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Adolescência: às margens da lei

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Academic year: 2021

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ANDRESSA FERNANDA WILLE

ADOLESCÊNCIA: ÀS MARGENS DA LEI

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UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

DFP – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO CURSO PSICOLOGIA

ADOLESCÊNCIA: ÀS MARGENS DA LEI

ANDRESSA FERNANDA WILLE

ORIENTADORA: NORMANDIA CRISTIAN GILES CASTILHO

Trabalho de Conclusão de curso apresentado como requisito parcial para a conclusão do curso de formação de Psicólogo.

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ADOLESCÊNCIA: ÀS MARGENS DA LEI

BANCA EXAMINADORA:

Prof ª Ângela Maria Schneider Drugg (UNIJUI)

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AGRADECIMENTOS

Aos meus pais por todos esses anos de apoio na formação universitária.

Ao meu irmão, cunhada e avós, que sempre apostaram na minha capacidade e ajudaram nas dificuldades.

Aos meus amigos que sempre me escutaram, me acompanharam, e divertiram durante todo o percurso.

Às colegas Josiane Kapp Kopezinski, Naiara Bandeira e Juliana Moura Marques que se tornaram grandes amigas e pessoas muito importantes para esta formação.

A professora Normandia Cristian Giles Castilho, que junto comigo aceitou o desafio de escrever este trabalho.

A professora Angela Maria Schneider Drugg, que aceitou ser minha banca.

E aos meus professores, pela paciência, dedicação, profissionalismo e, acima de tudo, apoio para todos seus alunos.

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“Adolescência é um tempo ao qual, em geral, as crianças querem chegar, os adultos querem retornar e do qual os adolescentes querem sair. As crianças querem chegar porque imaginam que poderão se livrar da tirania dos adultos. Os adultos querem voltar porque idealizam esse como o momento da vida em que ainda nada estava decidido e, portanto, poderiam – se retornassem – refazer suas escolhas. Os adolescentes – desmentindo essa idealização – querem sair justamente para se desvencilhar dessa pesada carga, que o discurso social lhes demanda, de se prepararem para realizar tudo o que até agora ninguém conseguiu realizar”. (Alfredo Jerusalinsky, 2002, p. 2)

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ADOLESCÊNCIA: ÀS MARGENS DA LEI

ALUNA: ANDRESSA FERNANDA WILLE

ORIENTADORA: NORMANDIA CRISTIAN GILES CASTILHO

RESUMO:

A adolescência é um período de passagem, da posição infantil para uma nova posição discursiva. Nesta passagem se retificam e validam as operações fundamentais que estruturam o sujeito. A puberdade como real irrompe obrigando o adolescente á uma reconstrução do corpo, o social convoca o sujeito a tomar uma nova posição e a assumir seus atos em nome próprio. É propriamente uma crise subjetiva, exigindo um intenso trabalho psíquico, tornando-se uma verdadeira operação de subjetivação. Dentre as questões as quais o adolescente deve dar conta é a sua relação com as leis, a Lei do pai e as leis civis, a qual, se problematizada, pode acabar por conduzir a delinquência. A delinquência é uma das saídas possíveis para a crise adolescente. É uma saída sintomatica encontrada para lidar com isto que se impõe neste período e que o adolescente precisa responder de alguma forma. Assim, a pretensão deste trabalho é apresentar contribuições de cunho psicanalítico para o entendimento de questões ligadas à delinqüência e de sua articulação no discurso do adolescente.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 7

1 SUBJETIVAÇÃO ADOLESCENTE ... 9

1.1 O adolescente e o corpo ... 13

1.2 A lógica fálica ... 16

1.3 Da família ao laço social ... 23

2 A DELINQUÊNCIA NA ADOLESCÊNCIA ... 28

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 49

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho abordará o tema da adolescência e nossa questão de investigação é sobre a delinquência como uma das problematizações que podem vir a ocorrer neste período.

Nos últimos anos assistimos apreensivos a uma onda de violência muito grande que vem ocorrendo em todas as camadas sociais da população. Observa-se também que muitos dos sujeitos que praticam essa violência são adolescentes. Mas o que estaria acontecendo com estes adolescentes levados a cometer atos infracionais? Em uma sociedade permeada e regulada por leis, o que leva um sujeito a cometer atos delinquentes? Estas são as perguntas que nortearam nosso estudo.

A escrita deste trabalho é motivada pelo interesse em estudar a operação adolescente e suas implicações e em entender o que acontece com os adolescentes em situação de delinquência, que mesmo diante da ameaça das leis, cometem infrações desafiando a compreensão social e o sistema judiciário. A mídia retrata todos os dias o crescente número de infrações delinquentes sobre as quais faz julgamentos e propõe medidas quase que “extremas” para acabar com as ocorrências. Assim, qual a leitura que se pode realizar diante deste contexto e a partir desses comportamentos? Partindo da Psicanálise podemos observar este fenômeno por outro ângulo, buscando o sujeito que há nestes adolescentes em situação de delinquência e o que os levou a cometer os atos infracionais.

Desta forma, este trabalho divide-se em dois capítulos. O primeiro “A Subjetivação Adolescente” aborda as questões relativas ao processo da passagem adolescente e suas implicações, já que para responder nossa questão de estudo, é necessário entender esta operação adolescente, entre as quais podemos citar a identificação, as mudanças corporais.

O segundo capítulo, “A delinquência na Adolescência” fala sobre a abordagem do fenômeno delinquente enquanto um sintoma e suas expressões na modernidade. Para falar da delinquência é preciso observar a relação do sujeito com as leis, tanto a Lei simbólica, a Lei

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do Pai, constitutiva da subjetividade, quanto às leis civis, e ver em que medida o delinquente interpela cada uma delas. Assim, com base na Psicanálise, buscaremos entender a ocorrência da delinquência.

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1 SUBJETIVAÇÃO ADOLESCENTE

O presente capítulo aborda o conceito da “Adolescência” como uma operação de subjetivação. Isto nos permitirá tentar responder nossa questão de investigação, que é a delinquência na adolescência a partir da teoria psicanalítica. Neste sentido, o capítulo se centra nas operações de subjetivação do processo de adolescer. O mesmo será subdividido em quatro partes, sendo elas: a subjetivação adolescente, o adolescente e o corpo, a lógica fálica, e a passagem da família para o laço social.

A modernidade trouxe consigo mudanças culturais que atingiram vários âmbitos da vida humana. Com a ascensão do capitalismo, as estruturas das famílias modificaram-se para adaptar-se ás novas configurações discursivas. Uma das consequências deste processo e do novo modelo das relações sociais é o fato de que muitos pais e mães precisaram sair de casa para trabalhar e assim, conseguir prover a família, havendo, neste sentido, a necessidade de deixar ao encargo de terceiros, como escolas e babás, os cuidados com os filhos.

Outra modificação que ocorreu com a ascensão do capitalismo foi que, comparando a sociedade atual com as sociedades tradicionais, nas quais a vida privada ficava fora da ordem pública, atualmente pode-se observar uma inversão dessa ordem, onde o privado transforma-se naquilo de que o público deveria transforma-ser privado. Essa subversão do público pelo privado acabou produzindo efeitos nas relações familiares, alterando-se a forma de transmissão e de viver o social. Cada vez mais cedo as crianças são enviadas para a escola, a qual é incumbida de sua educação e, muitas vezes, de sua maternagem e paternagem.

Arendt (2008, p. 238), em “A crise da Educação”, afirma que:

Quanto mais distintamente a sociedade moderna rejeita a distinção entre aquilo que é particular e aquilo que é público, ou seja, quanto mais ela introduz entre o privado e o público uma esfera social na qual o privado e transformado em público e vice-versa, mais difícil torna as coisas para suas crianças, que pedem, por natureza, a segurança do ocultamento para que não haja distúrbios em seu crescimento e amadurecimento.

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Todas as modificações nas configurações das esferas públicas e privadas produziram efeitos significativos na forma como os lugares dos representantes sociais da autoridade passaram a ser tomados. Enquanto que nas sociedades tradicionais o lugar paterno era soberano, em nosso laço social contemporâneo, apresentam-se instituições reguladoras, como o Estado e os especialistas científicos, que acabam por intervir nas relações, entre pais e filhos, desautorizando-os e lhes tirando parte do saber.

Assim, as mudanças produzidas por esta nova ordem acabaram afetando vários âmbitos da vida dos sujeitos, dentre elas, o adolescer. A adolescência é marcadamente um fenômeno da contemporaneidade advindo destas mudanças culturais. Embora a adolescência, como uma passagem sempre existiu, o que se coloca de forma diferente na atualidade é que, a crise adolescente surge como um fenômeno contemporâneo.

Nas sociedades tradicionais a passagem para a adolescência era realizada a partir de rituais. Já na modernidade, com a diminuição da ocorrência de tais ritos, o sujeito não tem acesso às referências simbólicas para esta passagem, podendo, desta forma, ocorrer uma problematização.

Segundo Ruffino (2000), a eficácia simbólica presente nos rituais davam aos adolescentes referências que lhe ajudavam a entender a puberdade, e desse entendimento é que surgiria o adulto que poderia ser contado como semelhante pelos demais adultos da comunidade. Nos rituais, a função paterna é sustentada por uma rede simbólica e encarnada em uma figura que deveria dar conta deste lugar. Desse modo, com a escassez de rituais iniciáticos, não há um dispositivo que contenha a eficácia simbólica dos ritos das sociedades tradicionais, exigindo assim, que o adolescente dê conta dessa passagem sozinho.

A passagem para a adolescência dependia da cultura de origem, as quais a realizavam de acordo com relação da idade e tempo estabelecida nesta. A entrada na adolescência era vista então, como uma construção da posição social do sujeito adulto.

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A esse respeito, Rassial (1997, p. 14) afirma que:

Se as sociedade fundadas sobre a transmissão oral preservavam nos ritos iniciáticos o espaço potencial desse não-lugar da adolescência, a violação necessária das leis, figura única de uma passagem no intervalo legal, só pode ser sublimada hoje em dia sobre dois modos, eventualmente complementares: a construção imaginária de um ‘pré-histórico’ ou de um ‘pós-histórico’ e o ato da violência real contra os representantes da lei atual. É porque ele aparece justamente no momento em que, mesmo sem fundamento, o discurso social mantém-se (o poder), porque ele coloca ordem produzindo sentido, é por isso que a anarquia, sob a forma doce da ecologia ou dura do terrorismo, é o sintoma social da adolescência.

Ou seja, com os ritos iniciáticos de entrada na adolescência era permitida a sublimação desta passagem pelo “não-lugar” que a adolescência designa legalmente, por estar entre duas leis, a da criança e a do adulto. As leis escritas, só podem definir limites e rejeitar a dimensão de um fora-de-lugar, de um lugar outro. Desta forma, sem estes ritos iniciáticos, a violação necessária dessas leis, para uma passagem por este intervalo legal, por este “não-lugar”, só pode ser sublimada de duas maneiras, através de uma construção imaginária de um “pré-histórico” ou de um “pós-“pré-histórico” e o ato da violência real contra os representantes das leis, como o autor acima coloca.

Assim, com o declínio dos ritos de passagem na sociedade moderna, os adolescentes da sociedade contemporânea acabam criando seus próprios rituais de passagem entre a posição de criança para a de adulto. Alguns fazem uso das tradições familiares ou religiosas, seguindo a história da família, seus costumes, ou apegando-se a rituais religiosos, por exemplo. Mesmo, assim, se faz necessário então, na falta de rituais iniciáticos um trabalho singular onde cada sujeito deverá encontrar seu modo de simbolizar as mudanças convocadas pela puberdade e pelo social. As saídas encontradas pelo adolescente são construídas em sua singularidade, ou seja, cada sujeito vai encontrar a sua forma de lidar com a passagem pela adolescência. Quando há problematização da mesma, a delinquência se coloca como uma das saídas sintomáticas possíveis, a qual é o nosso tema de interesse.

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A adolescência configura-se como um momento de passagem, mas que passagem seria esta? É a passagem da infância para a vida adulta. É neste tempo de passagem que o sujeito vai ter que se haver com seus conflitos infantis que serão reeditados, necessitando, desta forma, de um trabalho psíquico. A adolescência é assim, um momento de trabalho psíquico de apropriação de si mesmo, de seu novo corpo, estatuto e valor deste, da forma de olhar o mundo e os outros, momento de (re)elaboração das noções acerca de sua própria identidade. Este é um tempo importante de subjetivação, pois além do Complexo de Édipo, é necessário passar pela adolescência para o sujeito conquistar um lugar, uma nova posição discursiva e assumir seus atos em nome próprio.

Deste modo, se pode pensar o adolescer com um processo de transformação, onde é realizada uma mudança de posição, a de criança para a de adulto. É um tempo lógico onde algumas reedições e validações das operações realizadas na infância precisam ser feitas. Assim, é preciso que na adolescência o sujeito revalide algumas operações fundantes, entre elas a função paterna, de modo que venha apropriar-se dos efeitos desta e autorizar-se a fazer suas próprias escolhas e responsabilizar-se por elas.

Segundo Rassial (1997), a adolescência pode ser vista também como uma crise, pois são várias as mudanças que se colocam, exigindo que o sujeito dê conta destas. O adolescente encontra-se em um lugar que não é criança, mas também, ainda não é adulto. É precisamente neste intervalo que se encontra a problemática adolescente. Segundo ele, “[...] não totalmente criança, não totalmente adulto, devido a seu estatuto social entre menoridade e maioridade, o adolescente frequentemente tem a tendência em generalizar esse estado não totalmente” (RASSIAL, 1997, p. 30).

O adolescente vive uma crise de identidade que corresponde a esta nova posição adulta que é convocada a assumir. Assim, interagindo com as transformações que lhe surgem, percebe que todo este processo não é reconhecido pelos adultos, nem tampouco ele é

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reconhecido como sendo um deles, e isto acaba por gerar conflitos. Dessa forma, o adolescente precisa reorganizar seus pensamentos, e enfrentar conjuntamente a isso, as cobranças que acontecem no âmbito familiar e social quanto a sua autonomia e responsabilidades. O adolescente é então convocado, desde seu corpo e do olhar do outro, a ser algo diferente do que foi quando criança e a dar conta de todas estas cobranças mesmo sem estar devidamente preparado.

Para trabalhar a subjetivação adolescente vamos dividi-la em três pontos principais, o primeiro tratará sobre as questões referentes ao corpo do adolescente, em segundo lugar, falaremos da lógica fálica, da genitalidade e da assunção de uma nova posição em relação ao sintoma, e por último, abordaremos as questões referentes à família e o laço social.

1.1 O adolescente e o Corpo

Muito se discute sobre o que viria primeiro, a adolescência e com ela a puberdade ou se a puberdade causaria a entrada na adolescência. A resposta é nenhuma das duas hipóteses. Vista sob o ângulo das ciências da saúde, a puberdade é um período em que ocorrem mudanças biológicas e fisiológicas. É neste período que o corpo desenvolve-se fisicamente e atinge a maturidade corporal. Nesta fase, são observadas mudanças tais como: crescimento de pelos, crescimento dos testículos e aparecimento dos seios. Já a adolescência, é vista pela psicologia como uma passagem, uma passagem da infância para a vida adulta.

A puberdade, sob a ótica da Psicanálise, segundo Lesourd (2004), é entendida como a irrupção do real, da “carne” na imagem do corpo do sujeito. É o reencontro do adolescente com o sexual trazido pela irrupção da puberdade, esfacelando o corpo imaginário da infância vestido pelos significantes do Outro e constituído no olhar e na voz do Outro. Este sexual é ligado á experiência de excitação-satisfação primaria (“da carne”), ou seja, do corpo/carne

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que foi recalcado, que faz seu retorno no tempo da adolescência. Este sexual é o primeiro gozo do corpo marcado como excitação – satisfação no psiquismo onde “carne, objeto, sujeito e Outro, não são ainda distinguidos um do outro.

Com a introdução da puberdade, o real advindo desta acaba por abalar a organização genital infantil construída no Complexo de Édipo e sustentada na promessa edipiana. Segundo Lesourd (2004, p. 34),

A descoberta do sujeito no tempo pubertário, e isso pela primeira vez, é que a posse fálica da promessa edipiana, do ‘quando eu crescer’, é um logro. Não há completude possível, não há realização plena do desejo, não há verdadeira verdade, a organização genital infantil se revela caduca e desaba. A obtenção do falo por sua conta se revela impossível, pois o falo é um puro significante. Não há falo do corpo (nem criança, nem pênis), não há objeto que garantiria o gozo pleno.

Assim, quando o real do corpo insiste em retornar e a carne irrompe no corpo tecido pelos significantes na infância, o gozo que foi afastado pelo recalque reaparece. Esse gozo é denominado gozo do corpo, pois não esta arrimada pelo simbólico, ou seja, pela operação edipiana. Com essa irrupção do corpo/carne o efeito produzido no sujeito é que o corpo imaginário construído na infância perde seu apoio. Neste sentido, o adolescente deverá reconstruir seu corpo. O que ocorre na puberdade é que

há uma efração daquilo que constituirá a imagem de corpo no tempo do estádio do espelho, imagem do corpo que se constitui na voz e no olhar do Outro como imagem fora da carne e fora do gozo, como pacificação do gozo da carne pela imagem de corpo, como mostra a jubilação diante da imagem. (LESOURD, 2004, p. 35).

Com a realidade das modificações corporais e psíquicas, o adolescente, para dar conta destas, se depara com a necessidade de reconstrução do estádio do espelho, que, segundo Lacan (1984), é compreendido como uma identificação, uma transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem. Essa necessidade ocorre porque sua primeira identificação parental que tinha como referência já não é mais suficiente, então ele busca por novas referências, sejam elas nos semelhantes ou pares.

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Para Lacan (1984), o estádio do espelho pode ser definido como um momento de construção do eu, ou seja, é fundador da subjetividade, da apropriação imaginária e organizador do Eu. Essa construção acontece na relação com o Outro, através do espelhamento, onde o olhar materno que é direcionado ao bebê, e a relação que se estabelece entre mãe-bebê é o que possibilita que a criança se utilize do corpo do Outro como espelho, para assim configurar sua própria imagem. São esses traços perpassados pela imagem do Outro que garantem o estabelecimento da identidade, e também, é através desse espelhamento que se dará a inscrição corporal.

A adolescência é o momento em que, sob o olhar do outro, que não é mais o materno, o sujeito terá que se reapropriar de uma imagem de corpo transformada. Esta imagem de corpo é afetada de quatro modos: primeiramente pela modificação de seus atributos (pilosidades e seios, por exemplo); em segundo, por seus funcionamentos (genitalidade, menstruação, etc..); em terceiro, pela semelhança com o corpo adulto; e em quarto por sua importância para o olhar do adolescente ou do adulto do outro sexo.

O corpo do adolescente toma as formas pubertárias que o deixam diferente do que fora o corpo infantil, o que acaba por modificar o valor de seu estatuto. O acesso fisiológico a genitalidade e suas consequências são uma modificação fundamental e se colocam para além das mudanças corporais, pois, a adolescência como uma operação de subjetivação, implica também em questões subjetivas e estruturais. A mudança de estatuto se deve especialmente ao fato de que a genitalidade ocupa uma posição dominante para o sujeito: por um lado o sujeito só conquista sua identidade ao pertencer a um dos sexos, em uma lógica que pode ser dita fálica (dissimetria entre os que têm e os que não têm o falo), e por outro lado, é o outro que detém o poder de reconhecer este corpo como genitalmente maduro, desejável e desejante.

Sobre o reajuste na imagem de corpo, Rassial (1999) fala que na puberdade, a estruturação de imagem de corpo que já aconteceu na infância é posta a prova, pois a imagem

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de corpo ali construída, que se sustenta com base no olhar dos pais, não dá conta do que retorna com as modificações trazidas pela puberdade (real da carne, corpo do gozo), pois estas vão além do corpo imaginário e do que o sujeito consegue simbolizar.

Com a adolescência a mudança de estatuto e ao endereçar-se ao outro sexo, o sujeito, ao colocar-se no lugar de objeto de desejo, experimenta o corpo sexuado se colocando como objeto ativo no lugar de objeto de desejo e do fantasma do outro. E ao mesmo tempo, o corpo do outro entra em cena como objeto de desejo, evidenciando, assim, que este outro pode ser também sujeito do desejo. Juntamente a isto, essa ambiguidade diz respeito à própria posição sexuada do adolescente, que pode experimentar ativamente as possibilidades de seu corpo para se colocar como objeto de desejo do outro. Ou seja, o sujeito se coloca como ativo na produção de um desejo do qual ele é também objeto.

Desse modo, não se trata apenas de um reajuste da imagem da adolescência, mas sim, de uma modificação do valor do corpo, que não funciona mais como o da criança: os portadores do olhar privilegiado não são mais os pais, mas um semelhante cujo desejo está ele mesmo engajado. Assim, o adolescente necessita realizar o trabalho de elaboração das modificações reais de seu corpo e das consequências destas, sendo que estas são colocadas constantemente à prova pela castração.

Como os portadores do olhar não são mais os pais, que na infância fizeram este papel, é preciso que o adolescente busque fora do âmbito familiar o olhar que devolva algo de sua própria imagem. É esse olhar do Outro que confirma o novo estatuto de sua imagem, como sujeito desejável e desejante.

A partir da mudança do olhar do Outro, muda também a forma de relacionamento que o sujeito estabelece com os demais. Isso se dá de forma diferente para meninos e meninas, onde cada um se apoiará em seus mecanismos disponíveis no momento para entrar no jogo da sedução e nos relacionamentos. Para a menina, a puberdade assinala o que pode

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ser visto pelos outros, onde faz uso da especularidade e da exibição. Desta forma podemos compreender o interesse por parte desta pela maquiagem e pelo modo de vestir, através dos quais ela se utiliza para oferecer-se como objeto ao olhar do outro. Já para o menino, o que animará a relação que ele terá com o outro sexo será a voz e sua colocação a prova: o ato de contar vantagens sobre suas experiências.

Assim, as identificações colocadas em causa na relação com o outro, a reconstrução da imagem perdida na infância e que agora toma formas adultas e sua consequente mudança de valor e estatuto exige do adolescente um intenso trabalho psíquico. A puberdade e suas mudanças no real do corpo colaboram para tornar ainda mais difícil este trabalho.

1.2 A lógica fálica

A sexualidade humana é totalmente e integralmente permeada e determinada pelo fato de sempre constituir-se a partir de sua relação com o Outro, ou seja, na alteridade, com a cultura, na linguagem e com o desejo do Outro.

Para explicar a sexualidade, Freud, e posteriormente Lacan, em suas obras, fazem uso do conceito de Falo. O falo1 é considerado o significante do desejo e regula toda a sexualidade humana. Na realidade, todo ser humano se vê desprovido de falo, independentemente de ser homem ou mulher, pois como todos passamos pela castração, sempre atribuímos ou projetamos a um outro atributos fálicos que não identificamos em nós mesmos. Teoricamente, somente o pai possui o falo, pois todo o filho atribui ou projeta um falo a este, mesmo que na verdade ele não o tenha, e é por isso que o pai faz toda diferença para a criança. O falo é o

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O falo é abordado de formas diferentes por Freud e Lacan. Freud introduz o conceito de falo como uma função simbólica desempenhada pelo pênis. Posteriormente, com o Complexo de Édipo, trabalha com a dialética ser ou não ser o falo. Já Lacan, eleva o falo a condição de significante da diferença sexual e da falta.

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objeto do desejo por excelência, o que todo sujeito quer ter para ser como o pai, e desta forma, reconquistar a posição original com a mãe.

Com o desfecho do Complexo de Édipo, a criança entra no período de latência que engloba o declínio da sexualidade infantil até o início da puberdade, marcando assim, uma pausa na evolução da sexualidade com uma diminuição das atividades sexuais. Com a chegada da latência, a criança se dará conta de que até mesmo o pai claudica, isto porque desidealização paterna se coloca de forma evidente. Apesar desta descoberta não impedir o sujeito de continuar desejando o falo, ela exigirá uma tomada de posição diante das evidências da castração.

A saída do período de latência ocorre com a chegada da adolescência e com as questões que esta trás, como a assunção de um novo sintoma. A adolescência é um momento então, que diante das evidências da castração e a necessidade de reapropriação da imagem de corpo sob o olhar do outro, o sujeito terá de realizar este trabalho de reapropriação, e isso ao preço de um novo sintoma ou de uma modificação do sintoma existente, que dessa vez, passa a ser mais explicitamente sexual. Como trás Rassial (1997, p. 40),

De sintoma que era no desejo dos pais e, sobretudo da mãe, ele deve tornar-se proprietário de um sintoma que toma, a partir de então, todo seu impulso intersubjetivo (sinthoma-ele ou sinthoma-ela) para transformar-se em sintoma sexual, quer seu lugar seja genital, corporal, linguageiro, comportamental ou outro. (grifo do autor).

Com uma nova tomada de posição em relação ao significante fálico, ocorre que o corpo do adolescente, que já não tem mais a mesma forma, muda também de estatuto, que agora não é mais de um corpo infantil. Á partir deste momento, o sujeito tem acesso fisiológico a genitalidade, o que acaba por ocupar uma posição dominante para o sujeito adulto. Ou seja, o corpo muda de estatuto porque a genitalidade ocupa uma posição dominante para o sujeito. Neste sentido, com as mudanças introduzidas pela puberdade e a

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necessidade da conquista de uma identidade, é preciso que o sujeito pertença a um dos dois sexos, em uma lógica que pode ser a fálica. Como afirma Rassial (1999, p. 19),

Não se trata apenas de um reajuste, mesmo difícil, da imagem na adolescência, mas sim de uma modificação mesma do valor do corpo, tal qual funcionava na criança: o portador do olhar privilegiado, não é mais um dos pais, mas um semelhante, cujo desejo esta ele mesmo engajado.

Ainda segundo o autor, a “sexualidade normal” não se dá pelas mesmas vias no homem e na mulher, e é na adolescência que esta divergência vai se colocar. Se na primeira divisão engaja precoce e diferentemente o homem e a mulher na relação com o falo (função do complexo de Édipo), é na adolescência que esta divisão toma um novo sentido, particularmente social, pois a questão do conjugo, ou seja, o encontro com o outro sexo torna-se atual.

Sobre o conjugo, se pode dizer que os dois sexos só podem conjugar de forma capenga, porque na relação com o outro, as relações são mediatizadas pelo fantasma, não são relações entre corpos carnais no ato sexual, e sim, através dos fantasmas de cada sujeito. Estes dois momentos são fundamentais para o adolescente por organizarem a sexualidade com a qual estes acabam de deparar-se. Assim, em meio à confusão referencial que o sujeito se encontra neste período, ele deve responder com os meios que dispõe e que organizam sua nova posição, a adulta.

As mudanças pubertárias colocam todo adolescente diante do desaparecimento definitivo do objeto de amor infantil. A desidealização dos pais e o engodo da promessa edípica mostram a ele que aquilo que foi construído na infância já não dá mais conta de explicar o mundo com o qual ele agora ele tem diante de si. É preciso então, buscar novas referências e um novo objeto para investir, e estes não estão mais no circulo familiar, e sim, no social.

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Assim, o adolescente percebe nunca encontrará na realidade o objeto de satisfação total que preencheria a falta de ser e ofereceria o gozo pleno, pois este não existe, e por isso busca a sua substituição. Essa operação, a castração simbólica, é própria da adolescência, e causa a perda do objeto que a criança procurava até então, ou que acreditava poder obter com a vida adulta. Desta forma, inicia-se uma busca por um objeto na realidade. Dito por Lesourd (2004, p. 99)

A perda definitiva do objeto psíquico de amor implica então uma busca do objeto na realidade, que poderia oferecer prazeres parciais, ou que, nos piores casos, poderia substituir este objeto psíquico perdido. Assim, o adolescente esta em uma fase de re-criação do objeto de amor. Perdendo o objeto psíquico que, desde a infância, dirigiu os seus desejos e logo os seus comportamentos, ele se encontra, por causa da perda, diante da necessidade de reconstruir um objeto de reencontrá-lo.

Com a necessidade de reconstrução do objeto de amor a partir dos objetos da realidade o adolescente precisa procurar este objeto em outro lugar, que não o familiar. Com a puberdade ocorre uma recapitulação, uma reedição da complexa trama amorosa precoce do complexo de Édipo. O que acontece é que na adolescência, ao contrário da infância, que transforma o amor em identificação, é realizada uma inversão, onde estas identificações devem dar lugar ao amor. Assim, a adolescência é uma época de gestões amorosas que possuem a mesma intensidade daquelas tidas na infância, mas que agora são feitas e buscadas fora da família, no social. Como afirma Corso (2002, p. 21),

A juventude é a imposição do exercício (imaginário e ou factual) do amor, em que a consistência até então adquirida é posta à prova e mostra suas arestas, dando ocasião para que as histórias amorosas infantis que pareciam dormir se traduzam numa fantasia, num ilídio, numa obsessão.

Na adolescência o sujeito irá se deparar com as questões relativas à identificação sexual e com as posições sexuais, o masculino e o feminino. Com a busca de um novo objeto de investimento, outra questão se coloca ao adolescente, que é o encontro com o outro sexo e a necessidade de lidar com isso que no momento toma outra conotação, agora sexual. Como

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as identificações são recolocadas em causa na relação com o outro, alguns objetos pulsionais vem então ocupar um lugar nodal. Estes objetos são atribuídos a Mãe Primordial, os objetos ‘a’ que são o olhar e a voz. Assim, no processo de redistribuição pulsional a diferença sexual é duplicada. Para a moça, a pulsão escópica é acentuada, já para o rapaz, a pulsão vocal se coloca como central.

Segundo Rassial (1999), com as mudanças na silhueta a imagem do corpo do adolescente, ocorre busca do comprometimento com dois olhares: com a busca da conformidade com um modelo socialmente estabelecido e com a demanda de uma confirmação, pelos outros, de que seu estatuto de corpo mudou. Em relação ao falo, e, portanto, a distribuição dos sexos, a menina terá que se situar não como aquela que possui, mas como aquela que o faz aparecer, mesmo que seja apresentando-se como desejável. Já o rapaz, experimentando uma outra modificação de seu corpo em sua ancoragem fálica, a da ereção e da detumescência, o que animará sua relação com o outro sexo será a voz e o ato de contar vantagens. O rapaz perceberá também que não é simples falar, uma vez que a voz é um objeto separado do corpo, ou seja, há um sujeito e uma língua e entre os dois há um intervalo subjetivado pela voz, que não é propriedade de nenhum deles. Esta voz pode ser comparada a voz do pai, pela sua mudança de timbre e pelo tom mais grave que ela toma.

Fazendo o uso de experiências como o namoro, o amor, e as primeiras relações sexuais, o adolescente testa o processo de identificação sexual com o qual se depara neste momento. Sobre isso, Rassial (1999, p. 28) afirma que

A articulação entre as tentativas de sedução, o namoro e o ato sexual é a tentativa, ao mesmo tempo, de usar estes objetos investidos de modo novo, que são o olhar e a voz, de ressituar os objetos infantis redescobertos do lado do outro sexo, em particular o objeto oral, e de obedecer à hierarquia proposta que valoriza a genitalidade.

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Nas tentativas de identificação, as amizades e os “ficantes” passam a ocupar um lugar privilegiado. Estas tentativas têm por objetivo usar os novos objetos investidos, o olhar e a voz, e também, de ressituar os objetos infantis redescobertos do lado do outro sexo.

Através da paquera, por exemplo, o adolescente pode demonstrar o novo valor do que olhar e da voz adquiriram, onde, do lado feminino haverá a tentativa de prender o olhar do rapaz se mostrando diferente das demais moças, e também dirigindo-lhe um olhar que pede uma resposta. Já do lado masculino, além desta mesma exibição, ele mostra o novo domínio que tem sobre a fala, “propondo participar do jogo de enganação que as palavras investidas de modo novo tornam possível” (RASSIAL, 1999, p. 28).

Com o namoro, o beijo na boca ganha uma importância particular, assim como os toques, que são jogos sexuais onde se percebe a qualidade de objeto do corpo do outro e do próprio corpo para o outro. Já sobre amar, “o amor dos adolescentes revela logo sua verdadeira natureza: o objeto de amor é indiferente, o que conta é o estado amoroso” (RASSIAL, 1999, p. 29). Os adolescentes mudam com frequência de objeto, e isto não quer dizer que não haja o amor por tal. Para Rassial (1999), o amor entra com o valor uma operação subjetiva da operação de entrada na lógica fálica, entrada edípica repetida na adolescência.

Assim, com estas experiências o adolescente inicia sua busca pelo parceiro ou parceira, busca esta que se dá fora do âmbito familiar, o que exige que o adolescente saia de casa para relacionar-se. Com o suporte de semelhantes de sua idade ou grupo, o adolescente consegue realizar a passagem do âmbito familiar para o social, orientando-se em relação ao semelhante do Outro sexo.

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1.3 Da família ao laço social

Para que o adolescente consiga sair do lar familiar e dirigir-se ao social lhe é exigida uma nova construção identificatória, que se estabelece pela identificação com o semelhante de sua idade e grupo.

A adolescência pode ser vista como uma passagem onde a grande maioria dos adolescentes faz a passagem de casa para a rua, ou da família para o social. Este movimento vai exigir dele uma construção de um lugar no social, lugar este diferente do que ocupava na família, um lugar subjetivo que também é social, enquanto sujeito no mundo.

Quanto à construção deste lugar subjetivo, será necessário também que o adolescente tome a palavra para si, que fale em nome próprio. Ou seja, ele precisar sustentar sozinho o que até agora teve por base a família, o discurso familiar. Deste modo, o adolescente, tomando para si a palavra, falará em nome próprio, falará de seu lugar de sujeito. Foi através da família que o adolescente se inscreveu em uma filiação, e através dos pais e avós que ele tem acesso a sua história e pode se apropriar desta. Porém, agora, com a adolescência, as configurações familiares entram em questão no momento da passagem para o social.

Enquanto que os pais da criança pareciam sólidos e imortais, os pais do adolescente revelam-se falíveis e mortais, eles podem morrer de morte natural, sem que seja preciso matá-los. O pai ideal, que lhe dá referências em relação à identidade sexual e aquele que tem a função da transmissão da Lei simbólica e inclusão na cadeia de gerações depara-se com o lugar do pai desencarnado, ou seja, os pais da realidade têm carências, o que acaba fazendo com que não consigam sustentar o que os pais da infância representaram. A dinâmica imaginária da integração do Édipo é assim transtornada. Este caráter decepcionante terá duas consequências: primeiro, ele modificará radicalmente a relação do adolescente com os pais;

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segundo, relançará a questão de um Outro referente último que dessa vez seja infalível e que possa garantir eficaz e duravelmente sua identidade adolescente.

Assim, é essencial ao adolescente que realize um trabalho de reconstrução. Mas porque essa reconstrução? Ela é necessária para realizar a reinscrição do lugar do eu na cadeia de significantes, buscando referências no campo do Outro para reordená-los e singularizá-los na produção de um nome e de um corpo próprio. O que norteia este lugar é justamente, a inscrição e reconhecimento do sujeito em um registro de filiação2. É necessário então, ao adolescente, uma operacionalização da função do “Nome-do-Pai”, para assim singularizar a posição de sujeito nessa cadeia associativa, e para isso busca a função de um Outro que sirva de suporte para a passagem do familiar para o social. Poli e Rickes (2011) trazem a adolescência como uma virada de mesa em relação à filiação.

[...] Designar um sujeito como adolescente implica reconhecê-lo nessa posição ‘de virada de mesa’ em relação à filiação. Esta deixa de ser um processo passivo, na qual recebe o reconhecimento como ‘filho de’. O adolescente é chamado a também reconhecer quem são seus pais e a legitimá-los nessa posição. Isso implica reconhecer a condição sexuada do desejo que lhe deu origem, bem como a sua dívida para com esse desejo. (POLI; RICKES, 2011, p. 29).

Porém, a interrogação lançada pelo adolescente em direção aos pais ou instituições pode ser mal suportada e tomada como rebeldia ou transgressão aos ditames paternos. É na interrogação das figuras de autoridade que o adolescente vai encontrar ou demandar a função do semelhante como suporte de sua subjetivação. Diferentemente da criança que tinha o suporte do adulto para responder e defender-se, o adolescente terá que responder sozinho, terá que tomar a palavra para si e enfrentar as consequências deste ato.

Assim, a autoridade do semelhante, seja ele o par, os amigos, ou grupo, vai ser mais valorizada que a palavra paterna, porque permite uma alteridade, uma vez que neste momento a palavra do pai não consegue mais sustentar devido à desidealização dos pais realizada pelo

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Na saída do complexo de Édipo, a criança abre mão do falo por amor ao pai e identificação a ele, a obediência a esta Lei paterna é um ato de filiação.

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filho. Na infância, os modelos identificatórios eram os pais, mas na adolescência, os adolescentes de mesma idade, os amigos, colegas e ídolos passam a ser os modelos. Assim, há uma substituição das figuras paternas por novas referências. Deste modo, o grupo, ajuda o adolescente nesta reconfiguração de suas referências e identidade. Estas novas identificações é uma das condições para a constituição de um elo social, tomando a adolescência justamente como a passagem do familiar para o social.

Com a necessidade colocada pela adolescência, da reconstrução da imagem e a reinscrição do lugar do eu na cadeia dos significantes, o adolescente também é confrontado com a distância entre seus pais da realidade, que por um tempo ocuparam o lugar de adultos ideais. No impasse entre o pai da realidade e o pai ideal, o adolescente depara-se com um lugar vazio, desencarnado, pois os pais da realidade não conseguem sustentar os pais imaginários da infância. Confrontado com a realidade dos pais limitados, que também estão marcados pela castração, o adolescente depara-se assim, com a necessidade de buscar novas referências. Diante da decepção do adolescente frente aos pais da realidade que se mostram distantes do que fora imaginado a seu respeito na infância, o adolescente questiona suas posições como adultos e como representantes da paternidade e maternidade.

Deste modo, o adolescente encontra-se diante da primeira prova do Édipo, o enigma da Esfinge, “Qual o animal que anda sobre quatro patas pela manhã, sobre duas patas à tarde, sobre três patas à noite?”, que mostra o ser humano inicialmente como uma criança mal equilibrada, posteriormente um adulto em pé e por fim, um velho apoiando-se em uma bengala, como nos afirma Rassial (1997, p. 78)

Parece ao adolescente que possuir o conjunto dos atributos da idade adulta não é, como podia crer a criança, a propriedade de determinados humanos, mas um estado provisório, como era o da infância. Então, do ponto de vista das gerações, o mundo esta dividido não mais entre duas espécies, os “grandes” e os “pequenos”, como é entre dois e somente dois sexos, mas entre um certo número de estados provisórios, como indicou a adivinhação da Esfinge do Édipo, no mínimo três, a criança, o adulto e o velho. Se a criança cresce, é também porque os pais envelhecem, e ele

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toma o lugar do adulto, ele os desaloja, um pouco para empurrarem-nos em direção a velhice. O que alguns suportam mal.

Com a adolescência dos filhos, os pais também são convocados a responder de forma diferente a qual responderam na infância destes. Com a decepção, por parte do adolescente com o mundo dos adultos junta-se com o luto pelos pais da infância, que eram vistos como heróis e que agora o adolescente vê como pessoas normais. Porém, não são somente os filhos que precisam trabalhar com as questões que surgem na adolescência. Os pais também precisam se reestruturar, pois aquela figura heroica, que explicava tudo e parecia ter seu lugar garantido, acaba por cair, e com isso os pais precisam passar por uma mudança de lugar. Isso muitas vezes ocasiona até mesmo crise nos casamentos, pois o casal não consegue mais se sustentar quando fica preso somente a isso (ser pai e mãe), eles precisam ser homem e mulher, pois como Rassial (1997, p. 79) coloca, “ser pai e mãe não é mais uma qualidade”.

Todo esse processo de troca, de desprendimento em relação aos pais é o que permite ao sujeito integrar-se ao mundo adulto e o conduzindo-na formação de uma identidade independente. Portanto, o processo de adolescer é um momento onde o sujeito vive um ato psíquico de reposicionar-se frente aos pais e o social. Consequentemente, este ato reposiciona a operação do Nome-do-Pai e a apropriação de seu legado para além da infância e do Édipo.

Com a necessidade de reposicionamento frente aos pais e o social, algumas questões vividas na infância retornam e devem ser ressignificadas pelo adolescente. Uma delas é a função paterna, responsável pela transmissão dos valores, da Lei, da ordem e dos limites. A forma como o sujeito vai lidar com estes valores transmitidos é que vai caracterizar sua estrutura. Diante da perda de referências da infância e as mudanças trazidas pela puberdade, é necessário ao adolescente conhecer as novas condições com as quais se depara e os limites desta, e a forma de fazer isso pode ser testando através das experiências, e é neste sentido que o adolescente depara-se com as leis.

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A passagem pela adolescência exige do sujeito um trabalho psíquico que implica em uma tomada de posição subjetiva. Posição esta que se refere ao adolescer, abandonar a condição infantil para assumir uma posição adulta. Esta mudança de posição trás consigo a necessidade de ressignificação, reinvenção do outro e uma nova forma de endereçamento a este. Para efetuar e dar conta de todas estas mudanças com as quais se depara, o adolescente precisa buscar novas referências e testar os limites desta para conhecê-las. Quando criança, seus pais ocupavam este lugar, mas agora, estes já não dão conta das questões feitas pelo adolescente e este precisa procurar outro suporte referencial, não mais na família, e sim no social.

São várias as questões que se colocam ao adolescente neste período e que exigirão que ele dê conta de alguma forma da demanda proveniente dos pais, da comunidade e com a multiplicidade de possibilidades e situações com a qual irá se deparar e que demandam que este responda. Entretanto, há algo que falta ao adolescente neste momento, que é a ancoragem necessária para responder a estas demandas, encontrando-se, desta forma, sozinho e diante de um vazio e necessitando dizer algo sobre si mesmo.

Diante das mudanças que se colocam e confrontado com a exigência de assumir uma nova posição e ocupar um lugar no social, o adolescente poderá formular algo da ordem da “não aceitação” ou da “recusa” a ingressar nesta comunidade e seguir as leis que ali operam. Esta recusa poderá levá-lo a trilhar outros caminhos, como a produção de atos delinquentes que será nosso tema do próximo capítulo.

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2 A DELINQUÊNCIA NA ADOLESCÊNCIA

Neste segundo capítulo abordamos o tema da delinquência e sua ocorrência na adolescência, tentando responder nossa questão de investigação, sobre a qual, buscando subsídios na Psicologia, em especial na Psicanálise, esperamos entender um pouco do que acontece com os adolescentes em situação de delinquência.

Ao adolescente faz-se necessário que ele busque saídas para lidar com as problemáticas advindas com a adolescência e diante das quais, ele precisa buscar novas referências para conseguir responder. Para situar-se em sua nova posição e no discurso social, o adolescente precisa conhecer e verificar quais são as possibilidades com as quais agora se depara, necessitando deste modo, transpor alguns limites, superando-os e testando-os. “Agora é pra valer!”, responde um adolescente ao ser questionado sobre seus atos. Analisando esta resposta, pode-se pensar que este vê a infância como se tivesse sido um apenas ensaio, e que agora a vida começa “pra valer”.

Alguns adolescentes podem encontrar problemas na passagem pela adolescência e por todas as questões que esta implica. Confrontado com a necessidade de responder de alguma forma ao que se impõe, uma das possíveis saídas encontradas é a delinquência, saída sintomática e que causa grande preocupação a sociedade.

Nos últimos anos assistimos apreensivos a uma grande onda de violência que vem ocorrendo em todas as camadas sociais, gêneros e lugares. Podemos observar também, que muitos dos autores desta violência são adolescentes, nas quais, geralmente, os atos violentos tomam a forma de depredações, roubos, brigas, etc., atos estes, desaprovados socialmente e que desafiam as leis. Entretanto, antes de qualquer coisa, julgamos ser necessário pensar o porquê deste fenômeno e em que medida ele afeta a sociedade e confronta as leis. Neste sentido, é preciso diferenciar as leis que entram em questão, para depois ver de que maneira o

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adolescente as infringe. Diferenciar o que entendemos por lei simbólica e leis civis ou jurídicas é importante na medida em que o adolescente terá que articular e operar com as mesmas.

Freud (1929, p. 116), em sua obra “O Mal-Estar na Civilização”, traz o surgimento da Lei, da primeira exigência para a constituição de uma civilização, “a garantia de que uma lei, uma vez criada, não será violada em favor de um indivíduo”.

Em outra obra, Totem e Tabu (1912-1914), utilizando-se do “mito da horda primitiva”, Freud explica a criação da Lei simbólica e os efeitos desta no grupo, onde abrir mão de uma parte da satisfação de suas pulsões garantiria ao sujeito a pertença à sociedade e a proteção que esta poderia oferecer. A horda primitiva era uma espécie de tribo, dividida por totens e formada por um grupo de irmãos que viviam sob a liderança de um pai violento, que possuía e vigiava todas as mulheres, as quais nenhum dos filhos tinha acesso e dos quais eram protegidas. À medida que os filhos cresciam, o pai os expulsava do grupo para evitar possíveis riscos contra seu poder absoluto e investimento sobre suas mulheres.

Assim, animados por sentimentos contraditórios em relação a esse pai tirano, que era ao mesmo tempo invejado e admirado, por identificação o grupo se une pelo desejo de usurpar-lhe o poder. Para tanto, assassinam o pai e o devoram na tentativa de incorporar sua força e poder. Porém, o pai morto ganha ainda mais força do que tivera quando fora vivo, pois o sentimento de culpa toma conta dos irmãos que novamente se unem em um laço fraternal de identificação. A morte do pai não deixará sucessor, pois, diante da possibilidade de extinção do grupo na tentativa de cada um dos irmãos tomar o seu lugar, funda-se a renúncia a satisfação, na qual nenhum dos irmãos terá acesso a todas as mulheres, apenas aquelas acessíveis por seu totem, criando assim a proibição do incesto. A proibição do incesto obrigava os irmãos a renunciarem as mulheres que desejavam o que tinha sido o principal motivo de assassinarem o pai.

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O assassinato do pai da horda é a condição que possibilita o surgimento da moralidade, pois, os sentimentos ambivalentes dos filhos que vem a tona com sua morte criam a culpabilidade. Assim, impulsionados pelos sentimentos que nutriam pelo pai, os filhos o dotam de um poder ainda maior que este tivera quando fora vivo, transformando-o, deste modo, primeiramente em um totem, e posteriormente em um Deus, proibindo, desta forma, eles próprios de terem acesso ao que até então era proibido pelo pai, que se torna então o representante da Lei. Mesmo ausente, o pai como símbolo ganha ainda mais força e suas ordens são seguidas pelo grupo. O pai como símbolo é o que dá condição de ascensão ao simbólico e a passagem para a cultura.

Deste modo a horda patriarcal foi substituída por um clã totêmico regido por um pacto fraterno que possuía leis a serem seguidas. O veto ao parricídio e ao incesto permite ao homem reconhecer que o desejo sexual esta regulado por esta proibição, em prol da garantia e manutenção da ordem entre o grupo.

Abrir mão de parte de sua satisfação sexual é uma das exigências para viver em sociedade. O assassinato do pai e seu retorno ainda mais forte depois de morto marcam o surgimento da Lei simbólica e a formação da sociedade fraternal traz garantias a seus membros. Sobre a pertença ao grupo e as garantias que ele oferece Freud (1912-1914, p. 115) afirma que,

A vida humana em comum só se torna possível por quanto se reúne uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado e permanece unida contra todos os indivíduos isolados. O poder dessa comunidade é então estabelecido ‘direito’ em oposição ao poder do indivíduo, condenado pela força bruta.

Desde o início, para a constituição da sociedade, a Lei é importante para a manutenção da ordem e das garantias que a mesma oferece. Mas para tornar-se membro desta, é necessária a simbolização da Lei e seu compartilhamento entre os membros do grupo.

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Ao sujeito é muito importante a inscrição da Lei simbólica proporcionada a partir do significante Nome-do-Pai, cuja função é substituir o significante fálico é de suma importância. Na saída do complexo de Édipo, o pai passa a ser o agente que representa a lei, o personagem com o qual o sujeito se identifica e através do qual são adquiridas as referências simbólicas. Caberia então á função paterna apresentar a lei ao sujeito. Para falar sobre a função paterna, vamos retomar a constituição psíquica do sujeito.

Na constituição do sujeito, a criança é uma com a mãe, em uma relação simbiótica, como se as duas fossem a mesma pessoa. É graças à intervenção paterna nesta relação mãe-filho que faz com que limites sejam estabelecidos. Esta entrada do pai é vivida pela criança como frustração, e para a mãe como privação do suposto falo, onde a criança estava identificada como seu objeto de desejo. É através da entrada do pai na díade mãe-bebê que se abre um caminho para que o filho deixe de ser aquilo que completa a mãe para voltar-se a seu semelhante, ou seja, deixa de ser assujeitado para ser sujeito de seu desejo. Desta forma a criança é introduzida no registro da castração e na dinâmica ter ou ser o falo. Após esta intervenção do pai, a criança descobre que o desejo da mãe esta submetido à lei do desejo do Outro, e ainda, que seu desejo esta barrado e limitado. Então, segundo a psicanálise, o pai é o representante simbólico da Lei.

O pai interditor, aparece no Complexo de Édipo como sendo violento, o pai terrível que intervém em diversos planos. Antes de tudo, ele interdita a mãe. Este é o fundamento, o princípio do complexo de Édipo, e é ai que o pai se liga a lei primordial: a interdição do incesto. O pai proíbe, e tem que manifestar essa proibição. É por sua presença e seus efeitos no inconsciente que ele realiza a interdição da mãe. A violência do interdito do pai é simbólica, temos então a agressividade que é colocada a serviço da instauração de uma lei e de um direito que funda o sujeito na sua subjetividade. Ou seja, no complexo de Édipo, mais especificamente, com o complexo de castração, o pai é visto como aquele que representa

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simbolicamente o objeto faltoso, o falo. A inscrição na lei simbólica implica se deparar com o outro que não deseja o mesmo desejo, ao contrário, barra-o, colocando uma lei sobre este. A função do pai, neste sentido, é a de implicar o sujeito a encontrar a lei, como balizadora de sua relação com os outros e com o desejo.

Assim, a função paterna possibilita a transmissão dos valores de lei, de ordem e de limite. A forma como o sujeito vai lidar com estes valores transmitidos é que vai caracterizar sua estrutura. É através da função paterna, do significante Nome-do-Pai que a inscrição da lei é feita no sujeito. O significante Nome-do-Pai, segundo Lacan (1985) tem também a função de proporcionar a amarragem entre o real, o imaginário e o simbólico. O processo de metaforização da lei ocorre quando o significante fálico, no caso o desejo da mãe, é substituído pelo significante Nome-do-Pai, que representa a Lei.

A Lei é uma operação simbólica na qual o significante Nome-do-Pai ordena o campo do gozo inscrevendo-o na linguagem. A função paterna instaura o significante Nome-do-Pai no lugar do desejo da mãe, o que acaba por produzir efeitos na subjetivação que irão ordenar o campo do desejo e do gozo. Assim, o significante Nome-do-Pai une o desejo a Lei, promovendo a inscrição do sujeito no campo social. Ao deparar-se com a Lei do pai, o sujeito submete-se a castração, o que limita seu prazer e obstaculiza a realização de seu desejo. O pai dá nome ao filho, e com esse gesto, encarna a autoridade e torna-se o representante da Lei. O Nome-do-Pai é o significante da função paterna, agente simbólico da falta que abre ao sujeito o acesso a estrutura simbólica que permite nomear seu desejo.

Ser barrado pela Lei, que tem o pai como representante, marcará a inscrição simbólica no sujeito. A relação particular com a lei, com as regras sociais e o fato de lhe conferir valor simbólico é que irão significar a existência do sujeito. Mas se por alguma razão, de ordem estrutural ou social, a ordem simbólica não for introduzida, o sujeito terá grandes dificuldades para se relacionar e organizar-se no laço social.

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A outra lei a qual nos referíamos são as leis civis, criadas pela sociedade como forma de regular as relações jurídicas de ordem privada. Elas são representadas pelo Estado e por suas instituições. Na vida em sociedade é esperado que alguma instância produza a efetivação da lei, na qual esta esteja encarnada e que seja possível ser evocada quando necessário. Estas leis são divididas em códigos, que abordam os “menores” e “maiores”, e “irresponsabilidade” e “responsabilidade”, funcionando assim, por limites específicos.

Assim, há dois tipos de leis que regulam a circulação social, a Lei simbólica e as leis civis. Entretanto, Tremura nos lembra de algo interessante e fundamental, “no nível de código penal, há números para indicar cada lei, porém, é a lei do pai, a lei da castração que precede o código” (TREMURA, 1999, p. 259).

A adolescência é um período no qual a ambiguidade marca esta passagem, pois situado no “entre”, entre maioridade e menoridade, irresponsabilidade e responsabilidade, o sujeito acaba assim, pervertendo, pela força das coisas e dos princípios, o texto de uma lei que funciona por limites. Ou seja, de uma forma ou de outra, o adolescente terá que ultrapassar a lei, pois em sua condição de ‘não lugar’, para situar-se ele precisa transpor os limites das leis que são aplicados, mais especificamente a adultos e crianças. Então, a própria passagem adolescente se configura como transposição das leis.

Assim, por características próprias da adolescência e na busca por referências, para a construção de sua identidade e de um lugar social, o adolescente depara-se com o fato de que no Direito, para os códigos civis e penais, existe apenas a maioridade e a menoridade como limites, ou seja, a especificidade do adolescente é se caracterizar por não ser nem uma coisa, nem outra, já que não é mais criança, mas ainda não é adulto, não se enquadra nos limites destas leis Civis. A lei funciona somente por limites, porém, como a adolescência não se encaixa em nenhum dos limites estabelecidos, ficando, dessa forma, a margem, “fora da lei”.

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Percebendo as contradições presentes nas leis e que trazem à tona a fragilidade do social para simbolizar a adolescência, o adolescente diante desta fragilidade, pode denunciá-las como uma forma de questionar as leis e a organização social. Além disso, a constatação de que a sociedade não é organizada por uma fala única, verdadeira e fiável e sim, por diferentes discursos que são divergentes e contraditórios coloca o sujeito frente à necessidade de circular entre os discursos, procurando referências e um lugar do qual possa enunciar-se.

Denunciando e questionando a fragilidade social e a incongruência de seus discursos, o adolescente pode acabar entrando em um enfrentamento com o Outro e com a Lei, na tentativa de fundar um lugar que o reconheça. Confrontado a falência da consistência imaginária das figuras parentais, o adolescente precisa criar novos suportes ao Nome-do-Pai, já que o modelo infantil que fora sustentado na crença do pai soberano, do herói, cai por terra. Desta forma, o adolescente, que não encontra referências simbólicas no social precisa, de algum modo, encontrar seus limites, ter a garantia de que algo ou alguém responda no lugar da lei.

Quando a Lei simbólica não é encontrada, as leis jurídicas vêm como suporte e como uma forma de garantir a ordem e a justiça. Como já mencionado anteriormente, devido a sua posição “entre” duas leis, as do adulto e da criança, o adolescente, para localizar-se precisa testar e provocar os limites, o que para Dor, é uma maneira da lei se faz presente para o adolescente.

[...] é nessa provocação incessante da lei que ele se assegura – até mesmo se ressegura – de que a lei realmente existe, que pode encontrá-la e procurar nela experimentar a economia de seu gozo. É neste sentido que a transgressão é o correlato inevitável do desafio. Não há meio mais oportuno de assegurar-se da existência da lei do que se esforçando para transgredir as interdições, e as leis que as instituem simbolicamente. (DOR, 1991, p. 129).

Na busca por reconhecimento e referências e não as encontrando, diante das contradições das leis civis, dos discursos sociais e do esvaziamento da função paterna, o

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adolescente precisa fazer algo para se fazer valer enquanto sujeito na sociedade e para isso faz uso dos recursos que lhe estão disponíveis no momento. Assim, podemos ouvir as queixas de pais e educadores quanto à insolência, a imitação, as respostas, a própria agressividade e demais manifestações que vão de encontro às imposições e contradições sociais.

Como maneira de se fazer valer e ver, alguns adolescentes podem fazer uso de manifestações agressivas. A agressividade é algo constitutivo do sujeito, porém, pode ser usada também, como forma de capturar o olhar do outro, que frente a atos agressivos geralmente recua chocado diante de um ato que o desarma. Através da violência, o adolescente pode se faz valer na sociedade. Quando a palavra não tem mais valor, a busca por reconhecimento e pela lei se dá pela violência. Porém, há uma diferença que precisa ser pensada, que é a agressividade enquanto constitutiva e quando esta se torna uma violência.

Apesar das tentativas da cultura, a agressividade acaba escapando ao controle da lei, mesmo diante da insistência cultural em limitar e oferecer mecanismos de controle e sublimação, esta sempre acaba por extrapolar os limites estabelecidos. Estamos falando sobre a agressividade, da inclinação agressiva que podemos perceber em nós mesmos e supor nos outros, o que se torna um fator preocupante e perturba o relacionamento com o outro, obrigando assim, a cultura a realizar esforços para conter isto que é intrínseco a subjetividade humana.

A agressividade é constitutiva do sujeito, ela surge de início no bebê, nas tentativas de imitar os gestos do outro, geralmente a mãe ou quem exerça a função materna, através de tapas ou chutes. Assim, no plano mental, a criança antecipa a conquista da unidade funcional de seu corpo.

Na constituição da imagem, manifesta-se também os primeiros sinais da agressividade no sujeito. A relação erótica em que o sujeito se baseia para fixar uma imagem que o aliena de

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si mesmo, produzindo assim, uma energia e o surgimento de uma organização passional que ele chamará de seu eu.

Com efeito, essa forma cristalizar-se-à na tensão conflitual interna ao sujeito, a qual determina o despertar de seu desejo pelo objeto do desejo do outro. Aqui o concurso primordial se precipita em concorrência agressiva, e é dela que nasce a tríade do outrem, do eu e do objeto. (LACAN, 1987, p. 30).

Deste modo, podemos perceber que desde sua origem o ‘eu’ aparece marcado por uma tendência agressiva. A agressividade, sendo produto da tensão relativa à constituição narcísica do sujeito permite a compreensão de alguns acidentes e antipatias deste percurso, como no caso da agressividade existente no Complexo de Édipo, a qual é sublimada e remanejada no processo identificatório do sujeito. Ou seja, no complexo de Édipo, primeiramente a criança apresenta tendências agressivas em relação ao pai, que interdita a díade mãe-falo-criança, provocando a castração e o surgimento da falta. Posteriormente, a criança abre mão do seu objeto de desejo por amor ao pai e identificação. “Assim, a identificação edipiana é aquela pela qual o sujeito transcende a agressividade constitutiva da primeira individuação subjetiva.” (LACAN, 1987, p. 34).

O que podemos entender com isto é que a agressividade é constitutiva, pois é colocada a serviço da instauração de uma lei que funda o sujeito, sua subjetividade. “Ela é um efeito da representação de imagens de castração, de perda, de esfacelamento do corpo, etc., as quais determinam a formação do sujeito” (SILVA, 1997, p. 80).

A existência desta inclinação agressiva é o que, segundo Freud (1929), perturba nosso relacionamento com o outro e força a cultura a esforçar-se por controlar essa tendência agressiva. Mas, como ser de linguagem, o sujeito pode, mediado pela linguagem, sublimar ou recalcar esta agressividade.

Quando a agressividade não tem mais acesso a linguagem, não sendo, dessa forma, sublimada ou recalcada, o que ocorre, então, a passagem ao ato, aplica-se a agressividade na

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prática, e é isto que encontramos nas manifestações delinquentes. Na agressividade, a palavra pode encontrar-se aprisionada, porém, ela pode ainda ser legitimada pelo discurso pelo outro. A violência, ao contrário, traz algo de arbitrário, e mesmo que se possa deduzir que o delinquente queira dizer algo com seus atos, ela tem uma relação rompida com o diálogo, ou seja, não tem acesso a linguagem. O ato agressivo pode ser legitimado pelo outro, desde que percebido como uma tentativa de comunicação, de diálogo, já nos atos violentos, o diálogo foi rompido, é uma tentativa de diálogo fracassado, que já não é mais compreendido pelo outro como uma tentativa de comunicação.

Pensar a agressividade e a violência nas manifestações delinquentes é de suma importância, pois pode oferecer maneiras diferentes de observar o fenômeno da violência entre os adolescentes. A violência que assistimos na atualidade pode se configurar em tentativas de estabelecer um diálogo e os atos delinquentes são um exemplo desta ocorrência, pois diante da exigência de assumir novos papéis e um lugar na sociedade, o adolescente poderá formular algo da ordem da “não-aceitação” ou “recusa” em participar da comunidade em que vive e compartilhar suas regras submetendo-se aos limites por ela traçados. Esta recusa pode levar a vários caminhos, como a busca por utopias místicas, políticas ou intelectuais, até a formação de grupos, bandos e gangues e também, a execução de atos delinquentes.

Existem saídas que contém manifestações próprias da adolescência, como a insolência, a imitação e a contradição, mas também, há as saídas consideradas sintomáticas, e dentre estas está a delinquência. Mas o que é um delinquente? Rassial (1999, p. 55), buscando a etimologia da palavra, conclui que: “O delinquente é – contra a natureza própria das coisas, de retornar ao seu lugar (Aristóteles) - aquele que desaloja: que desaloja as coisas, que desaloja de seu lugar, do lugar que lhe é atribuído pela sociedade”.

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