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pimenta
título: ARQUITECTURA NO ESPAÇO EM REDE autor: Emanuel Dimas de Melo Pimenta ano: 1995
Arquitectura, estética
editor: ASA Art and Technology UK Limited © Emanuel Dimas de Melo Pimenta © ASA Art and Technology
www.asa-art.com
www.emanuelpimenta.net
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Em todo o planeta se encontram, em operação, cerca de noventa mil salas de cinema.
Cerca de trezentos milhões de pessoas assistem cinema todos os meses. Existem aproximadamente oitocentos milhões de aparelhos de televisão espalhados pelas casas em todo o mundo. Isto significa que praticamente metade do planeta assiste televisão!
Somos 5.4 biliões de habitantes, crescendo a uma ordem de um país como o México a cada dez anos.
Actualmente, cerca de 50% da população mundial não tem acesso a qualquer tipo de energia comercial. Equivalem a quase três biliões de pessoas vivendo em condições primitivas, como se ainda não tivessem chegado à Idade Média!
Para cada pessoa nascida no hemisfério norte, nascem vinte no hemisfério sul da Terra.
Os países do norte possuem cerca de 20% da população mundial, mas representam o consumo de 80% dos bens e serviços produzidos no planeta todos os anos.
Nos últimos vinte e cinco anos do segundo milénio, o número de automóveis em circulação pelo planeta chegou a cerca de quinhentos e quarenta milhões de unidades. Nesse mesmo período o número de aviões em permanente circulação triplicou.
A cada ano, cerca de 4% da população dos Estados Unidos se desloca regularmente para países Asiáticos.
Os sete países mais desenvolvidos representam cerca de 70% da economia planetária, contra cerca de cento e oitenta outros países responsáveis pelos apenas 30% restantes.
A classe média na Índia – país com quase um bilião de habitantes – é estimada em somente dezoito milhões de pessoas! (dados de 1993)
As receitas produzidas pelo turismo, em todo o mundo, foram avaliadas em 1994 como estando em torno de trezentos e vinte biliões de dólares. Apenas nos Estados Unidos, as vendas em retalho representaram cerca de 1.5 trilhões de dólares em 1993 – quase 7% da economia mundial!
As instituições financeiras americanas transferem actualmente mais de um trilhão de dólares diariamente através de computadores. Mas a economia mundial equivale hoje – a cada período de ano – somente a cerca de 21.7 trilhões dólares.
Quase um bilião de pessoas, em todo o mundo, assiste frequentemente fitas de vídeo em casa.
Nos Estados Unidos, segundo relatórios do Departamento de Comércio, cerca de 40% das famílias de origem asiática e 30% das famílias classificadas como brancas possuem micro computadores em casa.
Segundo esses mesmos relatórios, apenas 13% das famílias de origem hispânica e 11% das famílias de origem africana, possuem aquele equipamento.
Ainda nos Estados Unidos, somente no ano de 1994 foram registadas cerca de doze trilhões de voice messages.
Os chamados países em desenvolvimento são responsáveis por cerca de 98.8% dos analfabetos de todo o mundo, que representam – no fim do segundo milénio – praticamente 30% da população do planeta.
Nos países do primeiro mundo apenas 1.2% da população é analfabeta. Ainda nos Estados Unidos, cerca de 10% das casas estão ligadas a redes. Aproximadamente setenta milhões de pessoas utilizam regularmente computadores e se prevê que no ano 2000, de 75% a 80% da força de trabalho americana estará directamente relacionada ao uso intensivo de computadores.
Em todo o planeta se encontravam em operação, no final do ano de 1994, cerca de duzentos milhões de computadores. Apenas naquele ano foram comercializados em todo o mundo cerca de trinta e quatro milhões de novas unidades!
Só nos Estados Unidos, há um computador para cada três pessoas.
Andy Grove, chairman da Intel Corporation – responsável por 90% da produção mundial de microprocessadores – prevê que em cinco anos, até ao ano 2000, a venda de computadores ultrapassará a marca dos cem milhões de unidades anuais, isto é: ultrapassará o número de automóveis e televisores vendidos em todos os países.
O maior editor de enciclopédias em todo o mundo passou a ser, na última década do segundo milénio, uma empresa de tecnologia de informação: a Microsoft.
Metade de todos os computadores vendidos no mundo eram, no final do século, micro computadores caseiros, representando cerca de 55% da facturação global de todos os computadores comercializados.
Apenas cerca de 10% dos crimes cometidos através de computadores são conhecidos. Desses somente 2% vão a julgamento, inaugurando uma nova modalidade de crime.
Al Gore, vice presidente dos Estados Unidos, defende que os «fusos
horários, não custos, serão a maior barreira» para o desenvolvimento mundial
no futuro.
Actualmente, em todos os países, há seiscentos milhões de aparelhos telefónicos em uso diário. Desses, 75% estão concentrados no chamado primeiro
mundo.
A densidade de uso de equipamentos telefónicos nos países em desenvolvimento equivale a 10% da densidade encontrada nos países ricos.
Em 1994, as dez maiores empresas mundiais de telecomunicação facturaram mais que os vinte e cinco maiores bancos comerciais do planeta.
Apenas em 1994, cerca de vinte milhões de pessoas passaram a comunicar-se com unidades móveis de telefone.
O total de utilizadores de tais unidades correspondia, em 1995, a cerca de cinquenta milhões de pessoas.
Os dados acima não têm a função de transformar este texto em um mero retalho estatístico.
Essa é, entretanto, geralmente a primeira impressão que causa um texto que coloca à frente do leitor uma grande quantidade de dados simultâneos.
Uma impressão nova, um novo efeito, que não existia em épocas anteriores.
A revolução promovida pelos sistemas de telecomunicação, através de próteses sensoriais – em substituição às extensões sensoriais – produz uma realidade de navegação. Ou uma iconologia da navegação se quisermos assim chamar.
Não mais se trata de colher aqui e ali dados dispostos numa corrente hipotática e teleológica de informação. Uma ordem polar articulada por componentes causais de natureza discreta. Antes, o princípio da navegação gera um universo curiosamente chamado por alguns autores contemporâneos como líquido.
Uma iconologia que vai para além da sístase. Isto é: para além da natureza primeira da visão que é ver tudo de uma única vez. Afinal: ninguém vê, na apreciação de uma obra de arte, uma coisa de cada vez.
Essa nova iconologia impregna uma nova noção de cosmos, uma nova ideia de ética e uma nova maneira de abordar as coisas.
Uma nova schemata.
A distribuição da informação neste texto não é intencional.
Isto é: ela foi realizada a partir de uma pesquisa dentro das redes de telecomunicação e depois redistribuída segundo princípios estocásticos. Mas, curiosamente, transmite uma certa impressão de ordem. E é sobre essa impressão – que cunha os domínios do tangível e do intangível – que este texto refere.
Assim, essa parece ser a natureza primeira de um texto contemporâneo. E embora a partir deste momento este texto assuma uma cerca especialização de leitura – predicativa se assim se desejar – ele é, de maneira geral, um sistema adirecional que pode ser lido em todos os sentidos.
Essa é a imagem, a impressão icónica, do universo contemporâneo. Uma impressão que indicia o nosso logos, a nossa ordem cósmica.
Por essa via, a imagem que temos do nosso próprio planeta é algo em constante revolução. Uma permanente turbulência que se revela enquanto signo da criatividade.
O ethos compartimentado e especializado em nações territoriais dá lugar ao ethos global – em certo sentido uma aspiração impossível.
A ideia de nação território se desfaz, portanto, no conflito permanente da transdisciplinaridade e da transnacionalidade.
A figura do homo-sapiens sapiens dá lugar à figura do teleantropos, como sabiamente nos alerta René Berger.
Qual a quantidade de organismos comercializados em todo o mundo a cada ano?
Bancos de órgãos e de sangue transferem, praticamente por todo o planeta, milhares de pedaços de corpos para compor outros corpos separados por distâncias que podem significar vários milhares de quilómetros e vários meses de duração.
Aeroportos vão sendo gradualmente transformados em centros comerciais destinados a pessoas que passam parte das suas vidas se transferindo de uma parte a outra do planeta, flutuando quotidianamente.
Grandes contingentes de informação são transferidos de um local para outro – muitas vezes de um continente para outro – em milésimos de segundo, bastando utilizar o telefone ou um caixa automático de banco.
Uma cultura passa a impressionar outra simplesmente através de meios virtuais de comunicação, ou de contaminação se preferirmos.
O conceito de educação sofre uma notável transformação, assumindo a condição de contaminação.
Popper lembrava que aquilo a que chamamos educação é simplesmente o meio que nos servimos para agir sobre o ambiente.
O teleantropos é uma nova espécie que surge através do intenso exercício de modificação do ambiente produzido pelo ser humano.
Freud classificava os seres vivos em duas categorias distintas: os
autoplastas e os aloplastas. Os primeiros se modificavam para sobreviver. Os
segundos, modificavam o ambiente. A Humanidade se tornou autoplasta pela super intensificação da aloplastia.
A geração de um novo ser, tele-organizado, sugere algumas questões vitais. Uma das primeiras questões é aquilo a que chamamos de lugar.
Não posso deixar de lembrar Claude Levy-Strauss quando se refere a um diálogo que a antropóloga Americana Alice Fletcher teve com um velho pensador índio. Este lhe afirmou que «cada coisa sagrada deve estar em seu lugar».
Levy-Strauss completa o raciocínio reflectindo que «é isso – o lugar – que torna a coisa sagrada, pois suprimindo-a, ainda que por pensamento, toda a ordem do universo encontrar-se-ia destruída...».
Sem lugar toda a ordem cósmica, ou social, estaria em causa.
Mas, há duas palavras-chave na expressão utilizada pelo sábio indígena:
lugar e sagrado.
Quanto à primeira, embora geralmente passe desapercebida pelo senso comum, o lugar de uma pessoa é uma questão vital no que diz respeito à ordem cósmica das sociedades – como é fundamental em praticamente todas as religiões e pensamentos filosóficos nas mais diferentes culturas.
Quanto à segunda palavra-chave, a abordagem do sagrado é ainda mais evidente.
A condição do sagrado não é propriamente a da veneração. Antes, é a do envolvimento integral, e por isso mágico e vital.
Quando observamos, encantados, um mágico realizar as suas proezas, não estamos propriamente num estado de veneração, mas é uma situação
sagrada, de comprometimento integral dos nossos sentidos.
Isso também acontece com a música, à excepção da música popular que em geral é altamente previsível.
A chamada música de alto repertório alcança o seu maior valor com o estabelecimento de misteriosos jogos não verbais de descoberta, jogos heurísticos.
Isso acontece com Beethoven, e é notável nos seus últimos quartetos, tal como acontece com John Cage – e a sua Music of Changes poderia ser um exemplo entre vários outros.
Somente quando todos os nossos sentidos convergem para um estado de implicidade – e esse é o significado essencial da economia – é que temos uma poderosa ilusão.
Não por outro motivo, produzimos na linguagem verbal um dos mais eficientes artefactos alucinógenos de sempre.
Viajamos nas palavras de um livro, como se lá estivéssemos de facto. Esse envolvimento sem tempo é a condição essencial da condição do
Curiosamente, a literatura – que terá sido o meio alucinógeno por excelência – provocou com o radical favorecimento de um único sentido, que é a visão, um intenso processo de dessacralização do chamado mundo Ocidental.
Isto é: aquilo que não possuía um tempo especializado, como acontece com a poesia, passou a ser encapsulado em unidades discretas organizadas num sistema fortemente hipotático.
Assim, a organização funcional das casas, por exemplo, passou a se orientar por esquemas especializados, espelhados no código verbal.
Salas de estar se tornaram-se sujeito; quartos e casas de banho predicado; a cozinha, verbo; e quartos ou casas de banho para empregados espécies de
adjuntos adnominais de circunstância.
Até há relativamente pouco tempo a organização dos espaços na arquitectura não era assim tão especializada.
A não especialização espacial era tal que, mesmo no século XIX, devido a um extravio nos serviços postais, o projecto de arquitectura que deveria seguir da França para o Rio de Janeiro, destinado à execução do edifício da Casa da Moeda, acabou por ir parar a Santiago do Chile, trocado pelo projecto que deveria dar forma ao Palácio do Governo local. Sem que se desse conta do que ocorrera, os edifícios foram construídos em locais diferentes e por isso hoje o palácio governamental Chileno é chamado La Moneda.
Mesmo as pessoas que utilizavam aqueles espaços só perceberam o grave equívoco anos depois, quando os edifícios já estavam construídos!
Mas, com a intensificação da cultura literária passamos gradualmente a estar em nossos trabalhos, a almoçar, a tomar banho, a encontrar os nossos amigos e a estar em nossas mais íntimas e quotidianas situações comportando-nos como que filtrados por milhares de rotinas, milhares de estereótipos.
Tudo foi se tornando escravo daquilo que seguramente poderíamos chamar de imperialismo verbal. Uma super tecnologia de pensamento que cunhou o comportamento humano em grande parte do mundo chamado
civilizado. Aliás, ditou as normas do que seria ou não civilizado.
Sentimos isso quando um brasileiro ou um americano entra num ambiente europeu. A falta de comprometimento com a rotina lógica imposta pelo estabelecimento de comportamentos estereotipados gera a impressão de
falta de civilização, ou melhor, falta de educação – que seria, sem dúvida, uma
expressão mais bem aplicada neste contexto.
Mas, a geração de sistemas de comunicação interactivos produz uma sensacional metamorfose num tal cenário.
Tais sistemas substituem o exercício exclusivo da visão pelo da massagem – Marshall McLuhan já havia alertado para esse curioso fenómeno da luz emitida no lugar de luz reflectida.
É o mesmo que acontece com o fogo, e todos já experimentamos ficar à frente de uma lareira ou a admirar uma vela – principalmente as ainda encantadas e deseducadas crianças.
A massagem sobre a retina inaugura uma era de comunicação em duas
mãos: o tacto e a hipnose. Esta última, na substituição do trabalho de varredura
produzido pelo olho – para que a forma possa ser percebida – pelo da varredura realizada pelos tubos catódicos.
Essa substituição operacional atira literalmente o operador de linguagem para aquilo que chamamos de realidade virtual no efeito ilusório do espaço físico. Não é preciso usar luvas ou capacetes virtuais para se obter esse efeito.
Costumo diferenciar aquilo que se chama por realidade virtual atribuindo duas designações, embora ambos os fenómenos estejam inequivocamente relacionados.
Ao conceito mais popular – aquele que lida com a ilusão da substituição do espaço físico – chamo realidade virtual sintética.
Mas, há outra realidade virtual, muito mais abrangente e que está presente em nosso dia a dia na estruturação de um grande contingente informacional em altíssima velocidade de permutação. A este, chamo realidade virtual integral.
Com essas novas e explosivas tecnologias de realidade virtual, quer sejam elas sintéticas ou integrais, penetramos num universo cujo cosmos não é mais teleológico – como o produzido pela cultura judaico cristã – nem mesmo tribal.
Passamos a elaborar um cosmos feito de montagens não lineares, ou se quisermos de portas que podem ser constantemente abertas ou fechadas, ou ainda – para usar um termo que vem se popularizando rapidamente – podemos dizer que passamos a navegar.
A resposta directa a essa nova realidade é aquilo que chamamos de iconologia.
O espaço bidimensional da terra plana e do território fechado definido pelo uso intensivo do papel, gerou a lógica das navegações marítimas. O automóvel expandiu a escala bidimensional do planeta, alterando a ideia de distâncias e transformando radicalmente a noção de família.
Não por outro motivo, o automóvel se tornou rapidamente num sucesso planetário: como o computador pessoal ele é um meio individual de interacção colectiva.
Os grandes computadores colectivos simplesmente não pegaram num mundo feito de indivíduos.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a intensificação do uso do avião estabeleceu – pela primeira vez de forma efectiva – a verticalidade na definição de espaço aéreo.
Com isso, a ideia de território – até então impressa sobre um plano bidimensional – expandiu-se para a tridimensionalidade, projectando os limites de uma cidade ou de um país para o céu.
Foi essa ideia de tridimensionalidade que, multiplicando a extensão territorial exponencialmente, conduziu-nos às primeiras experimentações da realidade virtual sintética com os primitivos simuladores de voo militares.
Mas, o uso super aquecido de milhões de micro computadores espalhados pelo planeta gerou uma nova ideia de espaço, desta vez projectado enquanto representação de nossa própria ideosfera, no conceito do ciberespaço.
Qual é o lugar da humanidade ciberespacial?
Não mais se trata de um lugar específico no sentido literário. Afinal, os satélites de telecomunicações, ou as redes de redes, não são propriamente
Quando o ser humano salta para o espaço dos satélites de telecomunicação, o planeta Terra se transforma na sua mais preciosa relíquia, e despontam por todo o lado movimentos ecologistas.
Tal espaço virtual não mais é estruturado a partir de uma ordem de
princípio-meio-e-fim. Antes, é um espaço constituído por diagramas flutuantes
designados pelo movimento do mouse e do zapping na operação dinâmica dos telecomandos de aparelhos de televisão.
Quer o zapping, quer o mouse, não possuem o tempo diacrónico e linear da escrita.
Como imaginar um processo mais topológico e táctil que o zapping sobre os pequenos telecomandos de televisão?
Esse é o sentido primeiro da televisão, como lembrou recentemente Vittorino Andreoli. Um sentido que permite ao utilizador produzir seu próprio programa na montagem fragmentada de dezenas de outros.
A súbita metamorfose do telespectador em tele-editor.
Por isso, logo os programadores de televisão perceberam que especializações de programação só funcionam com sistemas a cabo.
O mouse leva esse procedimento a um estádio ainda mais avançado, traduzindo na mão o efeito exercido pela emissão de luz sobre a retina.
O sistema nervoso projectado na mão realiza uma formidável massagem sobre a retina, num processo para o qual a descoberta, o acaso e a surpresa são os principais ingredientes.
Massagem de luz.
Assim, a escrita, ela própria resgatada em sua origem etimológica indo europeia no significado de incisão sobre uma superfície, é substituída pela ideia de transcripto, no sentido da permanente transcrição em um contínuo processo de montagens e desmontagens de ideias e nas conjunções e disjunções de constelações de linguagens de naturezas diferentes.
O editor indivíduo vive envolvido na criativa turbulência das portas, dos
zappings, do mouse e esse é o sinal por excelência desse novo código trans-sensorial.
Essa é a lógica da navegação ciberespacial.
Uma lógica de livre tempo, e portanto, sagrada. A lógica do mágico, do fogo ou da maravilhosa contemplação diante de uma obra de arte.
Uma lógica que promove a substituição dos princípios do pensamento arquitectónico antes orientados para a flexibilidade e para a mobilidade pelo princípio da desprogramabilidade.
Na arquitectura ou no urbanismo a desprogramabilidade se projecta como fundamento essencial do novo pensamento espacial.
Na abordagem visual, o olho que cerca circundando seu objecto – como que olhando para o Discóbolo de Míron – e que depois é substituído pelo olho que percorre em torno de si o espaço gótico, ou o olho que corre ágil sobre as fachadas dos edifícios neoclássicos conduzido pela velocidade da roda, são substituídos pelo olho das portas organizadas por uma líquida lógica da coordenação.
O olho que vê uma imagem em ordem, isto é: estável e contínua, é substituído pelos planos catastróficos e descontínuos de René Thom e pelos princípios dos punctuated equilibria, segundo os quais a evolução aconteceria em zonas de espaço tempo de forte pregnância.
Nascem assim olhos, tactos e todos os outros sentidos juntos, enquanto
singularidades criativas.
A capacidade cognitiva, antes estabelecida através de um cosmos teleológico e hipotático, acontece agora como emergência de momentos potenciais, enquanto saliências em redes de moirés virtuais.
A sístase – capacidade orgânica de abordagem de diferentes eventos sensoriais num único momento – que, enquanto representação primeira da visão cunhou muito do que se fez em pintura, em literatura e em arquitectura nos últimos séculos, é substituída pela navegação através de portas.
Essa mutação iconológica impregna todos os níveis civilizatórios.
Pela primeira vez, o universo turbulento contemporâneo – constituído por incontáveis bancos de dados permutáveis e autopermutáveis, cuja velocidade metabólica é exponencialmente acelerada pelo tempo real – inaugura um fabuloso arsenal criativo.
Todo o passado passa a ser condensado em quantas combinatórios.
Um fenómeno que lembra Tabacaria de Fernando Pessoa quando diz:
Não sou nada. Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
Mas, terá a aceleração provocada pelo fenómeno do tempo real ultrapassado a capacidade humana de análise e reflexão?
Será o peso de se carregar todos os sonhos do mundo demasiadamente excessivo para a capacidade humana de reflexão?
Diante da televisão e dos problemas educativos, Karl Popper lembrava que era muito natural o nível da programação ter caído vertiginosamente na Inglaterra, em directa proporção ao surgimento de novos canais. Era, segundo ele, muito difícil encontrar pessoas competentes para preencher com qualidade vinte horas diárias de programação.
Isso acontece também com a redes, onde boa parte do que há é lixo informacional.
Mas, não estamos tratando de conteúdos que, normalmente e em toda a parte, seguem a tendência de médias, isto é: de mediocridades.
A velocidade do tempo real terá, entretanto, superado a capacidade humana de reflexão e de sedimentação daquilo que conhecemos como
mentalidade?
Creio que, para essa questão a resposta é a mudança da própria ideia de mudança.
Isto é: passamos a estar integrados num universo para o qual a rápida e contínua metamorfose é a sua qualidade primeira. Assim, trata-se da transformação para uma mentalidade de mudanças e não mais uma mudança de mentalidades.
E a isso é perfeitamente ilustrado pelo vertiginoso processo de desmaterialização da cultura material que se assiste em todo o mundo.
A matéria prima utilizada na construção do automóvel – símbolo de status social e poder estabelecido até há pouco tempo – representava de 30% a 40% do seu valor. Hoje, a matéria prima de um componente electrónico representa apenas 1% do seu valor!
A plasticidade estrutural dá lugar à plasticidade paramétrica.
Assim, o sistema judiciário já não sabe como lidar com questões que ultrapassam o domínio do imperialismo verbal. Afinal, lobby é ou não é crime de corrupção? Será crime vender informação ou viabilizar negócios num meio burocrático? Onde estará o verdadeiro crime, na busca dessas facilidades ou na geração de burocracia? Onde estará a verdade, o ponto de fuga nas relações humanas?
O caso O. J. Simpson terá sido um caso de conflito racial a um nível nacional, de telecomunicação ou um caso de puro homicídio? Para cada cenário haverá uma possível, ou várias portas.
Questões éticas se desintegram na conformação de um ethos global. A época da fixação humana em territórios bidimensionais dá lugar ao intenso processo de migração virtual, através do domínio das redes.
Simultaneamente, espalha-se por todo o lado um espectro de violência urbana, que nada mais é que uma desesperada busca de resgate da identidade individual. Mas, como o fazer num ambiente transcultural, transétnico e transnacional?
Vale lembrar, por outro lado, que – como mostra Pierre Levy – a condição primeira do nómada é a da solidariedade.
Parte da humanidade – a parte virtual – vai sendo transformada em largos contingentes nómadas informacionais, caminhando por territórios virtuais
líquidos, turbulentamente formatados por redes dentro de outras redes.
A desintegração das fronteiras, através da criação de poderosos sistemas de comunicação e de gigantescos grupos financeiros para os quais a ideia de
território fechado é bizarra e absurda, acaba espectacularmente com a ideia de estado nação, aniquilando-a.
Qual seria, actualmente, o sentido de nação étnica ou culturalmente homogénea diante dos poderosos sistemas de telecomunicação à escala planetária?
A economia da droga, em todo o planeta, mostra a obsolescência do modelo mecânico e literário diante de uma nova civilização para a qual a paleta
sensorial envolvida é inegavelmente diferente. Uma economia avaliada em mais
de cem biliões de dólares anuais!
Jean-Marie Guéhenno alerta para o facto de a coca e a papoula serem os únicos produtos agrícolas a prosperar no Terceiro Mundo!
Por outro lado, grandes cidades se transformam rapidamente em espécies de Cidades Estado, para as quais o ser humano é transformado em multidão.
Políticos passam a estar cada vez mais preocupados com a crescente perda de poder e autoridade por parte do Estado.
Os Estados se tornam cada vez menos funcionais, menos poderosos e mais pobres.
Grandes conglomerados empresariais fogem legalmente ao pagamento de impostos através de esquemas baseados na comunicação entre os seus componentes.
O Estado perde, assim, a sua legitimidade por cobrar desigualmente seus tributos.
Mas! A cobrança estandardizada e o estabelecimento de esquemas padrão nos sistemas fiscais é também produto de uma ultrapassada lógica literária!
Mesmo os fenómenos da diáspora se tornam obsoletos num mundo em constante transformação, onde seus habitantes viajam dentro e fora de suas casas e onde há o que poderíamos chamar colapso da distância.
A própria ideia de território, produzida à partir do conceito de terra, desaparece num domínio para o qual a terra é apenas um de seus possíveis componentes.
Como estabelecer alguma das tradicionais formas de organização política sem que pessoas vivam permanentemente num território especializado e definido?
Vale lembrar que o Direito Romano se fundamentou, em sua origem, nas questões relacionadas ao direito de propriedade e território.
O mundo de nações e culturas se transforma num mundo de portas e
Aberturas e massagem.
Qual é o lugar do ser humano contemporâneo?
Não se deve esquecer que a palavra cidadão lança o seu mais profundo significado – depois do latim civis, e penetrando pelo Indo Europeu – em alguém
que está no seu verdadeiro lugar.
A raiz etimológica dessa palavra, no termo Indo Europeu *kei, revela um sentido quase poético para o que viria a ser então a futura condição de cidadania.
*Kei significava estar deitado, e não há melhor imagem para o nosso
verdadeiro lugar do que aquele onde estamos livres, tranquilos e seguros para
mergulhar no mundo dos sonhos!
Somente na Alemanha – país tradicionalmente orientado para uma organização social enquanto nação étnica – cerca de 10% da população hoje é formada por estrangeiros!
A cada ano, os Estados Unidos recebem em imigrantes o equivalente a duas cidades das dimensões de Washington DC!
Mas, outras questões se impõe nesse sensacional cenário de metamorfose.
Até ao século XIX, a Europa possuía cerca de 15% da população planetária. Nas duas primeiras décadas do terceiro milénio ela representará pouco mais que 6%.
No começo da década de 1990 a Europa possuía cerca de setenta e cinco milhões de jovens, entre os quinze e os vinte e cinco anos de idade. Nos primeiros vinte anos do próximo século esta marca deverá cair para cerca de cinquenta milhões. Na África, considerando o mesmo grupo etário e o mesmo período de tempo, haverá um crescimento de setenta e cinco milhões para cerca de quatrocentos e oitenta milhões de pessoas!
Como alerta Pierre Lollouche, caso 10% dos jovens Africanos viessem tentar a sorte na Europa, teríamos cerca de cinquenta milhões de imigrados suplementares.
O território Europeu como centro universal e padrão do mundo branco estabelecido há quinhentos anos parece tornar-se absurdamente obsoleto.
Dentro de alguns anos, a população activa da China deverá ser de cerca de setecentos milhões de habitantes.
Em 18 de Maio de 1995, cerca de duzentos líderes religiosos distribuíram um controverso comunicado de imprensa condenando as patentes de sequências de DNA nos Estados Unidos:
Nós, os líderes religiosos abaixo assinados, opomo-nos às patentes de formas vivas humanas ou animais. Manifestamos a nossa perturbação diante da recente decisão do US Patent Office de patentear partes de corpos humanos e de vários animais produzidos por engenharia genética. Nós acreditamos que seres humanos e animais são criações de Deus, não de humanos, e assim não deveriam ser patenteados como invenções humanas.
A figura do teleantropos elaborada por René Berger parece assim sugerir o surgimento de uma nova espécie de Humanidade.
Uma nova espécie civilizacional.
E uma existência conflituosa entre civilizações emerge notável diante do facto de estarmos diante de um crescimento demográfico para o qual o Terceiro Mundo contribui com 90% dos cerca de um bilião de novos habitantes a cada década.
Ou ainda, pelo facto de cerca de 70% da população mundial viver com um nível de consumo médio de energia equivalente a aproximadamente 19% do que é consumido per capita nos chamados países industrializados.
Poderíamos pensar em outros dados de igual gravidade como, por exemplo, o facto de cerca de 2,7 biliões de pessoas viverem actualmente sem acesso a qualquer tipo de energia comercial!
E o mais grave, sem dúvida, de que apesar dessa brutal assimetria já estaríamos – segundo o Conselho Mundial de Energia – à beira de um colapso no que diz respeito à poluição ambiental e reservas energéticas. Mesmo porque essas questões são de carácter exponencial.
Isso leva à imediata conclusão que um pequeno aumento do consumo energético pelos países em desenvolvimento conduziria à um inevitável cenário de devastação.
Se estivermos realmente diante de uma nova espécie civilizatória, desta vez cunhada virtualmente, poderemos vir a identificar terríveis questões futuras de sobrevivência.
Mas há, diante do imenso abismo civilizatório que se apresenta no final do milénio, uma outra leitura sobre esse mesmo processo.
Uma leitura não apocalíptica, diante da qual a emergência dessa nova civilização representaria antes uma transformação global – uma mudança sem precedentes que estaria a redesenhar todo o planeta, e não apenas parte dele.
Um irreversível processo de metamorfose planetária.
Aliás, a própria figura do apocalipse é a sublimação máxima da predicação, estranha – em certo sentido – à cultura turbulenta e criativa que caracteriza o universo virtual.
Estaríamos diante de uma espécie civilizatória nómada, já hoje presente e ausente em toda a parte.
Uma espécie que indiciaria um salto de toda a humanidade.
Um cenário para o qual o teleantropos – representado por milhões de pessoas – seria apenas a imagem do futuro próximo.
Arquitectura é significar espaços. Isto é: significá-los tomando sempre como referência primeira o ser humano.
Se possuirmos, de facto, uma nova humanidade inaugurada pelo surpreendente surgimento do teleantropos, haverá então uma telearquitectura, ou como prefiro chamar: uma arquitectura virtual.