1 Universidade de Brasília – UnB
Departamento de Antropologia
Teoria Antropológica - 2º Semestre de 2016 Turma: B
Professor: Henyo Trinidade Barreto Filho Aluno: Cesar Augusto Aspiazu S. - 14/0134492
Do primitivo ao moderno: Concepções antropológicas e construções de mentalidade
Introdução
O objetivo deste ensaio é refletir sobre as concepções de mentalidade em alguns dos principais teóricos da antropologia, apresentar suas teorias e conceitos centrais, tentando explanar questões importantes dentro dessa temática. Não buscando responder, mas estabelecer uma discussão entre suas ideias.
Inicialmente, antes de abordar o tema, é importante ressaltar que o objetivo deste trabalho é apresentar as percepções de mentalidade primitiva e mentalidade moderna para autores clássicos da antropologia social, assim como a fundamentação argumentativa de autores da antropologia evolucionista a respeito do mesmo tema. É importante lembrar que o estudo sobre a mente do ser humano não se restringe ao pensamento antropológico, são encontradas diversas contribuições na filosofia, na psicologia, na neurociência e na linguística.1 A partir desse referencial teórico, buscar-se-á convergências e contrapontos entre as perspectivas teóricas.
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Parte-se aqui do pressuposto de que o estudo sobre mente deve ser feito da maneira mais abrangente possível, busca-se interdisciplinaridade para o melhor entendimento de mentalidade nos seus mais variados níveis de análise.
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Mente e a construção de significados
Mente é um conceito com múltiplos significados, as concepções mudam de uma sociedade para outra, levando em consideração o tempo e espaço ocupado pelas mesmas, é um aspecto da humanidade historicamente constituído, mas de uma maneira geral a mentalidade é tudo aquilo que envolve nossas ações e nossa compreensão do mundo, assim como as nossas relações com outros humanos, (Toren, 2012) toda informada pela história prévia de nossas vidas, a história até o momento presente, dessa maneira o ser humano é completamente social, e o mundo de pessoas e coisas que ele habita fazem parte de toda a sua constituição.2
Existem vários modelos da mente, dos quais se destacam os modelos de processamento de informações, modelos cognitivistas, mas estes não podem captar sua dinâmica intrínseca. Ao mesmo tempo em que a ideia de que muito daquilo que os humanos dizem e fazem é produto de uma construção cultural constituindo uma grande parte da antropologia, não são suficientes para explicar o que é a mente humana.
Dentre os objetivos da antropologia, um ponto central é explicar a multiplicidade que é o ser humano nas sociedades ou como a singularidade peculiar a cada um de nós se situa no que temos em comum com o resto do mundo. O que não significa que este deva ser pressuposto para o estudo de todas as manifestações humanas, pois também é necessária e justificada uma investigação da sociedade, conjuntamente com o indivíduo, a biologia sua, a sua personalidade e sua mente.
Nesse sentido, o passo principal para evolução da mente moderna teria sido a passagem da mente especializada para a generalizada, o que capacitou as pessoas a desenhar instrumentos complexos, criar arte, ter crenças religiosas e fazer ciência (Mithen, 2002). As análises
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Os seres humanos em sua composição são seres sociais, com isso, a construção de sua mente parte de seus relacionamentos interpessoais para assim ter uma construção de self, uma identidade, dessa maneira os seres humanos são sua história, sua biografia.
3 etnográficas de relações sociais são essenciais para o entendimento da especificidade histórica da intersubjetividade em qualquer caso e, assim, para mostrar como os processos de aprendizado são eles mesmos, estruturados de acordo com certas ideias a propósito do que são e do que podem ser os humanos.
Durkheim inaugurou a escola francesa de antropologia, seu objetivo girou entorno de encontrar teorias gerias.3 Sua tarefa persistia em investigar o papel da religião nas sociedades, considerando sua função de manter a unidade do grupo. (Goncalves e Ferreira, 2015) Ele analisava os dados etnográficos já publicados para tentar encontrar elementos universais no pensamento humano.
Como um seguimento da linha teórica de Durkheim, Claude Lévi-Srauss também procurou respostas mais genéricas sobre o pensamento humano. Ao escrever O Pensamento
Selvagem, o autor deu sua contribuição ao Totemismo (Goncalves e Ferreira, 2015). Sua proposta
consistiu em identificar a lógica classificatória tendo-a como uma categoria do pensamento humano, e não entender a relação entre um clã e seu totem. (Durkheim, 1996)
A inteligência social é discutida por muitos antropólogos clássicos, como por exemplo, Lucien Lévy-Bruhl, em A Mentalidade Primitiva afirma:
Em poucas palavras, o conjunto de hábitos mentais que exclui o pensamento abstrato e o raciocínio propriamente dito parece de fato se encontrar em um grande numero de sociedades inferiores, e construir um traço característico e essencial da mentalidade dos primitivos. (Bruhl, 2015)
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Em sua opinião, a ciência social deve ser puramente holística, devem-se estudar os fenômenos atribuídos à sociedade em geral, em vez de se limitar às ações específicas dos indivíduos.
4 Os homens do século XVI são assimilados à caracterização dos primitivos, os modos de pensar e de sentir dos povos ditos primitivos, com a indiferença às regras da lógica do pensamento ocidental positivista, à contradição, a concepção mística da natureza, demonstrariam essa convergência apontada por Bruhl.4
Dentre os teóricos da antropologia clássica, Malinowski parece não separar o natural do sobrenatural para o entendimento do povo chamado de primitivo, (Malinowski, 1976) de maneira similar, Evans-Pritchard ao estudar a Magia e a Bruxaria, diferentemente de Bruhl, proporciona a concepção de uma possível cientificidade no pensamento dos Azande (Evans-Pritchar, 2005). Posteriormente Marcel Mauss ao detalhar a noção do sujeito, conduz a uma série de ramificações do self, do nosso eu, podendo ser encontrado em vários povos, este autor parece não fazer uma distinção muito evidente no que se refere a mentalidade dos povos primitivos em contraposição com os modernos.
Durkheim fortalece com questão da vida religiosa caracterizando o fenômeno religioso como algo eminentemente social para entender profundamente a composição do mecanismo de funcionamento dos povos primitivos (Sobral, 1987). Finalmente, de maneira resumida, Lévi-Strauss com o seu estudo sobre o totemismo explica a relação do ser humano com a natureza; a relação entre natureza e cultura. Consequentemente, nesta perspectiva, ele dirá que a natureza está na capacidade humana de classificar as coisas, e a cultura seria o modo como cada o faz. E, ao buscar o entendimento do pensamento mítico, o autor traz uma analogia ao Bricolage, a arte e ao jogo (Goncalves e Ferreira, 2015). O pensamento mítico, assim como a arte e o Bricolage
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Segundo Lévy-Bruhl, os homens das sociedades chamadas pouco diferenciadas teriam uma mentalidade pré-lógica, que não estaria submetida aos princípios de contradição e causalidade, mas seria baseada em representações míticas.
5 constroem suas coisas a partir de um arsenal de signos já estabelecidos, assim, em resumo, é o conhecimento mítico, no qual Lévi-Strauss nomeou como ciência do concreto.
A mente para as ciências sociais e cognitivas
Argumenta-se que o único mecanismo que pode, de fato, explicar o rápido processo evolutivo tem um caráter cultural e social (Bartra e Graham, 2007). Mas utilizar uma distinção entre o primitivo e o moderno é algo que parece não caber no debate das ciências sociais, pelo menos nas ciências sociais no estado atual de produção de conhecimento científico.
Um problema frequente dentro do campo de estudo das ciências sociais é vastidão do campo científico, nesse sentido, apropriamo-nos de conceitos de áreas próximas para ajudar em nossa compressão da realidade, mas nem sempre os utilizamos da maneira correta, pois a linguagem por natureza própria se transforma, adquirindo novos significados em espaços temporais diferentes. Dito problema é abordado -de maneira suplementar no que se refere às interfaces entre as ciências sociais e cognitivas- a seguir, este que ainda é uma fronteira do campo das ciências sociais.
Além da ausência de uma teoria da mente desenvolvida para atender problemas das ciências sociais, as teorias sociais, em geral, enfrentam também o problema de uma consideração mais profunda das teorias da linguagem. (Cordeiro e Neri, 2016)
Durkheim trabalha na construção de significados no intuito de encontrar teorias gerais para encontrar elementos universais no pensamento humano em base a elementos fundamentais da vida religiosa, para assim entender profundamente a composição de seu mecanismo de funcionamento. Por conseguinte, para abordar a teoria do conhecimento humano, a religião escolhida fora o Totemismo, como sendo a forma mais simples de expressão religiosa.
6 Assim como Durkheim, vários teóricos do período clássico da antropologia tinham uma concepção similar no que se refere a constituição de um pensamento próprio dos povos chamados de primitivos na era clássica, na época era ampla a aceitação da concepção de existência de uma mesma forma de pensamento para qualquer outra sociedade. Dessa maneira podemos perceber claramente como para os seres sociais o conhecimento é construído, com nossas ações e relações sociais, por meio da linguagem e por nossa comunicação, damos significados e criamos símbolos para dar sentido ao mundo a nossa volta.
Não basta nos relacionarmos como seres dotados de mente, pois essas mentes são, como disse certa vez Clifford Geertz, plenas de pressupostos. Para que a “sociedade” seja possível, esses pressupostos têm que ser os mesmos. (Turner, 2014)
Considerações finais
A concepção cartesiana de existência de mentes simples e complexas, de povos primitivos e modernos, por parte de teóricos da antropologia clássica é apontada como parte central do desenvolvimento deste trabalho, assim, em contraposição há contribuições por parte da neurociência, que há de tratar de maneira mais precisa e objetiva o fenômeno de mente em seres humanos, juntamente com seu processo evolutivo, evolutivo aqui utilizado no sentido estrito da palavra, fisiologicamente.5 Assim Antônio Damásio no seu O erro de Descartes afirma:
Antes do aparecimento da humanidade, os seres já eram seres. Num dado ponto da evolução, surgiu uma consciência elementar. Com essa consciência elementar apareceu uma mente simples; com uma maior complexidade da mente veio a possibilidade de pensar e, mais tarde ainda, de usar linguagens para comunicar e melhor organizar os pensamentos. Para nós, portanto, no princípio foi a
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Há de se tratar aqui de aspectos estruturais e funcionais da mente, fazendo referencia tanto a concepções advindas da filosofia da mente quanto a neurociência no estado de desenvolvimento atual.
7 existência e só mais tarde chegou o pensamento. E para nós, no presente, quando vimos ao mundo e nos desenvolvemos, começamos ainda por existir e só mais tarde pensamos. Existimos e depois pensamos e só pensamos na medida em que existimos, visto o pensamento ser, na verdade, causado por estruturas e operações do ser. (Damásio, 2015)
Claramente, nota se no argumento de Damásio a existência de uma única humanidade, esta não estaria dividida entre povos, e muito menos sendo estes usufruidores de mentalidades primitivas ou modernas, as estruturas cerebrais são as mesmas, da mesma maneira que a capacidade de pensamento não diverge, as mudanças são as manifestações, que variam de cultura pra cultura de uma sociedade para outra.
Nossos comportamentos, experiências e cultura tem uma origem no cérebro, a linguagem que utilizamos para nos comunicar tem os seus substratos neurais, assim, por meio da cultura e de suas diferentes inter-relações, a linguagem muda, e os significados que damos ao mundo também estão atrelados a esse processo mental, nossa mente se diferencia da de outros animais pela capacidade de criar símbolos e sistemas de comunicação, que manifestam as nossas expressões culturais, (Saraiva, 2014) assim, devemos entender o mundo de uma maneira mais ampla, desenvolvemos nossas mentes até nos tornarmos seres humanos.
A compreensão da mente humana requer a adoção de uma perspectiva mais abrangente, deve ser relacionada com todo o organismo que possui cérebro e corpo integrados, encontrando-se estes em plena interação com um meio ambiente físico e social, encontrando-sendo encontrando-seres sociais, produtores de cultura e conhecimento, é importante entender que na construção de conceitos dentro das ciências cognitivas e das ciências sociais, existem pontes convergentes no que se refere ao estudo
8 da mente, é importante ressaltar que como humanidade, não há mentes mais ou menos desenvolvidas, há mentalidades diferentes.
Referencias bibliográficas
BARTRA, R.; GRAHAM, F. P. Antropología del cerebro. La conciencia y los sistemas simbólicos. México, D.F.: FCE, Pré-Textos, 2007. v. 30
BRUHL, L. L. A Mentalidade Primitiva. Rio de Janeiro: Clube dos Autores, 2015.
CORDEIRO, V.; NERI, H. As Neurociências e as Ciências Sociais: objetos comuns, embates e pontes. 40o. Encontro da Anpocs, 2016.
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DURKHEIM, E. As formas Elementares da Vida Religiosa Sao PauloMartins Fontes, , 1996. EVANS-PRITCHAR, E. Bruxaria, oráculos e magia entre os Azende. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
GONCALVES, L.; FERREIRA, M. O homem primitivo e a sua ciência: religião, magia e os fenômenos naturais na antropologia clássica. CSOnline – Revista Eletrônica de Ciências Sociais, v. 19, p. 77–87, 2015.
MALINOWSKI, B. Argonautas do Pacífico Ocidental. Sao Paulo: Abril Cultural, 1976.
MITHEN, S. A pré-história da mente − uma busca das origens da arte, da religião e da ciência. Sao Paulo: Unesp, 2002.
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SOBRAL, J. M. Mentalidade, ação, racionalidade — uma leitura crítica da “história das mentalidades”. Análise Social, v. 23, n. 95, p. 37–57, 1987.
TOREN, C. Antropologia e Psicologia. Revista Brasileira de Ciencias Sociais, v. 27, n. 80, 2012.
TURNER, S. Teoria social e neurociência. Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 26, n. 2, p. 71–88, 2014.