Superior Tribunal de Justiça
AgRg no HABEAS CORPUS Nº 551.112 - MT (2019/0370234-5)
RELATORA : MINISTRA LAURITA VAZ
AGRAVANTE : PATRÍCIO MARTINS DE QUEIROZ
ADVOGADO : EVERALDO BATISTA FILGUEIRA JUNIOR - MT011988 AGRAVADO : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
AGRAVADO : MINISTERIO PUBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO IMPETRADO : TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MATO GROSSO
EMENTA
AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PENAL E PROCESSO PENAL. ART. 244-A DA LEI N. 8.069/1990. OFENSA AO PRINCÍPIO DA CORRELAÇÃO. NÃO OCORRÊNCIA. REFORMATIO IN
PEJUS INEXISTENTE. PENA-BASE ACIMA DO MÍNIMO LEGAL.
CIRCUNSTÂNCIAS DO CRIME. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA.
QUANTUM DE AUMENTO. DISCRICIONARIEDADE VINCULADA DO
MAGISTRADO. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.
1. A denúncia imputou ao Agravante a conduta de submeter Adolescentes à prostituição ou exploração sexual. Posteriormente, o Acusado foi condenado como incurso no art. 244-A do Estatuto da Criança e do Adolescente, delito devidamente mencionado na peça acusatória. Na hipótese, portanto, é inequívoca a congruência entre os fatos descritos na denúncia e a válida qualificação jurídica, supracitada, atribuída ao Apenado pelo Juízo sentenciante, ex
vi do art. 383, caput, do Código de Processo Penal, após regular e contraditória
instrução criminal.
2. O Juízo de origem, atento à narrativa contida na denúncia, valorou negativamente a circunstância judicial relativa às circunstâncias do crime. Como é cediço, as circunstâncias do crime como circunstância judicial refere-se à maior ou menor gravidade do crime em razão do modus operandi. Constata-se, assim, a existência de fundamentação concreta e idônea, a qual efetivamente evidenciou aspectos mais reprováveis do modus operandi delitivo e que não se afiguram inerentes ao próprio tipo penal, a justificar a majoração da pena.
3. Nos termos da jurisprudência pacífica desta Corte Superior de Justiça, mesmo em caso de recurso de apelação exclusivo da Defesa, é possível que o Órgão Judicial de segunda instância, em razão do efeito devolutivo amplo da mencionada espécie recursal, inove na fundamentação utilizada na dosimetria da pena ou na fixação do regime prisional inicial, desde que a situação final do réu não seja agravada.
4. O quantum de aumento a ser implementado em decorrência do reconhecimento das circunstâncias judiciais desfavoráveis fica adstrito à prudente discricionariedade do Juiz, não havendo como proceder ao seu redimensionamento na via estreita do habeas corpus. Assim, ressalvados os casos de manifesta ilegalidade ou arbitrariedade, é inadmissível a revisão dos critérios adotados na dosimetria da pena por esta Corte Superior.
5. Na hipótese, o aumento efetivado na primeira fase da dosimetria – pena-base fixada em 1 (um) ano acima do mínimo legal – revela-se proporcional e fundamentado, considerando-se a motivação apresentada e a pena abstratamente cominada para o crime: quatro a dez anos de reclusão.
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ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas a seguir, por unanimidade, negar provimento ao agravo regimental, nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora. Os Srs. Ministros Sebastião Reis Júnior, Rogerio Schietti Cruz, Nefi Cordeiro e Antonio Saldanha Palheiro votaram com a Sra. Ministra Relatora.
Brasília (DF), 02 de março de 2021 (Data do Julgamento)
MINISTRA LAURITA VAZ Relatora
Superior Tribunal de Justiça
AgRg no HABEAS CORPUS Nº 551.112 - MT (2019/0370234-5)
AGRAVANTE : PATRÍCIO MARTINS DE QUEIROZ
ADVOGADO : EVERALDO BATISTA FILGUEIRA JUNIOR - MT011988 AGRAVADO : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
AGRAVADO : MINISTERIO PUBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO IMPETRADO : TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MATO GROSSO
RELATÓRIO
A EXMA. SRA. MINISTRA LAURITA VAZ:
Trata-se de agravo regimental interposto por PATRÍCIO MARTINS DE QUEIROZ contra a decisão de fls. 213-218, em que deneguei a ordem de habeas corpus, nos termos da seguinte ementa (fl. 213):
"HABEAS CORPUS. PENAL. ART. 244-A DA LEI N. 8.069/1990.
DOSIMETRIA. OFENSA AO PRINCÍPIO DA CORRELAÇÃO. NÃO OCORRÊNCIA. REFORMATIO IN PEJUS. INEXISTENTE. PENA-BASE ACIMA DO MÍNIMO LEGAL. CIRCUNSTÂNCIAS DO CRIME.
FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. QUANTUM DE AUMENTO.
DISCRICIONARIEDADE VINCULADA DO MAGISTRADO. ORDEM DENEGADA."
Colhe-se nos autos que em primeiro grau o Recorrente foi condenado à pena de 8 (oito) anos de reclusão, em regime inicial fechado, pela prática do crime previsto no art. 244-A da Lei n. 8.069/1990, c.c. o art. 71 do Código Penal.
Contra esse édito o Condenado interpôs recurso de apelação, ao qual o Tribunal local deu parcial provimento para "afastar a valoração negativa das conseqüência do crime,
reduzindo proporcionalmente a pena-base: reajustar a fração aplicada pela continuidade delitiva para 1/4 (um quarto); e readequar sua sanção definitiva para 6 (seis) anos e 3 (três) meses de reclusão, e 150 (cento e cinqüenta) dias-multa [...], mantido, outrossim, o regime inicial fechado" (fl. 81).
Nas presentes razões recursais, o Agravante sustenta que "partindo da própria
premissa lançada no acórdão de ter sido o crime de cárcere privado narrado na denúncia, deve-se aplicar no caso o brocardo jurídico que 'o réu defende-se dos fatos e não
da capitulação legal da denúncia', decorrente da própria aplicação do art. 383 do CPP" (fl. 230).
Assevera que (fl. 230):
"[...] se reconhecido no acórdão que tal delito estava narrado na
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da sentença em primeiro grau, julgar também este crime, ou, na ausência de seu julgamento, deveria o MP ter embargado a sentença para que ocorresse o julgamento completo dos fatos. Uma vez transitada em julgado para acusação, não pode o julgamento 'citra petita' ocorrido em primeira instância, sobre o qual a acusação não se insurgiu, ser consertado, ainda que sob roupagem de circunstância judicial negativa ao réu pelo delito remanescente pelo qual foi condenado."
Alega que "não se pode permitir, sob pena de ofensa ao princípio 'ne reformatio in pejus' que uma elementar de outro tipo penal pelo qual o PACIENTE foi
denunciado, porém não julgado e agora não mais poderá ser condenado por este mesmo delito, sirva como fundamento, sob roupagem de circunstância judicial, para a exasperação da pena base" (fl. 232).
Argumenta que "não se admite nestas circunstâncias que a pena seja
exasperada em mais de um sexto, eis que não existiu qualquer fundamentação adicional além daquela que efetivamente autorizaria a exasperação da pena em patamares superiores àqueles fixados pela jurisprudência" (fl. 235).
Requer (fls. 240-241):
"[...] o PROVIMENTO deste AGRAVO REGIMENTAL, para fins de i)
reconhecer a impossibilidade de ser agravada a pena base do agravante/paciente com fundamento em tipo penal que, apesar de denunciado (como reconhecido no acórdão), não foi por ele julgado na sentença, analisando-o sob o manto de circunstância judicial; ii) para ser fixada a fração de um sexto para a exasperação da pena base, nos termos da fundamentação supra, em razão da presença de uma única circunstância judicial negativa, não havendo fundamentação adequada para aplicá-la em um quarto."
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AgRg no HABEAS CORPUS Nº 551.112 - MT (2019/0370234-5)EMENTA
AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PENAL E PROCESSO PENAL. ART. 244-A DA LEI N. 8.069/1990. OFENSA AO PRINCÍPIO DA CORRELAÇÃO. NÃO OCORRÊNCIA. REFORMATIO IN
PEJUS INEXISTENTE. PENA-BASE ACIMA DO MÍNIMO LEGAL.
CIRCUNSTÂNCIAS DO CRIME. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA.
QUANTUM DE AUMENTO. DISCRICIONARIEDADE VINCULADA DO
MAGISTRADO. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.
1. A denúncia imputou ao Agravante a conduta de submeter Adolescentes à prostituição ou exploração sexual. Posteriormente, o Acusado foi condenado como incurso no art. 244-A do Estatuto da Criança e do Adolescente, delito devidamente mencionado na peça acusatória. Na hipótese, portanto, é inequívoca a congruência entre os fatos descritos na denúncia e a válida qualificação jurídica, supracitada, atribuída ao Apenado pelo Juízo sentenciante, ex
vi do art. 383, caput, do Código de Processo Penal, após regular e contraditória
instrução criminal.
2. O Juízo de origem, atento à narrativa contida na denúncia, valorou negativamente a circunstância judicial relativa às circunstâncias do crime. Como é cediço, as circunstâncias do crime como circunstância judicial refere-se à maior ou menor gravidade do crime em razão do modus operandi. Constata-se, assim, a existência de fundamentação concreta e idônea, a qual efetivamente evidenciou aspectos mais reprováveis do modus operandi delitivo e que não se afiguram inerentes ao próprio tipo penal, a justificar a majoração da pena.
3. Nos termos da jurisprudência pacífica desta Corte Superior de Justiça, mesmo em caso de recurso de apelação exclusivo da Defesa, é possível que o Órgão Judicial de segunda instância, em razão do efeito devolutivo amplo da mencionada espécie recursal, inove na fundamentação utilizada na dosimetria da pena ou na fixação do regime prisional inicial, desde que a situação final do réu não seja agravada.
4. O quantum de aumento a ser implementado em decorrência do reconhecimento das circunstâncias judiciais desfavoráveis fica adstrito à prudente discricionariedade do Juiz, não havendo como proceder ao seu redimensionamento na via estreita do habeas corpus. Assim, ressalvados os casos de manifesta ilegalidade ou arbitrariedade, é inadmissível a revisão dos critérios adotados na dosimetria da pena por esta Corte Superior.
5. Na hipótese, o aumento efetivado na primeira fase da dosimetria – pena-base fixada em 1 (um) ano acima do mínimo legal – revela-se proporcional e fundamentado, considerando-se a motivação apresentada e a pena abstratamente cominada para o crime: quatro a dez anos de reclusão.
6. Agravo regimental desprovido.
VOTO
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A irresignação não prospera.A denúncia imputou ao Agravante a prática dos seguintes fatos (fls. 25-26): "Consta dos inclusos inquéritos policiais que, em agosto de 2006,
nesta cidade e Comarca de Cáceres/MT, os indiciados PATRÍCIO MARTINS DE QUEIROZ e RUSEMBERG DE CARVALHO tentaram submeter a adolescente Ruthielly Cristina de Araújo (com 14 anos à época dos fatos) a prostituição ou exploração sexual e submeteram à exploração sexual e prostituição as adolescentes Laissa Mayara Pereira de Farias (com 15 anos na data do fato), Karolina Cristina da Silva (com 17 anos na data dos fatos) e Caroline Aparecida Silva Aguiar (com 17 anos na data do fato), na Boate Holliday, de propriedade do indiciado PATRICIO, através de programas sexuais e shows de nudismo, bem como privaram a liberdade das vítimas Laissa, Karolina e Caroline, impedindo-as de deixar a boate por conta de
'dívidas'.
Conforme restou apurado, o indiciado RUSEMBERG era a pessoa que aliciava as adolescentes para a boate de propriedade do indiciado PATRÍCIO, o qual as recebia, pagava o transporte e intermediava os programas sexuais com os clientes.
Para ocultar a idade das adolescentes os denunciados ordenavam que elas, ao chegarem nesta cidade, fosse até a Delegacia de Polícia e prestassem declaração falsa de perda de documentos, conseguindo assim um boletim de ocorrência com dados falsos sobre a idade e filiação das adolescentes, as quais passavam a ser 'maiores de idade'.
Após o expediente supra, as adolescentes foram submetidas à exploração sexual dos indiciados através de shows de 'strip-tease' e mantendo relações sexuais com clientes.
Ante o exposto, DENUNCIO PATRÍCIO MARTINS DE QUEIROZ e RUSEMBERG DE CARVALHO como incursos nas penas do artigo 244-A do ECA, requerendo que contra eles se instaure processo-crime nos termos do artigo 394 e seguintes do Código de Processo Penal, a fim de que citados, interrogados e ouvidas as testemunhas e vítimas abaixo arroladas, sejam eles condenados ao final."
A sentença condenatória, na parte que interessa, possui a seguinte fundamentação (fl. 42; sem grifos no original):
"Com relação às circunstâncias, são reprováveis e excedem a
tipificação penal, porquanto o acusado manteve as vítimas em cárcere privado, ferindo não somente o bem jurídico tutelado pela norma (integridade moral das adolescentes), mas também, seu direito a liberdade e direito de ir e vir, na medida em que eram obrigadas a permanecer no local até pagarem suas 'dívidas'."
A Corte de origem consignou o seguinte (fls. 77-78; sem grifos no original):
"Entretanto, ao revés do que sustenta o apelante, a denúncia narra
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submetidas, ao dispor que Patrício e Rusemberg 'privaram a liberdade das
vítimas Laissa, Karolina e Caroline, impedindo-as de deixar a boate por conta de 'dívidas'', (Trecho da denúncia – fl. 10).
Além disso – apesar de a denúncia narrar a ocorrência do crime de cárcere privado, como dito acima – infere-se que apelante não foi condenado pelo referido delito, não obstante esteja amplamente comprovado nestes autos, em razão da aplicação do princípio da consunção, uma vez que foi praticado como um meio de execução do crime mais grave, in casu: exploração sexual de menor. Isso porque, o apelante impedia as vítimas de saírem da boate em razão de 'dívidas' contraídas com o seu lupanar, motivo pelo qual elas eram forçadas a continuarem a se prostituir para conseguir saldar o 'débito'.
Nesse contexto, a despeito de o apelante não ter sido condenando pelo crime de cárcere privado, este, foi absorvido pelo de exploração sexual de menor, nada impedindo, no entanto, que seja o primeiro crime seja utilizado para o recrudescimento da pena-base do último ilícito a título de circunstância judicial negativa, uma vez que tornou a execução do crime mais grave e reprovável que o previsto abstratamente pela norma incriminadora."
De início, deve-se destacar que, nos termos da jurisprudência pacífica desta Corte Superior, "o acusado se defende dos fatos narrados na denúncia, e não da capitulação
legal nela contida – que é dotada de caráter provisório" (AgRg no AREsp 1.268.233/SP,
Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, DJe 11/03/2019). No mesmo sentido:
"AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL.
CORRUPÇÃO ATIVA. FATOS DESCRITOS NA DENÚNCIA. POSSIBILIDADE DE EMENDATIO LIBELLI. INÉPCIA DA INICIAL. SENTENÇA CONDENATÓRIA. PRECLUSÃO. DESCLASSIFICAÇÃO. NECESSIDADE DE REEXAME DE PROVAS. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.
1. 'O princípio da correlação ou da congruência configura efetiva garantia ao réu de que não poderá ser condenado sem que tenha tido oportunidade de se defender da acusação. Segundo o brocardo, o acusado defende-se dos fatos descritos na denúncia e não da capitulação jurídica nela indicada' (HC n. 441.175/SC, Quinta Turma, de minha relatoria, DJe de 20/06/2018) (AgRg no HC 498.750/SC, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 28/5/2019, DJe 3/6/2019).
[...]." (AgRg no AREsp 1.405.336/SP, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, QUINTA TURMA, julgado em 15/10/2019, DJe 21/10/2019; sem grifos no original.)
"RECURSO ESPECIAL. PENAL E PROCESSO PENAL. ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA. ESTELIONATO. CORRUPÇÃO PASSIVA. SUPERVENIÊNCIA DE CONDENAÇÃO. ESVAZIAMENTO DA ALEGAÇÃO DE INÉPCIA DA INICIAL ACUSATÓRIA. CONFIGURADA A EMENDATIO
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LIBELLI. RÉU SE DEFENDE DOS FATOS E NÃO DA CAPITULAÇÃO JURÍDICA. [...]
1. Esta Sexta Turma é firme na compreensão de que não merece conhecimento a alegação de inépcia da denúncia quando superveniente, como no caso, condenação, pois preclusa a discussão. Precedentes.
2. O princípio da correlação entre a denúncia e a sentença condenatória representa um dos mais importantes postulados para a defesa, porquanto estabelece balizas fixas para a produção da prova, para a condução do processo e para a prolação do édito condenatório.
3. Ademais, é princípio comezinho do direito penal e processual penal que o réu se defende dos fatos narrados na inicial, e não da capitulação jurídica a eles atribuída pela acusação. Contrariamente ao alegado pelo recorrente, e já estatuído na instância ordinária, a questão atrai a normatividade do artigo 383 (emendatio libelli) e não a do artigo 384 (mutatio libelli) do Código de Processo Penal, razão pela qual se mostra despicienda a abertura de prazo para a manifestação da defesa, tendo em conta que o réu se defende dos fatos narrados na incoativa, e não da capitulação jurídica ofertada pelo Parquet.
[...]." (REsp 1.565.024/SP, Rel. Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 17/04/2018, DJe 06/06/2018; sem grifos no original.)
No caso, a denúncia imputou ao Agravante a conduta de submeter Adolescentes à prostituição ou exploração sexual. Posteriormente, o Acusado foi condenado como incurso no art. 244-A do Estatuto da Criança e do Adolescente, delito devidamente mencionado na peça acusatória.
Dessa forma, houve inequívoca congruência entre os fatos descritos na denúncia e a válida qualificação jurídica, supracitada, atribuída ao Apenado pelo Juízo sentenciante, ex vi do art. 383, caput, do CPP, após regular e contraditória instrução criminal.
No mais, o Juízo de origem, atento à narrativa contida na denúncia, valorou negativamente a circunstância judicial relativa às circunstâncias do crime. Como é cediço, as circunstâncias do crime como circunstância judicial referem-se à maior ou menor gravidade do crime em razão do modus operandi.
Constata-se, portanto, a existência de fundamentação concreta e idônea, a qual efetivamente evidenciou aspectos mais reprováveis do modus operandi delitivo e que não se afiguram inerentes ao próprio tipo penal, a justificar a majoração da pena.
Ilustrativamente: "[...]
2. Na dosimetria, o julgador, dentro dos parâmetros de discricionariedade conferidos pelo art. 59 do Código Penal, deve analisar as peculiaridades do caso e apontar fundamentos concretos e idôneos que
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justifiquem a avaliação das circunstâncias judiciais para alterar a pena-base.
3. No caso, ao contrário do alegado pela defesa, a elevação da pena-base em 3 (três) meses baseou-se em elementos concretos do fato criminoso, tendo a sentença e o acórdão impugnado destacado o número de vítimas submetidas à prostituição (duas adolescentes), o que aumenta o grau de reprovabilidade da conduta criminosa.
4. Com a manutenção da pena em patamar superior a 4 (quatro) anos, os pedidos de fixação do regime aberto e de substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos ficam prejudicados.
5. Habeas corpus não conhecido." (HC 290.240/RS, Rel. Ministro
REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 18/06/2015, DJe 25/06/2015.)
Ademais, reafirmo que, nos termos da jurisprudência pacífica desta Corte Superior de Justiça, mesmo em caso de recurso de apelação exclusivo da Defesa, é possível que o Órgão Judicial de segunda instância, em razão do efeito devolutivo amplo da mencionada espécie recursal, inove na fundamentação utilizada na dosimetria da pena ou na fixação do regime prisional inicial, desde que a situação final do réu não seja agravada.
Nesse sentido:
"AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. PENAL.
ESTELIONATO. DOSIMETRIA DA PENA. PENA-BASE. MAUS ANTECEDENTES. AFASTADO PELO TRIBUNAL DE ORIGEM. SÚMULA N. 444/STJ. EXASPERAÇÃO MANTIDA. VALORAÇÃO NEGATIVA DA CULPABILIDADE DO AGENTE. POSSIBILIDADE. PRINCÍPIOS DO NON
REFORMATIO IN PEJUS E TANTUM DEVOLUTUM QUANTUM APELLATUM. VIOLAÇÃO. INOCORRÊNCIA. PRECEDENTES.
[...]
2. Nos termos da jurisprudência sedimentada nesta Corte Superior,
'não ocorre reformatio in pejus, quando o Tribunal local, em sede de apelação exclusiva da defesa, inova na fundamentação empregada na dosimetria ou na fixação do regime prisional inicial, sem, contudo, agravar a situação final do acusado. O efeito devolutivo amplo da apelação autoriza o Tribunal, quando provocado a se manifestar sobre algum critério da dosimetria, a reanalisar as circunstâncias judiciais e a rever todos os termos da individualização da pena definidos no decreto condenatório' (HC 474.615/DF, Rel. Ministro REYNALDO
SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 04/02/2020, DJe 10/02/2020). Precedentes.
3. Agravo regimental desprovido." (AgRg no REsp 1.844.293/AL,
Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 10/03/2020, DJe 07/04/2020.)
"EMBARGOS DE DECLARAÇÃO RECEBIDOS COMO AGRAVO
REGIMENTAL. PRETENSÃO DE EFEITOS INFRINGENTES. PRINCÍPIO DA FUNGIBILIDADE. TRÁFICO DE DROGAS. CAUSA DE DIMINUIÇÃO DA
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PENA PELO TRÁFICO PRIVILEGIADO. NÃO CABIMENTO. QUANTIDADE DE DROGA QUE EVIDENCIA DEDICAÇÃO DO AGENTE A ATIVIDADES CRIMINOSAS. REFORMATIO IN PEJUS. NÃO OCORRÊNCIA. RECURSO EXCLUSIVO DA DEFESA. SUPLEMENTAÇÃO DE FUNDAMENTOS PELO TRIBUNAL EM SEDE DE APELAÇÃO. QUANTUM DA PENA MANTIDO. POSSIBILIDADE. AGRAVO IMPROVIDO.
1. Embargos de declaração, com efeitos infringentes, devem ser recebidos como agravo regimental, em homenagem ao princípio da fungibilidade.
2. A quantidade da droga apreendida constitui fundamento idôneo para a modulação da fração prevista no art. 33, § 4º, da Lei 11.343/2006, como na espécie, em que foi apreendido 896g de maconha.
3. A jurisprudência desta Corte admite a suplementação de fundamentação pelo Tribunal que revisa a dosimetria e o regime de cumprimento de pena, sempre que não haja agravamento da pena do réu, em razão do efeito devolutivo amplo de recurso de apelação, não se configurando, nesses casos, a reformatio in pejus.
4. Embargos de declaração recebidos como agravo regimental, ao qual se nega provimento." (EDcl no HC 509.307/SP, Rel. Ministro NEFI
CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 10/09/2019, DJe 16/09/2019.)
De outra parte, cumpre ressaltar que o quantum de aumento a ser implementado em decorrência do reconhecimento das circunstâncias judiciais desfavoráveis fica adstrito à prudente discricionariedade do Juiz, não havendo como proceder ao seu redimensionamento na via estreita do habeas corpus. Assim, ressalvados os casos de manifesta ilegalidade ou arbitrariedade, é inadmissível a revisão dos critérios adotados na dosimetria da pena por esta Corte Superior.
Na hipótese, o aumento efetivado na primeira fase da dosimetria – pena-base fixada em 1 (um) ano acima do mínimo legal – revela-se proporcional e fundamentado, considerando-se a motivação apresentada e a pena abstratamente cominada para o crime: quatro a dez anos de reclusão.
Confira-se:
"AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL.
DESCAMINHO. DOSIMETRIA. PENA-BASE. REVISÃO POSSÍVEL EXCEPCIONALMENTE NOS CASOS DE MANIFESTA ILEGALIDADE OU
PATENTE DESPROPORCIONALIDADE. PRESENÇA DE
FUNDAMENTAÇÃO CONCRETA PARA A EXASPERAÇÃO. DESPROPORCIONALIDADE NÃO EVIDENCIADA. INEXISTÊNCIA DE CRITÉRIO MATEMÁTICO NA PRIMEIRA ETAPA DA DOSIMETRIA. APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA DISCRICIONARIEDADE MOTIVADA. DECISÃO MANTIDA. AGRAVO IMPROVIDO.
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3. É assente, ainda, que inexiste um critério puramente aritmético na primeira fase da dosimetria, cabendo ao julgador, a quem a lei confere certo grau de discricionariedade, sopesar cada circunstância judicial desfavorável à luz da proporcionalidade motivada, consoante seu prudente arbítrio. Precedentes.
4. Agravo regimental improvido." (AgRg no AREsp 1.661.280/PR,
Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 23/06/2020, DJe 29/06/2020.)
"AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL.
PLEITO DE RECRUDESCIMENTO DA PENA-BASE. CRITÉRIO MERAMENTE ARITMÉTICO. IMPOSSIBILIDADE. OBSERVÂNCIA AOS PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E PROPORCIONALIDADE. FUNDAMENTAÇÃO ADEQUADA. DISCRICIONARIEDADE VINCULADA. DO JULGADOR. DECISÃO MANTIDA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO.
1. A jurisprudência do STJ é firme em garantir a discricionariedade do julgador, sem a fixação de critério aritmético, na escolha da sanção a ser estabelecida na primeira etapa da dosimetria. Assim, o magistrado, dentro do seu livre convencimento motivado e de acordo com as peculiaridades do caso concreto, decidirá o quantum de exasperação da pena-base, em observância aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade.
2. Agravo regimental não provido." (AgRg no AREsp 1.176.777/GO,
Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 23/06/2020, DJe 01/07/2020.)
Ante o exposto, NEGO PROVIMENTO ao agravo regimental. É o voto.
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CERTIDÃO DE JULGAMENTO SEXTA TURMA AgRg no Número Registro: 2019/0370234-5 HC 551.112 / MT MATÉRIA CRIMINAL Números Origem: 412008 426512018 EM MESA JULGADO: 02/03/2021 RelatoraExma. Sra. Ministra LAURITA VAZ Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO Subprocuradora-Geral da República
Exma. Sra. Dra. RAQUEL ELIAS FERREIRA DODGE Secretário
Bel. ELISEU AUGUSTO NUNES DE SANTANA AUTUAÇÃO
IMPETRANTE : EVERALDO BATISTA FILGUEIRA JUNIOR
ADVOGADO : EVERALDO BATISTA FILGUEIRA JUNIOR - MT011988O
IMPETRADO : TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MATO GROSSO
PACIENTE : PATRÍCIO MARTINS DE QUEIROZ
CORRÉU : RUSEMBERG DE CARVALHO
INTERES. : MINISTERIO PUBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
ASSUNTO: DIREITO PENAL - Crimes Previstos na Legislação Extravagante - Crimes Previstos no Estatuto da criança e do adolescente
AGRAVO REGIMENTAL
AGRAVANTE : PATRÍCIO MARTINS DE QUEIROZ
ADVOGADO : EVERALDO BATISTA FILGUEIRA JUNIOR - MT011988
AGRAVADO : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
AGRAVADO : MINISTERIO PUBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
IMPETRADO : TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MATO GROSSO
CERTIDÃO
Certifico que a egrégia SEXTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
A Sexta Turma, por unanimidade, negou provimento ao agravo regimental, nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora.
Os Srs. Ministros Sebastião Reis Júnior, Rogerio Schietti Cruz, Nefi Cordeiro e Antonio Saldanha Palheiro votaram com a Sra. Ministra Relatora.