KLEBER DAUM MACHADO 13 de setembro de 2021
Lista de Figuras 5
Lista de Tabelas 7
1 Introdu¸c˜ao ao Formalismo Lagrangeano 9
1.1 Conceitos Iniciais . . . . 9
1.2 Princ´ıpio de D’Alembert . . . . 15
1.3 Equa¸c˜oes de Lagrange . . . . 31
1.4 Extens˜ao das Equa¸c˜oes de Lagrange . . . . 38
1.4.1 Energia Potencial Generalizada . . . . 38
1.4.2 Fun¸c˜ao Dissipa¸c˜ao de Rayleigh . . . . 42
1.5 Exemplos de Aplica¸c˜ao das Equa¸c˜oes de Lagrange . . . . 44
1.6 Momento Canˆonico e Coordenadas C´ıclicas . . . . 66
1.7 Fun¸c˜ao Energia . . . . 71
1.8 Exerc´ıcios . . . . 81
1.1 Uma esfera que se move seguindo a curva descrita por um arame liso de
formato parab´olico . . . . 10
1.2 Um objeto situado no topo da lateral de um cilindro com eixo horizontal 12 1.3 Disco rolando sem deslizar sobre uma superf´ıcie horizontal . . . . 13
1.4 Um pˆendulo simples . . . . 14
1.5 Part´ıcula sobre uma mesa horizontal sem atrito movendo-se sob a a¸c˜ao de uma mola . . . . 27
1.6 Um oscilador harmˆonico simples . . . . 44
1.7 Um pˆendulo esf´erico . . . . 47
1.8 Uma m´aquina de Atwood elementar . . . . 49
1.9 Um arame de formato parab´olico que serve de guia para um anel que desliza sem atrito preso a ele . . . . 54
1.10 Um sistema formado por um disco girante e um objeto fixado `a borda do disco . . . . 56
1.11 Grandezas relevantes da figura 1.10 no planoxy . . . . 57
1.12 Um objeto de massamcaindo em queda livre . . . . 64
1.13 Ilustra¸c˜ao de uma varia¸c˜ao infinitesimal da coordenadaqk que representa uma transla¸c˜ao r´ıgida do sistema . . . . 69
1.14 Um objeto movendo-se vinculado a seguir uma certa curva num plano ver- tical. . . . 78
1.15 Rota¸c˜ao r´ıgida infinitesimal feita em torno de um eixo fixo num dado sis- tema. . . . 82
1
Introduc ¸˜ ao ao Formalismo Lagrangeano
N
este cap´ıtulo iniciamos o estudo do formalismo lagrangeano, apresentando con- ceitos e defini¸c˜oes iniciais necess´arias ao desenvolvimento deste formalismo.1.1 Conceitos Iniciais
At´e agora, todos os problemas que investigamos foram abordados por meio do for- malismo newtoniano, que parte do princ´ıpio de que as trˆes leis de Newton s˜ao v´alidas e, particularmente, considerando uma part´ıcula i, de massa mi, velocidade~vi e momento li- near~pi=mi~vi, que ´e observada por um referencial inercial (RI), a for¸ca resultanteF~isobre essa part´ıcula est´a ligada `a taxa de varia¸c˜ao do momento linear por
F~i= d~pi
dt (1.1)
A equa¸c˜ao (1.1) ´e uma equa¸c˜ao diferencial e, em princ´ıpio, ao escrever as for¸cas que comp˜oem a for¸ca resultante sobre a part´ıculai, ou seja, o lado esquerdo da equa¸c˜ao, obtemos uma equa¸c˜ao diferencial que poderia ser resolvida por algum m´etodo de resolu¸c˜ao, ainda que n˜ao necessariamente anal´ıtico. No caso de um sistema de part´ıculas, conforme vimos no cap´ıtulo ??, podemos escrever
F~iext+X
j6=i
F~ijint= d~pi
dt (1.2)
onde F~iext ´e a for¸ca resultante agindo sobre a part´ıculai causada por agentes externos ao sistema, e F~ijint´e a for¸ca resultante produzida pela part´ıculaj sobre ai, de modo que est´a ligada aos agentes internos ao sistema de part´ıculas. Na equa¸c˜ao (1.2), a somat´oria se estende sobre todas as part´ıculas do sistema, exceto sobre a pr´opria part´ıcula i. No caso bastante comum em que as part´ıculas tem massasmi constantes, a equa¸c˜ao (1.2) torna-se
mi
d2~ri
dt2 =F~iext+X
j6=i
F~ijint (1.3)
onde~ri´e a posi¸c˜ao da part´ıculai. Supondo que hajaNpart´ıculas no sistema, as equa¸c˜oes (1.3) formam um conjunto deN equa¸c˜oes diferenciais acopladas, cuja complexidade matem´atica pode ser grande e que, `a primeira vista, poderiam ser resolvidas de algum modo anal´ıtico exato ou aproximado ou, ainda, de forma num´erica. Assim, aparentemente, exceto por uma quest˜ao puramente operacional, envolvendo m´etodos de resolu¸c˜ao de equa¸c˜oes diferenciais, todos os problemas mecˆanicos poderiam ser investigados por meio do formalismo newtoni- ano. Entretanto, isso n˜ao ´e realmente verdade. Para ilustrar isso, considere um problema que parece ser relativamente simples. A figura 1.1 apresenta um arame disposto de forma que segue uma forma parab´olica, dada pela equa¸c˜ao
y=ax2 (1.4)
ondea´e uma constante. O arame est´a num plano vertical, est´atico, e uma pequena esfera de massamconstante est´a sujeita a se mover seguindo a curva descrita pelo arame, e h´a um campo gravitacional no local produzido pela Terra. Por hip´otese, o arame ´e bem lubrificado, ent˜ao n˜ao h´a atrito entre o arame e a esfera.
x m
y=ax2 y
Figura 1.1: Uma esfera que se move seguindo a curva descrita por um arame liso de formato parab´olico.
Como n˜ao h´a atrito neste problema, sobre a esfera agem duas for¸cas, a for¸ca gravitaci- onalF~gproduzida pela Terra, respons´avel pelo peso da esfera, e que age na dire¸c˜ao vertical, e uma for¸ca F~arame produzida pelo arame sobre a esfera, e que age na dire¸c˜ao normal ao arame, no plano (xy). Com isso, da equa¸c˜ao (1.1), temos
md2~r
dt2 =F~g+F~arame (1.5)
onde~r´e a posi¸c˜ao da esfera, e, neste caso, temos, em coordenadas retangulares,
~
r=xˆı+yˆj (1.6)
A for¸ca gravitacional ´e conhecida e pode ser escrita como
F~g=−mgˆj (1.7)
ondegrepresenta o m´odulo da acelera¸c˜ao gravitacional no local. A for¸ca exercida pelo arame, por outro lado, n˜ao ´e conhecida. Poder´ıamos tentar escrevˆe-la como
F~arame=Farame,xˆı+Farame,yˆj (1.8) de modo que, inserindo as equa¸c˜oes (1.6)–(1.8) em (1.5), e separando as componentes esca- lares, ter´ıamos duas equa¸c˜oes diferenciais. Estas equa¸c˜oes diferenciais n˜ao podem ser resol- vidas pois n˜ao conhecemos a for¸ca exercida pelo arame. Al´em disso, outro problema ´e que as coordenadasxey n˜ao s˜ao independentes entre si, visto que est˜ao conectadas durante o movimento pela equa¸c˜ao (1.4), que descreve a curva definida pelo arame. Este problema, aparentemente simples, n˜ao pode ser resolvido no formalismo newtoniano e ilustra dois pon- tos importantes que devem ser levados em conta na an´alise de um problema. Primeiro, a existˆencia de for¸cas n˜ao conhecidasa priori, como ´e o caso da for¸ca exercida pelo arame, e que s˜ao conhecidas como for¸cas de v´ınculo. Segundo, a existˆencia de rela¸c˜oes entre coordenadas supostamente independentes, e que de fato n˜ao s˜ao, ou seja, de v´ınculos entre coordenadas.
Podemos dar outros exemplos de v´ınculos que aparecem em problemas mecˆanicos. No caso de um corpo r´ıgido, o v´ınculo de corpo r´ıgido implica que as distˆancias relativas entre dois pontos do corpo devem se manter constantes durante o movimento do corpo r´ıgido, o que pode ser representado matematicamente por
|~ri−~rj|2=aij (1.9)
ondeaij s˜ao constantes e~rie~rjrepresentam as posi¸c˜oes dos pontosiejdo corpo r´ıgido em rela¸c˜ao a um dado sistema de coordenadas. Note que nem~ri, nem~rj, e nem o vetor~ri−~rj
s˜ao grandezas necessariamente constantes num movimento gen´erico de um corpo r´ıgido, mas o m´odulo de~ri−~rj, que d´a a distˆancia entre os pontos iej pertencentes ao corpo r´ıgido, n˜ao varia durante o movimento.
Outro exemplo interessante envolvendo v´ınculos consiste no seguinte problema. Um cilindro de raioR e alturahest´a disposto de forma que seu eixo est´a na dire¸c˜ao horizontal, sendo paralelo ao ch˜ao. Um objeto de massam constante est´a situado no topo da lateral do cilindro, conforme ilustra a figura 1.2. Por hip´otese n˜ao h´a atrito entre o cilindro e o objeto, que pode ser considerado como pontual para o estudo do movimento que se segue.
Num dado instante, o objeto ´e ligeiramente perturbado de sua posi¸c˜ao inicial, e come¸ca a descer pela superf´ıcie lateral do cilindro at´e chegar a um dado ponto em que perde contato com ele, movendo-se, a partir desse ponto, sem estar em contato com o cilindro.
R m
Figura 1.2: Um objeto situado no topo da lateral de um cilindro com eixo horizontal.
Enquanto o objeto est´a em contato com o cilindro h´a uma for¸ca exercida pelo cilindro sobre ele, que usualmente ´e chamada de rea¸c˜ao normal. Essa for¸ca ´e sempre perpendicular
`
a superf´ıcie lateral do cilindro, j´a que n˜ao h´a atrito, e ´e uma for¸ca de v´ınculo, de valor desconhecidoa priori. Se definirmos comoρa distˆancia entre o objeto e o eixo do cilindro, ent˜ao o movimento tem uma equa¸c˜ao de v´ınculo dada por
ρ2>R2 (1.10)
onde o sinal de igualdade vale enquanto houver contato entre os dois objetos, e, a partir da´ı, vale o sinal de desigualdade.
V´ınculos podem ser classificados de acordo com algumas de suas propriedades. Con- sidere que um dado v´ınculo possa ser escrito na forma de uma equa¸c˜ao envolvendo as coor- denadas~ri das part´ıculas e, eventualmente, do tempo, ou seja, algo como
f(~r1, ~r2, . . . , ~rN;t) = 0 (1.11) Note que, na express˜ao (1.11), temos uma equa¸c˜ao, e n˜ao uma inequa¸c˜ao, que envolve apenas as coordenadas das part´ıculas, e eventualmente o tempo, e n˜ao envolve velocidades.
V´ınculos desse tipo s˜ao chamados holonˆomicos, e s˜ao bastante importantes do ponto de vista de formalismo fundamental. Os v´ınculos apresentados na equa¸c˜oes (1.4) e (1.9) s˜ao v´ınculos holonˆomicos.
V´ınculos que n˜ao podem ser colocados na forma (1.11) s˜ao ditos n˜ao-holonˆomicos.
Assim, v´ınculos que envolvem desigualdades, ou que envolvem as velocidades das part´ıculas, s˜ao v´ınculos n˜ao-holonˆomicos. Um exemplo ´e o v´ınculo descrito em (1.10), que envolve uma desigualdade. Outro exemplo de v´ınculo n˜ao-holonˆomico ´e o que aparece no seguinte problema. Considere um disco homogˆeneo de raio R que se move sobre uma superf´ıcie horizontal de forma que o plano do disco ´e sempre vertical. O disco rola sobre a superf´ıcie sem deslizar. Definindo eixos x ey sobre a superf´ıcie horizontal, de modo que o eixo z ´e vertical, o disco tem um versor normal `a sua superf´ıcie que est´a sempre no plano (xy), e que faz um ˆanguloθ com o sentido positivo do eixox, medido no sentido anti-hor´ario, de modo que, quandoθ= 0, o versor normal ao disco corresponde ao versorˆı. A velocidade do centro de massa do disco tamb´em est´a sempre no plano (xy) e ´e perpendicular ao versor normal `a superf´ıcie do disco. Al´em disso, o disco gira em torno de seu eixo, de modo que o ˆangulo com que ele gira com rela¸c˜ao a alguma posi¸c˜ao inicial pr´e-definida valeα. A figura (1.3) ilustra
as grandezas relevantes para esse problema.
a
q x y
z
v R
Figura 1.3: Disco rolando sem deslizar sobre uma superf´ıcie horizontal.
Da figura (1.3), podemos escrever
˙
x=vsenθ (1.12a)
˙
y=−vcosθ (1.12b)
Al´em disso, temos uma rela¸c˜ao entre a velocidade angular do disco e o m´odulo da velocidade linear, dada por
v=Rα˙ (1.13)
Usando (1.13) em (1.12), achamos
˙
x=Rsenθα˙ (1.14a)
˙
y=−Rcosθα˙ (1.14b)
Note que as equa¸c˜oes (1.14) envolvem as velocidades do objeto, e n˜ao est˜ao na forma dada pela equa¸c˜ao (1.11). Note ainda que n˜ao ´e poss´ıvel resolver estas equa¸c˜oes porque n˜ao h´a uma rela¸c˜ao funcional expl´ıcita entreαe as outras coordenadasxey.
Os v´ınculos tamb´em podem ser classificados quanto `a dependˆencia temporal expl´ıcita.
V´ınculos em que n˜ao h´a dependˆencia temporal expl´ıcita s˜ao ditos escleronˆomicos, e os v´ınculos dados em (1.4), (1.9), (1.10) e (1.14) s˜ao todos escleronˆomicos. Quando h´a de- pendˆencia temporal expl´ıcita na equa¸c˜ao de v´ınculo, ele ´e chamado reonˆomico. Um exemplo desse tipo de v´ınculo consiste em considerar que o arame apresentado na figura (1.1), ao inv´es de estar est´atico, poderia girar em torno do eixoy, enquanto a esfera continua tendo seu movimento sujeito `a restri¸c˜ao de estar em contato com o arame. O giro do arame pode ser descrito por alguma fun¸c˜ao do tempo, e a curva que descreve o arame apresenta, ent˜ao,
dependˆencia temporal expl´ıcita, e o v´ınculo passa a ser reonˆomico. Note que, neste caso, ele ainda continua sendo um v´ınculo holonˆomico.
Conforme dissemos, a existˆencia de v´ınculos gera duas complica¸c˜oes. Temos coor- denadas ~ri que n˜ao s˜ao todas independentes entre si, e a for¸cas de v´ınculo n˜ao s˜ao, em geral, conhecidas antes da resolu¸c˜ao do problema, sendo, na verdade, parte da solu¸c˜ao. A primeira quest˜ao pode ser resolvida introduzindo novas coordenadas que s˜ao, por hip´otese, independentes entre si. Tais coordenadas s˜ao chamadas coordenadas generalizadas e ser˜ao representadas porqj, ondej= 1, . . . , n, en=DN−k, sendoN o n´umero de part´ıculas do sistema,Da dimensionalidade do problema eko n´umero de v´ınculos holonˆomicos existentes.
O parˆametron´e o n´umero de graus de liberdade do sistema, e, para v´ınculos holonˆomicos, as ncoordenadas generalizadasqj de fato s˜ao independentes entre si. Quando h´a v´ınculos n˜ao- holonˆomicos, ainda ´e poss´ıvel introduzir coordenadas generalizadasqj, mas nem todas ser˜ao independentes entre si, e o problema necessitar´a da ideia de multiplicadores de Lagrange para ser resolvido, o que veremos na se¸c˜ao (??). Em termos das coordenadas generalizadas qj, as coordenadas~ri,i= 1, . . . , N, podem ser escritas como
~r1=~r1(q1, q2, . . . , qn;t) (1.15a)
~r2=~r2(q1, q2, . . . , qn;t) (1.15b) ... =...
~
rN =~rN(q1, q2, . . . , qn;t) (1.15c) As equa¸c˜oes (1.15) s˜ao equa¸c˜oes de transforma¸c˜ao de coordenadas e, por hip´otese, podem ser invers´ıveis. Al´em disso, as coordenadas generalizadasqj n˜ao necessariamente s˜ao compo- nentes de vetores ou formam vetores, nem tˆem necessariamente dimens˜ao de comprimento, ao contr´ario das coordenadas ~ri. Por exemplo, considere um pˆendulo simples, como o da figura (1.4), formado por uma barra de comprimento l constante que tem, em uma extre- midade, um objeto de massa m constante e que pode ser considerado como pontual tendo em conta as dimens˜oes envolvidas. A outra extremidade da barra ´e fixada num ponto de sustenta¸c˜ao.
m x q l
y
Figura 1.4: Um pˆendulo simples.
As coordenadasxey, que formam o vetor posi¸c˜ao do objeto de massam em coordenadas retangulares bidimensionais, n˜ao s˜ao independentes entre si pois h´a um v´ınculo entre elas, que pode ser escrito na forma
x2+y2=l2 (1.16)
Note que (1.16) ´e um v´ınculo do tipo holonˆomico, pois est´a na forma dada pela equa-
¸c˜ao (1.11). Neste caso, temosD= 2,N = 1,k= 1 e n= 2×1−1 = 1. Assim, precisamos de uma coordenada generalizada, que ´e a representada pelo ˆangulo θ que a barra faz com o eixo vertical, de modo que q1 =q=θ. Em termos deθ, as coordenadasxey podem ser escritas como
x=lsenθ (1.17a)
y=lcosθ (1.17b)
que s˜ao as equa¸c˜oes (1.15) para esse caso. Note que nesse exemplo em particular as equa-
¸c˜oes (1.17) n˜ao envolvem o tempo explicitamente.
A introdu¸c˜ao de coordenadas generalizadasqj resolve, em princ´ıpio, a quest˜ao de ter- mos coordenadas independentes e n˜ao relacionadas entre si por v´ınculos. Como j´a dissemos, para v´ınculos holonˆomicos isso ´e sempre poss´ıvel, e para n˜ao-holonˆomicos veremos poste- riormente como isso pode ser resolvido. A segunda quest˜ao levantada anteriormente foi a existˆencia de for¸cas de v´ınculo n˜ao conhecidasa priori. Gostar´ıamos, ent˜ao, de desenvolver uma formula¸c˜ao em que essas for¸cas n˜ao apare¸cam, de modo que apenas as for¸cas conhecidas e que podem ser expressas por alguma equa¸c˜ao entrem no desenvolvimento das equa¸c˜oes de movimento. Vamos estabelecer essa formula¸c˜ao de duas formas distintas. A primeira forma usa a ideia de trabalho virtual, e ´e um princ´ıpio diferencial. A segunda forma usa a ideia do princ´ıpio de Hamilton, ou princ´ıpio de m´ınima a¸c˜ao, e ´e um princ´ıpio integral. Neste cap´ıtulo desenvolvemos a primeira forma, e no pr´oximo discutimos a segunda. O pr´oximo passo agora ´e introduzir a ideia de trabalho virtual e desenvolver o princ´ıpio de D’Alembert, o que faremos em seguida.
1.2 Princ´ıpio de D’Alembert
Para continuar, devemos definir o que se entende por trabalho virtual. Em F´ısica, um trabalho infinitesimal (real) ´e realizado por uma for¸caF~ que age sobre algum objeto ao longo de um deslocamento infinitesimald~r, e ´e dado por (??),
dW =F~ ·d~r (1.18)
Note que a existˆencia de um deslocamento reald~rimplica em uma varia¸c˜ao temporaldt, de modo que um trabalho real envolve varia¸c˜ao no tempo. Um trabalho virtual ´e feito quando se sup˜oe que as coordenadas apresentam varia¸c˜oes infinitesimais em seus valores, mas com o tempo estando fixado. Por isso, tem-se um deslocamento infinitesimal que n˜ao ocorre de fato, e, sendo assim, ele ´e virtual. ´E importante notar que as varia¸c˜oes infinitesimais das
coordenadas devem ocorrer respeitando os v´ınculos que eventualmente existam no problema.
Para representar varia¸c˜oes virtuais, usaremos o s´ımboloδjunto `a grandeza que sofreu essa varia¸c˜ao. Ent˜ao, um deslocamento virtual infinitesimal ser´a representado porδ~r, e, com isso, o trabalho virtual associado a essa varia¸c˜ao fica
δW =F~ ·δ~r (1.19)
Considere agora que temos um sistema de part´ıculas que esteja em equil´ıbrio est´atico.
Logo, a for¸ca resultante em cada part´ıcula ´e nula, ou seja,F~i= 0 para cada part´ıculai do sistema. Com isso, vale a express˜ao
N
X
i=1
F~i·δ~ri=X
i
F~i·δ~ri= 0 (1.20)
onde δ~ri ´e a varia¸c˜ao infinitesimal virtual, n˜ao envolvendo varia¸c˜ao no tempo. Podemos decompor F~i como sendo a soma de duas for¸cas resultantes, uma envolvendo a resultante das for¸cas de v´ınculo (f~iv) e outra envolvendo a resultante das for¸cas n˜ao ligadas aos v´ınculos (F~inv), ou seja,
F~i=F~inv+f~iv (1.21)
Note que as for¸cas que formam F~inv s˜ao conhecidas, e as for¸cas que formam f~iv s˜ao desco- nhecidasa priori. Substituindo (1.21) em (1.20), obtemos
X
i
F~inv·δ~ri+X
i
f~iv·δ~ri= 0 (1.22)
O primeiro termo no lado esquerdo de (1.22) ´e o trabalho virtual total das for¸cas n˜ao ligadas aos v´ınculos, enquanto o segundo termo ´e o trabalho virtual total das for¸cas de v´ınculo.
Fazemos agora uma hip´otese a respeito desse termo. Vamos supor que o trabalho virtual total das for¸cas de v´ınculo se anula, o que ´e uma considera¸c˜ao bastante razo´avel na maioria dos casos, e que ser´a justificado posteriormente. Assim,
X
i
f~iv·δ~ri = 0 (1.23)
e, ent˜ao, usando (1.23) em (1.22), achamos X
i
F~inv·δ~ri= 0 (1.24)
A equa¸c˜ao (1.24) ´e chamada de princ´ıpio de trabalho virtual. Note que n˜ao ´e poss´ıvel deduzir dela que F~inv = 0, pois as varia¸c˜oes virtuaisδ~ri n˜ao s˜ao todas independentes entre si, j´a que, em geral, h´a v´ınculos entre as coordenadas~ri. Nosso objetivo ´e estabelecer algo similar a esta equa¸c˜ao para uma situa¸c˜ao em que as coordenadas sejam independentes e para um sistema dinˆamico, e n˜ao est´atico. Para isso, vamos considerar a equa¸c˜ao (1.1),
F~i= d~pi
dt
e vamos reescrevˆe-la na forma
F~i−~p˙i= 0 (1.25)
Na forma (1.25), podemos imaginar uma for¸ca “efetiva” −~p˙i que contrabalan¸ca a for¸ca resultante F~i de forma que um sistema dinˆamico pode ser “transformado” num sistema em equil´ıbrio est´atico. Assim, a equa¸c˜ao (1.20) fica, nesse caso, usando (1.25),
X
i
(F~i−~p˙i)·δ~ri= 0 (1.26) Fazendo em (1.26) a mesma separa¸c˜ao dada pela equa¸c˜ao (1.21) em for¸cas de v´ınculo e for¸cas n˜ao ligadas aos v´ınculos, temos
X
i
(F~inv−~p˙i)·δ~ri+X
i
f~iv·δ~ri= 0 (1.27) Fazendo novamente a hip´otese de que as for¸cas de v´ınculo n˜ao realizam trabalho virtual, a equa¸c˜ao (1.27) torna-se
X
i
(F~inv−~p˙i)·δ~ri= 0 (1.28) A equa¸c˜ao (1.28) ´e o princ´ıpio de D’Alembert, expresso em termos das for¸cas que n˜ao est˜ao ligadas aos v´ınculos e que s˜ao, por hip´otese, conhecidas para o sistema em quest˜ao. Essa ´e a vantagem desse princ´ıpio, mas h´a uma desvantagem. Ele est´a estabelecido em termos das varia¸c˜oesδ~ri, as quais, por causa dos v´ınculos, n˜ao s˜ao independentes entre si. J´a vimos que, pelo menos para v´ınculos holonˆomicos, ´e poss´ıvel introduzir novas coordenadas generalizadas qj que, por hip´otese, s˜ao independentes entre si. Assim, vamos estabelecer esse princ´ıpio em termos de coordenadasqj. De (1.15), temos
~ri =~ri(q1, q2, . . . , qn;t) (1.29) Assim, para expressarδ~ri, temos que usar uma regra da cadeia, ou seja,
δ~ri=
n
X
j=1
∂~ri
∂qj
δqj+∂~ri
∂t δt
ou, comoδt= 0, j´a que as varia¸c˜oes s˜ao virtuais, e s˜ao feitas em tempo fixo, δ~ri=X
j
∂~ri
∂qj
δqj (1.30)
Agora, usamos (1.30) para calcular o trabalho virtual total das for¸cas n˜ao ligadas aos v´ınculos, ou seja,
X
i
F~inv·δ~ri=X
i
F~inv·X
j
∂~ri
∂qj δqj
=X
i
X
j
F~inv·∂~ri
∂qj δqj
ou, simplificando a nota¸c˜ao,
X
i
F~inv·δ~ri =X
i,j
F~inv·∂~ri
∂qj δqj (1.31)
A ordem em que as somat´orias s˜ao feitas pode ser alterada, de modo que podemos reescre- ver (1.31) como
X
i
F~inv·δ~ri=X
j
X
i
F~inv· ∂~ri
∂qj
δqj (1.32)
O termo entre parˆenteses em (1.32) ´e obtido mediante uma somat´oria sobre todas as part´ıculas, e vamos introduzir a grandeza for¸ca generalizada, por meio de
Qj =X
i
F~inv· ∂~ri
∂qj
(1.33) onde Qj ´e a for¸ca generalizada associada `a coordenada qj. Note que Qj n˜ao precisa ter dimens˜ao de for¸ca, assim comoqj n˜ao precisa ter dimens˜ao de comprimento, mas o produto Qjδqj deve ter dimens˜ao de energia. Assim, usando (1.33), a equa¸c˜ao (1.32) fica
X
i
F~inv·δ~ri=X
j
Qjδqj (1.34)
Agora, usamos novamente (1.30) para calcular X
i
~˙
pi·δ~ri=X
i
~˙ pi·X
j
∂~ri
∂qjδqj
=X
i,j
~˙ pi· ∂~ri
∂qj δqj
ou
X
i
~˙
pi·δ~ri=X
j
X
i
~˙ pi· ∂~ri
∂qj
δqj (1.35)
Agora, note que
X
i
d dt
~ pi·∂~ri
∂qj
=X
i
~˙ pi·∂~ri
∂qj +X
i
~ pi· d
dt ∂~ri
∂qj
(1.36) Lembrando a equa¸c˜ao (1.29), devemos ter em mente que ∂q∂~ri
j ´e fun¸c˜ao das mesmas vari´aveis que~ri, de modo que temos
d dt
∂~ri
∂qj
=X
k
∂
∂qk ∂~ri
∂qj dqk
dt + ∂
∂t ∂~ri
∂qj
ou, trocando a ordem em que as derivadas s˜ao feitas, introduzindo as velocidades generali- zadas ˙qk mediante
˙ qk= dqk
dt (1.37)
e reescrevendo, temos
d dt
∂~ri
∂qj
= ∂
∂qj X
k
∂~ri
∂qkq˙k+∂~ri
∂t
(1.38) Agora, note que a velocidade~vi ´e dada por
~
vi= ˙~ri= d~ri
dt (1.39)
Novamente usando regras da cadeia, e sendo~ri=~ri(q1, . . . , qn;t), temos
~vi= d~ri
dt =X
k
∂~ri
∂qk
˙ qk+∂~ri
∂t (1.40)
Ent˜ao, podemos reescrever (1.38), usando (1.40), como d
dt ∂~ri
∂qj
= ∂
∂qj d~ri
dt
= ∂~vi
∂qj (1.41)
Agora, da equa¸c˜ao (1.40), temos
∂~vi
∂q˙j = ∂
∂q˙j X
k
∂~ri
∂qkq˙k+∂~ri
∂t
=X
k
∂
∂q˙j ∂~ri
∂qk
˙ qk+ ∂~ri
∂qk
∂q˙k
∂q˙j
+ ∂
∂q˙j ∂~ri
∂t
(1.42)
Como as equa¸c˜oes de transforma¸c˜ao (1.29) n˜ao s˜ao fun¸c˜oes das velocidades ˙qj, temos que
∂
∂q˙j ∂~ri
∂qk
= 0 ∂
∂q˙j ∂~ri
∂t
= 0 (1.43)
Al´em disso, temos que
∂q˙k
∂q˙j
=δjk (1.44)
ondeδjk´e a delta de Kronecker, definida por δjk=
(1, j =k
0, j 6=k (1.45)
Portanto, usando (1.43) e (1.44) em (1.42), obtemos
∂~vi
∂q˙j
=X
k
∂~ri
∂qk
δjk= ∂~ri
∂qj
(1.46) Continuando, substitu´ımos as equa¸c˜oes (1.41) e (1.46) em (1.36), obtendo
X
i
d dt
~ pi·∂~vi
∂q˙j
=X
i
~˙ pi· ∂~ri
∂qj
+X
i
~ pi·∂~vi
∂qj
ou, como~pi=mi~ri, temos, reescrevendo, X
i
~˙ pi·∂~ri
∂qj
=X
i
d dt
mi~vi· ∂~vi
∂q˙j
−X
i
mi~vi·∂~vi
∂qj
(1.47) Substituindo (1.47) em (1.35), achamos
X
i
~˙
pi·δ~ri=X
j
X
i
d dt
mi~vi·∂~vi
∂q˙j
−X
i
mi~vi· ∂~vi
∂qj
δqj (1.48)
Em seguida, utilizamos (1.34) e (1.48) em (1.28), ou seja, X
j
Qjδqj−X
j
X
i
d dt
mi~vi·∂~vi
∂q˙j
−X
i
mi~vi·∂~vi
∂qj
δqj = 0 ou
X
j
Qj− d
dt X
i
mi~vi· ∂~vi
∂q˙j
+X
i
mi~vi·∂~vi
∂qj
δqj= 0 (1.49)
Agora, considere as derivadas
∂
∂qj mivi2
2
= mi
2
~vi· ∂~vi
∂qj +∂~vi
∂qj ·~vi
=mi~vi· ∂~vi
∂qj (1.50)
e
∂
∂q˙j mivi2
2
= mi
2
~vi· ∂~vi
∂q˙j +∂~vi
∂q˙j ·~vi
=mi~vi· ∂~vi
∂q˙j (1.51)
Note que as part´ıculas tˆem massas mi que n˜ao dependem das coordenadas qj nem das velocidades ˙qj. Recordando que a energia cin´etica da part´ıculai´e dada por
Ti=miv2i
2 (1.52)
temos que podemos reescrever (1.50) e (1.51) como
∂Ti
∂qj
=mi~vi·∂~vi
∂qj
(1.53a)
∂Ti
∂q˙j =mi~vi·∂~vi
∂q˙j (1.53b)
O pr´oximo passo consiste em substituir as equa¸c˜oes (1.53) em (1.49), obtendo X
j
Qj− d
dt X
i
∂Ti
∂q˙j
+X
i
∂Ti
∂qj
δqj= 0
ou, trocando a ordem em que a somat´oria ´e feita com as derivadas ∂q∂
j e ∂∂q˙
j, temos