PROCESSO-CONSULTA CFM nº 4/2016 – PARECER CFM nº 9/2017 INTERESSADO: Dr. A.D.C.
ASSUNTO: Legalidade e possibilidade de oferecer tratamento cirúrgico minimamente invasivo à coluna vertebral, por acesso lateral (XLIF)
RELATOR: Cons. Hideraldo Luis Souza Cabeça
EMENTA: A técnica de Fusão Intersomática por via Extremo-Lateral Transpsoas – (XLIF) para a coluna vertebral é procedimento indicado e realizado por médico e necessita obedecer à técnica cirúrgica específica, sendo recomendado monitorização neurofisiológica intraoperatória.
DA CONSULTA
O consulente, Dr A.D.C., médico ortopedista, solicita informações quanto à legalidade da utilização de tratamento cirúrgico minimamente invasivo em coluna vertebral pela técnica XLIF (Extreme Lateral Interbody Fusion).
Trata-se da Fusão Intersomática por via Extremo-Lateral Transpsoas.
Finalidade: Assistencial. Registro junto à ANVISA e aprovação pelas operadoras dos planos de saúde.
DO PARECER
I. DESCRIÇÃO DA TÉCNICA XLIF:
Desde a sua descrição original em 2006, a técnica de Fusão Intersomática Lombar por via Extremo-Lateral Transpsoas (XLIF) foi desenvolvida como alternativa minimamente invasiva aos acessos convencionais via anterior e/ou posterior para discectomia e artrodese da coluna vertebral. De modo semelhante à via anterior para fusão dos corpos vertebrais na coluna lombar, o acesso lateral, também designado extremo lateral, permite a colocação de espaçador intervertebral cage amplo, o qual possibilita o realinhamento anterior da coluna e margem maior para fusão entre as vértebras, sem a necessidade de secção ou ressecção
dos ligamentos longitudinais anterior e posterior, que são importantes na manutenção da estabilidade segmentar. Além disso, o acesso lateral diminui os riscos mais comuns de lesões associadas aos acessos anterior e posterior, tais como: vascular (artérias Macas e veia cava inferior); visceral; lesões de elementos nervosos (raízes e dura-máter) relacionados às ressecções ósseas nos acessos por via posterior e menor risco de lesão do plexo simpático lombar, reduzindo a incidência de ejaculação retrógrada, em comparação à via lombar anterior pela técnica de ALIF.
No entanto, a passagem segura pelo músculo psoas requer a monitoração neurofisiológica a fim de identificar as raízes do plexo lombar. Anatomicamente, os nervos sensitivos com maior risco de lesão no acesso lateral transpsoas são: ilioinguinal, ilio-hipogástrico, cutâneo femoral lateral e genitofemoral.
Após a introdução da técnica XLIF e a documentação na literatura, o procedimento tem se difundido. Porém, trabalhos relacionados à efetividade, à segurança e aos resultados em longo prazo continuam a ser necessários para validar totalmente o acesso, em especial após a curva de aprendizado de um novo método. Até o momento, os trabalhos na literatura têm registrado controles radiográficos e de imagem satisfatórios, assim como os resultados de tratamento.
Embora já tenha sido descrito seu uso em múltiplos níveis, em geral, a técnica é indicada para o tratamento monosegmentar.
II. INDICAÇÕES:
As indicações são as mesmas àquelas de fusão intersomática pelas vias posterior ou anterior à coluna vertebral, a saber:
– Doença degenerativa da coluna vertebral com dor discogênica devido à instabilidade segmentar e degeneração do disco;
– Escoliose degenerativa e/ou espondilolistese grau I ou II; – Falha no tratamento por discectomia simples ou laminectomia;
– Pseudoartrose após cirurgias via posterior e nos casos de doença do nível adjacente após a cirurgia de fusão prévia acima do nível L4-L5;
– Também em casos selecionados de estenose segmentar do canal vertebral, fratura osteoporótica e hérnia de disco de T5 a L4-L5;
– Tratamento da radiculopatia lombar por descompressão indireta dos forames neurais.
III. CONTRAINDICAÇÕES:
– Não indicado para o nível L5/S1 pelo risco de lesão de vasos ilíacos e pela dificuldade de acesso em decorrência do posicionamento da crista ilíaca;
– Espinha ilíaca elevada acima do nível L4-L5, cobrindo completamente a vértebra L4, quando vista a radiografias simples;
– Em casos de aderências retroperitoneais por afecções prévias com fibrose retroperitoneal; – Necessidade de descompressão ampla do canal vertebral;
– Metástases vertebrais.
IV. DESCRIÇÃO DA TÁTICA CIRÚRGICA:
Paciente em decúbito lateral (90) com o trocânter do lado oposto sobre a articulação da mesa cirúrgica. Por meio de incisões (± 3cm) laterais, marcada previamente por fluoroscopia, faz-se dissecção digital romba retroperitoneal, tubos dilatadores são progressivamente colocados através das fibras do músculo psoas, em situação retroperitoneal, até alcançar o disco intervertebral lateralmente, sob visão direta, não interferindo na musculatura posterior. Realiza-se a discectomia ampla, mantendo-se íntegros os ligamentos longitudinais anterior e posterior. Em seguida, implantação de dispositivo intersomático cage preenchido com enxerto autólogo ou biossintético indutor de osso. O procedimento é considerado minimamente invasivo devido às suas características, tais como as pequenas incisões necessárias para a cirurgia, o sangramento geralmente pequeno, a preservação dos músculos posteriores e menor tempo de hospitalização do que na cirurgia convencional.
É recomendado o uso de monitorização neurofisiológica intraoperatória durante o procedimento, de acordo com a Resolução CFM nº 2.136/2015.
INSTRUMENTAL: Requer Instrumental cirúrgico e materiais (OPME) específicos e apropriados à técnica XLIF.
COMPLICAÇÕES: As mais comuns são dor, fraqueza e disestesias na face anterior da coxa, a maioria com resolução em até seis semanas. Por ser procedimento relativamente recente e limitado a determinados centros, o número de complicações não é expressivo até o momento. Há, ainda, outras complicações relacionadas à técnica cirúrgica e relatadas na literatura, e cito:
Lesão do plexo lombar no interior do músculo psoas; Lesões viscerais retroperitoniais;
Lesões vasculares de artérias e veias ilíacas;
Lesão da placa cartilaginosa terminal por excesso de curetagem durante a discectomia;
Outras complicações semelhantes às outras técnicas: déficits neurológicos motores e sensitivos; infecções; tromboembolismo; lesão encefalovascular e pseudoartroses.
V .COMENTÁRIOS:
– A Técnica de artrodese segmentar da coluna vertebral por via lateral (XLIF) não se trata de técnica de caráter experimental. Faz parte dos procedimentos considerados minimamente invasivos. A descrição do procedimento, suas indicações e contraindicações estão amplamente relatadas e documentadas na literatura.
– A técnica cirúrgica denominada XLIF (eXtreme Lateral Interbody Fusion) já está aprovada pela Anvisa (2010).
– Não consta do rol de procedimentos da ANS e tampouco da atual tabela Sigtap – SUS do Ministério da Saúde.
– Nas tabelas TUSS e AMB encontram-se: ARTRODESE DE COLUNA COM INSTRUMENTAÇÃO VIA ANTERIOR por SEGMENTO LOMBAR – 3071-5016 (TUSS), 49030361 (AMB), ARTRODESE DE COLUNA COM INSTRUMENTAÇÃO VIA POSTERIOR por SEGMENTO LOMBAR – 3071-5016 (TUSS), 49030370 (AMB).
– São poucas as publicações na literatura descrevendo os seguimentos a longo prazo após a cirurgia de fusão anterior por acesso lateral (XLIF) para avaliarmos sua real eficácia em relação ao estado de fusão a longo prazo, à incapacidade, à qualidade de vida e às complicações em relação às técnicas convencionais de artrodese vias anterior e posterior. – Embora a técnica XLIF seja aceita como técnica de fusão intersomática com indicações similares a outros procedimentos, não há evidências sólidas de sua superioridade em relação às técnicas de fusão vertebral posterolateral (PLIF) ou transforaminal (TLIF).
CONCLUSÃO
A técnica de Fusão Intersomática por via Extremo-Lateral Transpsoas – (XLIF) para a coluna vertebral é procedimento indicado e realizado por médico obedecendo estrita adesão à técnica cirúrgica. Para esse procedimento é também recomendada monitorização neurofisiológica intraoperatória realizada por médico. Além disso, requer instrumental e materiais (OPME) destinados exclusivamente ao procedimento.
Este é o parecer, SMJ.
Brasília-DF, 31 de março de 2017.
HIDERALDO LUIS SOUZA CABEÇA Conselheiro relator
REFERÊNCIAS
• 1. Arnold PM, Anderson KK, McGuire RA Jr. The lateral transpsoas approach to the lumbar and thoracic spine: A review. Surg Neurol Int. 2012;3(Suppl 3):S198-215. • 2. Cummock MD, Vanni S, Levi AD, Yu Y, Wang MY. An analysis of postoperative
thigh symptoms after minimally invasive transpsoas lumbar interbody fusion: clinical article. J Neurosurg Spine. 2011;15(1):11-8.
• 3. Le W, Smith DA, Greenbergetal MS. Complications of lateral plating in the minimally invasive lateral transpsoas approach. J Neurosurg Spine 2012;16(3):302-7.
• 4. Madan SS, Boeree NR. Comparison of instrumented anterior interbody fusion with instrumented circumferential lumbar fusion. Eur Spine J. 2003;12:567-77.
• 5. McAfee PC, Regan JR, Zdeblick T, et al. The incidence of complications in endoscopic anterior thoracolumbar spinal reconstructive surgery. Spine. 2000;20:1624-32.
• 6. Epstein NE. Extreme lateral lumbar interbody fusion: Do the cons outweigh the pros? Surg Neurol Int. 2016;7(Suppl 25):S692–S700.