Rev Assoc Med Bras 2005; 51(3): 121-32
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Re ce nte me nte fo ram publicadas dire trize s para rastre am e nto de do e nça co ro nária e a co nclusão fo i de que não é re co m e ndado o rastre am e nto de ro tina e m adulto s co m baixo risco de do e nças do co ração , atravé s de e le tro cardio gram a, te ste de e sfo rço o u to m o grafia co m putado rizada, po rque se u dano (m uito s pacie nte s co m re sultado s falso -po sitivo s) supe ra se us be ne fício s. Ao m e sm o te m po e m que e sse trabalho , re alizado pe la U.S. Pre ve ntive Se rvice s Task Fo rce , e ra divulgado , m uito s ho spitais, labo rató rio s e e m pre sas brasile iro s co ntinuavam a o fe re ce r e faze r pro paganda de che ck-up co m e sse s m e sm o s e xam e s para adulto s assinto m ático s, de baixo risco . Muito s pro gram as de che ck-up, no Brasil, ne ce ssitam de urge nte re visão .
O e xam e m é dico pe rió dico (che ck-up) e o rastre am e nto de do e nças e pro ble m as de saúde e m adulto s assinto m ático s (scre e ning) ve m ganhando im po rtância cada ve z m aio r e ntre m é dico s e não m é dico s. Existe um a idé ia m uito difundida de que a te cno lo gia de po nta é capaz de faze r diagnó stico pre co ce da m aio ria das do e nças e xiste nte s e de que e sse diagnó stico re sulta e m um tratam e nto rápido que be ne ficia as pe sso as. Entre tanto , são po uco s o s e xam e s utilizado s para rastre am e nto que tê m e ficácia e e fe tividade co m pro vadas, até o m o m e nto .
C o m o e m to das as áre as da m e dicina, tam bé m na de finição de co m o de ve se r um a avaliação m é dica pe rió dica e de que e xam e s de ve m se r so licitado s para rastre am e nto de ve m se r utilizadas as m e lho re s e vidê ncias cie ntíficas dispo níve is. Existe m instituiçõ e s que se de dicam a avaliar e ssas e vidê ncias e e labo rar re co m e ndaçõ e s ne las base adas. As principais o rganizaçõ e s que trabalham ne ssa áre a são a C anadian Task Fo rce o n Pre ve ntive H e alth C are (C TFPH C ) e a U.S. Pre ve ntive Se rvice s Task Fo rce (USPSTF). Ambas dispõ e m de site s na inte rne t, dispo níve is para co nsulta livre . É claro que a de finição do que de ve se r fe ito e m um a avaliação m é dica pe rió dica de ve se r individualizada, le vando -se e m co nta se xo , idade , o cupação , hábito s e ante ce de nte s de cada pacie nte . O m é dico , tam bé m , não de ve faze r um a se paração e ntre sua atuação na avaliação de sinto m as e xiste nte s e o rastre am e nto . Em um a avaliação m é dica pe rió dica, sinto m as e xiste nte s de ve m se r inve stigado s e , ao co ntrário , o m o m e nto e m que um pacie nte pro cura o m é dico co m algum pro ble m a de ve se r utilizado para ve rificar se há ne ce ssidade de algum e xam e para rastre am e nto . H á, tam bé m , caracte rísticas re gio nais que de ve m se r co nside radas, co m o po r e xe m plo a incidê ncia e pre valê ncia de de te rm inada do e nça e o s hábito s alim e ntare s de de te rm inado grupo so cial. H á ne ce ssidade , po rtanto , de e studo s re alizado s no Brasil para que e ssas e ve ntuais dife re nças po ssam se r co nside radas.
Um aspe cto fundam e ntal da avaliação m é dica pe rió dica é que e la de ve e star e stre itam e nte ligada a práticas de pro m o ção da saúde . Só e xiste se ntido no che ck-up se o se u principal co m po ne nte fo r um a inve stigação cuidado sa de hábito s, e stilo de vida e fato re s de risco e se e ssa avaliação re sultar na discussão cuidado sa co m cada pacie nte das alte rnativas e xiste nte s para um a vida m ais saudáve l. Este é o im pacto principal de um a avaliação m é dica pe rió dica e e le é m uito m aio r do que o e fe ito po te ncial de to do s o s e xam e s que fo re m so licitado s. O be ne fício que um tabagista te rá se o m é dico co nse guir que e le pare de fum ar supe ra e m m uito o s be ne fício s e ve ntuais de to do s o s e xam e s que fo re m so licitado s.
O rastre am e nto de ve se r co nside rado e m um a pe rspe tiva m ais am pla, que não se re duz ao s e xam e s subsidiário s. Existe m do e nças e pro ble m as que de ve m se r inve stigado s principalm e nte durante a anam ne se (po r e xe m plo hábito s alim e ntare s, tabagism o , abuso de álco o l, prática de se xo se guro , de pre ssão ), durante o e xam e clínico (po r e xe m plo hipe rte nsão arte rial) e no s e xam e s subsidiário s.
Um pro ble m a que o m é dico que pro cura e studar as práticas de rastre am e nto e nco ntra é que as re co m e ndaçõ e s das dive rsas so cie dade s de e spe cialistas são m uito dife re nte s. Po r e xe m plo , e m re lação ao cânce r, só há co nse nso e ntre as principais e ntidade s m é dicas inte rnacio nais e m re lação à ne ce ssidade de rastre am e nto para trê s tipo s: cânce r de co lo ute rino , cânce r de m am a e cânce r co lo rre tal. O principal pro ble m a apo ntado é que as dife re nte s so cie dade s de e spe cialistas valo rizam as e vidê ncias cie ntíficas de fo rm a dife re nciada e algum as so cie dade s te nde m a supe rvalo rizar o s e xam e s e as do e nças de sua áre a de atuação .
O pro ble m a da so licitação de grande núm e ro de e xam e s para rastre am e nto , e m m uito s pro gram as de che ck-up, não é ape nas o gasto de sne ce ssário de re curso s. C he ck-up po de faze r m al e m uito m al. Existe m risco s asso ciado s ao rastre am e nto , e e ssa idé ia é , às ve ze s, difícil de ace itar po rque se m pre há o e xe m plo daque la pe sso a que de sco briu que tinha um a do e nça rara e fo i tratada im e diatam e nte , quando fe z vário s e xam e s so licitado s durante um a avaliação m é dica pe rió dica. Um do s principais pro ble m as são o s pacie nte s que tê m o te ste po sitivo , m as não apre se ntam a do e nça (re sultado falso -po sitivo ). N e ste s pacie nte s, a pre se nça da do e nça se rá, m uitas ve ze s, inve stigada co m e xam e s m ais caro s e m ais invasivo s, im plicando e m risco s. Muito s pacie nte s que tê m o re sultado falso -po sitivo po de m se r co nside rado s do e nte s, re ce be ndo tratam e nto de sne ce ssário e te ndo re pe rcussõ e s psico ló gicas im po rtante s. Po r o utro lado , re sultado s de e xam e s que afastam a pre se nça das do e nças rastre adas, se não fo re m aco m panhado s de um a abo rdage m de pro m o ção de saúde , po de m dar um a falsa se gurança de que não há ne ce ssidade de qualque r cuidado co m a saúde , se ndo um passapo rte até o pró xim o che ck up.
Para um de te rm inado e xam e se r co nside rado ade quado para rastre am e nto , algum as co ndiçõ e s de ve m se r satisfe itas: a do e nça a se r inve stigada de ve se r im po rtante , se ja no se u risco de co m plicaçõ e s e m o rtalidade , se ja no se u im pacto so bre a qualidade de vida; o e xam e utilizado de ve se r e ficaz; o e xam e de ve se r ace ito pe las pe sso as; e , o m ais im po rtante , de ve e star de m o nstrado que o tratam e nto da do e nça diagno sticada na fase pré -sinto m ática faz dife re nça. Talve z só se ja é tico faze r rastre am e nto para um a de te rm inada do e nça se o se u diagnó stico quando ainda assinto m ática faça um a re al dife re nça para as pessoas.