21/01/2021
Número: 0600942-05.2020.6.27.0007
Classe: AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO JUDICIAL ELEITORAL
Órgão julgador: 007ª ZONA ELEITORAL DE PARAÍSO DO TOCANTINS TO Última distribuição : 05/11/2020
Valor da causa: R$ 0,00
Assuntos: Abuso - De Poder Econômico Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? NÃO
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? NÃO Justiça Eleitoral
PJe - Processo Judicial Eletrônico
Partes Procurador/Terceiro vinculado
COLIGAÇÃO "CORAGEM PARA MUDAR" -MDB/DEM/PTB/SD (REQUERENTE)
MARCUS DOS SANTOS VIEIRA (ADVOGADO)
ISAIAS DIAS PIAGEM (INVESTIGADO) MURILO MIRANDA DE OLIVEIRA (ADVOGADO) DARLENE COELHO DA LUZ (ADVOGADO) CLEYDSON COSTA COIMBRA (ADVOGADO) VALDECI ANTONIO DA SILVA (REU) MURILO MIRANDA DE OLIVEIRA (ADVOGADO)
DARLENE COELHO DA LUZ (ADVOGADO) CLEYDSON COSTA COIMBRA (ADVOGADO) PROMOTOR ELEITORAL DO ESTADO DE TOCANTINS
(FISCAL DA LEI) Documentos Id. Data da Assinatura Documento Tipo 73912 672 20/01/2021 19:08 Sentença Sentença
JUSTIÇA ELEITORAL
007ª ZONA ELEITORAL DE PARAÍSO DO TOCANTINS TO
AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO JUDICIAL ELEITORAL (11527) Nº 0600942-05.2020.6.27.0007 / 007ª ZONA ELEITORAL DE PARAÍSO DO TOCANTINS TO
REQUERENTE: COLIGAÇÃO "CORAGEM PARA MUDAR" - MDB/DEM/PTB/SD Advogado do(a) REQUERENTE: MARCUS DOS SANTOS VIEIRA - TO7600 INVESTIGADO: ISAIAS DIAS PIAGEM
REU: VALDECI ANTONIO DA SILVA
Advogados do(a) INVESTIGADO: MURILO MIRANDA DE OLIVEIRA TO8178, DARLENE COELHO DA LUZ -TO6352, CLEYDSON COSTA COIMBRA - TO7799
Advogados do(a) REU: MURILO MIRANDA DE OLIVEIRA - TO8178, DARLENE COELHO DA LUZ - TO6352, CLEYDSON COSTA COIMBRA - TO7799
SENTENÇA
1. RELATÓRIO
A COLIGAÇÃO CORAGEM PARA MUDAR (PTB/PSDB) propôs AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO JUDICIAL ELEITORAL (AIJE) em desfavor de ISAIAS DIAS PIAGEM e VALDECI ANTÔNIO DA SILVA.
Narrou que Valdeci Antônio da Silva, candidato a Vice-Prefeito de Marianópolis do Tocantins, estaria adquirindo calcário e Isaias Dias Piagem, candidato à reeleição ao cargo de Prefeito, ordenando sua distribuição, com a finalidade de favorecer eleitores durante o pleito de 2020. Apresentou notas fiscais no valor total de R$ 5.340,00 (cinco mil e trezentos e quarenta reais) (ID 38168595), relativas à aquisição de 89.000 Kg de calcário nos meses de julho e agosto do corrente ano, junto à empresa Calcário Milenium, no município de Pugmil, emitidas em nome de Valdeci Antônio da Silva, e recibo de pagamento de frete em favor da Secretaria Municipal de Agricultura de Marianópolis (ID 38168596).
Segundo a narrativa, em 16.10.2020 o Sr. Isaías contratou o serviço de frete para distribuir calcário para os pequenos agricultores do Projeto de Assentamento PA Piracema e PA Manchete. Asseverou que não consta do Portal da Transparência da Prefeitura de Marianópolis procedimento licitatório para a aquisição de calcário e que no recibo do frete, emitido por Elton Anderson Bif, consta a mesma quantidade adquirida por Valdeci, com transporte da cidade de Pugmil para Marianópolis.
Afirmou que, conforme vídeos publicados, no mínimo 11 (onze) famílias foram beneficiadas pelas ações dos representados.
Alegou que as condutas narradas na inicial configuram captação ilícita de sufrágio (art. 41-A da Lei 9.504/97) e conduta vedada a agente público (art. 73, §10, da Lei 9.504/97).
Ressaltou que não há lei específica do município que garanta a doação de bens e serviços e que os representados fizeram uso promocional da distribuição de calcário em prol de suas candidaturas.
Requereu a procedência da ação, a cassação do registro ou diploma dos representados e a declaração de inelegibilidade dos representados.
Arrolou testemunhas e juntou mídia referida na inicial.
Devidamente notificados, os representados argumentaram, em síntese (ID 39028337): a) o representado Valdeci Antônio da Silva é vice-presidente da Associação de Pequenos Produtores de Leite da Fazenda Piracema – APPL e, para agilizar a compra do calcário aos associados, estes pagaram pelo produto (comprovantes anexados) e a nota foi emitida em nome do Sr. Valdeci; b) os associados que adquiriram o calcário lavraram em cartório uma declaração afirmando que realizaram transferências bancárias e depósitos na conta da empresa Calcário Milenium Ltda; c) os carregamentos vinculados às notas fiscais em nome do Sr. Valdeci foram realizados nos dias 30/7, 4/8 e 5/8, ao passo que a contratação do frete questionada pela representante ocorreu em 16/10/2020; d) a Lei Municipal 407/2017 instituiu o Programa Cultivar e prevê a distribuição de calcário, o que ocorreu em 16.10.2020, para atender à solicitação da Associação dos Pequenos Produtores de Leite; e) não há caráter eleitoreiro na conduta dos representados.
Requereram a improcedência dos pedidos formulados na inicial. A audiência foi realizada (ID 52532002).
A Associação dos Pequenos Produtores de Leite do PA. Piracema – APPL do município de Marianópolis do Tocantins apresentou a documentação solicitada em audiência (ID 54240248). Alegações finais pela representante (ID 54788964) e pelos representados (ID 54757205).
O Ministério Público Eleitoral manifestou-se pela procedência da ação (ID 56706479), coma decretação de inelegibilidade dos representados, cassação dos registros ou diplomas e aplicação de multa.
Éo relatório necessário. Decido.
2. FUNDAMENTAÇÃO 2.1. Legitimidade
Verifico a legitimidade das partes, nos termos do art. 22, caput, da Lei Complementar nº 64/90. 2.2. Tempestividade
A ação foi proposta dentro do prazo legal, uma vez que se permite a sua proposição desde o início do período eleitoral até a data da diplomação dos eleitos.
No âmbito desta zona eleitoral, a diplomação dos eleitos ocorreu no dia 18.12.2020 e a ação foi protocolada no dia 5.11.2020.
2.3. Mérito
A Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) tem fundamento no art. 22 da Lei Complementar nº 64/90. Essa ação tem o objetivo de coibir o abuso do poder econômico, do poder político e do uso dos meios de comunicação durante as eleições como forma de resguardar a normalidade e a legitimidade das eleições. Nesse sentido, Elmana Viana:
“Visa proteger a normalidade e a legitimidade do pleito contra a interferência do abuso do poder econômico, político, de autoridade ou nos meios de comunicação social, podendo culminar com a cassação do registro ou diploma do candidato beneficiado, e declaração de sua inelegibilidade e a de todos que tenham contribuído para a sua prática [...]” (ESMERALDO, Elmana Viana Lucena. Processo Eleitoral: sistematização das ações eleitorais.).
Dessa forma, para que seja possível o ajuizamento da AIJE e a inelegibilidade seja declarada rapidamente, o agente deve ter incorrido em uma das condutas de abuso de poder descritas na Lei Complementar. Contudo, percebe-se relativa dificuldade da doutrina em distinguir cada uma das formas de abuso de poder, como se pode reparar nas críticas de José Jairo Gomes:
“Já foi ressaltado alhures que o conceito de abuso de poder é, em si, uno e indivisível. Trata-se de conceito fluido, indeterminado, que, na realidade fenomênica, pode assumir contornos diversos. Tais variações concretas decorrem de sua indeterminação a priori. Logo, em geral, somente as peculiaridades divisadas no caso concreto é que permitirão ao intérprete afirmar se esta ou aquela situação real configura ou não abuso.” (GOMES, José Jairo. Direito Eleitoral. 14. ed. São Paulo: Atlas, 2018, p. 732).
Já nas palavras de Marcos Ramayana, abuso de poder “[...] econômico ou político é toda a conduta ativa ou omissiva que tenha potencialidade para atingir o equilíbrio entre candidatos que almejam determinado pleito eleitoral.” (RAMAYANA, Marcos. Direito Eleitoral. 12. ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2011, p. 584).
Os bens jurídicos tutelados pela AIJE são a normalidade e a legitimidade das eleições, como também o interesse público e a lisura dos pleitos eleitorais.
Com a alteração legislativa trazida pela Lei da Ficha Limpa – Lei Complementar nº 135/2010, a Lei de Inelegibilidades passou a exigir apenas a gravidade do ato, em vez de exigir sua potencialidade de alterar o resultado das eleições, para configurá-lo como abusivo.
Éo magistério de Elmana Viana:
“[...] não é mais imprescindível demonstrar a potencialidade de o fato alterar o resultado da eleição para que o pedido veiculado nessa ação seja julgado procedente, como entendiam os tribunais eleitorais, sendo suficiente, para a configuração do ato abusivo, que se demonstre a gravidade das circunstâncias que o caracterizam a ponto de ferir a legitimidade e normalidade das eleições” (ESMERALDO, Elmana Viana Lucena. Processo Eleitoral: sistematização das ações eleitorais. 2. ed. São Paulo: Mizuno, 2012, p. 298).
Eis a nova redação do art. 22, XVI, da LC n° 64/90:
“para a configuração do ato abusivo, não será considerada a potencialidade de o fato alterar o resultado da eleição, mas apenas a gravidade das circunstâncias que o caracterizam.”.
Deflui do dispositivo que a verificação do abuso passou a demandar a avaliação da gravidade das circunstâncias inerente ao fato em si, ou seja, do desvalor presente diante do bem jurídico tutelado pela norma, no caso, a normalidade e a legitimidade das eleições.
Assim, a investigação da prática abusiva não se prende necessariamente a eventuais implicações no pleito, muito embora tais implicações, quando existentes, reforcem a natureza grave do ato. 2.3.1. Do abuso de poder econômico – captação ilícita de sufrágio.
A captação ilícita de sufrágio encontra regulamentação no art. 41-A da Lei 9.504/97:
Art. 41-A. Ressalvado o disposto no art. 26 e seus incisos, constitui captação de sufrágio, vedada por esta Lei, o candidato doar, oferecer, prometer, ou entregar, ao eleitor, com o fim de obter-lhe o voto, bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza, inclusive emprego ou função pública, desde o registro da candidatura até o dia da eleição, inclusive, sob pena de multa de mil a cinqüenta mil Ufir, e cassação do registro ou do diploma, observado o procedimento previsto no art. 22 da Lei Complementar no 64, de 18 de maio de 1990. (Incluído pela Lei nº 9.840, de 1999)
§ 1º Para a caracterização da conduta ilícita, é desnecessário o pedido explícito de votos, bastando a evidência do dolo, consistente no especial fim de agir. (Incluído pela Lei nº 12.034, de 2009)
§ 2º As sanções previstas no caput aplicam-se contra quem praticar atos de violência ou grave ameaça a pessoa, com o fim de obter-lhe o voto. (Incluído pela Lei nº 12.034, de 2009)
§ 3º A representação contra as condutas vedadas no caput poderá ser ajuizada até a data da diplomação. (Incluído pela Lei nº 12.034, de 2009)
§ 4º O prazo de recurso contra decisões proferidas com base neste artigo será de 3 (três) dias, a contar da data da publicação do julgamento no Diário Oficial. (Incluído pela Lei nº 12.034, de 2009)
José Jairo Gomes elucida acerca do tema:
A captação ilícita de sufrágio denota a ocorrência de ato ilícito eleitoral ofensivo à livre vontade do eleitor. Impõe-se, pois, a responsabilização dos agentes e beneficiários do evento. Estará configurada sempre que a eleitor for oferecido, prometido ou entregue bem ou vantagem com o fim de obter-lhe o voto. Também ocorrerá na hipótese de coação, isto é, prática de “atos de violência ou grave ameaça a pessoa, com o fim de obter-lhe o voto” (art. 41-A, §2º). Assim, a causa da conduta inquinada deve estar diretamente relacionada ao voto.
(...)
Mas, para que um fato seja imputado ao candidato e este, em consequência, seja eleitoralmente responsabilizado, há mister que se demonstre a existência de liame entre o seu agir e o aludido fato; essa conexão pode decorrer até mesmo de omissão. De modo que a culpa (em sentido amplo) do candidato deve ser evidenciada, pois, se isso não ocorresse, sua responsabilização se fundaria em mera presunção. (GOMES, José Jairo. Direito Eleitoral. 14. ed. São Paulo: Atlas, 2018, p. 829/830).
Portanto, tenho que a conduta em foco, atribuída aos representados, caso verdadeira, seria grave, em razão de suas circunstâncias se mostrarem incompatíveis com o jogo democrático. Tal como já ressaltado, a aferição da gravidade leva em conta as circunstâncias do fato em si e não o seu efetivo potencial de influência no pleito.
Dessa forma, a doação ou entrega de bem ou vantagem pessoal a eleitor durante o período eleitoral, com a finalidade de obtenção de voto, constitui conduta grave, pois exorbita do comportamento esperado daquele que disputa um mandato eletivo e que deveria fazê-lo de forma equilibrada em relação aos demais concorrentes, configurando, por conseguinte, abuso do poder econômico.
A compra de voto impacta sobremodo nos bens jurídicos tutelados pelo processo político-eleitoral, máxime porque, com essa conduta, pode chancelar a penetração nefasta e odiosa do poder econômico no prélio eleitoral. De fato, esse tipo de prática não está, em hipótese alguma, acobertada pela legislação eleitoral, que repudia a plutocratização da competição eleitoral, por vulnerar seus princípios mais cardeais como a igualdade de chances e a higidez do prélio.
Sobre o tema eis o entendimento da Corte Superior Eleitoral:
ELEIÇÕES 2012. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL ELEITORAL COM AGRAVO. AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO JUDICIAL ELEITORAL. CAPTAÇÃO ILÍCITA DE SUFRÁGIO. ABUSO DO PODER ECONÔMICO. CONDUTA VEDADA. AUSÊNCIA DE GRAVIDADE. NECESSIDADE DE REEXAME DE FATOS E PROVAS. IMPOSSIBILIDADE NA VIA ESPECIAL.
ENUNCIADO DA SÚMULA TSE Nº 24. AGRAVO DESPROVIDO.
1. A captação ilícita de sufrágio, nos termos do art. 41-A da Lei nº 9.504/97, aperfeiçoa-se com captação ilícita de sufrágio a conjugação dos seguintes elementos: (i) a realização de quaisquer das condutas típicas do art. 41-A (i.e., doar, oferecer, prometer ou entregar bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza a eleitor, bem como praticar violência ou grave ameaça ao eleitor), (ii) o dolo específico de agir, consubstanciado na obtenção de voto do eleitor e, por fim, (iii) a ocorrência do fato durante o período eleitoral (GOMES, José Jairo. Direito Eleitoral. 8ª ed. São Paulo: Atlas, p. 520).
2. O abuso de poder não pode ser presumido, reclamando, para sua configuração, a comprovação da gravidade das circunstâncias do caso concreto que caracterizam a prática abusiva, de forma a macular a lisura da disputa eleitoral, nos termos do art. 22, XVI, da LC n° 64/90 (AgR-REspe n° 349-15/TO, Rel. Min. Dias Toffoli, DJe de 27.3.2014 e REspe n° 130-68/RS, Rel. Min. Henrique Neves, DJe de 4.9.2013).
3. O telos subjacente à conduta vedada encartada no art. 73 da Lei das Eleições é interditar práticas tendentes a afetar a igualdade de oportunidades entre os candidatos.
4. A jurisprudência deste Tribunal pressupõe a existência de provas robustas e incontestes para a configuração de tais ilícitos eleitorais, não podendo, bem por isso, encontrar-se a pretensão ancorada em frágeis ilações ou mesmo em presunções, nomeadamente em virtude da gravidade das sanções nele cominadas. Precedentes.
[...]
7. Agravo regimental desprovido.
(AgR-AI nº 423-96/PA, rel. Min. Luiz Fux, julgado em 15.8.2017, DJe de 26.10.2017) (Grifei)
Assim, o oferecimento ou a doação de vantagens afeta a higidez e a normalidade das eleições, bem como a igualdade de chances entre os “adversários” do processo eleitoral. De fato, ela afasta da disputa eleitoral um “contendor”, atraindo para si os votos que, ao menos em tese, obteria, restando caracterizado o abuso de poder econômico.
2.3.1.1. Da aquisição do calcário
Infere-se dos autos que os representados supostamente adquiriram e distribuíram calcário aos pequenos agricultores do Projeto de Assentamento PA Piracema e PA Manchete, no município de Marianópolis do Tocantins, e fizeram uso promocional da distribuição em prol de suas candidaturas.
Segundo consta da inicial, o representado Valdeci adquiriu 89.000 Kg de calcário nos meses de julho e agosto do corrente ano, junto à empresa Calcário Milenium, no município de Pugmil. As notas fiscais foram emitidas em nome do representado (ID 38168595) e totalizaram R$ R$ 5.340,00 (cinco mil e trezentos e quarenta reais).
A defesa alegou que as notas fiscais apenas foram emitidas em nome do Sr. Valdeci, mas que o pagamento do calcário foi efetuado pelos associados da Associação dos Pequenos Produtores de Leite da Fazenda Piracema -APPL, da qual é vice-presidente, conforme comprovantes de depósito apresentados.
A defesa acostou ainda declaração (ID 39028338) firmada por Ana Conceição Laureano Milhomem, Elizaine Ferreira da Silva, Elizangela Souza da Silva, Pedro Lira Apinagé e Raimundo Neto Pereira de Souza, afirmando que são membro da APPL e realizaram transferências e depósitos diretamente para a conta bancária da empresa Calcário Milenium Ltda. para a compra de calcário, cuja nota fiscal apenas foi emitida em nome do Sr. Valdeci Antônio da Silva.
Em que pese a afirmação da representante de que a declaração em comento é falsa, em razão de ter sido firmada por não associados à APPL, não consta dos autos a relação completa dos associados, de modo que não é possível a verificação integral dos nomes dos associados.
Não obstante a alegação de que o documento constante do ID 54253158 corresponde à lista dos associados, verifica-se que tal documento se refere ao controle de pedido de calcário, e, portanto, os associados que não efetuaram a compra não constam da lista, conforme se depreende da Ata da Assembleia Ordinária da APPL (ID 54240249), que apresenta nomes de associados não contidos da referida lista de controle.
Dessa forma, apesar de a testemunha Ana Conceição Laureano Milhomem ter afirmado em audiência que não é associada à APPL e que assinou a declaração por acreditar que se referia apenas ao fato de haver adquirido calcário, não foi comprovado que os demais declarantes também não são associados.
Conforme se infere da audiência, nenhuma testemunha afirmou ter recebido calcário do Sr. Valdeci. As testemunhas afirmaram que adquiriram o calcário junto ao fornecedor, efetuando o pagamento diretamente à empresa.
Já quanto aos associados da APPL, o calcário foi adquirido em nome da associação apenas aos associados, conforme nota fiscal emitida.
Depreende-se do depoimento do Sr. Osmar Cândido Máximo, presidente da APPL, que as notas fiscais relativas ao calcário adquirido pela associação eram emitidas apenas em nome desta e que o Sr. Valdeci nunca comprou calcário em nome da associação.
Portanto, cabe aqui distinguir a aquisição do calcário em nome da APPL, nos dias 31/7 e 1/8, e o calcário adquirido em nome do Sr. Valdeci, nos dias 30/7, 4/8 e 5/8.
No que tange à nota fiscal emitida em nome do Sr. Valdeci, não consta dos autos informação da empresa fornecedora do calcário acerca de eventual compra coletiva com emissão de nota fiscal única.
O que consta dos autos é a declaração firmada por supostos membros da APPL atestando que efetuaram o pagamento do calcário à empresa Calcário Millenium Ltda. e que a nota fiscal apenas foi emitida em nome do Sr. Valdeci, com a concordância dos declarantes.
Com efeito, no que se refere à aquisição de calcário cuja nota fiscal foi emitida em nome de Valdeci Antônio da Silva, não foi comprovada nos autos a ocorrência de distribuição ou doação do produto para fins de compra de voto.
Portanto, tendo a aquisição em comento sido realizada pelo Sr. Valdeci ou pelos assentados, tal fato não configura, por si só, captação ilícita de sufrágio, pois que não demonstrada nos autos a realização de conduta típica contida no art. 41-A da Lei 9.504/97, dolo dos representados para obterem voto ou mesmo a ocorrência do fato (aquisição do calcário) durante o período eleitoral. 2.3.1.2. Do transporte do calcário
Segundo a representante, a Prefeitura Municipal de Marianópolis não abriu procedimento licitatório para a aquisição de calcário, mas contratou serviço de frete em 16.10.2020 para o transporte de 89 toneladas de calcário para os pequenos agricultores familiares do Projeto de Assentamento PA Piracema e PA Manchete, de Pugmil a Marianópolis do Tocantins, que seria exatamente a quantidade de calcário adquirida por Valdeci Antonio da Silva.
A defesa alegou que o recibo em questão se refere a frete realizado em 16.10.2020, ao passo que o calcário em nome do Sr. Valdeci foi adquirido em 30/7,04/8 e 05/08, tratando-se, portanto, de fatos distintos.
O cerne da questão é saber se a realização de frete de calcário pela Prefeitura configurou, no caso, captação ilícita de sufrágio e/ou conduta vedada a agente público.
As testemunhas afirmaram que não pagaram pelo frete do calcário, e que esse transporte, normalmente, era realizado pela Prefeitura, a pedido da APPL.
Nos termos da Lei Municipal de Marianópolis do Tocantins nº 407/2017, foi instituído o Programa Cultivar, Plano Municipal de Produção de Alimentos de Agricultura Familiar do Município de
Marianópolis do Tocantins:
Art. 4º. O Programa Cultivar, Plano Municipal de Produção de alimentos da Agricultura Familiar do Município de Marianópolis do Tocantins, dentre outras atribuições, prestará os serviços de máquinas, tais como:
a) Distribuição de Calcário; b) Plantio;
c) Preparo de Solo/ Aração
d) Preparo de Solo/ Enxadas Rotativas; (...)
g) Pulverização h) Roçagem
i) Transporte de Insumos Agrícolas j) Transporte Reservatório de água
Art. 5º O Programa Cultivar, Plano Municipal de Produção de alimentos da Agricultura Familiar do Município de Marianópolis do Tocantins, será realizado mediante demanda de no mínimo 20 (vinte)horas maquina, por comunidade/assentamento, requerida previamente na sala da Secretaria Municipal de Agricultura, e executado no seguinte procedimento:
I. Durante a realização de serviços na comunidade e/ou assentamento:
a) O produtor deverá recorrer à sala da Secretaria de Agricultura do município para a solicitação, emissão DUAM –Documento Único de Arrecadação Municipal, referente à prestação de serviço requerida para sua propriedade.
II. Na ausência de atividade e/ou demanda de serviço na Comunidade/Assentamento, o produtor deverá:
a) Realizar um requerimento de serviço na sala da Secretaria Municipal da Agricultura de Marianópolis do Tocantins, aguardar o preenchimento da cota de serviço por comunidade/assentamento, ou se preferir, efetuar o pagamento para deslocamento das maquinas, correspondendo à hora maquina de deslocamento da cidade a propriedade do requerente.
(...)
Nesse diapasão, observa-se que foram instituídos pela Prefeitura de Marianópolis, no ano de 2017, os serviços de distribuição de calcário e transporte de insumos agrícolas, a serem prestados mediante solicitação do produtor e realizados mediante demanda de no mínimo 20 (vinte) horas máquina por comunidade/assentamento.
O serviço em questão foi inclusive solicitado pela APPL, em ofício datado de 19.06.2020 e assinado pelo Presidente Osmar Cândido Máximo e pelo Vice-Presidente, o representado Valdeci Antônio da Silva (ID 39028337).
Observa-se, portanto, que a distribuição de calcário e o transporte de insumos agrícolas encontram previsão em lei municipal e que não restou demonstrado nos autos que houve doação do referido serviço com finalidade eleitoral, uma vez que o próprio representado Valdeci solicitou à Secretaria de Agricultura, via ofício, a sua prestação aos associados e membros do consórcio 001/2020 da APPL.
As testemunhas foram unânimes em afirmar que não houve pedido de voto ou mesmo apoio político, para as eleições 2020, por parte dos representados.
O recibo do frete contratado pela Prefeitura não encontra vedação legal e não há comprovação nos autos de que tenha sido relativo ao calcário adquirido em nome de Valdeci ou que tenha sido doado pela Prefeitura para angariar votos dos assentados.
Ressalte-se que o calcário questionado foi adquirido em nome do Sr. Valdeci nos meses de julho e agosto, ou seja, ates do período eleitoral, e que o recibo de frete apresentado pela representante foi datado de 16.10.2020, não havendo correspondência direta entre os fatos, além da quantidade do calcário adquirido/transportado.
Importa ainda destacar que, ausentes as matérias afetas ao campo eleitoral, eventuais irregularidades concernentes ao valor do frete, sua cobrança ou realização pela Prefeitura não são objetos de análise por esta Especializada.
Com efeito, ante a fragilidade das provas apresentadas, não restou demonstrado nos autos que o transporte ou a distribuição do calcário realizados pela Prefeitura de Marianópolis do Tocantins tenha configurado captação ilícita de sufrágio.
2.3.2. Da conduta vedada
A prática de conduta vedada exorbita do comportamento esperado daquele que disputa um mandato eletivo e que deveria fazê-lo de forma equilibrada em relação aos demais concorrentes. Assim é o entendimento da Corte Superior Eleitoral:
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO. INEXISTÊNCIA. MERO INCONFORMISMO. ELEIÇÕES 2016. CONDUTA VEDADA. REMOÇÃO DE SERVIDORES EM PERÍODO VEDADO. OFENSA AO DISPOSTO NO ART. 73, V, DA LEI 9.504/97. NATUREZA OBJETIVA DA NORMA.
1. Não há omissão no acórdão embargado, pois as razões dos embargos de declaração reproduzem as mesmas teses já suscitadas no recurso especial e no agravo regimental, as quais já foram analisadas por este Tribunal e evidenciam mero inconformismo com o que foi decidido.2. A tese de que houve contrariedade aos princípios do devido processo legal e da verdade real constitui vedada inovação recursal em sede de embargos de declaração.3. Não houve omissão quanto à ausência de demonstração da potencialidade lesiva da conduta para desequilibrar o pleito, apta a caracterizar o ilícito eleitoral previsto no art. 73 da Lei 9.504/97, porquanto ficou assentado que o entendimento do Tribunal de
origem está em consonância com a jurisprudência do TSE no sentido de que "as condutas vedadas possuem natureza objetiva, sendo desnecessária a análise de potencialidade lesiva para influenciar no pleito (AI 474-11, rel. Min. Rosa Weber, DJE de 22.8.2018)" (AgR-REspe 452-20, rel. Min. Edson Fachin, DJE de 31.10.2018), o que afasta a existência de dissídio jurisprudencial,
a teor do verbete sumular 30/TSE.4. Com relação à alegação de que as remoções dos servidores teriam ocorrido por necessidade pública, este Tribunal consignou que alterar a conclusão do acórdão regional no sentido de que a conduta afetou a igualdade de oportunidades entre os candidatos e que os fatos narrados não se enquadram em nenhuma das exceções previstas na norma, porquanto nenhum dos servidores figurantes na demanda ocupa o cargo de militar, policial civil ou de agente penitenciário (art. 73, V, e, da Lei 9.504/97), demandaria o reexame fático-probatório, a incidir o verbete sumular 24/TSE.Embargos de declaração rejeitados.
(Recurso Especial Eleitoral nº 56079, Acórdão, Relator(a) Min. Sérgio Banhos, Publicação: DJE - Diário de justiça eletrônico, Tomo 30, Data 12/02/2020, Página 81). (Grifei)
Assim, a prática de conduta vedada por agente público afeta a higidez e a normalidade das eleições, bem como a igualdade de chances entre os “adversários” do processo eleitoral.
Lei 9.504/97:
Art. 73. São proibidas aos agentes públicos, servidores ou não, as seguintes condutas tendentes a afetar a igualdade de oportunidades entre candidatos nos pleitos eleitorais:
(...)
§10. No ano em que se realizar eleição, fica proibida a distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios por parte da Administração Pública, exceto nos casos de calamidade pública, de estado de emergência ou de programas sociais autorizados em lei e já em execução orçamentária no exercício anterior, casos em que o Ministério Público poderá promover o acompanhamento de sua execução financeira e administrativa. (Incluído pela Lei nº 11.300, de 2006)
A representante alegou a inexistência de lei específica para que os representados realizassem a distribuição gratuita de calcário.
Em que pese a preocupação salutar da representante em tentar coibir a utilização indevida da máquina pública, o fato é que, como adrede explanado, a Lei Municipal de Marianópolis do Tocantins nº 407/2017, prevê a prestação de serviço de distribuição de calcário e transporte de insumos agrícolas mediante o cumprimento das formalidades exigidas, não se tratando, portanto, de doação.
A prestação de serviço de distribuição de calcário e transporte de insumos agrícolas pela Prefeitura não se amolda ao conceito de distribuição gratuita de bens e valores, razão pela qual não há configuração de conduta vedada pelo agente público.
Ressalte-se, por fim, que não consta dos autos a comprovação de que a distribuição e o transporte do calcário adquirido em nome do representado Valdeci tenha sido realizada gratuitamente aos assentados.
2.3.3. Do uso promocional da distribuição de calcário
A representante narrou que os representados fizeram uso promocional da distribuição de calcário em prol dos representados mediante a divulgação de vídeos via WhatsApp, demonstrando a distribuição de calcário junto aos pequenos produtores.
Foram colacionados aos autos as citadas mídias. Acerca do tema dispõe o art. 73, IV, da Lei 9.504/97:
Art. 73. São proibidas aos agentes públicos, servidores ou não, as seguintes condutas tendentes a afetar a igualdade de oportunidades entre candidatos nos pleitos eleitorais:
(...)
IV - fazer ou permitir uso promocional em favor de candidato, partido político ou coligação, de distribuição gratuita de bens e serviços de caráter social custeados ou subvencionados pelo Poder Público;
(...)
Preleciona José Jairo Gomes que a interpretação do dispositivo transcrito deve ser feita em conjunto com o §10 do mesmo artigo 73:
§10. No ano em que se realizar eleição, fica proibida a distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios por parte da Administração Pública, exceto nos casos de calamidade pública, de estado de emergência ou de programas sociais autorizados em lei e já em execução orçamentária no exercício anterior, casos em que o Ministério Público poderá promover o acompanhamento de sua execução financeira e administrativa. (Incluído pela Lei nº 11.300, de
2006)
Portanto, segundo o ilustre autor:
Para a configuração do vertente inciso IV, é preciso que o agente use “distribuição gratuita de bens e serviços” em prol de candidato. Aqui não se trata de reprimir a distribuição em si mesma, mas o uso promocional e eleitoreiro que dela se faça. (GOMES, José Jairo. Direito Eleitoral. 14. ed. São Paulo: Atlas, 2018, p. 857).
No caso dos autos, não restou configurada a realização de distribuição gratuita de bens e serviços pelos representados, pois, conforme assentado, a distribuição de calcário e o transporte de insumos agrícolas são serviços disponibilizados legalmente pela Prefeitura de Marianópolis do Tocantins.
Com efeito, inexistente a distribuição gratuita de calcário pelos representados, não há que se falar em uso promocional decorrente de tal fato.
2.3.4. Conclusão
Forçoso, concluir, portanto, que as condutas narradas pela representante, aliadas à inexistência de outros elementos que corroborem o alegado, não se revestem de gravidade suficiente para configurar ilícito eleitoral.
De efeito, a jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral perfilha o entendimento segundo o qual a gravidade da conduta, consubstanciada na aptidão de desequilibrar a igualdade entre os candidatos e afetar a normalidade das eleições, precisa estar demonstrada para a caracterização do abuso de poder, nestes termos:
"o bem jurídico a ser protegido com a proibição do abuso é de titularidade coletiva, sendo suficientes, para demonstrar o liame entre a prática da conduta e o resultado do pleito, a sua gravidade e aptidão para macular a igualdade na
disputa" (TSE - AgR-REspe n° 872331 5-66/RO, Rel. Min. Luciana Lóssio, DJe
de 25.6.2014). (Grifei)
Nesse diapasão, imprescindível a existência de um conjunto probatório robusto, capaz de demonstrar a prática do abuso perpetrado:
AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. ELEIÇÕES 2016. PREFEITO. VICE-PREFEITO. VEREADOR. AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO JUDICIAL ELEITORAL (AIJE). ABUSO DE PODER ECONÔMICO. ART. 22 DA LC 64/90. AUSÊNCIA. PROVA ROBUSTA. CIRCUNSTÂNCIAS. CASO CONCRETO. DESPROVIMENTO.
1. A teor da jurisprudência desta Corte, para a condenação por abuso de
poder econômico, é necessário existência de prova sólida e inconteste a respeito da prática do ilícito.
2. No caso, ante a deficiência do conjunto probatório e na linha do parecer da d. Procuradoria-Geral Eleitoral, impõe-se manter a improcedência dos pedidos em favor dos agravados, que obtiveram o segundo lugar nas eleições majoritárias de Parambu/CE em 2016, além de candidato ao cargo de vereador.
3. A partir da moldura fática regional, tem-se que as provas juntadas aos autos e as duas únicas testemunhas ouvidas em juízo não demonstraram liame entre a distribuição de água potável a comunidades locais e a campanha dos agravados, pois não se vislumbrou pedido de votos, referência à candidatura ou discurso político. Ademais, nas postagens feitas em redes sociais, constaram como autores o Instituto Parambuense de Cidadania (INPAC) e a Paróquia São Pedro. 3. Segundo o TRE/CE, as provas documentais, notadamente fotos da distribuição
de água, são também incapazes de evidenciar a ilicitude da conduta, pois, enquanto a aliança pretende relacioná-las ao período eleitoral, os candidatos anexaram imagens a partir das quais se infere que o ato ocorrera em 2015. 4. Agravo regimental desprovido.
(Recurso Especial Eleitoral nº 13248, Acórdão, Relator(a) Min. Jorge Mussi, Publicação: DJE - Diário de justiça eletrônico, Data 03/12/2018, Página 96) (Grifei)
Restando demonstrada, pelos demais elementos produzidos na instrução, a fragilidade das provas, firmeza e robustez da autoria e a materialidade do suposto abuso de poder econômico ou político, insubsistente deve ser o pedido contido na ação.
3. DISPOSITIVO
Ante o exposto, JULGO IMPROCEDENTES os pedidos contidos nesta Ação Judicial de Investigação Judicial Eleitoral, com fulcro no art. 487, I, do CPC.
P. R. I. Cumpra-se.
Após o trânsito em julgado, arquivem-se.
RENATA DO NASCIMENTO E SILVA Juíza Eleitoral