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DA EDUCAÇÃO EM HISTÓRIA E PATRIMÔNIO

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Academic year: 2021

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DA EDUCAÇÃO EM HISTÓRIA E PATRIMÔNIO

Davi Campino da Fonseca*

* Graduando em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, apresentador de trabalho de iniciação científica pelo PIBIC/ CNPQ.

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A preservação do patrimônio cultural e artístico brasileiro aparece como alvo de preocupação na Constituição do país e em suas normas infraconstitucionais1. O texto expresso na carta magna nacional expõe os princípios e as bases da política nacional em relação a este conjunto de bens e é determinante enquanto norteador de como a regulamentação deste setor deverá ser feito nas esferas federal, estadual e municipal, através da legislação infraconstitucional, tanto de forma independente quanto convergente para o fim da proteção.

Assim, este trabalho pretende refletir entre esta relação da determinação e proteção jurídico-legal ao bem e a importância desta proteção no estudo e docência de História e os aspectos historiográficos do tema.

Demonstra-se, portanto, que a preocupação surge verticalizada e de maneira decrescente, do ponto de vista federal a partir da Constituição Federal e após a legislação federal, a instância superior, até a municipal que seria a base. Tratar de legislação concorrentemente, como se encontra na carta magna nacional em parte é isso: todas as esferas governamentais tem responsabilidade na questão do patrimônio.

E, nessa perspectiva, o Decreto 3.551 de 2000, que se dedica ao regime de bens culturais imateriais, trata do seguinte: “Institui o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial que constituem patrimônio cultural brasileiro, cria o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial e dá outras providências”.

A partir disso, temos uma ideia do que pode vir a ser considerado patrimônio. Mesmo assim, as diretrizes para escolha do que pode ser ou não classificado como patrimônio são muito amplas e com isso basicamente nos permite classificar qualquer espécie de bem como parte do patrimônio, desde que apresente alguma das características a seguir apresentadas. Conforme observado no art. 216 do texto constitucional, os bens culturais para alcançarem o estatuto de patrimônio devem ser portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. Sabemos também que a escolha do patrimônio atende a interesses do governo e, após 1988, do próprio povo brasileiro.

O historiador francês Dominique Poulot reflete a respeito da questão das políticas

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educativas e culturais do chamado Estado-Providência, e como isso interfere no que é definido neste patrimônio a ser protegido. Como pode ser analisado aqui:

(…) Além das questões das instituições tradicionais, o fenômeno é parte de uma mudança fundamental: a da nova definição de cultura a partir da década de 1960, incluindo agora os mais diversos aspectos das práticas sociais, no momento em que a paisagem material e imaterial passava por rápidas e aceleradas transformações. Finalmente, a atenção dirigida aos manejos políticos do passado e aos usos públicos da história revelou amplamente que o patrimônio era resultante de reconstruções com base na classificação e na escolha, bem como de esquecimentos seletivos e de comemorações voluntaristas.

(…)

O patrimônio pretende encarnar as visões gerais da ciência, quando a nação começa a tomar "consciência de si mesma como uma nação".16 Ele reivindica ser um tipo de abertura para o futuro, ao mesmo tempo laboratório e arquivo da história - tal qual é o museu dos arquivos, inaugurado em 1867, em Paris. A este laboratório ideal é atribuído uma responsabilidade educacional: a visita ao museu contribui, paralelamente, para o ensino obrigatório e a circulação de jornais, a formação de "comunidades imaginárias",17 tanto na escala da "pequena pátria" quanto da grande.18 Alguns museus de história acumulam bibliotecas e centros científicos, publicando e divulgando manuais - tais como o Museu Nacional Germânico, em Nuremberg (1852), ou o Ossolineum, de Lvov (1817) - a serviço da uma visão cumulativa do passado, num trabalho patriótico. (POULOT, 2011.

475-476)

No entanto, pode-se observar que as novidades trazidas pela Constituição Federal de 1988 não foram seguidas de mudanças significativas na legislação ordinária. Esta permaneceu, pois, defasada e desarmônica com relação aos preceitos constitucionais.

A definição legal de patrimônio cultural encontra-se no art. 1º do Decreto-Lei 25 de 1937 que é bastante restrita, não refletindo a definição mais ampla, diversificada e avançada do art. 216 da Constituição Federal. E é o Decreto-Lei 25 de 1937, mesmo defasado2, que permanece sendo o mais importante diploma legal dirigido a proteção de bens culturais, embora regule apenas uma forma específica de conservação desses bens: o tombamento.

O Decreto-Lei é uma figura normatizadora inexistente atualmente3, é um resquício de épocas de ditadura, porém a Constituição de 1988 não invalida a legislação anterior, na medida em que ela não vá contra a nova ordem constitucional. Mas mesmo assim, a norma mais importante no patrimônio, ainda é uma imposição. Conotando com isso, a ligação com a História mestra da vida, a memória como construção de cima para baixo.

2 Considerando os conceitos inovadores trazidos pela Constituição Federal

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Pode-se traçar aqui um paralelo com o trabalho de François Hartog e o regimes de historicidade por ele desenvolvido. Esta temática toca no desenvolvimento identitário através do estudo da História, dos limites temporais e recortes que podem propiciar essa identidade a ser delimitada.

Este historiador se utiliza do termo itinerário, que remete a uma viajem ou percurso como uma metáfora do recorte a ser trabalhado. No caso do patrimônio isso pode ser vislumbrado tanto naquilo que deve ser protegido quanto na natureza de cada um dos bens.

A importância de entendermos o arcabouço jurídico-legal do que é e de como deva ser preservado o patrimônio histórico cultural material e imaterial é importante na medida em que absorvemos esse conteúdo dentro da história e da historiografia, contextualizando a sua importância perante a população. Bem como, transparece, através de escolhas legislativas, o que, politicamente falando, é importante ser preservado ou não.

Pelo fato do foco principal da nossa legislação patrimonial ser ainda uma imposição4, temos como exemplo o tipo de memória que os governantes querem construir para os governados, como por exemplo, por muito tempo o patrimônio ter sido considerado somente em seu caráter material , e ligado a personalidades relacionadas ao poder institucional.

O processo de tombamento contido no Decreto-Lei 25 de 1937 bem demonstra essa questão da imposição, uma vez que é notório o pouco destaque dado no texto a figura do particular e a sua vontade, em contraposição aos órgãos públicos e a vontade emanada pela estrutura governamental.

Tanto é possível verificar através do procedimento de tombamento de bem particular, pois ele passa por duas vias conforme o art. 7º do referido decreto-lei:

Art. 7º Proceder-se-à ao tombamento voluntário sempre que o proprietário o pedir e

4 A figura normativa do decreto-lei, em termos legislativos é teratológica, inclusive do ponto de vista jurídico. Apesar do atual substituto ser a medida provisória, uma vez que ambos são atos emanados do chefe do Poder Executivo, suas características são de lei. A responsabilidade sobre a normatização do estado brasileiro é do Poder Legislativo, o que se inverte com o decreto-lei, por ser um ato privativo do chefe do governo. Além de não haver qualquer participação direta dos senadores e deputados na feitura da norma contida nesta espécie legislativa, havendo apenas a possibilidade de ser referendado por aqueles. O que se não ocorrer em determinado prazo, convalida-se o diploma legal. Cabe lembrar que o Decreto-Lei 25 de 1937 foi promulgado no período do Estado Novo, em que o Brasil estava sob o governo de Getúlio Vargas, sendo considerado para todos os fins como um ditador.

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a coisa se revestir dos requisitos necessários para constituir parte integrante do patrimônio histórico e artístico nacional, a juízo do Conselho Consultivo do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, ou sempre que o mesmo proprietário anuir, por escrito, à notificação, que se lhe fizer, para a inscrição da coisa em qualquer dos Livros do Tombo.

A primeira parte do artigo descreve o tombamento voluntário a requerimento do próprio particular, mas isso se o bem cumprir com regras pré-determinadas e passado pelo crivo de órgão governamental, ou, na segunda hipótese, anuindo com uma notificação prévia. E, neste último, se não houver concordância o procedimento passa a ser obrigatório (art. 8º), no qual deverá apresentar as razões da contrariedade ao ato.

O decreto-lei não explicita quais são os reais critérios que determinam quais bens se enquadram na definição inicial dada pelo art. 1º ao que deve ser parte do patrimônio histórico e artístico nacional com conceitos fechados. Desta maneira, resta a outros meios, como a interpretação e o entendimento subjetivo do que é ou não bem que pode integrar o patrimônio cultural nacional.

Neste aspecto, a norma, em escrutínio, denota que, em última analise, essa decisão cabe somente a órgãos componentes do poder público - Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Não havendo um real reconhecimento da vontade da população civil no diploma legal; seja pela analise do requerimento de tombamento, que deverá ser examinado e aceito pelo Poder Público; como a ausência de menção a comunidade ou grupos socioculturais.

Contudo, os dispositivos constitucionais, por seu turno, tem uma característica de fluidez, em contraposição a herança legal trazida pelo Decreto-Lei 25 de 1937, tanto no aspecto do que é o patrimônio, ao determinar-se que o imaterial também possa ser contemplado; quanto no aspecto social: quem é que define o que é importante o bastante para ser preservado.

Esta acepção pode ser compreendida através da simples interpretação da leitura do caput do art. 216 da Constituição Federal e de seus incisos, onde há exemplificação das formas que os bens, a serem tombados, podem tomar. No entanto, abre-se a possibilidade de que outros meios possam vir a serem incluídos nessa proteção.

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imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:

(...)

§ 1º - O Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação. Além do que, no parágrafo primeiro do art. 216, a Constituição inova ao colocar em igualdade o Poder Público e a comunidade em relação à promoção e proteção do patrimônio, ainda que a administração direta caiba ao primeiro deles. Tal situação aponta para a importância em colocar na mão do destinatário final do patrimônio a defesa daquilo que é seu: sua identidade, memória e história; e que não é necessariamente o bem concretamente estabelecido, mas os valores intrínsecos a sua natureza patrimonial.

Então a grande questão é o que é patrimônio, ou melhor, o que pode ser considerado como patrimônio? Quais são os valores intrínsecos e extrínsecos àquele patrimônio? Por que é importante a manutenção desses valores? E qual a sua aplicação dentro da educação? Ou mais especificamente: a sua importância e aplicação no ensino de história?

Patrimônio, segundo o dicionário, é o conjunto de bens e direitos pertencente a uma pessoa ou um conjunto de pessoas, física ou jurídica.

Patrimônio cultural brasileiro, segundo o dicionário jurídico é definido como sendo os bens de natureza material, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.

Desta maneira, o patrimônio é, em uma de suas acepções, formador de identidade. Pode-se entender isso a partir do seguinte exemplo: o Pico do Dedo de Deus, tombado pelo IPHAN5 como patrimônio paisagístico, é representativo do próprio país, em grande medida, e

também do estado do Rio de Janeiro e de alguns de seus municípios. Encontram-se referências a esse bem paisagístico na bandeira do estado e nos brasões dos municípios de Teresópolis, Magé e Guapimirim.

Algo curioso é que o Pico do Dedo de Deus é motivo de disputa entre os municípios

5 Lista dos Bens Culturais inscritos nos Livros do Tombo (1938-2012): Guapimirim. Bem / Inscrição Dedo de Deus, maciço rochoso. Nome atribuído Dedo de Deus: penhasco Nº Processo 1405-T-97. Liv. Arq./Etn./Psg. Nº inscr.: 130; Vol. 2; F. 033; Data: 06/07/2004. Pg. 99.

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referidos e apesar de estar próximo geograficamente de cada um deles, ele se encontra na área do município Guapimirim. Ou seja, cada um deles identificava para si o referencial geográfico como parte de sua identidade.

Pode-se tomar esse exemplo para os fins desse trabalho, tanto na questão do Dedo de Deus ser um patrimônio cultural como coloca a Constituição quanto no fato de se pensar se a legislação infraconstitucional atende as necessidades de proteção desse patrimônio. Mas será que é apenas essa questão de identidade que forma o patrimônio?

Nesse caso, quando o Dedo de Deus deixou de ser um marco puramente natural, para se tornar um ícone cultural identitário? E o que faz um marco identitário se tornar um patrimônio?

Segundo o Decreto-Lei 25 de 1937, existem duas formas de um bem se tornar um patrimônio, a primeira é através de iniciativa governamental, e a segunda, por iniciativa popular. A esse respeito podemos colocar inicialmente que se o governo tem a prerrogativa dessa afetação que poderia transpor uma ideia de imposição de uma determinada identidade, história ou memória ou o que é importante o bastante para ser preservado, o que realmente deve ser lembrado. Isso pode ser percebido no artigo 5º do Decreto-Lei, uma vez que o tombamento dos bens pertencentes ao Estado terão seu tombamento de ofício, que significa dizer que a ordem vem de dentro de um gabinete, sendo informada a autoridade para a produção dos efeitos do tombamento.

Ao contrário do caso dos bens sob a guarda de um particular, poderá sofrer um tombamento compulsório, no qual o ato é imposto a ele por se recusar a anuir a inscrição da coisa.

Um exemplo do tombamento compulsório no Rio de Janeiro é a Área de Proteção do Ambiente Cultural, conhecido pela sua sigla APAC. Recentemente, houve brigas entre a Prefeitura do Rio e a Associação de Moradores, que tiveram a imposição dessas áreas de proteção.

O Decreto-Lei seria bem ao formato da História mestra da vida, feita de cima para baixo, com a escolha de monumentos e memórias selecionados pelos governantes, com pouca

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participação popular. Todavia, a partir da nova ordem democrática advinda com nova constituição federal, torna-se imprescindível a participação popular ao lado das instancias governamentais, tanto para a escolha, quanto a manutenção do patrimônio nacional.

A presente análise encontra-se ainda em um estágio inicial, pretendendo-se aprofundar as temáticas e as questões tratadas neste artigo. Contudo, pode-se antever que a participação popular na eleição e proteção do patrimônio coloca o próprio sujeito da História no controle da formação da sua identidade, memória e por que não dizer sua própria História.

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BIBIOGRAFIA

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Planalto. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em 20.04.2014.

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BRASIL. Decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937. Planalto. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del0025.htm>. Acesso em 10.05.2014.

BRASIL. Lei nº 6,292 de 15 de dezembro de 1975. IPHAN. Disponível em: <http://portal.iphan.gov.br/portal/baixaFcdAnexo.do?id=226>. Acesso em 10.05.2014.

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HARTOG, François. Presentismo pleno ou padrão?. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. S/ ed, s/ local, Ed. Autêntica, s/ ano.

HOUAISS, Antonio; VILLAR, Mauro Salles. Mini Houaiss: Dicionário da Língua Portuguesa. 1ª ed, Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 2001.

POULOT, D. Cultura, História, valores patrimoniais e museus. Varia História, Belo Horizonte, vol.27 no.46, 471/ 480, jul./dez. 2011.

SIDOU, J. M. Othon. Dicionário jurídico: Academia Brasileira de Letras Jurídicas. 5ª ed, Rio de Janeiro, Ed. Forense Universitária, 1999.

Referências

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