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Manuel Bandeira ( )

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Academic year: 2021

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Manuel Bandeira

(1886-1968)

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Manuel Bandeira nasceu no Recife, mas passou a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro, onde fez seus estudos secundários. Em São Paulo, freqüentou a

faculdade de engenharia, que teve de abandonar por estar

acometido de tuberculose. Sua frágil saúde o obrigou a cuidados e resguardos por quase toda a vida. Inicialmente, a poesia de

Manuel Bandeira revela a herança parnasiana e simbolista (Cinza das Horas e Carnaval). A partir de 1922, integra-se ao grupo modernista e busca experiências renovadoras em Ritmo Dissoluto e Libertinagem. Já consagrado em 1936, o poeta

publica Estrela da Manhã, obra madura e de temática

diversificada. A obra de Bandeira é marcada por um lirismo de cunho autobiográfico e confessional, em que se pode perceber uma grande ternura pela vida e, ao mesmo tempo, a aceitação da morte.

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Auto-Retrato

Provinciano que nunca soube Escolher bem uma gravata;

Pernambucano a quem repugna A faca do pernambucano;

Poeta ruim que na arte da prosa Envelheceu na infância da arte, E até mesmo escrevendo crônicas Ficou cronista de província;

Arquiteto falhado, músico Falhado (engoliu um dia Um piano, mas o teclado Ficou de fora); sem família, Religião ou filosofia;

Mal tendo a inquietação de espírito Que vem do sobrenatural,

E em matéria de profissão Um tísico profissional.

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Poética

Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto

expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

(...)

Quero antes o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbados

O lirismo difícil e pungente dos bêbados O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

(5)

*Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

- Diga trinta e três.

- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...

- Respire.

...

-O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão [direito infiltrado.

- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

*Situação patológica na qual o ar passa dos pulmões para a

cavidade torácica e comprime os pulmões e o coração.

Normalmente esse ar tem de ser extraído.

(6)

Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos

Ganhei um porquinho-da-índia.

Que dor de coração eu tinha

Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!

Levava ele pra sala

Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos, Ele não se importava:

Queria era estar debaixo do fogão.

Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.

Madrigal tão engraçadinho

Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha vida, inclusive o porquinho-da-índia que me deram quando eu tinha seis anos.

(7)

Teresa

(sátira ao “Adeus de Teresa”)

Manuel Bandeira (1886-1968)

A primeira vez que vi Teresa

Achei que ela tinha pernas estúpidas Achei que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo

Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo

(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do /corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada Os céus se misturaram com a terra

E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

Prof.

Roger

(8)

Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Vozes cantigas e risos

Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei

Não ouvi mais vozes nem risos Apenas balões

Passavam errantes Silenciosamente

Apenas de vez em quando O ruído de um bonde

Cortava o silêncio Como um túnel.

Onde estavam os que há pouco Dançavam

Cantavam E riam

Ao pé das fogueiras acesas?

Profundamente — Estavam todos dormindo Estavam todos deitados Dormindo

Profundamente.

*

Quando eu tinha seis anos

Não pude ver o fim da festa de São João Porque adormeci.

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo

Minha avó Meu avô

Totônio Rodrigues Tomásia

Rosa

Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo Estão todos deitados Dormindo

Profundamente.

(9)

Vou-me Embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente Da nora que nunca tive

E como farei ginástica Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo Subirei no pau-de-sebo Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água Pra me contar as histórias Que no tempo de eu menino Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

(10)

Em Pasárgada tem tudo É outra civilização

Tem um processo seguro De impedir a concepção Tem telefone automático Tem alcalóide à vontade Tem prostitutas bonitas Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der Vontade de me matar - Lá sou amigo do rei -

Terei a mulher que eu quero Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

(11)

Estrela da Manhã

Eu quero a estrela da manhã Onde está a estrela da manhã?

Meus amigos meus inimigos Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua Desapareceu com quem?

Procurem por toda a parte

Digam que sou um homem sem orgulho Um homem que aceita tudo

Que me importa?

Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites Fui assassino e suicida Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada Atribuladora dos aflitos Girafa de duas cabeças

Pecai por todos pecai com todos

Pecai com os malandros Pecai com os sargentos

Pecai com os fuzileiros navais Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e com os troianos Com o padre e com o sacristão Com o leproso de Pouso Alto Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas

comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples

Que tu desfalecerás

Procurem por toda parte

Pura ou degradada até a última baixeza eu quero a estrela da manhã.

(12)

Andorinha

Andorinha lá fora está dizendo:

- "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!

Passei a vida à toa, à toa...

Poema do Beco

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?

- O que eu vejo é o beco.

Referências

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