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Colisão de Direitos
Direito ao repouso, ao sono, a um ambiente de vida
saudável
VS
Direito de propriedade e de iniciativa económica privada
Sumário: 1 Considerações introdutórias. 1.1 Direito ao repouso, ao sono, a
um ambiente de vida saudável. 1.2 Direito de propriedade e de iniciativa
económica privada. 2 Colisão de direitos. 3 Princípio da proporcionalidade.
4 Obrigação de Indemnizar. 5 Acórdão-Resumo. 6 Acórdão do STJ de
13/09/07. 7 Acórdão do STJ de 15/03/07. 8 O despertar da Jurisprudência
portuguesa para os direitos de personalidade. 9 Análise sucinta de vários
acórdãos. 10 Inclinação da Jurisprudência. 11 Notas conclusivas. 12
Referências bibliográficas. 13 Lista de Jurisprudência.
Elaborado por:
Lisete Rodrigues
Nº 1271
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Considerações introdutórias.
O ponto fulcral deste trabalho assenta na colisão de direitos1, mais
precisamente na colisão real de direitos, que se contrapõe à colisão aparente de
direitos2. Este tipo de colisão (real) gera hipóteses que de acordo com Capelo de
Sousa3 impõem “que a própria ordem jurídica, para a unidade e coerência do seu
sistema, resolva tão perturbadora contradição interna, o que em termos gerais, se efectua através do art. 335.º do Código Civil”.
Dentro da colisão real de direitos, distingue-se a colisão de direitos iguais ou da mesma espécie da colisão de direitos desiguais ou de espécie diferente. Esta distinção tem como esteio o princípio da igualdade, princípio de todos nós conhecido, consagrado no art. 13.º da Constituição da República Portuguesa (CRP), cuja concretização se traduz em tratar igualmente o que é igual e tratar diferentemente o que é desigual.
Como teremos oportunidade de analisar, os acórdãos aqui abordados, versam apenas sobre a colisão de direitos desiguais ou de espécie diferente, mais precisamente, entre um direito de personalidade - direito ao repouso, ao sono, a um ambiente de vida saudável e um direito patrimonial - direito de propriedade e de exploração de actividade comercial ou industrial ou iniciativa económica privada, o que nos reporta para o âmbito n.º 2 do já mencionado art.335.º do Código Civil (CC). Será precisamente esta a previsão legal aplicada na resolução da colisão, mas só a aplicação desta previsão não chega, é ainda necessário recorrer ao princípio da proporcionalidade, outro princípio constitucionalmente consagrado no art. 18.º, n.º 2, que nos diz o seguinte: “devendo as restrições limitar-se ao necessário para salvaguardar outros direitos ou interesses constitucionalmente protegidos”.
O objectivo consiste em compreender qual o direito que prevalece, se o direito ao repouso, ao sono, a um ambiente de vida saudável, por um lado, se o direito de propriedade e de exploração de actividade comercial ou industrial, por outro lado, e em que termos.
1.1 Direito ao repouso, ao sono, a um ambiente de vida saudável.
Sendo o direito ao repouso, ao sono, a um ambiente de vida saudável um
1
V. infra, n.º 2. 2
A colisão é real quando os direitos colidentes existem validamente, por se preencherem, no caso concreto, os seus pressupostos formais e axiológico-jurídicos, não se verificando, desta forma, uma situação de colisão aparente.
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3 direito de personalidade (art. 70.º CC), afigura-se necessário elucidar sobre o conceito de direito de personalidade, enunciando de forma sucinta algumas das suas características.
“A primeira consequência da personalidade é a titularidade de direitos de
personalidade”4. A personalidade consiste na titularidade de posições jurídicas que se
referem à tutela da própria pessoa, direitos virados para o titular que deles beneficia5.
Poderes que o titular pode exercer directa e livremente contra particulares e contra o Estado6.
Os direitos de personalidade são caracterizados como direitos:
- Absolutos - de oponibilidade erga omnes, tendo o titular desse direito poderes directos e imediatos sobre o bem global da sua personalidade, por oposição aos direitos relativos, apenas oponíveis Intel partes;
- Irrenunciáveis e intransmissíveis - insusceptíveis de serem transferidos de um sujeito
jurídico para outro, são inseparáveis, inerentes à pessoa do seu titular. Os direitos de personalidade assumem assim um carácter pessoalíssimo, não podem ser cedidos, alienados, onerados ou sub-rogados a favor de outrem, desta forma, qualquer negócio jurídico que vá neste sentido é nulo por contrário à ordem pública, de acordo com o preceituado no art. 280.º do CC.
É de salientar que os direitos de personalidade possuem mais características, tais como: a natureza não patrimonial; a indisponibilidade; a não caducidade. Mas todas estas características requerem explicações adicionais, não se aplicam sem mais e, como tal, para um estudo mais aprofundado destas, aconselho a leitura do manual citado na bibliografia do professor Menezes Cordeiro.
Depois desta breve explicação do que são direitos de personalidade e de algumas das suas características, vamos agora tratar do direito ao repouso, ao sono e a um ambiente de vida saudável propriamente dito.
O direito ao repouso que cada pessoa necessita de desfrutar no seu lar para se retemperar do desgaste físico e anímico que a vida no seu dia-a-dia provoca no ser humano é algo essencial a uma vida saudável, equilibrada, física e mentalmente sadia.
À medida que vamos avançando no texto serão dados a conhecer os vários diplomas que consagram este direito de personalidade.
- A Constituição da República Portuguesa (art. 16.º), dando acolhimento e em consonância com o preceituado na Declaração Universal dos Direitos do Homem e na
4
PEDRO PAIS DE VASCONCELOS, Teoria Geral Do Direito Civil, Almedina, Coimbra, 2006. 5
V. ANTÓNIO MENEZES CORDEIRO, Tratado De Direito Civil, Tomo III, 2ª edição, 2007, pág. 43. 6
Não será aqui abordada a questão do alargamento dos direitos de personalidade às pessoas colectivas, serão tratados tão e somente os direitos de personalidade das pessoas singulares, mais precisamente o direito ao repouso, ao sono, a um ambiente de vida saudável.
4 Convenção Europeia dos Direitos do Homem determina que a integridade física e moral das pessoas é inviolável (art. 25.º, n.º 1) e que todos têm direito a um ambiente de vida humano sadio e ecologicamente equilibrado e o dever de o defender, nos termos dos arts. 64.º, n.º 1 e 66.º, n.º 1.
O direito ao repouso, ao sono, a um ambiente de vida saudável, é uma emanação do direito à integridade física e moral da pessoa humana, constituindo, por isso, um direito de personalidade com assento constitucional entre os direitos fundamentais.
- Este direito ao repouso, ao sono, a um ambiente de vida sadio, como direito de personalidade que é, é um direito absoluto cuja tutela se encontra consagrada no
art. 70.º do Código Civil7.
Art. 70.º CC
Tutela geral da personalidade
1. A lei protege os indivíduos contra qualquer ofensa ilícita ou ameaça de ofensa à sua personalidade física ou moral.
2. Independentemente da responsabilidade civil a que haja lugar, a pessoa ameaçada ou ofendida pode requerer as providências adequadas às circunstâncias do caso, com o fim de evitar a consumação da ameaça ou atenuar os efeitos da ofensa já cometida.
Quando o n.º 2 deste artigo refere a responsabilidade civil, estamos no âmbito do art. 483.º do CC, isto é, responsabilidade civil extracontratual, e quando faz referência às “providências adequadas”, tal expressão reporta-nos não já para o Código Civil, mas sim para o Código de Processo Civil (CPC), art. 1474.º, n.º 1. De acordo com este artigo, tais providências podem ser preventivas “destinas a evitar a consumação de qualquer ameaça à personalidade física ou moral”, ou podem ser atenuantes “ou a atenuar os efeitos de ofensa já cometida”. São estes os mecanismos que os particulares dispõem para fazer face a ameaça ou violação do seu direito de personalidade.
- O direito ao repouso também encontra consagração na Lei de Bases do Ambiente, lei n.º 11/87, de 7 de Abril, que no seu art. 2.º, n.º 1 preceitua o seguinte “todos os cidadãos têm direito a um ambiente humano e ecologicamente equilibrado e o dever de o defender, incumbindo ao Estado, por meio de organismos próprios e por apelo a iniciativas populares e comunitárias, promover a melhoria da qualidade de
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“O artigo limita-se a declarar, em termos muito genéricos e muito sucintos, a ilicitude das ofensas ou das ameaças à personalidade física ou moral dos indivíduos, sem descer à minuciosa referência (...)”, “Mas daquela referência genérica pode, sem dúvida, inferir-se a existência de uma série de direitos (...) até ao repouso essencial à existência física (...)”, conforme PIRES DE LIMA E ANTUNES VARELA, Código
5 vida, quer individual, quer colectiva. Também o seu art. 40.º, n.º 4, confere a protecção dos cidadãos ameaçados ou lesados no seu direito de fruir de um ambiente de vida humano sadio e equilibrado, atribuindo-lhes o direito de pedir a cessação das causas da violação e, claro, a respectiva indemnização.
- Por fim, outro diploma de grande importância que confere protecção ao
direito em análise é o Decreto-Lei n.º 251/87, de 24 de Junho8, primeiro regulamento
geral sobre o ruído, que continha no seu preâmbulo a seguinte referência, “o ruído, como estímulo sonoro sem conteúdo informativo para o auditor, que lhe é desagradável ou que o traumatiza, constitui actualmente um dos principais factores de degradação da qualidade de vida e representa, como tal, um elemento importante a considerar no contexto da saúde ambiental e ocupacional das populações (...)”.
Vistos os vários diplomas que consagram o direito ao repouso, ao sono e a um ambiente de vida saudável, cumpre agora analisar o direito de propriedade e de iniciativa económica privada.
1.1
Direito de propriedade e o direito à iniciativa económica privada.
A CRP não consagra somente o direito ao repouso, esta consagra também o direito de propriedade e de iniciativa económica privada.O direito de propriedade e de iniciativa económica privada encontram-se na Parte I da CRP, no Título III. De acordo com o art. 17.º da CRP é consensual a opinião de que o direito de propriedade privada é um direito de natureza análoga à dos direitos, liberdades e garantias enunciados no Título II. Como tem argumentado a jurisprudência do tribunal Constitucional, a já citada analogia estabelecidade entre o direito de propriedade e os direitos, liberdades e garantias, só existe relativamente à dimensão essencial do direito de propriedade.
Definir o direito de propriedade afigura-se tarefa difícil, contudo, o legislador português, no art. 1305.º do CC consagra elementos que nos ajudam na fixação do seu conteúdo.
Art. 1305.º CC
Conteúdo do direito de propriedade
O proprietário goza de modo pleno e exclusivo dos direitos de uso, fruição e disposição das coisas que lhe pertencem, dentro dos limites da lei e com observância das restrições por ela impostas.
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Revogado pelo Decreto-lei 292/2000, de 14 de Novembro, com várias alterações, sendo a última introduzida pelo Decreto-lei n.º 9/2007, de 17 de Janeiro
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Como escreve Rui Pinto Duarte9 “o direito de propriedade é não só o direito
real máximo como paradigmático – é por referência a ele que os outros direitos reais se constroem e que a teoria dos Direitos Reais é feita”.
Mas como se pode retirar da leitura do art. 1305.º do CC, a plenitude do direito de propriedade é meramente tendencial, na medida em que existem limites e restrições. As relações de vizinhança (art. 1346.º) implicam limitações ao direito de propriedade, limitações essas que visam proteger direitos subjectivos que se inserem no âmbito de tutela do direito de personalidade.
Art. 1346.º CC
Emissão de fumo, produção de ruídos e factos semelhantes
O proprietário de um imóvel pode opor-se à emissão de fumo, fuligem, vapores, cheiros, calor ou ruídos, bem como à produção de trepidações e a outros quaisquer factos semelhantes, provenientes de prédio vizinho, sempre que tais factos importem um prejuízo substancial para o uso do imóvel ou não resultem da utilização normal do
prédio de que emanam10.
Quer o direito ao repouso, ao sono, a um ambiente de vida saudável, quer o direito de propriedade e de iniciativa económica privada, são direitos consagrados em legislação ordinária, mas mais do que isso são direitos fundamentais, constitucionalmente consagrados.
Posto isto, podemos concluir que o caso de colisão que estamos a estudar ocorre entre dois direitos fundamentais, sendo que um deles é também um direito de personalidade. Como escreve Capelo de Sousa, na obra citada na bibliografia: “embora muitos e diversos direitos de personalidade sejam também constitucionalmente reconhecidos como direitos fundamentais – é o caso do direito ao repouso, ao sono e a um ambiente de vida saudável - nem todos os direitos de personalidade constituem direitos fundamentais e, ao invés, nem todos os direitos fundamentais são direitos de personalidade”.
Qual é o interesse da distinção entre direitos de personalidade e direitos fundamentais não personalísticos? Ora esta distinção tem interesse, na medida em que apenas à tutela da primeira categoria de direitos são aplicáveis nos tribunais comuns as providências referidas no n.º 2 do art. 70.º do CC, que já tivemos
oportunidade de analisar11, previstas no art. 1474.º do CPC.
9
V. RUI PINTO DUARTE, Curso de Direitos Reais, 2ª edição, 2007, pág. 48. 10
De acordo com o acórdão do STJ de 15 de Março de 2007, analisado no ponto 7, o “prejuízo substancial” deve ser apreciado objectivamente, atendendo à natureza e finalidade do prédio.
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2
Colisão de direitos
Não raras vezes, o exercício de direitos subjectivos por parte de várias pessoas suscita situações de conflito.
Estamos perante um conflito de direitos quando o exercício do direito de uma das pessoas, isoladamente considerado, é incompatível ou inconciliável com o exercício do direito de outra pessoa, também isoladamente considerado.
Como já tivemos oportunidade de referir12, o artigo 335.º cuja epígrafe é
precisamente colisão de direitos, distingue duas situações: a colisão de direitos iguais ou da mesma espécie (n.º1) da colisão de direitos desiguais ou de espécie diferente (n.º2). A título de exemplo, podem ser considerados iguais, dois direitos à honra que estão em conflito, na medida em que a satisfação de um exige a ofensa do outro. Podem ser considerados desiguais ou de espécie diferente um direito de personalidade e um direito de propriedade (caso em análise).
Art. 335.º CC Colisão de direitos
1. Havendo colisão de direitos iguais ou da mesma espécie, devem os titulares ceder na medida do necessário para que todos produzam igualmente o seu efeito, sem maior detrimento para qualquer das partes.
2. Se os direitos forem desiguais ou de espécie diferente, prevalece o que deva considerar-se superior.
O papel deste artigo é o de distinguir situações em que os direitos conflituantes podem ser hierarquizados e situações onde tais direitos comportam entre eles uma relação de paridade. Afigura-se necessária uma ponderação dos direitos em causa, ponderação esta que deve ser feita em concreto.
O facto de estarmos perante uma colisão real de direitos desiguais ou de espécie diferente, reporta-nos para o âmbito do n.º 2 do art. 335.º do CC.
Apesar do direito ao repouso, ao sono, a um ambiente de vida saudável e do direito de propriedade e de iniciativa económica privada serem direitos fundamentais, consagrados constitucionalmente, estes direitos são desiguais. Estaríamos no âmbito do n.º 1 do art. 335.º se, a título de exemplo, o conflito fosse entre dois direitos à honra. Sendo os dois direitos em análise direitos desiguais, por se verificar normalmente um diferente peso jurídico em tais direitos, de acordo com o princípio da igualdade, devemos tratá-los como tal – tratar igualmente o que é igual e tratar diferentemente o que é desigual.
12
8 O n.º 2 do preceito em análise consagra que “prevalece o que deva considerar-se superior”. E qual é o superior? A prevalência de um ou de outro direito deve considerar-ser feita de acordo com o caso concreto. Nuns casos dar-se-á primazia ao direito de personalidade ou, noutros casos, ao direito com ele conflituante. Assim, quando num prédio de habitação seja montado um estabelecimento em que habitualmente haja produção de ruídos ou de cheiros susceptíveis de incomodar gravemente os habitantes do prédio, o direito ao repouso, ao sono e a um ambiente de vida saudável deve considerar-se superior ao direito de exploração de actividade comercial ou industrial
ruidosa ou incómoda13. Mas, já o direito ao repouso, ao sono e a um ambiente de vida
saudável dos moradores de uma casa de férias não prevalece sobre o direito de propriedade e de iniciativa económica privada, quando estes solicitam a demolição de uma vacaria e de uma pocilga existente a 30 metros, fora do aglomerado urbano, alegando ruídos e a existência de insectos, quando apenas passam na dita casa 15 dias
a 3 semanas nas férias14.
Quando o art. 335.º, n.º 2 diz que deve prevalecer o direito considerado superior, tal não pretende significar que o direito considerado menor, pura e simplesmente não poderá ser exercido. Só quando de todo não seja possível graduar em coexistência os direitos conflituantes é que haverá em “ultima ratio” de proceder ao sacrifício de um deles. Como afirma Capelo de Sousa, na obra citada, mesmo o direito inferior deve ser
respeitado até onde for possível e apenas deve ser limitado na exacta proporção em que isso é exigido pela tutela razoável do conjunto principal de interesses.
3
Princípio da proporcionalidade ou da proibição do excesso em
sentido lato
15.
“O princípio da proibição do excesso é actualmente, pode dizer-se, a autêntica chave de resolução da esmagadora maioria dos problemas de direitos
fundamentais”16.
Com a revisão constitucional de 1982, o art. 18.º, n.º 2 da CRP, passou a
consagrar expressamente o princípio da proibição do excesso17. Quando diz “devendo
13
Neste sentido, o Acórdão da Relação de Évora de 2 de Julho de 1977. 14
Neste sentido, o Acórdão da Relação de Coimbra de 7 de Julho de 2004. 15
Para um tratamento mais refinado do tema, v. JORGE REIS NOVAIS, As Restrições Aos Direitos
Fundamentais Não Expressamente Autorizadas Pela Constituição, Coimbra Editora, 2003, pág.729 e ss.
16
Idem, Direitos Fundamentais: Trunfos Contra A Maioria, Coimbra Editora, 2006, pág. 101. 17
O princípio da proporcionalidade em sentido lato ou da proibição do excesso, não se encontra consagrado , a nível constitucional, apenas no art. 18.º, n.º 2, encontra-se também no art. 19.º, nos requisitos a preencher pelas declarações e execução dos regimes de estado de sítio e estado de emergência, no art. 266.º, quando este consagra os princípios que regem a actuação da Administração e, no mesmo sentido, no art. 5.º, n.º 2 do Código do Procedimento Administrativo (CPA).
9 as restrições limitar-se ao necessário para salvaguardar outros direitos ou interesses constitucionalmente protegidos”, quer significar que o princípio da proporcionalidade é o núcleo central dos requisitos materiais exigidos às restrições dos direitos fundamentais.
Isto significa que qualquer restrição de uma posição jurídica tutelada por uma
norma de direito fundamental tem de observar três sub-princípios18:
1ª- Idoneidade ou aptidão (adequação) – a medida restritiva deverá ser apta à prossecução do fim visado com a restrição;
2ª- Indispensabilidade ou necessidade – de entre todas as medidas possíveis aptas a realizar, de forma igualmente eficaz, o fim pretendido, deve ser escolhida a menos agressiva para o titular do direito. Uma frase que exprime esta ideia de necessidade é não se deve utilizar um canhão para atirar a
pardais;
3ª- Racionalidade ou proporcionalidade em sentido estrito – a importância do fim, obrigatoriamente legítimo, prosseguido pela restrição e a medida da sua realização através do meio escolhido devem estar numa relação razoável, adequada à medida e importância dos efeitos danos produzidos na esfera do titular do direito. Desta forma, esta vertente de equilíbrio exige que os benefícios que se esperam alcançar com uma medida adequada e necessária suplantem, à luz de certos parâmetros materiais, os custos que ela por certo acarretará.
Se uma medida concreta não for simultaneamente adequada, necessária e equilibrada ao fim tido em vista com a sua adopção, ela será desproporcional.
4
Obrigação de indemnizar.
Decorre do art. 562.º do CC, que quem estiver obrigado a reparar um dano deve reconstituir a situação que existiria, se não se tivesse verificado o evento que obriga à reparação.
No caso em apreço estamos perante uma colisão de direitos, e como já sabemos a lei confere maior protecção ao direito ao repouso, ao sono e a um ambiente de vida saudável, por este decorrer da personalidade da pessoa, da sua integridade, ser algo inerente a esta, no fundo algo que emana do princípio da
18
V. JORGE REIS NOVAIS, Direitos Fundamentais: Trunfos Contra A Maioria, Coimbra Editora, 2006, pág. 279 e ss.
10 dignidade da pessoa humana, na medida em que todos os seres humanos necessitam de repouso e de sossego para mais um dia de trabalho, de estudo, de concentração, mais um dia de vida em condições dignas de o enfrentar.
Quando o direito ao repouso, ao sono, a um ambiente de vida saudável é violado, sendo este o considerado superior, desde que estejam cumpridos os requisitos da responsabilidade civil, há obrigação de indemnizar. Ou melhor, quando o direito de propriedade e de iniciativa privada viola o direito ao repouso, ao sono, a um ambiente de vida saudável, se esta violação resultar num facto voluntário, lesivo do direito de personalidade, culposo, e haja nexo de causalidade entre esse facto e o dano provocado, há obrigação de indemnizar.
Não haverá obrigação de indemnizar se a prevalência do direito de personalidade resultar numa restrição desproporcionada para o direito de propriedade
e de iniciativa económica privada19.
No caso de violação do direito de personalidade em questão, estamos no âmbito da responsabilidade civil aquiliana ou extracontratual, também conhecida por responsabilidade civil por facto ilícito. Que nos termos do art. 483.º,n.º 1 do CC consagra: “aquele que, com dolo ou mera culpa, violar ilicitamente o direito de outrem (...) fica obrigado a indemnizar p lesado pelos danos resultantes da violação”. O “direito de outrem” é aqui o direito de personalidade, que é um direito absoluto.
A responsabilidade civil por facto ilícito tem como pressupostos: o facto voluntário do agente; a ilicitude; a culpa; o dano e o nexo de causalidade entre o facto e o dano 20.
Com um pequeno exemplo, facilmente se preenche estes requisitos. Quando o proprietário de uma discoteca exerce a sua actividade na cave de um prédio destinado à habitação, sem para tal ter realizado as devidas obras de insonorização, lesando, por conseguinte, o direito ao sossego, ao sono e a uma ambiente de vida saudável dos moradores, está com uma acção voluntária a violar ilicitamente o direito de
personalidade dos moradores, com culpa21 e o dano provocado nos moradores
(insónias, stress, falta de concentração no trabalho, medicação) deriva da actividade desempenhada pelo proprietário.
Daqui decorre que o tal proprietário terá de indemnizar os moradores pelos danos causados com a sua actividade quer os danos patrimoniais (correspondem à frustração de utilidades susceptíveis de avaliação pecuniária), quer os danos não patrimoniais ou morais (são insusceptíveis de avaliação pecuniária).
No que concerne à indemnização dos danos não patrimoniais, consta do art. 496.º, n.º 1 do CC que devem ser atendidos quando “pela sua gravidade, mereçam a
19
V. infra, n.º7, análise do Acórdão do STJ de 15 de Março de 2007. 20
Para um estudo dos pressupostos da responsabilidade civil por facto ilícito, v. LUÍS MANUEL TELES DE MENEZES LEITÃO, Direito das Obrigações, Volume I, 6ª edição, Almedina.
21
A culpa é aferida de acordo com o critério do bom pai de família (bonus pater familias), nos termos do art. 487.º, n.º2.
11 tutela do direito”. Esta era uma questão controversa, mas que hoje já não levanta problemas. Sabendo que não são susceptíveis de avaliação em dinheiro, o objectivo da indemnização por danos patrimoniais tem em vista, reparar de algum modo, mais do
que indemnizar, os danos sofridos pela pessoa lesada22. Diz-nos o art. 566.º do CC que
a indemnização é fixada em dinheiro, quando a restituição natural não seja possível, ora o caso em apreço é um deles.
O lesado não pode, no nosso exemplo, apagar os danos provocados nos moradores, pode sim minorá-los. Nos termos do art. 496.º n.º 3 “o montante da indemnização será fixado equitativamente pelo tribunal”.
Penso que agora sim, estamos dotados dos conceitos necessários para passarmos à análise dos acórdãos aqui referidos, que versam sobre estas matérias.
5
Acórdão-resumo.
Um acórdão que nos permite, a título de exemplo, ver consagrada toda esta matéria, é o acórdão do STJ de 1 de Abril de 2003. Neste acórdão a questão fulcral a resolver pelo STJ é a da possibilidade de harmonizar o exercício de direitos desiguais e em colisão entre si. Por um lado, o direito dos autores ao repouso e a um ambiente de vida humano sadio e ecologicamente equilibrado, Por outro lado, o direito dos réus a exercer uma actividade económica, concretamente a exploração de um vacaria e de uma ordenha, cujo exercício tem contendido com o gozo pelos autores daquele seu direito. Quer o direito dos autores, quer o direito dos réus gozam de tutela constitucional, aquele nos artigos 25.º, nº1, 64.º, nº1 e 66.º, nº1 da Constituição da República Portuguesa (CRP), este, fixado no artigo 64, nº1 da mesma Lei.
É claro que, abstracta e aprioristicamente, o direito dos autores sairá privilegiado relativamente ao direito dos réus, de cariz meramente materialista o que nos reporta para o âmbito do n.º 2 do art. 335.º do CC. Assim o proclama o nº2 do artigo 335.º do Código Civil: se os direitos forem desiguais ou de espécie diferente, prevalece o que deva considera-se superior.
O direito à qualidade de vida tem vindo a ser, e bem, uma preocupação cada vez maior de todos os ordenamentos jurídicos. Designadamente do nosso, só que, não se pode, em abstracto e a priori, sacrificar radicalmente os direitos de natureza patrimonial aos direitos inerentes à integridade física ou moral do indivíduo. Efectivamente, perante as contradições e colisões normativas desses direitos deve o intérprete, caso a caso, estabelecer limites e condicionalismos de forma a conseguir
22
Podemos, também considerar, que uma indemnização nestes termos, assume um carácter punitivo, isto é, não é estranha a ideia de reprovar ou castigar, no plano civilístico e com os meios próprios do direito privado, a conduta do agente.
12 uma harmonização ou concordância prática entre eles. Daí que mesmo o direito inferior deva ser respeitado até onde for possível e apenas deverá ser limitado na exacta proporção em que isso é exigido «pela tutela razoável do conjunto principal de interesses», conforme Capelo de Sousa. É isto, aliás, que decorre do princípio da proporcionalidade estabelecido no nº2 do artigo 18.º da Constituição.
A actividade agro-pecuária dos réus, tal como vem sendo exercida, tem
ofendido o direito dos autores ao repouso bem como a uma vida sadia e ecologicamente equilibrada, mas, por outro lado, e atento o referido princípio da proporcionalidade, tal não arreda a possibilidade de harmonizar os direitos e interesses em jogo, desde que os réus criem as condições para que cesse essa ofensa, tomando as providências e realizando as obras adequadas ao exercício racional e humanamente aceitável dessa sua actividade, conforme determina a lei.
As consequências nefastas para a saúde e para a qualidade de vida dos autores, decorrentes daqueles ruídos e destes cheiros, provocados pela actividade agro-pecuária exercida pelos réus, sem as necessárias condições, no seu prédio, assumem gravidade suficiente para merecerem a tutela do direito, quer a nível das providências tendentes a eliminá-las (ou, ao menos, a reduzi-as a limites humanamente suportáveis), quer a nível de compensação indemnizatória, nos termos do artigo 496 do Código Civil, pelos correspondentes danos de natureza não patrimonial. Por isso que se mostra perfeitamente equilibrada e conciliadora dos direitos em confronto a solução de os réus:
-suspenderem a actividade da vacaria dos réus, enquanto não realizarem obras nas respectivas instalações, segundo as boas e adequadas técnicas visando a redução dos ruídos e dos cheiros;
-não executarem trabalhos com tractores ou outras máquinas ruidosas na vacaria durante a noite, entre as 22 horas até às 7 horas da madrugada;
-a pagarem aos autores uma indemnização (a liquidar em execução de sentença) pelos danos não patrimoniais.
De seguida vamos proceder à análise de dois acórdãos que constituíram a parte importante da apresentação oral realizada na aula.
6
Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 13 de Setembro de 2007.
Vamos agora proceder à análise de um acórdão do STJ, de 13 de Setembro de 2007, cujo Relator é Alberto Sobrinho, para o qual recorrem, quer os autores, quer a ré, adiantando-se já que foi negada revista a ambos os recursos, ou seja, o STJ confirmou a decisão da Relação.13 Iniciámos esta análise com a exposição da matéria de facto dada como provada
no acórdão recorrido23, o que nos permite conhecer as partes do processo,
possibilitando, ainda, o conhecimento do litígio em causa.
No acórdão recorrido, foram dados como assentes os seguintes factos:
1 – Os autores são donos e legítimos proprietários de uma fracção autónoma que corresponde ao 1º andar esquerdo e garagem de um prédio.
2 – A ré é uma sociedade comercial que se dedica à indústria de panificação na cave e explora um estabelecimento comercial no rés-do-chão, correspondendo a outra fracção do mesmo prédio onde habitam os autores.
3 – O estabelecimento da ré situa-se imediatamente por debaixo da residência dos autores.
4 – A ré, desde 1996 (data em que instalou a indústria de panificação) inicia a sua actividade na cave às 4 horas da manhã, usando para o efeito vários equipamentos: um forno, uma batedeira, um frigorífico, seis compressores de frio, associados a um exaustor que funcionam de forma alternada, mas pelo menos um dos compressores está sempre em funcionamento.
5 – Às 6 horas da manhã abre ao público o estabelecimento de café e de venda de pão e de bolos situado no rés-do-chão.
6 – Os ruídos e as vibrações provenientes da actividade desenvolvida pela ré, impossibilita os autores, desde há cerca de 6 anos, de dormir, descansar e recuperar as forças essenciais a mais um dia de trabalho, o que lhes provoca dores de cabeça, cansaço, tonturas e insónias constantes, afectando o seu sistema nervoso e a sua capacidade para o trabalho. Toda esta situação obriga os autores a terem que tomar medicação específica, o que lhes acarreta um custo mensal.
7 – A ré contactou a “Empresa-B” para proceder ao estudo e análise da situação e efectuar as obras e alterações que fossem necessárias. As obras consideradas necessárias foram realizadas.
Vista a matéria de facto dada como provada, vamos agora proceder à análise dos recursos de ambas as partes.
1 - Os autores inconformados com a decisão da Relação recorrem de revista, solicitando vários pedidos, dos quais apenas vamos atender a dois, na medida em que os outros ou referem-se a questões processuais que não competem aqui analisar, ou não são relevantes para a problemática em causa, revelando-se secundários.
Os autores no recurso para o STJ argumentam:
a) A proibição da laboração da recorrida entre as 22h e as 7h nos termos
decididos no acórdão recorrido não assegura eficazmente a defesa do direito à
23
Apenas irão ser abordados os factos considerados relevantes para o litígio subjacente, considerando-se desnecessária uma abordagem exaustiva.
14 integridade física e moral dos recorrentes. Solicitam, desta forma, o encerramento imediato da indústria de panificação da ré.
b) Uma indemnização pelos danos futuros. Reclamam os autores/recorrentes a
atribuição de uma indemnização por danos futuros, a partir da sentença de 1ª instância e enquanto perdurar a laboração do estabelecimento em termos de os afectar no seu direito ao repouso.
2- Não só os autores recorreram de revista, também a ré o fez. A ré no seu recurso argumenta:
a) Por estarem excessivamente avaliados, devem ser fixados em não mais de
metade do montante encontrado, os valores atribuídos pelas instâncias a título de danos não patrimoniais.
A ré não põe em causa a obrigação de indemnizar os autores pelos incómodos, antes questiona os montantes.
b) A ré questiona, ainda, o encerramento do estabelecimento situado no
rés-do-chão, argumentando que não ficou provado que este agravava o ruído proveniente da cave, onde se desenvolve a indústria de panificação. Não se justificando assim a proibição de funcionamento após a hora de abertura normal.
Vistos os factos assentes e o âmbito de ambos os recursos, o STJ vai apreciar e decidir.
1.a) No que concerne aos pedidos dos autores. Relativamente ao pedido de encerramento imediato do estabelecimento da ré. A Relação condenou a ré à não laboração entre as 22h e as 7h, tanto na cave como no rés-do-chão, até serem realizadas obras de insonorização. Os autores sustentam que esta proibição de laboração temporária não assegura eficazmente o seu direito ao repouso e ao descanso, o que só se alcançara com o encerramento imediato do estabelecimento, até que as obras de insonorização e isolamento lhes garantam esses direitos.
Estamos perante uma colisão de direitos, conceito de nós já conhecido. Temos, por um lado, o direito ao repouso, ao descanso, a um ambiente de vida sadio dos autores e, por outro lado, o direito de propriedade e o direito ao exercício de uma actividade económica da ré. Estamos então no âmbito do art. 335.º do Código Civil, que como também já tivemos oportunidade de ver, tem como epígrafe “colisão de direitos”.
O direito ao repouso e a uma vida saudável são aflorações da protecção que a lei dispensa à personalidade individual, física moral, de acordo com o art. 25.º da CRP e art. 70.º do CC. O direito ao repouso e ao sossego são indispensáveis à saúde, sendo um dos valores a salvaguardar nas relações de vizinhança.
15 Coexistindo, por um lado, o direito à integridade física, à saúde, ao repouso, ao sono e, por outro lado, o direito de propriedade ou de iniciativa económica, comercial, o primeiro, isto é, o direito ao repouso, é de espécie e valor superior aos segundos.
Posto isto, estamos no âmbito do art. 335.º, n.º 2 do CC. Mas não podemos dizer que prevalece o direito ao repouso em detrimento do direito à iniciativa comercial, já que este é menor, não! O sacrifício exigido pelo art. 335.º dever ser exercido apenas e na medida ou proporção estritamente necessária à salvaguarda do direito prevalecente. Só quando não seja possível graduar em coexistência os direitos conflituantes é que haverá em “ultima ratio” de proceder ao sacrifício de um deles.
É necessário que as medidas a tomar sejam orientadas pelo princípio da proporcionalidade e razoabilidade.
No caso em apreço a perturbação dos autores decorre da laboração do estabelecimento da ré durante a noite, sendo aliás a este período que se reportam as queixas dos autores. É verdade que durante o dia o nível induzido pela actividade desenvolvida no estabelecimento da ré continua a ser elevado, contudo, estamos habituados a conviver com outros níveis sonoros durante o dia.
Daqui decide o STJ que a limitação do horário de funcionamento do estabelecimento constitui uma medida eficaz e adequada para defesa dos direitos dos autores e permite compatibilizar o conjunto dos direitos em jogo. A limitação do encerramento do estabelecimento entre as 22h e as 7 h tal como demarcado no Regulamento Geral do Ruído, coincidente com o período em que as pessoas habitualmente repousam e dormem assim recuperando física e psiquicamente, dando por adequada a decisão da 2ª instância.
Vamos aplicar o princípio da proporcionalidade a este pedido realizado pelos autores. Como já sabemos para que uma medida não seja contrária ao princípio da proporcionalidade está tem de ser: apta ou idónea – o meio usado tem de ser apto a produzir o fim; indispensável ou necessária – de todos os meios igualmente aptos deve-se escolher o meio menos restritivo e, por fim, racionalidade – o sacrifício imposto pela restrição não pode ser superior ao benefício que se procura atingir com a mesma.
Os autores pediram o encerramento imediato do estabelecimento da ré e não apenas durante as 22h e as 7h como fora a ré condenada em 2ª instância, pois só assim estaria assegurado o seu direito ao repouso. Vejamos, tal medida restritiva é apta ou idónea a produzir o fim, ou seja, o encerramento imediato do estabelecimento da ré faz com que o direito dos autores, direito ao repouso seja assegurado? A resposta parece ser positiva. Sim, com o encerramento imediato o direito ao repouso dos autores deixaria de ser violado. Vamos ao segundo ponto. Esta medida restritiva é indispensável ou a menos restritiva? Não há outra medida menos restritiva? Na verdade há outra medida menos restritiva que foi precisamente e tomada pelo tribunal.
16 O tribunal considera, e bem, que o encerramento do estabelecimento durante o período nocturno, período em que as pessoas habitualmente repousam, é uma medida menos restritiva e que permite assegurar o direito ao repouso dos autores. Por aqui concluímos que a medida proposta pelos autores viola o princípio da proporcionalidade, contudo, podemos ainda analisar o terceiro ponto ou característica deste princípio. Será que o encerramento imediato do estabelecimento não traria à ré um sacrifício superior ao benefício que este mesmo encerramento proporcionaria aos autores? Caso o estabelecimento esteja ou não em funcionamento durante o dia, o benefício retirado pelos autores seria o mesmo, mas o sacrifício imposto à ré seria maior. Seria este sacrifício superior ao benefício? Parece que sim. A medida proposta pelos autores, em sede de recurso, é desproporcional.
Feita a análise de acordo com o princípio da proporcionalidade, do pedido solicitado pelos autores, podemos concluir que a decisão do STJ, o encerramento do estabelecimento da ré apenas entre as 22h e as 7h até que sejam realizadas obras de insonorização e isolamento, confirmando a decisão da Relação é a mais acertada.
1.b) Quanto ao segundo pedido dos autores, uma indemnização por danos futuros. Nos termos do art. 564.º do CC, o direito a indemnização abrange não só os danos causados bem como os danos futuros, desde que previsíveis. O STJ diz que a medida de proibição de laboração durante o período nocturno afigura-se medida necessária para assegurar a defesa dos direitos dos autores. Só se a ré violar essa determinação é que poderá incorrer em responsabilidade para com os autores dos danos dai recorrentes, isto é, haverá ilícito quando não se respeitarem as regras da solução do conflito. Considerando tal situação como hipotética e, como tal, não passível de ser contemplada como dano futuro.
2.a) No que concerne aos pedidos da ré. O primeiro pedido dizia respeito ao montante a pagar a título de indemnização por danos não patrimoniais, considerando-o a ré excessivconsiderando-o. A este pedidconsiderando-o respconsiderando-onde considerando-o STJ dizendconsiderando-o que a ré cconsiderando-om a sua actividade lesou os direitos de personalidade dos autores, nomeadamente o direito ao repouso, ao sono, decorrentes do art. 70.º do CC, que de acordo com o n.º 2, dá lugar a responsabilidade civil nos termos do art. 483.º nº 1 do CC, responsabilidade civil por facto ilícito, aquiliana, que cumpridos todos os requisitos, a saber: o facto voluntário, a ilicitude, a culpa, o dano e o nexo de causalidade entre o facto e o dano dá lugar à obrigação de indemnizar.
No pedido dos autores o montante de indemnização solicitado englobava quer os danos patrimoniais quer os danos nao patrimoniais. Estes encontram-se no art. 496.º do CC n. 1 e nº 3, que diz que “na fixação da indemnização deve atender-se aos danos não patrimoniais que, pela sua gravidade, mereçam a tutela do direito” e que “o montante da indemnização será fixado equitativamente pelo tribunal”.
17 Por tudo o que se disse antes, que os autores vêem-se impossibilitados de dormir, de descansar convenientemente, há cerca de 6 anos, de recuperar as suas energias das actividades diárias. Por todos os efeitos que isto lhes provoca, pela medicação que estão a tomar, o STJ concorda com o montante fixado pelas instâncias de 10.000.00€ de indemnização para cada autor a título de danos não patrimoniais.
2.b) No seu segundo pedido, a ré questiona o encerramento do estabelecimento situado no rés-do-chão, argumentando que não fora dado como provado que este agravava o ruído proveniente da actividade desenvolvida na cave. O tribunal responde dizendo que na média de ruído calculada já estava englobado o ruído do estabelecimento de café do rés-do-chão, e que permitir a laboração deste, mesmo por baixo da fracção dos autores, antes das 7h da manhã, ou seja, ainda durante o período nocturno, seria criar as mesmas condições que lhes provocaram todas aquelas sequelas nefastas.
O STJ nega revista, quer ao autor, quer à ré, confirmando o acórdão recorrido. A ré foi condenada: a não desenvolver qualquer tipo de laboração nas suas instalações que não seja exercido por máquinas automáticas; ao encerramento, quer do estabelecimento comercial, quer da indústria de panificação entre as 22h e as 7h, até que proceda às obras de insonorização e a pagar a título de indemnização o valor de 12.500.00€ a cada um dos autores mais respectivos juros desde o trânsito em julgado da sentença. Estes 12.500.00€ para cada autor englobam, quer os danos patrimoniais, quer os danos não patrimoniais.
Este foi um caso típico de colisão de direitos entre um direito de personalidade e um outro direito, ambos absolutos, com prevalência do primeiro (direito ao repouso), devendo o direito menor (direito de propriedade e à iniciativa económica), ceder na medida do necessário, de acordo com critérios de razoabilidade e proporcionalidade.
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Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 15 de Março de 2007.
Compete agora analisar este segundo acórdão também do STJ, mas de 15 de Março de 2007 cujo Relator é Oliveira Rocha.Vamos fazer o mesmo que fizemos com o outro acórdão, isto é, vamos, primeiramente dar a conhecer a matéria de facto dada como provada e depois proceder à análise das questões que foram objecto de recurso.
18 1 – Os autores são donos de um prédio rústico no concelho de Silves onde se encontra implantado um edifício composto de rés-do-chão, 1º andar e logradouro, sendo este composto por jardim e piscina, destinado a habitação.
2 – Os autores não residem naquele edifício e só ocasionalmente ali passam alguns dias, incluindo fins-de-semana.
3 – No prédio da ré, contíguo aos dos autores, encontra-se implantada vinha; nesta vinha, a ré tem colocado uma máquina que emite um som semelhante ao de um tiro de arma de caça cujo objectivo é afugentar os pardais, impedindo que estes comam as uvas; tal máquina funciona entre a segunda quinzena de Junho e a primeira de Agosto, entre as 08.30 hora até cerca das 20.30 horas de cada dia. A máquina está em funcionamento durante cerca de dois meses por ano e nunca durante a noite.
4 – A ré vive dos rendimentos da actividade agrícola e, se não for utilizado qualquer sistema de protecção das uvas produzidas na vinha, a respectiva produção sofrerá decréscimo acentuado, o que pode levar à perda de toda a vinha, por não ser economicamente rentável a sua exploração.
Exposta a matéria de facto dada como provada compete agora analisar o âmbito do recurso de revista dos autores. No recurso para o STJ os autores realizam dois pedidos:
a) pedem que a ré seja condenada a colocar fora de serviço a máquina que produz
um som semelhante a tiros de caçadeira, que tem em funcionamento na sua propriedade, porque lhes perturba o sono e o sossego;
b) pedem ainda uma indemnização no valor de 20.000.00€ por danos não
patrimoniais.
Vistos os factos dados como provados e o âmbito do recurso, o STJ vai apreciar e decidir. E a questão que o STJ vai apreciar é a seguinte: O direito que os autores invocam e reclamam deve merecer uma maior tutela e protecção, em detrimento do direito invocado pela ré? Por outras palavras, deve o direito ao repouso e ao sossego prevalecer sobre o direito de propriedade e de iniciativa económica privada?
Tal assunto já não nos é estranho e facilmente depreendemos que estamos perante uma colisão de direitos. Temos por um lado o direito ao repouso e por outro lado o direito de iniciativa económica privada. Já vimos onde tais direitos estão consagrados, vamos então aplicar art. 335.º do CC.
O direito ao repouso, como já sabemos, é um direito de personalidade e diz-nos o acórdão que os direitos de personalidade são direitos absolutos, prevalecendo, por serem de espécie dominante, sobre os demais direitos, em caso de conflito, nomeadamente sobre o direito de propriedade e o direito ao exercício de uma actividade comercial.
19 Mas não podemos esquecer, que mesmo o direito inferior, deve ser respeitado até onde for possível e apenas deve ser limitado na exacta proporção e que isso é exigido pela tutela razoável do conjunto principal de interesses.
Afigura-se necessário analisar esta colisão de direito à luz do princípio da proporcionalidade em sentido lato ou da proibição do excesso. Este é um princípio basilar do Estado de Direito, que como tal deve ser respeitado, caso contrário não se respeitaria a dignidade da pessoa humana.
Relembrando o que já foi dito, se fragmentarmos o princípio da proibição do excesso, encontramos vários requisitos. Ou seja, para que uma medida não viole o princípio da proibição do excesso ou da proporcionalidade em sentido lato, ela tem que ser: apta ou idónea - o meio usado, a medida usada tem de ser apta a produzir um fim; indispensável ou necessária – de todos os meios igualmente aptos a produzir o fim visado deve-se escolher o meio que produza efeitos menos restritivos; princípio da proporcionalidade em sentido estrito entre o sacrifício imposto pela restrição e o benefício por ela prosseguido. Há violação do princípio da proporcionalidade quando o sacrifício imposto pela restrição é superior ao benefício que se procura atingir.
Seguindo a estrutura que foi seguida na análise do outro acórdão, vamos aplicar o princípio da proporcionalidade a este pedido realizado pelos autores em sede de recurso.
Primeiramente a idoneidade ou aptidão. Colocar fora de serviço a máquina que emite o som que afugenta os pássaros é uma medida idónea e produzir o resultado que é deixar de perturbar o direito ao repouso dos autores? Sim. Se a máquina deixar de funcionar não se viola o direito ao repouso dos autores. Em segundo lugar a indispensabilidade ou medida menos restritiva. Haverá outra medida menos restritiva do que colocar a máquina fora de serviço (desligar) que permita atingir o mesmo resultado, não violar o direito de personalidade dos autores? Não foram apresentadas alternativas. E por fim a análise custo-benefício. Se a máquina for colocada fora de serviço, deixa de ser perturbado o direito ao repouso dos autores, mas também a ré perde grande parte da produção de uva de mesa cardinal, (que não se encontra plantada em mais nenhum terreno) que por conseguinte conduz à perda de toda a vinha por não ser economicamente rentável a sua exploração. Salientando ainda que a ré é viúva e vive dos rendimentos da actividade agrícola e que os autores não habitam no prédio em questão e dispõem de outros prédios na mesma localidade. Sendo aplicada esta medida, o sacrifício imposto à ré é superior ao benefício retirado pelos autores, logo a proibição de utilização da aludida máquina apresenta-se desproporcionada à invocada ofensa dos direitos de personalidade dos autores.
Os autores fundamentam ainda a sua pretensão com base no art. 1346.º do CC. Já conhecemos o artigo em questão e este usa a expressão “prejuízo substancial”, logo
20 ficam de lado os casos que produzam um prejuízo não substancial. De acordo com o acórdão em análise, este prejuízo deve ser apreciado objectivamente, atendendo à natureza e finalidade do prédio. Ocorre que não foi alegado nenhum prejuízo patrimonial. Salientando novamente que a utilização da máquina pela ré, que vive dos rendimentos da actividade agrícola, é apenas ocasional, sazonal e diurna, em pleno meio rural, onde a habitação dos autores é isolada e só esporadicamente por eles usada.
Por tudo o que fica exposto é negada revista, não sendo possível resolver este caso concreto a favor dos autores com base no entendimento de que o direito ao repouso e à qualidade de vida prevalece sobre o direito de propriedade e de exercício da actividade económica.
8
O despertar da Jurisprudência para os direitos de personalidade.
Em 1957, pela primeira vez os tribunais faziam uma aplicação directa dos direitos fundamentais contidos na Constituição de 1933. Direitos fundamentais estes, relembre-se, esquecidos pela prática autoritária do Estado Novo. Com base no art. 360.º (direito à existência) do Código de Seabra resolveram-se dois casos:
1. Acórdão da Relação de Lisboa, de 1 de Fevereiro de 1957.
Os trabalhos do metropolitano de Lisboa, mais precisamente na Av. Columbano Bordalo Pinheiro, impediam totalmente o descanso dos moradores, afectando o seu sono e a sua existência. Desta forma, confirmou-se uma ordem judicial, de suspensão dos trabalhos entre as 0h e as 7h.
2.Acórdão da Relação de Lisboa, de 2 de Março de 1960. Devida à construção de túneis do metropolitano de Lisboa, as máquinas trabalhavam de dia e de noite, impossibilitando o descanso dos moradores, mais uma vez. Assim como já se tinha decidido em 1957, o tribunal reconheceu o
direito à existência dos implicados24.
9
Análise sucinta de vários acórdãos.
24
21 Para além dos acórdãos já referidos e analisados, vamos agora expor de forma sucinta mais alguns. Todos os acórdãos dizem respeito à colisão de direitos que temos vindo a tratar desde o início.
• No caso de uma escola de música com sede numa fracção de um prédio constituído em propriedade horizontal, o STJ num acórdão que data de 22 de Junho de 1995 refere o seguinte: “Desde que em certas fracções do prédio se venham a produzir ruídos que pela sua frequência e intensidade ultrapassam a normalidade, incomodando todos quantos residem no prédio e têm direito ao descanso e tranquilidade, sobretudo utilizando aparelhagem sonora de grande frequência, provocando um ruído insuportável e forte trepidação, há violação do disposto no artigo 70, n.º 1 do Código Civil e artigo 66, n.º1 da Constituição da República Portuguesa. Verificam-se, assim, os pressupostos da responsabilidade civil: facto, sua ilicitude, imputabilidade, dano e nexo causal.” Prevalência do direito ao repouso, ao sono e a um ambiente de vida saudável dos moradores do prédio.
• Num acórdão de 9 de Janeiro de 1996, o STJ vem novamente dar razão aos titulares do direito ao repouso, que viram o seu direito ser lesado por causa de um talho instalado no prédio onde habitam. “O dono do estabelecimento de talho, instalado no r/c de um prédio, onde se fazem barulhos no desmanche de animais que é incómodo e perturbador para os ocupantes do piso imediatamente superior, os quais, mesmo nos dias santos e feriados, vêm prejudicado o seu repouso e não têm hipótese de conciliar o sono por causa das vibrações provenientes das máquinas de refrigeração, sofrendo incómodos com todos os aludidos ruídos, é obrigado a indemnizar os lesados ocupantes do piso superior, ainda que os ruídos sejam inferiores a 10 decibéis e que a
actividade de que os ruídos resultam haja sido autorizada
administrativamente”.
• Tendo a ré instalado na cave do prédio onde habitam os autores, um bar-discoteca e tendo também conhecimento que o ruído e som emitidos do seu bar-dicoteca incomodavam os moradores, causando-lhes danos na sua personalidade e, mesmo assim, não tomou as providências necessárias, decidiu o STJ num acórdão de 13 de Março de 1997 o seguinte: a colisão entre os direitos de personalidade dos autores (direito ao repouso, à tranquilidade e ao sono) e o direito da ré, ao exercício de actividade que produza ruído, prevalece o dos autores; a prevalência dos direitos dos autores determina que estes tem direito a que o tribunal conceda, como concedeu, a condenação da ré a
22 suspender a sua actividade de funcionamento da discoteca, durante a noite, a partir das 24 horas e a indemnizar os autores.
• Num outro acórdão de 2 de Fevereiro de 1998, o STJ enuncia que:
- os direitos de personalidade emanam da própria pessoa cuja protecção visam garantir;
- o direito ao repouso integra-se no direito à integridade física e a um ambiente de vida humana sadio e ecologicamente equilibrado, e, através destes, direito à saúde e qualidade de vida;
- o princípio da proporcionalidade requer que, na presença de um conflito de interesses, o tribunal não decrete a eliminação de um direito em detrimento de outro quando isso se não justifica, logo revela-se adequado que não tenha ordenado o fecho definitivo das instalações fabris que produzem a poluição sonora lesiva dos autores mas sim que decida que a actividade industrial não prossiga enquanto a mesma continuar a causar a lesão.
• Num acórdão de 12 de Dezembro de 2002, a Relação do Porto considera que tendo os RR. Instalado em seu prédio, muito próximo da casa de habitação dos AA, currais de ovelhas e vacas que provocam cheiros que incomodam os AA e barulho que, por vezes, impede que descansem durante a noite, justificando-se a sua condenação a retirarem dali os animais, deixando de utilizar essas instalações. Concluindo pela prevalência do direito ao repouso.
• O STJ, num acórdão de 15 de Maio de 2008: “está provado que os autores, sendo a sua fracção destinada a habitação, segundo aquele título constitutivo de propriedade horizontal, devido ao ruído que vem da fracção do réu, não podem descansar, dormir e ter sossego, o que lhes causa incómodos e aborrecimentos e os traz nervosos e stressados. Os autores têm o direito a que o estabelecimento do réu seja encerrado”.
10
Inclinação da Jurisprudência.
Facilmente nos apercebemos, pela leitura realizada, que no que concerne às decisões dos acórdãos, que os tribunais têm-se pronunciado no sentido geral da prevalência do direito de personalidade. Mas casos existem, temos o exemplo do acórdão da Relação de Coimbra de 7 de Julho de 2004 e do acórdão do STJ de 15 de Março de 2007, em que o direito prevalecente é o direito de propriedade e de iniciativa económica privada, em detrimento do direito ao repouso, ao sono, a um
23 ambiente de qualidade de vida, por ser manifestamente excessiva a restrição da actividade económica quando comparada com o benefício dos titulares do direito de personalidade – princípio da proporcionalidade.
Assim, num universo de treze acórdãos referidos, uns de forma sucinta outros de forma aprofundada, apenas em dois, já referidos, prevalece o direito de propriedade e de iniciativa económica privada.
Se equipararmos a colisão a uma balança em que de um lado temos o direito ao repouso, ao sono, a um ambiente de vida saudável e, do outro lado, temos o direito de propriedade e de iniciativa privada, após a análise feita, a balança pende para o lado do direito de personalidade e tal não é de difícil compreensão, pois estamos a falar de algo essencial a um ser humano, algo que é inerente à sua personalidade, à sua integridade: o repouso, o sono, um ambiente de vida saudável.
11
Notas conclusivas
Em suma, o que importa reter da exposição realizada é fundamentalmente saber o que é uma colisão de direitos (direitos incompatíveis no seu exercício, pertencentes a pessoas diferentes), como é que se resolve (art. 335.º e princípio da proporcionalidade).
Perceber que o direito ao repouso, ao sono e a um ambiente de vida saudável afigura-se superior ao direito de propriedade e de iniciativa económica privada, por ser inerente à personalidade da pessoa, consistindo em algo essencial a uma vida equilibrada e saudável. Contudo, o que não se pode fazer é dizer que este direito de personalidade prevalece sem mais, pois como constatámos, tal não ocorre sempre. É fundamental perceber em que é que consiste o princípio da proporcionalidade, bem como os seus requisitos e a sua importância para a resolução destes casos de colisão.
Afigura-se sempre necessária uma ponderação dos valores de acordo com o caso concreto. É este o caminho a seguir de modo a encontrar a melhor solução para o conflito.
24
12
Bibliografia
• CORDEIRO, ANTÓNIO MENEZES, Tratado De Direito Civil, Tomo III, 2ª edição, 2007
• DUARTE, RUI PINTO, Curso de Direitos Reais, 2ª edição, 2007
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• NOVAIS, JORGE REIS, As Restrições Aos Direitos Fundamentais Não
Expressamente Autorizadas Pela Constituição, Coimbra Editora, 2003
• NOVAIS, JORGE REIS, Direitos Fundamentais: Trunfos Contra A Maioria, Coimbra Editora, 2006
• SOUSA, RABINDRANATH CAPELO DE, O Direito Geral de Personalidade, Coimbra Editora
• VASCONCELOS, PEDRO PAIS DE, Teoria Geral Do Direito Civil, Almedina, Coimbra, 2006
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Lista de Jurisprudência
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• Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 2/6/95 • Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de STJ 9/1/96 • Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de STJ 13/3/97 • Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de STJ 2/2/98 • Acórdão da Relação do Porto de 12/12/02
• Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 1/4/03 • Acórdão da Relação de Coimbra de 7/7/04
• Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 15/3/07 • Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 13/9/07 • Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 15/5/08