A COMPREENSÃO DO FUNDAMENTALISMO PELO
NEOPENTECOSTALISMO BRASILEIRO: o caso da Igreja Mundial
do Poder de Deus
Saulo Inácio da Silva
Faculdade de Ciências Sociais
Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas [email protected]
Prof. dr. Breno Martins Campos
Grupo de Pesquisa: Teologia Contemporânea PPGSS em Ciências da Religião
Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas [email protected]
Resumo: A fim de compreendermos o termo
neo-fundamentalismo, temos de nos focar no retorno ati-vo dos protestantes fundamentalistas estaduniden-ses à esfera política nos anos 70 do século XX. De-vido a problemas econômicos que puseram o capita-lismo em crise e diante dos desafios da contracultu-ra, a moral cristã rígida apresentou-se como o antí-doto para esses e outros males que afligiam a men-talidade protestante americana. O fundamentalismo foi, então, marcado por “igrejas eletrônicas” susten-tadas por pastores televangelistas de direita, que ligados à mídia acreditavam ter em suas mãos a so-lução para as crises. Esse novo movimento chegou ao Brasil influenciando os neopentecostais, primordi-almente, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e, depois, algumas dissidências do tronco principal, como a Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD), que é o objeto de investigação, dentre as instituições neopentecostais brasileiras, neste trabalho de Inicia-ção Científica. No início dos trabalhos, foi feito o le-vantamento histórico do tema por meio de pesquisa bibliográfica (fontes secundárias). Num segundo momento, foi analisada a compreensão que a própria IMPD faz acerca do termo "neofundamentalismo", por meio de leituras de documentos oficiais, notícias no site da instituição e dos pronunciamentos do fun-dador (disponíveis no site da igreja ou em programas de televisão).
Palavras-chave: Fundamentalismo,
neopentecosta-lismo, IMPD.
Área do Conhecimento: Ciências Humanas –
Teo-logia – CNPq.
1. INTRODUÇÃO
Minha pesquisa [1] tratou da origem do fundamenta-lismo nos EUA na segunda metade do século XIX e início do XX, de sua remodelagem nos dias atuais, quer dizer, de sua migração para a política – o que
passei a chamar de "neofundamentalismo" – e, por fim, de sua chegada ao Brasil, onde se reproduziu nas igrejas neopentecostais. O objeto específico da análise foi o caso da IMPD.
Para o desenvolvimento da pesquisa, foi importante um entendimento do fundamentalismo protestante diferente da ideia que tínhamos do termo, própria do senso comum, de forma a compreender o que signi-fica a "conservação" dos princípios cristãos por parte dos grupos neopentecostais. Num segundo momen-to, foi importante compreender a instituição religiosa em questão, a IMPD, sua ruptura com a IURD, a continuidade dentro do movimento neopentecostal, sua fundação em 1998, expansão e alguns elemen-tos específicos – que, ao longo dos estudos, pude-ram ser entendidos pelos discursos e as ações do Apóstolo Valdemiro Santiago, que levam os fiéis a negar outras instituições pela ênfase numa santidade vinda do próprio líder.
Seguiu-se, então, como se apresenta, a investigação da visão neofundamentalista (ênfase na mudança social e política) em lugar da interpretação literal da Bíblia (fundamentalismo). Para os membros da IMPD, o ideal é a concepção de que “irmão vota em irmão", de que um membro-irmão deve ajudar o ou-tro a ter direitos na sociedade e a ter uma vida prós-pera, em que a religião e o Estado caminhem juntos para calcar os direitos do povo escolhido de Deus (os membros da IMPD).
2. ORIGENS DO FUNDAMENTALISMO PROTESTANTE
O movimento fundamentalista foi concebido em me-ados do século XIX e trazido à luz no início do XX, criado por protestantes ultraconservadores em solo norte-americano, no qual estão as raízes do funda-mentalismo até hoje. "Pisa-se no chão da sociedade norte-americana que, com sua 'religião civil', tinha a convicção de ser eleita para uma missão especial, uma espécie de novo Israel. Percebe-se em que
contradições socioculturais e religiosas se organiza esse movimento, bem como os traços que o caracte-rizam e que objetiva estabelecer" [2].
Os fundamentalistas tinham a intenção de combater a sociedade liberal que avançava de mãos dadas com a modernidade, as tentativas de conciliação entre a modernização e o campo doutrinal, a moder-nização e uma leitura interpretativa menos literal da Bíblia. Pode-se afirmar que os americanos tinham uma base teológica puritana, centrada na verdadeira fé cristã, segundo a qual a sociedade civil é influen-ciada por uma igreja visível – na qual estão os cren-tes puros, que não negociam jamais suas condutas éticas. É forte a ideia de uma nação eleita por Deus, apoiada nas imagens bíblicas que serviam para efervescer as experiências religiosas do povo. Po-rém, diante desse ideal de comportamento ético, havia desvios relacionados à modernização que abriam os caminhos por onde migravam os concei-tos vindos da Europa, como a exegese histórico-crítica do texto bíblico e um cientificismo suposta-mente contemplativo das verdades do universo (ex-plicação do mundo pela ciência, como, por exemplo, o darwinismo). Uma das reações religiosas a tudo isso foram os “reavivamentos” ocorridos pela nação estadunidense afora.
O conservadorismo passou a ser ensinado em semi-nários nos quais germinou o fundamentalismo, como na a escola teológica de Princeton – uma das primei-ras, de orientação calvinista, a defender a verdadei-ra doutrina. Os adeptos do movimento fundamenta-lista eram militantes protestantes a defender o pas-sado, “expulsando” os demônios da modernidade, como a teologia liberal. "A lógica fundamentalista é assim: a luz para a compreensão do presente só po-de vir do passado. Trata-se por certo, po-de um passa-do idealizapassa-do, entronizapassa-do, imóvel. O presente, por imitação do passado, em cada diferente época, fica condenado à fossilização. Reforma, para o funda-mentalista, não é retorno aos fundamentos para rein-terpretá-los à luz do presente, mas transformação do presente à luz do passado. Não há futuro" [3]. Em 1895, numa conferência bíblica em Niágara, fo-ram explicitados os princípios para a verdadeira fé cristã a combater os inimigos da sociedade america-na, como a inerrância bíblica, a divindade de Jesus, o nascimento virginal de Cristo, a redenção dos pe-cados através da morte e ressurreição de Cristo, a ressurreição corpórea de Cristo e sua segunda vin-da.
No início do século XX, várias denominações uniram recursos humanos através de campanhas com o
intuito de mostrar ao público quais eram as serpen-tes diabólicas que sondavam os homens na intenção de enganá-los como no pecado original. Esses no-vos Adão e Eva fugidos do paraíso esperavam ter encontrado seu reino na América, contudo, viram a modernidade retirar seu Deus e acrescentar em seu lugar, de maneira traiçoeira, a ciência e a liberdade de pensamento – víboras astutas a enganar os cren-tes. Esse povo eleito precisava ver proliferar sobre os ares discursos que resgatassem os fundamentos de uma moral cristã incorruptível. Nesse momento, brotava sobre as incertezas da modernidade o triun-fo do fundamentalismo. Nos anos de 1910 a 1915, veio à luz uma série de 12 volumes, graças ao fi-nanciamento por parte dos irmãos Stewart, denomi-nada The Fundamentals: a Testimony to the Truth. Livretes que foram distribuídos gratuitamente para toda a sociedade americana e outros lugares do mundo.
Em 1920, a palavra “fundamentalismo” foi finalmen-te empregada para denominar o seleto grupo de pro-testantes conservadores militantes. O reverendo Curtis Lee Laws, editor do jornal batista Watchman
Examiner, cunhou o termo para denominar os bravos
guerreiros de Cristo que estavam a defender os “fundamentos”. O termo foi glorificado por compa-nheiros de causa. "O movimento caracterizou-se por uma dedicada militância, diferentemente de muitos outros protestantes. Pouco uniforme, o movimento era mais uma coalizão não-demoninacional de mili-tantes, conservadores e afiliados a denominações diversas, sobretudo da presbiteriana e batista. Eram parcialmente organizados, com diferenças e aspec-tos paralelos, mas todos buscando firmar-se nos fundamentos da fé" [4].
3. A REPRODUÇÃO DO FUNDAMENTALISMO (OU O NEOFUNDAMENTALISMO)
O fundamentalismo norte-americano hibernou (dor-miu dopado pelo novo modelo de economia e políti-ca social) no período que vai da segunda guerra mundial até os anos 70 do século XX [5]; ficou no estado que chamo de “malemolência fundamentalis-ta”. A sonolência extinguiu-se com manifestações religiosas de ressurgimento do fundamentalismo em solo estadunidense. Nesse ambiente, estava espa-lhada a semente do neofundamentalismo americano, que mais tarde se espalharia pelo mundo e, inclusi-ve, pelo Brasil. A passagem histórica da malemolên-cia do fundamentalismo clássico para o
neofunda-mentalismo foi marcada por episódios e questões sociais.
Nas décadas de 50 e 60 do século passado, os pro-testantes estadunidenses ligados ao movimento fun-damentalista coexistiram num cenário social marca-do pela transnacionalização marca-do capital, terreno pro-pício para a monopolização na produção e no co-mércio internacional. Nas igrejas estabelecidas, a tendência teológica e pastoral estava próxima de um modelo liberal-modernizante. Nesse cenário social, o capitalismo voraz não podia esperar dos teólogos e das igrejas um suporte ideológico. Em reação, surgi-ram nos anos 60 alguns ideólogos religiosos na ex-pectativa de suprir essa lacuna [6]. A partir de 1968, entraram em crise os valores tradicionais pela am-pliação dos direitos civis e do respeito pelas minori-as. Em 1973, ocorreram problemas econômicos, como a alta do preço do petróleo no mercado inter-nacional, que puseram o capitalismo em crise. A contracultura era outro movimento que colocava em crise a sociedade, pois impregnava vários setores sociais e atraía particularmente os jovens, que se desviavam das doutrinas protestantes. A moral cristã rígida seria o antídoto para esses males que afligiam a mentalidade protestante americana. “Pode-se di-zer, como foi assinalado no fundamentalismo clássi-co, que os movimentos fundamentalistas são sem-pre gerados e nutridos por sociedades em crise” [7]. Diante dessas crises, ocorreu a reprodução do fun-damentalismo por meio de movimentos religiosos de formato ultraconservador. Ocorreu o ressurgimento do fundamentalismo pelas “igrejas eletrônicas” am-paradas pelos pastores televangelistas. Fundamen-talistas e conservadores acusavam o Estado de ha-ver tolerado “demônios” que culminaram na crise social e no declínio da fé. Tais críticas sociais eram referentes às políticas de legalização do aborto, di-reitos aos homossexuais, influência do comunismo, dentre outras que contrariavam a verdade presente em sua interpretação das Escrituras.
No final dos anos 70 e começo dos 80 do século XX, os movimentos fundamentalistas ressurgiam com força parecida com aquela do começo daquele mesmo século. A fraqueza do Estado liberal em de-fender e garantir uma ordem social ética fez com que os fundamentalistas, que acreditavam no mode-lo liberal, passassem a afirmar com todas as letras que a sociedade deveria ter no religioso seu referen-cial válido e eficaz para orientar os indivíduos e a coletividade. No sistema ideológico fundamentalista, a sociedade se desenvolve inspirada nos ensina-mentos bíblicos. Para os fundamentalistas há a
crença de que os problemas sociais acontecem de-vido a uma infidelidade doutrinal; a única solução para combatê-los só pode vir da autoridade da Sa-grada Escritura. Tornou-se, então, frequente a parti-cipação de diversos membros de denominações re-ligiosas em concentrações públicas, como em deba-tes sobre a moralidade pública e quanto ao papel do Estado nesse domínio [8].
4. O NEOFUNDAMENTALISMO NA AMÉRICA LATINA
A respeito do fundamentalismo na América Latina, podemos perceber seu crescimento elevado graças às seitas estadunidenses que a influenciaram forte-mente a partir dos anos 50 do século XX [9]. Contu-do, esses novos movimentos religiosos estão distan-tes dos prodistan-testandistan-tes conservadores ou fundamenta-listas clássicos americanos do final do século XIX e começo do século XX; eles possuem uma centrali-dade no poder político e acreditam que o caminho para a construção de uma sociedade cristã brasileira deve ser pela atuação de atores religiosos no cená-rio político. Somente assim as crises econômicas e os problemas morais e culturais podem ser supera-dos. Essas ações visam à formação de uma socie-dade extremamente conservadora quanto aos valo-res cristãos.
Para Antonio G. Mendonça, o movimento neopente-costal não possui o cerne do fundamentalismo clás-sico, pois não se baseia fundamentalmente nos tre-chos bíblicos, mas, sim, numa ruptura com a socie-dade liberal em favor de uma sociesocie-dade conserva-dora baseada nos princípios cristãos. "Outra questão que deve ser colocada em pauta para a revisão é o conceito de fundamentalismo aplicado ao neopente-costalismo. Isso tem sido feito talvez por falta de observação e equívoco quanto ao sentido de funda-mentalismo. Os neopentecostais não usam o texto bíblico primordialmente como repertório da verdade, mas como motivação para a prédica e a prática. A
Bíblia, para eles, parece ser um repositório de
‘con-tos exemplares’. Não se nota entre eles, nessa práti-ca, o dogmatismo típico do fundamentalismo e nem mesmo tentativa de imposição de verdades literais. Fazem, sem dúvida, leituras literais da bíblia, mas com sentido ilustrativo. Reconhecemos a necessida-de, entretanto, de observar melhor a prática bíblica neopentecostal, mas pode ser equivocado incluí-los simplesmente entre os fundamentalistas" [10]. Podemos compreender, portanto, que esses novos movimentos neopentecostais eclodiram a partir do final dos anos 70 do século passado no Brasil –
co-mo exemplo, a IURD, que foi influenciada pelos te-levangelistas conservadores e de direita dos EUA – e contaram, ainda, com dissidências que deram ori-gens às novas sementes desta mesma "árvore" – como a IMPD, fundada em 1998, em Sorocaba-SP, por um ex-bispo da IURD, Valdemiro Santiago (o Apóstolo).
5. NEOFUNDAMENTALISMO BRASILEIRO: A IMPD NO CENÁRIO POLÍTICO
O neofundamentaslimo no Brasil é marcado por uma interferência das igrejas neopentecostais sobre o campo político. Assim, as instituições neopentecos-tais passam a ter a fórmula de como superar as cri-ses econômicas e sociais num meio em que a moral cristã é a única salvação da pátria. A respeito desse caso podemos mencionar os projetos da bancada evangélica que vêm causando estrondos devido à afirmação de visões moralistas cristãs frente a gru-pos menores, como os grugru-pos LGBTs, movimentos ligados às religiões de matriz africana, dentre outros. As estratégias políticas da IMPD têm por fim "exor-cizar" o mal presente no cenário econômico, político e social.
A política está associada a ações de cunho religioso na instituição denominada IMPD; fica às claras a dominação carismática via discursos do Apóstolo Valdemiro Santiago e seu poder de conquistar fiéis. Na pesquisa, em nenhum momento, foi encontrado um tipo de fundamentalismo estritamente ligado a passagens bíblicas. Contudo, pudemos averiguar uma nova tipologia denominada neofundamentalis-mo, que é de forma sucinta uma associação entre religião e política. Pudemos perceber que, assim como a IURD, que abriu caminho a essa nova forma de profetizar a fé por meio da política, a IMPD usa das mesmas características.
Estamos em um país em que o atendimento público é precário, o bom atendimento médico é quase ina-cessível à maioria da população. Portanto, as ações da IMPD e de seus líderes, no seguimento de Val-demiro Santiago, atrai um número considerável de fiéis que lotam mais e mais as igrejas a fim de rece-ber a tão sonhada cura física. Nesse cenário, o uso do poder carismático de um líder religioso, intitulado apóstolo, faz com que as pessoas sigam seus pas-sos e escutem seus conselhos sem questionar. Os discursos do Apóstolo remetem a mudanças no meio social; somente por meio da eleição de representan-tes da igreja é que se pode dar por certa a cura da sociedade.
Em matéria no site da IMPD, de 17/06/2013, intitula-da "Miss. José Olímpio dep. federal exige investi-mento maior na área de educação" [11], vemos co-mo o canal principal de comunicação da instituição é usado para trazer inúmeros tipos de notícias aos membros, tais como: curas, novos templos, reuniões – mas o caráter político não fica de fora da rede de notícias da própria instituição. O Missionário José Olímpio (PP) é um dos vários candidatos políticos da IMPD que foram eleitos pela própria igreja a fim de representar o povo de Deus, num formato em que o candidato se apresenta e logo o bispo e o pastor di-rigem-se ao povo pedindo que o elejam; em muitos casos, a própria igreja incentiva os fiéis a retirar o título de eleitor (segundo o modelo “irmão vota em irmão”).
Voltando à matéria vinculada pelo site, o Deputado Federal diz acreditar na educação e estar participan-do de projetos relacionaparticipan-dos a tal assunto. Ao final, vemos em destaque ações neofundamentalistas: o Deputado diz que é primordial a ligação entre a es-cola e a família, e que estamos em um país onde falta educação, mas marca seu gol ao dizer que vi-vemos problemas decorrentes de miséria econômica e miséria cultural, os quais não se resolvem apenas com a escola e não se resolvem só pelo Estado. É um problema pelo qual as famílias devem se res-ponsabilizar também. Estamos analisando um dis-curso de um político preocupado com os problemas sociais, mas não podemos esquecer que estamos diante de um discurso de cunho neofundamentalista, que logo mostra seus dentes e diz quem é de verda-de. O Deputado Federal diz que os pais estão preo-cupados em deixar o peso da educação aos profes-sores (babás) e usam a TV como auxiliar, então, o neofundamentalismo surge com uma cartada derra-deira: "Cuidado: a mídia não valoriza a família, ela desvaloriza a ponto de incentivar o homossexualis-mo no Brasil e o aborto. Faça a sua parte, juntos vamos mudar este país".
Podemos perceber que a política e a religião andam de mãos dadas na IMPD; não se trata de uma notí-cia única e isolada. Em boa parte das matérias, há um caráter social, mas existe por trás uma varredura dos problemas sociais tidos como de ordem demo-níaca. O pesquisador Diego A. Rocha associa ao modelo o voto de cabresto, que é um sistema tradi-cional de controle político pelo uso da autoridade na meta por compra de votos. "Nessa conceituação, o sentido de voto de cabresto na IMPD seria através da troca de favores, ou seja, o fiel obedece ao pastor porque ele acredita que será abençoado" [12]. Rocha
cita ainda supostas doações milionárias a fim de fi-nanciar campanhas eleitorais de políticos em vários estados, bem como o fato de Valdemiro receber candidatos na sede da instituição para abençoá-los. É uma grande troca de favores. "Santinhos" são dis-tribuídos nas portas dos templos e, para dar credibi-lidade aos candidatos, Valdemiro aparece abraçado com eles. Rocha conclui que "os fiéis não só dão seus bens em troca de curas e milagres, como tam-bém respondem de maneira positiva ao 'voto de ca-bresto'" [13].
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A participação evangélica na política ficou evidente na Assembleia Nacional Constituinte, em 1986, e tem pendurado até hoje. Podemos compreender que há uma marcação do espaço político por igrejas evangélicas, embora sejam em maioria de matriz pentecostal, como as Assembleias de Deus, a IURD e, agora, a IMPD, que entrou nesse cenário em mi-metismo com a IURD. As igrejas neopentecostais, segundo Paulo D. Siepierski [14], deixam de lado a teologia pentecostal e aderem a um novo elemento difuso, a política. O autor discorda da teoria das on-das de Paul Freston (o neopentecostalismo como a terceira onda do movimento) [15] e sugere um novo modelo teológico que se mistura com a política, o "pós-pentecostalismo". Para Siepierski, a IURD, co-mandada por Edir Macedo, é o primeiro modelo des-se novo pentecostalismo. Contudo, pelas pesquisas de Ricardo Bitun [16], que destacam as rupturas e as continuidades no campo neopentecostal brasileiro, podemos indagar se a IMPD é mesmo descendente do pós-pentecostalismo. Nossa pesquisa espelhou-se nos estudos de Freston acerca das ondas pente-costais e não foi elaborado um estudo do pós-pentecostalismo; contudo, podemos subentender que a IMPD encaixa-se nesse modelo; talvez pos-samos sugerir uma quarta onda, no sentido de que a IMPD estaria caminhando para uma ruptura com os modelos já estudados. O que não foi aprofundado por não fazer parte do Plano de Trabalho desta Ini-ciação Científica.
Por fim, vale ressaltar que a IMPD, liderada pela figura do Apóstolo Valdemiro Santiago, usa de uma combinação de carisma-prosperidade-cura-política com a intenção de projetar ao fiel um paraíso na Terra. Um local em que os demônios voltem ao in-ferno, uma sociedade pautada estritamente nos va-lores cristãos, em que a homossexualidade, eutaná-sia, aborto etc. sejam exorcizados. A única saída para controlar esses demônios dá-se pela participa-ção política.
7. AGRADECIMENTOS
Ao CNPq, agência financiadora desta pesquisa; ao Grupo de Pesquisa "Teologia Contemporânea"; aos companheiros de pesquisa, Leandro R. Longo e Fe-lipe Bonet Maia; em especial, ao orientador, prof. dr. Breno Martins Campos, pela oportunidade de fazer parte desta pesquisa, pela amizade e por sua dedi-cação que permitiu com que fizéssemos este cami-nho de estudo.
8. REFERÊNCIAS
[1] Pesquisa financiada pelo CNPq a partir do Pro-grama de Iniciação Científica da
PUC-Campinas.
[2] ORO, I. P. O outro é o demônio: uma análise sociológica do fundamentalismo. São Paulo: Paulus, 1996. p. 49.
[3] CAMPOS, B. M. The Fundamentals: ontem, hoje e sempre. Protestantismo em Revista, v. 30, jan.-abr. 2013. p. 132. Disponível em:
<http://periodicos.est.edu.br/index.php/nepp/artic le/viewArticle/668>. Acesso em: 15 ago. 2013. [4] ORO, 1996, p. 61.
[5] ORO, 1996. [6] ORO, 1996. [7] ORO, 1996, p. 75. [8] ORO, 1996.
[9] COLEMAN apud ORO, 1996, p. 86.
[10] MENDONÇA, A. G. Protestantismo brasileiro, uma breve interpretação histórica. In: SOUZA, B. M.; MARTINO, L. M. S. (Orgs.). Sociologia da
religião e mudança social. 2 ed. São Paulo:
Pau-lus, 2008. p. 75.
[11] “Miss. José Olímpio dep. federal exige investi-mento maior na área de educação”. Disponível em:
<http://www.impd.org.br/portal/index.php?link=no ticias_impd&id=339>. Acesso em: 1º out. 2013. [12] ROCHA, D. A. O discurso político na Igreja
Mundial do Poder de Deus. In: VI Congresso
In-ternacional em Ciências da Religião; XIII Sema-na de Estudos da Religião, 2012, Goiânia:
PUC-Goiás/América, 2012, v. 1. p. 50. [13] ROCHA, 2012, p. 52.
[14] SIEPIERSKI, P. D. Pós-pentecostalismo e políti-ca no Brasil. Estudos Teológicos, São Leopoldo-RS, v. 37, p. 47-61, 1997.
[15] FRESTON, P. Protestantes e política no Brasil:
da Constituinte ao Impeachment. Campinas:
Universidade Estadual de Campinas, 1993. (Te-se de Doutorado em Ciências Sociais.) Disponí-vel em:
<http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/docume nt/?code=vtls000070022>. Acesso em: 20 mar. 2014.
[16] BITUN, R. Igreja Mundial do Poder de Deus:
rup-turas e continuidades no campo religioso ne-opentecostal. São Paulo: PUC-SP, 2007. (Tese
de Doutorado em Ciências Sociais.) Disponível em:
<http://www.dominiopublico.gov.br/download/text o/cp036064.pdf>. Acesso em: 15 ago. 2013.