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(1)50. 1.5 Esposas ou cortesãs: as mulheres queirosianas. “Não há em seus romances uma única mulher honesta” Camilo Castelo Branco. A rivalidade entre os estilos romântico e realista fica evidente no fragmento acima. Nele o autor de clássicos do romantismo português como Amor de Perdição e A Queda dum Anjo critica a opção de estilo de Eça de não poupar suas personagens femininas em suas caracterizações morais, ao contrário do Romantismo, estilo que as exaltava em todos os sentidos. Oposições estéticas e ideológicas à parte, parece- nos pacífico afirma que, na obra queirosiana, as mulheres aparecem retratadas em quase sua totalidade de forma estigmatizada. A subalternização da mulher é um exemplo. Em boa parte dos romances há esta idéia perfeitamente nítida, distinguindo-se nas personagens qualidades diferentes das dos homens, até a possibilidade de os superara, mas desde que devidamente por eles guiadas. Conforme visto anteriormente, apesar de no século XIX a mulher européia (especialmente a francesa e a inglesa) ter experimentado uma discreta modificação de seu papel na sociedade por conta das necessidades impostas pela Revolução Industrial, nas sociedades ibéricas, contudo, as mulheres permaneciam em posição inferior: “os países latinos, como os países orientais, oprimem a mulher pelo rigor dos costumes ma is do que pelo rigor das leis” (BEAUVOIR, s/d, p.164). Os papéis secundários e dependentes das mulheres na novelística queirosiana, a sua passividade (exceção para Juliana de O Primo Basílio e Genoveva, de A tragédia a da rua das flores) estariam então explicadas: seriam fruto do meio e da época em que foram concebidos. Mas partimos do pressuposto segundo o qual o delineamento dos perfis femininos em Eça é reflexo também de fatores ideológicos, constituído uma espécie de eco nítido das idéias de um outro escritor que muito o influenciou: o francês Pierre Joseph Proudhon. De.

(2) 51. origem camponesa, Proudhon23 era partidário da pequena propriedade e do confinamento da mulher ao seu lar. O pensador fazia parte de uma ala discrepante do socialismo, na medida em que defendia que a mulher era inferior ao homem e, portanto, devia permanecer em sua dependência, já que somente ele valeria como indivíduo social. Para ele, o casamento não era uma união- que pressupõe idéia de junção de iguais – mas uma associação. Para Prodhon, as mulheres do século XIX tinham somente dois caminhos a seguir: “menagére” ou “courtizanne”. A influência do francês aparece inclusive em Os Maias, quando no episódio do sarau do Teatro Trindade, de que o Senhor Guimarães troçava, João da Ega comenta “Oh Proudhon, entre nós cita-se muito e já é um mostro clássico. Até os conselheiros de Estado já sabem e para ele a propriedade é um roubo e Deus era o mal”. (QUEIROS, 2000, p 581) Jorge J. de Melo em Os Tipos de Eça de Queiros (1940, p.129), caracteriza as personagens femininas de forma extrema. Ora são espécies sórdidas, ora são sublimes. Ou têm senso nulo ou têm o muito aprofundado em relação aos preceitos morais. Mas de maneira geral, são vistas de forma negativa. (...) quando chega o instante em que seu sangue se agita, em que a carne principia a ter tremores nervosos à vista de um homem, vão direitas a ele, demonstram sua preferência e entreguam-se completamente sem desfalecimentos e sem enganos. (...) Tal encadeamento de paixões descontroladas só podia determinar, mais tarde o que determinou: uma propensão para tipos senão imorais pelo menos amorais. A posição social não é para elas um impedimento à satisfação do desejo. (MELO, 1940, p.128). MELO (1940, p.118), propõe também uma classificação das mulheres queirosianas em cinco grupos, a partir da natureza de suas condutas. Assim teríamos: as honestas – de personalidade séria e propósitos puros, Maria Eduarda encaixar-se-ia neste perfil; as adulteras – mulheres que não encontram no lar emoções suficientes aos seus temperamentos apaixonados, são estimuladas pelas leituras de folhetins, não possuiam uma educação que as sustentasse e as dirigisse na vida matrimonial, descambando para o amor escondido, cheios de sustos e suspiros. Luisa de O Primo Basílio, Maria Monforte,. 23. Escritor, economista e sociólogo francês, viveu entre 1809 e 1865. Desenvolveu teorias sobre organização social, baseada numa cooperação e no mutualismo. É considerado um dos pais do Anarquismo. Entre as suas principais obras estão O que é a propriedade, A Justiça e Filosofia da Miséria..

(3) 52. Raquel Cohen e Condessa de Gouvarinho encaixam-se nesta classificação. E ainda, as devotas – rodeadas por padres e orações, seguem sagrados princípios religiosos que são de um devotismo quase feroz, como em A Relíquia, onde temos a “Titi” Dona Patrocínio;. As ardentes – não necessitam das formas administrativas do casamento para satisfazerem as necessidades de seus corpos, como a preceptora inglesa Miss Sara 24 e, por último, as fáceis – mulheres que se entregam a prostituição por ofício ou por necessidade, como Encarnación, a amante espanhola de Carlo da Maia nos tempos de estudante em Coimbra.. 1.5.1 As mulheres em Os Maias. Muitos autores já demonstraram o poder de Eça de Queiros em conceber tipos humanos, de lhes moldar a aparência e de lhes insuflar alma própria. Antes de entrarmos na análise propriamente dita a que se propõe este trabalho, cumpre apresentarmos com mais detalhes o foco de nossa pesquisa, a partir do qual pretendemos mensurar as categorias eleitas já descritas anteriormente: as personagens femininas. É importante notar que todas são descritas física, intelectual e moralmente a partir do olhar masculino. Até porque a história é contada do ponto de vista de um homem e os personagens masculinos também são maioria no romance. 25. 24. Embora descrita inicialmente como uma jovem religiosa, puritana e pudica, ao final do romance a preceptora é flagrada com um homem a noite em situação pouco recatada, dando vazão a seus instintos carnais , revelando a hipocrisia em torno desta personagem..

(4) 53. Maria Monforte, a Negreira. Figura 1: Primeira aparição de Maria Monforte na minissérie, durante uma tourada em Lisboa.. Mulher de rara beleza, chama a atenção de Pedro da Maia, que com ela se casa e tem dois filhos e por quem se suicida quando ela foge com um italiano. Destaca-se na sociedade lisboeta por suas formas de estátua, por ser dona de um corpo sensual e de pele muito branca. No livro, é descrita como uma beltá de Ticiano. Mulher fatal, suas aparições eram de “causar aneurismas”, parafraseando a personagem Thomas Alencar, poeta romântico que por ela nutre uma paixão platônica. No entanto, a perfeição corporea contrasta com sua personalidade caprichosa, fria, cruel e interesseira. Embora seja apaixonada por Pedro da Maia, o autor nos faz perceber que no fundo a personagem enxerga no enlace com o rapaz de família tradicional e aristocrática a chance de se integrar a sociedade lisboeta, que a repudiava por suas origens. Manoel Monforte era seu pai. Vivia no seu rastro e a sua sombra. Nunca lhe dava o braço, seguindo sempre atrás da filha, ofuscado por ela. Depois que abandona o marido e um filho, Maria Monforte viveu na Áustria com o amante, em Mônaco, na Inglaterra e em Paris. Quando morre o pai e o dinheiro cessa, torna-se prostituta. Como lembra Matos (2000, p.300), Maria Monforte é moralmente proudhoniana, uma vez que seu caráter parece estar contaminado pelas origens da fortuna do pai negreiro. “De fato, não há conflito mais evidente entre propriedade e posse que a escravatura.”. 25. No romance há 25 personagens masculinas para 11 femininas..

(5) 54. Maria Eduarda, Mademoiselle Triste Coeur. Figura 2: Primeira aparição de Maria Eduarda na minissérie, no Grande Hotel.. Descrita como um modelo de virtude “o ideal de mulher e de símbolo sofrido de ser humano” (VIDAL, 2001, p.104), a personagem é, ao longo da narrativa, sempre associada à divindade itálica Juno, protetora do casamento. Como a mãe, sua beleza física é também associada a de uma deusa e seu porte altivo, pela cor da pele e dos cabelos e por seus modos requintados, uma “flor de civilização superior”, nas palavras de João da Ega. Aliás, existe uma similitude, um paralelismo físico entre as duas personagens: ambas fazem aparições radiosas como estrangeiras em uma Lisboa carente de elegância e cosmopolitismo, e por isso, logo chama a atenção da sociedade. Sensatez, equilíbrio, doçura, forte senso de dignidade são características de sua personalidade. Culta e dotada de habilidades artísticas, toca Mendelssohn e Chopin, Lê Dickens e Michellet. É altruísta e sensível às questões sociais. Filha de Pedro da Maia e Maria Monforte, desconhecia sua origem familiar, julgando-se filha de um austríaco de sobrenome Cazalski. De infância e adolescência triste, foi criada até os 16 anos, onde a mãe raramente lhe visitava. De passado amoroso conturbado por conta do convívio com a mãe em suas casas de jogos, teve uma filha com um irlandês que morreu na guerra Franco-Prussiana. Vivia há três anos com Castro Gomes, um negociante brasileiro, quando conheceu Carlos da Maia em Lisboa. É vítima da mãe e do destino fatal dos Maias. Ao que parece, Eça faz pairar Maria Eduarda a uma grande altura (...) para que o efeito da tragédia que irá eclodir mais profundamente ressoe (MATOS, 1988, p.582). O.

(6) 55. escritor dota a de uma aura inexistente nas demais personagens femininas, o que motiva o pensamento de algu8ns críticos, segundo os quais Maria Eduarda é a menos autentica das personagens queirosianas. É interessante a abordagem de Isabel Pires de Lima, no livro As Máscaras do Desengano: para uma abordagem sociológica de Os Maias, quando a descreve como; Personagem construída sob um processo de mascaramento e duplicidade: começa por ser Mme. Castro Gomes, revela-se depois Maria Eduarda, surge em seguida como amante de MacGren e actual amante de Castro Gomes e será tragicamente reconhecida como Maria Eduarda Monforte ou Maria Eduarda Maia e, finalmente, tornar-se-a Mme. De Trelain (LIMA, 1987, p.140).

(7) 56. Condessa de Gouvarinho, a senhora inglesada. Figura 3: Condessa de Gouvarinho, em noite de ópera no Teatro São Carlos.. Personagem secundária da trama, Teresa Thompson é condessa por acaso, por conta da conquista por parte do pai (um próspero negociante de chá da cidade do Porto) de um título de nobreza. Para Vidal, “Teresa Thompson é um produto de uma conjuntural e então vulgar promoção social que nenhum mérito próprio ou do marido justificaria, para além de ele ser um dos peões do xadrez do Liberalismo” ( VIDAL, p.246). Rica em ascensão, vive à mercê de um casamento de conveniência (tão freqüente na época) para ambas as partes. O marido era um político medíocre que aspirava à condição de ministro, mas tinha pouca habilidade para lidar com o dinheiro, sendo por isso financiado pelo sogro rico. Recebiam socialmente em soirées às terças- feiras e cultuava m as aparências, como a maior parte das famílias da Lisboa oitocentista. É descrita fisicamente como dona de um corpo admirável, bem feito aos 33 anos, cabelos ruivos e crespos, pele clara e fina, nariz petulante e olhos escuros e “ um aroma exagerado de verbena” (QUEIRÓS, 2000, p. 137), atributos físicos suficientes para tentarem Carlos, jovem, disponível e propenso à encantamentos fugazes, típicos do chamado “adultério elegante”. Torna-se a amanate insistente e obsessiva de Carlos da Maia: usa até mesmo o filho Charlie, simulando doenças no menino a pretexto de encontrar o médico. Era obstinada e passional em seus encontros adúlteros. “Chegavam de noite, entravam para o quarto. E naquela insistência, ela era o homem, o sedutor, com a sua veemência de paixão ativa, tentando-o, soprando-lhe o desejo” (QUEIROS, 200, p. 340)..

(8) 57. Raquel Cohen, a hebréia. Figura 4: Raquel Cohen, em noite de ópera no Teatro São Carlos. Casada com o banqueiro judeu Jacó Cohen, diretor do Banco Nacional, torna-se amante de João da Ega. É descrita como uma mulher na casa dos 30 anos, com cabelos negros ondeados e muito pesados. É ociosa e sem filhos. Diferente da minissérie, quando tem alguma participação enquanto personagem secundária, no livro é uma personagem silenciosa. Não pronuncia uma só palavra, o leitor não lhe conhece uma opinião, um gosto, um conceito, uma atitude sequer transmitida ou reproduzida por terceiros. Apenas evidenciam-se o sorriso cansado e os movimentos monótonos do leque “com um ar dolente e vago”, da cuidada toillete, onde sempre exibe, com uma emblema de sua fortuna a luneta de ouro presa por um fio enquanto passeia o seu “ar de romance e de lírio meio murcho” em outro símbolo de posição social de que desfruta, decorrente do poder financeiro: a “caleche azul puxada por dois pretos”. Em Raquel só é conhecida e evidente uma persistente tendência para o adultérionaquela. época uma justificativa até natural para a ocupação dos tempos livres – o. adultério elegante a que já nos referimos. Como tem sido frequentemente notado “(...) Raquel Cohen simboliza a alta burguesa desocupada que se alimenta do adultério.” (LIMA, 1987, p. 125)..

(9) 58. CAPÍTULO II - O EROTISMO. Eros, invencível no combate, tu que consomes as riquezas (...). De ti nenhum dos imortais é capaz de fugir. Aquele que te possui, enlouquece. (Sófocles). Quantificar elementos de erotismo em relação às personagens femininas presentes no livro e na minissérie, procedendo o confronto e análise é o que faremos neste capítulo. Entretanto, algumas definições em torno desta categoria fazem-se necessárias previamente à consideração a respeito dos dados pesquisados. A começar pela origem do vocábulo, que remonta ao grego erotiko e ao latim eroticu, cujo significado repousa em “aquilo que se refere ao amor lúbrico, sensual, sexual” (FERREIRA, 1993, p.216). Segundo Bulfinch, (1999, p.110) a origem de Eros - que para os romanos era Cupido remonta à mitologia grega, segundo a qual ele seria fruto da união entre Ares, deus da guerra e Afrodite, deusa da beleza e do amor. Nestas narrativas, ele é imaginado enquanto uma criança, um menino caprichoso e irreverente, dotado de asas, arco e flechas, que se diverte em atirar setas, com o fim de deixar os corações dos mortais e dos imortais completamente inflamados pelo amor. De acordo com o relato mitológico, Afrodite, com inveja da beleza de uma jovem, Psiquê (a Alma), que rivalizava com a sua, incumbe o filho de fazer a moça apaixonar-se pela criatura mais desprezível sobre a terra. Contudo, por acidente, Eros fere-se em suas próprias setas e acaba apaixonando-se por Psiquê. Descoberta a relação, Zeus, divindade suprema do Olimpo, considerado o pai dos deuses e dos homens, ordena que vivam separados e Psiquê passa a eternamente conviver com Tristeza e Inquie tação, à espera de Eros. Ou seja: enquanto não encontra o amor, a alma vive incompleta, infeliz e inquieta. Em O que é o Erotismo, Lúcia Castello Branco afirma que “o mito grego em suma nos diz que Eros é o deus que aproxima, mescla, une multiplica e varia as espécies” ( 1984, p. 40)..

(10) 59. Uma outra versão do mito está presente em O Banquete, de Platão. No banquete dos deuses em festejo ao nascimento de Afrodite, Poros (Recurso) deitou-se com Pênia (Pobreza), assim concebendo Eros, que, para o filósofo, não era um deus, mas um semideus. “E por ser filho o amor (Eros) do Recurso e da Pobreza, foi esta a condição em que ele ficou” (PLATÃO, 1972, p.40). Como Pobreza, está sempre carente do objeto amado; como Recurso, sempre sabe imaginar um meio de chegar aos seus objetivos. Nesta obra, Platão também relata a história entre Eros e Psiquê, mas sob outro viés, completando esta relação com a entrada da figura de Ágape, o amor espiritual, desinteressado, de doação, sem espera de recompensa. Platão defende que o verdadeiro amor consistiria na afeição elevada a um plano ideal, que transcenderia o contato físico, sem contudo excluí- lo. Este é o chamado “ideal platônico do amor”, comumente confundido com o amor inatingível e a afeição sem contato. Na mesma obra, Platão procura explicar a natureza da busca pelo amor, quando Aristófano discursa relatando que, no princípio dos tempos, todos os seres humanos eram dotados de dupla sexualidade1. Por castigo de Zeus, foram mutilados, separados e condenados a vagar pela terra, na ânsia do encontro com a metade perdida. Assim, a eterna missão de achar sua metade seria equivalente a encontrar a continuidade de si mesmo. É a partir desta visão mitológica acerca da bipartição dos homens é que se explica a essência do erotismo para muitos autores, como Georges Bataille. Em O Erotismo (p.15), o autor defende que este se articula em torno de movimentos opostos: a busca de continuidade dos seres humanos, a tentativa de permanência além de um momento fugaz versus o caráter mortal dos indivíduos, sua impossibilidade de superar a morte. Para Bataille, os indivíduos se lançariam nesta busca de permanência porque eles carregam consigo uma espécie de sentimento de isolamento, permeada por uma eterna nostalgia da sua metade, da continuidade perdida.. __________________________ 1. - Segundo o mito platônico, os seres humanos com dupla sexualidade eram divididos em três gêneros: totalmente femininos, totalmente masculinos e os andróginos. A partir da bipartição ordenada pelo Olimpo, cada metade procuraria o seu complemento, estando explicada para os gregos assim a ocorrência da homossexualidade, comum na Antigüidade..

(11) 60. A idéia do erotismo enquanto simples evidência de desejo sexual é refutada por grande parte dos autores que se debruça sobre o tema. Para eles, embora haja correlação entre estas noções, o sexo constitui uma necessidade física, enquanto erotismo extrapola este conceito, consistindo em manifestação de desejos como um todo. Todos os animais possuiriam desejo sexual, entretanto erotismo seria exclusividade apenas da raça humana. Nas palavras de Rollo May:. sexo pode ser definido de maneira adequada em termos fisiológicos. Eros, pelo contrário é a vivência das intenções e o significado do ato. Enquanto sexo é ritmo de estímulo e resposta, Eros é um estado do ser. A finalidade do sexo é gratificação e o alívio da tensão, enquanto Eros representa o desejo, a ânsia e a eterna procura de expansão. Sexo em suma é o tipo de relacionamento caracterizado pelo intumescimento dos órgãos (para o qual buscamos um alívio prazeroso) e o enchimento das gônadas (para o qual buscamos um alívio. satisfatório).. Mas. Eros2. é. o. modo. de. relacionamento no qual não procuramos alívio e sim cultivo, procriação e formação de um mundo (MAY, 1979 p. 80).. O que talvez o autor tenha pretendido explicitar é que o erotismo não se limita aos mecanismos da genitalidade do sexo, mas vai além, extrapola estas fronteiras Não se trata de simples atração do cio, mas da “sede” dos corpos por outros corpos. Nabor Nunes Filho, em Eroticamente Humano, lembra que é inerente ao ser humano desejar e, em uma abordagem ousada, sustenta que esta característica faz com que todos os homens sejam essencialmente eróticos, pois o erotismo seria a mola fundamental de nossos atos:. _________________________________ 2- Aqui o autor refere-se ao deus do amor com letra maiúscula na verdade para referir-se ao erotismo.

(12) 61. Antes de ser um animal racional, o homem é um ser desejante, constantemente sedento e quase sempre insatisfeito. Nada há no universo o que o preencha ou o complete(...) o que é causado pela perda de algo, cuja natureza o próprio homem desconhece, o que evoca a nostalgia de uma conjugação completa (NUNES FILHO, 1994, p. 18).. Se o erotismo é um fenômeno natural, o que dizer da sedução? Se a noção de erotismo parece ser inseparável da natureza humana, coerente é o pensamento de Jean Baudrillard, segundo o qual os seres humanos também vivem constantemente empenhados no cativante jogo da sedução. Para o autor, que dedicou um livro inteiro ao tema, seduzir consiste basicamente em convidar alguém a tomar parte do seu mundo. E este processo tem várias facetas. A sedução dar-se-ia em vários planos: político, religioso, ideológico...mas o que vai nos interessar neste trabalho é a sedução do ponto de vista da sexualidade. Assim sendo:. seduzir é fazer este convite para que alguém participe momentaneamente do seu corpo. Consiste em um jogo cujos elementos fundamentais são os signos: consistem eles em transformar os desejos em sinais perceptíveis que os denunciem. Estes sinais variam e vão desde palavras até os gestos mais sutis, passando pelos olhares, toques e atitudes. (BAUDRILLARD, 2001, p. 167).. O autor lembra ainda que a sedução jamais é natural, da ordem da natureza. Consiste sempre em artifícios que parecem seguir a ordem do signo e do ritual. Outro conceito que permeia a noção de erotismo, sendo- lhe porém completamente diverso é o da pornografia. Parece- nos que pornografia consista na descrição pura e simples dos prazeres carnais. Já o erotismo constitui esta mesma descrição, mas revalorizada em função de uma idéia do amor ou da vida social, portanto, com outro foco. Uma das distinções mais corriqueiras que se faz entre os dois fenômenos consiste em enfatizar o teor “nobre” e “grandioso” do erotismo em oposição ao caráter “grosseiro”, “sujo”. e “vulgar” da. pornografia. Inevitável não citar novamente Baudrillard, para quem o erotismo não se vincula.

(13) 62. diretamente à sexualidade, enquanto a pornografia exibe e exp lora incansavelmente este aspecto: O pornô (...) acrescenta uma dimensão ao espaço do sexo. Ele o faz mais real que o real, o que causa sua ausência de sedução. Talvez o pornô não seja mais que uma alegoria, isto é, um forçamento de signos, um empreendimento barroco de sobre-significação beirando o grotesco (...) exagerando o pitoresco dos detalhes anatômicos, num plano onde reina a alucinação do detalhe (BAUDRILLARD, 2001, p. 37). Já Lúcia Castello Branco (1984, p.50) relaciona estes conceitos com a indústria cultural. Para ela “ao contrário do erotismo, que corresponde a uma modalidade nãoutilitária de prazer porque propõe a satisfação e o gozo como fins em si, a pornografia estaria sempre vinculada a outros objetivos. Nela o prazer depende do pacto com a ideologia que a mesma veicula”. Em História da Literatura Erótica, Alexandrian afirma que o erotismo é um fenômeno poderoso, subversivo, na medida em que caminha em direção à reunião dos seres, à sua imersão na origem e à sua reintegração na ordem natural do universo. A pornografia, ao contrário, insiste sempre na mutilação dos seres, no gozo parcial, superficial e solitário, além de veicular valores que ao invés de subverter a ordem, procuram preservá-la e até enobrecê- la. O autor estabelece também um comparativo com a noção de obscenidade, que ressaltamos, a título de curiosidade:. considera-se que o erotismo é tudo o que torna a carne desejável, tudo o que a mostra em seu brilho ou em seu desabrochar, tudo o que desperta uma impressão de saúde, beleza, de jogo deleitável; enquanto a obscenidade rebaixa a carne, associa a ela à sujeira, às doenças, às brincadeiras escatológicas e às palavras imundas. (ALEXANDRIAN, 1983, p. 08).. Diante de todo o exposto, nesta análise considerar-se-ão passagens de erotismo em relação às personagens femininas as ocorrências no livro e na produção televisiva que contenham manifestações, seja de natureza explícita e/ou velada, que remetam à noção de.

(14) 63. desejo e sensualidade, ligadas direta ou indiretamente às quatro personagens, nas quais elas ajam diretamente ou não. Procuramos selecionar todos os sinais e signos perceptíveis de erotismo, que explicitem a intenção de sedução ou a sedução propriamente dita.. 2.1 O EROTISMO NO ROMANCE. 2.1.1. Maria Monforte Apesar de ter importância fundamental na narrativa, a personagem Maria Monforte é. curta e aparece somente em 23 das 694 páginas do livro, seja de modo direto ou referido. Os primeiros contatos com Pedro da Maia, por exemplo, são contados pelo narrador em terceira pessoa. O autor também não entra em detalhes a respeito de seus encontros furtivos com o amante italiano, tampouco descreve como se deu o episódio da fuga para Viena. Procura detalhar sim, enquanto obra típica do Realismo, aspectos em torno de sua beleza, suas toillettes, seu gosto em exibir-se em eventos sociais, (dentro e fora de casa) e sua ânsia, a partir do casamento, de ser aceita e aprovada pela sociedade lisboeta, sobretudo pelo sogro fidalgo. Além disso, também relata seu destino após a morte de Pedro da Maia. Notamos que apenas em uma passagem do livro encontram-se “pistas” de erotismo em relação à personagem, passagem específica que também foi aproveitada na TV, como veremos mais adiante. O fragmento não sugere uma cena “picante”, tampouco tem conotação explicitamente sensual. Apenas deixa “rastros” sutis da descrição de uma carícia, em um rápido episódio da vida íntima entre marido e mulher..

(15) 64. Aparição. Localização/Contexto do Conteúdo do fragmento classificado na fragmento. categoria Erotismo “Maria sabia perceber bem na face do marido. Em. uma. das. muitas ‘estas nuvens’. Corria para ele, tomava-lhe ambas. recepções da residência de as mãos, com força, com domínio. 1. Arroios, Pedro se irrita. - Que tens tu meu amor? Estás amuado!. com os homens que dizem - Não, não estou amuado... gracejos e dançam com - Olha então para mim! sua mulher.. Colava o seu belo seio contra o peito dele; as suas mãos corriam-lhe os braços numa carícia lenta e quente, dos pulsos aos ombros; depois, com um lindo olhar, estendia -lhe os lábios. Pedro colhia neles um longo beijo e ficava consolado de tudo”. (QUEIRÓS, 2000, p. 48). 2.1.2 Maria Eduarda Podemos afirmar que, o erotismo em relação a mais importante personagem feminina da obra parece percorrer uma curva ascendente ao longo da trama: se no início a presença é latente, sutil, quase lírica, ao evoluir da narrativa, entretanto, torna-se mais explícito. A afeição entre Maria Eduarda e Carlos da Maia torna-se cada vez menos espiritual e mais carnal. É o que se depreende da evolução dos fragmentos abaixo. Em nossa análise da freqüência de menções ao erotismo em relação à Maria Eduarda, detectamos 5 (cinco) ocorrências. No início, o erotismo é subjacente. Para manifestá-lo, o autor lança mão de insinuações e simbolismos. No primeiro fragmento, por exemplo, Eça insinua um encontro sexual entre os dois amantes, contando que, após percorrerem os cômodos da casa que alugaram para mais reservadamente viverem, a alguns minutos do centro de Lisboa, a quinta dos Olivais, os dois entraram no quarto quente (o autor usa a palavra alcova, sinônimo de quarto de dormir, esconderijo) e dourado, e que a casa mergulhou no silêncio entre as árvores, pois não havia mais ninguém na quinta naquela tarde de verão. Para deixar subentendido que, após ficarem a sós, pela primeira vez os dois personagens dormiram juntos, o autor usa o conhecido artifício narrativo de encerrar um período com reticências, como forma de sugerir uma idéia, sem contudo pormenorizá-la..

(16) 65. Já o simbolismo está na descrição dos personagens passando pelos cômodos da casa, encontrando, por exemplo, tapeçarias que retratavam Marte e Vênus no bosque, que conforme lembra Thomas Bulfinch, tratam-se de divindades da mitologia romana que eram amantes - uma provável alusão ao encontro amoroso que teriam os irmãos Carlos Eduardo e Maria Eduarda ali na casa, também em meio a um bosque. E ainda, está no quadro reproduzindo a morte de S. João Batista, decapitado a pedido de Salomé por Herodes, segundo o relato bíblico3 , um episódio marcado por erotismo e ocorrência de sexo entre familiares, o que aliás, também estava por acontecer na trama queirosiana. Suely Fadul, em artigo sobre objetos-personagens em Os Maias, lembra que, ao encobrir o quadro, Carlos da Maia ali também, metaforicamente, tratava de ocultar os objetos anunciadores da tragédia. Aliás, para a autora, a tela de João Batista tem uma função específica: “funciona como elemento premonitório, pois tendo João Batista morrido por condenar a imoralidade a profanação dos amores incestuosos, novamente aparece para condenar e, simbolicamente, pressagiar a culpa trágica de Carlos Eduardo e Maria Eduarda, que se consumará pelo incesto involuntário entre irmãos” (FLORY, 2003, p. 290). O ápice da curva do erotismo acontece na última passagem, na descrição do sentimento de culpa de Carlos quando este, mesmo ciente da consangüinidade que o unia a Maria Eduarda, ainda assim continua a manter com ela encontros sexuais, por mais de uma vez. Há uma mescla de uma forte carga erótica com doses de reprovação moral dos fatos, quando Eça, diante da conduta reprovável do protagonista, descreve seu sentimento de culpa e seus dilemas de consciência. Os termos utilizados pelo autor neste momento remetem à animalidade do gesto: “bárbara”, “animal”, “fera”, “ciosa”, “juba”, “bestial”. A amada já não possuía mais seios, mas “peitos túmidos de seiva”.. _______________________________ 3. - Segundo o relato da Bíblia, (Mateus, Capítulo 14, versículos 3-12), por ter condenado publicamente o fato de Herodes, então governante da Galiléia, ser amante da própria cunhada, Herodíades, João Batista foi preso. Salomé, sobrinha e enteada do governante, em uma festa de aniversário, dançou de forma tão sensual que Herodes lhe prometeu o presente que quisesse. A mãe, desejosa de vingança, influenciou a filha, que pediu a cabeça de João Batista em uma bandeja..

(17) 66. Aliás, o caráter desta relação “selvagem” e fora dos padrões da sociedade já era prenunciado pelo “apelido” dado à casa onde davam-se os encontros: “toca”, que em nosso vernáculo designa “buraco na terra, na pedra, onde se abrigam animais, abrigo, refúgio” (FERREIRA, 1993, p.596). Para Suely Fadul, tal expressão conotava “uma realidade pressentida: a animalidade da relação incestuosa que ali se consumará” (FLORY, 2003, p.289)..

(18) 67. Localização/Contexto Aparição fragmento. do Conteúdo. do. fragmento. classificado. na. categoria Erotismo. Alugada a quinta de Craft, Carlos “Penetravam na alcova, quente e cor de ouro. Carlos ao leva Maria Eduarda a caminhar passar desprendeu as cortinas do arco da capela, feitas pelos. 1. Olivais.. cômodos da casa dos de uma seda leve que coava para dentro de uma Andam. pelo. salão, claridade loura (...). banheiros, de tapeçarias, quando -Aquela horrível cabeça ! – murmurou ela. vêem Marte e Vênus se amando Carlos arrancou a cobertura do leito, escondeu a tela nos bosques até chegarem ao sinistra. E então todo o rumor se extinguiu, a solitária quarto, onde vêm um quadro de casa ficou adormecida entre as árvores, numa demorada João Batista decapitado.. sesta, sob a calma de julho...(QUEIRÓS, 2000, p. 426).. “Mas bordado e livro caíam logo no chão – e os seus Maria. Eduarda. já. mora. nos lábios, os seus braços uniam-se arrebatadamente. Ela. Olivais com a filha, a preceptora escorregava sobre o divã; Carlos ajoelhava numa. 2. inglesa e os demais criados. almofada, trêmulo, impaciente” (...) e ali ficava, abraçado Carlos lhe visitava todas as à sua cintura, balbuciando mil cousas pueris e ardentes, manhãs. Na frente da criadagem, por entre longos beijos que os deixavam frouxos, com os ela bordava e ele lia.. olhos cerrados, numa doçura de desmaio” (QUEIRÓS, 2000, p. 443). “Um trovão rolou lento e surdo. Mas Maria já não o. Carlos aproveita a ausência do ouviu, caída nos braços de Carlos. Nunca o desejara, avô, em viagem. 3. à quinta de nunca o adorara tanto! Os seus beijos ansiosos pareciam. Santa Olávia, no Porto, para tender mais longe que a carne, trespassá-lo, querer passar a primeira noite com Maria sorver-lhe a vontade e a alma; e toda noite, entre esses Eduarda nos Olivais.. brocados radiantes, com os cabelos soltos, divina em sua nudez, ela lhe apareceu realmente como a deusa que ele sempre imaginara, que o arrebatava enfim, apertado ao seu seio imortal, e com ele pairava numa celebração de amor muito alto, sobre nuvens de ouro” (QUEIRÓS,. 2000, p. 446).

(19) 68. Ele tenteava, procurando na brancura da roupa; encontrou um joelho a que percebia a forma e o calor. Carlos descobre que Maria 4. Eduarda é sua irmã. Apesar da suave através da seda leve; e ali esqueceu a mão aberta e revelação. dos. laços. de. e. ele. consangüinidade. procurá-la para fazer-lhe a. frouxa, num entorpecimento onde toda a vontade e consciência se lhe fundiam deixando-lhe apenas a sensação daquela pele quente e macia, onde a sua palma pousava. (...) sem resistência como um corpo morto ele. revelação, o protagonista não caiu-lhe sobre o seio. Os seus lábios secos acharam-se consegue; se entrega à paixão colados num beijo aberto que os umedecia. E de repente, e mantém relações sexuais Carlos enlaçou-a furiosamente, esmagando-a e sugandocom a irmã.. a, numa paixão e num desespero que fez tremer todo o leito” (QUEIRÓS, 2000, p.638). Ainda atormentado com a “Fora primeiramente aquele aroma que a envolvia, revelação, Carlos não tem flutuava entre os cortinados, lhe ficava a ele na pele e no 5. coragem de revelar a verdade fato, o excitava tanto outrora, o impacientava tanto agora à Maria Eduarda. Pela segunda vez tem relações carnais com a irmã. Mas desta vez a culpa reflete-se. (...) Fora depois aquele corpo dela, adorado sempre como um mármore ideal, que de repente lhe aparecera, como era na sua realidade, forte demais, musculoso, de grossos membros de amazona bárbara, com todas as. na. repugnância belezas copiosas do animal de prazer. Nos seus cabelos física. O fragmento refere-se de um lustre tão macio, sentia agora inesperadamente ao drama de consciência que o uma rudeza de juba. Os seus movimentos na cama, ainda aflige, minutos depois do ato.. nessa noite, o tinham assustado como se fossem os de uma fera, lenta, ciosa, que se estirava para o devorar...Quando os seus braços o enlaçavam, o esmagavam contra os seus rijos peitos túmidos de seiva, ainda de certo lhe punham nas veias uma chama que era toda bestial” (QUEIRÓS, 2000, p. 645). 2.1.3 Condessa de Gouvarinho Em se tratando da personagem descrita como a amante balzaquiana, carente e inconveniente de Carlos da Maia, encontramos 3 (três) menções na categoria em questão. Notamos que a intenção do autor em ressaltar este aspecto da personagem fica patente quando utilizou determinadas palavras para descrever a impressão que tinha Carlos da Maia a respeito dela. São adjetivos e verbos que remetem à sensualidade, ao apelo sensorial em geral: “picante”, “cetim das formas”, “avermelhados”, “quentes”, “ aroma”, “ despia”, “ calor”, “seio arfando” etc..

(20) 69. Note-se que em todas as passagens não há diálogos, mas reflexões internas do protagonista acerca da personagem em questão. Assim, o leitor toma contato com o erotismo que cercava a Condessa apenas por meio das reflexões de Carlos da Maia. O último fragmento, por exemplo, relata um encontro furtivo entre os amantes, a bordo de uma carruagem, durante o percurso na estrada de Queluz. No livro, jamais se descreve o que se passa dentro dela. O narrador limitou-se a descrever os fatos após o término do passeio. Tudo é dito nas entrelinhas, dando ao leitor a capacidade de ver com os olhos da imaginação aquilo que ele mesmo não mostra. O interior é revelado pelo exterior, em conformidade com típico ditame da estética do Realismo. Teria Eça inspirado-se em Flaubert ? É o que parece, pois passagem semelhante está presente também na obra do autor francês, Madame Bovary, publicado em 1857, no qual narra-se o encontro de Emma com o amante León, também a bordo de um fiacre. Emma, tal como a Condessa, era infeliz no casamento e buscava no adultério a válvula de escape para sua existência entediada de esposa de médico do interior. A exemplo do que fez o Cinema4 ao adaptar a obra de Gustave Flaubert, também a TV, na adaptação de Os Maias, aproveitou tal passagem, mas fazendo- lhe outra leitura, conforme se verá mais adiante. Fiquemos com os fragmentos do livro:. _____________ 4. - O livro Madame Bovary foi adaptada quatro vezes para o cinema: pelo diretor americano Vincent Minelli, pelo indiano Ketan Metha, e pelos franceses Claude Chabrol e Jean Renoir, estas últimas realizadas em 1934 e 1992, respectivamente. IN Muller Jr, Adalberto. Cinema, Tradução Infidelidade: os casos de Madame Bovary. Revista Sessões do Imaginário, n.º 11. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1994, P. 52-57..

(21) 70. Aparição. Localização/Contexto do Conteúdo do fragmento classificado na fragmento. categoria Erotismo. Depois de ser apresentada a “Havia ali uma pontinha de romantismo, muito Carlos na ópera, a Condessa, irregular e picante...E devia ser deliciosamente a pretexto de levar o filho bem feita. A sua imaginação despia-a, enrolava-. 1. para consultar o médico sobre. suposta. doença,. resolver visitar o médico. Carlos reflete sobre a mulher que acabara de sair do. se-lhe no cetim das formas, onde sentia ao mesmo tempo alguma cousa de maduro e de virginal. E outra vez como nas primeiras noites que os vira em S. Carlos, aqueles cabelos tentavam-no, assim avermelhados, tão crespos e. consultório.. quentes” ... (QUEIRÓS, 2000, p.210) “...sentia o seu aroma de verbena, o calor que subia do seu seio arfando com força (...) Insensivelmente, irresistivelmente, Carlos achou-se com os lábios nos lábios dela. A seda do vestido roçava-lhe, com um fino Carlos visita a casa dos conde ruge-ruge entre os braços- e ela pendia para trás a de Gouvarinho. A Condessa cabeça, branca como uma cera, com as pálpebras encontra-se sozinha em casa.. docemente cerradas. Ele deu um passo, tendo-a assim enlaçada, e como morta; o seu joelho encontrou um sofá. 2. baixo, que rolou. e fugiu ainda, até que se esbarrou. contra o pedestal onde o senhor conde erguia a fronte inspirada. E um longo suspiro morreu, num rumor de saias amarrotadas” (QUEIRÓS, 2000, p. 292). “... por uma tarde quente, com um céu triste de trovoada e no momento em que estavam caindo algumas gotas grossas de chuva – Carlos apeava-se Primeiro. encontro de um coupé de praça, que viera parar, devagar, à. clandestino entre Carlos e a esquina da Patriarcal, com os estores vede 3. Condessa, no qual acontece misteriosamente. corridos.. Dous. sujeitos. que. o adultério, a bordo de uma passavam, sorriram-se, como se o vissem escoar-se carruagem. simples,. “calhambeque. duro”,. palavras do autor.. um desajeitadamente de uma portinha suspeita. E com nas efeito a velha traquitana de rodas amarelas acabava de ser uma alcova de amor, perfumada de verbena, durante as duas horas que Ca rlos rolava dentro dela, pela estrada de Queluz, com a senhora Condessa de Gouvarinho. (QUEIRÓS, 2003, p.295).

(22) 71. 2.1.4 Raquel Cohen Conforme já se disse anteriormente, a mulher de banqueiro Raquel Cohen é a personagem silenciosa do romance, não tendo direito a falas nem a quaisquer expressões. Diante disso, é natural que as menções ao erotismo em relação a ela também sejam reduzidas. Em todo o livro, contabiliza-se apenas um fragmento no qual isso acontece, reproduzido abaixo. Nela o erotismo está presente na por meio das opiniões masculinas acerca da personagem. Sempre a ela se referem como se estivessem descrevendo um objeto, algo inanimado, cuja serventia é saciar o desejo, uma necessidade física, mais precisamente a fome. Literalmente lhe são atribuídas qualidades que dizem respeito à carne: “deliciosa”, “apetitosa”, “carnezinha faisandée”.. Aparição Localização/Contexto fragmento. do Conteúdo do fragmento classificado na categoria Erotismo “Entre os amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa,. 1. Primeira descrição de Raquel discutia -se às vezes Raquel, e as opiniões Cohen, mulher casada com o discordavam. Taveira achava-a deliciosa! E dizia -o banqueiro Jacó Cohen e que rilhando o dente; ao marquês não deixava de era amante de João da Ega. aparecer. apetitosa,. para. uma. vez,. aquela. carnezinha faisandée de mulher de trinta anos” (QUEIRÓS, 2000, p.135).

(23) 72. 2.2 - O EROTISMO NA MINISSÉRIE 2.2.1. Maria Monforte Se na obra de partida ela tem participação quase fugaz na trama, na minissérie, ao. contrário, seu destaque e ênfase foram quantitativamente maiores, especialmente na categoria aqui sob análise: na TV foram 9 (nove) menções a mais. Provavelmente, por tratar-se de uma personagem complexa, cujo caráter parece modificar-se conforme a trama desenvolve-se5 , a roteirista optou por dar-lhe maior exposição, seja encenando trechos que no livro são rapidamente descritos ou sugeridos, seja criando livremente novas situações envolvendo-a. Um exemplo é sua primeira aparição, (inexistente no livro, aliás6 ) que já surge marcada pelo erotismo: a cena da tourada, na qual aparece associada à carne, à cor vermelha e ao sangue. Não por acaso quando perguntada por D. Diogo se gosta de touradas, sua resposta e primeira fala na minissérie é : “Em Portugal há pouco sangue. Prefiro as espanholas”. Note-se também que há erotismo na seqüência do piquenique em Sintra, no qual brinca com as uvas na boca de Pedro da Maia, em uma espécie de convite para que, além da fruta, também “experimente-a”. Aqui a metáfora do pecado – a maçã- fora trocada pelas uvas.. ___________________________ 5. - Em nosso análise, no início da trama, Maria Monforte é uma jovem que acredita na força do amor e por ele luta. Uma vez casada, tornase uma esposa entediada e infiel. Depois de fugir com amante italiano e ficar arruinada, torna-se uma cortesã e uma mãe pouco zelosa. 6 - Em entrevista contida no DVD da minissérie, Maria Adelaide Amaral justificar a seqüência da Praça de Touros em Os Maias. Segundo a autora, é habitual estratégia dos autores de televisão elaborar o primeiro capítulo de uma novela ou minissérie de forma a causar impacto, captar a atenção dos telespectadores para o novo produto. Para isso, nada melhor que reproduzir um espetáculo tipicamente ibérico, grandioso, e plasticamente atrativo. A roteirista conta que, durante o processo de gestação da minissérie, empreendeu uma série de pesquisas em Portugal, e durante uma delas descobriu, em meio a vários escritos do autor português os planos de futuramente escrever um romance que tivesse uma tourada como pano de fundo inicial..

(24) 73. Figura 1- Cena do Piquenique em Sintra. Em outra seqüência, temos o devaneio do poeta Alencar, em uma das muitas recepções em Arroios. É compreensível a opção da roteirista em conceber a cena em questão, na qual Maria Monforte aparece ao poeta, que acabar de sorver uma taça de absinto, caracterizada a partir de vestimentas gregas, representando ora as deusas Ártemis, ora Afrodite. Embora esta passagem não exista na obra de partida, para caracterizar a beleza da personagem, a todo momento, no livro Eça lança mão das comparações com divindades mitológicas: “que diabo! Juno tinha sangue de assassino”; e ainda “ as suas formas de estátua davam-lhe o esplendor de uma Ceres” (QUEIRÓS, 2000, pp. 36-37). Apesar de ser uma seqüência inexistente no romance, não chega a constituir uma disjunção, visto que neste caso a TV parece comungar com um projeto ideológico do autor. Diante da beleza daquela aparição, o poeta Alencar ficara extasiado, como se estivesse diante de uma obra de arte, uma escultura, um quadro. E na verdade, era o que realmente apreciava. Ao transformar a personagem em Afrodite, a autora lançou mão da intertextualidade ao reproduzir a obra “O nascimento de Vênus”, de Boticelli7 . Como se sabe, nesta tela retrata-se o nascimento da deusa grega do amor a partir da espuma do mar.. _______________________ 7-. A obra data de 1485 e foi pintada em têmpera sobre tela pelo fiorentino Sandro Botticelli, retratando no mar o nascimento da deusa romana do amor.

(25) 74. Nela a deusa aparece desnuda, branca, com fartos cabelos cacheados e soltos, e em seu entorno, uma paisagem marinha, com abundância de conchas. Com exceção da nudez completa, Maria Monforte na TV também aparece assim caracterizada. As conchas estão por toda parte – desde as luzes no chão do palco até o papel da parede do palco onde se apresenta. Nada mais natural que invocar uma obra de arte da Renascença para ilustrar os sonhos de um poeta representante do Romantismo, estilo que louvava o retorno dos ideais clássicos e humanistas.. Figura 2- Cena do sonho de Alencar. A intertextualidade também encontra-se presente em outra seqüência, que retrata o primeiro e decisivo encontro adúltero com o italiano Tancredo. Depois de tê-lo primeiro como hóspede depois do episódio da caçada na Tojeira e em seguida como convidado, Maria apaixona-se e é correspondida. Depois de distribuir pães aos miseráveis nas ruas de Lisboa, Tancredo tira-lhe o véu e beija- lhe a boca. A câmera foca o véu negro caindo no chão – uma metáfora, já que com o véu caía também a máscara de fiel esposa da personagem. Tem início a seqüência em que os dois amantes fazem sexo à vista dos mendigos e cães sujos e doentes, sugerindo uma associação: assim como aqueles sobreviviam à margem da sociedade, também a paixão entre Maria Monforte e o italiano era marginal, adúltera, fora dos padrões sociais. Quando a câmera foca no cão, também insinua o desejo animal, que fica patente na falta de pudor em fazer sexo na rua, de pé, com testemunhas..

(26) 75. Figura 3 – Cena do encontro adúltero na rua com Tancredo. É interessante observar ainda sobre esta cena que a mesma realiza um intertexto com o filme A Rainha Margot 8 , de Patrice Chéreau, (que aliás também é baseado em um romance de Alexandre Dumas,) no qual Marguerite de Valois, a futura rainha da França, casada com Henrique IV, mantém encontros sexuais com seu amante La Môlle, nas mesmas circunstâncias, porém em meio às então fétidas ruas de Paris do século XVI.. ________________________________ 8- O filme, uma co-produção alemã, francesa e italiana de 1994, retrata o jogo de influências nos bastidores da monarquia francesa em 1572. Conta a história do casamento da católica Margot e do protestante Henrique Bourbon de Navarre, como forma de minimizar as disputas religiosa no país, mas acaba servindo de estopim para um violento massacre de protestantes, conhecido como a “ noite de São Bartolomeu”, no qual morreram mais de seis mil protestantes, que teve a conivência do rei da França, Carlos IX, irmão de Margot..

(27) 76. Aparição. Localização/Contexto. da Conteúdo da cena classificada na categoria. Cena. Erotismo Na Praça de Touros, troca olhares lânguidos com Pedro da Maia, que ficará fascinado por sua beleza. A. Tourada em Lisboa.. 1. Primeira. aparição. câmera detém-se generosamente no decote, nos seios da arfantes, na boca entreaberta, ao mesmo tempo em que. personagem. Primeira vez que mostra o touro –símbolo de virilidade- atingido por Carlos da Maia sai de casa lanças, em uma possível alusão ao homem, no caso desde a morte da mãe, dois Pedro, sendo atingido pela lança da paixão. Presença anos antes.. maciça da cor vermelha na seqüência: o sangue do animal ferido, os rubis que adornam o colo da personagem, o manto do toureiro e a sombrinha escarlate da personagem.. Concerto no Teatro de S. A partir do parapeito de um dos camarotes, a câmera Carlos. Embora Pedro da Maia foca em close um ramo de camélias vermelhas; na. 2. já tivesse se comunicado com seqüência, o decote generoso que mostra seios Maria por meio de flores e brancos, respiração ofegante, boca, sorriso e ombros bilhetes, entregues em sua nus da personagem. Boa dose de voyerismo, uma vez casa, será a primeira vez em que ambos vêm um ao outro (por meio que. se. de uma. encontraram luneta); o observador é observado e vice-versa.. pessoalmente. E que trocaram as primeiras palavras. Personagem ora se esconde, ora se revela nas sombras. 3. Passeio em Sintra, no Castelo das ruínas do antigo palácio, com vista para floresta e de S. Jorge.. para o mar. Personagem foge e aparece, em jogo de sedução com Pedro da Maia. Na residência alugada pelos Monforte no verão, Maria provoca Pedro com um cacho de uvas, Convida-o. 4. Piquenique. em. Sintra. prová-las, ressaltando-lhes o doce sabor: uma sugestão. Primeiras informações sobre para que prove de seus beijos. Uma possível metáfora as origens da personagem e de à maçã, fruto proibido usado por Eva para tentar Adão seu pai.. no paraíso. Trocam olhares de desejo, a respiração de ambos é ofegante. Pedro responde, colocando frutas na boca de Maria. Suas peles roçam uma na outra, a câmera dá close nas duas bocas próximas, mas o beijo não acontece..

(28) 77. Mesmo com a reprovação de A câmera mostra o casal na cama. A imagem não é. 5. Afonso, os dois se casam e, nítida; Por baixo dos lençóis, aparecem de longe os depois da lua de mel na Itália e torsos masculino e feminino nus. França, voltam a Portugal. Maria está grávida. Durante uma das recepções na Maria mostra-se, dançar, requebrando os quadris até o. 6. casa. de. Arroios,. Maria chão. O poeta Alencar, que é apaixonado por Maria,. apresenta-se como atriz em um depois de beber uma dose de uma bebida verde palco especialmente preparado (absinto?) vê sua apresentação de maneira diferente para ocasião. O fundo do palco dos demais convidados. Primeiro, ela aparece a ele é uma ilustração de uma com outras roupas, vestida como a deusa floresta.. grega. Ártemis, a deusa da caça, munida de um arco. Depois, com flores nos cabelos soltos e véus brancos, aparece como a deusa do amor sensual, Afrodite. Tudo ao som de flautas. Alencar fica extasiado.. Em. 7. outra. recepção. em Ela seduz o marido. Enquanto ele chora, ela lambe-lhe. Arroios, Pedro se irrita com os as lágrimas. Pernas, quadris, nádegas femininas; os homens que dizem gracejos e corpos rolam um por cima do outro na cama – mas a dançam. com. sua. mulher; câmera nada mostra de perto.. retira-se para o quarto. Na festa de batizado do Depois de a ter tirado para dançar, o italiano, cuja. 8. segundo filho, Maria conhece beleza logo encanta-lhe, oferece-lhe um desenho e a Tancredo, o italiano ferido por encara. Abraça e beija as mãos da pequena filha, Maria Pedro durante uma caçada.. Eduarda enquanto dirige olhares sedentos para a mãe. Há um clima de sedução entre os dois. Tancredo se aproxima, beija -a com volúpia. A câmera mostra o. 9. Decidida a ser uma mulher véu negro que lhe cobria o rosto caindo sobre o chão; caridosa, Maria distribui pães Tancredo levanta-lhe a saia, a câmera foca a face de aos pobres e moradores de rua um cão vira-lata. Fazem sexo de pé, encostados em de Lisboa. Tancredo aparece uma parede, na rua, em plena luz do dia. A câmera para ajudá-la na tarefa.. mostra o olhar de um mendigo e a expressão de prazer da personagem. Agora de costas, Tancredo rasga-lhe as roupas, os seios aparecem nus. A música de fundo lembra que “ninguém larga a grande roda”, ou seja, é impossível fugir do destino..

(29) 78. Depois da morte de Tancredo Um homem nu deitado de costas em um divã e do pai, Maria se entrega à vermelho. Uma mulher passa um leque feito de penas. 10. prostituição e aparece em um pelo corpo do rapaz, que se vira e agarra-a, beijando-a bordel na França. na boca. É Maria Monforte, de cabelos lisos e soltos, extremamente maquiada e vestindo roupas de dormir.. 2.2.2. Maria Eduarda Na maior parte das 6 (seis) cenas detectadas na minissérie segundo esta categoria, o. erotismo está presente de maneira mais explícita e tais menções são maiores na TV que no livro. Entretanto, é interessante notar-se que, embora esta personagem tenha papel de maior destaque ao longo da trama que Maria Monforte, quando a categoria é erotismo, quantitativamente esta protagoniza mais cenas na TV que Maria Eduarda.. Figuras 4 e 5, takes que retratam um dos encontros com Carlos Eduardo nos Olivais..

(30) 79. Assim como no livro, conforme já observamos no sub-capítulo anterior, a figura de Maria Eduarda aos poucos vai abandonando o caráter de deusa intangível, para se corporificar em mulher real, começando a integrar mais intensamente a trama. Outro ponto é que Maria Eduarda é apresentada aos telespectadores (assim como aos leitores) enquanto esposa de Castro Gomes, antes de apaixonar-se por Carlos Eduardo durante uma viagem a Portugal. Dadas as peculiaridades do formato, a TV consegue evidenciar mais aspectos da vida íntima da personagem. com o suposto marido que o romance. Entretanto, todas as cenas de. intimidade entre ela e Carlos Gomes, quando sugerem sexo, não o fazem de maneira erótica, pois não explicitam desejo e sim submissão ao homem, (categoria que analisaremos mais à frente), já que Maria Eduarda era concubina do brasileiro, e a ele se unira apenas por motivos financeiros, a fim de manter sua sobrevivência, da filha e da mãe9 . A falta de erotismo, neste caso, parece ser indicativa de uma convivência sem amor ou prazer, apenas por obrigação, imposta pelas circunstâncias que envolviam a personagem. Todas as seqüências aqui selecionadas procuram evidenciar o desejo enquanto manifestação física, mas parecem sempre atreladas a um sentimento de amor puro, quase sublime em relação a Carlos Eduardo. Exceção fica por conta da última cena, na qual Carlos já ciente de sua condição de irmão de Maria Eduarda, ainda assim leva a cabo seu encontro sexual com Maria Eduarda. Nesta passagem, a paixão perde sua conotação de pureza e ganha dimensão de um sentimento puramente carnal e até animalesco, uma vez que agora o incesto é voluntário por parte do protagonista. Em background surgem sons de tambores, que parecem mesclados a gritos tribais, efeitos utilizados durante toda a sequência. Uma provável sugestão de que acontecia ali uma prática selvagem, pouco civilizada, quase tribal.. ___________________ 9. - Na minissérie, diferente do livro, Maria Monforte ainda é viva, mas está com os dias contados. Tuberculosa, seu tratamento na Suíça é pago por Castro Gomes, fato este que reiteradamente ele lembra à Maria Eduarda.

(31) 80. Figura 6: Mesmo já ciente do incesto, Carlos faz sexo com a irmã. E é assolado pela culpa.. Também as cores utilizadas nas roupas de cama, (o vermelho da colcha e o negro dos lençóis), simbolicamente, dão a medida de como naquele momento a paixão mesclava-se à impureza, à podridão de uma relação condenável. O ritmo da cena é mais rápido, a intensidade é maior. E os corpos nus, embora mais evidentes que nas demais seqüências, aparecem envoltos em véu negro, rodeado por velas em candelabros, emprestando um ar sinistro à cena..

(32) 81. Aparição. Localização/Contexto. da Conteúdo da cena classificada na categoria. Cena. Erotismo. Após a viagem de Castro Gomes Trata-se da primeira cena de beijo entre os 1. ao Brasil, Carlos da Maia, a personagens. Cena ardorosa, Carlos toca a nuca, pretexto de saber da saúde da filha única parte exposta do corpo da personagem. de Maria Eduarda, Roseclair, que Agarra-a pela cintura. As respirações são ofegantes. havia curado dias antes, faz visita à mãe e declara-se a ela. É Maria Eduarda quem toma iniciativa de um longo toque na face de Carlos. Acontece um longo beijo na. 2. Carlos faz uma visita à Maria boca, cheio de desejo e ânsia, sem preocupação com Eduarda enquanto ela borda uma convenções sociais, uma vez ambos que se talagarça.. encontram no corredor do prédio onde fora morar depois da viagem de Castro Gomes ao Brasil. O desejo do casal é crescente. Depois de entrar em vários cômodos da casa, Maria Eduarda declara-se, apaixonada. Ambos despem-se um ao outro. A luz é clara, há foco na pele branca da. Carlos leva Maria Eduarda para personagem. A câmera faz um suave travelling, 3. conhecer a casa que alugou de passeia entre os dois, usa pla nos e contra-planos. De Craft no campo, a Quinta dos longe aparece o bico do seio da personagem, sua Olivais. expressão de prazer na cama, respiração ofegante. Há insinuação do ato sexual, mostra-se Carlos por cima da personagem. Ambos aparecem nus somente de longe, sob véus transparentes. A música é suave.. Após Castro Gomes ter. 4. revelado a Desesperada, Maria chora pela perda. Corre para o. Carlos que não era casado com Maria espelho e acaricia -o. Na verdade, está tão abalada Eduarda e que Rosiclair não era sua. pelo rompimento que não consegue ver seu próprio. filha, Carlos vai até os Olivais. Encontra Maria e com ela discute por ela ter lhe escondido a verdade. Ela pede perdão por ter escondido seu passado, mas Carlos não se convence.. reflexo, apenas a imagem do seu amado. Beija -lhe a boca, chama-o pelo nome. Cena de forte simbolismo – o que aparecia ali era seu desejo de manter sua “cara- metade” ao seu lado, o que parecia então. Os amantes decidem romper. Carlos impossível. retira -se, deixando Maria Eduarda em cena sozinha, chorando..

(33) 82. No quarto de Maria Eduarda os dois se reconciliam. A câmera mostra Carlos beijando joelhos e pernas Perturbado por não esquecer Maria nuas da personagem, deitada. Levanta-le a saia. Há 5. Eduarda e arrependido da briga, um corte e um close para o rosto da mulher, com Carlos volta aos Olivais, disposto expressão de prazer. A seqüência, que conta com o a fazer as pazes. E a pede a em narrador em off descrevendo a cena, “nunca a casamento. desejara tanto” termina com a personagem dormindo seminua, com os cabelos soltos, “divina em sua nudez”, seguindo exatamente o conteúdo do livro à página 446. Trata-se da seqüência de maior e mais explícita carga erótica em relação à personagem. Ao som de. Carlos acaba de saber que é irmão tambores, a câmera mostra um casal fazendo sexo 6. de Maria Eduarda e dirige-se à na cama, de maneira mais próxima e desta vez mais casa da amante para fazer-lhe a nítida. Aparecem o contorno dos seios, nádegas e a revelação, continuação. que do. impede. a púbis da personagem, que aparece completamente. romance. nua de costas. Ao contrário das outras cenas, a. Encontra-a em seu quarto, deitada mulher aparece mais ativa no ato, dando prazer ao na cama. E mesmo ciente do homem. Diferente das outras cenas, aqui não há parentesco, não consegue resistir à suavidade mas certa animalidade no ato, em paixão. harmonia com a passagem equivalente do romance. A roupa de cama é em tons escuros, a luz utilizada é sombria.. 2.2.3 Condessa de Gouvarinho. Nota-se que em relação a esta personagem, o erotismo é ressaltado na minissérie, com 5 (cinco) menções, duas a mais que no romance. Entretanto, mesmo sendo personagem secundária, parece-nos que Eça de Queirós, já no século XIX, fazia pairar sobre Teresa Thompson uma nuvem de erotismo, embora naturalmente mais velada que a veiculada na minissérie. Como já dito anteriormente, é próprio da linguagem televisiva evidenciar por imagens aquilo que no suporte escrito é apenas insinuado. Exemplo deste caráter mais explícito das cenas são as passagens dos encont ros furtivos com Carlos da Maia, que acontecem dentro do coupé e no consultório médico. Ao que parece, na televisão foi ressaltado o caráter erótico da personagem, sempre associada à necessidade de “desafogo” sexual de Carlos da Maia.. É interessante no tar.

(34) 83. também que a iniciativa das abordagens e dos encontros com o personagem sempre partem da Condessa, seja nas seqüências nas quais o erotismo é velado quanto naquelas em que é explícito, uma atitude ousada e até mesmo condenável para uma mulher da alta sociedade da época.. Figura 7: A Condessa seduz Carlos em seu consultório médico.

(35) 84. Aparição. Localização/Contexto. da Conteúdo da cena classificada na categoria. Cena 2. Erotismo. Recepção na casa dos Gouvarinho, A personagem, com vestido decotado no busto, provoca à mesa, durante jantar, convidados Carlos, roçando seus pés nas pernas do médico por baixo da discutem. sobre. o. adultério. de mesa, ao lado do marido.. mulheres casadas Encontro furtivo entre a condessa e Durante um passeio pela cidade, a condessa e o médico o. 3. médico,. dentro. de. uma fazem sexo dentro de um coupé, sem se importar com o. carruagem, em frente ao consultório desconforto e sem tirar as roupas. Embora a condessa de. Carlos,. onde. os. amantes declare-se e apaixonada, o médico apenas dá vazão ao. marcaram o encontro.. desejo físico, sem demonstrar envolvimento.. No consultório, condessa reclama O médico agarra a condessa por trás, aperta-lhe os seios,. 4. da escassez de encontros. com o levanta-lhe a saia. E de roupa, faz sexo com a condessa, em. amante. Carlos mescla irritação e cima de uma mesa, de maneira rude e sem carinho, como uma certa carência, por conta da nítido desafogo de um mero desejo sexual. revelação da história de seus pais.. Novamente. no. consultório, Rápida cena, novamente de roupa, de maneira rápida,. Carlos já apaixonado por Maria a condessa faz sexo com o amante; ele de olhos 5. Eduarda, entretanto, continua fechados; o ato parecia ser um desafogo que o médico encontrando-se com a Condessa. mal podia esperar que chegasse ao fim.. 2.2.3. Raquel Cohen. Ao contrário do que acontece no romance, no produto televisivo a personagem em questão, embora seja secundária, tem maior participação na trama. Um exemplo são as 3 (três) menções relativas ao erotismo referentes à judia mulher do diretor do Banco Nacional. Nelas a personagem tem voz ativa, protagoniza diálogos e situações, ao contrário da passagem única do livro, na qual o erotismo em torno da personagem fica patente por meio dos relatos masculinos dos freqüentadores do Ramalhete. Parece então que, à primeira vista , em relação a esta personagem, há uma aparente disjunção entre romance e minissérie. De todas as personagens femininas, é Raquel Cohen a única que, nas passagens com maior carga erótica, jamais está envolvida realmente com seu amante, João da Ega..

(36) 85. Ao final de todas as seqüências, ela parece arrepender-se do adultério, afirmando sempre que pretende preservar seu casamento, tratando-se então o romance com o jovem Ega de um mero passatempo, um divertimento para uma esposa entediada. Mas, se refletirmos que, ao ressaltar este aspecto a minissérie acaba reforçando o propósito do livro de Eça de desnudar a sociedade portuguesa do século XIX – e hipocrisia nos casamento é apenas uma de suas faces, então os conteúdos da televisão e livro guardam coerência entre si, estando em conjunção. Para dar a medida da relação proibida com João da Ega, os encontros dos amantes são sempre são rápidos, fugidios e em locais ermos, como em um cemitério, local escolhido pela própria personagem para tal. O adultério se dá entre cruzes, velas e túmulos da primeira vez, dentro de uma cova em um mausoléu na segunda. Note-se que nesta última há um ar teatral, quando os amantes parecem divertir-se ao encenar supostamente o encontro entre D. Pedro e de Inês de Castro10 , já morta. Uma fantasia para tirar da mesmice a enfadonha vida de uma mulher da alta sociedade lisboeta.... Figura 8: Raquel encontra-se com João da Ega dentro de uma tumba no cemitério, simulando a história de D. Pedro e Inês de Castro.. _______________________________ 10. - No século XIV, o então príncipe de Portugal, D. Pedro, apaixonou-se pela dama de companhia de sua mulher, a espanhola Inês de Castro, que foi sua amante e mãe de quatro filhos seus. A nobreza, com medo de que Inês se tornasse rainha de Portugal quando D. Pedro assumisse o trono de seu pai, D. Afonso IV, matou-a em 1355, enquanto o rei encontrava-se fora de Lisboa. Dois anos depois, ao ser coroado rei de Portugal, D. Pedro vingou-se , matando os assassinos de Inês e mandando exumar a ossada de sua amada, coroando -a morta e obrigando toda corte - sobretudo a nobreza e o clero, que haviam condenado seu romance - a ajoelharem-se diante do cadáver e a beijar-lhe os ossos da mão..

(37) 86. Aparição. Localização/Contexto da Cena Conteúdo da cena classificada na categoria. Erotismo No teatro S. Carlos, durante Os amantes aproveitam a ausência do marido para 1. concerto de ópera, enquanto agarrarem-se, beijarem-se, atrás das cadeiras do Jacó Cohen sai para tomar ar, camarote. Há dose de voyerismo, já que a cena é Raquel e João da Ega ficam observada do outro lado do teatro, por meio de uma sozinhos no camarote.. luneta, por Taveira, amigo de João da Ega. A câmera mostra tudo de longe. O telespectador vê a cena a partir dos olhos do personagem. Simulando levar flores para um túmulo, vestida de preto, com uma capa da mesma cor, como se estivesse. Encontro furtivo entre Raquel e de luto, Raquel caminha entre os jazigos. É agarrada 2. João da Ega no cemitério, por João da Ega, que a leva para dentro de um durante o dia. O lugar é sugerido mausoléu. Lá, à luz de velas nos candelabros, Ega tira pela personagem.. a roupa da personagem, que fica apenas de espartilho, embora o espectador veja - a apenas da cintura para cima. A câmera afasta -se e volta apenas para marcar a o fim do encontro entre os amantes, quando a personagem se diz arrependida do encontro. No meio do cemitério, a câmera mostra de longe Ega carregando um corpo aparentemente inerte, como se. Novo. encontro. entre. a estivesse morto. Há um corte e mostra-se o interior de. personagem e seu amante, no um mausoléu, preparado de tal forma que se tem a 3. cemitério, desta vez à noite. A sensação de estar acontecendo um velório – há velas, escolha. foi. novamente. da cruzes e coroas de flores. A câmera nos mostra um. personagem, que sugere encenar suposto cadáver de mulher em uma cova. João da Ega a história de Inês de Castro.. entra em cena, se aproxima da cova: “Ah, minha Inês, estás tão fria....e tão apetitosa!”. Há aí uma sugestão de uma perversão sexual, a necrofilia. Pouco depois a câmera nos mostra os amantes aos beijos dentro da tumba..

Referências

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