CAPÍTULO 2: A FILOSOFIA DO ABSURDO
2.1 NARRATIVA DO DESEJO
Para compreender a essência das teorias sobre o sonho, pretende-se nesse momento apresentar algumas formulações teóricas de Sigmund Freud que influenciaram o pensamento do movimento surrealista. Os conceitos que serão expostos auxiliarão a compreender as representações do onírico que surgem no filme Cidade dos sonhos a partir de uma perspectiva do Surrealismo, especialmente no que se diz respeito ao embate entre a realidade e o mundo dos sonhos.
Freud, fonte de inspiração do pensamento surrealista, entende que as convenções sociais responsáveis por educar o homem são a razão por garantir a censura dos desejos a fim de colocar os indivíduos em um mesmo nível, sem que entrem em choque uns com os outros e convivam pacificamente em uma mesma sociedade (apud DUPLINESS, 1963, p. 106). Contudo, ao reprimir o homem para que todos se encaixem nos mesmos moldes, o indivíduo resguarda seus pensamentos no inconsciente – e é desta ação que nasce o material dos sonhos:
O material disponível à elaboração onírica consiste de pensamentos – alguns deles podem ser censurados ou inaceitáveis, porém são corretamente construídos e expressos. A elaboração onírica dá a esses pensamentos uma outra forma, e constitui fato singular e incompreensível que, sendo feita tal tradução [...] esses métodos de mistura e combinação se realizam. (FREUD, 2006, p. 206)
Por essa razão Freud não apenas afirma que os sonhos possuem significado, como são a manifestação das próprias ideias e vontades oprimidas pela censura.
Em Interpretação dos sonhos (1987-88), o universo onírico é percebido como uma válvula de escape para os desejos receberem vida; dos mais singelos até os mais hediondos, adequados ou não, viáveis ou não, os desejos interditos podem se manifestar pelos sonhos. Entretanto, interpretar todos os símbolos e conseguir constituir uma narrativa coerente ao pensamento da vigília é a árdua tarefa, pois
“quanto mais rigorosa a censura, mais amplo será o disfarce e mais engenhoso também será o meio empregado para pôr o leitor no rastro do verdadeiro sentido.”
(FREUD, 1987, p. 104)
Imagens desconexas, comportamentos que beiram o absurdo, rostos distorcidos, tempo sem linearidade; todos esses aspectos compõem a narrativa do inconsciente. Freud explica que o acesso dos sonhos à consciência implica o enfrentamento da barreira da “censura”, o que resulta na distorção e o ocultamento da nitidez das imagens representadas no onírico – daí o aspecto, muitas vezes, absurdo do sonho.
Segundo o autor Garcia Roza, estudioso das teorias freudianas, “o que Freud nos mostrou foi que esses pensamentos, por exigência da censura, são deformados pela elaboração onírica, que, [...] lança mão da figuração, o que torna os pensamentos oníricos irreconhecíveis para a consciência” (2009, p. 84), ou seja, para proteger a consciência moral de cada indivíduo, os desejos são mascarados em símbolos e transformados em imagens desconexas para camuflar a verdadeira mensagem do inconsciente.
Os fragmentos legíveis no material onírico correspondem a certos acontecimentos e experiências durante o dia que permeiam a experiência do sonhar.
Este material provindo da vigília é identificado por Freud como “restos diurnos”
(1887, p. 197). O psicanalista aponta três origens possíveis para os desejos se manifestarem no plano onírico: desejos que foram despertados durante a consciência, mas que por razões externas não foram satisfeitos; desejos que surgem durante o dia, mas foram suprimidos por forças externas; e os que não têm a ver com as experiências diurnas, mas são motivados por impulsos durante a inconsciência como a fome, sede, etc. (1886, p. 88).
Em Interpretação dos sonhos (1886-87), Freud observa que é impossível pensar em um sonho em que a motivação original não tenha passado por algum anseio, desejo ou impulso através da mente acordada, e que “esse impulso original não foi inventado pelo sonho; o sonho simplesmente o copiou e desdobrou, meramente elaborou de forma dramática um fragmento de material histórico que encontrou em nós” (FREUD, 1987, p. 59). É possível afirmar, portanto, que o desejo, fruto do pensamento da vigília, é uma das substanciais fontes do sonhar.
Embora Freud concorde que os desejos não são as únicas razões propulsoras para se existir um sonho, o psicanalista entende que eles são o principal combustível, e os restos diurnos (as experiências vividas na vigília e interpretadas pelos sonhos), por sua vez, estão subordinados ao desejo e à identidade de quem sonha. Eles representam e ocultam, simultaneamente, aspectos importantes do desejo, ou seja, de um componente essencial da identidade que não se tem plena consciência.
As reflexões de Freud sobre as narrativas dos sonhos e dos desejos são fundamentais para se compreender muitas das vivências da protagonista Betty/Diane em Cidade dos sonhos. Apropriando desses ensinamentos, pode-se dizer que os restos diurnos são apresentados no sonho de Diane em diversos momentos no primeiro segmento da obra. A grande parte da reinterpretação de acontecimentos do pensamento da vigília de Diane provém da cena do jantar de noivado de Camilla com Adam Kesher. Trata-se de uma situação de grande estresse e humilhação à protagonista – que pode ser explicada pelas teorias do psicanalista sobre as situações ápices que comumente são trazidas para o material onírico.
A cena do jantar ilustra bem como a realidade é revisitada nos sonhos de Diane. Após alguns minutos de conversa com Coco, a senhora toca a mão de Diane em um gesto de compreensão e compaixão mediante a história de vida contada pela protagonista. A câmera foca nos olhos atenciosos de Coco, que escuta com interesse a narrativa de Diane, e corta em plano detalhe para o movimento da mão da senhora dando dois toques vagarosos e gentis na de Diane. Possivelmente, esta pequena ação significativa e carinhosa, chama atenção de Diane a ponto de sonhar que Coco é a gerente das residências na Sunset Boulevard. Coco ocupa uma posição quase materna em relação à Betty: está sempre por perto para auxiliar a protagonista e alertá-la de eventuais perigos.
A seguir, dispõe-se uma breve relação de outros momentos que o sonho de Diane faz uma releitura da realidade e suas percepções:
a) Camilla é beijada por uma jovem loira durante o jantar no segundo segmento, despertando o ciúmes e ira de Diane. Esta mesma jovem é a garota que Kesher é obrigado a contratar para seu filme no primeiro segmento.
b) O desejo de vingança de Diane sobre Kesher acontece em seus sonhos.
Kesher é o diretor que se casa com Camilla, romance de Diane, e se torna o algoz punido no primeiro segmento do filme. Nos sonhos de Diane, Adam é constantemente prejudicado: não pode escolher as atrizes do seu filme;
encontra a esposa traindo-o; perde todos os seus bens materiais e quase tem sua carreira falida.
c) Durante o jantar Diane presencia um homem cuspindo em um guardanapo – este mesmo homem é o mafioso que congela os bens de Adam Kesher quando o diretor não aceita usar Camilla Rhodes no filme. Na cena em que o homem aparece nos sonhos de Diane, ele repete o mesmo gesto de cuspir café no guardanapo em certo momento.
d) Diane também presencia um homem vestido de cowboy no jantar. Nos seus sonhos, o cowboy é quem persegue Kesher para que ele escolha a atriz desejada pelos produtores.
e) A frase “Esta é a garota” é reproduzida diversas vezes no primeiro segmento do filme. Os mafiosos mostram uma foto do currículo de Camilla Rhodes para Adam Kesher e o instrui para, durante o teste, apontar para a atriz e proferir a frase. Não coincidentemente, no segundo segmento, Diane mostra uma foto de Camilla/Rita para o assassino contratado e profere as mesmas palavras ao solicitar o crime.
Estas associações dos restos diurnos com o que se passa no sonho são consideradas involuntárias nos estudos de Freud. Para se encontrar a raiz desse conteúdo do inconsciente, é necessário primeiramente descontruir o sonho em pequenos fragmentos, pois essa é a chave principal para a interpretação deles. No filme, quando o espectador tem a oportunidade de perceber que as cenas do primeiro segmento tratam de um sonho e inicia o processo de relocação de peças do quebra-cabeça da trama, a narrativa passa a construir um sentido mais claro e mais denso.
A premissa de que os desejos são a razão dos sonhos e que existe um plano imaginário onde as vontades possam estar libertas – o inconsciente, no caso –
fascinou os surrealistas que fizeram do subconsciente a fonte exclusiva da criação artística expressa livremente, sem qualquer interferência da reflexão intelectual.