SINDROME DE LENNOX-GASTAUT COM INICIO TARDIO
I — F R E Q U E N C I A D E CASOS COM INICIO A N T E R I O R Ε U L T E R I O R AOS 6 ANOS D E I D A D E , F A T O R E S ETIOLOGICOS Ε N I V E L I N T E L E C T U A L
AMILTON ANTUNES BARREIRA * MICHEL PIERRE LISON **
ALFREDO LEBOREIRO FERNANDES***
A síndrome de Lennox-Gastaut (SLG) se inicia, preferencialmente, entre
1 e 6 anos de idade. O estudo de casos com início após os 6 anos — síndrome
de Lennox-Gastaut de início tardio (SLGIT) — tem sido objeto de poucas
publicações.
9*
1'
38. Com o presente trabalho objetivamos estudar: o número
de casos de SLGIT comparado ao da síndrome com início precoce em
publi-cações sobre o assunto; os intervalos de tempo entre a agressão encefálica
e o início da síndrome; os fatores etiológicos e o nível intelectual de pacientes
com SLGIT.
M A T E R I A L Ε MÉTODOS
1. Freqüência da SLOIT em relação à síndrome de Lennox-Gastaut com inicio
precoce — P a r a a comparação da freqüência da SLGIT em relação à síndrome com
inicio precoce — entre 1 e 6 anos ( S L G I P ) — não foram incluídas na revisão as casulsticas referidas na literatura: que não permitiram a determinação do número de pacientes com mais e menos de 6 anos de idade 5 , 1 4 , 1 9 , 2 3 , 2 7 , 3 5 , 3 6 , 3 7 , 3 8 ; ou as
selecio-nadas com base numa determinada faixa de idade de inicio 40j,4i ; as incluindo casos referidos em mais d e uma publicação 7,9,ΐ ΰ ,,2α ,32,36,37,38,43 e as em que foram estudados aspectos específicos (por e x e m p l o : terapêuticos, genéticos e E E G ) 1 , 6 , 8 , 1 3 , 1 6 , 2 q , 2 1r2 5 , 2 8 , 2 9 , 3 0 , 3 3 , 4 1 , 4 2 , 4 4 , 4 5 , 4 β , 4 8 , 5 1 , ΰ 3 .
2. Aspectos clinicos — De 15 pacientes selecionados de um grupo de 66 c o m SLG pudemos acompanhar 12. O início dos sintomas após o s 6 anos foi o critério utilizado para a seleção.
As iniciais, o sexo, a idade no final do seguimento, a idade de início da síndrome, a idade no inicio de seguimento e o tempo de seguimento estão indicados na tabela 1. A média de avaliações clinicas foi de 6 p o r ano variando de 3 (caso 1) a 8 (casos 5 e 7>.
Nos retornos revisamos a anamnese e o exame neurológico e em cada avaliação anotamos as características das crises epilépticas descritas p o r dois o u mais familiares e/ou p o r n ó s observadas. Registramos, ainda, a freqüência das crises e suas relações com o s critérios d e Tanner 62.
Oito pacientes (casos 1, 2, 3, 5, 7, 10, 11 e 12) foram internados para controle de crises rebeldes à terapêutica o u d e estados d e mal e para observação das mani-festações clinicas críticas e registros EEG. D o z e pacientes foram acompanhados p o i
mais d e 7 meses 11 p o r mais de 1 ano, 7 p o r mais d e 2 anos, 3 p o r mais de 3 e 2 p o r mais d e 5. A o final d o seguimento t o d o s o s pacientes estavam p ú b e r e s d e a c o r d o com os critérios de Tanner 52.
A terapêutica utilizada, em linhas gerais, esteve em concordância c o m o s esquemas propostos p o r Special! so e Special! & L i s o n e i . A p ó s o primeiro ano d e seguimento, via de regra, o esquema medicamentoso se manteve fixo.
T o d o s o s pacientes foram submetidos aos testes I N V 55 e W I S C 54 no último ano d e seguimento, c o m exceção d e A C M ( c a s o 2) q u e faleceu durante o sono, aos 13 anos e 5 meses d e idade.
R E S U L T A D O S
1. Freqüência da SLGIT em relação à SLGIP — Na tabela 2 estão indicadas as casuísticas com os respectivos números d e casos d e S L G I P e S L G I T .
A observação da tabela 2 nos permite verificar que em 6 das casuísticas estudadas o início após o s 6 anos corresponde a 14 a 20% d o total de casos. A s casuísticas de Niedermeyer 32, K o m a i 24 e Osawa e col.3» apresentam porcentagens para mais e as d e Doose e col.io, Schneider e col.40,47 e Cappela e col.,4, para menos se comparadas às demais.
Em 66 casos acompanhados no Ambulatório de Neurologia do Hospital das Clinicas de Ribeirão Preto pudemos identificar 15 com início após o s 6 anos de idade.
D o s 760 casos com idade de inicio determinado, reunidos na tabela 2, a S L G I T incide em 136 ou seja, 22% dos casos de SLG.
Quatro pacientes com S L G I T (casos 3, 7, 8 e 12) têm antecedentes de hipóxia peri-natal. Uma paciente (caso 10) apresenta diagnóstico clinico e histológico de neurofibromatose. Uma (caso 4) apresenta puberdade precoce. Um paciente (caso 2) apresentou ataxia apendicular a o exame neurológico. Os pacientes com hipóxia peri-natal tiverem o s seguintes intervalos entre esta e as primeiras manifestações da síndrome: caso 3, 10 anos e 6 meses; caso 7, 10 anos e 2 meses; caso 8, 17 anos e 2 meses e caso 12, mais de 9 anos.
Quatro pacientes (casos 2, 4, 5, e 12) têm familiares com epilepsia Cinco pacientes tiveram crises epilépticas (casos 2, 4, 6, 7 e 11) e nove apresentaram retardo psicomotor (casos 1 a 4 e 6 a 10) antes d o inicio da síndrome.
3. Nivel intelectual — D o s 11 pacientes (Tabela 4) que se submeteram ao W I S C , 10 apresentaram quociente intelectual ( Q I ) menor que 46 e um (caso 12) alcançou 84. Este c h e g o u a terminar o curso colegial nâo p o r ^ n d o continuar o s estudos pelo agravamento da síndrome epiléptica.
Oito d o s 11 pacientes submetidos ao teste I N V obtiveram percentual menor que que 10; dois, (casos 8 e 9) 20 e um (caso 12), 80.
Os totais de pontos obtidos pelos pacientes no I N V foram o s seguintes: um (caso
1), 0; d o i s (casos 4 e 6), menos de 10; cinco (casos 3, 5, 7, 10 e 11), mais de 10 o u 20.
Os três restantes conseguiram 26 (casos 8), 25 (caso 9) e 48 (caso 12).
COMENTÁRIOS
/ — Freqüência da SLGIT em relação à SLGIP — Em 255 dos casos
reu-nidos na tabela 2 a incidência da SLGIT variou de 14 a 20% indicando
pro-porção significativa de tais casos.
As incidências de 50% nas casuísticas de Niedermeyer
3 2e Osawa e col.
3 9,
respectivamente e de 72% na de Komai
2 4, podem estar influenciadas por critérios
de seleção. Tais critérios, todavia, não são referidos nos textos das publicações
em questão. O mesmo raciocínio pode ser estendido para as casuísticas de
Schneider e col.
4 7, Doose e col.
1 0e Capella e col.
4, que apresentam número
reduzido de casos com início tardio.
Mesmo não incluindo os casos com antecedentes de síndrome de West, o
achado de 23% de SLGIT- em nosso grupo de pacientes, está em concordância
com a maior parte dos autores relacionados na tabela 2. Os dados em pauta
demonstram ser significativos o número de casos de SLGIT nas diversas
casuísticas havendo proporção de 1 tardio para 5 precoces.
O significativo contingente de casos e o achado de algumas características
clínicas especiais no grupo
3e»
382. Fatores etiológicos — As epilepsias generalizadas secundárias
inespe-cíficas (síndromes de West e de Lennox-Gastaut, início precoce) são atribuídas
a lesões cerebrais difusas ou multifocals
22. Distinguem-se formas "secundárias"
e "primárias" conforme a existência ou não de agressão cerebral com
mani-festações clínicas precedendo o início da síndrome. Tal distinção é importante
pela comprovação de melhor prognóstico quanto ao desenvolvimento psicomotor
e evolução da epilepsia em pacientes com a forma "primária". As formas
"secundárias" são devidas a agressões cerebrais, cuja ocorrência pode ser
remota ou próxima à incidência, das primeiras manifestações da síndrome
epiléptica generalizada. Os antecedentes remotos, em geral, são do período
neonatal. A etiologia pode ser atribuída, via de regra, a traumatismo obstétrico
com ou sem hipóxia e com ou sem alterações neuropsicomotoras no seguimento
até as primeiras manifestações
37. Em número não desprezível de casos
observa-se retardo psicomotor desde o nascimento, causado por malformações congênitas,
eventualmente identificadas em vida, e distúrbios metabólicos
32»8 7
.
Menos vezes,
afecções cerebrais precedem, por anos, a instalação da síndrome
2 8»
4 8.
Os antecedentes próximos incluem afecções infecciosas, pós-vacinais,
traumáticas e tumorals, e também processos febris agudos de etiologia
desco-nhecida, com ou sem seqüelas psíquicas ou motoras imediatas
« S . W W ^ Q .Em relação à SLGIT as referências sobre etiologia e antecedentes são
escassas e contraditórias. Oiler Daurella e col.
3 8referem "etiologia
desconhe-cida", exame neurológico inalterado e desenvolvimento normal até o início da
síndrome em 26 pacientes dos 7 aos 17 anos de idade.
Antecedentes de doenças do sistema nervoso central são referidos, no
entanto, em casuísticas mais recentes. Uma paciente de Sengoku e col.
4 8,
intoxicada por arsênico aos 50 dias de idade, com subseqüente retardo do
desenvolvimento neuropsicomotor, começou a apresentar crises generalizadas aos
13 anos. Em 16 pacientes, Lipinski
2 8encontrou 7 com evidências anamnésticas
e/ou clínicas de agressão cerebral difusa anterior não evolutiva causada por
vacinação, meningite ou meningencefalite, "paralisia cerebral" e "icterícia
pro-longada". O intervalo entre as lesões e as primeiras crises epilépticas chegou
até 14 anos.
Dos nossos quatro pacientes que sofreram hipóxia perinatal, três (casos
3, 7, e 8) evoluíram com retardo neuropsicomotor franco até o início da epilepsia
generalizada secundária, respectivamente, aos 10 anos e 6 meses, 10 anos e
2 meses e 17 anos e 2 meses. Outro (caso 12, início após os 9 anos) chegou
a concluir o curso colegial, tendo sido o de melhor desempenho nos testes de
nível intelectual.
Nove pacientes apresentaram retardo neuropsicomotor anterior ao início
da síndrome. Apenas um (caso 5) não apresentou antecedente de lesão cerebral
adquirida, embora tenha familiares com epilepsia.
e o início da epilepsia generalizada secundária pode ser quase tão extenso
quanto o encontrado por Earle, Baldwin & Penfield*
1na epilepsia temporal.
A provável presença de lesões e disfunções encefálicas, não manifestas por
distúrbios motores, sensitivos e sensorials ou retardo do desenvolvimento
neuro-psíquico, foi sugerida pelos achados de Fényes e col.
1*, ao detectarem maior
sensibilidade ÈEG à hiperpnéia em crianças com asfixia peri-natal.
Antecedentes hereditários de epilepsia são freqüentes na SLG, alcançando,
para Lennox & Davis 27,2% dos casos. Quatro de nossos pacientes têm
familiares com epilepsia. Destes, uma apresentou puberdade precoce e, um,
hipóxia peri-natal.
Em súmula, estende-se para a SLGIT a importância dos fatores
heredi-tários e relacionados a agressões cerebrais pregressas, amplamente destacadas
em publicações sobre a SLGIP. Constata-se a possibilidade de longo intervalo
entre a agressão cerebral e a incidência de SLGIT com ou sem alterações do
desenvolvimento psicomotor antes do início da síndrome.
3. Nível intelectual e exame neurológico — A SLGIT levaria a deficiências
intelectuais menos pronunciadas que a de inicio precoce no entender de Gastaut
e col.
1 6e de Niedermeyer
31. Oller Daurella
3 8assinalou a possibilidade de
deteriorização mental progressiva. Em 1976 Sengoku
4 8observou deficiência
mental muito intensa na SLGIT.
Nossa documentação não reforça a idéia de que quanto mais tarde o
início da síndrome melhor o prognóstico. A metade do nosso grupo de pacientes
é composta por deficientes mentais graves (casos 1, 3, 6, 8, 10 e 11). Um
único paciente (caso 12) pode ser classificado no padrão médio inferior de
inteligência pela WISC e com rendimento de 80% no INV.
Contrastando com a elevada freqüência de retardo mental, verificamos a
ausência de alterações ao exame neurológico em todos os pacientes com
exceção de um (caso 2). Neste paciente havia ataxia permanente, não se
podendo, no entanto, afastar a possibilidade da manifestação ser provocada,
pelo menos em parte, pela medicação. Nos pacientes com a síndrome se
iniciando na idade precoce, pelo contrário, a incidência de alterações
neuro-lógicas é elevada
3 1»
8 8. Tal fato sugere haver diferenças quanti e qualitativas
quanto às agressões cerebrais responsáveis pelas sindromes com início precoce
e tardio.
RESUMO
De um grupo de 66 pacientes com sindrome de Lennox Gastaut, 15
apresentaram as primeiras manifestações clinicas após os 6 anos de idade.
Desses, 12 foram acompanhados durante o período médio de 2 anos e 6 meses,
com avaliações neurológicas a intervalos de cerca de 2 meses. A revisão das
publicações pertinentes permitiu estabelecer que em 20% das casuisticas
dência de lesões neurológicas graves precedendo a instalação da síndrome por
vários anos.
As avaliações psicométricas evidenciaram intenso comprometimento do nível
intelectual em contraste com os dados da literatura sobre a síndrome de
Lennox-Gastaut de início tardio.
SUMMARY
Lennox-Gastaut syndrome of late onset: I — Frequency of cases which
started before ana after 6 years of age, etiological factors and intelectual level,
Of 66 patients with Lennox-Gastaut syndrome, 15 exhibited the first clinical
manirestations after 6 years of age. Twelve of these were followed for a
mean period of 2 years and 6 months, with neurological evaluations at about
2-month intervals. A review of the literature showed that, in 20% of the cases
studied, the Lennox-Gastaut syndrome begins after the 6
t hyear of life. Clinical
evaluation allowed us to find out that our patients exhibited serious neurological
damage preceding by several years the onset of the syndrome. The
psycho-metric evaluation showed extensive involvement of the intellectual level, in
contrast with the data in the literature on late-onset Lennox-Gastaut syndrome.
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Departamento de Neuropeiquiatria e Psicologia Médica —- Faculdade de Medicina — Caixa Postal 301 — 14100 Ribeirão Preto, SP — Brasil.