PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
Adriana Barilari Bibini
O entrelaçamento da mídia com o espetáculo
DOUTORADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
São Paulo 2022
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Adriana Barilari Bibini
O entrelaçamento da mídia com o espetáculo
Tese de Doutorado apresentada à banca examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de Doutora em Ciências Sociais, sob orientação da Professora Doutora Rosemary Segurado.
São Paulo 2022
Autorizo, exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta Tese de Doutorado por processos de fotocopiadoras ou eletrônicos.
Assinatura _____________________________________________
Data _________________
e-mail ________________________________________________
Ficha catalográfica elaborada pela biblioteca.
Adriana Barilari Bibini
O entrelaçamento da mídia com o espetáculo
Tese de Doutorado apresentada à banca examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de Doutora em Ciências Sociais, sob orientação da Professora Doutora Rosemary Segurado.
Aprovado em: ___/___/___
BANCA EXAMINADORA
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Dra. Rosemary Segurado – PUC-SP
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Dr. Vera Lucia Michalany Chaia – USP
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Dra. Cristina de Amorim Maranhão Gomes da Silva – PUCSP
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Dra. Joyce Miranda Leão Martins – UFRGS
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Dr. Rafael de Paula Aguiar Araujo – PUCSP
À Marina, sempre.
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior- Brasil (CAPES) – 88887.163079/2018-00
This study was financed in part by the Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – 88887.163079/2018-00
AGRADECIMENTOS
Agradeço ao corpo de professores da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, que foi tãо importante nо desenvolvimento da pesquisa. Reproduzo aqui um agradecimento especial à professora doutora Rosemary Segurado pela paciência nа orientação, pelo convívio, pelo apoio, pela compreensão, pela amizade е pelo incentivo, tornando possível а conclusão desta tese.
Ao Felipe Teixeira Hudson, pessoa especial cоm quem аmо compartilhar а vida.
Obrigada pelo carinho, pela paciência e pelo apoio oferecidos para quе еu chegasse a esta etapa.
A professora Inês Correa pelo apoio em toda minha trajetória no aprendizado da técnica fotográfica e por ser minha inspiração.
Agradeço a todos os amigos e familiares quе, dе alguma forma, estiveram е estão próximos dе mim, incentivando e apoiando constantemente o aprimoramento da minha formação acadêmica. Nãо posso deixar dе agradecer dе forma grandiosa à minha professora, amiga e incentivadora Elke Renate Natascha Kurmeier; minha sincera gratidão pelos textos traduzidos, ensinamentos e dedicação em ajudar-me.
Com o Supremo, com tudo.
Romero Jucá
RESUMO
BININI, Adriana Barilari. O entrelaçamento da mídia com o espetáculo. 2022. 166 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2022.
Esta pesquisa corresponde à análise das representações fotográficas da presidenta da República Dilma Rousseff divulgadas pelas mídias tradicionais O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo durante o período de seu impeachment. O objetivo é analisar as imagens publicadas e de que maneira as narrativas sobre gênero são expressas nessas representações fotográficas de Dilma Rousseff, buscandomos compreender a construção de estereótipos sobre sua imagem política durante o processo de impeachment e como as fotografias auxiliaram na construção da visão negativa sobre a presidenta. A hipótese levantada é que as imagens contêm técnicas semióticas e composições fotográficas capazes de suscitar afetos vinculados ao senso comum sobre mulheres na política e nos espaços públicos de poder. A análise da pesquisa deixou claras as consequências que Dilma Rousseff sofreu por desafiar os papéis tradicionais de gênero. A violência simbólica que sofreu e a construção de uma imagem negativa por meio das fotografias que foram publicadas quando ocupou o mais importante cargo do Poder Executivo marcaram a história do Brasil como uma retaliação midiática massiva.
Palavras-chave: Mídia. Mulheres. Políticas. Dilma Rousseff. Representações fotográficas.
Estereótipos. O Estado de S. Paulo. Folha de S.Paulo.
ABSTRACT
BININI, Adriana Barilari. The intertwining of the media with the spectacle. 2022. 166 pages.
Thesis (Doctorate in Social Sciences) – Postgraduate Studies Program in Social Sciences at the Pontifical Catholic University of São Paulo, São Paulo, 2022.
This research corresponds to the analysis of photographic representations of President Dilma Rousseff during the period of impeachment published by the traditional media Estado de S.
Paulo and Folha de S.Paulo. The objective was analyzing the published images and how the narratives about gender are expressed in the photographic representations of Dilma Rousseff, we seek to understand the construction of stereotypes about her political image during the impeachment process and how these helped in the negative image construction of the president.
Our hypothesis was that the photographs contained semiotic techniques and photographic compositions capable of arousing affections linked to common sense about women in politics and in public spaces of power. The research analysis made clear the consequences that Dilma Rousseff suffered for challenging traditional gender roles. The symbolic violence she suffered and the negative image of it that was published when she held the most important position in the executive power will mark the history of Brazil as a massive media retaliation.
Keywords: Media. Women. Policies. Dilma Rousseff. Representation photographic.
Stereotypes. O Estado de S. Paulo. Folha de S.Paulo.
SUMÁRIO
Introdução ... 11
1. PANORAMA ELEITORAL DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2014 Error! Bookmark not defined.5 1.1 Contexto das eleições presidenciais de 2014 ... Error! Bookmark not defined.5 1.2 As duas fases das manifestações de junho de 2013 ... 16
1.2.1 Primeira fase ... 17
1.2.2 Segunda fase ... 19
1.3 Cobertura dos jornais Estado de S Paulo e Folha e S.Paulo sobre as manifestações de junho 2013.. 22
1.4 Análise das duas fases das manifestações de junho de 2013 ... 24
1.5 Rivalidade histórica ... 28
1.6 Eduardo Cunha ... 32
1.7 Presidencialismo de coalizão – “toma lá, dá cá” ... 35
1.8 Os manifestantes canarinho ... 41
1.8 Dilma Rousseff – Tchau Querida ... 48
2. HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA... 51
2.1 Walter Benjamin ... 52
2.2.Pierre Bourdieu ... 67
2.3 Roland Barthes ... 70
2.4 Guy Debord ... 72
2.5 Boris Kossoy ... 76
2.6 O fotojornalismo e sua história ... 77
2.7 A metodologia da pesquisa ... 78
2.8 Warburg e seus estudos ... 78
2.9 Perspectivas de Darwin e expressão da emoção ... 82
2.10 Pathosformel no fotojornalismo ... 84
2.11 A expressão do movimento ... 87
3. HISTÓRIA, MOVIMENTOS POLÍTICOS E RETRATOS DE DILMA ROUSSEFF Error! Bookmark not defined. 3.1 Análise crítica das imagens fotográficas ... 102
3.2 Olhar expressão do retrato ... 103
3.3 Rosto ... 116
3.4 Representação do gênero feminino ... 120
3.5 Personagens expostos ... 124
3.6 Espaçamento ... 145
3.7 Fundo desfocado ... 150
3.8 Cores e tons ... 152
Considerações Finais ... 158
Referências Bibliográficas ... 168
INTRODUÇÃO
Trabalhamos nesta pesquisa com o intuito de apresentar ferramentas propícias para interpretar uma fotografia, sugerindo material para enxergá-la como uma tela mais ampla. O material aqui apresentado busca expor a importância das imagens ao longo do tempo, o que foi representado em uma cultura e como isso refletiu na construção da opinião da sociedade.
Avalições podem ser feitas por meio de mapas, imagens, desenhos, mas vamos considerar, nesta pesquisa, o retrato e sua importância para a sociedade. Anteriormente, o retrato pintado nos permitia analisar se o personagem era encenado, se o retratado olha diretamente para o objeto, se o sujeito está cercado de pertences ou apresenta-se em um cenário particular. Todos esses detalhes nos possibilitam compreender a declaração que o indivíduo faz de si ou que fazem dele através da forma como está configurado, reproduzido.
Nossa pesquisa interroga esses significados e busca lançar luz sobre as reverberações na sociedade das fotos da presidenta Dilma Rousseff que foram publicadas em alguns veículos da mídia no período do golpe de 2016. Desconstruímos o discurso contido nas imagens que se tornaram familiares ao público, ou seja, que passaram a fazer parte do imaginário social e que alimentaram sua interpretação, pois nossa preocupação, quando nos deparamos com certas imagens da presidenta, foi buscar entender o que estávamos vendo. As fotografias de Dilma publicadas pela mídia são registros históricos, mas nos perguntamos o que aconteceu no milésimo de segundo anterior e no posterior à imagem capturada, quais foram seus impactos, o que estava no entorno da imagem e, principalmente, o que foi representado historicamente.
Cada imagem, cada segundo registrado que foi publicado na mídia tradicional teria qual peso na história desse registro?
Para isso, fizemos o exercício de parar e analisar: quais imagens fizeram reverberar paralelos com nossa própria história pessoal? Quais as circunstâncias em torno dessa imagem?
Quando reavivamos uma imagem da nossa memória, o que ela nos provoca, o que estimula em nós, que tipo de sentimento nos desperta? Com certeza ela irrompe em nós sentimentos antes mesmo de mostrar-se totalmente. Foi a partir desse pensamento que começamos a considerar que tipo de julgamento podemos fazer sobre as imagens de Dilma que foram publicadas e ficarão memorizadas pela sociedade.
Há diversas imagens de Dilma Rousseff veiculadas pela mídia por ela ser uma figura pública; são imagens de coragem, de determinação, de esperança, de poder, mas também imagens depreciativas. O intuito desta pesquisa é reunir parte do trabalho que alguns veículos da mídia tiveram em divulgar as imagens da presidenta em um período histórico específico e qual repercussão e efeito tiveram na sociedade. As imagens apresentadas podem ter características muito sutis e imperceptíveis, entretanto nos questionamos se determinadas imagens, a forma como foram feitas e a escolha de publicar aquele milésimo de segundo em determinada reportagem foram usadas pela mídia para o imediatismo e para a espetacularização do tema, com vistas à defesa de algum ponto de vista específico. A questão é: o legado de imagens produzidas no período do golpe de 2016, quando visto 20 ou 30 anos depois, será uma reprodução da realidade? Essas imagens serão autênticas ou ainda fabricarão os mesmos sentimentos de hoje? Esse é o ponto principal que consideramos na produção desta pesquisa. A manchete do artigo muda a forma como o leitor vai interpretá-lo, então podemos entender que essa seria uma peça de publicidade, e a fotografia promove esse efeito de fomento à venda, torna a reportagem mais impressionante, por isso sua alta contribuição para o jornalismo. A fotografia atua como uma ferramenta que consegue influenciar e moldar a reação do público em geral ou consegue, pelo menos, manipular a percepção do contexto. Esta pesquisa leva em consideração, ao analisar as fotografias de Dilma Rousseff, seu potencial de moldar a compreensão da sociedade sobre determinados eventos históricos, de ser usada como ferramenta capaz de transmitir e despertar emoções principalmente quando apresentadas para entretenimento comercial.
A fotografia é uma composição, e esta tem a capacidade de construir os afetos que permeiam o senso comum, uma vez que é feita tanto por meio de palavras como de imagens. O senso comum alimenta e se alimenta dos estereótipos construídos pelos discursos, inclusive e principalmente os relacionados aos papéis de gênero, como vamos analisar nesta pesquisa.
Buscamos compreender, aqui, quais estereótipos femininos foram relacionados às imagens fotográficas de Dilma, analisando fontes como os jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo durante o processo de impeachment. A escolha por essa base metodológica se deu pelo fato dela revelar usos intencionais das fotografias pela mídia para a criação de sentidos específicos, para manipulação do público, para persuadir as pessoas a pensarem de determinada forma sobre um evento, uma presidenta, um golpe.
O período escolhido como ponto-chave para a análise foi o da duração do processo de
impeachment. Consideramos, então, o início no dia 2 de dezembro de 2015 (data em que Eduardo Cunha abre o processo a partir da aceitação de um documento apresentado por Hélio Bicudo e pelos advogados Miguel Reale Júnior e Janaina Paschoal) e o fim em 31 de agosto de 2016 (dia no qual Dilma Rousseff tem o mandato cassado em votação no Senado). Essa seleção do corpus e a escolha metodológica tiveram por objetivo entender de que maneira as narrativas sobre gênero expressas nas representações fotográficas de Dilma Rousseff selecionadas contribuíram para a construção de sua imagem política durante o processo de impeachment.
Nossa hipótese era que as fotografias continham técnicas capazes de despertar afetos vinculados aos estereótipos e preconceitos de gênero do senso comum e, assim, permitiam garantir a espetacularização do fato histórico.
A presente tese divide-se, estruturalmente, em três capítulos. O primeiro refere-se a uma apresentação do período histórico proposto, ou seja, tece um histórico do impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
No capítulo seguinte, analisamos uma coletânea composta por todas as fotografias de Dilma publicadas nos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo de Dilma no referido período. Essa seleção do material, que foi feita de forma manual, e a escolha metodológica embasada na teoria e pesquisa de Aby Warburg buscaram entender de que maneira as narrativas e as imagens podem ser lidas e que sentimentos e afetos expressam as representações fotográficas de Dilma Rousseff que contribuíram para a construção de sua imagem política durante o processo de impeachment. O trabalho do teórico cultural e historiador da arte alemão Aby Warburg (1866-1929) teve grande influência sobre como pensamos as imagens. Esta pesquisa utiliza-se de sua obra Mnemosyne Atlas, na qual o autor organizou cuidadosamente alguns milhares de fotografias em preto e branco de objetos de arte clássica e renascentista. Na obra, ele tenta, através dessas constelações de imagens, traçar várias sequências temáticas nos painéis e mapear inúmeras tensões e reações entre palavra e imagem. Dentro dessas construções, Aby Warburg cataloga diversas representações fotográficas e aponta para possíveis sentidos sociais carregados por essa comunicação visual.
Por último, no capítulo três, revisitamos, nas fontes de análise – as fotografias publicadas –, a trajetória pessoal e política de Dilma Rousseff, além de citarmos brevemente fatos que ocorreram durante seus mandatos como presidenta. Apresentamos os resultados da pesquisa qualitativa dos materiais selecionados, analisando as representações fotográficas de Dilma em busca dos padrões de representação. Além disso, destacamos alguns conceitos de
representações e de estereótipos de gênero na mídia. Por fim, exploramos os padrões de representação de mulheres políticas e de que forma esses padrões contribuem para a construção de uma hegemonia masculina no espaço público. A partir disso, abordamos brevemente como o feminismo atua nas pesquisas sobre comunicação midiática.
A construção desta pesquisa deixou claras as consequências que Dilma Rousseff sofreu por desafiar os papéis tradicionais de gênero e tomar o lugar de chefe de Estado. Devido a essa posição, acreditamos que a presidenta tenha sido alvo de uma violência simbólica que marca a história do Brasil como uma retaliação midiática massiva. Conforme cita um dos autores no qual nos embasamos para esta pesquisa, Boris Kossoy (2001), as fotografias podem se transformar em materiais que manipulam a opinião justamente por estar implícita a expressão de verdade e de imparcialidade no conceito fotográfico. O autor acredita que, no entanto, longe de serem imparciais, as fotos expressam a “atitude do fotógrafo diante da realidade; seu Estado de espírito e sua ideologia acabam transparecendo em suas imagens” (KOSSOY, 2001, p. 43).
1 PANORAMA ELEITORAL DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2014
1.1 Contexto das eleições presidenciais de 2014
A reeleição da presidenta Dilma Rousseff (PT) se consagrou com uma pequena diferença de votos em relação a Aécio Neves (PSDB). A eleição não teve somente uma votação acirrada, mas também foi marcada por um período de grande tensão devido ao fato de ter sido uma eleição assinalada por uma polarização muito bem desenhada.
A disputa entre a petista e o tucano, em segundo turno, foi acalorada, e a vitória da presidenta deveu-se a uma margem muito pequena, apenas 3,28 pontos percentuais. Dilma Rousseff atingiu 51,64% dos votos, enquanto Aécio Neves totalizou 48,36%.
No pleito concorriam à presidência, além dos candidatos Dilma Rousseff e Aécio Neves, Marina Silva (PSB), Luciana Genro (PSOL), Pastor Everaldo (PSC), Eduardo Jorge (PV) e Levy Fidélix (PRTB). A disputa foi intensa entre os candidatos Dilma Rousseff, Aécio Neves e Marina Silva. A conjuntura era adversa para Dilma Rousseff devido a candidata disputar sua reeleição e pelo fato da candidata representar a continuidade do Partido dos Trabalhadores no poder. Os demais candidatos concentravam-se em desgastar seu governo antecedente, enfatizando que somente um novo governo poderia responder a algumas insatisfações populares abordadas em manifestações que abalaram o Brasil em 2013.
Os protestos que ocorreram no Brasil no ano de 2013 ficaram conhecidos também como Manifestações dos 20 centavos, Manifestações de Junho ou Jornadas de Junho. As manifestações foram várias aglomerações populares que ocorreram em todo o país.
Inicialmente surgiram para refutar os aumentos nas tarifas de transporte público, valor que seria reajustado principalmente nas principais capitais brasileiras. Posteriormente, as manifestações começaram a ter pautas difusas e públicos heterogêneos, contando também com a participação de indivíduos e grupos que representavam ideias conservadoras e identificação com ideário político de direita (termo adotado para caracterizar posicionamento político, partidário e ideológico próximo ao conservadorismo social, com valores religiosos e políticos tradicionais).
Analisamos as manifestações de junho de 2013 para refletir sobre as eleições presidenciais de 2014, pois consideramos que o cenário de representação política desse período começou a ser construído em 2013. A participação da mídia na construção narrativa de
criminalização do Partido dos Trabalhadores e de suas lideranças foi fundamental e se articulou com outros atores políticos, tais como setores empresariais, ligados ao capital financeiro e aos representantes da política tradicional.
Meses antes do início das manifestações alguns cartazes começaram a fazer parte do cenário da cidade de São Paulo. Nestes, o aviso era: “Se a tarifa aumentar, a cidade vai parar”.
A mobilização reuniu-se no início do mês de junho e o primeiro ato aconteceu, ainda tímido, em uma avenida no centro da cidade. Alguns pneus em chamas bloquearam a via e surpreenderam a Polícia Militar.
Os atos foram ganhando grande apoio popular e um público notório se formou em meados do mês de junho. A resposta foi uma forte repressão policial presente contra os manifestantes. Data do dia 13 de junho, na cidade de São Paulo, o auge do protesto. Após quatro dias do protesto em referência, a manifestação contou com um público grande de participantes e os atos estenderam-se não somente nas ruas de diversas cidades brasileiras, como no exterior.
No entanto, quando analisadas as manifestações podemos verificar que estas sofreram uma transição. Pode-se delimitar no período em referência, duas distintas fases na qual em um primeiro momento os protestos expuseram reclamações cabíveis ao âmbito municipal e depois as reivindicações atingiram a esfera federal. Para analisar esta trajetória e entender a pauta do Movimento Passe Livre (MPL) se faz necessário expor cronologicamente as demandas e contextualizar a mesma buscando compreender o fenômeno das Manifestações de Junho e sua consequência para a população, para a política e principalmente para as eleições presidenciais de 2014.
1.2 As duas fases das manifestações de junho de 2013
Conforme mencionado previamente, as manifestações de junho são segmentadas em duas fases. Já a forma de organização dos eventos, em qualquer uma delas, ocorreu da mesma maneira, com uma coordenação online (uso das redes sociais) e a participação do Movimento Passe Livre (MPL), em São Paulo. As reivindicações dos protestos eram narradas pelos manifestantes por uma luta contra o aumento da tarifa em São Paulo. Esta era a campanha Passe Livre – MPL, um movimento social brasileiro que defende a implementação da tarifa zero em transportes coletivos.
A característica mais marcante da primeira fase é a falta de suporte que a mídia oferece
às manifestações. Outra peculiaridade desta fase é a tímida participação popular. Entretanto, neste período os conflitos violentos entre os manifestantes e a polícia foram intensos, e o ponto central dos protestos eram o reajuste tarifário do transporte público. A segunda fase teve uma característica oposta; houve uma grande cobertura da mídia nos atos, a participação popular foi corpulenta e a repressão policial foi praticamente insignificante.
1.2.1 Primeira fase
O início das manifestações populares na cidade de São Paulo deu-se quando a Prefeitura de São Paulo juntamente com o Governo do Estado de São Paulo anunciaram o reajuste dos preços das passagens de ônibus municipais, assim como as do metrô e dos trens urbanos, regulando-as de R$ 3 para R$ 3,20.
A partir do anúncio, três manifestações amadurecem no início do mês de junho, especificamente nos dias 6, 7 e 11. Os atos foram marcados por uma forte violência policial.
Em consequência da conduta policial, a mídia resolveu noticiar as manifestações e as identificaram e publicaram como atos de vandalismo. A respota foi violenta e agressiva e a indignação ao tratamento empoderou a população que passou a aderir ao protesto e enfrentar não somente a truculência policial, mas a mídia que pautava e designava os manifestantes por vândalos com o intuito de desqualificá-los.
As imagens anexadas à notícia particularizam as ruas da cidade convertidas em um campo de batalha, cenas de vandalismo são enfatizadas, o que contribuiu para a imagem de manifestações desordeiras, além de truculência policial e destruição do patrimônio público como pontos de ônibus, placas de sinalização quebradas e imagens de lixeiras e veículos em chamas. Os atos foram de autoria de manifestantes radicais que participavam dos protestos, denominados Black Blocs. No entanto, a imprensa, em momento nenhum isolou os atos como coordenados por manifestantes específicos e os Black Blocs. Muito pelo contrário, a imprensa aglomerou os ataques às manifestações e a adjetivou de depredação, destruição e vandalismo.
Adeptos da tática Black Bloc marcaram presença nas ruas de São Paulo e Rio de Janeiro durante a onda de protestos de junho de 2013. O conceito e as imagens de vandalismo viraram corriqueiras em matérias de jornais no período.
Buscando interpretar os personagens por trás da máscara e analisando a resposta agressiva da Polícia Militar, a socióloga Esther Solano juntamente com os jornalistas Bruno Paes Manso e Willian Novaes analisaram quem são estes jovens e por que utilizaram a violência
como ferramenta para responder à rigidez policial no curso das manifestações. Esta ampla pesquisa de campo e entrevistas realizadas com os protagonistas da tática Black Bloc foi compilada e publicada na obra Mascarados: a verdadeira história dos adeptos da tática Black Bloc. “Meu propósito sempre foi entender um fenômeno que pouco me parece ser simples ou evidente, e que expressa muito sobre nossa sociedade. Queria avançar por cima do discurso banal: ‘O Black Bloc é vândalo ou a Polícia Militar é violenta’”. (SOLANO, 2014, p. 17)
Segundo a autora Esther Solano, as raízes dos Black Bloc podem ser encontradas na
“correnteza histórica” dos grupos terroristas e das organizações de guerrilha urbana. Eles buscaram referência nas organizações de “ação direta” que surgiram na Alemanha e Itália, mais especificadamente em maio de 1968 com os grupos Baader-Meinhof e as Brigadas Vermelhas, grupos armados que enfrentavam forças policiais em cenário urbano.
Em São Paulo a organização foi responsável por inúmeras operações de guerrilha e atentados à cidade durante as manifestações de junho. A aparição dos seus integrantes sempre foi com o rosto coberto e vestidos de preto. Conforme defende a autora, este contraste é justamente para demarcar a diferença entre eles e os manifestantes que participavam dos protestos. “A estética tem importância. Os ‘40 garotos’ cobrem o rosto não apenas para praticar atos criminosos no anonimato, mas, essencialmente, com a finalidade de traçar uma fronteira entre eles mesmos e os demais manifestantes” (SOLANO, 2014, p.19).
As táticas têm a intenção de desafiar as forças da ordem. Black Bloc é basicamente uma estrutura temporária, informal, não hierárquica e descentralizada. Seus integrantes têm por finalidade confrontar as forças da ordem como a ação da polícia nas manifestações de junho de 2013. Grupos mascarados realizaram ataques diretos à propriedade privada, destruíram fachadas que julgam ser símbolos do capitalismo, bem como de corporações multinacionais.
A crítica dos autores com a obra é a forma como o Brasil naturaliza outras violências, como as “estatísticas de homicídios e estupros” por exemplo. A opinião pública se mostra indiferente aos dados, em contrapartida, quanto aos atos dos Black Blocs que foram trazidos à luz pelo mercado da mídia, se mostram absolutamente intolerantes. A declaração de um adepto à tática publicada na obra resume o debate da violência na sociedade brasileira:
Esther, a violência é um fato. Estava na periferia e agora chegou à Avenida Paulista.
Os protestos não vão ser os mesmos. Acostumem-se. A violência nas manifestações veio pra ficar porque a violência real já existia! Não sei se Black Bloc ou com outro nome, mas veio pra ficar. O Brasil é um país extremamente violento, só que essa violência era afastada, na favela, longe, ninguém queria saber. O povo chegou a um limite. Ninguém aguenta mais. Demorou muito para chegar” (SOLANO, 2014, p. 27)
A obra procura desmistificar este paradigma de vândalos e fascistas que a imprensa imprimiu nos Black Blocs. A dinâmica da comunicação dos integrantes é usar a violência simbólica como pichação, atear fogo em pneus, espalhar sacos de lixo pelas ruas, além de atacar bancos e empresas que representem o código capitalista para chamar a atenção da imprensa sobre a extrema violência do próprio sistema. Ou seja, a narrativa do grupo com a tática de hostilidade em manifestação de rua é utilizada para atacar e protestar contra o Estado e fragilizá- lo. Entretanto, os Black Blocs sofreram uma crítica e desligitimização das suas questões políticas exibidas nas suas táticas de rua pela imprensa e pelos manifestantes dos protestos de junho de 2013. Isso enfraqueceu a organização e fez com que perdessem sua força ao longo das ações. A intenção da obra não é justificar o movimento, mas dar voz aos Black Blocs e suas táticas de protestos, que não foram em momento nenhum escutadas pela imprensa no período das manifestações de junho de 2013.
Estes diversos protestos que serviram para frisar a insatisfação dos manifestantes, espalhariam-se por outras cidades do Brasil, atingindo Natal, Porto Alegre, Teresina, Maceió, Rio de Janeiro, entre outras. No dia 13 de junho, em São Paulo, a repressão policial foi tão intensa que deixou muitos feridos, envolveu vários jornalistas que alteraram seu discurso e recriminaram a postura policial diante das manifestações. Este protesto contabilizou 300 pessoas detidas com mais de cem delas "detidas para averiguação" (prática comum em ditaduras). O jornal Folha de S. Paulo publicou em 13 de junho de 2013 as declarações do governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin. Ele criticava os manifestantes que participavam dos confrontos com a polícia e chamou-os de "baderneiros" e “vândalos”. Sob o consentimento do Governo de São Paulo, a Polícia Militar declarou que seria mais dura na repreensão aos atos de vandalismo e acionou a Tropa de Choque. O ato, mesmo com resposta severa da polícia, foi confirmado.
1.2.2 Segunda fase
Conforme previamente descrito, a segunda fase da manifestação é marcada por protestos predominantemente pacíficos, com uma vasta cobertura midiática adicionada de um grande público. Organizado para o dia 17 de junho, o ato reuniu um contingente de 300 mil brasileiros espalhados por doze cidades do território. Estes saíram às ruas para reivindicar não somente o aumento de transporte público, mas outras exigências que também faziam parte da pauta. Focos pontuais de vandalismo foram registrados nas manifestações que ocorreram entre os dias 17 ao
21 de junho.
As manifestações tomam outra posição. Participam da pauta questões como o aumento da tarifa de transporte público, gastos com a Copa do Mundo, corrupção, reivindicações de melhorias em serviços públicos, como saúde, educação e segurança. Também foram criticados, além de políticos como Dilma Rousseff e Geraldo Alckmin, a classe política como um todo. O jornal Folha de S. Paulo publica em 18 de junho de 2013 a seguinte manchete: “Milhares vão às ruas ‘contra tudo’; grupos atingem palácio.” O Estadão, por sua vez, imprime no mesmo dia a seguinte manchete: “Protesto se espalha pelo País e políticos viram alvos”.
Os gastos com eventos esportivos como a Copa das Confederações e a Copa do Mundo FIFA de 2014 são temas recorrentes dos protestos. Manifestantes, além de reclamarem dos gastos, clamam pela criação de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI) para avaliar as despesas com os eventos e investigar possíveis superfaturamentos. Na cerimônia de abertura da Copa das Confederações no dia 15 de junho, Dilma Rousseff foi vaiada enquanto fazia seu discurso. “Estreia do Brasil tem vaia a Dilma, feridos e presos”, este foi o título da manchete do dia 16 de Junho de 2013 publicada pela Folha. O jornal descreveu o episódio onde Dilma Rousseff foi hostilizada em cerimônia e vaiada três vezes. A matéria descreve que do lado de fora do estádio em Brasília ocorreram protestos contra os gastos com a Copa e a polícia interveio com bombas, balas de borracha e gás de pimenta para conter a manifestação.
Em São Paulo, manifestantes circularam com cartazes como "FIFA, paga minha tarifa"
e entoado bordões como "Ei, Brasil vamos acordar: um professor vale mais do que o Neymar"1. Outros cartazes incluem "Queremos hospitais padrões FIFA" e "Da Copa eu abro mão, quero é investimento em saúde e educação"2. Em Salvador, no dia 20 de junho, dois ônibus da FIFA foram apedrejados3, além de pelo menos outros dois comuns. Além disso, o hotel que servia de base para a FIFA foi vandalizado e um grupo tentou entrar no estabelecimento, sendo confrontado pela polícia.
O Governo da então presidenta Dilma Rousseff apresentou várias medidas como resposta a estas manifestações, buscando atender às reivindicações dos manifestantes, sendo uma delas tornar a corrupção como um crime hediondo, arquivando a chamada PEC 37, que proibiria investigações pelo Ministério Público, e proibindo o voto secreto em votações para
1«Após protestos, Dilma anuncia Plano Nacional de Mobilidade Urbana». R7. 21 de junho de 2013. Consultado em 22 de setembro de 2016.
2 «Imaginava-se tudo na Copa, menos os protestos». Terra. 21 de junho de 2013. Consultado em 22 de setembro de 2016.
3 «Protestos em meio à Copa das Confederações podem levar uma seleção a deixar o Brasil». Zero Hora. 21 de junho de 2013. Consultado em 22 de setembro de 2016.
cassar o mandato de legisladores acusados de irregularidades.
Em resposta às manifestações, Dilma Rousseff as declara “legítimas e próprias da democracia”, sendo “próprio dos jovens se manifestarem”4. Em um dos primeiros pronunciamentos sobre as manifestações, Dilma Rousseff disse na NBR5 que seu governo “está ouvindo essas vozes pela mudança”, “está empenhado e comprometido com a transformação social” e “compreende que as exigências da população mudam quando nós mudamos também o Brasil”6.
Enquanto as manifestações ocorriam, muitas frases como “o povo acordou, o gigante despertou” podiam ser vistas nos noticiários e na imprensa, a mídia tentava entender o que estava se passando e buscava transmitir de alguma forma o que estava acontecendo com o fato de milhares de brasileiros irem para as ruas se manifestar.
A mídia acabou pautando a vontade do brasileiro por uma mudança política, ainda não se tinha um tema substancial, mas existia o argumento e o sentimento por trasnformação por parte da população.
Os atos seguiam uma tendência de protestos que ocorreram em todo o mundo, como por exemplo o Occupy Wall Street, em 2011 nos EUA, e a Primavera Árabe, entre 2010 e 2011 no mundo árabe, os atos seguiam os passos nos protestos internacionais e também usaram a Internet como ferramenta essencial na organização, divulgação de notícias extraoficiais e convocação para os atos e protestos. As manifestações no Brasil tomaram grandes proporções devido ao fato de usarem as redes sociais “Facebook” e “Twitter” a seu favor.
Os dias 17 e 21 de junho foram os pontos máximos das manifestações, pois diversos atos e protestos entretanto, neste período uma nova temática toma as ruas, os manifestantes passam a reivindicar novas pautas, além da reclamação referente aos transportes públicos, estas são, a “cura gay”, o “ato médico”, os gastos com a Copa das Confederações FIFA 2013 e a Copa do Mundo FIFA 2014, além do pedido do fim da corrupção. Dia 20 de junho, foi o auge
4 «Dilma considera manifestações 'legítimas', diz ministra». G1. 17 de junho de 2013. Consultado em 22 de setembro de 2016.
5 TV Nacional do Brasil, conhecida pela sigla NBR, é um canal de televisão comandado pelo Governo Federal Brasileiro. O canal tem o objetivo de conceder aos telespectadores informações sobre as políticas, as ações e o dia a dia do Poder Executivo.
6 «'Essas vozes precisam ser ouvidas', afirma Dilma sobre protestos».Terra. 18 de junho de 2013. Consultado em 22 de setembro de 2016.
da manifestação, o ato registrou mais de 1,4 milhõesi de pessoas nas ruas em mais de 120 cidades pelo país. Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, mais de 1 milhão de pessoas ocupou fundamentais vias da capital. Em Brasília, apropriam-se da Esplanada dos Ministérios e diversas pessoas subiram na rampa e no teto do Congresso Nacional.
Em resposta aos atos, o Governo brasileiro buscou anunciar novas medidas que seriam tomadas para tentar controlar as manifestações e atender as reinvindicações. Dentre elas o Congresso Nacional revogou o aumento das tarifas dos transportes públicos.
1.3 Cobertura dos jornais Estado de S Paulo e Folha e S.Paulo sobre as manifestações de junho 2013
Em ambas as fases das manifestações o jornalismo tradicional teve papel importante no que confere ao evento em si e na evolução do mesmo. Na primeira fase das manifestações a mídia tratou o evento como um distúrbio para a rotina da cidade, enaltecendo o choque dos manifestantes com a Polícia Militar e enquadrando a violência e destruição de equipamento público.
O propósito em posicionar de forma mais evidente os atos violentos reforça a crítica aos protestos. Isso foi feito editando e enquadrando matérias que retratassem a violência nas manifestações conferindo a estas uma marginalidade. De certa maneira é certo que em alguns dos eventos foram constituídos crimes de depredação de bens públicos, no sentido legal do termo, mas o grau de violência que as matérias revestiram às manifestações distingue-se de contravenções e comportamento criminoso. A intenção no enfoque midiático em destacar um comportamento criminoso dos manifestantes era de produzir um clima generalizado na população de medo e insegurança.
As manifestações continuavam. Cerca de cinco mil pessoas bloquearam a Marginal Pinheiros por trinta minutos. Houve confronto com a política e a matéria mais uma vez ganha destaque acompanhada por uma imagem que representaria o caos e a desordem. Nos dias subsequentes as matérias nos jornais evidenciaram que manifestantes protagonizavam atos de vandalismo. Em 12 de junho de 2013, o Governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin
declarou que “uma coisa é movimento, outra coisa é vandalismo. Aí o caso é de polícia.” A matéria com a o ponto de vista do então Governador do Estado foi publicada no Estado1 em manchete de capa.
O jornal Folha de S. Paulo publicou em 15 de junho de 2013 as declarações do prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad, assim como do governador do Estado Geraldo Alckmin e do vice-presidente Michel Temer. Estes criticaram os manifestantes que participaram dos confrontos com a polícia e denominaram seus atos de vandalismo. Alckmin qualificou-os como “baderneiros”, ao passo que Haddad referiu-se aos envolvidos como
“pessoas inconformadas com o Estado democrático de Direito”. Prontamente, José Eduardo Cardozo, Ministro da Justiça, sentenciou os atos como vandalismo e afirmou que o Governo Federal estaria à disposição do Estado de São Paulo para um eventual auxílio no enfrentamento dos protestos.
As matérias que o jornalismo tradicional publicou nos dias 18 e 19 de junho evidenciaram o quebra-quebra e os saques que ocorreram nos dois dias de protesto. O critério utilizado para enquadrar as matérias neste período era enfatizar imagens de carros ou ônibus em chamas, imagens de policiais em formação de barreira, jogando spray de pimenta. Estas imagens, se analisadas, estão atreladas ao uso pontual das palavras “vândalo”, “depredação”,
“medo”, “quebra-quebra”, “quebradeira”, “violência”, “saque”, “crime”, entre outras. A intenção da matéria é apoiar a resposta violenta da polícia devido ao medo dos participantes dos protestos.
Nos dias em referência foram registrados diversos saques a lojas, um carro de imprensa da Rede Record7, uma rede de televisão comercial aberta foi incendiada, a destruição de lojas e fachadas de banco também foram catalogadas, além da derrubada do portão do Palácio do Governo do Estado de São Paulo. Manifestantes tentaram invadir o prédio da prefeitura e cobriram o mesmo com pixações. Protestos bloquearam vias centrais da cidade como a Raposo Tavares, Ponte do Socorro e a Estrada da M’Boi Mirim. Na região do Grajaú, além de saques, foi registrado também a deteriorização de 80 ônibus. Em Guarulhos, manifestantes fecharam por horas a via de acesso ao Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos – Governador André Franco Montoro, gerando um caos considerável.
7 Carro da RecordTV, uma rede de televisão comercial aberta, sofreu ataques de vandalismo e foi incendiado por um grupo de manifestantes durante o protesto contra as tarifas do transporte público. Ato ocorreu em 18 de junho de 2013 na região central da cidade de São Paulo.
1.4 Análise das duas fases das manifestações de junho de 2013
Segundo a análise de Tible, do livro Junho: potência das ruas e das redes, as manifestações possuíram duas distintas fases. A primeira, liderada pelo Movimento Passe Livre (MPL) com seu primeiro ato no dia 6 de junho. Em seguida, o protesto do dia 13 de junho, segundo a análise do autor, foi o ponto da virada das jornadas, pois o protesto enfrentava horas de uma forte repressão policial com o uso excessivo de balas de borracha e gás lacrimogênio.
Até então a mídia desconsiderava o fato, mas não conseguiu ocultá-lo por muito tempo da sua agenda, graças às redes sociais que pulsavam registros da violência policial em tempo real.
É a partir deste episódio que uma repulsa toma parte da sociedade e o movimento ganha uma enorme adesão. Já no ato do dia 17 de junho, o MPL perde parte de seu protagonismo nas ruas e seu controle nas conversas online de organização do evento. A manifestação do dia 17 culminou com uma cena registrada na maioria dos impressos, que foi a ocupação do teto do Congresso Nacional, em Brasília.
Os atos que ocorreriam posteriormente marcam, conforme análise de Jean Tible (2014, p13), a segunda fase das jornadas:
Quando o transporte deixou de ser a pauta única das redes e das ruas. Os protestos passam a receber um grupo mais heterogêneo, diversos grupos levantam diversas bandeiras e pautas. A reivindicação originária da mudança tarifária teve que dividir o espaço com temas como, críticas ao gasto público com a Copa do Mundo de Futebol e a corrupção, tópico que também foi incorporado nas manifestações.
Os militantes passam a ser um grupo heterogênio e tomam as ruas com uma diversidade de reivindicações. Apesar da presença de cartazes contra o governo, ainda não era explícita a presença de um inimigo. Entretanto de acordo com a análise do livro, o autor traz à luz a discusão da grande mídia dedicar-se em apoderar-se do “furacão político das jornadas de junho”
e conduzir as ruas contra o governo Dilma (TIBLE, 2014, p. 12).
Era “tudo junto e misturado”. Na avenida Paulista não tinha um só grito. Nem sequer um só inimigo. Havia, isso sim, muito mais cartazes contra Dilma Rousseff do que nos primeiros atos convocados pelo Movimento Passe Livre (MPL). Não à toa, a ocorrência de confrontos entre os dois lados da Paulista se registrou naquele dia. Algumas pessoas tinham transformado a música “Vem pra rua vem contra o aumento” dos primeiros atos em “vem pra
rua vem contra o Governo”. (TIBLE, 2014, pg.14) “As direitas e a grande mídia também tentaram se apropriar do poderoso grito de junho, dirigindo as ruas contra o Governo Dilma, depois da grande explosão do dia 17 de junho” (TIBLE, 2014, p. 17).
Regressando à análise da mídia, a mesma cita os protestos e enfatiza que estes tiveram uma propagação viral gerando grande repercussão nacional. Importantes capitais de 11 Estados com reinvindicações mais amplas levaram 230 mil pessoas as ruas e políticos se tornaram alvo de queixa.
Em 20 de junho de 2013, data histórica por causa da ocorrência de uma grande onda de manifestações, o MPL teve sucesso em suas determinações e, por pressão popular, o Governo revogou o aumento da tarifa. Mesmo com a redução do valor, os protestos continuaram e contabilizaram um milhão de pessoas nas ruas do país. Entretanto, a energia que circulava nos protestos era outra, o enfrentamento com a polícia já estava desgastado e foi se esvaziando ao longo dos atos. A fotografia da segunda fase da manifestação, segundo a análise de Tible, tinha transitado do âmbito municipal para o federal, e as consequências cairiam sobre o governo de Dilma Rousseff.
Em meio a mensagens sobre a Copa das Confederações e as notícias sobre as manifestações, a mídia pauta em sua agenda o panorama político do Brasil e do mundo. Os destaques especificamente dentro deste mês de junho foram a enfraquecida do PIB, a indústria brasileira que pressionava o governo por mais alianças internacionais, informações da saúde pública que contabilizam unidades superlotadas e falta de material, além do mensalão que voltava a ter destaque nas manchetes. Também foi destaque na imprensa o aumento do dólar e o fato das agências de classificação de risco baixarem a nota do Brasil o qualificando como um risco para os investidores estrangeiros devido aos altos gastos públicos somados ao baixo valor do PIB.
O que podemos diagnosticar deste mês turbulento e dinâmico é uma tentativa da mídia em caracterizar as manifestações do MPL como violentas. Na primeira fase dos atos podemos ver a mídia imprimir nestes protestos um estigma negativo, ou seja, desqualificando o grupo e suas exigências. Entretanto, na segunda fase dos protestos as manifestações ganharam nitidamente outro discurso e aos poucos um novo personagem foi atrelado a estes protestos. Já na segunda fase das manifestações houve uma nítida mudança no enfoque da cobertura midiática. A maior parte da imprensa publicou que os atos eram legítimos e as manifestações eram um exercício da cidadania.
O enquadramento midiático passou a retratar as depredações como ações de grupos isolados. Diariamente a população era presenteada com quota de notícias sobre os protestos, agora legítimos. O tema fazia parte do agendamento midiático, e neste período a opinião do Governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, alterou-se. Alckmin amenizou seu discurso e teceu elogios aos líderes dos movimentos, uma opinião bem diversa a expressada uma semana atrás, onde o Governador se referia aos manifestantes como vândalos e baderneiros, imprimindo nestes uma marca negativa buscando assim uma reprovação e desvalorização.
As manifestações que viriam foram assinaladas pela mídia por um conservadorismo e uma forte presença da violência e opressão nas opiniões. Estas avaliações estavam alicerçadas em espaços de difusão e divulgação que insistiam em ratificar e criar um estigma negativo. O sucesso nesta tarefa e seu resultado foi visto na radiografia que traçou o Instituto de Pesquisa DataFolha quando avaliou o percurso da opinião dos paulistanos e brasileiros em relação ao Governo Dilma ao longo de seu mandato.
O exemplo que melhor representa a oscilação da mídia tradicional brasileira em relação aos protestos de junho de 2013 é a declaração de Arnaldo Jabor no Jornal O Globo. Arnaldo Jabor é um cineasta, roteirista, diretor de cinema e TV, além de ser produtor cinematográfico, crítico, jornalista e escritor brasileiro. Suas intervenções apimentadas apresentadas em jornais da Rede Globo marcam seu estilo irônico, e seus comentários sobre fatos e atualidades brasileira conquistam um grande número de admiradores. Em 12 de junho de 2013 Arnaldo Jabor declara:
Mas afinal o que provoca um ódio tão violento contra a cidade? Sabemos disso quando uma organização criminal em São Paulo queimou dezenas de ônibus. Não pode ser por causa de 20 centavos! A grande maioria dos manifestantes são filhos da classe média, isso é visível. Ali não havia pobres que precisassem daqueles vinténs, não. Os mais pobres ali eram os policiais apedrejados, ameaçados com coquetel molotov que ganham muito mal. No fundo tudo é uma imensa ignorância política é burrice misturada a um rancor sem rumo. Há talvez a influência na luta da Turquia, justa e importante contra um islamismo fanático. Mas aqui, se vingam de que? Esses caras vivem no passado de uma ilusão eles são a caricatura violenta da caricatura de um socialismo dos anos 50 que a velha esquerda ainda defende aqui. Realmente esses revoltosos de classe média não valem 20 centavos. (Jornal O Globo, 12 de junho de 2016, Rede Globbo)
Após um período de 48 horas, em 14 de junho de 2013, Arnaldo Jabor altera seu discurso e manifesta a seguinte posição em rede nacional de televisão:
À primeira vista este movimento parecia uma pequena provocação inútil, que muitos criticaram erradamente, inclusive eu. Nós temos Democracia desde 1985 mas Democracia se aperfeiçoa e não decai. Entre nós quase tudo acabava ou em pizza ou em paralisia entre os três poderes. O Brasil parecia desabitado politicamente. De repente reapareceu o povo, de repente o Brasil virou um mar. Uma juventude que estava calada desde 1992, uma juventude que nascia quando Collor caia acordou, abriram os olhos e viram que temos Democracia, mas uma República inoperante. Os jovens despertaram porque ninguém aguenta mais ver a República paralisada por interesses partidários ou privados. Só há dois perigos, a tentação da violência e o vazio.se tudo virar batalhas campais a coisa se destrói. Se virar um movimento abstrato, genérico demais tudo se esvai. É preciso uma política nova, se reinventando, mas com objetivos concretos. Se tudo correr bem, estamos vivendo um momento histórico lindo e novo. Os jovens terão nos dado uma lição. Democracia já temos agora temos que formar uma República. (Jornal O Globo, 14 de junho, Rede Globo)
Se fizermos um comparativo das declarações do jornalista podemos registrar que a opinião diverge claramente de uma análise de vândalos para manifestantes lutando pelos seus direitos.
1. “A grande maioria dos manifestantes são filhos da classe média, isso é visível.
Ali não havia pobres que precisassem daqueles vinténs, não. Os mais pobres ali eram os policiais apedrejados”.
“Os jovens despertaram porque ninguém aguenta mais ver a República paralisada por interesses partidários ou privados”.
2. “No fundo tudo é uma imensa ignorância política, burrice misturada a um rancor sem rumo”.
“De repente reapareceu o povo, de repente o Brasil virou um mar. Uma juventude que estava calada desde 1992, uma juventude que nascia quando Collor caía acordou, abriram os olhos e viram que temos Democracia, mas uma República inoperante”.
3. “Mas aqui se vingam de que? Esses caras vivem no passado de uma ilusão, eles são a caricatura violenta da caricatura de um socialismo dos anos 50 que a velha esquerda ainda defende aqui. Realmente esses revoltosos de classe média não valem 20 centavos”.
“Se tudo correr bem, estamos vivendo um momento histórico, lindo e novo. Os jovens terão nos dado uma lição. Democracia já temos, agora temos que formar uma República”.
A conclusão é que a mídia brasileira tem oscilado na ênfase que dá aos protestos. Os
critérios utilizados pela mídia tradicional brasileira para reportar os fatos divergem na descrição de atos de violência para atos de ação políticas. O aporte dado na primeira fase das manifestações são os atos de violência dos manifestantes. Na segunda fase pode-se verificar fotos pacíficas da passeata, além de um empenho da mídia em explicar a motivação dos protestos. Enfim, o que é importante ressaltar aqui é o fato da mídia ter deslocado o foco dos protestos para críticas ao governo Dilma Rousseff, iniciando o processo do cenário de representação política que por sua vez influenciou o debate eleitoral de 2014.
1.5 Rivalidade histórica
O jogo político partidário estava composto da forma que historicamente legitimou-se a expressão “Fla-Flu”, ou seja, a tradicional disputa e divergência de opinião reacenderam a rivalidade histórica da radicalização política brasileira. Os partidos que representam praticamente a base do poder, o PT e PSDB, protagonizam mais uma vez os atritos políticos no cenário eleitoral brasileiro.
Constavam da disputa eleitoral a presidência da República de 2014, 10 candidatos, dentre os quais somente 2 teriam capacidade de derrotar o cargo da então presidenta Dilma Rousseff (PT), estes candidatos eram Aécio Neves, do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB) e Marina Silva, do Partido Socialista Brasileiro (PSB).
A dualidade política entre esquerda e direita é histórica e podemos dizer que está presente em todo cenário político democrático ao longo dos anos, no Brasil não seria diferente.
Os personagens políticos apresentam seus projetos embasados em seus interesses de agenda e conforme o interesse individual o eleitor busca o lado que o representa.
O que testemunhamos com as manifestações de junho de 2013 foi uma dualidade muito mais vibrante, a identificação dos eleitores e cidadãos com a ideologia de esquerda e direita estava representado nas ruas explicitando a população em lados totalmente opostos.
Essa conjuntura de força oposta nas manifestações, na qual a esquerda mostrava-se
contra a agenda neoliberal do PSDB, e a direita que declarou toda sua ideologia conservadora a partir de um forte sentimento antipetista foi evidenciada nas eleições nacionais de 2014. A reeleição da presidenta Dilma Rousseff (PT) se consagrou com uma pequena diferença de votos em relação a Aécio Neves (PSDB). A eleição não teve somente uma votação acirrada, mas também foi marcada por um período de grande tensão devido ao fato de ter sido uma eleição assinalada por uma polarização muito bem desenhada e radicalizada.
A disputa entre a petista e o tucano, no segundo turno, foi acalorada, e a vitória da presidenta deveu-se a uma margem muito pequena, apenas 3,28 pontos percentuais. Dilma Rousseff atingiu 51,64% dos votos, enquanto Aécio Neves totalizou 48,36%. A radicalização das ideologias impressa na eleição tornou-se base de discussão e análise do período eleitoral que Dilma conseguiu exercer. As críticas e análises midiáticas enfatizando a corrupção do Partido dos Trabalhadores referente ao mensalão, posteriormente o caso da Operação Lava Jato e a Petrobras inflaram este espetáculo de radicalização, o antipetismo e o ódio a ideologia do PT emergiram nas manifestações de 2013 se fortaleceram nas eleições de 2014 e contemplou o golpe de 2016.
Após a morte de Campos, a vice de sua chapa, Marina Silva, é reconhecida naturalmente, com sua candidatura, se destacando como uma expectativa de terceira via e quebrando com o ciclo histórico de eleições pplarizadas entre o PT e o PSDB.
Inquestionavelmente, o acidente de avião que causou a morte de Eduardo Campos, gerou também grande impacto na população brasileira, o incidente acontecido foi um dos eventos que mais teve cobertura midiática nacional e internacional. No final do primeiro turno, Marina Silva atinge o terceiro lugar com 22.159.951 votos obtendo assim 2.523.592 votos a mais do que a votação de 2010 votação da qual a candidata obteve 19.636.359 votos.
O resultado da batalha foi positivo para Dilma Rousseff (PT) que conseguiu se reeleger presidente da República, ela obteve 41,6% dos votos, Aécio em seguida com 33,5% e Marina com 21,3%. A eleição foi para segundo turno e em 26 de outubro Dilma, com 51,6% dos votos se efetiva na presidencia com uma diferença apertada contra seu adversário Aécio Neves que obteve 48,4%.
Com o resultado insatisfatório para o candidato Aécio Neves, este que não aceita ter perdido as eleições entrou, pelo PSDB com um pedido de auditoria junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com a finalidade de que se apure "lisura" da eleição presidencial.
No pedido apresentado pelo coordenador jurídico da campanha do candiato derrotado Aécio Neves, o deputado federal Carlos Sampaio (PSDB-SP), o partido propõe a criação de uma comissão com o auxílio de representantes do tribunal e de partidos para verificar o sistema que examina e faz a contagem dos votos.
No texto que foi entregue e protocolado no TSE diz que a confiabilidade da apuração e ineficácia da urna eletrônica têm sido questionadas pela população brasileira nas redes sociais, o texto apresenta dados que expões que a sociedade está questionando a veracidade do resultado das eleições e diz que a auditoria é necessária para garantir a “confiança do povo brasileiro no processo eleitoral”. Na manhã desta quinta-feira dia 05 de novembro de 2015 durante a sessão de julgamentos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os ministros da Corte se manifestaram sobre a apuração realizada sobre a totalização de votos das Eleições 2014. O presidente, ministro Dias Toffoli, destaca que não foi verificada nenhuma evidência de que tenha havido adulteração de programas, de votos ou que tenha tido qualquer indício de violação ao sigilo do voto na Eleição de 2014.
Aparentemente estava tudo sistematizado, Dilma Rousseff continuaria a governar da mesma forma que antes, entretanto, os rumos tomaram um caminho um tanto diverso, mas o evolir deste caminho é o que buscamos descrever passo a passo nesta pesquisa. Fazendo um parêntese, Dilma venceu por uma vantagem muito pequena, de apenas 3,5 milhões de votos, segundo análise estatístico da votação, se todos os 5,2 milhões de brasileiros que anularam o voto tivessem votado em seu opositor, Aécio Neves teria sido ele o eleito. Todava, o cenário econômico de Dilma Rousseff em seu segundo mandato era o seguinte, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou 2015, logo no primeiro ano do segundo governo de Dilma, em 10,7%, fazendo uma comparação com os anos anteriores, a inflação chegava a 6%, com o aumento da taxa tudo sofreu um aumento para o brasileiro, desde alimentação a transporte, passando por saúde e educação. Não havia um registro de inflação tão alto desde 2002. O valor da inflação não ficaria estacionado, continuou a crescer conforme os meses passavam chegando a tingir 14,25% em outubro de 2015. O aumento da inflação força o aumento dos juros pelo Banco Central para uma tentativa de controlar o aumento excessivo dos preços, entretanto, existem efeitos colaterias, pois, os altos juros deixam a dívida pública mais cara e para a população, os juros puxados para cima também encarecem os serviços bancários assim com o comércio, sendo assim o consumidor não tem outra alternativa a não ser restringir os gastos.
A questão é que consumindo menos a população consequentemente deixa a indústria, o comércio e os serviços em dificuldades. A economia entra, no que já é de costume em nosso vocabulário, em recessão. “Entre maio de 2014, no governo Dilma 1, e maio de 2016, no governo Dilma 2, o número de brasileiros na fila de emprego saltou de 6,8 milhões (índice de 7%) para 11,4 milhões (11,2%) pg. 21. Devido a alta inflação o poder real de compra do brasileiro caiu, o salário médio encolheu de R$ 2.067,00 para R$ 2.004,00 no mesmo período.
Em decorrência do enfraquecimento da atividade econômica do país diminuiu-se os impostos, a arrecadação que sustenta o funcionamento do governo foi baixa e não conseguiu suprir os gastos, sendo assim as contas do governo não fecharam e foram parar no vermelho. Diante este cenário Dilma Roussseff se vê na obrigação de cortar custos ou pelo menos reduzi-los. Ao contrário do que havia prometido em sua campanha eleitoral, alguns amparos sociais sofreram perdas, como foi o caso da educação, durante o período de propaganda política a presidenta lançou o slogan “Brasil, Pátria educadora”, no entando a promessa de abrir 12 milhões de vagas nos cursos profissionalizantes do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (PRONATEC) somente 5 milhões de vagas foram abertas ao longo do segundo mandato de Dilma. Outra assistência do governo que sofreu perda foi o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) o Minsitério da Educação praticamente fechou as portas para novos universitários. Um programa correspondente que sofreu um congelamento foi o Ciência sem Fronteiras, “o governo parou de mandar universitários e pós-graduados para temporadas de estudo no exterior”o programa manteve auxílio somente para os estudantes que já estavam estudanto fora do país.
Considerando solucionar a questão econômica, Dilma convoca para o Ministério da Fazenda um banqueiro, Joaquim Levy, diretor-superintendente do Banco Bradesco, a escalação foi questionada pela ala mais a esquerda do PT, pois a escolha de um neoliberal harmonizava mais com uma ideologia do PSDB do que com o próprio PT, ou seja, a economia passaria a se preocupar mais com o mercado e menos com o bem-estar social. Levy já havia sido secretário do Tesouro Nacional no governo Lula além de cargos singulares nos Ministérios da Fazenda e do Planejamento no período do governo de Fernando Henrique Cardoso, sendo assim, o candidato mostrava ter experiência suficiente para colocar a economia brasileira devolta aos trilhos.
O cenário proposto pela candidata nas eleições não era exatamente o mesmo desempenhado por ela em seu segundo mandato, Dilma prometeu em palanque que os preços
da energia e petróloeo não sofreriam grandes elevações caso os brasileiros decidissem mante- la no poder. Outro tema que, afirmado pela candidata, seria intocável em seu governo seria os direitos trabalhistas: “Eu não mudo direitos na legislação trabalhistas: lei de férias, décimo terceiro salário, fundo de garantia, hora extra.” Entretanto, pouco tempo depois da eleição Dilma permite um acrescimo no preço da gasolina e da energia elétrica que decorre em um encarecimento dos produtos em todo país, nem os direitos trabalhistas foram protegidos. Em dezembro de 2014, um mês antes do início do seu segundo mandato, a presidenta assinou duas medidas provisórias que afetavam diretamente os benefícios, seguro-desemprego, auxílio- doença, pensão por morte, abono salarial e seguro-defeso (benefício concedido a pescadores nos meses que a pesca é proibida garantindo a reprodução do animal). Resumidamente, a mudança afetaria o seguro desemprego, pois, uma vez que esse tivesse a carteira assinada à seis meses anteriores ao seu desligamento da empresa tinha o direito de receber o benefício, com a nova lei o trabalhador só passaria a receber o mesmo com o mínimo de 12 meses de carteira assinada pelo empregador. Uma minoria se enquandra na realidade descrita, sendo assim, o governo passa a desembolsar menos com benefícios trabalhistas e a gestão passa a fazer economia ás custas do trabalhador.
As situações acima descritas nos fazem questionar por que então o governo repentinamente resolver encarecer a gasolina e a luz, corta benefícios dos trabalhadores e elevar os impostos? A resposta a esta questão é que depois das eleições a economia do país não consegui mais sustentar tal realidade e os custos essenciais foram aflingidos.
1.6 Eduardo Cunha
O segundo mandato do governo Dilma tem um personagem de extrema importância para a compreensão do contexto, um personagem até então discreto e praticamente imperceptível apareceu como figura essencial para compreendermos o processo de impeachment sofrido por Dilma. Fazemos referência aqui ao deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Faz-se necessário trazer luz a este tema, uma vez que o mesmo converte-se no grande algoz de Dilma, peça central do jogo político trancorrido no período do seu segundo mandato. Eduardo Cunha, eleito presidente da Câmara dos Deputados ocupou o cargo exercendo um poder notável e
atípico em comandar os parlamentares resultando em diversas derrotas a Dilma nas votações no Congresso Nacional. Mas antes de expor as razões que acarretaram o impeachment de Dilma vamos apresentar o trajeto tomado por Cunha.
Eduardo Cunha, dono de uma carreira estável até atingir a presidencia da Câmara, entrou na política de fato no final da década de 80, uma vez que foi tesoureiro na candidatura de Fernando Collor de Melo quando este se candidatava a presidência pelo partido, criado por ele mesmo após uma ruptura com o (PMDB), Partido de Renovação Nacional (PRN). Isto quer dizer que o deputado em referência atuava diretamente com Paulo Cesar Farias (PC Farias) e este, atribuia a Cunha a responsabilidade de cuidar das contas da campanha. Dentre suas tarefas, se destacaram o fato deo deputado ter encontrado irregularidades no registro de candidatura de Silvio Santos (PMB) que tiraria o apresentador da disputa presidencial, atribuição de grande feito uma vez que o candidato apontava como um concorrente audacioso e arriscado na corrida política. Com a conquista de Collor a presidência viria a recompensa de Eduador Cunha, este embolsa a chefia da TELERJ, empresa estatal de telefonia do Rio de Janeiro. A partir desta conquista Cunha começaria a ganhar solidez, após o impeachment de Collor e a deterioração do PRN Cunha associa-se com o Partido Progressista Brasileiro (PPB) partido pelo qual se candidata a deputado estadual em 1988, o fato o leva a conhecer Anthony Garotinho, e este o nomeou subsecretário estadual de Habitação em seguida presidente da Cehab, estatal responsável por contrução de moradias populares. No entanto o cargo seria interrompido, Cunha teve que renunciar, devido a denúncias contra ele por improbidade administrativa e superfaturamento, apesar de Cunha ter sofrido processos e chegar a ir em tribunais, o caso foi arquivado e depois de tantos recursos realizados pelo réu o processo caducou e nunca teve um julgamento concludente.
No ano de 2001, seu padrinho, o então governador do Estado do Rio de Janeiro, Garotinho, opta por deslocar um deputado estadual do PPB para o Governo, a atitude em referência fez com que Cunha alavancasse uma casa no jogo político ao ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa. Sua aproximação com Garotinho fez com que Cunha herdasse também sua popularidade com a camada evangélica, por isso em 2002 Cunha tem sucesso nas eleições de deputado federal pela primeira vez, digo pela primeira vez porque a conduta o levaria a reeleição em 2006, 2010 e 2014 obtendo cada vez mais votos cada vez que se reelegia.
Na Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha destaca-se por ser um dos deputados mais militantes da conservadora bancada evangélica, impugnando na Câmara leis como a liberação