido suplantar, e sinto-me muito orgulhosa, por isso, não é? (E7)

(18)

ANEXO 4 (ao Cap. 3 - C)

III– A4 6

Para esse atenuar e vencer das dificuldades, viu-se já, os entrevistados “jogam mão” de diversos recursos e estratégias - merecendo um provável papel de destaque as outras relações interpessoais, e em especial, os filhos e demais familiares próximos:

Se um (membro de um casal) fica sozinho, sem ter os filhos ao pé... Eu digo que é a melhor coisa que a gente tem: é ter um filho ao pé. (E10)

Mas, referiu-se antes, a existência de uma relação conjugal não é por si só necessariamente factor de bem-estar - depende da qualidade das mesmas. Para além das situações mais extremas, podendo, como já se referiu, incluir maus-tratos, haverá também que atender a que uma má relação de muitos anos, como será por exemplo o caso de E6 (Levei a vida inteira a aturar o meu marido, a vida inteira!) não se transformará, provavelmente, em recurso na/pela velhice...

Com ele não posso contar para coisa nenhuma, só para me dar trabalho.

Assim, aliás, o confirma E8, que chegou a ter processo de divórcio em tribunal e o interrompeu: (porque) eu depois comecei a pensar que ele que melhorava quando fosse para mais velho – mas não.

Família (não coabitante)*4

Os familiares - sobretudo os filhos, os netos, mas também os irmãos e/ou outros parentes - representarão um papel importante na vida da generalidade dos entrevistados. São, como se viu, em vários casos destacados como factor positivo para a QV/BE (E7, E13) ou valorizados noutros pontos da entrevista (E9, E10, E02); e/ou a sua inexistência, morte ou distanciamento (geográfico ou afectivo...) é apontado como algo negativo, por vezes traduzindo-se na expressão de “não tenho ninguém”/”sou sozinho” (p.ex., E1, E2, E13). Mas mesmo quando tal importância não é assim expressa, ela pode ficar também subentendida, por exemplo (E6), por menções frequentes ao longo da entrevista.

No entanto, os padrões de relação, nomeadamente com os filhos, apresentam muito grande variabilidade - mesmo no pequeno conjunto de situações entrevistadas.

Algumas serão de contacto permanente (p.ex., E10, E02), outras menos quotidiano (p.ex., E9, E01) - ou então marcadas pela distância geográfica (p.ex. E5 tem a filha noutro ponto do país e os de E11 vivem no estrangeiro). Nalgumas é valorizada sobretudo a componente afectiva (e, porventura, securizante) - por exemplo:

A família é uma parte muito importante na vida da pessoa () basicamente é o mais importante(...) É o conforto, é saber que está ali, mesmo sem falar a pessoa está presente.(...) Ainda que monetariamente muitas vezes pode não poder ajudar, pode dar-se esse caso, ou a pessoa nem necessitar ou qualquer coisa, mas é basicamente aquilo que nos conforta mais (E7)

Tenho a minha filha que vive perto de mim, tenho a minha neta que vai dar um bisneto, também – estou muito contente. (E) gosto muito do neto que ela me deu (riso)(E02)

É aquela parte ... pessoal, aquele contacto, dizer assim: “como é que estás?”5 (E11) podendo constituir até, de alguma forma, aquilo que dá mais sentido à vida:

Na minha vida, é uma meta que tenho ainda em vista, era ver ainda (os netos) encaminhados na sua vida. E vive-se para isso, para a filha... (E7);

De forma que estou aqui à espera que ela (a morte) chegue (...) Oh!, enquanto que cá andar vou convivendo com os filhos, com os netos, com os bisnetos (E9);

Às vezes faço a mim mesmo essa pergunta: “Durante estes 81 anos o que é que eu fiz que foi assim tão importante?”... “Ah, criei esta família” (E11)

Noutras relações, a vertente de apoio prático recebido é também central/incontornável - por exemplo: Tenho a minha filha que olha por mim (E13)

De facto há situações - nomeadamente as de problemas de saúde de significativa gravidade - em que a dependência face ao apoio dos filhos pode ser muito grande, em diversas vertentes, enquanto que noutras é mais pontual /parcial. Entre as áreas referidas nas entrevistas inclui-se o envolvimento:

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ANEXO 4 (ao Cap. 3 - C)

III– A4 7 - em tarefas quotidianas:

O que não sei ainda fazer bem é a sopa! - mas a minha filha lá faz-me uma panela de sopa (E13)

Como estive um bocadinho mal a minha nora é que tinha que me ir dar banho, me vestir, me preparar, me tratar da comidinha: um dia levava um, outro dia levava outro. (E6);

- nas compras:

Já há mais de 2 meses que não saio de casa. A minha filha é que me vai buscar as coisas e o meu filho (E10); À loja não vou! nunca mais comprei nada! (...) O meu filho é que me compra qualquer coisa (E8)

- a nível financeiro:

Eu vou à farmácia buscar as coisas e ele é que vem pagar (E8)

Olhe ainda anteontem a minha filha me trouxe um saco - um saco! - de medicamentos! Nem sei tão pouco... porque ela é que tem lá o dinheiro (E13)

O meu filho, pôs-me uma casa, comprou tudo (E6) - em sugestões, conselhos, apoios em áreas diversas:

E a minha filha quando soube (do problema): “Se calhar é da comida, que põem muitas gorduras (...)” (E13); E um dos meus netos é nutricionista e diz-me ele assim: “Ó avó! () Também para que é que tu estás a tomar isso

tudo - tu podes tomar o cálcio natural (...)” (E01);

Eu disse ao meu filho: “Ó (X), mas então eu nunca mais vi o mar!...” () Diz ele assim “Vai ao pé da doca!” ()E é aqui pertinho! é só atravessar – e eu que não me lembrava! (riso) (E8)

“Qual será a noite, que eu me vejo aqui aflita, sozinha?” Os meus filhos dizem assim: “telefone!” (riso) Se eu tiver mal, posso mesmo telefonar. (...) Ainda ontem estive a pensar assim: tenho que dizer a ele para me telefonar aí à volta da meia noite (...) (E9)

- e mesmo em questões de fundo - como, no caso de E3, a mudança de cidade, aluguer de casa, etc. Aliás em mais de um caso os filhos estão envolvidos no começo de frequência de instituições :

E então a minha nora sabia disto (Centro de Dia) e pensou em fazer uma reunião – como esteve aí o meu outro filho que está (emigrado) – fizeram uma reunião, e achei, e eles acharam por bem “Vais experimentar: se gostares ficas, se não gostares ficas em casa” (E6)

E depois vim ter com a Dr.ª (do Cento de Dia), e fomos muito bem recebidos, eu com o meu filho (E8)

Uma nota também para a relação com o médico onde a “intermediação” dos filhos parece ser frequentemente necessária - até porque: eu às vezes não ouço bem - e a gente para ir a um médico tem que ouvir bem para saber o que vai fazer! às vezes não percebo, e às vezes dá-me vergonha de estar a perguntar tanta vez (E13).

Mas várias pessoas não referem qualquer tipo de apoio recebido - e há, em contrapartida, casos em que o apoio se faz (também) no sentido inverso - por exemplo:

Ainda sou eu que coso as meias do neto (riso). (...) e que me ajuda, e que gosto e que faço com prazer: ainda poder ser útil a um neto que já tem 21 anos (E7)

Mas mesmo assim (o dinheiro) vai dando (para viver) e ajudar a minha filha e... (E02)

Eu tenho o meu irmão. E sempre lhe faço coisinhas para ele () e comida e a roupa e isso. Aqueles cuidadozinhos todos (E2) Inclusive quando as dificuldades são já muitas, e a ajuda recebida grande, tal não significa que não possa também continuar a ser dado um contributo - como o caso de E13, que ajuda na produção de tapetes da filha embora: agora só o que tenho feito é as franjas (...) ainda há pouco tempo fiz lá para uns 50 e tal metros.

A paridade, não só nas “trocas” de apoios (o nosso desejo é não pesar à família - E7) mas também noutras vertentes é um aspecto valorizado por alguns - nomeadamente o não sentir o “fosso intergeracional”...:

E às vezes até as minhas netas – tenho 2 netas (na casa dos vinte) – também não desgostam de conversar comigo e de estar comigo (E02- a propósito de manter um espírito jovem e se relacionar com pessoas mais jovens); embora nem sempre tal seja possível:

Todos eles (os filhos) dizem que o velho já está velho, já está antiquado (E11).

De facto, como é evidente as relações familiares estão longe de ser sempre/só favoráveis. Pode até marcadas pela mágoa - como se adivinha no já referido o caso de E3 (...quem não me acompanha como deve ser...), e como outros entrevistados salientam relativamente à situação de terceiros:

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ANEXO 4 (ao Cap. 3 - C)

III– A4 8

Eu penso até que quem não tiver () digamos, a sorte, de ter a família que tem de olhar por ela, de estar presente, vale mais não a ter! Vale mais a pessoa estar completamente só do que saber que tem família e que não está por perto de si quando é necessário aquele braço por cima, aquele aconchego, aquela presença (…) Para mim digo-lhe: vale mais não existirem! Vale mais estar só! (do que ter) uma relação tensa com um familiar, o familiar mais próximo (E7)

Mas mesmo que com um balanço amplamente favorável há possibilidade de diversos tipos de tensões - inclusive, por exemplo, por excesso de cuidados...:

eu sei até onde posso ir (na condução) - mas a minha filha não tem () mais nenhuma mãe – e então preocupa-se muito, demasiado! Porque eu quando estava na outra casa era mais livre: saía, entrava, e ela não via (E02) Também já caí! Estou muito mal do meu braço. Mas () eu não quis dizer nada (à minha nora) senão ela espetava

comigo no hospital. (riso) (E6)

E depois há ainda a diferença entre o que podia ser o ideal desejado e aquilo que os entrevistados reconhecem como a realidade incontornável - em especial no que se refere às disponibilidades dos familiares:

Eu tenho bons filhos, tenho bons netos () Não podem estar é sempre aqui de roda de mim. (E9)

A minha nora (tem uma profissão) tem mais que fazer e tem um menino(); o meu filho também trabalha (...) Agora é assim, os filhos trabalham, não podem cuidar da gente temos que vir para um Centro de Dia, para um Lar, que eu não sei se isso me vai acontecer – Deus queira que não! (E6)

A família tem que sair, a família não pode estar ali. Hoje o dia a dia da família não é como antigamente (E7) para mais acentuada pela já referida preocupação de alguns em preservar algum equilíbrio nas relações familiares:

Porque eu vejo que o meu filho, também não... enfim, eles trabalham, têm as suas vidas, e eu não quero que eles vão gastar aquilo que lhes pertence (E8)

Ou será um velho, um peso em cima da família – que também há, não é? (E1);

Não pesar (à família) neste sentido: não lhe criar complicações no seu dia a dia; se possível até libertá-los, ajudar (E7). Este tipo de dilemas e ambiguidades na relação com a família põem-se naturalmente com especial acuidade em torno da questão da dependência e de que soluções adoptar nessa circunstância - retomada noutro ponto da análise.

Amigos, Vizinhos (e outras redes/relações informais)

Nem só as relações familiares contam como importantes factores de BE/QV. A valorização de aspectos positivos associados a relações de sociabilidade (extra-familiares) é aliás dos aspectos mais universalmente presentes nas entrevistas. Já os tipos de relação em causa podem variar bastante.

Os amigos merecem para alguns um lugar de destaque - por vezes assumindo até, de alguma forma, um papel que tradicionalmente pertence à família:

Vou para o pé das minhas amigas, no Natal passei com as minhas amigas. Eu não tenho ninguém, tenho só o meu irmão (E2);

E os amigos: (é) importante – porque muitas vezes há amigos que ainda são mais... que estão mais presentes (do que a família), ou porque têm mais oportunidade, porque são pessoas também sós e que nos acompanham mais (...) Ter amigos ajuda-nos muito. (E7);

Hoje vivo muito para os amigos (E8).

Mas falar de “amigos” pode ter significados diversos para as diferentes pessoas. Algumas falam de “pessoas amigas” para designar quem conhecem, usam intermutavelmente por exemplo, os termos vizinhas e amigas. Ou até, como já se viu referem-se ao médico, à “minha Dr.ª” da farmácia, etc., como amigos (E1, E8) - aqui no sentido, presume-se de alguém que trata bem, que ajuda. Mas outras expressamente distinguem:

Esta coisa de ter amigos: há amigos e há conhecimentos. Eu amigos dou um sentido muito especial; um amigo para mim não é uma pessoa que eu conheci esporadicamente, e que amanhã continuo a encontrar-me. (...) Verdadeiramente amigo é aquele com base já de muito longe. (E7)

Essa será uma das razões porque, também no domínio da amizade, há por vezes dificuldades - mas referem-se outras: Já não é fácil, na minha idade, estar a construir amigos. (São) os que já tinha, os que vou acompanhando. Uns

vão-se perdendo ao longo da nossa vida, adquirem-se outros, mas já não é tão fácil. (E7);

(21)

ANEXO 4 (ao Cap. 3 - C)

III– A4 9

assim com muitas cantigas já, já não vou. Já não vou assim com tantas amizades. Aqui tenho para aí 1 ou 2 amigos – conhecidos! E tenho como eles são sinceros () – mas o mais não, não quero nada. (E5)

Já estou desta idade e doente () já não ganho mais amigos. Os amigos são aqueles que já tinha, mais nada. (..)Já não é fácil. Os amigos são doentes: uns não sabem o que dizem, outros já estão... () Aqui onde eu estou (instituição) já não sabem o que dizem, coitados, não sabem nada. (E3);

Eu tenho amigas, pessoas amigas de sempre que sinto-me bem com elas. Noutro tempo ia vê-las, pegava no carro ia – mas agora tenho este problema () na vista já não... (E02)

A nossa mentalidade ainda não se adapta a isso. Porque hoje, se me encontram a falar aí na rua com uma Sr.ª as pessoas dizem assim: “Óóó!” Ou se é ao contrário a mesma coisa: “Óóó!” Não estão ainda mentalizados para o facto de que () eu como homem posso ter uma mulher amiga () e vice-versa (E11)

No meu tempo era assim, as amizades que eu tinha, quando eu queria desabafar (...) havia um suportezinho, as pessoas eram... os psicólogos, vá, digamos(...) Hoje não (): “Vai ver o psiquiatra” (E11)

Se as relações extra-familiares são destacadas e valorizadas - e inclusive reconhecidas como determinantes da saúde - quase sempre pelo lado positivo (ou pela falta), ocasionalmente apontam-se também vertentes negativas :

Quando a gente tem convivência com uma pessoa assim amiga e que... é da nossa opinião () isso ajuda muito. Agora quando tem daquelas que... - que é isso que se passou comigo – isso magoa muito. (E02)

Certas atitudes (...)Quando a pessoa vê coisas assim... que não devia de... a pessoa fica () amachucada (E8)

De entre as inúmeras possibilidades de relacionamentos interpessoais e vantagens que envolvem lembrem-se: Estar em casa, não ter convívio, não contar com pessoas algumas, e essas coisas todas. Tudo isso, dá em doença! (E5) A convivência ajuda, as opiniões, dar sugestões até (), isso ajuda. Precisamos de uma palavra amiga (E3)

Conviver com as minhas amigas () sair. Sentia-me mais à-vontade e disfarçava: () vinha para casa mais aliviada. (E02) A minha comadre vem quase todas as semanas a ver-me – já é uma grande coisa para mim! (E10- que não pode

sair de casa);

Estou aqui (instituição) e estou muito bem, tratam-me bem, gostam de mim, eu faço o possível também por agradar às pessoas (E1)

A comunicação também nos ajuda muito! () a confraternização que temos na (instituição) também é muito agradável (E7) (Na casa/zona onde vivia) tinha companhia, conhecia as pessoas, um cafezinho ali ao pé que ia tomar (E02) Gosto muito de reinar, gosto de brincar, gosto de mangar – e isso é tudo convívio (E6)

A minha farmácia, () a minha Dr.ª () diz “Venha e descanse aí um bocadinho, connosco, que está bem acompanhada” () E as outras pessoas que (entram) ()tudo realmente me estima (E8)

Olha, vou à mercearia todos os dias! Só no caminho encontro (gente) para dar à língua um bocado. (E9) Isto como é uma rua que passa muita gente, faz de conta que me fazem companhia (E9)

A minha vizinha agora esteve em Lisboa 15 dias, até as minhas canitas achavam menos (i.e.,sentiam falta)... ()Há pessoas que dizem: ah!, que fazem barulho () Eu não, eu acho menos é o... rojar uma cadeira, () uma mesa – acho menos esse barulho. () Gosto de sentir companhia sim senhora. (E10)

Estou na minha casa, estou bem. Tenho as minhas vizinhas ali ao pé, é preciso uma coisa qualquer vou lá, vêm à minha casa. (E2)

Estou bem integrada lá (no bairro), muito bem (...) (Vizinha) hoje é quem me vale. () Quando eu preciso de ir ao Hospital ou assim, então ela é que vai. Vai-me fazer as compras. Ainda ontem () “que é hoje o teu almoço?” () “Olha a minha mãe está a fazer arroz de pato eu depois trago-te cá” (...) (E1)

Este vizinho aqui também constantemente vem-me buscar para ir jantar com eles à noite (...); Tenho ali outro vizinho () que vêm-me a trazer jornais: lê e depois vem trazer para eu ler (E13)

e até

O gato é quem me anima (E02); É uma companhia muito grande! (E01)

Claro que - repete-se - nem todos têm de forma alguma os mesmo interesses e apetências - por exemplo: Que eu não gosto muito da vida de sociedade, não.(...) Eu vou a um café, estou um bocadinho, cavaqueio um

bocadinho, vou-me embora. (E7)

Imagem

Fig. 3-IV:  Comparação de Indicadores de Resultados de Saúde e Estratificadores e de Medidas de Desigualdade  (Portugal – 65 e +anos, HM)
Fig. 4-IV:  Comparação Amostras: Portugal (HM; Homens; Mulheres) e outros países Europeus, por SE e resultado de saúde 4.a-IV:  Nível Escolaridade
Fig. 5-IV:  Indices Sumativos de Associação e de Impacte
gráfico próprio)
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