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Do autor como aquilo que se pode cingir, mas não encontrar 1

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Academic year: 2022

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Do autor como aquilo que se pode cingir, mas não encontrar

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Conrado Ramos

Mas não basta, evidentemente, repetir como afirmação vazia que o autor desapareceu. Igualmente, não basta repetir perpetuamente que Deus e o homem estão mortos de uma morte conjunta. O que seria preciso fazer é localizar o espaço assim deixado vago pela desaparição do autor, seguir atentamente a repartição das lacunas e das falhas e espreitar os locais, as funções livres que essa desaparição faz aparecer.

(Foucault, O que é um autor?, p.271)

A partir daí, a ironia do ininteligível é o escabelo de que alguém se mostra mestre. Sou suficientemente mestre de lalíngua, da que é chamada francesa, para ter eu mesmo chegado a isso, o que é fascinante, por atestar o gozo próprio do sintoma. Gozo opaco, por excluir o sentido.

(Lacan, Joyce, o sintoma, Outros Escritos, p.566)

Penso nesta ocasião como oportunidade de tentar circunscrever o autor. Este autor que carrego, e que ao mesmo tempo me escapa e me carrega. Este que, de mim mesmo, autorizo.

É isto. Escrever em nome próprio não é outra coisa. É autorizar-se: tornar-se autor.

Concretamente, escrever sob a égide do nome próprio é tentar inscrevê-lo, e isso não se faz sem levar em conta a marca própria de gozo que é o sintoma em sua dimensão ética, isto é, o estilo. Entendo o estilo, em poucas palavras, quando o gozo do inconsciente que nos sustenta, semanalmente numa análise, pode transbordar este dispositivo para reaparecer em outros laços na forma de um saber-fazer. Mas, com Joyce, Lacan deixa claro que não é necessária uma análise para isso, o que não quer dizer que isso não oriente uma análise.

Escrever faz autor, mas faz alter também. Faz alio. Assim sendo, todo escritor que se atenha a isso, se entranha, mas também se estranha com o autor que fez. Ele nunca sabe ao certo de onde veio esse autor. Desconfia dele: “sou eu este autor?” ou de

1 Texto apresentado no evento “Encontro com o autor”, da Biblioteca Luiz Carlos Nogueira do Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo, em 19 de junho de 2009.

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outro modo: “este autor é eu?”. Talvez só possamos dizer do autor que ele é o que é:

novamente o nome, S1 que se significa a si mesmo.

Quando fui chamado para este encontro com o autor, primeiramente me perguntei: que autor esperam encontrar quando colocam meu nome nisso? Só porque eu escrevi um livro? Certamente que não é para eu falar do meu livro. Afinal, ele está aí:

agora quem tem que falar dele são os outros. Se eu ainda tivesse algo para falar dele não o teria terminado. De outro modo, só posso falar dele (como um genitivo subjetivo, isto é, a partir dele) quando sou lido, e não quando falo dele (como um genitivo objetivo, ou seja, a respeito dele). Um livro, assim como qualquer escrito de autoria, é algo que cai.

Os escritos de um autor devem cair, um a um, para que realmente (isto é, do real) se conte algo. Para além da contação dos textos, pelo qual um autor se faz representar, o que interessa à psicanálise é a contagem dos textos pela qual, ainda que de maneira opaca, o autor se faz apresentar. O autor da contação é aquele da cadeia de significantes;

o autor da contagem é o que podemos chamar de sujeito real, aquele que se deixa causar. O autor da contação publixa os restos de sua eterna de-si-fração; o autor da contagem faz cifras, uma a uma, do que lhe causa. É a diferença entre a testamentira e o testemunhado.

Assim, o que posso oferecer é um testemunho: meu testemunho de autor, ou do que eu deixo cair para marcá-lo. E oferecer isso é incerto, havendo o risco de, ao final, vocês me dizerem que isto foi um grande desencontro com o autor, uma contação, um publixo. Mas puseram meu nome nisso, eu aceitei, e gostei! Assim tenho algo a sustentar. Trago aqui algo escrito, e fazê-lo foi tentar deixar que o autor se apresente, na forma de seu savoir-faire, como um transbordamento (e vale aqui lembrar Freud, para quem, onde tem borda, tem pulsão).

I

Começo, então, com a questão que Foucault se fez: o que é um autor?

Os autores são a emergência de figuras nodais que organizam o tecido polissêmico de uma cultura em uma dada época. E, como tais, sempre sujeitos ideologicamente aos interesses de perpetuação ou transformação deste tecido. Nos pontos de capitão a que respondem encontramos a convergência necessária ou contingente do sujeito singular com o sujeito histórico, o que nos impede, de um lado, os psicologismos deslavados e, de outro, os sócio-historicismos rasos que sustentam

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determinismos para lá de naturalistas. Mas podemos lê-los, os autores, como medalhões sui generis no tapete da História. Falando de si eles falam dela; falando dela, falam de si: essa escolha os autores não têm por serem pontos de intersecção entre a diacronia e a sincronia.

Um autor pode vir a sê-lo, por desejo ou não, vivo ou depois de morto, mas é condição necessária que sua enunciação seja transmissível e ocupe a função econômico- semântica de construção de valor simbólico – seja na forma do grito ou do murmúrio – num campo de significações possíveis de um espaço-tempo considerado. É enquanto nó que a função autor se delimita. Nó que não é estrutura em si, mas que, embora composto de formas e conteúdos estruturáveis ou estruturantes, não pode prescindir do que caracteriza o lugar da enunciação, no que isso só faz valer-se no laço por sua posição ética e política. Que seja vazio o lugar do autor, nem por isso seus efeitos podem dispensar o que sustentam de ético e político: há, ali, um sujeito!

II

Pois bem, há ali, na função do autor, um sujeito. Mas o que a psicanálise pode disso extrair ao interrogá-lo na solitária singularidade de seu ato de escrever?

Quando digo “eu escrevo”, reificando aí algo-de-ser, digo também “eu escravo”;

mas se posso fazer do escrever meu escabelo, ou melhor, meu escabeau (o iscabélo – o

“isso que é belo”), deixando aí algo descer (des-ser), um gozo, então, posso discrebélo (ou do isso escrever o belo). E faço-o cursivamente, posto que, como chamou a atenção a Lacan (1971/2003), “o singular da mão esmaga o universal” (p.20). Entro aí no campo do dizer, como aquele que tenta tornar presente o gozo. Cito Lacan (1982/1972-73, p.54): “o gozo é mesmo o que tento tornar presente por esse dizer mesmo”. O dizer pode ser uma translingüisteria lacaniana pela qual se pode transmitir o que é do parlêtre. E assim o é porque o dizer atravessa o afeto, prova de que o autor tem um corpo que o significante veio a morder. Pois a lalação, a lalíngua, afeta o corpo, fato que tem como conseqüência um saber que se localiza do lado da pulsão (ou como diz Lacan (2007/1975-76) no Seminário 23: “as pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer” (p.18)). Usar o “isso que é belo” para o bem-dizer, com toda a responsabilidade que isso implica, é consentir com a pulsão e, em boa hora, autorizar-se os encontros do parlêtre com a lalíngua, encontros nos quais se amarram os afetos às letras e um autor, então, se faz. Seria outra a finalidade de Lacan recorrer a Joyce?

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É por sua condição de indexar aquilo que foge à dimensão da identidade, ou de outra forma, de poder tocar naquilo que é negado em sua condição de negado (sem afirmá-lo), que o ato de escrever encontra seu parentesco com o que é da experiência estética.

Estamos aí no campo da filosofia?

Sim e não.

Sim, se pensarmos no que a escrita que mergulha na experiência estética – e há que se perguntar se sem este mergulho ela continua sendo uma escrita – tem a nos dizer sobre os limites da razão. Ainda mais ao tratar-se da razão identitária, que é dominadora. Aí a escrita encontra sua razão de ser enquanto crítica. Aí ela encontra sua substância filosófica e seu amor à verdade como potência, isto é, como esclarecimento.

Mas não estamos na filosofia quando consideramos, não apenas o que esta escrita produz, mas de onde ela é produzida: deste Outro saber. Cito Lacan (1972- 73/1982):

O discurso analítico tem, a esse respeito, um privilégio. Foi de lá que parti nisso que me fez data, pelo que ensino – não é talvez tanto sobre o eu que o acento deve ser posto, isto é, sobre o que eu possa proferir, mas sobre o de, quer dizer, sobre o de onde vem isso, esse ensino de que sou efeito. Depois, fundei o discurso analítico por uma articulação precisa, que se escreve no quadro com quatro letras, duas barras e cinco traços, que ligam cada uma dessas letras duas a duas. Um desses traços – pois havendo quatro letras deveria haver seis traços – falta. (p.39-40 [negritos nossos])

É assim que algo que faça o semblante do objeto a pode representar este Outro saber, no lugar da verdade, para o sujeito que escreve S1s. Aí está: será esse $ no lugar do gozo um autor? Não é desde o a como agente e do S2 no lugar da verdade que a escrita se produz?

Pois bem: o mínimo que posso afirmar aqui é que estamos já no campo da psicanálise e não mais da filosofia. Isto é o que podemos desvelar quando a escrita cinge algo, cifra e não de-cifra, quando a escrita perde a substância para permitir-se nada ser – nada a ser – não mais representando a falta (Φ) e nem substituindo a perda (-φ), mas cingindo a causa (a).

Há autores que escrevem coisas para se entender. Em especial aqueles que adoram edulcorar os sujeitos escrevendo universidades. Isto é importante às vezes, mas estes, na verdade, apenas descrevem – des-escrevem. Outros escrevem para se des-

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entender as coisas. Estes não servem para nada e, por isso mesmo, estão livres do aprisionamento funcionalista, afinal, como diz Adorno (1962/1972), “o que possui uma função fica enfeitiçado no mundo funcional” (p.23). É difícil des-entender as coisas, mais difícil que entendê-las. Mas des-entendê-las é, do ponto de vista filosófico, deixar livres também as coisas que, entendidas, encontram-se privadas do que não são (isto é, do que são para além de suas identidades aprisionadas no entendimento).

E na psicanálise? Des-entender é deixar que o não querer saber nada do método cartesiano possa levar o analista ao ganho de saber, que se encontra do lado da pulsão e que, portanto, nada tem a ver com o acúmulo de conhecimento. O saber do lado da pulsão é feminino e, portanto, é sempre a saber. Isto é, não-toda como só ela. Esta a saber ex-siste, insiste, mas não consiste e, portanto, coloca em questão a função da autoria. Eis, então, que isso se des-entende. Esse des-entender, no campo da psicanálise, nos leva ao que Lacan (1976/2003) escreveu no prefácio à edição inglesa do Seminário 11, que quando “o espaço de um lapso já não tem nenhum impacto de sentido (ou interpretação), só então temos certeza de estar no inconsciente. O que se sabe, consigo.”

(p.567).

Nesse aspecto, tem gente que lê poesia e não entende. Tudo bem, mais graves são aqueles que lêem e entendem. Diante do espaço de uma metáfora, suportar a causa e sua transmissão é diferente de ceder ao impacto de sentido. Não estou defendendo o inefável, mas marcando que o autor é aquele que faz da contingência – e não do necessário – o melhor tratamento do indizível. Também não estou insinuando que a análise ensine alguém a escrever ou ler poesia. Apenas quero interrogar o que há, no gozo opaco do poeta (opaco por excluir o sentido), de orientação para a direção de uma análise. Afinal, o autor goza.

O autor de autoridade é aquele que, necessariamente, entende. Aquele que des- entende é o autor da autorização, que é contingente. É importante autorizar-se a liberdade de des-entender as coisas, sem o que não se faz nem análise e nem poesia.

Entendendo-se tudo se faz filosofia ou ciência, mas os mundos dessas duas são problemáticos.

No mundo da filosofia há o ser, que não é outra coisa que uma cópula, isto é, um termo que só serve para unir sujeito e predicado – Sócrates é homem. A ontologia é pura hipóstase de uma relação lógica, um esforço para fundar alguma coisa de ser no lugar do que era para ser, isto é, no tó ti en einai de Aristóteles.

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O mundo da ciência, por sua vez, é muito chato. Nele só há matéria e energia. E Einstein ainda veio para dizer que, dadas as condições, um vira o outro. Esse mundo é puro desânimo, ou melhor, puro inânimo: o mundo da ciência é tão inanimado quanto aquilo a que retorna a pulsão de morte. A bio que se reduz a processos físico-químicos não é vida, é corpsificação (cadaverização simbólica). Por isso, na ciência não tem autor, tem autópsia. Aí não há qualquer liberdade e a verdade como causa está velada em benefício do saber posto em prática.

A psicanálise, não podemos negar, lida com o que era para ser; também, indiscutivelmente, a psicanálise opera com o sujeito da ciência; mas, ao contrário da filosofia e da ciência, ela não expulsa os poetas e não vela a verdade. No gozo do poeta, para o qual a filosofia e a ciência estão cegas, a psicanálise encontra algo da responsabilidade e da liberdade do sujeito, isto é, sua orientação ética e política. Além disso, a psicanálise reencontra o corpo vivo que a ciência perdeu – ao querer vê-lo com os próprios olhos (significado grego para auto + opsia) – e a filosofia abs-traiu – ao reduzi-lo à imago do ser. A psicanálise reencontra o corpo vivo, não na forma da coisa extensa ou da coisa pensante, mas como coisa gozante: “propriedade do corpo vivo, sem dúvida, mas nós não sabemos o que é estar vivo, senão apenas isso, que um corpo, isso se goza.” (LACAN, 1972-73/1982, p.35)

Platão está correto ao queixar-se de que os poetas mimetizam. Mas isto não seria razão suficiente para expulsá-los de sua coisa pública se ele se perguntasse melhor o que e de que modo eles mimetizam. Platão, ao que tudo indica, não podia des-entender.

Descartes, por sua vez, des-entendeu as coisas até chegar ao sujeito, mas se ele rompeu bravamente com as bases teologais da metafísica, nem por isso deixou de fazer de seu método uma teodicéia, desmentindo com um Deus, isto é, com a potência, a verdade como causa: daí pra frente tudo pôde ser entendido novamente.

Assim, se os poetas falam besteiras, isso não é motivo para expulsá-los. Ao contrário, pois diz Lacan (1972-3/1982) no Seminário 20:

Não é menos verdadeiro que há um estatuto a dar a esse novo discurso [o da psicanálise] e à sua aproximação da besteira. Seguramente ele chega mais perto, pois, nos outros discursos, a besteira é aquilo de que a gente foge.

(p.23)

O poeta, assim como o analisante, quando des-entende, produz besteiras. E eu espero estar aqui também falando as minhas, pois o autor quando foge da besteira,

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“produz o saber a partir do semblante de se fazer sujeito dele” (LACAN, 1973/2003, p.312) e faz a verdade passar pela atenção, quando sabemos que “não há verdade que, ao passar pela atenção, não minta” (LACAN, 1976/2003, p.567). Conclusão: “não existe verdade que se possa dizer toda, nem mesmo esta, já que esta não se diz nem mais nem menos. A verdade não serve para nada senão criar o lugar onde se denuncia esse saber.” (LACAN, 1973/2003, p.315). Saber esse do qual a mimese do poeta e a besteira do analisante se aproximam mais do que a reflexão filosófica e o método científico.

Mas que gozo é esse que nos faz ler o mesmo poema ou texto diversas vezes, em busca de ouvir melhor sobre o que ele não disse? E, quê fez este autor que nele colocou o que ali não está? Vejam bem: não disse o que este autor fez, mas, quê fez este autor, sendo o quê, aí, substantivo e não pronome. Então retomo: quê fez este autor que nele colocou o que ali não está?

Parafraseando Fernando Grossi, que por sua vez disse ter parafraseado Colette Soler, o bom autor é aquele que pode se colocar à altura daquilo que o move. E isso não se faz sem a mimese do savoir-faire e sem a liberdade de se colocar a verdade como causa.

III

Pois bem, disse que no autor há um sujeito que do isso escreve o belo, por onde ele (o sujeito), então, goza. Mas cabe agora uma nova questão: o autor é homem ou mulher? Formulo aqui uma dialética do autor como forma inicial de abordar essa questão.

A dialética do autor é aquela que vai da consistência da autoridade à ex-sistência da alteridade e, por fim, à insistência do saber sem sujeito na qual a autoria encontra sua destituição: só aí, no entanto, aquele que escreve se encontra à altura daquilo que o move, autorizando-se. Só aí Hesíodo ([séc. VIII/VII a.C.?] 1992, v.1) poderá dizer

“Pelas Musas heliconíades comecemos a cantar”.

No primeiro caso, na consistência da autoridade, o autor afirma e reduz tudo que escreve aos restos da ladainha da repetição de uma concepção engessada de mundo (discurso do mestre); no segundo caso, na ex-sistência da alteridade, o autor é aquele que interroga sobre a verdade oculta de sua causa: Che vuoi? (discurso da histérica); no terceiro, na insistência que destitui, o autor encontra a palavra quebrada que brada a

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quebra da lavra: eis o artifício! Daí por diante, a letra é aquilo que desenha a borda do furo do saber, como nos escreve Lacan (1971/2003, p.15) em Lituraterra. O autor cai da lavra e vira larva (que, em latim, quer dizer máscara de teatro, espectro, fantasma, boneco), donde, então, isso vem dizer alguma coisa.

Mas sigamos em frente com esse papo de autor para lembrar que os poetas, tendo em vista que na relação sexual a coisa rateia, ladainham coisas do amor.

Dos amores, somente as cartas e os poemas são eternos. Não pelo que dizem ou prometem, mas pelo que documentam. Eternos Amantes, somente assim: na função do escrito. Dez mil anos depois, ninguém sabe que a relação acabou mal se encontrou o amor numa carta em um tubo no buraco do tijolo.

O mesmo vale para um autor: portanto, Sócrates é homem, e todo homem é mortal, mas Sócrates é imortal, porque Platão resolveu deixar algo por escrito (muito provavelmente por amor).

Mas os poetas ladainham, e ali onde o homem ladainha, ele não percebe que só o faz porque a mulher criou a lalíngua. Quem é então o autor? O homem ou a mulher?

Lacan (1975-76/2007) nos diz, no Seminário 23, que “o homem é portador da idéia de significante. Essa idéia, na lalíngua, tem seu suporte essencialmente na sintaxe.” (p.112). Isso quer dizer que no homem é possível localizar um gozo, mas por meio do que compõe, das línguas, o universal de suas leis, ou seja, a sintaxe. Numa mulher, por sua vez, não é possível localizar, por completo, um gozo, o que leva Lacan a interrogar, no mesmo Seminário, “a respeito do que pôde guiar um dos dois sexos rumo ao que chamarei de prótese do equívoco, e que faz com que um conjunto de mulheres tenha engendrado em cada caso lalíngua” (p.113). Em outro trecho, diz Lacan:

É preciso com efeito supor que Adão só nomeou os animais na língua daquela que chamarei de Evida. Tenho direito de chamá-la assim, posto que em hebreu, se é que o hebreu seja mesmo uma língua, seu nome quer dizer a mãe dos vivos. E a Evida logo soltou bem essa língua uma vez que, depois do suposto nomear empreendido por Adão, será a primeira a se servir dela para falar com a serpente. (p.13)

Na Conferência em Genebra, Lacan (1975) ainda insiste:

Eu me sentiria bastante inclinado a acreditar, que contrariamente ao que choca muitas pessoas, foram, de preferência, as mulheres que inventaram a linguagem. Aliás, o Gênese dá a entender isso. Com a serpente, elas falam - quer dizer, com o falo.

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Conversar com o falo, ou, de outro modo, conversar com o filho, é o que faz materna a língua de cada um. As mulheres, portanto, engendram a lalíngua. E Lacan (1974) diz em A Terceia: “O que é preciso conceber aí é o depósito, o aluvião, a petrificação que se marca a partir do manejo por um grupo de sua experiência inconsciente.”

Volto então a perguntar: Quem é então o autor? O homem ou a mulher? A mulher, como causa de desejo, engendra a lalíngua para que o homem possa nomear.

Não é este o próprio matema do discurso do psicanalista?

As mulheres contam equívocos quando conversam com o falo e os homens sintomaticamente repetem quando cantam as mulheres. Contar e cantar: duas formas de transmissão? E o que ela conta senão o que ele canta, isto é, uma versão do pai, uma pére-version, ou um desejo que não seja sem nome? Lacan (1969/2003) esclarece em Nota sobre a criança:

A função de resíduo exercida (e, ao mesmo tempo, mantida) pela família conjugal na evolução das sociedades destaca a irredutibilidade de uma transmissão – que é de outra ordem que não a da vida segundo as satisfações das necessidades, mas é de uma constituição subjetiva, implicando a relação com um desejo que não seja anônimo.

A transmissão implica nisto: que alguém conte o que um canta; a causa como agente de um outro como sujeito suposto a um desejo que produz uma nomeação, uma letra. Não há relação sexual, e por não haver, algo se escreve e se transmite. A função de resíduo da família conjugal, o complexo de Édipo como sintoma, é o máximo de redução a que se pode chegar na formulação da autoria, num campo de insondável decisão e liberdade, em sua relação com a suplência. É aí onde autoria e sintoma se identificam e a partir de onde cada um que se vire de seu modo para extrair disso um gozo possível. Que se cante ou se conte, que cada um busque suas parcerias de gozo e cada um que se responsabilize pela poesia que é. Não há autoria verdadeira que não articule o fazer Um e o saber-fazer, isto é, o sintoma e o estilo, o amor e a lalíngua, o significante e a pulsão. Eis a arte e o gozo do poeta! Assim, o autor que se coloca à altura daquilo que o move é aquele que sabe ser herético de uma boa maneira, lembrando que háiresis designa a ação de fazer uma escolha. E diz Lacan (1975- 76/2007): “a boa maneira é aquela que, por ter reconhecido a natureza do sinthoma, não

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se priva de usar isso logicamente, isto é, de usar isso até atingir seu real, até se fartar”

(p.16).

IV

Para terminar, não sei se ao final de tudo um autor pôde ser aqui isolado, ou melhor, cingido.

Isso me faz lembrar a história do filho do mineiro que queria agarrar o próprio sono. Arrumou uma cadeira e sentou-se à espera dele. Cansou-se muito em sua espera e diversas vezes o sono veio e ele tentou diversas vezes agarrá-lo, até que percebeu que, toda vez que levantava ágil da cadeira para tentar prender o sono, este, muito mais rápido, já tinha ido embora. Ficou três noites sem dormir e foi parar numa segunda análise.

Desistiu de prender o sono e resolveu deixar-se pegar por ele. Cinco anos depois sonhou que foi ao parque de diversões e parou na porta de um trem fantasma. Teve muito medo, mas escolheu entrar. Entrou. Lá dentro deparou-se com o horror! Mas foi se dando conta que aquilo era um brinquedo. Quando acordou, filho de mineiro que era, perguntou ao analista, com um misto de espanto e entusiasmo: “Uai! Que trem é esse!!?” Ao que ouviu como resposta: “Fantasma...”.

Desse dia em diante não parou mais de brincar com isso. Não demorou muito, começou a ter o impulso de afivelar o sinto de segurança sempre que sentava em sua poltrona de analista. Reconhecia ali, agora, um sentimento de segurança associado ao desejo de dirigir a partir do lugar de analista, seja lá o que for esse trem.

Não é aí que encontramos algo da constituição de um autor pelo autorizar-se? E isso nada tem a ver com o autoritarizar-se. E não é por aí também que o passar o passe (PRATES PACHECO) implica o autor neste lugar do deixar passar? Em psicanálise, então, o autor é menos aquele que passa do que aquele por quem passa. Não há sentido mais claro para isso do que o próprio significante transmissão.

Vejam só, o psicanalista também tem sua missa (de missão), que em latim é deixar ir, soltar, largar, partir, lançar, atirar. Enquanto trans- quer dizer além de, para lá de, depois de.

E autor? Autor, do latim é: que causa algo.

Ser autor como quem deixa passar é lançar para além de si que algo causa. E isso não se faz sem apagar-se. E vale formularmos o seguinte: se importa ao dispositivo

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do passe que o passador esteja no momento de seu passe, talvez devamos considerar que o passante é, de algum modo, também passador, se considerarmos sua posição em relação ao que lhe causa, que é a de lançar isso para além de si.

E o que é uma análise se não uma contagem de cortes entre os quais o analisante canta enquanto o analista decanta? Onde, frente ao esforço do analisante de captar, o analista responde com um decapitar? A análise, enfim, é a transmissão de uma travessia, que encontra, no fim, como produto, um travesso, capaz de se travestir e deixar-se, por sua vez, atravessar a transmissão. Brincadeira de passa-anel, valendo, aqui, o fato de que o anel simboliza o laço entre dois sujeitos de desejo, mas é também o aro com que se pode cingir um furo, aquilo que desenha a borda do furo no saber. O analista é, pois, transmissão do transmitir, no que ele se faz, cross-capianamente, uma exclusão interna nesse processo.

Devemos, então, concluir: que o autor é aquilo que se pode cingir, mas não encontrar.

REFERÊNCIAS

ADORNO, T.W. (1962) Justificación de la filosofía. In: Filosofía y Superstición.

Madrid: Taurus, 1972a, p.9-25.

FOUCAULT, M. (1969) O que é um autor? In: Estética: literatura e pintura, música e cinema (coleção Ditos & Escritos III). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006, p.264-298.

HESÍODO (séc. VIII/VII a.C.?). Teogonia: a origem dos deuses. São Paulo:

Iluminuras, 1992.

LACAN, Jacques. (1969). Nota sobre a criança. In: Outros escritos. Rio de Janeiro:

Jorge Zahar, 2003, p.369-370.

LACAN, Jacques. (1971). Lituraterra. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.15-25.

LACAN, J. (1972-73). O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982.

LACAN, J. (1973). Nota italiana. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.311-315.

LACAN, J. (1974). A terceira. Conferência pronunciada em Roma, em 31 de outubro de 1974. Inédito.

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LACAN, Jacques. (1975) Joyce, o sintoma. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.560-566.

LACAN, J. (1975). Conferência em Genebra sobre o sintoma. Conferência pronunciada em 4 de outubro de 1975, no Centro Raymond de Saussure. Tradução de Mário Almeida e revisão de Ana Lydia Santiago. Inédito.

LACAN, J. (1975-76). O Seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

LACAN, Jacques. (1976) Prefácio à edição inglesa do Seminário 11. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.567-9.

Referências

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