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Mana vol.5 número2

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Academic year: 2018

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(1)

Um a con ce p çã o d om in a n te d e fa m ília e d e p a re n te sco te m m a rca d o a s p e sq u isa s sob re a s p rá tica s fa m ilia re s d os a g e n te s n o m e io p op u la r d o C a rib e e d a Am é rica La tin a , re le g a n d o su a s org a n iza çõe s fa m ilia re s à ord e m d a a n om ia e d a p a tolog ia . Esta con ce p çã o, d e u m la d o, id e n tifica a re p rod u çã o d os g ru p os com o fu n çã o socia l d a fa m ília , d e ou tro, p rivile -g ia os la ços -g e n e a ló-g icos, fa ze n d o d o p a re n te sco, com o n otou Sch n e id e r (1984:121), o e ixo b iológ ico d a re p rod u çã o n a s socie d a d e s h u m a n a s. N a b a se d e sta con ce p çã o e n con tra -se o p ostu la d o le g a lista q u e te m m a rca d o a re p re se n ta çã o vitoria n a d a socie d a d e e q u e con stitu iu u m b ias a p a rtir d o q u a l a s p e sq u isa s e sta b e le ce ra m u m corte a n a lítico e n tre o d om ín io d om é stico e a q u e le ju ríd ico-p olítico. O u , p a ra re tom a r Forte s (1958; 1969; 1978), e n tre a am ity — d om ín io p rote g id o d a s vicissitu d e s d a p olítica , d a s le is d o m e rca d o e d a s d e te rm in a çõe s h istórica s, lu g a r d o e xe rcício le g íti-m o d a se xu a lid a d e e d a cria çã o d os filh os —, e a p olity — d oíti-m ín io d o e xe rcício d a s le is d o m e rca d o, d a p olítica e d a h istória . Essa con ce p çã o ju ríd ica d a org a n iza çã o socia l, tra d u çã o e ru d ita d e sse b ias le g a lista , a rticu la u m a con ste la çã o d e ob je tos, q u e é d e fa to u m a con ste la çã o d e re p re -se n ta çõe s — a fa m ília , o p a re n te sco, a ca sa , o p ú b lico v s. o p riva d o — q u e p or ve ze s se con stitu e m e m n orm a s cu ltu ra is e g u ia s a n a líticos d e p e s-q u isa . Este “ ju rid ism o” te órico (d u ra m e n te critica d o p or Bou rd ie u 1977; G ood y 1990; Le a ch 1961; N e e d h a m 1971; Sch n e id e r 1980, 1984; e d ive r-sa s a n a lista s fe m in ista s, com o Ror-sa ld o 1980 e Ra p p 1977), é a d icion a d o a u m a con ce p çã o m ise ra b ilista d a s cla sse s p op u la re s, tra d u zid a e m u m a a b ord a g e m q u e fa z d e su a s org a n iza çõe s fa m ilia re s u m a m e ra va riá ve l d a e stru tu ra socioe con ôm ica e tra n sform a e sse s a g e n te s fa m ilia re s e m se re s in ca p a ze s d e p rod u zir u m m u n d o e h a b itá -lo sim b olica m e n te .

O s e stu d os sob re fa m ília e p a re n te sco n e ssa s socie d a d e s, a in d a q u e d e a p a riçã o re la tiva m e n te ta rd ia , in a u g u ra m -se (1) e m con tin u id a d e com a s p e sq u isa s sob re o p rob le m a d a a ssim ila çã o d os n e g ros n a socie d a d e

A LIN GUAGEM DA CASA EN TRE OS

N EGROS N O RECÔN CAVO BAIAN O*

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n orte -a m e rica n a e n a s Am é rica s e m g e ra l, a ce n tu a n d o, p rin cip a lm e n te , o fa to b iológ ico/ cu ltu ra l p rim ord ia l q u e os torn a ria p ou co ou n a d a a d a p -tá ve is à socie d a d e m od e rn a (o q u e su ste n ta a p rob le m á tica d a fa m ília n e g ra )1; e (2) e m con tin u id a d e com a s p e sq u isa s sob re a p a ssa g e m , n a Eu rop a , d a socie d a d e ru ra l, d ita tra d icion a l, p a ra a socie d a d e m od e rn a in d u stria l (o q u e su ste n ta a p rob le m á tica d a fa m ília n a s cla sse s p op u la -re s)2. N o fu n d o, e ssa s d u a s lin h a s m e stra s con stitu e m a s m u le ta s q u e su s-te n ta m a m e sm a p rob le m á tica s-te órica : a q u e la d a e rosã o d os la ços d e p a re n te sco e m fa ce d a m od e rn iza çã o. As p e sq u isa s p re ssu p õe m q u e a cre sce n te m od e rn iza çã o d a s socie d a d e s con d u ziria n e ce ssa ria m e n te à n u cle a riza çã o d a fa m ília . M a s, com o e m u m a socie d a d e d e cla sse s os a g e n te s d a s ca m a d a s p op u la re s n ã o te ria m os m e ios p a ra vive r a n orm a d om in a n te , a s p e sq u isa s orie n ta m -se n o se n tid o d e id e n tifica r e e stu d a r a s e stra té g ia s d e a d a p ta çã o e a a n om ia d a fa m ília tra b a lh a d ora (ou op e -rá ria ) e d a fa m ília n e g ra . O p a ra d ig m a e stru tu ra l-fu n cion a lista é a m ola m e stra q u e forn e ce os m e ios p a ra se p e n sa r a org a n iza çã o fa m ilia r n e s-se s e sp a ços a p a rtir d e te m a s com o a p rod u çã o e o con su m o, a a d a p ta çã o e a s e stra té g ia s d e sob re vivê n cia . É e m ru p tu ra com o p a ra d ig m a e stru -tu ra l-fu n cion a lista e o ju rid ism o, n a s p e rsp e ctiva s a b e rta s p e la a n á lise cu ltu ra l in a u g u ra d a p or Sch n e id e r (1980) e p e la te oria d a a çã o p rop osta p or Bou rd ie u (1977), q u e con stru o a q u i, com o ob je to d e a n á lise , a e xp e -riê n cia fa m ilia r d os n e g ros d e C a ch oe ira .

(3)

Um e stu d o d a con stru çã o e d o u so sociocu ltu ra l d os m od os d e h a b i-ta r d os a g e n te s n o m e io p op u la r (ou se ja , d a casa4), é d e te rm in a n te p a ra a p re e n d e rm os os se n tid os d a s re la çõe s socia is, in ve stid a s n a e xp e riê n cia d a fa m ília e d o p a re n te sco, e m su a com p le xid a d e . Su g iro q u e u m a a n tro-p olog ia d a e xtro-p e riê n cia fa m ilia r n a s cla sse s tro-p otro-p u la re s, q u e tom a com o foco a casa e su a s im p lica çõe s n a p rod u çã o d os la ços socia is, p od e con tri-b u ir p a ra re n ova r a a tri-b ord a g e m a n trop ológ ica d a s con d içõe s socioé tn ica s e p a ra su p e ra r a s d ificu ld a d e s d a s a n trop olog ia s re g ion a is (e n a cion a is) p a ra (re )form u la r se u s ob je tos e m con te xtos e sp e cíficos.

O m od e lo q u e p rop on h o a q u i se fu n d a n a re la çã o in d issociá ve l e n tre d ois n íve is — o d a “ ca sa ” e o d a “ con fig u ra çã o d e ca sa s” (con ju n to d e ca sa s vin cu la d a s p or u m a id e olog ia d a fa m ília e d o p a re n te sco) — q u e con form a m u m siste m a d e se n tid os, m e d ia n te o q u a l a ca sa e a con fig u ra çã o se con stroe m . Esse s d ois n íve is a rticu la m se p or e stru tu ra s d e te n -sã o, e m su a s re la çõe s sim b ólica s e sociológ ica s.

Casa e conf iguração de casas

Habit ar os bairros populares de Cachoeira5

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cre n ça d a fa m ília . Ain d a q u e a ca m a se ja p re cá ria , o e sse n cia l n e sse côm od o é o e sp a ço d e ixa d o p a ra a s d ivin d a d e s. Assim , e sse q u a rto é o lu g a r m e n os a ce ssíve l e m a is fe ch a d o d a ca sa , p ois g u a rd a os ob je tos p e s-soa is d e a lg u n s d e se u s m e m b ros e o ora tório com os ob je tos d e ca d a d ivin d a d e . Em tod a s a s ca sa ob se rva d a s, o q u a rto p rin cip a l é con sid e ra -d o u m e sp a ço sa g ra -d o; os a g e n te s a -d m ite m q u e n ã o é o q u a rto e m si q u e é sa g ra d o, m a s sim o fa to d e e ste se r o d e p ositá rio d e se g re d os fa m ilia -re s. O s q u a rtos n o se u con ju n to op õe m -se à sa la e a m b os à cozin h a . Esta é o lu g a r d e socia b ilid a d e p or e xce lê n cia ; e m b ora su a d im e n sã o se ja m od e sta , e la é a o m e sm o te m p o u m lu g a r com u m a tod os os in te g ra n te s d a ca sa e p re se rva d o d os in tru sos — é u m a d im e n sã o d a in tim id a d e cole -tiva d os in te g ra n te s d a ca sa . Atrá s d a cozin h a fica o b a n h e iro, q u e e stá a ssocia d o u n ica m e n te a o a to d e d e fe ca r. Por isto, con form e a s re p re se n -ta çõe s loca is, o b a n h e iro d e ve fica r se p a ra d o fisica m e n te d a ca sa , loca li-za n d o-se n o fu n d o d o q u in ta l.

À n oite , os e sp a ços d a ca sa sã o re d e fin id os, coloca n d o e m re le vo a d ivisã o se xu a l d o e sp a ço. C om o e m tod os os e sp a ços p rod u zid os n a s socie d a d e s h u m a n a s, a ord e m d a ca sa corre sp on d e , d e n tre ou tros, a os p rin cíp ios q u e g ove rn a m a s re la çõe s e n tre g ê n e ros e g e ra çõe s. Du ra n te o d ia , e sse s p rin cíp ios, e m b ora on ip re se n te s, e xp licita m se m u ito d iscre ta -m e n te n a s re la çõe s cotid ia n a s e sã o con co-m ita n te s a ou tros. De ssa for-m a , é à n oite , n a h ora d e d orm ir, q u e fica cla ra a re la çã o d os q u a rtos com o fe m in in o, a id a d e a d u lta e a con ju g a lid a d e , re sp e ctiva m e n te , e n q u a n to a sa la corre sp on d e a o m a scu lin o, à in fâ n cia e a o ce lib a to. Assim , n a m a io-ria d a s ca sa s ob se rva d a s, a sa la é re p a rtid a d e ta l m a n e ira q u e os h om e n s d orm e m p e rto d a p orta d e e n tra d a e a s m u lh e re s p e rto d a e n tra d a p a ra a cozin h a , e m fre n te a o q u a rto d os a d u ltos. A re p a rtiçã o d e ca d a u m d e s-se s e sp a ços é fe ita , sim u lta n e a m e n te , com b a s-se n o g ê n e ro e n a id a d e : n os q u a rtos, a s m u lh e re s m a is ve lh a s e a s cria n ça s d e a té trê s a n os d orm e orm n a ca orm a , a s cria n ça s orm a is ve lh a s n o solo. Aq u i a h ie ra rq u ia d o e sp a -ço re p rod u z-se e m fu n çã o d os g ru p os e tá rios.

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cord ã o u m b ilica l, p la ce n ta e tc. —, n ã o é u m a sim p le s m e tá fora . N a cos-m olog ia fa cos-m ilia r, ta l cocos-m o e xp licita d a p e los a g e n te s, a n a tu re za é o h ab itat p or e xce lê n cia d os e sp íritos b on s e m a u s, d ivin os e sa tâ n icos. A n a tu re za , se g u n d o e sta cosm olog ia u m a in ve rsã o sim b ólica d o m u n d o p rod u -zid o p e los h u m a n os, é o lu g a r q u e u n e a d ive rsid a d e d os se re s h u m a n os; é d e la q u e ca d a u m tira a e n e rg ia n e ce ssá ria p a ra cu m p rir o se u d e stin o, q u e r se ja b ra n co ou n e g ro, h om e m ou m u lh e r, rico ou p ob re , a d u lto ou cria n ça . N a s re p re se n ta çõe s d os a g e n te s, o q u e d ife re n cia os se re s h u m a -n os é o p a cto q u e e le s fa ze m com a s força s d o b e m ou d o m a l q u e re i-n a m n a m a ta . Pa ra e le s, con stru ir u m a ca sa é a sse n ta r a s b a se s d a re a liza çã o d e sse d e stin o. M a s, com o a sse n ta r u m a b a se sólid a se m se e n ra iza r m a te -ria lm e n te n a m a ta , se m p la n ta r in d ivid u a l e cole tiva m e n te a s se m e n te s d e sse d e stin o e re tira r d a n a tu re za a s e n e rg ia s (d o b e m ou d o m a l) e a sa b e d oria n e ce ssá ria s p a ra p rod u zir se u lu g a r n e ste m u n d o h ostil e p e r-ve rso?

A ca sa , n o se u con ju n to, é p e n sa d a com o u m a com b in a çã o, p or a ssim d ize r, d a ord e m d a n a tu re za com a ord e m socia l. Su a org a n iza çã o e stru -tu ra l é ta l q u e se u in te rior op õe os e sp a ços e n tre si, a ssim com o os m icroe sp a ços a e le s a ssocia d os, fixa n d o a s fron te ira s in visíve is q u e con -d icion a m e loca liza m os m o-d os -d e con -d u ta q u e -d ã o form a e se n ti-d o à s re la çõe s fa m ilia re s. Essa org a n iza çã o e stru tu ra l ta m b é m é p e rce b id a n a orie n ta çã o sim b ólica d a ca sa : o Le ste (sol n a sce n te ), p orta d e e n tra d a d a ca sa , orie n ta çã o ob rig a tória d a s ca m a s, se op õe a o O e ste (sol p oe n te ), on d e se e n con tra a im a g e m q u e p rote g e a ca sa . É p a ra Le ste q u e os a d u l-tos se d irig e m , d ia ria m e n te , à s se is h ora s d a m a n h ã , com u m cop o d e á g u a n a m ã o, se m troca r p a la vra s com n in g u é m , p a ra p e d ir p rote çã o à s força s d o b e m , a fim d e com e ça re m o d ia “ com a lto a stra l” . E é a n d a n d o d e costa s n a d ire çã o d o q u in ta l, e m se n tid o op osto a o O e ste , q u e e le s jog a m p a ra fora a á g u a “ ca rre g a d a ” .

(6)

cole tiva s, re cu rsos e con ôm icos e h u m a n os. C on stru ir, n a p e rife ria d e C a ch oe ira — com o n a s p e rife ria s d a s ou tra s cid a d e s d o Re côn ca vo e stu d a d a s —, é u m p roce sso p ré con fig u ra tivo d a ca sa ; só p od e se r u m a op e -ra çã o cole tiva .

Se g u n d o os a g e n te s e n tre vista d os, a ca sa é a o m e sm o te m p o u m lu g a r d e p a ssa g e m e u m a re fe rê n cia p e rm a n e n te . C om o lu g a r d e p a ssa -g e m , a lé m d os se u s re sid e n te s fixos, e la re ce b e p e riod ica m e n te a l-g u n s d os se u s m e m b ros q u e “ circu la m ” e n tre d u a s ou m a is ca sa s d a m e sm a re d e socia l, n ã o som e n te n o b a irro, n a cid a d e d e C a ch oe ira , m a s ta m b é m n a s ou tra s cid a d e s d o Re côn ca vo. A ca sa p od e in clu ir m e m b ros q u e e m i-g ra ra m te m p ora ria m e n te p a ra Sa lva d or ou Ita p a rica , on d e a li-g u n s d e le s se re a g ru p a m e m ca sa s d istrib u íd a s p rin cip a lm e n te e m trê s fa ve la s: N or-d e ste , Pa u or-d a Lim a e Su ssu a ru a n a . Ele s re con stroe m , con solior-d a m ou p ro-lon g a m a con fig u ra çã o e m torn o d os p a re n te s p róxim os ou a fa sta d os, re a is ou fictícios; e le s se re a p rop ria m d a s re d e s d e p a re n te sco e se re d is-trib u e m p e la s re d e s d om é stica s se d im e n ta d a s n a s fa ve la s.

Ele s volta m “ p a ra ca sa ” a ca d a a n o, p or u m p e ríod o re la tiva m e n te lon g o (u m m ê s ou u m trim e stre ) d e a cord o com o tip o d e tra b a lh o q u e e xe rce m . Em ce rta s u n id a d e s d om é stica s e n con tre i vá rios ca sos d e jove n s m u lh e re s q u e p a ssa m d e trê s a se is m e se s tra b a lh a n d o “ n a ca sa d os ou tros” , com o d om é stica s, e m Sa lva d or, e volta m p a ra p a ssa r o m e sm o p e ríod o “ e m ca sa ” , cu id a n d o d ire ta m e n te d e se u s filh os, ou in ve stin d o n o com é rcio a m b u la n te . M u ito fre q ü e n te m e n te , o tra b a lh o d om é stico é a p e n a s u m a á rvore q u e e scon d e a flore sta . C om o os e m p re g os d om é sti-cos, m e sm o m u ito m a l p a g os, se torn a m ca d a ve z m a is ra ros, a lg u m a s d e la s vã o a Sa lva d or p a ra se p rostitu ir d u ra n te u m p e ríod o q u e va ria e n tre trê s e se is m e se s. De volta a C a ch oe ira , re tom a m a “ vid a n orm a l” a té q u e se ofe re ça u m a p róxim a op ortu n id a d e . O s a g e n te s m ove m -se , e m u m a con fig u ra çã o form a d a p or d u a s a se te ca sa s, e m u m e sp a ço p róxim o (o b a irro), m e n os p róróxim o (a cid a d e ) e a fa sta d o (p e rife ria d e Sa lva -d or, C a m a ça ri e tc.).

Pa ra e le s, a ca sa é u m a re fe rê n cia p e rm a n e n te . Ela te m , d ig a m os, u m statu s m ítico n o im a g in á rio d a q u e le s q u e d e la se se p a ra ra m h á d e z a n os ou m a is. Be m sim b ólico cole tivo, e la se tra n sform a e m u m a m a triz sim b ólica n a q u a l n a sce m a cole tivid a d e fa m ilia r e os m itos d e fa m ília .

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ou tra s ca sa s q u e p a rticip a m d e su a con stru çã o — n o se n tid o sim b ólico e con cre to. Ela fa z p a rte d e u m a con fig u ração.

A p a rtir d a s con sid e ra çõe s fe ita s a cim a sob re o m od o d e re sid ir n a p e rife ria d e C a ch oe ira e n os b a irros p op u la re s e stu d a d os e m Sa lva d or, torn a -se d ifícil circu n scre ve r ce rtos a g e n te s fa m ilia re s e m u m a u n id a d e d om é stica e sp e cífica . Da g ê n e se d a ca sa à su a con stru çã o, d e sta a o e xe r-cício, n o cotid ia n o, d a e xp e riê n cia fa m ilia r, os a g e n te s n ã o se p e n sa m e n ã o p e n sa m a vid a d om é stica a n ã o se r n o con te xto d a s re d e s d e n tro d a s q u a is e le s in te ra g e m . O p roce sso d e p rod u çã o d a s ca sa s, n os se n tid os con cre to e sim b ólico, a org a n iza çã o d a vid a d om é stica n o se u in te rior, o ca rá te r a o m e sm o te m p o e stru tu ra d o e n ã o e stru tu ra d o d a s re la çõe s e n tre a s ca sa s, fa ze m d a ca sa u m a u n id a d e sociocu ltu ra l n a q u a l e p e la q u a l o a g e n te se re a liza , u m lu g a r n o q u a l e le se id e n tifica . Essa s re d e s d om é s-tica s q u e se con stroe m n o cotid ia n o, n a p e rife ria d e C a ch oe ira e n os b a irros p op u la re s ob se rva d os e m Sa lva d or sã o p rod u zid a s a p a rtir d a s re fe rê n cia s e sp a cia is q u e con cre tiza m ca d a ca sa . A e sta s re fe rê n cia s e u ch a -m o d e con fig u raçõe s d e casas.

Em C a ch oe ira , a vid a d om é stica é p rod u zid a e a rticu la d a n a lin g u a -g e m d a s re d e s d e a p oio e n tre a -g e n te s fa m ilia re s. As re d e s d om é stica s, p or su a ve z, sã o a rticu la d a s n a lin g u a g e m e stru tu ra d a p e la s p osiçõe s d e ca d a ca sa e m u m a d a d a con fig u ra çã o. A con fig u ra çã o — q u e é a re p re -se n ta çã o a n a lítica d e u m d isp ositivo d e p osiçõe s a rticu la n d o re d e s d e ca sa s — se d á e m u m “ te rritório” h istórica e socia lm e n te con stru íd o. Ela n ã o le va e m con ta a s d ivisõe s a d m in istra tiva s oficia is — con d a d os, m u n i-cíp ios, re g iõe s — n e m a s d ivisõe s (ou op osiçõe s) sociológ ica s clá ssica s d o e sp a ço (b a irro ru ra l, cid a d e s p e q u e n a s, cid a d e s g ra n d e s, op osiçã o cid a -d e e ca m p o e tc.).

(8)

Pod e se e n te n d e r a con fig u ra çã o d e ca sa a o m e sm o te m p o com o e stru tu -ra e a n tie stru tu -ra . C om o a s ca sa s, e la se con strói e m u m a e stru tu -ra d e te n sã o e n tre a h ie ra rq u ia e a a u ton om ia , e n tre o cole tivism o e o in d ivi-d u a lism o, e n tre os m e ca n ism os tra ivi-d icion a is ivi-d e socia liza çã o e o é lan p ós-m od e rn o d e ós-m od os in d ivid u a is d e con su ós-m o.

Os princípios de sangue e de consideração

Ao coloca r a ca sa com o ca te g oria cu ltu ra l ce n tra l p a ra a a b ord a g e m d a s re la çõe s fa m ilia re s e n tre os n e g ros n a s cid a d e s e stu d a d a s, torn a -se p os-síve l loca liza r a s re la çõe s con cre ta s e n tre os a g e n te s in scrita s n o d om ín io d o p a re n te sco. Tra ta -se d e foca liza r a s re la çõe s e m se u s con te xtos — d e situ a r, se g u n d o Bou rd ie u , a s re la çõe s circu n scrita s a o d om ín io d o p a re n -te sco n a p rá tica cotid ia n a d os a g e n -te s —, os com p orta m e n tos e stra té g i-cos con form a d os p or va lore s e op çõe s d om in a n te s, m a s m e d ia tiza d os, orie n ta d os n a s su a s e xe cu çõe s p or va lore s ob je tivos loca lm e n te d e fin id os (Bou rd ie u 1977:29; 1980; 1994).

Q u a n d o tom a m os a s form u la çõe s id e ológ ica s im e d ia ta s d os a g e n te s, a fa m ília só e xiste com os côn ju g e s u n id os le g a l e re lig iosa m e n te d e n tro d e u m a ca sa . C om o se costu m a d ize r “ q u e m ca sa q u e r ca sa ” (Woortm a n 1981; 1987). En tre ta n to, q u a n d o se ob se rva e a n a lisa a s p rá tica s d a s re la -çõe s fa m ilia re s n o cotid ia n o e q u a n d o se con fron ta e ssa s ob se rva -çõe s e a n á lise s com os se n tid os im p lícitos a trib u íd os a os te rm os fa m ília e p a re n te sco n e sse e sp a ço socia l, p e rce b e se o q u a n to a s con d içõe s sociocu ltu ra is m e d ia tiza m e ssa s p rop osiçõe s g e ra is p a ra tra n sform á la s e m siste -m a s d e p rá tica s orig in a is.

N os b a irros e m q u e tra b a lh e i, d u a s p a la vra s p a re ce m d a r con ta d os e sta tu tos e d os u sos d a fa m ília e n tre os a g e n te s: p are n te e fam ília. Em su a s con ve rsa s, é m u ito com u m ou vi-los u sa r os d ois te rm os com o se fos-se m e q u iva le n te s, m a s, com o fos-se p od e rá ve r, n ã o é e ste o ca so. Pa ra e n tra r n o u n ive rso d a s re p re se n ta çõe s sob re os p a re n te s e a fa m ília e e n te n d e r n ã o só a s d istin çõe s, m a s ta m b é m a e q u iva lê n cia e n tre os d ois te rm os, com e ce i p or tra b a lh a r a s “ lista s e sp on tâ n e a s” (sp on tan e ou s k in lists) d a q u e le s q u e os a g e n te s con sid e ra m com o se n d o p a re n te s ou fa m ília , se g u n d o a té cn ica u tiliza d a p or Ale xa n d e r (1978) e o g ru p o d e Ra ym on d Sm ith (1988) sob re a e xp e riê n cia d e p a re n te sco n os m e ios u rb a n os.

(9)

ró-p ria s form u la çõe s a re sró-p e ito d a q u e le s q u e ró-p od e m se r con sid e ra d os com o fa m ília ou p a re n te . O a g e n te , a tra vé s d a lista , e n tra e m u m p roce sso d e re con stru çã o d os p rin cíp ios in con scie n te s q u e con d icion a m a s su a s e sco-lh a s, su a s om issõe s, su a ê n fa se e m coloca r d e te rm in a d o p a re n te e m u m a lin h a e sp e cífica e m lu g a r d e ou tra e tc. Pa ra con stitu ir a s lista s, se le cion e i d u a s p e ssoa s e m ca d a u m a d a s q u in ze ca sa s e stu d a d a s n os trê s b a irros (cin co ca sa s p or b a irro). De u m tota l d e trin ta lista s, e scolh i a p rofu n d a rm e n a q u e la s q u e re a g ru p a ra rm a s p rin cip a is va ria çõe s re g istra d a s d u ra n -te a s e n tre vista s (a p roxim a d a m e n -te 1/ 3 d o tota l). Q u a n to à con stitu içã o d a s lista s, n a m a ioria d os ca sos con sta ta -se u m a re g u la rid a d e n a ord e m d a s p e ssoa s q u e sã o a li in clu íd a s: e m p rim e iro lu g a r, vê m os in te g ra n te s d a ca sa e d a con fig u ra çã o d e ca sa , os cola te ra is, os p rim os d e g ra u m a is p róxim o, os m a is d ista n te s, os m ortos e , fin a lm e n te , os p e rson a g e n s m ítco-re lig iosos (a n ce stra is, orixá s, sa n tos) n os q u a is a su a id e n tid a d e fa m i-lia r se e n ra íza .

(10)

A re fe rê n cia a o la ço b iológ ico é e xp lícita n a s form u la çõe s d os a g e n -te s: a e xistê n cia física d e u m a p e ssoa é d e -te rm in a d a p e lo a to se xu a l e n tre u m h om e m e u m a m u lh e r; a con d içã o d e e xistê n cia d e tod a p e ssoa é a fa m ília . Tod o in d ivíd u o h e rd a , p e lo sa n g u e , ca ra cte rística s p ositiva s e n e g a tiva s d o p a i e d a m ã e , os q u a is h e rd a ra m d os se u s re sp e ctivos p a is, e a ssim p or d ia n te . Essa a firm a çã o d e ve ria n os a u toriza r a in tu ir a con se -q ü ê n cia lóg ica d o p rin cíp io d a b ila te ra lid a d e d a h e ra n ça d o sa n g u e n a con stitu içã o d o u n ive rso d os p a re n te s. Esse p rin cíp io op e ra e fe tiva m e n te ca d a ve z q u e o a g e n te re con strói su a lin h a g e n e a lóg ica a p a rtir d a m ã e ou d o p a i. M a s a p a rtir d a con stitu içã o d os “ p róxim os” con sta ta -se q u e o p rin cíp io d o sa n g u e op e ra sim u lta n e a m e n te com u m ou tro p rin cíp io p a ra d e fin ir p roxim id a d e : a con sid e ra çã o. Assim o a g e n te com e ça , e m p rim e i-ro lu g a r, p or n om e a r se u s p a is, p a ssa n d o e m se g u id a a os se u s irm ã os (vive n d o ou n ã o n a ca sa ) e , e m se g u id a , a os ou tros m e m b ros d a ca sa , com la ços d e con sa n g ü in id a d e ou n ã o, d e p ois m e n cion a os tios m a te rn os (e m ce rtos ca sos se q u e r m e n cion a os tios p a te rn os), os p rim os d e p rim e iro g ra u e ou tra s p e ssoa s con sid e ra d a s com o p a re n te s, q u e fa ze m p a rte d a con fig u ra çã o d e ca sa s d a q u a l p a rticip a a su a p róp ria ca sa ; e m se g u id a m e n cion a os p rim os d e se g u n d o e te rce iro g ra u s e , fin a lm e n te , os a vós e os b isa vós.

O s a g e n te s, d u ra n te a e n u m e ra çã o, g e ra lm e n te org a n iza m a se q ü ê n -cia d a s p e ssoa s e m fu n çã o d a d istâ n -cia g e n e a lóg ica , a in d a q u e e xista m ca sos e m q u e os a g e n te s p e rm u ta ra m con scie n te m e n te a ord e m d a se q ü ê n cia e m fu n çã o d a im p ortâ n cia d o p a re n te n a su a vid a p e ssoa l. Alé m d isso, a re fe rê n cia à ca sa n a con stitu içã o d os u n ive rsos d a fa m ília é con sta n te . O a g e n te com e ça p or con stru ir se u u n ive rso a p a rtir d os p róxim os, q u e r d ize r, d a q u e le s q u e fa ze róxim p a rte d o “ n ós” (a ca sa e a con fig u ra çã o d e ca sa s). De ou tro la d o org a n iza m a se q ü ê n cia se p a ra n d o n itid a m e n te o la d o m a te rn o d o p a te rn o. Ale xa n d e r (1978:3), a o e la b ora r sp on -tan e ou s k in lists, viu n e ssa se p a ra çã o “ u m p rin cíp io d e b ifu rca çã o” . Em n osso con te xto, q u e r se ja n a s ca sa s com p osta s p e lo q u e a lite ra tu ra cla ssifica com o “ fa m ília e le m e n ta r” , q u e r se ja n a s ca sa s d ita s m on op a re n

-A con sid e ra çã o O sa n g u e

(11)

ta is, os a sce n d e n te s d a m ã e con stitu e m a g ra n d e m a ioria n a s lista s d ita -d a s p e los a g e n te s. É só -d e p ois -d e e sta b e le ce r a s re fe rê n cia s m a te rn a s q u e os a g e n te s m e n cion a m o la d o p a te rn o. Ele s tê m con sciê n cia cla ra d a s lin h a s m a te rn a e p a te rn a . É in te re ssa n te n ota r q u e os a g e n te s con s-troe m se u s u n ive rsos d e p a re n te s e n tre a s g e ra çõe s +2 e –1, p ois é n e ste ca m p o q u e se e stru tu ra m a s re d e s d e solid a rie d a d e , os circu itos d e troca s e d e coop e ra çã o tra d u zid os n a ca sa .

Lista e G e n e a log ia Pa rcia l d e Don a Elm a , De sce n d e n te d e D. C on ce içã o6

Mate rno s Pate rno s

Z1(65) B1(60) Z2 B2(56) B3(54) B4 B5(52)

M B B Z B M M M M M F(M H 1) M H 2 B B FB FZ

B2W1 (Z1) B2W2 (Z2) B2W1S G Z2H

Z1D Z1D2 Z1D3 Z1D4

B2W2D Z2S1 Z2S2

B2W1SW B2W1Sc

G S G D G d s

Z1H Z1S1 Z1S2 Z1D Z1S1W Z1S1d Z1S1d Z1S2W ZS2s ZS2d

Z 1D Z 1S 1 S 1S 2

B1S1 B1D1 B1S2 B1D2 B1S3 B1S4 B1S5 BIS6 B1W6

B1D

B1S1s B1S1d B1S1W

B1D1d B1D1s B1D1H

B1S2S B1S2Ss

B1D2s B1D2s

B1S4s B1S4d B1S4W

B3D B3S

B3S B3S W B3S d

B3Dd B3Dd B3DH B3Sd B3Ss B3Sd

B3Sd B3Ss B3Ss

Pate rno s (co ntinuação )

B5S B5D B5S B5S B5S B5D B5S

e tc.

FBS FBD FBDD

(12)

A re fe rê n cia p e rm a n e n te à ca sa m ostra q u e o te rm o fa m ília p od e se r e q u iva le n te a o d e ca sa . Q u a n d o o a g e n te a firm a q u e a con d içã o d e e xis-tê n cia d e tod a p e ssoa é a fa m ília d e ve -se re con h e ce r n isto q u e e m “ fa m í-lia ” ou “ ca sa ” h á u m a sig n ifica çã o on tológ ica . Tra ta -se d e u m lu g a r n o q u a l e p e lo q u a l e le se d e fin e e a p a rtir d o q u a l e le su ste n ta su a e xistê n cia socia l com o p e ssoa . O a g e n te situ a se u u n ive rso fa m ilia r n a e xp e riê n -cia cotid ia n a e n tre se u s sib lin g s, cu ja com p osiçã o se b a se ia e m crité rios d e p roxim id a d e con stru íd os a p a rtir d os p rin cíp ios d o sa n g u e e d a con si-d e ra çã o. Esta e scolh a si-d e a b orsi-d a g e m si-d a con stitu içã o si-d o p a re n te sco e si-d a fa m ília a tra vé s d a s re d e s d e re la çõe s con cre tiza d a s n a s ca sa s e n a s con fig u ra çõe s d e ca sa s ju stifica se p e lo fa to d e os p róp rios a fig e n te s a u tiliza -re m , p rivile g ia n d o, ta m b é m , n a su a p rá tica , a e xp e riê n cia in tra g e ra cio-n a l, com o sím b olo ce cio-n tra l d e cocio-n stru çã o d e re la çõe s e cio-n tre a g e cio-n te s.

As in form a çõe s colh id a s a p a rtir d e ssa s lista s d e p a re n te s m ostra m q u e e xiste u m a con ce p çã o d a fa m ília e d e p a re n te fu n d a m e n ta d a n os p rin cíp ios d a b ila te ra lid a d e d a h e ra n ça d o sa n g u e e d a con sid e ra çã o. O p rim e iro, re m e te a u m a su b stâ n cia com u m , com p a rtilh a d a e n tre in d iví-d u os q u e tê m os m e sm os p a is. E é a b ila te ra liiví-d a iví-d e q u e p rop orcion a a o a g e n te a p ossib ilid a d e d e con stru ir a d istin çã o e n tre o la d o m a te rn o e o la d o p a te rn o. O se g u n d o p rin cíp io, a con sid e ra çã o, a tiva o m e ca n ism o p e ssoa l e cole tivo d e se le çã o, d e in te g ra çã o e d e e xclu sã o. Ele re la tiviza a e ficá cia d o p rin cíp io d e sa n g u e , d a m e sm a m a n e ira q u e o sa n g u e re la -tiviza a e ficá cia d a con sid e ra çã o. Pa ra re stitu ir e ssa con stru çã o a o se u con te xto, h á q u e se e stu d a r o u n ive rso d a s re p re se n ta çõe s p rod u zid a s e m torn o d e sse s d ois p rin cíp ios, a ssim com o a su a e ficá cia n a s p rá tica s d os a g e n te s.

O princípio do sangue

Pa ra os a g e n te s, o q u e con stitu i a e ssê n cia d o p a re n te sco é o sa n -g u e . O sa n -g u e u n e os i-g u a is, p ois, se -g u n d o os a -g e n te s, u m a p e ssoa p od e h e rd a r d ois tip os d e sa n g u e : o b om e o ru im . O sa n g u e b om form a a p e r-son a lid a d e b á sica d a q u e le / a q u e é d e b oa ín d ole . Aq u e le q u e h e rd a o sa n g u e b om é m a rca d o p e lo tra b a lh o, p e lo e sforço p e rm a n e n te e m e n fre n ta r a s d ificu ld a d e s cotid ia n a s; te m “ jog o d e cin tu ra ” , a in te lig ê n cia d a q u e le q u e sa b e n e g ocia r com a vid a , com a s circu n stâ n cia s a d ve rsa s d o tra b a lh o e com os m e d ia d ore s d os p od e rosos. Tod a s e sta s q u a lid a d e s sin te -tiza m -se n os te rm os trab alh ad or e lu tad or.

(13)

sa b e r tra n sita r d e u m se tor d e a tivid a d e p a ra ou tro, e se n e ce ssá rio m ig ra r p a ra ou tros ce n tros im p orta n te s, cu ja m a ior d ive rsifica çã o p ossib ilita su a a b sorçã o n o m e rca d o. Esta d ive rsifica çã o d e a tivid a d e s tra d u z-se n o b a irro, n a fa m ília , p e la d ive rsifica çã o d a s p osiçõe s socia is: e la con strói a h e te -rog e n e id a d e e n tre os a g e n te s d e u m m e sm o e sp a ço socia l e re con fig u ra n o cotid ia n o a s p osiçõe s socia is con fin a d a s a o d om ín io d o p a re n te sco. A ca te g oria trab alh ad or re fe re -se ta m b é m à con stitu içã o d a m a scu lin id a d e , se n d o a re fe rê n cia p e la q u a l o a g e n te d e se xo m a scu lin o p rod u z e re ivin -d ica a le g itim i-d a -d e -d e p osiçõe s a -d q u iri-d a n o se u u m w e lt — e la -d e fin e , e n fim , o q u e é “ se r u m h om e m ” . N e sse con te xto e tn og rá fico, o q u e d á u m a sig n ifica çã o p a rticu la r a e ssa ca te g oria é a con fig u ra çã o d e se n tid os q u e e la su g e re . Se g u n d o os a g e n te s, o n e g ro d e ve con stru irse cotid ia n a -m e n te , n ã o só co-m o se -m e lh a n te , -m a s ta -m b é -m co-m o d ife re n te , a lg u é -m q u e se m p re te m a lg u m a coisa p a ra p rova r:

“ O lh e ! A cla sse m a is com p lica d a : p rofe ssor, n e g ro e ju iz. O ju iz, e le n ã o te m

d ire ito d e b e b e r n a ru a , d e se d ive rtir, e le n ã o te m d ire ito d e a n d a r, e le te m

q u e a n d a r ce rto. Se e le fize r d e n tro d e ca sa , d e n tro d e q u a tro p a re d e e se o

vizin h o sa b e r, e le é com e n ta d o. O p rofe ssor é o m od e lo, e le te m q u e a n d a r

ce rtin h o, q u e é e xe m p lo d os a lu n os. O n e g ro a n d a ce rtin h o ou q u a lq u e r

coi-sin h a q u e fize r e le é critica d o. En tã o a q u i, n o Bra sil, isso e u se i p orq u e e u

sou n e g ra e se i q u e é a ssim ” .

O q u e d á a o lu ta d or a su a d e te rm in a çã o d e ve n ce r é a raça, q u e r d ize r, a von ta d e d e vive r e d e con stru ir, cu ste o q u e cu sta r, u m lu g a r n o m u n d o. A ra ça , n e sse se n tid o, é u m a e n e rg ia d istin tiva d a s fa m ília s e stu -d a -d a s, e la se ria u m a q u a li-d a -d e -d o sa n g u e . A ra ça (com o te rm ôm e tro m ora l) p od e ta m b é m ca ra cte riza r o d om ín io d a fa m ília . Fa la se , p or e xe m -p lo, “ a ra ça d e fu la n o d e ta l” ou “ d a fa m ília d e fu la n o d e ta l” ; ou a in d a , a “ ra ça d e fu la n o” é u m a ra ça d e b oa g e n te ou g e n te d e san g u e b om . O se u op osto, o san g u e ru im , é in d ica tivo d e tod os os d e fe itos d e u m a p e s-soa : p re g u iça , in g ra tid ã o, e stu p id e z, in d iscip lin a , fe itiça ria , fe iú ra , e n fim , tu d o o q u e re m e te à d e sord e m , a o ca os, a o a n tissocia l. A op osiçã o sa n -g u e ru im / sa n -g u e b om n ã o é rí-g id a . Tra ta -se d e u m p rin cíp io d e cla ssifi-ca çã o q u e se a p lissifi-ca a g ru p os e p e ssoa s, m e m b ros ou n ã o d a fa m ília .

(14)

b ra n cos; p or se re m d e p ositá rios d o sa n g u e b om , e le s tê m m a is ra ça d o q u e os n e g ros. Pa ra d oxa lm e n te , o q u e d a ria m a is con sistê n cia a o sa n g u e d o b ra n co é a m istu ra , e ssa m isce g e n a çã o q u e fa rá d a socie d a d e b ra sile ira “ u m a ira ça só” — “ a ira ça b ira sile iira ” (ira ça b iológ ica ). O q u e se d e sta -ca , sob re tu d o n a s re p re se n ta çõe s d os a g e n te s, é o se g u in te : q u a n to m a is u m a p e ssoa te m a p e le n e g ra , “ n a riz a ch a ta d o” , “ ca b e los ru in s” , e ca ra c-te rística s n e g róid e s, m a is é con sid e ra d o n a tu ra lm e n c-te “ ru im ” . E com o q u e p a ra lib e ra re m -se d e ste p e ca d o orig in a l, os a g e n te s se con stroe m , se d e scon stroe m e se re con stroe m cotid ia n a m e n te n a s a u to-re p re se n ta çõe s d a s su a s “ core s” e d e su a “ ra ça ” (b iológ ica ).

É n e sse jog o d e re p re se n ta çõe s q u e se p rod u z o q u a d ro loca l d a e scolh a m a trim on ia l. N e sse n íve l, o sa n g u e , a lé m d e su a su b stâ n cia b io-lóg ica , tra n sform a -se e m u m a re fe rê n cia m ora l q u e tra d u z a e ssê n cia d o lu g a r d o n e g ro; e m u m a ca te g oria m ora l, m e ta fórica , q u e op e ra a s cla ssi-fica çõe s d a s d ife re n ça s d os p róxim os e d os d ista n te s, d os ca sá ve is e n ã o ca sá ve is, n a e scolh a m a trim on ia l (vid e M a rce lin 1996, ca p . IV). O sa n g u e tra n sce n d e o d om ín io d o p a re n te sco p a ra in te rp e n e tra r os d om ín ios cu l-tu ra is, ta is com o re lig iã o, n a çã o e tc. Tra n sform a -se e m p rin cíp io d e cla sifica çã o sociocu ltu ra l, e com o tod o p rin cíp io tra d u zid o n a p rá tica , con strói o p a ra d oxo d a s e xce çõe s, a a m b ig ü id a d e d a e xclu sã o e a a m b iva lê n -cia d a a ce ita çã o con d icion a l.

(15)

Da m e sm a m a n e ira q u e a ca sa é p e n sa d a n a ju n çã o d a s ord e n s n a tu -ra l e socia l, a fig u -ra d a m ã e loca liza -se , e m g e -ra l, n a ju n çã o d a ca sa e d a s re d e s d e p a re n te sco q u e se con stroe m e m torn o d e la . Ela é a m e m ória d a ca sa , o la ço e n tre a h e ra n ça fa m ilia r d o p a ssa d o e a s re d e s fa m ilia re s d o p re se n te , se m a s q u a is n e n h u m a e n tra d a d o re cé m -n a scid o n e ste m u n d o — ju lg a d o p or a lg u n s a g e n te s com o p e rve rso e e xclu sivo — é p ossíve l.

Eu d izia a n te s q u e é p e la m ã e q u e o p a re n te sco e n tra n o m u n d o. A fa m ília ta m b é m . A cria n ça , u m a ve z a q u i in trod u zid a , se rá con stru íd a e m u m a re d e a n te rior à su a e xistê n cia e n a q u a l e p e la q u a l e la se d e fin irá com o p e ssoa . Se a fa m ília e n trou n o m u n d o p e la m ã e , n ã o é su rp re e n -d e n te q u e a socie -d a -d e q u e se cria p a sse p e lo m e sm o m e ca n ism o. A “ fa m ília d a s m u lh e re s” (La n d e s 1967; Woortm a n 1987) e a s re d e s socia is q u e e la s con stroe m n ã o p rod u ze m u m a socie d a d e d e ca rê n cia , d e fa lta d e h om e n s e d e a b u n d â n cia d e m ã e s, u m a socie d a d e m a trifoca l... Tra ta -se d e u m a u n id a d e sociocu ltu ra l n a q u a l ce rtos la ços só sã o p ossíve is e tê m se n tid os q u a n d o tra n sita m p or u m lu g a r. En te n d e m os e n tã o p orq u e e m u m a d a s se q ü ê n cia s g e n e a lóg ica s, u m a g e n te , Se u Pa u lo, d e sig n ou os se u s p róxim os com o o se g u in te : M M 2 Z1 Z2 Z3 Z4 Z5 B1 B2 Z F 1/ 2B1 1/ 2B2 1/ 2B3 1/ 2B4 1/ 2Z, n o q u a l Z1-Z5 e B1, B2 a p a re ce m com o irm ã os, e n q u a n to d o la d o p a te rn o, 1/ 2B1-1/ 2B4 sã o d e sig n a d os com o se n d o m e io irm ã os e 1/ 2Z u m a m e ia irm ã . (N e sta ca sa , só Z2 e Z3 sã o filh a s d o m e s-m o p a i q u e Eg o).

A consideração

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e vita a coop e ra çã o, q u e se con strói e m u m con ju n to d e va lore s op ostos a o d e solid a rie d a d e , q u e n ã o in ve ste n a re la çã o com o p a re n te e q u e n ã o se re con h e ce n e sta re la çã o — n ã o se rá tid o com o p a re n te .

A id é ia d e con sid e ra çã o su g e re u m con ju n to d e p rop osiçõe s p a rti-lh a d a s p e los a g e n te s sob re o q u e e le s e n te n d e m com o ob rig a çõe s m ora is con tid a s n a s n oçõe s d e p a re n te e d e fa m ília . C om o já m e n cion e i a cim a , a id é ia b á sica q u e , se g u n d o os a g e n te s, tra d u z e ssa s ob rig a çõe s é a u n iã o e a cola b ora çã o. A m ã o d ire ita — ou q u a lq u e r p a rte d o corp o tom a d a isola d a m e n te — n ã o va le g ra n d e coisa , d ize m os a g e n te s. É a u n iã o e coisola b ora çã o d e ca d a m e m b ro d o corp o q u e o fa z fu n cion a r. Se m isso, o m u n -d o, a socie -d a -d e , a fa m ília , a ca sa ... n ã o e xistiria m m a is. As re la çõe s ob li-g ataire s (q u e fa ze m com q u e q u a lq u e r u m se sin ta ob rili-g a d o a cola b ora r) in a u g u ra m -se com o n a scim e n to. E com o tod a cria n ça e stá m a rca d a p or u m a d e ficiê n cia orig in a l, se g u n d o os a g e n te s, p ois d e p e n d e rá d e su a m ã e a in d a p or u m b om te m p o a n te s d e p od e r se cu id a r p a rcia lm e n te , os p a is (b iológ icos ou n ã o) tê m a ob rig a çã o d e socia liza r se u s filh os. Esta ob rig a -çã o in scre ve -se e m u m a re la -çã o d e troca m a is va sta , se g u n d o a q u a l tod o p a re n te te m a ob rig a çã o d e e d u ca r u m a cria n ça d e u m ou tro p a re n te , n ã o im p orta n d o q u a l se ja o se u g ra u d e p roxim id a d e con sa n g ü ín e a com e ste ú ltim o; d a í a a b u n d â n cia d os filh os d e cria çã o n a s zon a s p e sq u isa d a s. A socia liza çã o d a s cria n ça s e stru tu ra a s re la çõe s ob lig ataire s e n tre a s g e ra çõe s, con form e a con d içã o d e d ívid a , q u e te m orig e m n a con d içã o h u m a -n a . Um a ou tra ob rig a çã o m ora l d os p a re -n te s é a d e a ju d a r, p a rticip a r, cola b ora r: u m p a re n te é a q u e le com q u e m se p od e con ta r.

Esta s p rop osiçõe s su g e re m com o o u so d a fa m ília e d o p a re n te sco é se le tivo. O s a g e n te s se le cion a m se u s p a re n te s, ou a d e re m a e le s d e a cord o com se u s in te re sse s e sp e cíficos. O re con h e cim e n to e fe tivo colo-ca e m a çã o m e colo-ca n ism os d e se le tivid a d e — a con sid e ra çã o é a se le tivi-d a tivi-d e e m a çã o.

Casa, mit os f amiliares e t ransmissão de bens ent re gerações

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tra n sm issã o d a id e n tid a d e socioé tn ica e a té d a e con om ia p olítica d a h ie -ra rq u ia sócio--ra cia l q u e m old a a socie d a d e loca l.

Se n ã o é p ossíve l e stu d a r p le n a m e n te a s tra d içõe s fa m ilia re s e su a força op e ra n te n a con stitu içã o d a s in d ivid u a lid a d e s a p a rtir d a rotin a coti-d ia n a , é p re cisa m e n te p orq u e o coticoti-d ia n o e m ce n a é a o m e sm o te m p o u m a ce n a d e n e g ocia çõe s. O s a g e n te s n e g ocia m , n o in te rior e n o e xte rior d a s ca sa s e d a s con fig u ra çõe s d e ca sa s, su a s p osiçõe s, su a s e scolh a s, su a s su b re d e s d e p e rte n cim e n to, b e m com o os lu g a re s d e con flitos n a s re la -çõe s e n tre ig u a is.

A fe sta d e fa m ília p a re ce u -m e u m d os cód ig os p or e xce lê n cia p e los q u a is e u p od e ria ob se rva r o q u e , e m con d içõe s n orm a is n ã o se ria ob se r-vá ve l. O e stu d o d a s ce le b ra çõe s p e rm ite e sta b e le ce r ou tra s re la çõe s e n tre a p rod u çã o d o cotid ia n o n a su a re la çã o com o e sp a ço, com a m e m ória e com a s re p re se n ta çõe s d a m u d a n ça socia l e n tre os a g e n te s. A ce le b ra çã o d a fa m ília , se g u ra m e n te , n ã o é u m a e xclu sivid a d e d os g ru p os e stu d a d os. Ela é a d ra m a tiza çã o d a s re la çõe s sociocu ltu ra is — d e e xclu sã o ou d e in clu sã o — e m vig or n a socie d a d e b ra sile ira d e sd e a su a fu n d a çã o (Da M a tta 1991). N o ca so e stu d a d o, é im p ossíve l com p re e n d e r com p le ta -m e n te a s re la çõe s fa -m ilia re s, os se n tid os e os e n je u x q u e e la s co-m p or-ta m , se m p a ssa r p e lo e stu d o d a s fe sor-ta s.

As re p re se n ta çõe s e stu d a d a s p ossu e m u m a riq u e za sim b ólica e xce p -cion a l, q u e , p a ra se r p le n a m e n te e n te n d id a , d e ve se r re stitu íd a a o se u con te xto: tra ta -se d a s fe sta s d e fa m ília re a liza d a p e los d e sce n d e n te s d e Don a C on ce içã o (Xa n g ô e Sã o Be n e d ito). C om o ou tros g ru p os fa m ilia re s e stu d a d os n o Re côn ca vo, os d e sce n d e n te s d e Don a C on ce içã o p ossu e m m itos fa m ilia re s m u ito p od e rosos, q u e ju stifica m a s ce le b ra çõe s fa m ilia -re s. N os p róxim os p a rá g ra fos, te n ta -re i fa ze r u m -re su m o d a s n a rra tiva s ob tid a s ju n to a os m e m b ros d e ssa fa m ília . Por fa lta d e e sp a ço, n ã o p od e -re i a n a lisa r d e ta lh a d a e siste m a tica m e n te a ce le b ra çã o, n e m ta m p ou co a n a lisa r e e xp lora r a s im p lica çõe s d os m itos q u e a su ste n ta m (vid e M a r-ce lin 1996, ca p . V).

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vin h a re g u la rm e n te e m son h os p a ra e n sin a r a e la os se g re d os d a fa m ília , e os m od os d e tra n sm iti-los. A m ã e e n sin ou os se g re d os d e Xa n g ô, a s ra í-ze s m ística s e a s força s d e ste p od e roso O rixá , e e xig iu d e la u m a d e voçã o e te rn a a Sã o Be n e d ito e a Xa n g ô, q u e con se g u ira m lib e rta r os se u s fa m i-lia re s d a e scra vid ã o. Por isso, n o d ia d a ce le b ra çã o, d e ve -se p re p a ra r u m a g ra n d e fe sta , d a r d e com e r a tod o m u n d o, a b rir a p orta d a g e n e rosid a d e . Se g u n d o os a g e n te s, Sã o Be n e d ito e ra u m re lig ioso cu jos ta le n tos d e cozi-n h e iro e ra m icozi-n ig u a lá ve is; com o e le a m a va os p ob re s, d e ixa va re g u la r-m e n te o con ve n to, con tra a von ta d e d os se u s su p e riore s, p a ra d istrib u ir a com id a a os fa m in tos. Um d ia , a lg u é m d a com u n id a d e o d e n u n ciou e se u s su p e riore s com e ça ra m a ob se rvá -lo. N o m e io d a ru a , b e m p e rto d a m a ssa d os d e sp rovid os, se u s su p e riore s o p a ra ra m :

— O q u e e stá ca rre g a n d o n e sta b olsa ?, p e rg u n ta ra m .

— Flore s!, re sp on d e u , a rrisca n d o-se a m e n tir p a ra tira r os p ob re s d a m isé ria .

— Ab re e sta b olsa im e d ia ta m e n te !, ord e n a ra m se u s su p e riore s, o q u e e le fe z

se m h e sita r, p ois tin h a a ce rte za d e q u e , con tra e le , e con tra os p ob re s, De u s

n u n ca fica ria .

— Flore s!, e xcla m a ra m se u s su p e riore s a livia d os. E só flore s!, con firm a ra m .

A com id a h a via se tra n sform a d o e m flore s; ju n tos com e le , os su p e riore s a s d istrib u íra m a os p ob re s e , cla ro, d e p ois q u e re torn a ra m a o con -ve n to, lon g e d os olh a re s in d iscre tos, a s flore s se tra n sform a ra m e m com i-d a n a s m ã os i-d a q u e le s q u e a s tin h a m . De si-d e e n tã o, Sã o Be n e i-d ito é o p a tro-n o d os p ob re s. Pa ra os a g e tro-n te s, é u m a d a s ra zõe s p e la s q u a is a b isa vó d a Don a C on ce içã o d e ixou e sta h e ra n ça à fa m ília : p a ra q u e se u s d e sce n d e n -te s n u n ca sofra m d o m a l d a fom e . Don a C on ce içã o, a n -te s d a su a m or-te , e m 1982, e scolh e u d u a s h e rd e ira s, ou re sp on sá ve is p or e ssa h e ra n ça d a fa m ília : Don a Elm a , p a ra tom a r con ta d a fe sta d e Sã o Be n e d ito (o a sp e to ca tólico d a ce le b ra çã o) e Don a C lice , p a ra a s fe sta s d e Xa n g ô (o a sp e c-to se cre c-to d a ce le b ra çã o)7. Foi p or m e io d e u m a m u lh e r q u e e sta lin h a d e d e sce n d ê n cia e n trou n o m u n d o, e é p or m e io d e la s q u e se p e rp e tu a .

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-d o p a ra os m e m b ros -d a s ca sa s a p osiçã o -d e p o-d e r -d a q u e le s q u e p a rticp a m d o ce n tro d a con fig u ra çã o. M a s o q u e con fe re a e ste m od o d e m ob i-liza çã o u m ca rá te r e sp e cífico é o fa to d e te r sid o org a n iza d o e m torn o d a id e olog ia d o p a re n te sco, e n q u a n to p rin cíp io d e org a n iza çã o socia l. Esse m od o d e m ob iliza çã o a tiva u m a lin h a d e d e sce n d ê n cia (p a re n te s d e sa n -g u e e d e con sid e ra çã o) e , n u m se -g u n d o n íve l, os re cu rsos socia is (p a d ri-n h os, m a d riri-n h a s e a té m e sm o p a trõe s) e re lig iosos (os irm ã os d e sa ri-n to) tra d u zid os e m te rm os d e p a re n te sco. Assim , n ã o é o te rre iro ou a ca sa d e ca n d om b lé sob a d ire çã o d e u m a m ã e d e sa n to q u e su b m e te o p a re n te s-co b iossocia l a o p a re n te ss-co e sp iritu a l (s-com o é o ca so d a s ca sa s lig a d a s a os te rre iros e stu d a d a s p or Silve rste in 1979). N ã o se re cru ta o p rim e iro com vista s a re p rod u zir o se g u n d o, m a s é o p a re n te sco b iossocia l q u e re d e fin e o p a re n te sco e sp iritu a l n o se u d om ín io, m e sm o se a m a ior p a rte d os p a re n te s d a fa m ília sã o ta m b é m in te g ra n te s d e te rre iros. Fin a lm e n te , n u m te rce iro n íve l, e sse m od o d e m ob iliza çã o ca tiva os vizin h os e os a m i-g os d os b a irros n os q u a is os a i-g e n te s se con stroe m .

A fe sta d e fa m ília a p re se n ta -se com o u m e ve n to q u e rom p e o te m p o com u m e q u e se in scre ve n o con tin u u m d e u m te m p o fa m ilia r. Um a d e su a s ca ra cte rística s p rin cip a is con siste n a a u tog lorifica çã o e a u toim orta li-za çã o d a lin h a , d a fa m ília , d e m on stra d a s, p rim e ira m e n te , p e la e xib içã o d e ce rtos sig n os d a id e n tid a d e fa m ilia r. A e scolh a d a s core s d a s rou p a s d os a g e n te s os su b m e tia a o m e sm o re g im e m ítico e m ístico d o Xa n g ô fa m ilia r; os ob je tos ritu a is e ra m e n ta lh a d os n os e sp a ços m itolog iza d os (a ca sa d e Don a C on ce içã o); a ritu a liza çã o d a fe sta e a e scolh a d os ca n tos q u e a com p a n h a ra m os ritu a is e ra m com p le ta m e n te orie n ta d os p a ra a fa m ília , p a ra su a s ra íze s, se u s fu n d a m e n tos, a s su a s d im e n sõe s e se u s lu g a re s d e re p é rag e n o im a g in á rio cole tivo e in d ivid u a l. Esse s sig n os re in ve n ta m o lu g a r d a fa m ília n a socie d a d e loca l e re g ion a l, con vid a m n a a e fe tu a r u m a ce rta volta sob re si, sob re a e xistê n cia in d ivid u a l e cole -tiva . O s a g e n te s tin h a m con sciê n cia d e q u e e sse s sig n os con stitu e m u m a h e ra n ça sim b ólica e fa m ilia r e q u e p a rticip a m d e u m lu g a r cole tivo, n o q u a l o “ n ós” é con stru íd o n a ig u a ld a d e com os ou tros, e situ a cion a lm e n -te re a liza d o n a su a d ife re n ça .

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sa tisfa tória (n a s fe sta s os a g e n te s coloca m o con vid a d o b ra n co — se m p re u m h om e m — p a trã o, b e n fe itor, p rote tor, p a d rin h o, b e m à vista n o sa lã o, com o sím b olo d e statu s e d e con e xã o p olítica ). A b u sca p e rm a n e n te d e in te g ra çã o d e h om e n s b ra n cos d e cla sse m é d ia n a s fe sta s d e fa m ília tra -d u z a con sciê n cia -d os a g e n te s -d a h ie ra rq u ia sócio-ra cia l e -d e g ê n e ro e m cu rso e d a su a e con om ia p olítica n a socie d a d e loca l.

Conclusão

N e ste a rtig o, p rocu re i m ostra r con te xtos sig n ifica tivos e m q u e se con troe m , d e m od o va riá ve l, va lore s e p rá tica s fa m ilia re s d e n tro d e u m a m e s-m a cla sse socia l. Prop u s u s-m a e tn og ra fia q u e le va e s-m con ta ca te g oria s e e xp e riê n cia s (re p re se n ta çõe s e p rá tica s), d e te rm in a d a s p or p roce ssos socioh istóricos e cu ltu ra is, com o foco d e a n á lise d o d om ín io d a fa m ília e d o p a re n te sco e n tre os n e g ros n o Re côn ca vo d a Ba h ia . N e sta p e rsp e cti-va , a u n id a d e sociocu ltu ra l “ casa” e “ con fig u ração d e casas” re ve lou -se u m a ca te g oria ce n tra l n ã o só n a d e cifra çã o e in te rp re ta çã o d a s re la çõe s sociocu ltu ra is a li in scrita s, m a s ta m b é m n a re n ova çã o d e a b ord a g e n s a n trop ológ ica s d e p rá tica s e con d içõe s socioé tn ica s n a s su a s p a rticu la ri-d a ri-d e s. Ao foca liza r a ca te g oria ca sa , ta l com o con stru íri-d a p e los a g e n te s, e ta l com o re ve la d a n a s p rá tica s socia is, in d ica -se a n e ce ssid a d e d e u m re torn o à e tn og ra fia d a con stru çã o d e sse d om ín io d e re la çõe s socia is (a fa m ília e o p a re n te sco), n a s su a s va ria çõe s n o in te rior d a s cla sse s, d os se g m e n tos socia is d e n tro d e u m a cla sse , e d os lu g a re s é tn icos q u e os a rticu la m , d e m a n e ira a e sta b e le ce r n ovos te rm os d e com p a ra çã o in tra socie -ta l — e m p re sa n e ce ssá ria p a ra q u e a com p a ra çã o e a g e n e ra liza çã o se ja m p ossíve is (com o o d e se jou C orrê a 1982).

Re stitu ir o se n tid o d a ca sa com o ca te g oria cu ltu ra l é p a rtir d o lu g a r é tn ico-socia l n o q u a l e la se in ve n ta . A ca sa se con strói e se lê d e n tro d a s re la çõe s socioe con ôm ica s e cu ltu ra is d a socie d a d e . Ela d e ve se r p e n sa d a com o o lu g a r n o q u a l se sob re ssa e m a s con tra d içõe s e a s a m b iva lê n cia d a socie d a d e g lob a l, e m re la çã o a o g ru p o q u e se e stu d a . A h ie ra rq u ia socia l con ju g a d a com a h ie ra rq u ia ra cia l m old a tod os os n íve is d a socie -d a -d e b ra sile ira . Ela é con stitu tiva -d a s con -d içõe s socia is n a s q u a is a s ca sa s se con cre tiza m . N o e n ta n to, e sta a b ord a g e m n ã o é u m fim e m si, n ã o e sg ota a n e ce ssid a d e d e p e sq u isa r: e la é u m p on to d e p a rtid a q u e le va a vá ria s ru p tu ra s e p osicion a m e n tos te órico-m e tod ológ icos.

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Lou is H e rn s M a rce lin é p rofe ssor d e An trop olog ia e Sociolog ia n a Un ive rsi-d a rsi-d e rsi-d e M ia m i. Dirig e p e sq u isa s sob re Proce ssos Tra n sn a cion a is, Violê n cia , Fa m ília e Sa ú d e , n a Flórid a e n o C a rib e , ju n to a o H e a lth Se rvice s Re se a rch C e n te r e Sociocu ltu ra l Re se a rch C e n te r n o De p a rtm e n t of Psych ia try a n d Be h a viora l Scie n ce s d a Un ive rsid a d e d e M ia m i.

d e p roce ssos socioh istóricos m a is a b ra n g e n te s n os q u a is e la s se in se re m e se con fig u ra m . Se g u n d o, a in d issocia b ilid a d e d a casa e d a con fig u ra-ção d e casas, e n te n d id a s com o p roce sso, le va a in ve stig a r com o ou tros d om ín ios, ta is com o a p olítica , a re lig iã o, a s re la çõe s ra cia is e in te ré tn ica s — tra d icion a lm e n te e stu d a d os n a lite ra tu ra com o d om ín ios a u tôn om os ou e n tid a d e s p e r se , e xtra íd a s d a com p le xid a d e d o cotid ia n o — sã o a ti-va d os n a p rod u çã o d e re la çõe s e ti-va lore s fa m ilia re s. Um a ta l a b ord a g e m con d u z à ru p tu ra com o e sse n cia lism o e o ju ra lism o q u e m a rca ra m m u i-ta s ve ze s os e stu d os sob re “ a fa m ília n e g ra ” e / ou “ a fa m ília ” n o m e io p op u la r e d os se u s a ta vism os — m a trifoca lid a d e , d e sorg a n iza çã o, ile g iti-m id a d e (ve r a in trod u çã o e a n ota 1). Alé iti-m d isso, o iti-m od e lo casa e con fig u ração d e casa com o u n id a d e sociocu ltu ra l d e a n á lise su p õe o re con h e -cim e n to d e va ria çõe s n a s fu n çõe s cla ssica m e n te a trib u íd a s a o g ru p o d om é stico ou h ou se h old (p rod u çã o, d istrib u içã o e re p rod u çã o), se g u n d o con fig u ra çõe s loca is e é tn ica s p a rtilh a d a s p or u m a m e sm a cla sse socia l (N e ttin g , Wilk e Arn ou ld 1984; Ya n a g isa k o 1979; 1985). Fin a lm e n te , m in h a a b ord a g e m coin d u z à d e scoin stru çã o d os se in tid os p re se in te s in os voca -b u lá rios a n a líticos e n os m od e los q u e stion a d os n o in ício d e ste te xto, u tili-za d os p a ra d a r con ta d a ve rd a d e sociológ ica d os ou tros, se ja n a s e tn o-g ra fia s n a cion a is, se ja n a s form u la çõe s te órica s o-g e ra is. O a to d e d e scon s-tru çã o — e n te n d id o n o se n tid o p rop osto p or De rrid a , com o d e ss-tru tivo e con stru tivo — con siste n a con fron ta çã o d os te rm os d a tra d u çã o cu ltu ra l, m e d ia n te a s e tn og ra fia s d a fa m ília e d o p a re n te sco n o m e io p op u la r, com a s e la b ora çõe s te órica s sob re o te m a . A in stitu içã o ca sa é u m lu g a r, u m m u n d o d e e th os, a p a rtir d o q u a l os “ siste m a s d e d isp osiçõe s” fu n d a m e n -ta is se con stroe m e se con fig u ra m . E com o tod o lu g a r, a ca sa p a rticip a d e u m a h ie ra rq u ia cu jos te rm os e sp e cíficos, n o Bra sil, sã o con stitu íd os h isto-rica m e n te p e los m od e los sociocu ltu ra is in stitu íd os p e la e scra vid ã o e colo-n iza çã o.

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Not as

* Ag ra d e ço ca lorosa m e n te a os p rofe ssore s M oa cir Pa lm e ira — a q u e m d e d i-co e ste a rtig o —, Afrâ n io G a rcia , M a rcio G old m a n , An tôn io C a rlos d e Sou za Lim a , C a rlos Fa u sto e Ed u a rd o Vive iros d e C a stro, d o M u se u N a cion a l/ PPG AS-UFRJ , a ssim com o a M ich a e l H ou se m a n , d o C N RS, p or su a g e n e rosid a d e in te le ctu a l. A tra d u çã o d e ste a rtig o foi p ossíve l g ra ça s a o a p oio d e Afrâ n io G a rcia e à d ilig ê n cia d e Eliza b e th Lin h a re s. Ao lon g o d e tod a a p e sq u isa b e n e ficie im e d o a p oio fin a n -ce iro d a An p ocs, d a C a p e s e d o C e n tro d e Estu d os AfrAsiá ticos, a os q u a is re n o-vo, a q u i, m e u p rofu n d o re con h e cim e n to. O tra b a lh o d e ca m p o q u e se rve d e b a se à p rod u çã o d e ste te xto foi re a liza d o e n tre 1993 e 1996 e m cid a d e s d o Re côn ca vo b a ia n o, e m e sp e cia l C a ch oe ira . Ao lon g o d e tod a a p e sq u isa p rivile g ie i a e n tre -vista , a ob se rva çã o, o q u e stion á rio, a ssim com o o su rv e y com o com p le m e n to à

d é m arch e a n trop ológ ica . Em 1993, vivi n o Re côn ca vo d u ra n te se te m e se s. Ao lon

-g o d e ste p e ríod o, cole te i in form a çõe s d e m o-g rá fica s, socio-g rá fica s, -g e n e a ló-g ica s e re sid e n cia is e m 45 ca sa s (q u in ze p or b a irro — a p roxim a d a m e n te 10% d o tota l d e re sid ê n cia s) p or m e io d e q u e stion á rios, com p le m e n ta n d o a s in form a çõe s g e ra is re colh id a s ju n to a o IBG E. Ta m b é m e n tre viste i p e ssoa s p ré -se le cion a d a s n os b a ir-ros e m q u e stã o. N a m in h a se g u n d a e sta d a d e q u a tro m e se s, e m 1994, e scolh i trê s d a s q u in ze u n id a d e s d om é stica s (p or b a irro) q u e se rvira m d e b a se à m in h a a m os-tra , p rove n ie n te d e trê s b a irros d ife re n te s, p a rtícip e s d a m e sm a re d e d e u n id a d e s d om é stica s (con fig u ra çã o d e ca sa s) (ve r n ota 4). En tre vista s e m p rofu n d id a d e fora m fe ita s com tod os os m e m b ros a d u ltos (e e m ce rtos ca sos a s cria n ça s) d e ca d a u m a d e ssa s ca sa s, a ssim com o com a lg u n s m e m b rosch a ve d e su a re sp e ctiva con fig u ra çã o. En tre 1994 e 1996, re a lize i focu sg rou p d iscu ssion s, e p a rticip e i in te n -sa m e n te d e ce rtos a con te cim e n tos sig n ifica tivos n a vid a d os a g e n te s, com o a s fe ta s com u n itá ria s e a s “ fe sta s d e fa m ília ” . O te rm o “ a g e n te ” re fe re -se a q u i à s p e ssoa s e n tre vista d a s e ob se rva d a s e m su a s p rá tica s cotid ia n a s, a s p rop osiçõe s fu n -d a m e n ta is p a rtilh a -d a s p e la m a ioria -d os h a b ita n te s -d os b a irros e stu -d a -d os e stã o re la ta d os e form u la d os n e ste te xto d o se g u in te m od o: “ d e a cord o com os a g e n -te s” ou “ se g u n d o a s re p re se n ta çõe s d os a g e n -te s” . Sob re o con ce ito d e a g e n -te , ve r Bou rd ie u (1977, 1980); sob re os p rob le m a s e p iste m ológ icos coloca d os p e la g e n e ra liza çã o d a s p rop osiçõe s fu n d a m e n ta is ou p a rticu la re s a u m d om ín io sociocu ltu ra l, ve r G e e rtz (1973); Sch n e id e r (1980, 1984); Sm ith (1984, 1988); Ya n a g isa -k o (1984, 1987).

1 De sd e os tra b a lh os d e Fra zie r (1939) e d e H e rsk ovits (1941) — tra b a lh os

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(H e rsk ovits)? A p a rtir d a í, tod o u m ca m p o foi a b e rto à sociolog ia e à a n trop olog ia n orte -a m e rica n a s. Essa s a b ord a g e n s torn a ra m -se p a ra d ig m a s p a ra a s p e sq u isa s sob re “ a fa m ília n e g ra ” n ã o som e n te n os Esta d os Un id os, m a s ta m b é m n o C a rib e e e m a lg u m a s re g iõe s d a Am é rica C e n tra l. N a Am é rica d o Su l, p rin cip a lm e n te n o Bra sil, e m fu n çã o d o jog o in stitu íd o p e la s re la çõe s e n tre os con ce itos d e ra ça , cla s-se e n a çã o — re la çõe s q u e tra d u ze m , e vid e n te m e n te , a ord e m ra cia l e socioe co-n ôm ica e m vig or (Sk id m ore 1974; Wa d e 1994) — a s p rá tica s fa m ilia re s e co-n tre os n e g ros n ã o con h e ce u o m e sm o d e stin o. N o Bra sil, a s id é ia s d e m iscig e n a çã o e d e d e m ocra cia ra cia l p e rm itira m à s ciê n cia s socia is con stru ir o ob je to “ fa m ília ” a p a rtir d e u m a re p re se n ta çã o d om in a n te , a fa m ília p a tria rca l, n a q u a l a org a n iza -çã o fa m ilia r d os e scra vos e d os se u s d e sce n d e n te s é p e n sa d a som e n te com o u m com p on e n te a g re g a d o à fa m ília p a tria rca l b ra n ca (Sa m a ra 1987). N e sse con te xto, o te m a “ fa m ília ” — ta n to q u a n to o d e ra ça e d e n a cion a lid a d e — foi ce n tra l p a ra a con stitu içã o d e u m d iscu rso a ca d ê m ico n a cion a l sob re p rá tica s sociocu ltu ra is d a socie d a d e b ra sile ira . A d iscu ssã o e m cu rso, ju sta m e n te p e la p osiçã o q u e ocu p a n o p e n sa m e n to n a cion a l, m ostra o q u a n to a s re p re se n ta çõe s socia is e in te le ctu a is a e la a ssocia d a s, a ssim com o a s a b ord a g e n s u tiliza d a s, sã o con stru íd a s e m fu n çã o d e re la çõe s e e n je u x socia is e sim b ólicos q u e a s su ste n ta m .

2 N o ca so b ra sile iro, p od e -se p e riod iza r a p rod u çã o in te le ctu a l sob re fa m

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com a a b ord a g e m e com a te se fre yria n a , q u e con d u zirá à con stru çã o d o ob je to “ fa m ília ” n a su a re la çã o com a cla sse (Alvim 1979; Bila c 1978; Du rh a m 1973; Fa u s-to N e s-to 1982; M a ce d o 1979; Woortm a n n 1982), a p a rtir d a s te oria s d e g ê n e ro (Alm e id a 1982; Bila c 1978, Di G iova n n i 1983; Woortm a n n 1987), b e m com o in ve s-tig a n d o ou tros a sp e ctos a té e n tã o in e xp lora d os ou sim p le sm e n te ig n ora d os p e la b ib liog ra fia , ta is com o ca sa m e n to e org a n iza çã o fa m ilia r e n tre e scra vos (G ra h a m 1976; N izza d a Silva 1984; Sle n e s 1983), e o siste m a d e ca sa m e n tos n o Bra sil colo-n ia l (N izza d a Silva 1976).

3 C f. Sch n e id e r 1980; 1984. E, e m u m a re a p rop ria çã o crítica d e Sch n e id e r,

Ale xa n d e r 1984; Sm ith 1984, 1988; Ya n a g isa k o 1984, 1987).

4 N o d e corre r d a p e sq u isa d e ca m p o, o te m a d a ca sa foi d e lon g e o m a is

re corre n te n os d iscu rsos e re p re se n ta çõe s d os a g e n te s. C om o ve re m os, a id é ia d e ca sa re fe re -se , n a re g iã o e stu d a d a , n ã o som e n te à con stru çã o física , m a s ta m b é m à s re la çõe s e stru tu ra is d e n tro d a s ca sa s e e n tre e la s, à s p e ssoa s q u e a s h a b ita m e a os m itos q u e a s fu n d a m . Ela se re fe re a o u n ive rso fa m ilia r e m p e rp é tu a tra n sfor-m a çã o, a u sfor-m lu g a r on tológ ico socioe sp a cia l q u e se d e fin e e sfor-m te rsfor-m os id e n titá rios ou e m te rm os d e lig a çõe s a fe tiva s, fa m ilia re s ou d om é stica s (d on d e o sin ta g m a “ con fig u ra çã o d e ca sa s” ). A ca sa , e m su a con fig u ra çã o, é a q u i con stru íd a com o u m a u n id a d e sociocu ltu ra l e m p írica e a n a lítica d e b a se . Ela n os p e rm ite e xp lora r a s form a s d a s re la çõe s socia is q u e e la tra d u z, circu n scre ve e a rticu la , a ssim com o os m od os d e p rod u çã o e re p rod u çã o d e id e n tid a d e s e d e h ie ra rq u ia s n o loca l e stu -d a -d o. C om o ca te g oria a n a lítica , o con ce ito -d e ca sa (m aison ) foi p rop osto p or Lé vi-Stra u ss p a ra d e sig n a r “ e ssa s u n id a d e s q u e n ã o se d e ixa m d e fin ir n e m com o fa m í-lia s, n e m com o clã s ou lin h a g e n s” (1991). Lé vi-Stra u ss (1979) in sp irou -se n a m

ai-son d e s n ob le s d a Eu rop a m e d ie va l e u tilizou o con ce ito p a ra re in te rp re ta r a e tn

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p ion e iros re a liza d os sob re a ca sa n a su a re la çã o com o tra b a lh o n a s p la n ta çõe s p e rn a m b u ca n a s (Pa lm e ira 1977; G a rcia 1983), n a su a d im e n sã o cosm ológ ica (Woortm a n 1981), e n a s su a s d im e n sõe s id é log ica e h ie rá rq u ica (Fre yre 1977; 1936; Da M a tta 1985).

5 N a sce n d o à s costa s d a Ba ía d e Tod os os Sa n tos, o Re côn ca vo Ba ia n o a b

ri-g a d e ze n a s d e m u n icíp ios e con stitu i u m d os re se rva tórios d a h e ra n ça a frica n a n a socie d a d e b ra sile ira . N a h istória d a Ba h ia , o Re côn ca vo d e sta cou se p e la s g ra n -d e s p la n ta çõe s -d e ca n a --d e -a çú ca r e -d e fu m o u tiliza n -d o m ã o--d e -ob ra e scra va . A cid a d e d e C a ch oe ira , fu n d a d a n o sé cu lo XVI, te ve u m p a p e l ca p ita l n e ssa e con o-m ia , o q u e e xp lica , h oje , su a con fig u ra çã o socioé tn ica p a rticu la r. C on stru íd a a o la d o d o Rio Pa ra g u a çú , a cid a d e foi p a ssa g e m ob rig a tória e n tre a s va sta s re g iõe s d o in te rior e a ca p ita l Sa lva d or. Su a p osiçã o e stra té g ica , con ju g a d a com a su a im p ortâ n cia e con ôm ica , fize ra m d e la u m a d a s cid a d e s m a is rica s d os sé cu los XVIII e XIX. N o m u n icíp io d e C a ch oe ira , a cu ltu ra d o ta b a co e d a ca n a -d e -a çú ca r fora m re le g a d a s a se g u n d o p la n o. As a n tig a s p lan tation s fora m tra n sform a d a s e m fa ze n -d a s, h oje e m -d ia p ou co p ro-d u tiva s. M a is -d e 55% -d os tra b a lh a -d ore s p e rm a n e ce m sob o re g im e tra d icion a l d e tra b a lh o, com o m e e iros. O s n e g ros, d istrib u íd os n e s-sa s fa ze n d a s, tra b a lh a m p or con ta p róp ria , cu ltiva n d o m a n d ioca , d e n d ê , la ra n ja , a lé m d e fe ijã o e p rod u tos d e su b sistê n cia . Alg u m a s fa ze n d a s te n ta m ra cion a liza r a p rod u çã o: a p e cu á ria e xte n siva ocu p a ce rca d e 7% d e sta s, se g u n d o m e u s d a d os; a a g rop e cu á ria , 5% ; a cu ltu ra d o ta b a co, 10% ; e a d a ca n a -d e -a çú ca r, 30% . O s p rin cip a is p rop rie tá rios n ã o m ora m n a re g iã o. Se g u n d o fon te s d o IBG E loca l, a tu a lm e n te , u m a b oa p a rte d a e con om ia (40% ) d a cid a d e d e C a ch oe ira su b siste d a a g ricu ltu ra , ce rca d e 20% d e p e n d e d o com é rcio, 25% , d a in d ú stria a rte sa n a l e a g rícola e 10% , d o se tor d e se rviços. O ce n so d e 1991 con fe re a o m u n icíp io d e C a ch oe ira 28.258 h a b ita n te s, d os q u a is 14.172 re sid e m n a re g iã o u rb a n a , e m 4.016 d om icílios. A p e rife ria d e C a ch oe ira é e n te n d id a a q u i com o u m con ju n to d e b a ir-ros p ob re s e m a rg in a liza d os q u e p a rticip a m , e m ce rta m e d id a , d a vid a socia l e e con ôm ica d a cid a d e . A p e rife ria é d ivid id a e m se te b a irros q u e con tê m m a is d e 80% d a p op u la çã o d e C a ch oe ira . Escolh i tra b a lh a r com trê s d e sse s b a irros: o b a ir-ro no1, d e 150 d om icílios, q u e d e u m a p la n ta çã o colon ia l foi tra n sform a d o, n o

fin a l d o sé cu lo XIX, e m u m a fá b rica d e p a p e l, e cu jos h a b ita n te s sã o, e m su a m a io-ria , d e sce n d e n te s d e e scra vos e d e lib e rtos d o te m p o d a C olôn ia . De ste b a irro re ti-re i o e xe m p lo d a fa m ília d e Don a C on ce içã o, com o ilu stra çã o; o b a irro no3 te m

450 d om icílios e o b a irro no2, 210. A m é d ia d os com p on e n te s d e ca d a ca sa é d e

5,8 p e ssoa s. A e stru tu ra d e m og rá fica d e m on stra u m a p op u la çã o m u ito jove m com ta xa d e a lfa b e tiza çã o d e 40% p a ra a d u ltos e 60% e n tre os m e n ore s d e 10 a n os, se g u n d o o IBG E loca l. O s a d u ltos, 70% n e g ros e 30% m e stiços (se g u n d o m e u s d a d os) tra b a lh a m com o a g ricu ltore s sa zon a is, 34% n o se tor d e se rviços e com é rcio, 18% com o e m p re g a d a s d om é stica s e 13% sã o d on a s d e ca sa (n ã o h á in form a -çõe s p a ra os d e m a is). A re lig iã o d om in a n te a ju lg a r p e la d e cla ra çã o d os a g e n te s é o ca tolicism o, m a s a p rá tica re lig iosa com u m e stá lig a d a a o ca n d om b lé . N o b a irro no1 a te rra p e rte n ce à fá b rica q u e le va o n om e d o b a irro, n o b a irro no2 a te rra é

d e p rop rie d a d e d a Pre fe itu ra , e n o b a irro no3, e m b ora a te rra ta m b é m p e rte n ça à

(26)

Ref erênciais bibliográf icas

ALEXAN DER, J a ck . 1984. “ Love , Ra ce , Sla ve ry a n d Se xu a lity in J a m a ica n Im a g e s of th e Fa m ily” . In : R.T. Sm ith (e d .), Kin sh ip , Id e olog y an d Practice

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N ós M u lh e re s Ela s a s Pa troa s e Ela s a s Em p re g a d a s” . In : Alm e id a e t a lli.

6 Esta ta b e la ilu stra a te n d ê n cia d a s se q ü ê n cia s g e n e a lóg ica s n o m e io e stu

d a d o e a im p ortâ n cia d a ca sa n a con stitu içã o d o u n ive rso d e p a re n te s; i.e ., d a q u e le s q u e fa ze m p a rte d o “ n ós” . C om o d isse , os a g e n te s org a n iza m a se q ü ê n cia se -p a ra n d o n itid a m e n te o la d o m a te rn o d o -p a te rn o, com u m con h e cim e n to m a is -p ro-fu n d o d o p rim e iro. O s a g e n te s in clu e m n a lista d e p a re n te s p e ssoa s q u e n ã o tê m n e n h u m a re la çã o b iológ ica com e le s (com o n os ca sos d e B2W2D B2W1 (Z 1) B2W2 (Z 2) B2W1S Z 2S1 Z 2S2 e m q u e Z 1 e se u s filh os sã o con sid e ra d os p a re n te s e lista -d os an te s -d e ou tros p a re n te s -d e sa n g u e ). As con se q ü ê n cia s -d e sse s -d a -d os sob re te oria s con ve n cion a is d e n ota çã o a ssim com o sob re o p a p e l d a g e n e a log ia b iológ ica n o e n te n d im e n to d o p a re n te sco sã o siiológ n ifica tiva s. Lim ite im e a q u i a a p re -se n ta r e s-se s d a d os com o ilu stra çã o d a org a n iza çã o d a s -se q ü ê n cia s, d e a cord o com

e th os d a ca sa . As d iscu ssõe s a n a lítica s sob re g e n e a log ia e n q u a n to ta l, n ã o fora m

d e lib e ra d a m e n te in clu íd a s n e ste a rtig o p or q u e stã o d e e sp a ço. Utilize i o siste m a d e n ota çã o ta l com o su g e rid o p or Ba rn e s (1967) (ve r, ta m b é m , C on k lin 1964). Assim , M = m ã e ; F = p a i; W = e sp osa ; H = e sp oso; G = g e rm a n o; Z = irm ã ; B = irm ã o; S ou s = filh o (m in ú scu lo p a ra filh o d e a té 10 a n os d e id a d e ); D ou d = filh a (m in ú scu lo p a ra filh a d e a té 10 a n os); C ou c = filh os cu jo se xo n ã o foi id e n tifica d o p e los in for-m a n te s (for-m in ú scu lo p a ra cria n ça s d e a té 10 a n os). O n ú for-m e ro à d ire ita d o k in ty p e in d ica a ord e m d e n a scim e n to; n ú m e ros e n tre p a re n te se s in d ica m a id a d e a b solu -ta d o in d ivíd u o. Assim , p or e xe m p lo, d e ve -se le r a n ta çã o B2W1SW com o: a e sp osa (W) d o filh o (S) d a p rim e ira e sp oosa (W1) d o se g u n d o irm ã o (B2) d e Eg o. O s sím -b olos su -b lin h a d os re p re se n ta m u m p a re n te sco fictício (p or con sid e ra çã o); a q u e le s e m itá licos re p re se n ta m os m ortos. A m e ta d e e sq u e rd a d a ta b e la e xp õe a s se q ü e n -cia s d o la d o m a te rn o (p re d om in a n te ); a d ire ita , a s d o la d o p a te rn o.

7 As fe sta s p ossu e m se m p re e sse s d ois a sp e ctos: u m a b e rto e ca tólico, e ou tro

Referências

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