A BATALHA DE SÃO JOSÉ DO NORTE
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LUIZ HENRIQUE TORRES'
RESUMO
Este artigo destaca alguns acontecimentos ligados à participação de Rio Grande e de São José do Norte na Revolução Farroupilha. A ênfase está voltada à Batalha de São José do Norte nas versões de Giuseppe Garibaldi e de Bento Gonçalves da Silva.
PALAVRAS-CHAVE: Revolução Farroupilha; São José do Norte; Rio Grande; Garibaldi.
1-
INTRODUÇÃOA Revolução Farroupilha constituiu-se, entre as diversas rebeliões
regenciais, no conflito que em maior risco colocou a manutenção da
integridade territorial do Brasil. O conhecimento histórico desse fenômeno
tem sido analisado sob os mais diversos pontos de vista, gerando, por
conseguinte, discrepantes versões sobre o tema.'
Os limites do separatismo, neste movimento, são pontos
controvertidos e polêmicos. Em 1835, Bento Gonçalves declara que após a
deposição do presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul,
Fernandes Braga, seria encerrada a rebelião. Porém, as esperanças de
solução pacífica para o conflito foram frustradas com a persistência da
política opressiva do Império. A formação de uma república independente
foi o último recurso utilizado pelos rebeldes frente
à
inflexibilidade doGoverno Central. Segundo um manifesto assinado pelo presidente da
República Rio-Grandense, Bento Gonçalves, "provocações revoltantes,
perseguição insuportável e intoleráveis denegações de justiça" teriam
conduzido a Província ao "pavoroso anfiteatro onde hoje luta e se
despedaça, assoberbado pelo mais execrável abuso da força, pela mais
horrorosa prepotência".
Os revoltosos teriam sido "forçados" a buscar o separatismo, frente
à
total insensibilidade do Governo Imperial. Um fator de indignação dos
• Professor do Dep. de Biblioteconomia e História - FURG. Doutor em História do Brasil. Conferência apresentada no Seminário" 160 anos da Batalha de São José do Norte". São José ~o Norte, 12 de julho de 1999.
Ver ALVES, Francisco das Neves; TORRES, Luiz Henrique.
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R e v o lu ç ã o F a r r o u p ilh a : história & hlstoriografia. Porto Alegre: Evangraf, 1994.líderes do movimento era a desigual distribuição de rendas entre as
províncias, quando, apesar da elevada produção, o retorno não
correspondia
à
arrecadação. Nesse manifesto encontram-se acusações deque parte das dificuldades derivam-se do fato de o Rio Grande do Sul ter de
sustentar outras províncias, declarando Bento Gonçalves que
"alimentávamos os outros na abundância e perecíamos de miséria,
sustentávamos o fausto, as extravagâncias de ministros dilapidadores e
não podíamos satisfazer as mais urgentes exigências da sociedade em
que vivíamos".
Neste
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M a n ife s to F a r r o u p ilh a ainda denunciava-se que o governo imperialtem consentido que se avilte o pavilhão brasileiro por uma covardia
repreensível, pela má escolha de seus diplomatas e pela política falsária e
indecorosa de que usa para com as nações estrangeiras. Tem feito tratados com potências estrangeiras contrários aos interesses e dignidade da Nação. Faz pesar sobre o povo gravosos impostos e não zela os dinheiros públicos. Tem contraído dívidas tais e por tal maneira que ameaçam a ruína da Nação. Tem permitido contrabandos vergonhosos extremamente prejudiciais. Faz leis sem utilidade pública e deixa de fazer outras de vital interesse para o povo.
Esgota os cofres nacionais com despesas supérfluas e não cuida do
melhoramento material do país. Não aproveita nem ao menos sabe conservar
as riquezas naturais do solo brasileiro. Não administra as províncias
imparcialmente. Permite a mais escandalosa impunidade em seus agentes, desprezando as queixas que contra eles se dirigem [...] [Esses e] outros [...] males nos trouxeram a íntima convicção da impossibilidade de avançarmos na carreira da civilização e prosperidade, sujeitos a um govemo que há formado o
projeto iníquo de nos submeter àmais abjeta escravidão, ao despotismo mais
abominável. Bento Gonçalves da Silva, 29 de agosto de 1838.
2 -
ANTECEDENTES DA BATALHA DO NORTEA eclosão do movimento farroupilha, com o ataque a Porto Alegre em
20 de setembro de 1835, provocou a fuga do presidente da Província do Rio
Grande de São Pedro, Antônio Rodrigues Fernandes Braga, o qual, depois
de fazer uma limpeza nos cofres do palácio do governo, embarcou na
escuna "Rio-Grandense", comboiado pela canhoneira "19 de Outubro",
seguindo para a cidade do Rio Grande. Braga, representante do ImpériO,
organizou as primeiras iniciativas de resistência legalista contra 05
revolucionários farroupilhas, enquanto estes empossavam o vice-presidente
Marciano Ribeiro, acreditando que desta forma as elites rio-grandenses
obteriam maiores ganhos políticos e econômicos com a troca de
governante. Em apenas uma semana, somente Rio Pardo, São Gabriel e
Rio Grande não aderiram à nova conjuntura política, tornando-se redutos de
resistência legalista que os dez anos seguintes da revolução aprofundariam.
74 BIBLOS, Rio Grande, 13: 73·82, 2001.
Um acontecimento, a seguir narrado, ligando a presença de Braga e
o papel da Câmara de Vereadores de Rio Grande, demarca um capítulo da
partiCipação rio-grandina no movimento farroupilha e assinala o clima de
tensão que prosseguiria até a tentativa farroupilha, através de Bento
Gonçalves da Silva2, de conquistar a posição ocupada pela então Vila de
São José do Norte no ano de 1840.
Este acontecimento está relacionado com um personagem de
destaque no movimento farroupilha, Domingos José de Almeida, um
fervoroso liberal que se tornou ministro e secretário do Interior da República
Rio-Grandense. Almeida nasceu em Diamantina (Minas Gerais) em 1797 e
faleceu em Pelotas em 1871. Trabalhou no comércio, vindo ao Rio Grande
do Sul em 1819 para buscar tropas de mulas, e fixou-se em Pelotas, sob
a proteção de comerciantes mineiros. Em 1826, edificou uma charqueada,
que se tornou um estabelecimento referencial para aplicação da energia
a vapor. Em 1832, formou sociedade de navegação com Antônio Gonçalves
Chaves e outros empresários, utilizando a barca a vapor L ib e r a l, que
fez a viagem inaugural entre Pelotas e Rio Grande em
7
de outubrode 1832.
Proprietário de uma frota de lanchões, iates e veleiros de alto
mar para transporte do charque, tornou-se coronel do corpo de cavalaria
da Guarda Nacional. Na política, foi eleito deputado
à
AssembléiaProvincial, envolvendo-se com os revolucionários liberais. Foi preso
pelos imperiais em 2 de outubro de 1835 e posteriormente libertado,
tornando-se um dos mais importantes nomes ligados
à
RevoluçãoFarroupilha. Organizou ministérios, secretarias, arsenais, fábricas e
serviço de correio para a manutenção da República Rio-Grandense.
Além de participar do projeto de elaboração da Constituição da República
Rio-Grandense, Almeida exerceu a militância jornalística, chegando,
segundo Moacyr Flores, "a vender 16 escravos em Montevidéu para
comprar o prelo para imprimir o jornal O P o v o , órgão oficial da República".
O historiador Othelo Rosa definiu Almeida como "o verdadeiro estadista
da Revolução de 1835".
2
Nascido a 23 de setembro de 1788, em Triunfo, seus pais lhe haviam planejado o futuro ligadoàIgreja, atribuindo a ele uma suposta vocação clerical. A trajetória de Bento Gonçalves da Silva fugiu ao destino de pregar a palavra de Deus na condição de padre, e assumiu a liderança de um movimento que convulsionou a Província durante uma década, Antes da Revolução, Bento transitou como militar e estancieiro na fronteira entre o Uruguai e o Rio Grande do Sul. Casou-se com a uruguaia Caetana Garcia em 1814 e estabeleceu-se na Banda O?~ntal. Dedicou-se a atividade de estancieiro. A partir de 1825 incrementou a participação militar nas guerras entre Uruguai, Argentina e Brasil. Tornando-se coronel de Estado Maior ~Ssumindo o comando da fronteira e dos Guardas Nacionais. Despontou, pelo espírito de liderança e experiência na política provincial e platina, como o líder do movimento liberal-republicano farroupilha e um dos maiores inimigos do Império. Empobrecido pela guerra civil, faleceu de pleurisia em 1847.
BISLOS, Rio Grande, 13: 73-82, 2001.
3 - TENSÃO NA CIDADE
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A convicção liberal de Almeida pode ser observada no opúsculo
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C id a d ã o D o m in g o s J o s é d e A lm e id a a s e u s C o m p a tr io ta s , datado de 29 de
outubro de 1835. Neste relato, o autor expressa a sua indignação com os
métodos brutais usados pelos seguidores de Antônio Rodrigues Fernandes
Braga contra os inimigos políticos. Almeida foi preso em Pelotas em 2 de
outubro de 1835 e trazido para o cais de São José do Norte, onde ficou
retido numa escuna de guerra imperial.
O
receio de ser executado pelasforças imperiais resultou num relato denso que conciama as forças liberais e
republicanas a não aceitarem a tirania dos representantes do centralismo
monárquico no Rio Grande do Sul.
Com a divulgação da notícia da prisão de Almeida, Bento Gonçalves
envia correspondência
à
Câmara de Vereadores de Rio Grande exigindo alibertação do compatriota. A Câmara expediu a seguinte manifestação, enviada a Antônio Rodrigues Fernandes Braga, sugerindo a libertação de Almeida:
limo e exmo. Sr.: a Câmara Municipal desta cidade, a fim de conservar ilesa a ordem e a tranqüilidade no seu Município, vem reclamar de V. Exa. a liberdade do Deputado Domingos José de Almeida que lhe foi requisitada
pelo Coronel Bento Gonçalves da Silva, que se achaà testa das forças que
marcham sobre esta cidade. A Câmara julga desnecessário e ocioso expor a
V. Exa. o quanto seria prejudicialàtranqüilidade desta Cidade uma negativa
sobre este objeto; V. Exa. não será indiferente aos males que em tal caso aguardam este lugar onde V. Exa. viu pela primeira vez a luz, e onde existem pessoas que lhe são tão caras (...) Paço da Câmara Municipal do Rio
Grande, sessão extraordinária de21 de outubro de1835.
Com a libertação de Almeida, que ficou dezessete dias confinado,
evitou-se o conflito militar na cidade, demonstrando a convicção e pressão dos
farroupilhas na defesa de seus interesses. A Revolução apenas começava e Rio Grande se manteria legalista, porém havia seguidores da causa liberal e aversões contra a política centralista do Império em setores da população.
Para ressaltar que havia simpatizantes da causa liberal em Rio
Grande e São José do Norte, Almeida faz o seguinte relato quando, com
grande desconfiança, foi libertado:
Metido no escaler, logo que assentei não se me ouvir da Escuna, c0.m promessa de boa recompensa, obtive convencer a tripulação de nao
voltarmos mais ainda que perseguidos pela metralha, fazendo rumoà pral~
mais próxima, donde salvo já de tiros, e respirando segurança me dirigi a
cidade do Rio Grande, cujos habitantes, e pessoas de fora me receberam de tal maneira, que logo ali me dei por exuberantemente recompensado de tudO quanto havia padecido. No dia seguinte passei-me para a Vila do Norte, onde
também seus habitantes demonstraram o prazer de que se achava01
possuídos pela minha liberdade.
Após estes acontecimentos, a Revolução Farroupilha assumiu um
caráter de rebelião regencial, promovendo uma maior militarização das
margens sul e norte da barra do Rio Grande. O olhar farroupilha voltou-se
aguçadamente para uma saída marítima frente
à
asfixia imposta peloImpério. Uma grande batalha eclodiu no ano de 1840.
4 -
A BATALHA DE SÃO JOSÉ DO NORTENa visão historiográfica do monarquista Tristão Alencar Araripe, a
batalha foi assim contextualizada: o
tempo era frio e tempestuoso, e os assaltantes encobertos pelos cômoros de areia que cercam a vila, puderam aproximar-se sem serem pressentidos pelas sentinelas da guarnição legal. Pela uma hora da madrugada começa o assalto: os rebeldes penetram nas trincheiras e dominam a praça. A guarnição dela, sob o comando do Coronel de legião Antonio Soares de Paiva, pôde ser socorrida por gente da vizinha cidade do Rio Grande, e
conseguiu expulsar os rebeldes.Oconflito durou nove horas.O socorro foi
escasso em conseqüência do temporal, que então agitava as águas que separam os dois lugares; bastou porém para animar a guarnição agredida. A
força legal combatente foi 599 praças contra 1200 assaltantes. A perda da
legalidade foi de 72 mortos, 87 feridos e 84 prisioneiros. A perda dos rebeldes
consistiu em 181 mortos, 150 feridos e 18 prisioneiros. Que o combate foi
tenaz e encarniçado o mostram as perdas recíprocas, sendo esta uma das mais sanguinolentas pelejas de toda esta guerra tratricida."
Para o historiador Artur Ferreira Filho,
este combate marcou o ponto mais alto das virtudes militares do lado imperial durante toda a Revolução. Nunca os legalistas se haviam portado tão bem. E foi, além disso, a consagração de um chefe. Soares de Paiva, ferido no início da ação, comandou a defesa até o fim, e, por seu heroísmo, a praça não se rendeu, conquistando o título de "mui heróica", com que foi distinguido pelo governo imperial. As ruas da Vila ficaram juncadas de cadáveres [...]. Em tempo algum, na longa revolução farroupilha, derramou-se tanto sangue, numa área tão pequena [...]. De seu acampamento na planície desabrigada, [Bento Gonçalves] escreve ao digno chefe adversário, informando-o de que se achava sem médico e desprovido de medicamentos para socorrer seus
numerosos feridos. Em resposta, oCel, Soares de Paiva manda um médico e
metade dos medicamentos que possuía. Bento Gonçalves, cuja grandeza d'alma acabava de encontrar um rival, como sua bravura já o havia encontrado horas antes, ao agradecer o gesto cavalheiresco do comandante da heróica Vila, dá liberdade a todos os prisioneiros legalistas em seu poder."
;---4:eRARIPE, Tristão Alencar. G u e r r a c iv il n o R io G r a n d e d o S u l. Porto Alegre: Corag, 1985. RREIRA FILHO, Arthur. H is tó r ia g e r a l d o R IO G r a n d e d o S u l. Porto Alegre: Globo, 1957.
76 BIBLOS, Rio Grande, 13: 73.82, 2 0
0 1 .
Conforme Garibaldi" em seu diário redigido por Alexandre Dumas, as
forças do Império, a fim de realizarem incursões na campanha, foram
forçadas a desguarnecer de infantaria as cidades fortificadas, como foi o
caso de São José do Norte, que se apresentava vulnerável frente a um
ataque tulrninante". Segundo ele, esta cidade situada na margem
setentrional da embocadura da Lagoa dos Patos era uma das chaves da
Província, tanto no aspecto político quanto no comercial. Seu controle
significaria a conquista de uma saída para o mar num momento difícil para
as forças farroupilhas. "Sua tomada, mais do que útil, tornava-se
imprescindível". Na cidade encontravam-se produtos de todo o gênero,
necessários
à
indumentária de combate, que era de "qualidade lastimáveldo lado farroupilha". Mas, além disso e da sua importância no acesso ao
único porto marítimo da Província, São José do Norte ainda "merecia que
envidássemos todos os sacrifícios para tomá-Ia, porque lá achava-se a
atalaia","
Porém, a desventura perseguiu a ação militar, a qual foi "conduzida
com uma admirável sabedoria e em absoluto segredo, os seus frutos foram
inteiramente perdidos por ter-se hesitado a desfechar o golpe final. Uma
marcha obstinada de oito dias e de vinte e cinco milhas diárias
conduzira-nos até os muros da praça-forte"."
5"Apesar da precariedade de seus conhecimentos de estratégia militar, Giuseppe Garibaldi tinha uma capacidade instintiva de avaliar corretamente uma situação de confronto com o inimigo e de reagir a ela da melhor forma possível [ ...) A aura de humildade que o cercava e sua falta de ambições pessoais também contribuíram para seu sucesso. Teria direito a honrarias e recompensas, mas elas não lhe interessavam. Morreu tão pobre e humilde como sempre viveu. Nem mesmo seus inimigos puderam criticar sua generosidade e sua sinceridade, qualidades que contribuíram para tornar ainda mais marcante sua imagem de patriota e salvador da nação".
"Sua falta de treinamento militar regular, porém, poderia ser encarada como uma fraqueza, pois devido a ela sacrificou, algumas vezes desnecessariamente, a vida de seus cegamente leais voluntários. Apoiando-se apenas na coragem dos seus homens, sem sequer tentar descobrir as fraquezas do inimigo, Garibaldi recorria com freqüência a ataques frontais e suicidas de pequenos destacamentos pouco armados contra batalhões de soldados de carreira, mais numerosos, bem treinados e portadores de armas modernas e farta munição. Como resultado, perdeu alguns dos seus melhores oficiais e ele próprio poderia ter morrido em combate, caso a Providência e a sorte não fossem suas companheiras constantes.
Quaisquer que tenham sido seus erros, porém, não há dúvida de que Garibaldi foi um brilhante guerreiro e um patriota sincero. Seu infatigável e revolucionário espírito de justiça explicam sua preocupação pelas questões sociais até o fim da vida. Opôs-se ativamente contra a pena de morte e apoiou o socialismo. 'O futuro da Itália pertence às classes operárias', declarou pouco antes de morrer". VIOLA, Herman; VIOLA, Susan.
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G a r ib a ld i. São Paulo: Nova Cultural, 1988, ~. 84-85.DUMAS, Alexandre. M e m ó r ia s d e G a r ib a ld i. Porto Alegre: LPM, 1999, p. 125.
7Idem, p. 126.
8Id., ibidem.
78
BIBlOS, Rio Grande, 13: 73· 82, 2001.Conforme Garibaldi, tudo aconteceu numa
daquelas noites de inverno, no curso das quais abrigo e fogo são como fa v o r e s da Providência. Nossos pobres soldados da liberdade, famintos e esfarrapados, com os membros entorpecidos pelo frio, o corpo regélido sob a cordoada de uma terrível tempestade - nossa companheira durante a maior
parte do percurso - a v a n ç a v a m silenciosos contra fortes e trincheiras
ocupadas por sentinelas. Os cavalos dos chefes foram deixados sob a
guarda de um esquadrão de cavalaria comandado pelo coronel Amaral a uma pequena distância das muralhas, e cada homem, reunindo o resto das suas forças, preparou-se para o combate.
O alerta dado por um sentinela serviu como toque de atacar. A resistência das muralhas foi fraca e fugaz, malgrado o fogo arrojado pelos canhões do forte. À uma e meia da madrugada começáramos o assalto e, às duas horas, apossávamo-nos dos redutos imperiais e de três ou quatro fortificações que as guarneciam, todas tomadas pelo assédio das baionetas.
Senhores de todo o baluarte, senhores dos bastiões, consumada a
incursão na cidade, parecia impossível que ela nos escapasse. Pois bem!
Ainda uma v e z , o aparentemente irrealizável cumpria a sua sina. Tendo
ganho as ruas no intramuros de São José, nossos soldados presumiram
que tudo e s ta v a liquidado: a maior parte deles dispersou-se, atraído pelo
engodo da pilhagem.
Enquanto isso, refeitos da surpresa, os homens do Império reuniram-se numa zona protegida da cidade. Nós a atacamos. Eles nos rechaçaram. Os chefes procuraram por toda parte os soldados que multiplicariam os ataques, mas a
procura foi inútil: quando alguns eram encontrados, v ia - s e que estavam
entretidos com os seus espólios, ou bêbados, ou então com os seus fuzis quebrados ou avariados de tanto que haviam violado e rompido as portas daquelas casas.
Quanto ao inimigo, ele não perdia o seu tempo. Vários n a v io s de guerra que
se achavam atracados no porto tomaram posição atravessando as suas
baterias de tiro pelas ruas onde nos encontrávamos. Enviamos chamados de auxílio a Rio Grande: cidade localizada na margem oposta da embocadura dos Patos. Um único forte, cuja ocupação havíamos negligenciado, servia de
refúgio ao inimigo, e o maior de todos, o Forte do Imperador - que
tomáramos durante o morticínio de um glorioso assalto -, acabou sendo devastado por uma terrível explosão do paiol, que dizimou um bom número de homens. Em suma, o mais retumbante dos triunfos havia-se transformado,' porv o lta do meio-dia, na mais humilhante das retiradas.
Os bons c h o r a v a m , irados e desesperados. Diante da nossa situação e face aos esforços que empenháramos, o nosso fracasso fora colossal. A partir daquele momento, a nossa infantaria não seria mais que um esqueleto. Quanto à diminuta cavalaria que fizera a expedição, ela empregou-se a proteger a retirada. A divisão retomou a seus aboletamentos de Bela Vista. Eu fiz estação, com a marinha, em São Simão. Toda a minha tropa resumia-se a cerca de quarenta homens entre oficiais e soldados."
-9Idem, p, 127-128.
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5 -
A VERSÃO DE BENTO GONÇALVESzyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
A seguir será reproduzido o texto redigido por Bento Gonçalves sobre
os acontecimentos da fria madrugada do dia 16 de julho:
Sendo de reconhecida importância a ocupação da praça fortificada de São José do Norte pelas grandes vantagens que daí podem provir à causa da República, formei o plano de atacá-Ia e marchei a pô-Io em execução em o dia 4 do corrente. Uma Divisão provisória ao mando do Coronel Crescêncio, composta de toda a infantaria disponível do 1° e do 2° Corpo de Cavalaria, foi a força destinada para semelhante operação. Com marchas rápidas e forçadas, superando os obstáculos de um rigoroso inverno, cheguei finalmente à vista da mencionada praça na noite de 15 para 16 do que rege. A copiosa chuva que caía sucessivamente há três dias, a inclemência da estação, que havia fatigado bastante a tropa ao mesmo tempo, que parecia favorecer a empresa pela probabilidade de encontrar ao inimigo descuidado, podia ser fatal pela extenuação e cansaço em que estavam os soldados e pelo dano que devia causar a água nas armas de fogo; mas já não era tempo de recuar. À uma hora da madrugada, o Coronel Crescêncio, à frente da Infantaria e de um Esquadrão de Clavineiros formado de contingentes do 1° e 2° Corpo de Cavalaria, que teve ordem de apear-se, atacou as muralhas e fortificações da praça, que se achavam guarnecidas por mais de 600 homens do Exército Imperial. O 1° Batalhão foi destinado para tomar o reduto n° 3, que tinha quatro bocas-de-fogo; o 3° Batalhão teve ordem para dar o assalto no reduto n° 2, que estava igualmente com 4 bocas-de-fogo; o 2° Batalhão, com o Esquadrão a pé, fazia o Corpo de reserva, que tinha de carregar sobre o entrincheiramento; e assim marchou-se em três linhas até a proximidade de duzentas braças, pouco mais ou menos, quando o inimigo percebeu nosso movimento e deu o sinal de alarme com dois tiros de fuzil em cima dos redutos; tocou-se então a carga e o mesmo foi marchar que vencer porque as muralhas caíram logo por terra. O 1° Batalhão tomou imediatamente o reduto n° 3. O reduto n° 2 achava-se contíguo ao quartel do inimigo e por isso foi reforçado o ataque com parte do 2° Batalhão, e ainda que fosse maior a resistência, todavia foi tomado. Eram duas horas e meia da noite quando já se não viam inimigos à nossa frente, por se terem reconcentrado todos ao seu quartel; torrentes de chuva que caíam com abundância haviam inutilizado as armas de fogo; preciso foi pois meter-se em ordem a Divisão para limpar as armas e esperar que raiasse o dia para carregar sobre o quartel, o único ocupado pelo inimigo, que abandonou todas as suas posições, àexceção do reduto n° 4, que não convinha tomar-se para não enfraquecer mais a força em conseqüência da guarnição que ali devia ficar; entretanto que tendo sido três vezes desamparado pelo inimigo, era uma presa certa logo que o quartel fosse destruído. Frustrados porém foram os esforços da Divisão, porque incendiou-se o armazém da pólvora do reduto nO 3 quando apenas havia dado dois tiros; a chuva, como já disse, impediu inteiramente o fogo de fuzilaria, e o inimigo recebendo contínuos reforços da vila do Rio Grande do Sul, apoiado pela artilharia de seus vasos de guerra, tinha de mais a
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vantagem de operar debaixo de coberta e com suas armas enxutas. Dois ataques de baioneta foram intentados, mas o quartel, construído de pedra e cal e cercado de um entrincheiramento de tábuas grossas, só com um pequeno portão, era inacessível. Restava um único recurso para obrigar o inimigo a render-se; era o de incendiar a praça; mas a idéia só de um incêndio, os horrores e as conseqüências que este método de guerra destruidora traz consigo, as milhares de vítimas inocentes que deviam partilhar a mesma sorte dos culpados, fez estremecer o meu coração; a voz da humanidade falou a meus ouvidos, e vencendo a compaixão e a piedade, mandei tocar a retirada à uma hora da tarde, depois de me ter conservado em todo esse tempo senhor da vila do Norte e de parte de suas fortificações. Preferi antes ver baldado o meu plano do que pisar sobre ruínas. Oito bocas-de-fogo que ficaram encravadas por ser extremamente difícil sua condução por entre os muitos combros de areia do país, grande porção de armamento e munições, foram os troféus que nos cegou a mão da vitória. Ficaram em nosso poder cinqüenta e oito prisioneiros, inclusive um capitão, um tenente e um alferes. A perda do inimigo foi considerável; entre o grande número de seus mortos contam-se o Tenente-Coronel Jovita, comandante de sua artilharia, Capitão-Tenente Romani, 1° comandante de um brigue de guerra, o 2° comandante do mesmo e vários outros oficiais; seus numerosos feridos tiveram de ser transferidos para os hospitais do Rio Grande do Sul e o estrago que sofreu foi tal que se avalia restar-lhe apenas um terço de sua força. Eu lamento a perda dos Majores José Inácio e José Gonçalves Rodrigues, ambos comandantes interinos, o primeiro do 2° Batalhão de Caçadores e o segundo do 1° Corpo de Cavalaria de Linha, e de mais alguns valentes oficiais e soldados que morreram neste combate, e depois dele, em conseqüência das feridas que receberam. O número de nossos feridos não excede a cento e tantos. O Coronel Crescêncio, segundo as ordens que de mim recebera, dirigiu em pessoa as operações com aquele acerto, prudência e sangue frio que sempre o caracterizou; em prêmio de seus serviços e mesmo por carecer de mais um general como ele, eu o acho digo de ser promovido a esse posto, e como benemérito e distinto o recomendo a munificência do Governo esperando que V. EX.a. se digne transmitir ao conhecimento do Ex.rno. Sr. vice-presidente da República tudo quanto hei relatado. Deus guarde a V. EX.a. Quartel-General em Mostardas, 28 de julho de 1840. Ao cidadão Serafim Joaquim de Alencastre. Ministro e Secretario de Estado dos Negócios da Guerra. Bento Gonçalves da Silva.'o
Um dos confrontos mais sangrentos da revolução encerrou-se com
mais de uma versão, com algumas convergências e divergências. Enquanto
Garibaldi criticou o vacilo das forças farroupilhas e de seu comandante em
tomar a Vila a qualquer preço, a escolha de Bento Gonçalves foi evitar o
morticínio de civis ao incendiar o centro urbano. Esta decisão, aliada
à
10
.Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul.
NMLKJIHGFEDCBA
C o le tâ n e a d e d o c u m e n to s d e B e n to G o n ç a lv e s d aS ,lv a : 1835/1845. Porto Alegre: Comissão Executiva do Sesquicentenário da Revolução
Farroupilha, Subcomissão de Publicações e Concursos, 1985. p. 153-155.
BIBLOS, Rio Grande, 13: 73·82, 2001.
eficiente resistência imperial e ao apoio vindo da cidade do Rio Grande,
provocou uma derrota militar que contribuiu para a derrocada do projeto da
República Rio-Grandense. Garibaldi relata a indisciplina da tropa
farroupilha, que se valeu da rapinagem, saqueando a Vila e provocando a
dispersão das forças farroupilhas em ação. Carregando os feridos, deixando
para trás os cadáveres dos companheiros que morreram no ataque,
carregando o peso da derrota militar após o sacrifício de cruzar a restinga
da Lagoa dos Patos sob o vento, o frio e chuva de um mês de julho, ficou
nos relatos de Bento Gonçalves da Silva e Garibaldi a frustração de uma
fundamental vitória que escapou através das mãos úmidas e geladas dos
atacantes farroupilhas.