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PASSO I COMO FUNCIONA? 15 COMPREENDER A NATUREZA DA SUA EXPERIÊNCIA

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Academic year: 2021

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INTRODUÇÃO

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PASSO I – COMO FUNCIONA?

15

COMPREENDER A NATUREZA DA SUA EXPERIÊNCIA

1. COMO TUDO COMEÇA – abanando os alicerces existenciais 17 2. UMA IDEIA RADICAL – realidade e perceção 25 3. JACK & JOHN – dois estados (funda)mentais 35 4. O DESCODIFICADOR – sobre o mecanismo de atribuição

de significado 45

5. TRUQUES DE MAGIA – desmascarar o ilusionismo 53 6. JACK PARECE FUNCIONAR – eficácia ou alinhamento? 61 7. O “FELIÇÓMETRO” – qual é mesmo o objetivo? 67

PASSO II – PARA ONDE QUERO IR?

79

MELHORAR A SUA BÚSSOLA EXISTENCIAL

1. A FÁBRICA DA REALIDADE – pensamento, consciência

e salas de cinema 81

2. ZOOM OUT – dissociação e aceitação 89 3. LIBERDADE PARA ALINHAR – para que serve tudo isto? 97 4. XEQUE-MATE – não perder de vista o objetivo 105 5. GRANDES E PEQUENAS FORÇAS – à procura

do GPS interno 115

6. FALSOS AZIMUTES – autoaldrabices neurais 125 7. REINVENTAR O EU – sobre o self, o ego

(2)

8. INSTRUÇÕES FINAIS – não é algo para fazer, é algo

para notar 149

PASSO III – COMO CHEGAR LÁ?

161

DESBLOQUEAR O SEU PODER DE CONCRETIZAÇÃO 1. NÃO SABE O QUE QUER? TUDO BEM. – da obra-prima

à viagem 163

2. O PROCESSO DE REINVENÇÃO – procure uma

bússola, não um plano 169 3. AS LEIS DA MOTIVAÇÃO – não temos de ser

o Super-Homem 177

4. MANUAL DE INSTRUÇÕES – 5 lições práticas 189 5. DINHEIRO, SOSSEGO E REALIZAÇÃO – expectativas

ilusórias? 207

6. O COMBOIO DA VIDA – sobre sonhos, datas e mudança 211

EPÍLOGO

217

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Quando o João, o meu filho mais velho, começou a dar os primeiros pas-sos, dei por mim a questionar-me se é por alcançarmos objetivos que nos sentimos realizados. Cinco anos depois, quando o André, o meu segundo filho, aprendeu a andar, tudo estava bem mais claro. O que motiva um bebé a tentar e a falhar, e a tentar outra vez, a magoar-se, a tentar outra vez, e outra, e outra…? Disciplina? Força de vontade? Estabelecimento de objetivos? Um desejo de ser melhor?… Claro que não! O processo era alimentado por uma vontade simples e forte: ver mais coisas, chegar a mais coisas, deslocar-se de forma mais rápida e eficiente. Por isso, agarrar--se ao que podia para se esticar ao máximo fazia todo o sentido e arriscar uns trambolhões valia a pena. Ele não queria ser um bebé que conseguia andar. Ele não queria ter o estatuto de alguém que conseguiu superar o desafio de aprender a andar. Ele não pensava no que poderia significar ser visto a fazer figura de idiota enquanto aprendia. Ele não queria saber da sua imagem para nada. Em boa verdade, por essa altura, o seu eu, bem como toda a problemática que daí acabaria por advir, não existia sequer na sua mente. Tudo era simples, belo e, essencialmente, um feliz exercício de curiosidade e exploração. E a forma como se entregava, de corpo e alma, a cada momento, a cada instante, era a de praticamente qualquer criança com 1 ano de vida – com total liberdade e zero amarras a não ser o bom senso de evitar trambolhões desnecessários.

Se escolheu este livro, é provável que tenha a ambição de mudar alguma coisa na sua vida. Talvez até muita coisa, embora por agora isso não seja o mais importante. O mais importante é que, acontecendo essa mudança,

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pequena ou grande, quererá porventura que ela lhe traga uma sensação substancialmente diferente de estar vivo.

Talvez queira sentir paz mais vezes. Talvez queira sentir o entusiasmo in-fantil de viver como quem joga um jogo, com vontade e entrega. Talvez queira dar uma reviravolta nas circunstâncias em que habita e, finalmente, sentir a lufada de ar fresco, fluidez e leveza de quem se “liberta”. Pode ser que queira sentir mais vezes a segurança de estar a fazer as escolhas certas. Ou a tranquilidade de não estar a desperdiçar tempo de vida, precioso e finito. Pode ser que queira sentir-se fisicamente forte e ágil. Pode ser que queira sentir mais vezes aquela ligação humana profunda com outras pes-soas, seja o seu parceiro, os seus filhos, os seus pais, amigos ou colegas. Pode ser que queira sentir mais vezes a sensação incomparável de ser útil, de ajudar, de contribuir, de fazer alguma diferença no mundo. Pode ser que queira sentir a serenidade e a justiça de um reconhecimento mere-cido, ou livrar-se de uma eterna dúvida de autovalidação.

Enfim, esta lista facilmente se prolongaria com itens importantes para si. O que eu gostaria de salientar, neste início de conversa, é que, muito pro-vavelmente, o que procura, no fundo, é “sentir um certo sentir”. Porque “sentir um certo sentir” é “viver um certo viver”. E mesmo quando nos es-forçamos por ter, ser ou alcançar alguma coisa, o que procuramos, verda-deiramente, às vezes sem nos apercebermos disso, é “sentir que temos”, “sentir que somos” ou “sentir que alcançámos” essa coisa. Assim à pri-meira vista, até pode parecer uma subtileza, mas perceber esta diferença é uma habilidade crucial para a sua realização pessoal e, ao mesmo tempo, fugidia.

É crucial, porque a relação entre atingir uma meta e sentirmo-nos reali-zados é, no mínimo, duvidosa. Todos já tivemos a sensação de terminar com esforço uma determinada etapa ou desafio de vida e ver durar muito pouco o sentimento de vitória. Ele é rapidamente suplantado por uma voz recorrente de autoexigência e vontade insaciável de mais e mais: Qual é o próximo? – e logo temos os olhos postos no degrau seguinte da escada (in-finita). A repetir-se este padrão, em múltiplas áreas da nossa vida, seria no mínimo prudente suspeitarmos que, se calhar, não é por termos suficiente dinheiro, ou suficiente tempo, ou suficiente estatuto, ou sermos suficien-temente bons, ou termos suficientes pessoas a gostarem de nós que nos

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vamos sentir “suficientes”. Essa paz, ou ausência dela, resulta fundamen-talmente de um processo mental, subjetivo, e não de um cenário circuns-tancial, objetivo. De facto, vivemos no mundo sensorial da nossa atividade mental, não vivemos no mundo das nossas circunstâncias, embora empe-nhemos diariamente grande esforço para conseguirmos as circunstâncias certas e podermos finalmente sossegar e usufruir do que conquistámos. Da mesma forma, também o sentimento de realização pessoal é uma cons-trução mental que depende muito pouco das medalhas sociais que con-quistamos no mundo real. Assustadoramente pouco.

Ver esta diferença é uma habilidade fugidia, porque, olhando à nossa volta, o mundo não parece questionar-se sobre isto. Acredito que a sociedade que todos construímos nos tem “encarneirado” nesta roda de rato de forma totalmente inocente, mas avassaladora. Põe-nos a tentar alcançar metas atrás de metas, que até fazem um certo sentido, mas… se pensar-mos bem, o que queríapensar-mos, mesmo, era não nos sentirpensar-mos obrigados a perseguir meta alguma. Queremos continuar a subir a “escada”, sim, mas mais como o João ou o André queriam aprender a andar. Não para “che-gar lá”, mas apenas porque é o sentido natural. Não porque estamos in-completos até chegarmos, mas porque, mesmo in-completos desde o dia em que nascemos, evoluir é o sentido natural. Não por ansiedade, ou sen-tido de incumprimento, ou défice, mas porque sim, de forma fluída e des-preocupada, mesmo se por vezes veloz e intensa. De forma livre, embora responsável. Ambiciosa, embora sempre a feijões. Pacífica, embora entu-siasmante e aventureira. Como quem sabe que, no fundo, já cá estamos. E ir é só parte dessa realidade.

Acredito que é possível vivermos de um modo em que tudo é bastante simples, belo e, essencialmente, um feliz exercício de curiosidade e explo-ração. Que é possível entregarmo-nos de corpo e alma a cada momento, a cada instante, com total liberdade e zero amarras que não o bom senso de evitar trambolhões desnecessários. Acredito mesmo que não só isso é possível, como é facilmente acessível, e requer muito menos disciplina do que vemos apregoado na literatura de sucesso e superação.

Pela minha experiência junto de inúmeros clientes com quem já trabalhei, tenho a convicção de que o conjunto de ideias que vou explorar consigo neste livro tem o potencial de abalar significativamente a sua ideia de

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realização pessoal e, porventura, reorientar consideravelmente o seu es-forço para “chegar lá”.

Aviso que, provavelmente, vai deixar de se levar tão a sério como até aqui. Mas no bom sentido. No sentido de se libertar de perfecionismos e amar-ras desnecessárias, de evitar sofrimento emocional meramente mental e de concretizar muito mais coisas, com muito maior leveza, ao mesmo tempo vivendo com maior intensidade e sensação de plenitude, aprovei-tando melhor o caminho.

Interessado na viagem? Apenas lhe peço que traga mente aberta, curiosi-dade, e… que se divirta no processo! Bem-vindo a uma nova etapa da sua existência.

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Reality leaves a lot to the imagination.12

John Lennon

1 A realidade deixa muito à imaginação (tradução do autor).

2 NOTA do autor: Resolvi transcrever as citações na língua em que as encontrei. Na forma em

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PASSO I

COMO FUNCIONA?

COMPREENDER A NATUREZA

DA SUA EXPERIÊNCIA

Pretendo, neste livro, explorar consigo um método eficaz de otimizar esta «coisa» a que chamamos vida, tentando encontrar uma sensação de reali-zação e plenitude. Nesse sentido, queria, antes de mais, que nos debruçás-semos um pouco sobre o que é isso de “existirmos”. Em particular, sobre qual é a essência da nossa experiência consciente de estarmos vivos. Sobre isto de haver um personagem central – o Eu – dentro de uma espécie de filme, uma narrativa, uma cronologia, e um conjunto aparentemente ine-gável de factos que nos caracteriza: idade, sexo, peso, nacionalidade, em-prego, conta bancária, morada fiscal, situação familiar, etc., etc., bem como toda a história pessoal que nos trouxe até este momento.

O que me parece mágico sobre este filme é termos consciência dele. Ex-perienciamo-lo de forma tão especial que não sentimos apenas o que nos acontece, como sentimos também a nossa reação ao que nos acontece. Sentimos a alegria direta de uma qualquer vitória importante, como senti-mos também que nos sentisenti-mos alegres. Ou seja, ao mesmo tempo que vi-vemos esse tal filme, como atores, somos também espectadores dele, com lugar cativo na sala de cinema, sendo essa sala também parte do filme. Nesta parte inicial do livro, vou começar por abordar este tema nuclear da nossa conversa: qual é a natureza da experiência humana? De que é feito cada instante consciente deste filme do personagem eu? Que relação há entre as nossas circunstâncias, as nossas emoções e os nossos sentimentos sobre essas emoções? E que relevância tem isso para a nossa felicidade e para a nossa realização pessoal?

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COMO TUDO

COMEÇA

ABANANDO OS

ALICERCES EXISTENCIAIS

Todos nós dedicamos tempo a pensar sobre a nossa vida e a nossa felici-dade. Pessoalmente, recordo que levei a coisa a sério desde cedo. Lembro--me de, com 15 anos, ter discussões filosóficas sobre o sentido da vida, sobre a noção de perceção e realidade, sobre o que é o prazer, sobre o efeito borboleta das decisões, sobre o Big Bang, o tempo e a morte. Enfim, todos esses assuntos me entusiasmavam ao ponto de me tornar, por vezes, aborrecido entre o meu grupo de amigos. Mal sabia eu, naquela altura, que me iria dedicar profissionalmente a estes temas.

Mas não foi algo imediato. Antes disso, completaria uma licenciatura em Engenharia Informática, nos cinco anos previstos, com uma média sofrível, mas digna. Digo digna, tendo em conta que fiz questão de pas-sar às disciplinas nas primeiras chamadas dos exames para libertar mais tempo para férias e viagens. Eu vivia “claustrofobizado” pelo tempo de escola. Sentimento talvez nascido na primária, onde durante quatro anos a “diabólica” Professora Ventura nos roubou repetidamente os únicos 30 minutos de intervalo do dia, para nos levar mais longe na matéria e nos exercícios. Traumas à parte, por um lado fico-lhe grato por ter despertado em mim a valorização do tempo e a importância de estar atento aos seus “ladrões”.

Tenho hoje consciência de que vivi muitos anos como vítima inocente do vício de correr contra o tempo. Uma constante vontade de fazer caber mais coisas antes que se desperdiçasse a oportunidade. Este instinto ter-se-á porventura agravado por altura da morte do meu pai, um tanto repentina e prematura, aos 45 anos de idade, tinha eu 20. Não nasceu aí, mas cris-talizou-se nessa altura uma espécie de mantra existencial que revisitava

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Reinvente-se

todos os dias, como quem olha para uma bússola que indica o caminho: se eu também morrer aos 45 anos, hei de estar satisfeito com o que aprovei-tei. Claro que uma coisa destas, mal gerida na cabeça de um miúdo de 20 anos, agravou uma certa febre de fazer muitas coisas e marcar checklists de países e cidades, igrejas e monumentos, cascatas e vulcões, e todo o tipo de marcos simbólicos e experiências radicais. Na verdade, interiormente, mal arranhavam o meu insaciável desejo por mais.

Essa permanente sensação de estar em falta, misturada com um genuíno gosto por viajar, empurrou-me para várias viagens um pouco por todo o mundo. Cheguei a negociar várias licenças sem vencimento na empresa onde trabalhava. Queria sempre mais e mais espaço livre no calendário! Mais tempo para viagens, mais tempo para experiências… Ao ponto de, aos 30 anos de idade, decidir mudar de vida, mesmo sem saber bem o que isso era. O tal mantra, “se eu também morrer aos 45 anos…”, jogou uma carta forte nesse momento de hesitação. Se queria fazer caber algo de extraordinário e diferente no meu curto projeto de vida, não havia muito mais tempo a perder. Isto deu-me coragem para abandonar o meu interessante e bem remunerado emprego, vender quase tudo o que tinha (que não era muito) e libertar-me da espiral viciante da “carreira”, com os seus inteligentes esquemas corporativos de retenção de talento. Tudo isso para realizar uma longa viagem de mota, dizia eu, “à volta do mundo”. Na verdade, embora tendo completado os 40 000 km simbólicos do perí-metro do planeta, a minha viagem foi uma travessia das Américas, desde a cidade de Buenos Aires, na Argentina, até Nova Iorque, nos Estados Uni-dos! Sete meses na estrada, a solo, uma barrigada de paisagens, cultura, mundo, inspiração, muita introspeção, e alguns desafios, incluindo aci-dentes e assaltos.

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1. Como tudo começa

NOVO RUMO PROFISSIONAL

Foi uma aventura marcante, com muito tempo para refletir e filosofar sobre a existência humana e os seus múltiplos formatos. Sobre concretiza-ção de objetivos e realizaconcretiza-ção pessoal. Queria compreender por que razão o momento final da chegada a Nova Iorque tinha sido tão surpreendente-mente vazio de significado, contra as minhas expectativas. E, no regresso a Portugal, porque não estava eu mais sereno e realizado, e continuava sôfrego por mais? Havia tanto para explorar relativamente a essa matéria! Tanto para compreender, explicar e partilhar…

Essa vontade levou-me a fundar a MIND4TIME, em 2009. Estudamos a fundo conceitos como foco, tomada de decisão, motivação, sucesso, felici-dade, superação, desenvolvimento pessoal, liderança e cooperação, entre muitos outros temas neste âmbito. Durante estes anos, esforcei-me sem-pre por asem-prender com os melhores do mundo: David Allen, Robert Dilts, Anthony Robins, Michael Neill, Aaron Turner, entre muitos outros. Colecio-nei inúmeras certificações em Coaching, Programação Neuro Linguística (PNL) e Desenvolvimento Pessoal em vários pontos do planeta, de Lon-dres a Los Angeles, e fui explorando algumas experiências paralelas mais alternativas, como retiros espirituais, o mais marcante numa área remota do Nepal. Cada um destes livros, autores e experiências promoveu uma

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Reinvente-se

evolução interessante no meu modelo do mundo, e na minha metodolo-gia enquanto coach, sempre avaliando o que funcionava ou não: o que mu-dava mais ou menos a vida das pessoas para melhor.

No entanto, algo de surpreendente e inesperado aconteceu neste per-curso. Após tantas fontes e abordagens válidas, acabei por tropeçar numa ideia singular, bastante disruptiva, mesmo revolucionária, embora descon-certantemente simples, que impactou toda a minha vida de forma irrever-sível! Começou por uma simples curiosidade de quem lê sobre mais um método, mais uma filosofia de coaching, mais um núcleo de autores que reclamavam notável sucesso no impacto transformacional junto dos seus clientes. Mas, rapidamente, de forma quase impercetível, à medida que fui mergulhando no tema, começou a transformar a minha maneira de ver o mundo de uma forma que mais nenhum autor ou método alguma vez tinha feito. Em pouco tempo, tinha invadido todos os recantos da minha cosmovisão, como se tivesse acedido a algo mais visceral, mais nuclear. Recordo-me de constatar que os efeitos que estava a sentir eram o mais próximo daquilo que eu alguma vez imaginara ser viver num modo zen, como lemos nos livros espirituais, mas com um formato muito diferente, mais banal e mundano, distante dessa minha visão utópica e romântica do que eu achava que seria atingir a “iluminação”. O mesmo conceito, mas com uma roupagem inédita e improvável.

O mais peculiar foi que, de certa forma, tudo na minha vida estava mais ou menos na mesma, mas, ao mesmo tempo, diferente! De facto, cons-tatei que durante todos esses anos eu procurara transformar o mundo à minha volta, na expectativa de vir a conseguir chegar a um sítio onde esta sensação de plenitude habitasse. Nunca me ocorrendo verdadeiramente, confesso, que nada tinha que ver com o formato, com a casa, com o traba-lho, com o dinheiro, com o sucesso, com o reconhecimento, com o desafio, com o “chegar lá”… Porque vem de dentro e não de fora. E, por mais cliché que esta frase possa parecer, a verdade é que fui esbarrando contra ela de uma forma sólida e incontornável, um pouco como quem acerta, em câmara lenta, num muro de betão a 200 km por hora.

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1. Como tudo começa

IMPACTO

Bem, talvez me esteja a precipitar e a atropelar as ideias. Para já, o que lhe queria dizer é que o que vou apresentar neste livro teve um enorme im-pacto na minha vida. Em tudo, começando pelas pequenas coisas. Alguns exemplos: praticamente deixei de stressar no trânsito; deixou de fazer sen-tido a minha atitude “antissocial”, que incluía uma certa aversão a centros comerciais, sítios com televisão ligada nos canais portugueses ou horror a anúncios em geral; deixei de viver afogueado com a ideia de não perder tempo, e de não desperdiçar qualquer oportunidade; deixei de acelerar os meus fins de semana, já não caindo na armadilha de fazer imensas coisas para sentir que os aproveito ao máximo; zango-me muito menos vezes; a minha relação conjugal melhorou significativamente, mais próxima, com amuos muito menos duradouros, e muito menos discussões; abandonei uma ideia preconcebida do que é estar zen, bem como desisti da obriga-ção autoimposta de ter de perseguir uma vida mais zen, passando a estar sereno muito mais vezes, sem a pressão da passagem do tempo e sem a sensação permanente de estar na iminência de perder algum comboio (o que me fez rever que zen não é nada daquilo que eu pensava). Dou por mim muito mais vezes entregue a uma brincadeira com os miúdos sem pensar em mais nada, nem no tempo que estou a demorar, nem até que ponto isso serve um propósito maior. Ao mesmo tempo, concretizo muito mais coisas: a minha performance profissional melhorou, passei a escrever regularmente, a fazer vídeos com conteúdos para as redes so-ciais, exponho-me mais, com menos pruridos. Já não tem de estar tudo perfeito, e isso desbloqueia mil ideias, inclusivamente na área comercial e de marketing. Não deixei de ser exigente com a qualidade do que faço, apenas muito mais prolífero ao rever de forma “despessoalizada” o good enough de cada tarefa e de cada projeto. As queixas do meu ego perderam palco: avalio o que faço na medida da sua utilidade para os outros e não para me congratular ou dizer ao mundo quem sou. A relação com os clien-tes é diferente, mais aberta, mais colaborativa. Continuo a irritar-me com as birras dos meus filhos, com atitudes pouco cívicas, com alguns erros dos meus consultores, comigo mesmo, mas… nada é como antes. Tudo isso dura muito menos tempo. Deixo essas emoções passarem por mim num

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Reinvente-se

desrespeito pela sua natureza virtual. Não agarrar essas energias e pensa-mentos negativos, como se deles dependesse a minha felicidade, faz com que, de facto, esteja mais feliz durante uma bem maior parte do tempo. E não deixo de corrigir o que há a corrigir, mas tento sensibilizar os outros a partir de um espaço muito mais pacífico, compreensivo e eficiente. Já não tenho de continuar a tomar o veneno da frustração ou da preocupação para me obrigar a mudar alguma coisa. Essa estratégia deixou de fazer sen-tido. Não se trata de um truque inteligente, nem de uma tática que treinei e utilizo com disciplina férrea. Nada disso. Apenas uma nova perspetiva me fez ver coisas que não tinha visto antes, sobre como tudo funciona cá dentro. E são coisas que, tipo Matrix, depois de vistas, não dá para “desver”. Não há comprimido do esquecimento. Já não é possível habitar nesta rea-lidade construída achando que estou a ver o real. Sinto-me mais leve, nada é demasiado sério, e isso deixa-me um enorme espaço para usufruir, com outra profundidade, deste privilégio mágico de estar vivo e deixar fluir, numa permanente autorização para sentir o que quer que seja… E, claro, a conexão com o Universo e essas coisas um tanto espirituais, difíceis de des-crever, estão bem mais acessíveis, sem que eu faça nada por isso. Diriam os budistas: the butterfly has landed3.

Esta transformação, que toscamente descrevo, aconteceu comigo (e con-tinua a evoluir). Mas vejo-a também a acontecer todos os dias na minha atividade profissional, nos meus clientes. Umas vezes mais rápida, outras mais lenta, umas vezes numa área mais específica das suas vidas, outras de um modo mais transversal, mas inevitavelmente transformacional. De facto, na minha experiência, todos os que se disponibilizaram a rever seria-mente a matéria-prima da sua experiência existencial viram o seu mundo alterar-se de forma algo imprevista e irreversível. Não num efeito “tcharan!”, com que muitas vezes pensamos em “mudar de vida”, mas mais num efeito subtil, discreto, embora omnipresente. Uma espécie de lenta inundação da alma, que tudo invade, e que a certa altura nos eleva numa flutuação desprendida. É como se, até então, tivéssemos andado a percorrer o leito de um rio a pé, carregando uma pesada canoa na cabeça e magoando os pés nas rochas escorregadias, e, de repente, nos ocorresse experimentar flutuar dentro da canoa, rio abaixo. Sem esforço e confiando na corrente…

(17)

1. Como tudo começa

É minha profunda convicção que estes conteúdos irão influenciá-lo tam-bém a si, em três aspetos, que correspondem aos três passos deste livro: 1) vai compreender melhor como é fabricada a sua experiência a cada

instante;

2) vai melhorar a forma como decide dar rumo à sua vida;

3) vai libertar o seu potencial de concretização de ideias e projetos. Arriscará obter, da forma mais eficiente, rápida e irreversível, aquilo que provavelmente sempre procurou: paz! Paz interior, rodeada de um ine-briante movimento cá fora: divertido, livre, concretizador. Julgo que todos procuramos a tranquilidade de um estado mental de serenidade. Curiosa-mente, e quase paradoxalCuriosa-mente, é daí que vem uma notável capacidade de fazer acontecer coisas e ao mesmo tempo uma sensibilidade e um usu-fruto de cada instante.

É esta convicção que me move a escrever este livro: despertá-lo para uma realidade diferente e permitir-lhe aceder a uma experiência existencial mais livre e rica! É importante, no entanto, que compreenda que vamos pôr em causa alguns alicerces existenciais que, provavelmente, sempre o acompanharam. Isto é, vamos questionar a matriz conceptual que a sua mente intelectual construiu e que lhe permite ter uma representação fun-cional do que o rodeia, treinada para o cálculo, dedução e previsão. É pos-sível que sinta alguma resistência, e a tentação legítima de com-preender a racionalidade por trás do modelo. Mas, na verdade, uma esgrima intelectual argumentativa não o levará muito longe neste objetivo de ver para lá dessa racionalidade. Porque esse computador vai partir de pressupostos já algo viciados. Considere antes permitir-se absor-ver o conteúdo de forma mais sensorial e subconsciente. Assim como quem ouve uma peça de música, deixando que o seu impacto se vá evi-denciando no seu dia a dia, criando subtilmente um certo estado mental mais sereno, mais amplo e mais espaçoso, quase sem dar por ela…

Não se preocupe. Nada disto incluirá práticas esotéricas, e também não vou apelar a crenças e espiritualidades manhosas. Muito menos pedirei

Permita-se absorver o conteúdo de forma sensorial e subconsciente.

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Reinvente-se

que comece a levantar-se às 5 da manhã para atingir os seus sonhos. Não. Este livro é bem pragmático e faz uso da minha mente de engenheiro – lógica e mecanicista –, para lhe desassossegar algumas verdades de forma inteligente e sólida. Apenas queria sensibilizá-lo para o facto de não ser bem no aspeto racional que está o melhor sumo da coisa. De certa forma, isso seria como explicar-lhe em detalhe uma boa piada, explorando a razão lógica de ser engraçada. Pode até fazer sentido, pode até perceber, mas… não será por aí que o conseguirei fazer “rir”.

De certa forma, nós vamos estar à procura de algo que… já aí está. Neste preciso momento. Neste instante. Com este livro nas suas mãos. E, por isso, mais do que perceber ou atingir, vai fazer toda a diferença permitir-se sos-segar, sentir e notar…

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