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O JOGO DE REPRESENTAÇÕES EM CIDADE DOS SONHOS

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Academic year: 2022

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UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE FERNANDA FERREIRA E SILVA DO NASCIMENTO

O JOGO DE REPRESENTAÇÕES EM CIDADE DOS SONHOS

São Paulo

2017

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FERNANDA FERREIRA E SILVA DO NASCIMENTO

O JOGO DE REPRESENTAÇÕES EM CIDADE DOS SONHOS

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Letras.

Orientadora: Profa. Dra. Aurora Gedra Ruiz Alvarez

São Paulo

2017

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N244j Nascimento, Fernanda Ferreira e Silva do.

O jogo de representações em Cidade dos Sonhos / Fernanda Ferreira e Silva do Nascimento.

106 f. : il. ; 30 cm

Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2017.

Orientador: Aurora Gedra Ruiz Alvarez Bibliografia: f. 102-106.

1. Identidade. 2. Jogo. 3. Duplo. 4. Surrealismo. I. Alvarez, Aurora Gedra Ruiz. II. Título.

CDD 808.066.791

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FERNANDA FERREIRA E SILVA DO NASCIMENTO O JOGO DE REPRESENTAÇÕES EM CIDADE DOS SONHOS

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Letras.

Orientadora: Profa. Dra. Aurora Gedra Ruiz Alvarez

BANCA EXAMINADORA

____________________________________

Prof.ª Dr.ª Aurora Gedra Ruiz Alvarez Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM)

_________________________________

Prof.ª Dr.ª Maria Luiza Guarnieri Atik Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM)

_________________________________

Prof. Dr. Nivaldo Medeiros Diógenes Universidade São Judas Tadeu (USJT)

São Paulo

2017

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Aos meus pais, que me ensinaram o mais importante sobre vida:

o amor.

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AGRADECIMENTOS

À Professora Doutora Aurora Gedra Ruiz Alvarez, por todos esses anos de orientação, por ter me aceitado como sua orientanda, apostando e acreditando em mim desde o início. Sempre zelosa em suas leituras e contribuições ao meu trabalho.

À professora Doutora Maria Luiza Guarnieri Atik, pelas pertinentes contribuições ao longo da minha vida acadêmica e durante minhas pesquisas para a dissertação.

Ao Professor Doutor Nivaldo Medeiros Diógenes, pela leitura cuidadosa e pela imensa contribuição ao meu trabalho.

À professora Doutora Elaine Cristina Prado dos Santos, pela presença e as sugestões oportunas ao meu texto.

À toda a equipe da coordenação do Programa de Pós-graduação em Letras, sempre muito prestativos em me auxiliar em todos os processos.

À CAPES, pela concessão da bolsa de pesquisa, tornando possível a conquista do título de mestre.

Aos meus colegas de sala, Mariana, Julia e Tales, pelas colaborações e os momentos de descontração.

Aos meus pais, Dulcinéia e Pedro, os principais alicerces para conquistar todos os meus sonhos.

Aos meus irmãos, Ricardo e Fabiana, dispostos a me proporcionarem risos em meus momentos de apreensão.

Aos meus queridos amigos, pelos ouvidos emprestados, incentivo infindável e compreensão aos meus momentos de ausência.

À Naira, minha mascote de estimação, que aquecia meus pés enquanto

passava minhas horas mergulhada em pesquisas.

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RESUMO

David Lynch, um dos maiores cineastas norte-americanos, é conhecido principalmente por seus filmes influenciados pelo Surrealismo e por ter desenvolvido um estilo estético particular. Nas suas obras, as crises de identidades são temas frequentes, e no objeto de pesquisa escolhido para esta dissertação – Mulholland Dr. (Cidade dos sonhos, 2001) – o diretor explora ao máximo a personalidade fragmentada da protagonista em um universo de simulacros como Hollywood. A duplicidade da personagem Betty/Diane é o principal conflito do filme e a questão central desta dissertação. Pensando neste corpus de natureza densa e na importância do tema identidade, apresenta-se como objetivo investigar como a personalidade da protagonista se fragmenta no texto fílmico e em quais artifícios o diretor se apoia para explorar a dualidade da personagem principal. Para atender ao propósito central da dissertação, no primeiro capítulo realiza-se um estudo sobre a modernidade, as novas identidades e o conceito de simulacro, que desvelam a fragmentação do sujeito moderno que se configura no fenômeno do duplo. Em um segundo momento da pesquisa, as questões estéticas são valorizadas para observar como a cisão identitária da personagem protagonista é retratada em uma perspectiva onírica, esfera em que a realidade e o mundo dos sonhos de Diane se confundem constantemente. Ainda, considerando a relevância da ambiência dos sonhos, há a preocupação em examinar a relação do filme com o movimento surrealista e a temática que carrega o conceito de jogo presente no texto fílmico.

Finalmente, em uma terceira parte, apresentam-se teorias sobre o duplo como um processo de rejeição à realidade e como um recurso utilizado pela protagonista para fugir das consequências reservadas ao seu destino.

Palavras-chaves: Identidade. Jogo. Duplo. Surrealismo.

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ABSTRACT

David Lynch, one of the greatest North American filmmakers, is known mainly for his films influenced by Surrealism and for having developed a particular aesthetic style.

In his works, identity crises are frequent themes and in the research of the chosen object for this dissertation – Mulholland Dr. (2001) – the director explores to the maximum the fragmented personality of the protagonist in a universe of simulacra as Hollywood. The duplicity of the character Betty/Diane is the main conflict of the film and the central question of this dissertation. Thinking about the dense nature of the film and the importance of the subject identity, the objective is to investigate how the personality of the protagonist is fragmented in the filmic text and what artifices the director relies on to explore the duality of the main character. In order to meet the central purpose of the dissertation, in the first chapter a study is carried out on modernity, new identities and the concept of simulacrum, which reveal the fragmentation of the modern self that is configured in the phenomenon of the double.

In a second moment of the research, the aesthetic questions are valued to observe how the shattered identity of the protagonist is portrayed in a dreamlike perspective, sphere in which the reality and the dream world of Diane are constantly blurred. Still, considering the relevance of the ambience of dreams, there is the concern to examine the relation of the film to the surrealist movement and the theme that carries the concept of game present in the filmic text. Finally, in a third part, theories are presented about the double as a process of rejection to reality and as a resource used by the protagonist to evade the consequences reserved for her destiny.

Keywords: Identity. Game. Double. Surrealism.

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FIGURAS

Fig. 1: Casa da tia Ruth...p. 24

Fig. 2: Interior da casa da tia Ruth...p. 25

Fig. 3: Interior da casa de Diane...p. 26

Fig. 4: Betty em Los Angeles...p. 36

Fig. 5: Welcome to Los Angeles...p. 36

Fig. 6: Paisagem de Hollywood...p. 37

Fig. 7: Los Angeles de cima...p. 53

Fig. 8: Ryan Entertainment...p. 55

Fig. 9: Homem grotesco...p. 58

Fig. 10: Rita adormecida...p. 61

Fig. 11: Rita no chuveiro...p. 61

Fig. 12: Concurso de dança...p. 77

Fig. 13: Sono de Diane...p. 77

Fig. 14: Diane contrata assassino...p. 79

Fig. 15: Diane muda de nome...p. 79

Fig. 16: Betty encontra garçonete...p. 79

Fig. 17: Garçonete conhece Betty...p. 79

Fig. 18: Rita reconhece o nome Diane...p. 79

Fig. 19: Rita assume o nome...p. 82

Fig. 20: Diane deitada...p. 86

Fig. 21: Diane morta...p. 86

Fig. 22: Corpo em decomposição...p. 86

Fig. 23: Betty (cinza) e Rita (preto) ...p. 87

Fig. 24: Betty e Rita se tornam uma...p. 89

Fig. 25: Betty e Rita no clube Silencio...p. 92

Fig. 26: Rebekah del Rio...p. 92

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SUMÁRIO

Introdução ... p. 11 Capítulo 1. A identidade no período pós-moderno ... p. 14

1.1 Modernidade e pós-modernidade p. 15

1.2 Identidade em pedaços p. 18

1.2.1 Templo ao consumo p. 21 1.2.2 Aparências importam p. 26 1.3 Simulacro: Hollywood e as identidades simuladas p. 29

Capítulo 2. O jogo surrealista...p. 40 2.1 A narrativa do desejo p. 42

2.2 Surrealismo: prisma da realidade p. 46

2.3 O jogo p. 48

2.4 As figuras deslocadas p. 50

2.5 O sonho e o despertar p. 56

2.6 O amor e o erotismo p. 59

Capítulo 3. Entre o sonho e a realidade...p. 65

3.1 Fundamentação teórica sobre o duplo p. 67

3.2 A problemática da realidade p. 72

3.3 Prelúdio na cidade dos sonhos: vida e morte p. 75

3.4 A identidade rósea p. 78

3.4.1 A identidade fatal p. 81

3.5 Encontro de Betty e Diane: a transição do cinza p. 83

3.6 A identificação da mesma face p. 87

3.6 O vermelho e retorno ao eu p. 91

3.7 O resto é silêncio p. 94

Considerações finais...p. 98

Referências bibliográficas...p. 102  

(11)

INTRODUÇÃO

Toda arte é produto das indagações e das vivências dos indivíduos de cada época, traduzidas em temas que recobrem as diferentes experimentações do homem diante da vida: amor, solidão, ciúme, vingança, poder, interdição, identidade etc. são algumas das questões que povoam as preocupações humanas. Na modernidade, o último tema mencionado ocupa um lugar privilegiado, associado a outras questões que adensam ainda mais o conflito humano, como o desdobramento da personalidade do ser. Este fenômeno tem sido revisitado e explorado em suas diferentes formas de manifestação artísticas. Sua inscrição na literatura, que se iniciou em tempos remotos, hoje ganha espaço em diversas artes, em especial, no cinema, que o discute sob o enfoque da crise identitária do homem moderno.

Muitos diretores renomados da atualidade têm se preocupado em inserir esse tema em suas produções cinematográficas que atendem a amplos e diversificados públicos. Sósias, irmãos gêmeos, clones, realidades que se confundem são alguns dos muitos mecanismos utilizados nos enredos que envolvem as questões do duplo e apresentam-se em filmes, desde aqueles em que predomina o humor, o quid pro quo, até os que focalizam dramas humanos mais complexos.

Ainda, esclarece-se aqui a razão do corpus se tratar de um texto fílmico:

como uma das maiores fontes de entretenimento da atualidade, o cinema recebe um grande espaço quando se trata de visibilidade no mundo artístico. Pensando na sua importância para a construção social humana e na constante recorrência do tema identidade em suas narrativas, foi considerado a relevância de atribuir um olhar teórico literário a uma mídia importante para a sociedade e não distante do plano da literatura.

Portanto, considerando esta relevante exposição do tema nas películas, a

presente pesquisa tem como propósito investigar como o cinema surrealista de

David Lynch – um dos diretores mais consagrados do século XX – trabalha a

fragmentação identitária em um dos seus principais filmes, Cidade dos sonhos

(Mulholland Dr., 2001). Para tanto examinará que elementos do construto lúdico

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estão presentes tanto na questão identitária, quanto nas estratégias de representação da narrativa. A história que se passa em Hollywood questiona a linha divisória entre o real e o imaginário no cinema e mostra como a identidade humana pode ser afetada por uma vivência de simulacros.

A hipótese levantada para esta pesquisa é de que a trama a ser investigada resulta dos problemas presentes na modernidade, como a crise de identidade provocada pela fragmentação da personalidade do indivíduo e pelo fato de a existência do sujeito estar intimamente relacionada a vivências em um mundo de simulacros. Para dar cumprimento a esta pesquisa são propostas as seguintes perguntas: em que contribui o contexto da modernidade para o conflito da protagonista Diane? Como o contexto cultural de Hollywood influencia na identidade das personagens? Como se configura a duplicidade em Diane e que recursos narrativos são utilizados na constituição da dualidade dessa personagem? Como o diretor faz uso da estratégia do jogo para discutir a questão da representação na narrativa fílmica e o desdobramento identitário, segundo o viés da estética surrealista?

Para a discussão destas questões são convocados para iluminar o exame do corpus as teorias de Stuart Hall, Zygmunt Bauman e Anthony Giddens que discutem a complexidade das indagações acerca da identidade pós-moderna; e Jean Baudrillard que trata da identidade no mundo de simulacros e as novas percepções do homem sobre o conceito de “realidade”. Ancora-se em Johan Huizinga no exame dos temas vinculados ao conceito de jogo e, para dar embasamento teórico ao estudo do tema da realidade onírica que permeia o filme, apresentam-se as formulações teóricas de Sigmund Freud que analisam as causas do desdobramento do sujeito. Finalmente, comparecem as teorias de Clément Rosset e as de Otto Rank sobre o duplo, pois seus estudos sobre os conflitos entre a realidade e a não realidade, forças motrizes que dão ensejo à duplicação do indivíduo na atualidade, tornam-se essenciais para um olhar mais crítico sobre o corpus.

O desenvolvimento da pesquisa se orientou em buscar bibliografia

adequada para explanar os conceitos presentes na dissertação e discutir os

principais temas nela privilegiados. Desta forma, cabe o desafio de estabelecer uma

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Após o estabelecimento das questões relevantes para tratar o duplo no filme Cidade dos sonhos de David Lynch, delineou-se organizar esta dissertação em três capítulos, além da introdução e das considerações finais.

O primeiro capítulo, A identidade no período pós-moderno, discute a transição da sociedade tradicional para a moderna e examina-se como as novas identidades se desenvolvem em um espaço em que os parâmetros para uma vida social são construídos através de imagens, aparências, comércio e status. Ao final do capítulo um, ainda tratando das consequências da modernidade, desenvolve-se uma análise sobre os simulacros e como eles afetam as identidades.

No segundo capítulo, O jogo surrealista, ainda se trabalha as preocupações do homem moderno diante as questões cotidianas, desta vez, em uma perspectiva mais artística e considerando um dos movimentos mais importantes da modernidade: o Surrealismo. Nesta dissertação será discutido como alguns conceitos surrealistas inspiram o texto fílmico, sendo possível traçar relações importantes entre o movimento e o corpus. Também leva-se em consideração como o conceito de jogo, artificio muito utilizado nas manifestações surrealistas, está dentro (e fora) do espaço cênico de Cidade dos sonhos.

Finalmente, no terceiro capítulo, Entre o sonho e a realidade, a pesquisa traz as teorias de Otto Rank, Sigmund Freud e Clément Rosset para trabalhar os fundamentos do duplo e identificar quais são os mecanismos da narrativa que manifestam o desdobramento da protagonista. Para se pensar na duplicidade serão analisadas: as transições entre o sonho e a realidade, onde de um lado moram os desejos de Diane, e no outro, a rejeição ao seu destino; a relação amorosa entre a protagonista e Rita e Camilla, pensando no conceito de narcisismo e a relação do mito com seu duplo; e ainda, permeado nas análises do duplo, observa-se a proposta lúdica do filme, investigando como as cores dialogam com o processo de fragmentação da personagem principal.

Ao final deste estudo, reúne-se os principais argumentos considerados ao

longo da dissertação e propõe considerações que finalizam o trabalho, mas não

concluem ou fecham as possibilidades para as ramificações para que esta pesquisa

aponta.

(14)

CAPÍTULO 1: A IDENTIDADE NO PERÍODO PÓS-MODERNO

Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar.

Zygmunt Bauman

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A dualidade do sujeito é um tema cujas origens residem no mito e na história de crenças e contos populares, mas que continua atual, revitalizado pelos dramas humanos que se revelam diferentes em cada época e em cada contexto cultural.

Dada à relevância desse fenômeno na vida humana, ele tem sido visitado na literatura, nas artes e, em especial, no cinema desde suas primeiras produções no início do século XX.

Tendo em vista o propósito de aprofundar o estudo das questões sobre o duplo desenvolvidas no terceiro capítulo, é importante desenvolver aqui uma reflexão sobre os aspectos que fragmentam a identidade do sujeito no período moderno e na pós-modernidade, momentos em que diversos fatores contribuem para que o tema da identidade ganhe relevância em vários campos de estudos.

Nesse primeiro capítulo, serão analisadas algumas razões do mundo moderno, onde Diane, a protagonista do filme, está inscrita, que a levaram a fugir do real para o imaginário e findar a sua existência com o suicídio.

1.1 MODERNIDADE E A PÓS-MODERNIDADE

Enquanto David Harvey descreve a modernidade como um “interminável processo de ruptura e fragmentações” (1989, p. 22); Marshall Berman, em Tudo que é sólido desmancha no ar (2007), analisa a condição contemporânea como uma experiência de se encontrar em um ambiente que “promete aventura, poder, alegria, crescimento, transformações de si e do mundo – e ao mesmo tempo, que ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos” (2007, p. 24), e estuda em sua obra, como uma variedade de escritores de diferentes lugares do globo e épocas – Marx, Baudelaire, Dostoiévski – lidaram com a sensação de fragmentação e caos.

Este sentimento de mudanças, instabilidade, liquidez, ganhou grande

atenção em diversos campos de estudos para se dar respostas ao questionamento

humano: de onde e como surge a sensação de inquietação e fragmentação do

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sujeito moderno? E para entender a razão desse estado do homem, é preciso lançar um olhar sobre as novas perspectivas do conceito de sociedade.

Para Bauman (2001), o início da modernidade (modernidade sólida) é marcado por um derretimento das tradições das sociedades pré-modernas, que prossegue até os tempos atuais (modernidade líquida). A base desse projeto moderno tem como intenção eliminar os sólidos, a tradição, para se abrir espaço para interesses individuais e, especialmente, novas iniciativas econômicas.

 

Os primeiros sólidos a derreter e os primeiros sagrados a profanar eram as lealdades tradicionais, os direitos costumeiros e as obrigações que atavam pés e mãos, impediam os movimentos e restringiam as iniciativas. [...]

‘Derreter os sólidos’ significava, antes e acima de tudo, eliminar as obrigações ‘irrelevantes’ que impediam a via do cálculo racional dos efeitos;

como dizia Max Weber, libertar a empresa de negócios dos grilhões dos deveres para com a família e o lar e da densa trama de obrigações éticas (BAUMAN, 2001, p. 10)

 

Assim o “derretimento dos sólidos”, antes de tudo, significa a “profanação do sagrado” e o “destronamento do passado e da tradição” (BAUMAN, 2001, p. 9); em outras palavras, a comunidade tradicional fechada e isolada, os laços e obrigações sociais baseados na religião, família, etc. são “derretidos” pelo progresso moderno.

Conforme esses interesses de libertação das antigas regras avançam, a modernidade sólida se torna líquida e tudo passa a ser questionável, assim como o próprio conceito de liberdade. Bauman considera que existe uma contradição entre a dependência e a libertação. Embora o mundo moderno garanta uma pluralidade de escolhas e permita que cada um as faça conforme suas vontades, não existe uma forma de se libertar senão se submetendo à nova ordem mundial (2001, p. 30).

Para Giddens, esta “nova ordem” é resultado das mudanças sociais como o capitalismo, o industrialismo, a vigilância e o poder militar, que, apesar de entendidas em um nível institucional, afetam os aspectos mais pessoais da existência humana. Além das instituições citadas, o avanço industrial, a globalização e os meios de comunicação renovam e estabelecem novas possibilidades ao cotidiano do homem.

Por volta da segunda metade do século XX, na alta modernidade, –

(17)

o dinamismo da modernidade se reforçam na pós-modernidade. Entre eles a separação do tempo e espaço, que permite um indivíduo manter relações sociais e profissionais sem estar presente em determinado local; bem como a reflexividade que é o uso de conhecimento constante reformulado sobre a vida social. Esses dois fatores primordiais geram consequências diretas para o eu: as identidades não são mais localizadas ou relacionadas a grupos e determinados espaços, elas dialogam com o globo o tempo inteiro, tornando-as menos sólidas e capazes de se reformular a cada nova experiência.

Uma das primeiras consequências foi a mudança radical das concepções de tempo-espaço. As culturas pré-modernas possuíam suas maneiras de calcular o tempo, contudo, esse cálculo sempre se vinculou diretamente ao espaço. A invenção do relógio mecânico foi importante para a separação entre tempo e o espaço, coincidindo com a expansão da modernidade que, trouxe como consequências os calendários padrões em escala mundial e do tempo através dos fusos horários das regiões. (GIDDENS, 1991)

Giddens afirma que a consequência da dissociação tempo-espaço é o esvaziamento do tempo, que é uma pré-condição para o esvaziamento do espaço, pois “a coordenação através do tempo é a base do controle do espaço” (1991, p.

26). E se para as sociedades pré-modernas havia ligação direta entre espaço e tempo, a modernidade separa os dois, estimulando relações entre “ausentes” (1991, p. 27), ou seja, as pessoas não necessariamente precisam criar vínculos e comunicação através do mesmo espaço, e isto o torna “vazio”, assim como o tempo indeterminado.

Outra importante característica que Giddens aponta em Consequências da

modernidade sobre as formulações do sujeito moderno, é a acentuada reflexividade

das práticas sociais. Com os conhecimentos sendo constantemente reformulados

graças à quantidade de informações e os estilos de vida a que o indivíduo é exposto

diariamente, há uma incerteza rotineira, por parte do sujeito, sobre como ser e agir,

que o leva a viver numa situação de dúvida e insegurança permanente (GIDDENS,

1991). Embora a reflexividade seja uma característica natural entre as ações

humanas, a modernidade dá origem a um novo nível da reformulação do

pensamento.

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Segundo o sociólogo, esta nova forma de reflexividade “é introduzida na própria base da reprodução do sistema, de forma que o pensamento e a ação estão constantemente retratados em si” (1991, p. 48). Neste sentido, destaca-se que em todas as culturas as práticas sociais são modificadas por conta de descobertas recorrentes que passam a informatizar o indivíduo, mas somente na era moderna, a revisão da tradição alcança todos os aspectos da vida humana.

A reformulação constante dos pensamentos, a quebra das tradições, a multiplicidade de caminhos a seguir, faz da modernidade o lugar em que as pessoas não possuem mais papéis pré-determinados no mundo, mas devem lutar livremente e constantemente por sua própria conta a fim de se integrarem em uma sociedade cada vez mais seletiva (BAUMAN, 2001). Antes da modernidade líquida, os indivíduos comuns poderiam ter a liberdade de construir suas vidas de maneira individual, desde que seguissem os parâmetros sociais já estabelecidos e que a construção de suas identidades fosse feita a partir deles. Já na modernidade o sujeito está “condenado” a ser livre.

   

1.2 IDENTIDADE EM PEDAÇOS

Segundo Hall, em sua obra A identidade cultural na pós-modernidade, “as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno”

(1998, p. 7), ou seja, as formas de se exercer uma identidade nas sociedades modernas no fim do século XX, estão menos sólidas, fragmentadas e em constante mudança.

O autor traz um histórico das concepções distintas de identidade que a humanidade já vivenciou e a evolução dos conceitos que as definiam. Essas identidades a que Hall se referencia são: sujeito do Iluminismo, sujeito sociólogo, e o sujeito pós-moderno.

O sujeito do Iluminismo constituía-se como um ser humano autônomo, único,

centrado, unificado, coerente. (HALL, 1998, p. 10). Segundo esta visão, todos os

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homens eram dotados de razão, e suas identidades consistiam de um núcleo interior que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia até os últimos dias de sua vida, sem alterar sua essência.

Já com o sujeito sociológico, cresce a noção de que ele não é autônomo, e que nem pode ser autossuficiente, pois sua identidade é construída na relação de

“outras pessoas importantes para ele” (HALL, 1998, p. 11), e a partir do meio em que ele vive. O sujeito sociológico tem sua individualidade, que é o “eu real”, mas transformada com as experiências “exteriores”.

Desde o final do século XX, começou-se a adquirir a percepção de que essas noções de auto-identidade não correspondem mais ao sujeito pós-moderno, pois as novas identidades não são únicas e completas, mas mutáveis e fragmentadas. Hall afirma que:

O sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias e não resolvidas.

Correspondentemente, as identidades, que compunham as paisagens sociais ‘lá fora’ e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as

‘necessidades’ objetivas da cultura, estão entrando em colapso, como resultado de mudanças estruturais e institucionais. O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório, variável e problemático. (1998, p. 11)

O sujeito pós-moderno não apresenta mais um “eu real”, não existe uma identidade unificada e coerente, mas sim o indivíduo formado por várias identidades que podem ser contraditórias, caminhar em direções opostas e que constantemente entram em conflito. “A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia” (HALL, 1998, p. 12), pois à medida em que o sujeito é lançado em um mundo onde a multiplicidade de identidades está em todos os lugares, a identificação com novos estilos de vida é cambiante e temporária – nada é mais definitivo.

A ausência de uma base sólida para se apoiar a identidade, segundo Anthony

Giddens, causa uma sensação de inquietude constante no sujeito atual. Para esse

pesquisador, “viver no mundo” da modernidade tardia envolve várias tensões e

dilemas que o autor considera como obstáculos para a construção da identidade

(GIDDENS, 2002, p. 174) No sexto capítulo da obra Modernidade e identidade,

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“Tribulações do eu”, o sociólogo divide em quatro campos fundamentais as fontes gerais das perturbações que afligem o sujeito da alta modernidade.

O primeiro dilema é a unificação e fragmentação. Para o autor (GIDDENS, 2002, p. 175), a modernidade tanto unifica quanto fragmenta. A unificação se refere à construção de uma narrativa racional sobre si diante das transformações constantes promovidas pela mídia e pela globalização. A fragmentação significa uma diversificação dos contextos de interação e espaços sociais, e esse dilema se resolve com o uso da diversidade para a criação de uma identidade que englobe os diferentes contextos em uma única narrativa integrada, fazendo dos eus um só.

Ao tratar desse primeiro dilema, Giddens afirma que “o falso eu supera e encobre os atos originais de pensamento, sentimento e vontade que representam as verdadeiras motivações do indivíduo” (2002, p. 175), e o verdadeiro eu se torna vazio e inautêntico. Essa lacuna precisa ser preenchida por “pseudo-eus”, exibidos em diversos contextos pelos quais o sujeito transita, sendo alterados conforme sua necessidade.

O segundo dilema é a impotência e a apropriação. A oportunidade de participar de diversos ciclos sociais e optar pelo estilo de vida torna o sujeito singular em comparação com as sociedades tradicionais, entretanto, junto com essas vantagens trazidas pela globalização, depara-se com situações em que o sentimento de impotência se amplia; em que os indivíduos, mediante um universo social amplo e alheio, entregam o controle das circunstâncias de suas vidas às influências dominantes das máquinas e mercados (GIDDENS, 2002, p. 177).

O terceiro dilema é o que se confronta autoridade e incerteza, no sentido em que não existem autoridades definitivas: religião, governos, ciência, todos contribuem em decisões quando se busca fazer opções ao que se submeter. Essa multiplicidade de autoridades oferece várias opções aos sujeitos modernos, mas os coloca diante das incertezas, pois muitas vezes se embatem com outros sujeitos submetidos a outras crenças e autoridades – ou até mesmo a sujeitos que não aceitam autoridades. (GIDDENS, 2002, p. 180).

O quarto dilema, de acordo com o entendimento de Giddens (2002, p. 183-

186), que também se torna evidente para esta pesquisa, é o da experiência

personalizada versus experiência mercantilizada, e está relacionada a fatores de

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mercado que influenciam diretamente na construção do eu e os estilos de vida. O consumo sob o domínio do mercado é um fenômeno novo e conta com os meios de comunicação de massa para, todos os dias, apresentar novos objetos e estilos de vida para consumação.

Giddens lembra que, “os meios de comunicação de massa rotineiramente apresentam modos de vida aos quais – deixam implícito – todos deveríamos aspirar;

os estilos de vida dos mais prósperos são, de uma forma ou de outra, exibidos a vista de todos e retratados como dignos de imitação.” (2002, p. 184), e mais, “as telenovelas, e outras formas de entretenimento na mídia são válvulas de escape – substitutas das satisfações reais que não podem ser alcançadas nas condições sociais normais” (2002, p. 184), ou seja, estes padrões de consumo exaltados pela propaganda intervém na formação das identidades, e como se percebe no filme, afeta diretamente a vida da protagonista, que sonha em vivenciar todas as experiências costumeiramente apresentadas nas tramas cinematográficas, embora não tenha recursos para realizar o que deseja.

Entender a força que a mídia e a propaganda ganha na pós-modernidade se torna fundamental para a compreensão da fragmentação da identidade, pois também atribuirá um olhar mais crítico para o cenário em que a história de Cidade dos sonhos (2001) acontece e os efeitos que agem sobre a protagonista.

1.2.1 TEMPLO AO CONSUMO

O consumo, segundo Bauman, está atrelado à inquietante necessidade de identificação ou à auto segurança quanto à “adequação” (2001, p. 96). Em um cenário de tantas mudanças, em que não existe uma convenção fixa de estilo de vida considerado adequado, os indivíduos frequentemente buscam se reformular e a mídia cumpre um importante papel de influência sobre as possíveis decisões a que cada um pode tomar a partir dos seus desejos.

Stuart Hall afirma que o consumo é um dos padrões que ainda pode ser

encontrado em todas as culturas (1998). O cenário da pós-modernidade é delimitado

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pela demanda e oferta do mercado, pela corrida ao consumo material ou pela adoção de um estilo de vida: o indivíduo coloca-se sempre à procura de algum produto que possa determinar a sua identidade ou quem ele deseja ser.

Para Giddens, a busca pela autenticidade se torna um valor decisivo e uma referência para auto realização na modernidade. Segundo o estudioso, “por causa da ‘abertura’ da vida social de hoje, com a pluralização dos contextos de ação e a diversidade de ‘autoridades’, a escolha do estilo de vida é cada vez mais importante na constituição da auto-identidade e da atividade diária” (2002, p. 13), e, muitas vezes, a escolha desses estilos de vida está ligada ao mercado e ao consumo.

Estilo de vida não é um termo muito aplicável em culturas tradicionais, porque implica em uma escolha dentro de uma pluralidade de opções possíveis, e é ‘adotado’ mais do que ‘outorgado’. Os estilos de vida são práticas rotinizadas, as rotinas incorporadas em hábitos de vestir, comer, modos de agir e lugares preferidos de encontrar com os outros; mas as rotinas seguidas estão reflexivamente abertas à mudanças à luz da natureza móvel da auto-identidade [...] E todas essas escolhas (assim como as maiores e mais importantes) são decisões não só sobre como agir mas também sobre quem ser. Quanto mais pós-tradicionais as situações, mais estilo de vida diz respeito ao próprio centro da auto-identidade, seu fazer e refazer. (GIDDDENS, 2002, p. 80)

Os estilos de vida são ligados a rotinas cotidianas sobre o que comer, como se vestir, modos de agir, quais lugares frequentar; e na alta modernidade dispõe-se de uma vasta pluralidade de escolhas em relação a esses estilos. Entretanto, esse cenário não significa que todas as possibilidades estão abertas para todos, nem que as pessoas façam suas escolhas sabendo de todas as alternativas existentes. A seleção de um estilo de vida é influenciada em grande parte por pressões de grupo, pela visibilidade de determinados estilos ou limitada a determinadas condições socioeconômicas (GIDDENS, 2002, p. 80).

Marcas, imóveis, acessórios, grifes são sinônimo de uma linguagem de reconhecimento (BAUMAN, 2009, p. 24), pois são uma das principais preocupações para quem pretende se adequar à modernidade líquida: o reconhecimento social.

Entretanto, essa busca pela felicidade através da autenticidade e reconhecimento

exige uma manutenção constante dos itens adquiridos para não se estagnar – e por

esta razão essa identidade é mutável, pois ela pode ser abandonada no momento

em que se tornar indesejada. Quando o produto não estiver mais atualizado e passa

(23)

a não oferecer satisfação ao consumidor, ele pode ser descartado e buscar novas opções (BAUMAN, 2009).

A mídia cumpre um importante papel nessa instabilidade identitária, pois as experiências transmitidas pelos seus veículos de comunicação influenciam a novas escolhas de diversas maneiras. O mercado propaga e oferece acesso a produtos, ambientes e estilos de vida antes desconhecidos; e, ao mesmo tempo, ajuda a reduzir as diferenças entre ambientes antes afastados (HALL, 1998). Deste movimento para impulsionar o consumo decorre que, ao redor do globo, pessoas consomem as mesmas marcas, fantasiam as mesmas localidades, assistem aos mesmos filmes e são conectadas por uma cultura globalizada.

Das reflexões aqui desenvolvidas, conclui-se que o sujeito da pós- modernidade vive emparedado: de um lado anseia por encontrar um equilíbrio identitário, com livre arbítrio para fazer as suas escolhas, ser feliz e, por outro, a pressão sistêmica para consumir, fazer parte de certos grupos, ser reconhecido em seu meio. Estas questões convergirão no estudo do duplo na narrativa fílmica de Cidade dos sonhos, tema do próximo capítulo.

Betty representa o paradigma de pessoa que tem a vida que Diane deseja:

uma casa em uma das avenidas famosas de Los Angeles, uma vida de luxo, estrelato, beleza, o romance perfeito, além de reconstruir sua própria personalidade como alguém considerada carismática, agradável – reforçando o conceito de Giddens sobre os estilos de vida e a construção de uma identidade através do conceito de “ter para ser”, tratados anteriormente. Porém, as expectativas de vida de Diane serão frustradas com a realidade apresentada ao final do filme.

A cena em que Betty, no primeiro segmento, conhece a residência da sua tia,

na qual fica hospedada enquanto tenta sua sorte com sua carreira em Los Angeles é

muito significativa. Após a protagonista entrar no táxi, a sequência se inicia com a

câmera voltada para o céu azul enquanto as famosas palmeiras (representadas

repetidas vezes em muitos filmes) da avenida Sunset Boulevard passam, e em

seguida em um plano aberto o grande letreiro de Hollywood, para depois exibir a

residência onde Betty se hospeda.

(24)

O ambiente é introduzido com muita luminosidade e um enquadramento em leve contra-plongée, ou seja, a filmagem debaixo para cima, garantindo demonstrar a imponência da casa. Sobre este enquadramento, o teórico Martin Marcel afirma:

A contra-plongée (o tema é fotografado de baixo para cima, ficando a objetiva abaixo do nível do olhar) dá geralmente uma impressão de superioridade, exaltação e triunfo, pois faz crescer os indivíduos e tende a torná-los magníficos. (2003, p. 41)

A câmera subjetiva sobe as escadas e retorna a Betty emocionada.

Novamente a câmera subjetiva e novas cenas da ampla residência em contra- plongée reforçam o conforto desse espaço.

A cena dentro da residência recebe um tratamento parecido – a câmera em primeira pessoa passeia por todos os lugares da casa, – sala, cozinha, quarto, banheiro – e em alguns momentos exibe a emoção de Betty celebrando cada ambiente enriquecido por decorações, plantas e diversos quadros. Muitas fotografias estão espalhadas, como na imagem da Fig. 2, e os diversos quadros e livros dispostos ressaltam o valor não só afetivo, mas de requinte.

Fig. 1: Casa da tia Ruth (Cidade dos sonhos, 2001, 20’01”)

(25)

Fig. 2: Interior da casa da tia Ruth (2001, 21’54”)

A protagonista em harmonia com a casa, participa de cada espaço, toca nas paredes, nos objetos e expressa sua felicidade em estar presente no prometido local. No quarto, tia Ruth deixa um roupão de banho e um bilhete para que a sobinha aproveite sua estadia.

Entretanto, no segundo segmento da narrativa fílmica, descobre-se que Diane (Betty) mora de aluguel em um local nada glamoroso. As cenas nessa residência alugada apresenta ambientes escuros, móveis velhos ou sujos, e a cada detalhe se descobre que se trata de um lugar abandonado por seu morador. Próximo ao final do filme, após se revelar que Diane foi responsável pelo assassinato de Camilla (Rita), há um diálogo com uma moça, que possivelmente vivia com Diane antes, mas desistiu de continuar a dividir o ambiente com a parceira. Essa moça vem buscar louças e outros utensílios seus que estão jogados em caixas pelo chão.

Embora não seja revelado o motivo de a personagem deixar Diane, pode-se supor

que seja pelos maus hábitos da personagem principal.

(26)

Fig. 3 Interior da casa de Diane (2001, 1:59’40”)

Nas cenas que contemplam este espaço menos valorizado pela protagonista, Diane ganha enquadramentos ao canto e de costas, demonstrando seu distanciamento na relação com o ambiente. Os móveis são poucos, não há quadros, fotos – apenas um amontado de objetos dispostos de maneira desorganizada. As janelas estão semifechadas e a luz é baixa, muitos cantos da casa estão em completa escuridão.

Levando em consideração que Betty é a representação onírica dos desejos de Diane, percebe-se então a importância do reconhecimento social a partir do local onde e como a personagem vive. Em uma realidade imaginada, Diane sonha morar em uma rua famosa, em uma casa luxuosa, ao invés de um endereço desconhecido e abandonado dos seus próprios cuidados.

1.2.2 APARÊNCIAS IMPORTAM

Não apenas os pertences da personagem são importantes, como a própria

aparência e postura. O espectador se depara com duas personagens diferentes até

mesmo quando se considera a linguagem do corpo.

(27)

Giddens afirma que o corpo não é apenas uma “entidade física que

‘possuímos’, é um sistema de ação, um modo de práxis, e sua imersão prática nas interações da vida cotidiana é uma parte essencial da manutenção de um sentido coerente de auto-identidade” (2002, p. 95), ou seja, a identidade não concerne apenas do “eu” interior, mas está diretamente ligado a uma exterioridade. Segundo o sociólogo, o regime a que o corpo é submetido está dividido em três categorias:

aparência, postura e sensualidade. Como aparência, define-se o conjunto de características que se percebe em um primeiro momento: roupas, acessórios, traços físicos. A postura é a maneira como a aparência é usada pelo indivíduo em diversos contextos em que transita, e a sensualidade é o manejo da disposição ao prazer e à dor (GIDDENS, 2002, p. 95).

Levando em consideração estes três tópicos e sua importância para a (des)construção da identidade, o estudo da protagonista nos dois segmentos do filme torna-se um exercício relevante para esta pesquisa.

Ao iniciar pela aparência, Betty está sempre vestida adequadamente conforme parâmetros da moda, em todos os momentos e locais nos quais transita.

Em nenhuma cena a personagem se exibe deslocada da situação social que partilha. Em comparação a Diane, a perspectiva é ao contrário – exceto pela cena do jantar, sua aparência está sempre cansada, os cabelos despenteados e suas vestes refletem o abandono dos seus próprios cuidados.

Entretanto, a postura é o fator mais evidente. Para Giddens, a possibilidade de manter uma postura constante nos mais diversos espaços sociais é como se constrói uma auto-identidade coerente. (2002, p. 95). Analisando as posturas da protagonista assumindo o papel de Betty, ela se mostra sempre altiva e positiva até nas situações mais difíceis e perigosas; mas quando assume a identidade de Diane, no segundo segmento, ela demonstra um comportamento suicida na maioria das suas aparições, além de insegurança ao se colocar em diversas situações. O contraste pode ser notório nas cenas em que Diane/Betty se apresentam para a personagem Coco.

A cena do jantar de anuncio de noivado de Camilla e Kesher, Diane brinda

com o casal quando Coco se aproxima. No segundo segmento da história, Coco é

mãe de Kesher, e não nota Diane em um primeiro momento. Reclama que o jantar

está demorando para se iniciar. Kesher então apresenta sua mãe a Diane – a

(28)

protagonista, por sua vez, aperta a mão de Coco e sorri sem entusiasmo, pedindo desculpas pelo atraso, mas a senhora apenas reforça que precisam ir comer pois já é tarde. Camilla, Kesher e Coco seguem na frente para dentro da casa e Diane, levemente curvada caminha logo atrás.

A curvatura do corpo, a falta de disposição e imposição de se colocar nos ambientes em que frequenta marcam Diane em suas cenas. A personagem é representada por insegurança, sentimentos que gravitam em torno de raiva e tristeza, e raras às vezes que sorri em suas cenas. Assim como os enquadramentos, o jogo de luzes apresentado em suas cenas não favorecem a linguagem corporal de Diane, que está constantemente cercada de sombras e ambientes escuros.

Tudo desenrola de maneira diferente quando Betty conhece Coco. No primeiro segmento da história, Coco é a síndica de Betty e espera sua chegada.

Coco já sabia de quem Betty se trata logo que a vê. A senhora a recebe com gentileza e bom humor, sendo esta postura retribuída pela protagonista. A empatia entre as duas personagens é imediata.

É importante observar o fato de Coco já saber o nome de Betty logo que a protagonista chega, enquanto Diane precisar ser introduzida. Como já foi dito anteriormente através das observações de Bauman, trata-se da linguagem do reconhecimento: “a posição social nada significa a menos que tenha sido socialmente reconhecida” (BAUMAN, 2009, p.21), ou seja, para fazer parte do grupo, é necessário previamente que o sujeito seja aprovado por pessoas determinadas que dizem o que é adequado e o que não é.

Betty é tratada como uma atriz renomada desde que inicia sua trajetória em Los Angeles. A síndica sabe quem ela é, os diretores e produtores sabem quem ela é, e aqueles que não a conhecem por nome, logo são cativados pela postura da personagem e desejam saber qual seu nome. Betty é sobrinha de uma antiga grande estrela e tem todos os recursos necessários para prosseguir – assim como sua postura e aparência são creditadas como positivas pelos demais personagens da trama e os espectadores que assistem ao filme.

Ao contrário de Betty, Diane é introduzida por terceiros. Em certa altura do

filme, ela confessa que os diretores não acreditam que ela fosse “muita coisa” e

Camilla sempre intercede por ela para conquistar papéis secundários. No segundo

(29)

segmento, todos os seus diálogos demonstram falta de articulação e malícia nos jogos sociais. A ausência de postura de Diane garante um desencaixe das situações e negociações que podem levar um ator a prosperar, e por esta razão ela apresenta dificuldade em ser aceita pelos “juízes” da indústria cinematográfica.

Os enquadramentos relacionados a Betty também são cuidadosos para realçar sua aparência e vivacidade. Muitas cenas no primeiro segmento exploram seu rosto regado de luminosidade e expressões de felicidade. Na cena em que ela chega à casa de sua tia Ruth, há um leve contra-plongée enquanto Betty se encontra em primeiro plano e o fundo está desfocado, voltando a atenção para a personagem em um enquadramento que euforiza a sua imagem.

A protagonista no primeiro segmento configura diversas características positivas consideradas pelo romantismo como a mulher ideal: suas roupas são leves, claras e sempre restritas à pouca sensualidade – sem decotes ou cumprimentos menores do que as convenções sociais. Seu padrão de beleza segue europeu: o corpo magro e pequeno, cabelos loiros e os olhos azuis, rotineiramente destacados pelo jogo de luzes do filme. Sobre a aparência ainda, nota-se que os acessórios de Betty são discretos e delicados como colar de pérolas e brincos pequenos; a maquiagem transita entre tons de rosa e nude.

Finalmente, todas essas frustrações são colhidas por Diane quando o estilo de vida desejado não é alcançado, pois, todos os ideais vendidos por Hollywood são apenas representações. Saída de uma cidade pequena após vencer um concurso de dança, a jovem acredita que possui talento o suficiente para triunfar em Los Angeles – mas suas expectativas se apresentam muito longe da realidade.

   

1.3 HOLLYWOOD: IDENTIDADES E SUAS SIMULAÇÕES

Os filmes são relacionados aos sonhos, pois as narrativas criam um jogo de

coincidências e desventuras, onde todos os obstáculos são sempre vencidos e

personagens caminham a finais felizes – situações exploradas no cinema

dificilmente são recorrentes na vida real, mas permanecem no imaginário do grande

(30)

público. Diane escolhe seguir atrás de seus sonhos ao sair da sua cidade natal, mas se depara com uma realidade divergente do que se vê nas representações fílmicas.

Percebe-se, portanto, que Cidade dos sonhos recorre a uma metalinguagem – o filme falando sobre o filme. E em crítica velada, David Lynch trata do tema das representações e a fronteira entre o real e o imaginário no universo hollywoodiano no tocante aos simulacros. A personagem protagonista, cria seu duplo no mundo onírico para se refugiar da realidade e dos estilos de vida não alcançados conforme sua aspiração. Tendo em vista estas problemáticas, torna-se relevante um estudo sobre os simulacros para se aprofundar na análise da fragmentação da personalidade de Betty.

O cinema, desde sempre, propõe e traz experiências nas histórias de ficção ou nas simulações do cotidiano. Ele aproveita a virtude desse potencial representativo para tornar tudo em filme: livros, biografias, peças de teatro e a própria vida. E, não só isto, ele nos dá uma outra percepção do mundo: o cinema torna visível o invisível, ou seja, ele traz novos significados a partir da imagem de realidades que antes pareciam óbvias.

Uma das características marcantes em muitos filmes do século vinte e em diante é o interesse por narrativas de nebulosa distinção entre o real e a imaginação, que surgiram anteriormente em clássicos literários como Dom Quixote e foi levado a filmes populares como Blade runner: O caçador de Androids (1982), Clube da luta (1998), A ilha (2005), O duplo (2013), entres outros.

Cidade dos sonhos (2001) entra nessa vasta lista de filmes em que duas realidades distintas se confundem: identidades transformadas; cenas que tratam do cotidiano, mas que introduzem elementos que causam estranhamento ou que trabalham com a instabilidade da narrativa; personagens que desaparecem sem explanação; saltos de linearidade temporal; presença de figuras estranhas e marcantes como um caubói, um mendigo misterioso e mafiosos da indústria cinematográfica – todo um conjunto de seres e de elementos que intrigam o espectador que tenta fazer um pacto de leitura sem sobressaltos.

Em semelhança aos filmes mencionados, Cidade dos sonhos irrompe em sua

narrativa uma crise de identidade que atinge suas personagens e que estende para

a estrutura narrativa, fazendo com que a percepção do espectador também entre em

(31)

colapso. Ao explorar os limites de um conflito, a obra se fraciona e quebra laços com a narrativa clássica, reorganizando seus elementos em função de uma nova experiência.

Toda produção artística é um espelhamento do homem em sociedade e dá forma e sentidos às forças e questões que movem sua época (CAVALCANTI, 1981).

A perda de identidade e o sentimento de inadequação, como já estudados, são algumas características constitutivas dos protagonistas das obras fílmicas mencionadas acima, incluindo Cidade dos sonhos, que apresenta um sujeito com sintomas da busca do seu lugar no mundo e onde depositar seus desejos.

Entre todas as características trabalhadas anteriormente sobre os estudos do sujeito pós-moderno, destaca-se o homem sem uma identidade fixa. Retomando Hall (1987) e o conceito de identidade na pós-modernidade: o indivíduo moderno se encontra em constante e profunda transformação, não mais determinado como tendo uma “identidade unificada e estável, mas fragmentada, formado não de uma, mas de várias identidades, muitas vezes contraditórias ou não resolvidas.” (1998, p.

12)

A crise de identidade recebe uma nova e extensa dimensão com as possibilidades que o surgimento da realidade virtual e os novos meios de comunicação trouxeram, diminuindo distâncias e relativizando o tempo. Na sociedade pós-moderna, o sujeito vê a possibilidade de forjar e moldar outros eus, adotando e recriando sua imagem aos modelos de padrões de beleza, postura e comportamento. É nesse contexto que se inscrevem os simulacros.

Em Simulacros e simulações (1991), Jean Baudrillard debate sobre a pós- modernidade questionando o regime das cópias artificiais sem referência na realidade. O autor defende que a verdade foi substituída por simulacros e, a partir desse dado, foi perdido o sentido sobre o que é real e o que não é.

Para David Harvey, em Condição pós-moderna, o conceito de simulacro pode

ser designado como “um estado de réplica tão próximo da perfeição que a diferença

entre o original e a cópia é quase impossível de ser percebida” (2002, p. 261), ou

seja, devido às avançadas técnicas modernas de reprodução e a exposição continua

de imagens nas mídias, do virtual e suas cópias, a pós-modernidade perdeu a tênue

linha entre o imaginado e a realidade – estas fronteiras deixaram de existir.

(32)

Baudrillard, como um teórico mais radical em comparação a Harvey, parte do princípio de que o “mundo real” não mais existe, pois, as cópias do que um dia já foi realidade tomaram conta do novo mundo, e a simulação não pode ser vista como

“um referencial, de uma substância ou território, mas é definida como geração pelos modelos de um real sem origem nem realidade” (BAUDRILLARD, 1991, p. 8). Essa perda do “modelo do real” consiste no que Baudrillard chama de “hiper-real” ou

“hiper-realidade”.

A própria concepção de imagem foi desfeita sob a ótica dos estudos de Jean Baudrillard. Quando as câmeras e as filmadoras foram inventadas, existia uma ilusão de que a imagem teria algo de novo a acrescentar na esfera da realidade.

Mas, na concepção de Baudrillard, realidade e imagem são “simulacros puros”. Para ele, a imagem “mascara e deforma uma realidade profunda; ela mascara a ausência de realidade profunda; ela não tem relação com qualquer realidade: ela é o seu próprio simulacro puro” (BAUDRILLARD, 1991, p. 13). E ao afirmar que a imagem mascara e deforma a realidade, e que ela se converteu em “simulacro”, entende-se que a imagem captura uma realidade já esvaziada por cópias. É a partir deste entendimento que Baudrillard afirma que é impossível capturar qualquer realidade.

Como foi anteriormente discutido, a imagem na sociedade moderna toma um sentido de consumo para muitos autores, pois ela é colocada à serviço do capitalismo. Harvey afirma que isto é um processo real e perigoso, pois na pós- modernidade, as pessoas são cada vez mais dependentes e fascinadas em criar suas identidades através da imagem televisionada (2003, p. 161), assim levando as identidades a se tornarem mais forjadas e simuladas – simulacros como os próprios produtos que consomem.

Guy Debord, em Sociedade do espetáculo (1997), afirma que uma das características mais marcantes da atualidade é a substituição da experiência direta do mundo pela produção de imagens e simulacros.

Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas

condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação

de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se

representação. (DEBORD, 1997, p. 13)

(33)

Ou seja, para Debord, a representação dominou totalmente a sociedade, e o natural e o autêntico se tornaram imaginados. Ao definir o espetáculo como não sendo “um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens” (1997, p. 14), Debord demonstra que, na sua concepção, as relações entre as pessoas não são mais originais ou realmente vivenciadas, elas são um conjunto de simulações.

Portanto, a realidade é substituída pelas mídias e pela cultura do consumo extrema em que não existe o original, e sim apenas cópias de tudo o que é produzido e a reflexão sobre a realidade é perdida: ela foi inteiramente substituída pela hiper-realidade. Cidade dos sonhos (2001) tem seu roteiro ambientado em Hollywood e retoma o sentido de realidade construída a um nível totalmente novo.

Quando se descobre que todo o primeiro segmento do filme trata de um sonho de Diane, é possível interpretar que a protagonista, consumida pelas imagens exibidas nas grandes telas, não consegue discernir a realidade dos filmes hollywoodianos e reconstruir sua vida da forma que ela gostaria que tivesse sido: um filme policial romântico. Porém, Diane não conquista o estilo de vida que a conduza ao sucesso, e consequentemente sua vida se distancia do ideal.

Tendo em vista que, para Baudrillard o “real” pode ser descrito como “lugar do desencantamento” (2006, p. 57), e que a realidade é viável apenas enquanto está de acordo com os desejos do sujeito (ROSSET, 2008, p. 14) torna-se fácil compreender o porquê, no senso comum, o cinema é facilmente relacionado a um modelo de idealização, onde aventuras e desventuras são quase privilégio de situações apresentadas nas grandes telas. A sétima arte é considerada por Baudrillard uma malha de realidades artificiais, que de forma eficaz obtém sucesso em atrair o grande público e levar multidões às grandes salas com seus sucessos de bilheterias.

Baudrillard tenta explicar em sua obra, o fascínio das pessoas pelo cinema, e

afirma que este sentimento de deslumbre está relacionado à pretensão de o cinema

ser a própria realidade e, por esta razão, ele se aproxima cada dia mais do real

absoluto. O fato de o cinema converter-se na própria realidade envolve sua

necessidade de perfeição, e todos recursos narrativos e de efeitos de “verdade” que

ele cria para atender a esse propósito. Conforme suas palavras:

(34)

O cinema plagia-se e recopia-se, refaz os seus clássicos, retroactiva os mitos originais, refaz o mundo mais perfeito que o mundo de origem, etc.

Tudo isso é lógico, o cinema está fascinado consigo próprio como objeto perdido tal como está (e nós) estamos fascinados pelo real e com o real em dissipação. (1991, p. 64)

Na tentativa de duplicar a realidade, em muitos filmes, frequentemente a noção de realidade é até mesmo ultrapassada e os espectadores se encontram tão submersos nessa “hiper-realidade” a ponto de não criar o limiar entre a ficção e o mundo real.

Esta percepção acerca da natureza sedutora das tramas cinematográficas é que leva os indivíduos ao encantamento diante das maravilhas que a ficção propõe e diante do estilo de vida nelas explorado. É possível dizer que Diane recria sua vida baseada nos grandes clássicos americanos do cinema, onde a artificialidade das situações humanas e as coincidências estão impregnadas de forma exagerada na trama.

A narrativa ambientada em Hollywood, durante todo o primeiro segmento, retrata a vida da protagonista com vários aspectos que resgatam artifícios encontrados em um clássico filme policial: criminosos e um crime, o envolvimento da polícia, a investigação de um mistério, e até mesmo a presença da femme fatale

1

trazendo referência aos filmes noir

2

dos anos 40 aos 50. Além destes recursos narrativos, a atuação é propositalmente pouco natural no primeiro segmento, muitas vezes as reações das personagens diante de certas situações são pouco convincentes ao se comparar com a realidade e à percepção do espectador.

Em um dos primeiros momentos onde é possível notar essa falta de naturalidade no filme e o excesso de teatralidade, é quando Betty chega ao aeroporto de Los Angeles, acompanhada de uma senhora idosa. A câmera em um plano emocional aproxima-se do rosto de Betty diversas vezes sob uma luz clara e capta a emoção da personagem ao chegar em Los Angeles, onde tem a oportunidade de perseguir seus sonhos de ser atriz.

                                                                                                               

1

A mulher de aparência exuberante e ações indomáveis, foi fenômeno cinematográfico no universo

2

Estilo cinematográfico do gênero policial. Alguns elementos comuns são as luzes expressionistas,

temática do submundo, a presença de um personagem detetivesco e a mulher fatal. Erotismo e

(35)

Ao sair para a área aberta do aeroporto, Betty é presenteada com um dia ensolarado e recebe votos de sorte da idosa, agora acompanhada do possível esposo. A senhora expressa sua felicidade por ter viajado ao lado de Betty e o senhor também lhe deseja “toda a sorte do mundo” ao se despedirem. Betty vira-se para pegar sua bagagem e não as encontra, mas antes que pudesse se preocupar, nota que um taxista as coloca no porta-malas do seu carro, perguntando-lhe prontamente o destino da viagem. Betty sorri, sem perder seu entusiasmo e responde o nome da Sunset Boulevard.

A superficialidade da situação, onde todos os fatos desenrolam de maneira em favor da protagonista, embora o senso comum antecipe o contrário, retira a credibilidade do espectador sobre a narrativa de maneira proposital. Em um primeiro momento, pensa-se que Betty foi furtada ao perder a atenção sobre suas malas que desapareceram, especialmente devido ao fato de que em aeroportos o reforço para se manter atenção sobre os próprios pertences frequenta placas e avisos dos funcionários das companhias aéreas, ainda, quando se visita um local de intensa circulação como Los Angeles, dificilmente se consegue um táxi sem solicitar o serviço ou se entrega tamanha confiabilidade a tal abordagem.

Não apenas o desfecho dessa sequência foge do comum, mas toda a cena

do aeroporto é excessiva e beira ao artificial: tudo é muito claro, o rosto de Betty

está sempre iluminado e sua personalidade entusiasta é pouco natural; o dia em Los

Angeles está ensolarado e o céu azul, assim como todos ao redor são gentis e

solidários. Betty vive o “sonho americano”: vinda de uma pequena cidade do

Canadá, seu primeiro teste para atriz em Los Angeles é bem-sucedido o suficiente

para ser reconhecida como uma grande estrela. As questões econômicas não são

problemas e a residência em que está hospedada para realizar seus testes é em

uma das avenidas mais consagradas de Los Angeles, Sunset Boulevard.

(36)

Fig. 4 Betty em Los Angeles (2001, 18’16”) Fig. 5 Welcome to Los Angeles

3

(2001, 18’18")

Ainda sobre esta sequência em que Betty está saindo do aeroporto ao lado de Irene, a filmagem do rosto da protagonista em plongée, intercalada à placa de

“Bem-vindo a Los Angeles” em contraplongée, minimiza Betty diante do cenário de possibilidades que gravitam em torno da cidade do cinema – onde os sonhos são realizados – e garante a superioridade de todos os símbolos que Los Angeles representa. Mais uma vez nas palavras do teórico cinematográfico francês Marcel Martin, em relação ao ângulo plongée:

A plongée (filmagem de cima para baixo) tende, com efeito, a apequenar o indivíduo, a esmagá-lo moralmente, rebaixando-o ao nível do chão, fazendo dele um objeto preso a um determinismo insuperável, um joguete da fatalidade (2003, p. 41)

Assim, pode-se considerar que essa breve cena antecipa o decorrer da narrativa, pois Betty/Diane cai na fatalidade e na ilusão de suas expectativas sobre a vida em Hollywood. Enquanto Los Angeles vende a ideia da perfeição, dos filmes, dos sonhos, das aparências, entre outras qualidades simuladas, a protagonista não tem recursos o suficiente para conquistar esse estilo de vida e a fatalidade, ao final do filme, é seu suicídio.

É importante reforçar que a hiper-realidade de Betty deve-se à simulação dos

seus desejos no mundo dos sonhos. Ao final da narrativa, é possível identificar que

o primeiro segmento se baseia na ausência da realidade do segundo segmento. A

realidade não é interessante, e o sonhar apresenta-se como a simulação daquilo

que não ocorre na vida de Diane. Baudrillard define o conceito de simulação como o

                                                                                                               

(37)

processo de se “fingir ter o que não se tem” (1991, p. 9), e no caso da protagonista, a sua vida era à semelhança de um roteiro hollywoodiano.

O próprio espaço de Hollywood sugere imagens e símbolos que habitam o imaginário de pessoas ao redor de todo o mundo. Los Angeles é um dos centros turísticos mais conhecidos do mundo graças a seu vínculo com a indústria do cinema e pela recorrente retratação desse espaço nos filmes. Algumas das imagens que garantem uma fácil associação ao famoso lugar são as palmeiras da Sunset Boulevard e o grande letreiro de Hollywood.

Sabendo que estes símbolos estão presentes no senso comum de uma maneira positiva, relacionados à sucesso, fama e dinheiro, logo que Betty sai do aeroporto, David Lynch contextualiza a cidade através de cenários exuberantes:

primeiro as palmeiras e o céu azul em uma filmagem de baixo para cima e depois o letreiro em enquadramento amplo – imagens e ângulos carregados de sentidos, manipulando o sentido dos espectadores sobre o que é visto.

Fig. 6: Paisagem de Hollywood (2001, 19’56”)

Retomando o conceito de imagens, segundo Baudrillard, seja na fotografia, na televisão, na publicidade ou no cinema as pessoas visualizam imagens

sobretudo ideológica e capazes de mostrar não a imagem que é, mas

aquela programada para ser vista. A essa homologia técnica e ideológica

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