I i '| I I
l
I I IHEGEL E
AS
DUÀS PRIMEIRASANTINOMIAS DE
KAIYT Ù MÂRCOS L. MÜLLERUnivenidade
Estaùtal
de CampinasL
Intoùtção
Talvez
o
caminhomais direto para
abordara
relação entre aClttica
da Razãoktm
(CRP)
e Hegel, e avaliar a importância e a atualidade dessa relação para acompreen-são de
um
certo
paradigma de pensamento dialético,çe
æ
desenvolveu apartir
deHegel, seja
o
exame dacrítica a
çe
Hegel submeûeu asantinomiæ
da razão pura. As antinomias, discutidas por Kant na segunda seção da "Dialética Transcendental" da CRP, stÍoa
expressãodo conflito
inevitâvele
natural
emque
anzlo
metaflsica dogmáticaentra
consigo mesrna,çando
faz uso
transcendente dæ idéiascosmolô
gicæ, pretendendocmhecer
algo incondicionadono dqnlnio
dos fenômenosintra--mundanos.
O rezultado do uso não imanente das idéias cosmolôgicæ são afirmaçõesmuturnente
contraditórias entrc as quais a razão oscila irremediavelmente.O
problema
das antinomias tÊveum
papel central na formação doprojeto
crítico
kantiano,
principalmentena
gêneædo
teorema da idealidade transcendental dos fe-nômenosençanto
soluçio
para aantitética
dtraø.ãopura.
Comefeito,
desde 1769,doze anos,
portanto,
antes da publicação da CRP,Kant
se vê às voltæ com estapedrade tropeço para a
razão.
Não menæ importantefoi
o æu papel na maturação dopen-samento de Hegel, especialmente na época da redação da Fenomenologia do
Espírito
e
da ciência da Lôgíca, entre os anos 1804 e1808.
sabemosçe
aleitura
deKurt foi
æ tomando progressivamente ma¡cante na elaboração do pensamento de
Hegel.l
Nãopara
o
seu conteúdo especulativo, haurido principalmente do pensamento religioso ede uma apreensão
esdtica
marcada pelos clássicos gregos, mæ fundamentalmente para a formacientífica
çe
Hegel reivindicapara a sua Ciência do Lôgica como expliòitação sistemáticae
completa dæ
categoriæ.2
Já
na
"Advertência
Preliminar"
ao escritosobre a Difercnça entre os Sistemas de
Filosofia
deFichte
e Schelling, de 1801, Hegelvê na idéia kantiana de
uma
dedução transcendental das categoriæ o autênticoideatis-mo e
oprincípio
da especulação, a identidade do sujeito e doobjeto.3
Mas é durante os trabalhos preparatóriosprra
a Fenomenologia doEsp{rito
çe
Hegel percebe aim-I
Gero¡lt, M., "Hepls Urteil über die Antithetik der reinen Vemunft", em Semino¡: Dialektik índerPhílosqhiellegels,ed:potR.P.Ho¡sùnann. Franlû¡rt/m.:Suhrkamp, 1978,pp.2Á3-2'lZ
2
Id.,p.2tt.
3
Hegel, Dlfereru des Fichteschen und Schellingschen Systems der Phllosophie. Hamburgo:Meiner, pp. 3-4.
*
Ap_te¡ent4{o_no ColóquioXant, 14 a 18 de setembro 1981, Univenidade Estadual de Campinæe Univenidatle Federal do Rio Grande do SuL
-6O
MarcosL. Müller
portância
positiva
dæ antinomiæ kantianæ para a formulação do seuconceito
de ra-zão dialética e especulativa. É um dos maiores méritos deKant,
diz Hegel na"Introdu-ção"
à Ciência da Lôgica(CL), ter
mostrado næ antinomias que a dialética não é um expedientearbitrário
da rczão argumentativa, uma mera arte deproduzir
provas apa-rentes pararefutar o
adversário, mas que ela éum
"agir necessári o da razão".4 Embo
ra
Hegel vácriticar,
e mesmo acerbamente, a exposição e a resolução das antinomiæpor Kant,
ele destaca duæ idéiæ válidasçe
ærão incorporadæpor
ele naCL:
1) aidéia de que a razão metafísica se envolve de si mesma e inevitavelmente em afirmações
contraditóriæ,
resultantes da atribuição da idéia do incondicionado e da totalidade aomunrlo
dos fenômenos, no que Kant chama de"antitética nahrral"s
da razãopura;
2) aidéia
de quea
razãoproduz,
de maneira"natural
e inevitável", como rliz Kant, umaaparência transcendental, sobre
a
çal
repousa, emúltima
instância, aantitética.
Éuma
aparênciaa cujæ
ilusões mesmoa
ruzão esclarecida pelacrítica
transcendentalcontinua
exposta,visto
que ela não pode ær exterminada, emboraa
razão não mais sejapor
ela enganada.t"(.
..)
a objetividade da aparência e a necessidade da contradi-ção que pertence à natureza dæ determinações do pensamento"? sÍfo os doismomen-tos, sublinha Hegel,
çe
justifìcam
a consideração da fìlosofìa de Kant como"a
base eo
ponto
departida
dafìlosofìa
alemã recente, ummérito
çe
não pode serdiminuído
por tudo
que se lhe possaobjetar".E
Mais tarde, naEnciclopédia,Hegel reafirma o seulouvor
aKant:
"Este pensamento de que a contradição,ençanto
postano
racionalatravés das determinações do entendimento, é essencial e necessária, deve ser
conside-rado
como
um
dos progresso mais importantese profundos
dafìlosofìa
recente."e Hegel vê prefigurada nas antinomiæ kantianæ a negatividade dialética, o momento"negativoracional"
do lógico, e nelas, também, antecipada, como o seuprolongamen-to
necessário, a síntese especulativa, o momento"positivoracional"
dológico.l0
Nes-sesentido
elas representamna
autocompreensãode
Hegel,o ponto
de maisfntimo
contato entre
a
razãocritica
kantia¡rae
a sua transformação especulativa em Heggl,mas também, ao mesmo
tempo,
oponto
de maisprofunda
divergência entre ari16æ, divergencia quanto à resolução das antinomiæpor Kant
e Hegel, divergência quanto ànaruteza
do
idealismoçe
cadaum
explicita
apartir
delæ, e divergênciaçanto
aotipo
decrítica
à"metafísica
doentendimento"ll
que elas sugerem.a
Hegel, WssenschaftderLogik,ed.porLasson. Haburgo:Meine¡, l963,vol.I,p.3g.
Desigtado no que se segue por WL.
s
Kant,Snti\-d9rneþen vemunft. Hamburgo:Meiner, 1956, B 433-434.
cítca
daRaza-opu-ra,trad.devalérioRohdeneudoMoosbur{er. sãopaulo:A6¡t,tsao.Derignããotã.CRÞ:-"
6
Ka¡t, CRP, B 449-450.7
Hegel, WL, I, p. 3 8.E
Hegel,WL,|,p.44.
e
flegel, Sryzyklogalje^ d3r Phitosophßchen w_issenschaften ed. F. Nicolin e o. pöggeler. Ham-burgo: Meiner, 1959, g 48 Noø. -As traduções, quando não indicadas,
são do autor.
ro Hegel, ob. cit.,
S 79.
tt
ll.ggt,
forle-rynge4 überdie
Geschichte der Philosophie, Theorie Werkausgabe Suhrkamp Verlag, Bd.20,i.348.
r--1
; I
I
Hegel e as duas
himeiras
Antinomias deKunt
6l
2. Gênese das antinomios a
pørtir
das idéias cosmolôgicas da razão,As antinomias surgem a
partir
do uso objetivo e transcendente dæ idéiæ cosmológicasda
razãopura.
Estas visam, como todæ as idéiæ transcendentais,"a
totalidadeabsolu-ta na síniese dæ
condições'r2
para um condicionadodado.
Poriso,
elas só setdetêmdiante
deum
incondicionado,cujafunçãoé
asæguraraplenaunidade
datazão em sua relação consigo mesma ecom
osfenômenos.
Emboratal
unidade buscada pelarazão extrapole aunidadeçe
o entendimento,apartir
da apercepção transcendental, instau'ra nõ mundo
dos fenômenos,çando
articula
pelas zuæ sínteses esquematizadæ ocampo
unificado
da experiênciaposível,
a origem de tais idéiæ é opróprio
entendi-mento- A
razão não produz propriamente conceitos. Ela apenas libera, como faculda-de do incondicionado, os conceitos puros do entendimento das suas limitaçõesconsti-tutivæ
enquanto meras regras de síntese de intuições possíveis. Com issoaruzãoten'
ta,por
sua vez, conecta¡ apriori
todas essas operaç-oes de síntese numtodo
absoluto,que não mais poszui
um
objeto
çe
lhe
seja congruente no campo da experiênciapos'sível.13
Ençanto
faculdade do incondicionado, a razão não æ relaciona com a expe'riência, mas apenas
com
o entendimento, ecom
este nãoençanto
éconStitutivo
deconhecimentos objetivos, mas enquanto
lhe
prescreveum
progresso do conhecimentoem
direção à unidade daruzão.ra
Sua tarefa é, æsim, conectar aprioritodas
æ sínte'ses do entendimento
num todo
absoluto,çe
não mais poszuium
objeto que lhe seja congruente no campo da experiência possível.O
que diferenciã æ idéiæ cosmológicæ face às tfuæqrtras, àidéia
da almaeàidéia
de Dzus como protótipo
transcendental,são dois
elementos, fundamentalmente: 1)elæ
devem ser, em seu uso, congruentes, simultaneamente, com as regræ sintéticædo entendimento e com a unidade absoluta dæ mesmæ na ruzão.r
s
Elæ tendem àuni'
dade incondicionada na síntese empírica dos fenòmenos, procurando dar-lhe uma
com-pletude
absOluta.2)
Elæ devem operar uma síntese regressiva (e não progressiva),çe
iemont¿
das condições maisprôximæ
do fenõmeno às mais remotas. O condicionado exige as suæ condições e nãó as possíveis conseqü€nciæçe
posdm
dele decorrer'16Quan{o
devidamente esclarecidas pela reflexão transcendental, elæ têm uma funçãopuramente regulativa, incentivando o entendimento a buscar a maior unidade possível na síntese regiessiva dæ
condições. Mæ
çando
aplicadæ com a pretensão deconsti-tuir
conhecimentos objetivos,elæ
produzem pfoposiçõ?sdialéticæ,
çe
não podemser nem confirmadas, nem refi,rtadæ na experiência- são proposições
çe,
embora não sendo intemamentecontraditôriæ e
tendo mesmo rrafazão æ condições de suaneces' sidade, negÍtm-se reciprocamente,pois anbæ
possuem fundamentos vâlidos e necessá'rios.
São proposições indecidíveis.l712 Kant, CRP, B 3 82. 13 Kant, CRP, 8383 e 843ö. 14 Kant, CRP, B 3 83.
ls
Kant, CRP, B 450. 16 Kant, CRP, B 436. 17 Kant, CRP, B 449.62
Marcos L.Müller
As idéiæ cosmolôgicæ que operam uma síntese absoluta do
ponto
de vista dacausa-lidade e da existência dos fenômenos dão origem às afìrmações opostas de que
háuma
espontaneidade absoluta como condição do surgimento deSries
causais intramunda-.nas (tese), inversamente, de
çe
no
mundo sô hâ causalidade segundo leis da Natureza (antíteæ) (ûerceira antinomia), e deçe
æ coisas contingentes pressupõem um enteab
solutarnente necessário como sua causa (ûese), inversamente, de
çe
não existe um serincondicionadamente necessário, nem no mundo, nem fora dele (antítese)
(çarta
anti-nomia).Dos
juízos
da tese poderia dizer-se, como disseKant
deI-eibllz,
çe
eles repousam sobre umaintelecualização
dosfenômenos,le
çe
toma æ determinações intelectuaisdos conceÍtos puros como propriedades objetivas dos fenômenos, considerados em zua existência independente
do conhecimento.
Dosjufzos
da antltesepoderia
dizer-se,como
disseKant
deLocke,
çe
eles resultam, aocontrário,
decoßa em s1,20
çe
toma
as determinações daintuição,
o espaçobulJas
aos objetospuros
do
entendimento. Na
demonstraçãolE
Kant, CRP, B 514.le
K"nt, CRP, B 32?.20
lbidy
B 327. Kant diz textualmente"sensualização dos conceitos do enþndimento,,. o oue se
equivale, pois os æus cor¡elatos.são os puros objètos do entén¿imentò,-*-õîiiiÃ'&-t"rñür-"ãät
.J-I
Hegel e as duas
himeiras
Antinomias deKant
63çe
a afirmação da tese écontraditória,
porque ela zupõe queum
limite
absoluto domundo
deve terum
espaço e tempo vaziosçe
o antecedem,çe
a zubstância simples deve estarno
espaço, que a espontaneidade absoluta da liberdade e a causa necessáriadevem começar
a
agir sobre si mesmas e exetcer,asim,
a sua causalidadeno
tempo. Isso equivale aatribuir
determinações daintuição
aos correlatos puramente inteligíveisdos conceitos puros não esçematizados.
As afirmações da tese articulariam, assim, os princípios e interesses do dogmatismo
racionalista, e as da antítese, os
princípios
e interesæs do empirismopuro.2t
Osinte-resses
prâticos22
e arçitetônicos23 da
ru,ão
dogmática levam.naa
inclinar-se pelatese
e
a pensaro
incondicionado comoum
limite último
da série de condições,afìr-mando a
zuafinitude
intema"
Os interesses teóricos ("especulativos") da razão, quepredominam no caso do empirismo puro, levam-na a inclinarse pela antltese e a pensar
o
incondicionado como aprópria
totalidade da série, comoum
infìnito
dado ø pørteprioi,
pois æ varitagens que o empirista oferece aos interesses especulativos da lazãosuperam em
muito
os que o dogmático lhe promete.zeAs
demonstrações dæ respectivas teæs e antíteses de cadauma dæ antinomias têm uma estrutura argumentativacomum.
A
demonstração parte da zuposição contrária à tese afirmada e mostra que elaimplica
contradiçõesçe
levam a afìrma¡ a validade doenunciado
oposto.
Assim, o cavaleiroçe
obtiver
oprivilégio
de desfecha¡ oúltimo
ataçe
leva
oslouros
davitôria.2s
Mas nempor
isso são demonstrações sofísticæ.Dentro
do pressupostometafísico
deçe
os fenõmenos existem como coisæ em si e omundo
como a
suatotalidade
dada,æ
demonstraçõescontêm
inferênciæválidæ
esão probantes para
Kant.2ó
Para o realismo transcendental darazão metafísica asafir-mações contrapostas da tese e da antítese estão numa opostçõo
contraditôrio
inevitávele necessária: a prova da falsidade de uma afirmação aca¡reta a validade da afirmação oposta.
Especificamente, as
antinomiæ
se originamno
caráter falacioso do silogismocos
mológico,
que sustenta a estruturaformal
dæ demonstrações da tese e daantítese.
A
sua falácia está em ser
um
silogismocom
quatrotermos.
Na premissa maior se afirma que, se o condicionadoé
dado, então a sérieinteira
detodæ
æ condições do mesmotarnbem o é, utilizandGse,
açi,
otermo "condicionado" no
significadot¡anscenden-tal
de uma categoria pura,pois
a sfntese do condicionadocom
a sua condição é uma síntese esquematizada, quejá
supõe os membros da série de condiçõescomo
dados.Já
na
premissamenor,
çando
se ahrma a existência dos fenùnenos comocondicio
nados,
o termo "condicionado"
é tomadono
seu significadoempírico
deum
concei-to
aplicado a meros fenômenos, gue de modo algum são dados independentemente doseu conhecimento
e
das síntesesesçematizadæ.
Esta arnbivalênciatlo termo
médiodo
silogismopossibilita
a passagem subreptícia da exigência, que seimpõe
aoenten-dimento, de
um
regresso queconstitui
æ condições apení¡s à medidaçe
a síntesesu-2r
Kmt,cRP, B 494.22 lbid. 2t Ibid.,B 24 Kmt,cRP, 502-s03.B 496.
25 Kant, CRP, B 450. 2ó Kant, CRP, B 449.
64
Msrcos L.Müller
cessiva avariça, à suposição da existência em si de condições anteriores à síntese em que
podem ser dadæ.27
A
descoberta e mesmoo
reconhecimento pelæ partesdo
carâter falacioso dosile
gismo que sustenta as antinomiæ não é ainda,
por
si sô, dirimente doconflito.
A
dis-côrdia não está terminada
cotn
a danonstração dafalâßia, dizKant.2a por
saberem-ærcza recorrente do
conflito
e averdadeira pela dem onstração s, não obstante os partidos
te-3. A
resoútção kantiøna das antinomias"
K^\
CRB B525528.
",
K^LCRP,
B532.
32 Kant, CRp, B 534. 28 Kant, cRp, Bs2e.
s r*t,
cnp,
nlis.
æ
i;;,
ðnp,s
sr¿. 3s Kant
-cirp,
-8.3s2:--*".be,';ff:;"*å,"i:jt;"*ctuittÊ,, äirî,:rîï1,'-t"i?tùr
""",
I
Hegel e as duas
himeiras Antirnmias
deKant
65pendentemente de sua síntese regressiva,
isto
é, esclarecida a aparência transcendentalde
uma totalidade
absolutano
regresso sucessivo,a
oposiçãocontraditória
revela-seuma "oposição dialética", isto é, uma oposiçõo contrária.36
Portanto,
não sô não podea
razão esclarecida af,rrmar que o mundo sejafìnito
ouinfinito,
como
também, queoprôprio
regresso sejafinito
ouinfinito,
poisissojáim-plicaria
antecipar membros da série que a síntese regressiva ainda nãoatingiu.
Estariaæ
determinando a magnitude do mundo antes e independentemente da slntesetempo
ral.37
Como só é possível determinar a sua magnitude apartir
do
regresso empírico,a
única
r€sposta positiva aceitável é a de que o regresso na ærie dos fenômenosmunda-nos se prolonga indefinidamenle Qegressum ad
indefinirum). Kmt
levao
raciocínio transcendental àsúltimæ
conseqüênciæ, negando inclusive que possa haverqualçer
conceito
determinado da magnitudedo
mundo, pois
a síntese regressiva consisteno
determinar, e este jamais é inteiramente dado.3ENa
segundaantinomia,
no
caso da idéia cosmolôgica da divisão deum
todo
dadona
intuição, o
regrcsso às partes constitutivæ não é apenæindefinido,
mæ procede aoinfinito
Qegressumad infinitum),
visto
que æ condições estão contidas nocondicio
nado.
Mæ como
aqui tambem não é dada uma totalidade absoluta da série queimpli-ca$se part€s simples, não se pode
inferir
da divisibilidadeinfinita
dotodo
que elecons-te
deinfinitæ
partes e,muito
meno,
afortiori,
de partesfìnitas.
O
çe
é
dadoé
adivßibilidøde
infurita,
na medida em que todas as pattes, em número indeterminado,estão
contidæ como
agregadæ naintuição
dotodo.
Mas a divisão não éinfinita
atual-mente, mas
apenas zucessivamente.3eA
divisibilidade
infinita
designao
fenômenocomo
um
quantumcontínuo,
enquanto que as partes dadas pela divisão atual (embora prolongável aoinhnito)
desigram o quanto discreto, onde o número de unidade ésem-pre dado.ao
O
nervo da
resoluçãokantiana
dæ antinomias da razão pura está, negativømente,em
detectar a pressuposição inadmissívêI,41nÍio
apenas"insuficiente",
mas"conflit.
tante", "contraditôria",
42comum
às afirmações opostas da tese e daantltese.
Essa pressuposiçãocontraditôria
consisûe em representarum
objeto
fenomenal comocoisa em si, como se ele fosse dado independentemente de sua vinculação àintuição,
"inde-pendentemente de condição emplrica e de determinação sensível da representação".43 Se os fenômenos são os"únicos
objetos nos quais nosso conhecimentopode terreali-dade
objetiva,
isto
é,
umaintuição
correspondente aosconceitos",
44 e seatribuir
a eles uma existência independente écontraditório,
seuma tal
existência independenteé um
nada,asentão
o
conteúdo das afìrmações da tesee
da antltese das antinomiæ matemáticæ não só éempiricrnente,
mas absolutamenteimposível.
Ê.vmnonsense.As
antinomias
repousamsobre
o
que
Kant
chrna
de
"subrepção transcendental",36 KanL CRP, B 532. Fortschitte der Metophysik A 95-96.
3? Kant, cRP, B
547.
3t
K*t,
cRp, B551.
3eKanr,
CRp,
B
5s2-5s4. 40 Kant, CRP, B555.
4l
Kant, CRp, B S31.a2 Kant, CRP,
B
335: unzureichend, widerstreitend. CRP,B
'168: etwas Wídenprechendes. .43 Kuttt, CRP, B
335.
q4Ibid.
4s Kant, CRp, Bt'
66
Marcos L.Müller
isto é,
a atribuição derealida
sô deve sewircomo
regta.a6Ela permanece possível a
tod
sultado seja impossível, poiscontraditôrio.
Concluise
da
e.
Mascontraditória
não é,portanto, a
pr
da
a¡rtinomia,como
çererá
Hegel,contraditôrios
-transcendentar
.'"ijå"*råifd,i'å:
ti
iää:
natural
d,a razão termina por mostrar-se meramente "aparente", pois ela repousa sobreo "malentendido"
quetoma
os fenômenospor
coisæ emsi.
Nãohavia,concluiKant,
contradiçãoreal
da razão consigo mesma, mas apenas entre æ proposições queema-nam do seu uso dogmático.a7
Positivamente. as
antinomiæ
se resolvem paraKant,
primeiro, pela
afirmação daidealidade transcendentål do espaço e do tempo,
portanto,
de todos os fenômenos deuma experiência
posível,
e segundo pela afìrmação da irredutibilidade da intuiçãoæn-slvel ao conceito, enquanto elemento determinante do conteúdo da slr¡tese conceifl¡al. Contraditória não é a prôpria razão enquanto faculdade do incondicionado, mæ a
des-medida da sua pretensão trariscendente.
A
razão do entusiæmo que a antitétic a da ra-zãopura
despertará em Hegel,por
nela antever a negatividadeinterna
dædetermina-ções opostas dos conceitos, acaba
lhe
sendo subtralda pelopróprio
Kant,
aoresguar-dar a faculdade da razão de qualquer contradição real,
çe
surge apenas nosconheci-mentos de uma razão insuficiente "domada".
As idéiæ cosmolôgicæ não são,
porturto,
princípios constitutivos do conhecintento objetivo, mas apenas regulativos eheurísticos:
não são axiomæ, mas regrarl de procedi-mentoe
de unificação, que mostram como avançar na slnteæ regressivq mæ nãoante-cipam o
çe
esteja dado no objeto antes da síntese temporal regressiva.a84,
A
crítica
de Hegel àsùtas
primeiras antinomfus e ùva
resohtção transcendentalÉ
precisamente a eliminação da contradição real e o seu deslocanento para a faculdadesubjetiva da
nzão,
ençanto
não escla¡ecidapela criticz
transcendental, oponto
cen-tral
dacrílica
deHegel.
Elevira
nelas positivamente antecipado o germe diatético da negatividadeintema
dæ determinações dos conceitos e o dasuaunid/tle
especulativa.A
dissolução da contradição numa aparência transcendental, rezultantedousoindevi-do
da
razãoençanto
faculdade zubjetiva,termina,
doponto
devista
de Hegel,por
despqiar a ræ,ão de todo conteúdo, e æ categoriæ, de toda sua determinação.ae perda da determinação do pensarnento e excessivo carinho para
com
æ coisæ, pela reduçãoda
contradição
aouso da
taã.o
ençanto
faculdade zubjetiva, serão os dois motivos principais da crítica hegeliana à resolução transcendental dæ antinomiæ.46
K*t,
cRP, B 53?.47
7-Hegel e as dtms Primeirss Antinomias de
Kant
6'l
Ao
transferir em nome da idealidade transcendental do mundo a solução da primei-ra antinomia para o caráter indefrnido da síntese regressiva,Kant
recusa-se acompreen-der conceitualmente
(begreifþn)
o conceito delimite çantitativo,
presente naexposi-ção da
primeira
antinomia.
Tese e antítese da primeira antinomia formulam, para He-gel, exatamente a contradição preænte noconceito
delimite
çantitativo.
Hegelcri-tica
primeiramente æprôpriæ
demonstrações respectivæ da tese e da antíÛeæ, mos'trando
que elasintroduzem
como premissaso
que deve ser demonstrado, nada maisfazendo,
portanto,
do queafirma¡
çe
existeum
limite
eçe
estelimite
sô existeen-çanto
zuprimido,
que olimite
temum
alémcom
o
çal
estâ relacionado e emdire-ção ao qual é preciso
ir,
masno
çal
surge novamenteum
limite,
çe
é precisoultra'
pæsar-etc.so
Mas
por
afìrmaremalternativa
e
disjuntivamenteos
dois momentosconstitutivos do conceito
delimite
çantitativo,
æ
afìrmações da tesee
da antíteænão permitem a sua apreensão conceitual.
A
demonstração da teseparte
da suposiçãocontrária.
Se omunilonão
teminícío
no
tempo, entÍ[o, dizKant,
deveráter
transcorrido uma etemidade,u*
*do
infinito,
çorrige Hegel,isto
é, umaSrie infinita
de estadosmundanos.
Ora, uma sérieinfìnita
nunca pode ser percorrida e completada por uma síntese zucessiva. Portanto o mundotem um
início.
A
demonstração éinútil,
objeta Hegel,pois
o
çe
deviaær
demonstrado foi
introduzido
comopremissa:
a suposição deum
ponto
temporal,um limite
no
tempo, atéo
qual uma sérieinfinita
deverá tertranscorrido.
Poucoimporta
que olimite
zuposto sejaum
agoracomo termo
dotempo
decorrido e+te
olimite
a ær demonstrado seja
o
começo de umfuturo.
Se olimite
pressuposto, o agora,for
umlimi'
te
meramente quøntitativo,cuja
determinaçãoprópria
é não só ser tftrapæsado, mas ultrapassar-se a si mesmo, então a série temporalinfinita
não teriajá transcorridq
mæcontinuaria
afluir.
Nese caso, caipor
terra o argumento. Se oponto
temporalpressu-posto é
tm
limite
qualitativo,
então ele também é umponto
de partida para ofuturo.
Portanto,
a sérietemporal
está neleinterrompida
e o
pæsado transcorrido não tem mais relaçãocom o
fuürro,
que sôé futuro
em relaçãoàçele
pæsado. Donde resultaque
o
tempo temum começo.
A
demonstração, assim, nada mais faz do que revestira
afirmaçãoda
tese,de
que háum
limite
qualitativo do
tempo, numa reprcsentação sensível epopular,
o
ponto
ûemporal dado, e fazer pæsarcomo
suposição evidente o que deve ser demonstrado.srCom a antítese ocorre o mesmo, o que deve ser demonstrado entra,
subrepticiamen-te,
como suposição,no
argumento. Para demonstrar que o mundo éilimitado
no espa'ço, parûe-se da afirmação
contrária:
o mundo está entãolimitado
por um espaço vazio.Para representar-se este
limite
é preciso,pot
um lado,ir
alémdomundo,
ultrapassá'loneste espaço vazio, e
por
outro,
representar omundo
em relaçãocom
este espaçova-zio.
Querdizs¡,
ainfinitude
do mundo no espaço nada mais é do que, por um lado, o espaço vazio,por outro,
a relação do mundo com ele, isto é, a de æ representar o espÈço
corno
vazio e plenosimultaneanente.
Ora, é exatamente esta a contradição que seso Hegcl, WL, I, pp. 235-236.
r
-l
68
Marcos L.Müller
exprime no
prog€sso
aoinfinito
da existênciano
espaço, que éo
çe
a antíteseafir-mava.s2
A
tese e a antítbse, bemcomo
¡u¡ suÍrs respectivæ demonstrações, nadamais fazem,portanto,
do que afìrma¡ (apenas afirmam isto altemativa e disjuntivamente) queexis
teum
limite
e que estelimite
sô existe quandosuprimido,
que olimite
tem um alémcom o
qual está relacionado e em direção ao qual é precisoir,
mas noçal,
novamen-te, surge um
limite
que é preciso ultrapassar.s3Convém
asinalar
çe
Hegpl não considera .o progressoinfinito,
o mauinfinito,
co
mo a
resolução da antinomia, mastão
somentecomo
a expressão da contradição do quanto:sater
em si umlimite,
que o impele e prolonga além de si, em direçãoaum
in-finito,
que é elemesno um
quanto, que ûemum
limite etc.
Pertence, assim, aocon-ceito do
quanto,terum
limite
e umalém.
Este além é, primeiro, não só o seroutro
deum
quanto, m:No
seroutro
doproprto
quanto:
ele æ refere ao æu além como a umopsto
qualitativo.
Mæ,
segundo,como
o
quanto consiste em estarfora
de si,o
seuoutro
não éum
opostoqualitativo, mæ
oproprio
quanto, demodo
a estar emcqrti-nuidade
com o
æu além e ser indiferenteaoseulimite.
O conceito de quantoé postono
progressoinfinito' A
unidade dos dois momentos, a ultrapassagem dolimite
e aul-trapassagem do seu
próprio além,constitui
a natureza especulativa do seu concejto, queequivale ao restabelecimento do conceito de grandeza:ser
limite
exterior e indiferente,ao mesmo
tempo.
Mæ comotal,
conclui HegBl, ele não é mais, agorq o quantoime-diato, mæ
o
quetem
a exterioridade apenæ como momento de si, retomando, assim, ao conceito de qualidade.ssNa ægrnda antinomia Hegpl
critica,
igualmente, as demonstrações da tese e daan-títese,
mctrando
que elæ se reduzem à afìrmação æsertôrica e unilateral, ora dacon-tinuidade,
ora da acidentalidade da relação dos elementos simples mrm composto,isto
é,
da
discreção dasunidades. com
issoKant
sepríva
da possibilidade de pensar oconceito
de quantidade na unidade dos seus dois æpectosconstitutivos. Examinando
-se mais de perto o que está
dito
em cada afirmaçãoop6ta,
percebe-se, segundo Hegel, que na continuidade já estácontido
o momento da discreção, e vice-vers4 pois aconti-nuidade existe absolutamenþ
como a
possibilidade
de
divisão,como
a
origem da discreção, eo
estardividido,
a discreção,por
sua vez, zuprime toda diferençaentre æ unidades, de modoçe
a sua igualdade entre sijá
contém a continuidade.s6A
considenção dialética daantinqnia
mostraçe
o conceito deçantidade
envol-vè, necessariamente, estes dois momentos opostos, enquanto deûerminações
fìnitæ
doentendimento.
Cadaum
contém em si o seu outro, e nenhum pode ser pensado sem ooutro.
Para ser ele mesmo, precisa relaciona¡-æ com o seuoutro. A
disjunção kantia-na éultrapæsada-
A
razão que apreende a relação que os une em sua oposição,pensa-Hegel e as dtns Primeiras Antinomiøs de
Ksnt
69 da como oposição inclusiva, dá oprimeiro
pæso, embora ainda apenÍß negativo, para alçar-æà
::zão
especrfativ4
que concebe a unidade verdadeira dos dois momentos noconceito
dequantidade.
Contra a resolução kantiana dæ antinomias, que denunciavao
caráter apenas aparentementecontraditório
da oposição nelas presente,çe
sôexis'
tiria
paraa
razão metafísica dogmátic4 pois para al:lzão transcendentalmenteesclare-cida
tal
oposição é meramente contrána,"dialética",
Hegel restabeleceanaü¡rezacon-traditôria
da
oposição entre os momentos conflitantes para mostrar como eles seco
-pertencemno
seio de sua negaçãorecíproc4 isto
é, para alçá-los a momentos da sl¡t-tese especulativa.A
resolução kantiana dæ antinomiæpor
meio
do teorema daidea-lidade
transcendentaldo mundo
signihca para Hegel a mera apreensãodo
fenômenoem
sua imediatidadee
aperda do conteúdo
específìcoda
antinomia.
Com
efeito,como
cada
determinação opostacontida
nas proposiçõesconflitantes da
antinomia (continuidade-
discreção) é em si mesma nula(nichtig),
pois cadaumaconsiste ape' nas em sua passagem na oposta, a afirmação isolada e disjuntiva de cada uma para si,colno
na antinomia, se revela incapaz de apreender a sua unidade, constitutiva docon-ceito
dequantidade.sT
Discreção e continuidade são momentosdoconceito
de quan'tidade não
apenascomo
propriedades deuma
unidade integradora superpostq masenquanto cada qma delas, é, tanibém, toda a quantidade, poiS sendo cada uma um
mo'
mento na quurtidade
ençanto
todo, não podem mais seParar-se da sua unidade com ooutro
momento.ss
Hegel chega, assim. à definição especulativadagrmdezacontínua
e da
grandeza disc¡etaençanto
conceitos que se implicam e secortém
reciprocamen-te, na medida em que cada um é a negação interna e determinada do
outro:
a gtandezacontlnua
é
concebidacomo
oser-um-fora-dooutro
que se prolonga indeftnidamentesem negação,
e
a
grrndeza discrcta,como o sef-um-fora-dqoutro
douno multíplice
enquantoigual.tt
Cada uma dessas "espécies" de grandeza contém a outra comomG
mento
de si mesrnae
aúnica
diferença entre elæ consiste em saber emqual
dos doismomentos a determinação está posta, e em qual ela é apenæ em si.óo
A
reduçãoda
oposiçãocontraditôria,
prcsentenæ
antinomiaspara
o
metafísico dogmático, a uma oposição contrária, doponto
de vista da DialéticaTranscendental,e aexplicação da sua origem pelo uso indevido, transcendente , da
nzão
enquantofaculda-de subjetiva, aprcsenta-se, desta
forma, como
duplamenûe inconseqüente para Hegel:primeiro,
porque esse uso dæ categoriæda
razão é necessário, como reconhece oprô
prio
Kant,já
que a razão não t€m outras determinações para o corhecimento senão ascategorias
e,
segundo,porque
transformao
pensamento da razãonum
pensamentovazio e
indeterninado,
já
que a determinação dæ categoriæ não podevir,
para Hegel,ænão da contradição dos seus momentos
constitutivos.
Talcrítica
é, de resto,plena-ment€ coerente pata quem, como Hegel, recrilia a
irredutibilidade
da intuição aoconcel-to
e
querexplicitar
oconþúdo
imanente dæ caûegorias apartir
de um"agir
objetivan-te
do pensamentoençanto
tal"
situado além da diferença da consciência (entre sujei'to
eobjeto)
e da separação entre entendimento eintuição.6r
Daíaexigênciahegelia'
s7 Hegel, WL, I, p.
193.
sB Hegel, WL, I, p. 194.7O
Marcos L.Müller
n4
na crítica
à exposição da segundaantinomia,
d"
qrre o espaço eo
tempo, æsimcomo
aintuição, não
sejam apenas explicados em sua especificidade sensível, como condiçõesde que
æ coisas nos sejam dadæ, mas tambem compreendidosconceitual-ment€,
isto é,
de que nelesæ
reconheçatamHm
omovimento
doconceito.
..Afilo
sofia,entretanto,
dá a vtsão conceitu¿I sobreo
que sepasa,
efetivarnente, com area-lidade do ser ænsível e
faz
æ etapæ do sentimento, da intuição, da consciênciasensí-vel precederem ao enùendimento, na medida em que elas são as condições do devir do
conceito;
mæ elæ são condições somentÊençanto
ele ernerge da suadislétics
e dawa
nadidade(Nichtigkeit)
como o fundamentci delas,mæ não como se ele fosse condi-cionado pela realidade daçelas.62P
k
aar ser¡s momentos opostos sob forma de afirmações anti-de que Kant não tenha desenvolvido as antinomias apar-pensamento, que "constituem única e exclusivamente o seu fundamento", mas a
partir
de sua aplicação aos fenômenos, quando entrelaçadascom a representação do mundo, do espaço e do
tempo.ø
Arazãoúltima
disso está, parae mesmo dominante quanto ao conteúdo, da síntese conceitual (nãeapreensão
concei-û¡al
do espaço edo
tempo).
Não surpreenderá, para quem vê ocontaido
do conceitose
desdobrar intemamenteno próprio
movimento autoobjetivante do
pensamento,que a explicitaçao conæqüente do idealismo transcendental, pretendida
porHegel,
váimplicar
a destruiçâo"do
fantasrna da coisa emsi",
desteresçício
abandonado e nãopensado pela filosofia
crítica.6s
Mas este é precisamente o ponto paradoxal, apontado tão perspicazmentepor
Gueroult, em que acrltica
de Hegel às antinomias deKant
de-semboca:
sendo a distinção entre coisa em si e fenômeno a base operatória doidealis-mo
transcendental,eliminar
a coisa em sieçivale
a privar-se não só,é
claro, daresolu-62 6s
Hegel, WL,
lt,pp.225-22Á.
63 Hegel, WL, I, p.lg4.
a4 lbid.Hegel e as duas Primeiras Antinomias de
Kant jl
não poderia
tomar
os fenômenospor
coisas em si eatribuir
os predicados opostos"in-condicionado"
e"condicionado"
às coisæ em si mesmas, provocando as antinomiæ) eterminaria
por
solapar opróprio
terreno quepermitiu
a Hegel chegar a uma raz ãodia-lética
e
especulativa, cuja gêneæteóric4
como semostrou,
foi
aantitética
kantiana. Maspor
outro lado, esta"antitética naûrral",
para Hegel, nada mais é do que opróprio
agir
dara4{o
que sedetermin4
particularizandesenæ
determinaçõesfinitæ
e unila-terais do entendimento, dissolvendoasno movimento
de sua oposição contraditôria eintegrandoæ
na unidade especulativa doconceito.
Por isso, a resolução kantiana des-sa antitética numa aparência transcendentale
a explicação de sua origem pelapreten-são indômita d,aruzão de fazer um uso teórico
constitutivo
daidéia
de incondicionadosignificam, para Hegel, manter a diferença transcendental entre fenômeno e coisa em si,
reafirmar o seu
"fantasma"
imunizado deçalçer
contradição e deslocá-la para afa-culdade subjetiva da
razlo no
seuuso dogmático.
A
conseqüência para Hegel é umaftzão
vazirde
conteúdos
determinados,cujo
pensamento
do
incondicionado
não pensanada.
O paradoxo da relação de l{egel às antinomias kantianæ está em que sem a coisa em si não surgB antitétic a da razão, mas com ela é preciso reconhecer que aan-titética é "aparente" e
que a contradição subsiste irresolvida à margem da realidade.ó7Certamente, a primeira coisa em
si,
que dá origem à"antitética natural",
é a coisa emsi
"dogmática",
oriunda da predicação de categorias não esquematizadæ devidamente,enquanto que a ægunda coisa em si, que permite a resolução transcedental da
antitéti-ca, é a coisa em si
"crítica",
que restringe o uso dæ caûegorias ao campo da experiênciapossível. Mæ
oponto
estâ em que sô a coisa emsi
"crítica"
é quepermite
detectarum
uso dogmático da razão enquantotal.
Sem diferença tra¡rscendental não há comotomar
fenômenospor
coisas emsi.
Por
isso,o
programa hegeliano de reatuelizar apretßnsão especulativa
da
'lelha
metafísica" contra o "entendimento refletente"
dafilosofia
transcedental,já
que
aquela"tinha
uma
concepçao mais elevada dopensa-mento
do que é corrente nos temposmodemos",
pæsa pela destruição da coisa em sicútica
e pela eliminação da restrição"do
conteúdoe
da realidade" do pensamento àintuição sensível.óE
Nesse
contexto
merece ser lembrada acrítica
repetida eirônica
de Hegel aoexcesi-vo ca¡inho
deKant
para com o mundo, como se "fosse uma pena que æ coisæ secon-tra¡lissessem":6e
"É
um
carinhomuito
grande paracom
omundo
afastar deleacon-tradição
etranspôla
para oespírito,
para a, razã;o, e deixá-la subsistir aí sem solução.De
fato
éo
espírito queé
assazforte
para suportar a contradiçâo, mas ele étamMm
aquele que sabe dissolvê-1a."70 Donde Hegel
conclui
que o chamado mundo não estáprívado
de contradição, masque,
aocontrário do
espírito,
não podendo suportá-I4está abandonado ao zurgir e ao
perccer.7r
Face a esta conclusão de Hegelcompreen-de-æ
a
importância, paraKant,
emmostrar
que a contradição queo
dogmático per-ó?llegel,
Vorlewngentibr
die
Geschichte der Philosophie, Theorie Wekausgabe SuhrkampVerlag, vol. 20, p.359.
ó8 Hegel,WL,
\,pp.2926.
69 Hegel, Vorlsegungen über die Geschichte derPhitoso!îe,ibid.cebe nas proposições
conflitantes
dæ antinomias nem éconstitutiva
da oposiçãopre-sente nelas,
nem
interior
àpropria
razão.
se
a opæição é somente contrária, exclu-sívae
não inclusiva,em
queum
extremo da
relação não pæcisa referir-se aooutro
para ser ele mesmo, noutras palavræ, seum
predicadonãoé
a negaçliointema
e de-ûerminadado ouho
etão
somente isso, negação em que eles æconsituem
reciproca-mente
no
âmbito
de uma unidadeintegrativ4
então as afìrmações contrárias dæanti-nomias
podem
ou
ser ambas falsas, comono
caso dæantinqniæ
matemáticas, cujæ proposições dizemmais-do
que é necessário para uma contradiçâo (.,oposiçãoanalí
tica ou lôgica",
como
Kant
æ
desigrra),ou-arnbæ
verdadeiræ,.oìno no
cæo
dæa¡rtinomiæ dinâmicæ,
cujas proposiçõesdizem menos
do
çe
é
necessário parar
contradição.?2
Neste caso, a oposição puramente contrária,ntr"
u, proposiçõese æ
determinações opostas dos conceitos cosmológicos
não
abala nemuting,
"
oposiçãotranscendental básica
entre
fenômenoe
coisaem
si.
o
movimento antinômico
darazão permanece merÍrmenûe subjetivo