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A Globalização e a Era Planetária / Globalization and the Planetary Age

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Academic year: 2020

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.4,p.21354-21367 apr. 2020. ISSN 2525-8761

A Globalização e a Era Planetária

Globalization and the Planetary Age

DOI:10.34117/bjdv6n4-343

Recebimento dos originais: 27/03/2020 Aceitação para publicação: 27/04/2020

Mônica Suani Barbosa da Costa

Mestre em Ciências do Ambiente pela Universidade Federal do Amazonas - UFAM. Endereço: Universidade Federal do Amazonas - UFAM, Av. General Rodrigo Octávio,

6200, Coroado I Cep: 69077-000, Coroado I – Manaus/ AM/ Brasil E-mail: [email protected]

Therezinha de Jesus Pinto Fraxe

Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará. Professora Titular e Endereço: Universidade Federal do Amazonas - UFAM, Av. General Rodrigo Octávio,

6200, Coroado I Cep: 69077-000, Coroado I – Manaus/ AM/ Brasil E-mail: [email protected]

Carlos Augusto da Silva

Mestre em Ciências do Ambiente pela Universidade Federal do Amazonas - UFAM. Endereço: Universidade Federal do Amazonas - UFAM, Av. General Rodrigo Octávio,

6200, Coroado I Cep: 69077-000, Coroado I – Manaus/ AM/ Brasil E-mail: [email protected] / [email protected]

Vinícius Verona Carvalho Gonçalves

Mestre em Ciências Pesqueiras nos Trópicos pela Universidade Federal do Amazonas - UFAM.

Endereço: Universidade Federal do Amazonas - UFAM, Av. General Rodrigo Octávio, 6200, Coroado I Cep: 69077-000, Coroado I – Manaus/ AM/ Brasil

E-mail: [email protected]

Gislany Mendonça de Sena

Mestranda em Ciências do Ambiente na Universidade Federal do Amazonas - UFAM. Endereço: Universidade Federal do Amazonas - UFAM, Av. General Rodrigo Octávio,

6200, Coroado I Cep: 69077-000, Coroado I – Manaus/ AM/ Brasil E-mail: [email protected]

Janderlin Patrick Rodrigues Carneiro

Mestre em Ciências do Ambiente pela Universidade Federal do Amazonas - UFAM. Endereço: Universidade Federal do Amazonas - UFAM, Av. General Rodrigo Octávio,

6200, Coroado I Cep: 69077-000, Coroado I – Manaus/ AM/ Brasil E-mail: [email protected]

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.4,p.21354-21367 apr. 2020. ISSN 2525-8761

Jaisson Miyosi Oka

Doutor em Agronomia Tropical pela Universidade Federal do Amazonas - UFAM Endereço: Universidade Federal do Amazonas - UFAM, Av. General Rodrigo Octávio,

6200, Coroado I Cep: 69077-000, Coroado I – Manaus/ AM/ Brasil E-mail: [email protected]

Antonio Carlos Witkoski

Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará -- UFC.

Endereço: Universidade Federal do Amazonas - UFAM, Av. General Rodrigo Octávio, 6200, Coroado I Cep: 69077-000, Coroado I – Manaus/ AM/ Brasil

E-mail: [email protected]

RESUMO

Este trabalho busca compreender o que os autores Edgar Morin e Anne Brigitte Kern denomina de era planetária e as implicações do termo em seu livro Terra-Pátria. Buscamos elucidar os desafios que a atual situação de crise planetária nos traz em relação à interpretação da religião no ocidente, de modo a termos uma melhor compreensão sobre o papel da religião na metamorfose da humanidade na era planetária. Utilizamos como metodologia a pesquisa bibliográfica por acreditar ser a principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente. Entre os pontos que é colocado como extremamente perverso, do desenrolar da história humana, é o que diz respeito ao desaparecimento de culturas diversas que são submetidas ao avanço da dominação de grandes forças políticas/sociais/culturais que se consideram eternas e únicas como perspectiva de desenvolvimento humano. Morin salienta que a era planetária é quase sinônimo dessas trocas genéticas. O avanço europeu sobre o mundo, com o advento do comércio e, principalmente, da guerra, leva a difusão e mistura genética, dos vegetais, animais, dos vírus e bactérias e, também, dos homens. Por fim, o autor enfatiza que Toda ação reflete em desdobramentos múltiplos em todas as direções. Só a visão holística aliada as especializações possibilita uma ação coerente. Não se pode pensar a questão ambiental sem pensar nas questões citadas pelo autor como problemas de primeira e segunda evidências.

Palavras-chave: Humanidade; Capitalismo; Edgar Morin

ABCTRACT

This work seeks to understand what the authors Edgar Morin and Anne Brigitte Kern call the planetary era and the implications of the term in their book Terra-Pátria. We seek to elucidate the challenges that the current situation of planetary crisis brings us in relation to the interpretation of religion in the West, in order to have a better understanding about the role of religion in the metamorphosis of humanity in the planetary era. We use bibliographic research as a methodology because we believe it is the main advantage of bibliographic research lies in the fact that it allows the researcher to cover a range of phenomena much wider than that which he could research directly. Among the points that is placed as extremely perverse, of the unfolding of human history, is that of the disappearance of diverse cultures that are subjected to the advance of the domination of great political / social / cultural forces that are considered eternal and unique as a perspective of human development. Morin points out that the planetary era is almost synonymous with these genetic exchanges. The European advance on the world,

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.4,p.21354-21367 apr. 2020. ISSN 2525-8761 with the advent of trade and, mainly, of war, leads to the diffusion and genetic mixing, of plants, animals, viruses and bacteria and, also, of men. Finally, the author emphasizes that Every action reflects multiple developments in all directions. Only the holistic vision combined with specializations allows for coherent action. You cannot think about the environmental issue without thinking about the issues cited by the author as problems of first and second evidence.

Key words: Humanity; Capitalism; Edgar Morin

1 INTRODUÇÃO

Esse artigo tem como objetivo demostrar a importância de Edgar Morin, epistemólogo francês que contribuiu, e continua contribuindo apesar de sua idade avançada, para o entendimento social, ambiental, político, científico, tecnológico, entre outras nuances da realidade atual. Tem como base o livro Terra-Pátria, 1993, escrito em parceria com Anne Brigitte Kem. Considerado um dos principais arquitetos da teoria da complexidade, esse autor salienta a importância da visão holística para análise dos fenômenos sociais. Parte do princípio que o todo depende das partes e que cada parte está inserida no funcionamento do todo para o seu próprio funcionamento.

No contexto científico e tecnológico, adverte que, apesar de ter levado a humanidade para um patamar de racionalidade considerável, a técnica também coloca a própria humanidade em xeque diante de mazelas e riscos que vem atreladas ao desenvolvimento tecnológico. São facetas de uma mesma moeda: desenvolvimento - avanço e subdesenvolvimento - retrocesso. Dessa forma, a própria História humana não seria uma trilha em direção ascendente, mais um conjunto de meandros que acaba trazendo, simplicidades de análises coligadas a interesses corporativos, que mascaram a realidade complexa dos fenômenos, ou especialização duvidosas que retiram pedaços do real para intensa análise e não relaciona com o todo dificultando a percepção das inter-relações do social com o natural, do biótico com o abiótico, da cultura com a ciência, do político com a técnica, do global com o local e de todas as interações complexas possíveis de um mesmo fenômeno.

2 METODOLOGIA

A metodologia partiu de um estudo de pesquisa bibliográfica, segundo Gil (2008), estudos bibliográfico são desenvolvidos a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos. Embora em quase todos os estudos seja exigido algum tipo de trabalho desta natureza, há pesquisas desenvolvidas exclusivamente a partir de

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.4,p.21354-21367 apr. 2020. ISSN 2525-8761 fontes bibliográficas. Parte dos estudos exploratórios podem ser definidos como pesquisas bibliográficas, assim como certo número de pesquisas desenvolvidas a partir da técnica de análise de conteúdo.

De acordo com Gil (2008), a principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente. Esta vantagem se torna particularmente importante quando o problema de pesquisa requer dados muito dispersos pelo espaço. Por exemplo, seria impossível a um pesquisador percorrer todo o território brasileiro em busca de dados sobre a população ou renda per capita; todavia, se tem à sua disposição uma bibliografia adequada, não terá maiores obstáculos para contar com as informações requeridas. A pesquisa bibliográfica também é indispensável nos estudos históricos. Em muitas situações, não há outra maneira de conhecer os fatos passados senão com base em dados secundários.

3 RESULTADO E DISCUSSÃO

3.1 A HISTÓRIA, O RUÍDO E O FUROR

Um dos pontos que é colocado como extremamente perverso, do desenrolar da história humana, é o que diz respeito ao desaparecimento de culturas diversas que são submetidas ao avanço da dominação de grandes forças políticas/sociais/culturais que se consideram eternas e únicas como perspectiva de desenvolvimento humano. Dessa forma, a “era planetária” se constituí de complexidades em todos os setores sociais, as contradições que o processo de globalização carrega uma nova postura das ciências diante de fenômenos sociais e, até mesmo, naturais. Tudo perde sua solidez sem perder seu peso. É a “modernidade líquida” de Bauman:

Há líquidos que, centímetro cúbico por centímetro cúbico, são mais pesados que muitos sólidos, mas ainda assim tendemos a vê-los como mais leves, menos “pesados” que qualquer sólido. Associamos “leveza” ou “ausência de peso” à mobilidade e à inconstância: sabemos pela prática que quanto mais leves viajamos, com maior facilidade e rapidez nos movemos (BAUMAN, 2001, p.8).

Ou é a perversidade observada por Mílton Santos:

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tem relação com a adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que atualmente caracterizam as ações hegemônicas. Todas essas mazelas são direta ou indiretamente imputáveis ao presente processo de globalização (SANTOS, 2001, p. 9).

Terra-Pátria começa abordando o surgimento da história de maneira bem original: apontando os aspectos negativos, além dos já consagrados e repetidos aspectos positivos. Para um pesquisador da história, o surgimento da escrita, traz em seu bojo, as alavancas para um crescimento da civilização como um todo. Os autores invertem essa orientação e apontam para a contribuição que a centralização do poder pelos grandes impérios da Antiguidade trouxe no contexto da destruição das sociedades “arcaicas”.

Faz-se pensar, a partir de um título sui generis – “A história da história”, que: a) sua análise desbrava de maneira crítica o desenrolar do surgimento da escrita agregada a centralização do poder e submissão de diversas culturas, até então isoladas e independentes. b) Ou que, apesar da história remeter-se aos registros, principalmente através da escrita, as sociedades pré-históricas (arcaicas) tem histórias que foram apagadas por um controle político externo de sociedades históricas (com o domínio da escrita).

O conjunto de culturas díspares enriquecia a “humanidade”, apesar do isolamento e do deslocamento restrito. É o que os autores colocam da seguinte forma:

O desenvolvimento das civilizações urbanas/rurais ignorou e depois destruiu essa humanidade. A extensão das sociedades históricas varreu as sociedades arcaicas para as florestas e desertos, onde exploradores e prospectores da era planetária as descobrem para em seguida aniquilá-las (MORIN e KERN, 2003, p. 15).

Essa destruição foi tão impiedosa e voraz que não observou, nem conservou, valores e conhecimentos diversos que se apagaram para sempre junto com tais sociedades, por serem diferentes dos então valores ocidentais/europeus. Mas, ainda existe um resíduo, ou um ruído de resistência, como nos aponta Latouche:

Sob o rolo compressor da ocidentalização, tudo parece já ter sido destruído, nivelado, esmagado; e no entanto, ao mesmo tempo, os recifes frequentemente estão apenas submersos, resistindo às veze, e prontos para ressurgir à superfície (LATOUCHE, 1994, p. 14).

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.4,p.21354-21367 apr. 2020. ISSN 2525-8761 Morin e Kern (1993) resumem o conceito de história a dominação e destruição das sociedades arcaicas pelos grandes Impérios históricos. A história sendo a submissão de diversas culturas, em diversos espaços do mundo, através do poder da violência. É a história, que para o autor, é o “ruído e o furor”.

Há, também, um alerta que ocorre nos poderes políticos e militares, que submetem e se julgam superiores a outros grupos. Predestinados e imortais. Na realidade são efêmeros e que, no contexto temporal/histórico, alguns até aparecem como insignificantes. O autor coloca como únicas exceções a cultura indiana e chinesa.

É pertinente o questionamento final do prólogo: “Podemos sair dessa história? Essa aventura é o nosso único devir?” (MORIN e KERN, 2003, p. 17). Como responder sem antes entender o que se pergunta? Ele remete que o desenrolar da história levou a constituição da “era planetária”. Essa entendida, para Macluhan, como a “aldeia global”:

“O nosso é o mundo do tudo agora. O ‘tempo’ e o ‘espaço’ desapareceram. Vivemos hoje numa aldeia global... Num acontecer simultâneo. Estamos de volta ao espaço acústico. Começamos de novo a estruturar o sentimento primordial, as emoções tribais de que alguns séculos de literacidade nos divorciaram ” (MACLUHAN e FIORE, 1969. p. 91).

Para Milton Santos a aldeia global é um mito para se fazer crer em um sentido único e acelerado:

“Fala-se, por exemplo, em aldeia global para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas. A partir desse mito e do encurtamento das distâncias – para aqueles que realmente podem viajar – também se difunde a noção de tempo contraído. É como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance das mãos ” (SANTOS, 2001, p. 18-19).

Sob este ponto de vista, a cultura está reduzida à dominação pelo mais forte e a história só é a do vencedor. É possível, então “uma outra globalização? ” Para Milton Santos, a globalização se desdobra em três:

“De fato se desejamos escapar à crença de que esse mundo assim apresentado é verdadeiro, e não queremos admitir a permanência de sua percepção enganosa,

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devemos considerar a existência de pelo menos três mundos num só. O primeiro seria o mundo tal como nos fazem vê-lo: a globalização como fábula; o segundo seria o mundo tal como ele é: a globalização como perversidade; e o terceiro, o mundo como ele pode ser: uma outra globalização ” (SANTOS, 2001, p. 18).

Ou seja, uma outra era planetária onde a diversidade cultural seja seu ponto de equilíbrio? O prognóstico visível, neste início de século XXI, não é não é muito promissor. A ganância pelo poder, a incapacidade dos grupos dominantes de respeitar os direitos humanos de outros grupos, a transformação da diferença física, de gênero, opção sexual, linguística, religiosa, ou qualquer outra em medo e, em contrapartida, a ação de aniquilamentos dessas diferenças, faz-se revelar os mesmos erros repetidos ao longo de milênios. Não é uma “aldeia global” pela incorporação da diversidade, mas sim, pela destruição ou redução do outro.

A era planetária tem início com as chamadas grandes navegações. Curiosamente, não são as grandes civilizações do século XV e XVI que irão impulsiona (SANTOS, 2001, p. 18) tal evento e sim pequenas e jovens nações do continente europeu. Nesse empreendimento, os europeus se colocam diante do mundo diverso, muitas vezes mais avançados em vários setores, mas, essa Europa dominadora não reconhece essa diversidade e faz o que a história tem de mais exemplos, destrói. O reconhecimento de um mundo não cristão e não europeu só se dá pelo contexto do proselitismo e da missão civilizatória que essa Europa vai se incumbir como seu destino diante de outros povos “culturalmente atrasados”. A dominação da natureza pela técnica tem o mesmo sentido. É a submissão da natureza e a imposição de uma natureza humana “a la européia” sobre diversidade das sociedades arcaicas presentes no novo mundo. Para Boaventura, citando Meneses, 2007, ocorre uma homogeneização do mundo:

De facto, sob pretexto da ‘missão colonizadora’, o projecto da colonização procurou homogeneizar o mundo, obliterando as diferenças culturais (Meneses, 2007). Com isso, desperdiçou-se muita experiência social e reduziu-se a diversidade epistemológica, cultural e política do mundo” (BOAVENTURA, 2009, p. 10).

Essa dominação da Europa sobre o mundo elevou o nível das trocas genéricas. Morin e Kern (2003) salientam que a era planetária é quase sinônimo dessas trocas genéticas. O avanço europeu sobre o mundo, com o advento do comércio e, principalmente, da guerra, leva a difusão e mistura genética, dos vegetais, animais, dos vírus e bactérias e, também, dos homens. A era planetária construída pelos europeus pode ser considerada a europeização do mundo, ou

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.4,p.21354-21367 apr. 2020. ISSN 2525-8761 ocidentalização do mundo. Latouche nos adverte:

“O ocidente não é mais a Europa, nem geográfica, nem histórica; também não é mais um conjunto de crenças partilhadas por um grupo humano que perambula pelo planeta; nós nos propomos a lê-lo como uma máquina impessoal, sem alma e, de ora em diante, sem mestre, que colocou a humanidade a seu serviço ” (LATOUCHE, 1994, p. 13).

É a modernidade chegando para as sociedades arcaicas, que ainda restam isoladas no planeta. Essa carrega em seu cerne a guerra, “violência, da destruição, da escravidão, da exploração feroz das Américas e da África. É a idade de ferro planetária, na qual estamos ainda” (MORIN e KERN, 2003, p. 23).

Não é somente isso, mas além: é o racismo, escrava (SANTOS, 2001, p. 18) vimos, patriarcalismo, capitalismo, egoísmo e tantos outros “ismos” no sentido pejorativo do termo.

A contradição do movimento de ocidentalização mostra sua face pela estrutura política. A Europa que se fez com a construção de um sistema mundo capitalista/burguês e imperialista, da imposição da dominação militar sobre suas colônias, vê essas mesmas colônias, com seus povos arcaicos, tomarem as rédeas da independência política seguindo o ideal do estado-nação e, até mesmo, da apropriação das ideias, armas e valores, até então, europeus Morin e Kern (2003), apontam a contracorrente, a resistência imperialista das potências europeias, as ambições de igualdade dos dominados:

“Mas a essas correntes universalistas se opõem contracorrentes. Se se admite a unidade da espécie humana, tende-se, também a compartimentá-la nas raças hierarquizadas em superiores e inferiores. Se os direitos dos povos é reconhecido, certas nações se julgam superiores e se dão por missão guiar ou dominar toda a humanidade” (MORIN e KERN, 2003, p. 28).

É a continuidade da exploração mundial presente até os dias de hoje. O “core” da dominação pode mudar mas a ideologia de superioridade, apontada desde do início entre as sociedades arcaicas e sociedades históricas na Antiguidade permanece viva. Antes Portugal, depois Inglaterra, hoje Estados Unidos e amanhã poderá ser a China, mas sempre a mesma justificativa para o injustificável: o genocídio, o etnocídio e a exploração desumana de homens

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.4,p.21354-21367 apr. 2020. ISSN 2525-8761 por outros homens. É preciso antes desqualificar o outro, ou apresentar as diferenças, verdadeiras ou não. É preciso negar sua condição humana para submetê-lo.

As ideias universais não extinguem novas construções ideológicas do racismo político e cultural. A própria ideia de estado-nação, que impulsiona a libertação colonial é o arcabouço para novas distinções inventadas, novas origens históricas e sagradas, novos lugares reivindicados como berço de grandes nações com “destinos manifestos”.

Nesse turbilhão de novos nacionalismos que explode a guerra mundial. A ciência e a técnica, até então grande libertadora do homem contra a ignorância, da pobreza e das doenças (libertando o homem da natureza), aparece agora como grande vilão capaz de levar a humanidade a extinção. São as armas de destruição em massa, armas químicas e automáticas, os veículos, os foguetes, todos frutos do avanço científico, são agora mensageiros da morte:

“O engajamento total das nações, os progressos das armas automáticas e da artilharia, a introdução de engenhos mecanizados, da aviação e, em todos os mares, da guerra submarina, vão produzir a primeira grande guerra de destruição maciça, em que o planeta perde 8 milhões de homens” (MORIN e KERN, 1993, p. 28).

A esperança na ciência cai totalmente por terra com as duas bombas atômicas sobre o Japão. E é, justamente, a ciência considerada a mais promissora que surgi o maior perigo: a destruição nuclear. As bombas sobre Nagasaki e Hiroshima traz um alerta: o homem pode levar o homem a extinção. Dessa forma, a 1ª e a 2º Grande Guerra traz um desapontamento, não só da ciência, mas também, do capitalismo. O socialismo aparece como o “grande messias da paz”. Ledo engano que se soma com o avanço do fascismo, das ditaduras e com o retorno do Imperialismo, mesmo que dissimulado.

A física, ciência mãe da libertação do homem (da natureza) é a grande ameaça para a extinção total da humanidade. O medo da hecatombe nuclear é o grande medo mundial. Esse medo, da conflagração nuclear, vai perdurar durante o período da “Guerra Fria” como o grande medo e, agora, como colocam Morin e kern, persiste diante das novas realidades da era planetária:

Enquanto os Estados Unidos e a Rússia procuram reduzir um estoque nuclear capaz de destruir várias vezes a humanidade, a arma se dissemina, se miniaturiza; já foi apropriada por estados parnóides e em breve estará à disposição de ditadores loucos e de grupos terroristas (MORIN e KERN, 2003, p. 33).

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.4,p.21354-21367 apr. 2020. ISSN 2525-8761 Finda a guerra, a geopolítica divide-se em dois grandes blocos: de um lado os Estados Unidos da América e seus aliados, do outro a extinta União das repúblicas socialistas Soviéticas (URSS) e seus aliados.

A Guerra Fria ressuscita a força das ciências através do avanço tecnológico, fruto da corrida espacial e armamentista. Produtos são adaptados e vendidos no mercado civil. Os aparelhos e técnicas de comunicação, antes usados nas ações militares, espionagem e espaciais também tornam-se produtos: GPS, Internet, drones, imagens de satélites, entre outros.

As gerações pós década de 1980, já nascem no “maravilhoso mundo novo das telecomunicações”. A internet completa o que começou com o cinema, a criação de um “folclore mundial”. Os entusiastas das técnicas discutem e aclamam o desenvolvimento virtual como sem barreiras possíveis. Os mapeamentos genéticos trazem possibilidades de aumento de expectativa de vida, mas também de construção racistas a partir da herança genética das pessoas. Não se discute com a mesma seriedade as consequências psicossociais desse desenvolvimento. Santos nos esclarece:

Muito falamos hoje nos progressos e nas promessas da engenharia genética, que conduziriam a uma mutação do homem biológico, algo que ainda é do domínio da história da ciência e da técnica. Pouco, no entanto, se fala das condições, também hoje presentes, que podem assegurar uma mutação filosófica do homem, capaz de atribuir um novo sentido à existência de cada pessoa e, também, do planeta (SANTOS, 2001).

Ao mesmo tempo, o desenvolvimento das técnicas permite a reafirmação de nacionalismo, aspectos culturais regionais, mobilizações de minorias, redes terroristas e fortalecimento de ideologias, que utilizam os meios de comunicação para sua divulgação e aliciamento de membros. Para o bem e para o mal, a mundialização entra pala televisão e pala internet em nossas salas. Definitivamente, a vida cotidiana das pessoas, do Oriente e do Ocidente, do Primeiro e do Terceiro Mundo está interligada. A contradição persiste mesmo assim: surgi os excluídos digitais, principalmente nos países pobres. É a fábula apresentada por Milton Santos:

Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas. Há uma busca de uniformidade, ao serviço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna menos

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unido, tornando mais distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal. Enquanto isso, o culto ao consumo é estimulado (SANTOS, 2001, p. 19)

No segundo capítulo do livro Terra-Pátria, Morin vai refletir sobre o desdobramento do avanço da cosmologia e toda a gama de conhecimentos da dinâmica do Universo, das mudanças relativas a expulsão da Terra do centro do Universo para a insignificância da periferia da periferia. Além disso, esses novos conhecimentos comprovam não o avanço de pensamento, mas seu atraso em relação ao Universo. O homem se diante da incompreensão do infinito e do mundo ao seu redor. O homem só conhece 10 % da matéria existente, o restante não nos aparece devido a limitação de nossos sentidos. A filosofia, diante dessa nova realidade conhecida/desconhecida, paralisa-se, omite-se, cega-se e se restringe ao já consagrado. Os filósofos não se debruçam mais diante do incompreensível, para Morin e kern (2003):

O novo cosmo não suscitou nem curiosidade, nem espanto, nem reflexão entre os filósofos profissionais, inclusive os que tratam doutamente do mundo. É que hoje nossa filosofia esterilizou o espanto do qual ela nasceu. É que a nossa educação nos ensinou a separar, compartimentar, isolar, e não a ligar os conhecimentos, e portanto nos faz conceber nossa humanidade de forma insular, fora do cosmos que nos cerca e da matéria física com que somos constituídos.

Apesar de sua posição periférica, a Terra se concebeu de vida. Mas não é a sinfonia perfeita e atemporal que organiza a vida:

Assim, portanto, pode-se admitir, em nosso começo de século, que a organização viva seja fruto de uma complexificação organizacional não linear, mas resultante de encontros aleatórios entre macro-moléculas, talvez eventualmente na superfície das pedras, mas

finalmente em meio líquido turbilhonante.

A literatura e a poesia fazem a “maternização da Terra”, já os cientistas e técnicos da racionalidade fazem a coisificação da Terra. O capitalismo adere aos últimos e empreende, junto com a ciência, a dominação da natureza, sua submissão e, consequentemente, a sua destruição acelerada. Esse é o novo medo. O medo da destruição ambiental. A própria ciência que cria as bases da destruição e escravização da natureza, é a mesma que vai acusar a

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.4,p.21354-21367 apr. 2020. ISSN 2525-8761 aceleração e os perigos da ação do homem sobre o meio ambiente. No terceiro capítulo do livro Terra-Pátria, Morin lista a questão ambiental ao lado de outros problemas considerados mundiais: o desregramento econômico mundial, o desregramento demográfico mundial, a crise ecológica e a crise do desenvolvimento. Para ele, esses são problemas de primeira evidência, visto serem flagrantes em todas as instâncias e em todos os países.

Cabe ressaltar os problemas de segunda evidência, nem tão percebidos, segundo o autor. São questões antagônicas ao processo de mundialização, no sentido pejorativo. Questão que são até mesmo maquiadas pelos entusiastas da globalização.

O duplo processo: solidarização e balcanização do planeta. Os antagonismos entre o local e o global. A ação global sobre o espaço regional traz uma reação política e social. Novos e velhos regionalismo vem à tona, revitalizados. É o caso da Catalunha, na Espanha. Não só isso, mas também, as divergências de fronteiras reativam os antagonismos religiosos, é o caso da fronteira “Índia/Paquistão e Oriente Médio.” (MORIN e KERN, 2003, p. 73). O autor cita o filósofo israelita Leibovitz: “Passa-se facilmente do humanismo ao nacionalismo e do nacionalismo ao bestialismo” (p. 74).

Outro problema que o Morin e kern colocam são o que eles chamam de “a crise universal do futuro.” Depois das Guerras, o capitalismo recupera-se e traz uma onda de esperança ao desenvolvimento econômico e humano. Esse período se fecha a partir dos anos 70, com a desilusão trazida com a queda do socialismo, a crise econômica que leva a um período depressivo, nas palavras de Morin e kern (2003):

Enfim, no terceiro mundo, os fracassos do desenvolvimento desembocam em regressões, estagnações, fomes, guerras civis/tribais/religiosas. As balizas rumo ao futuro desaparecem. Os futurólogos não predizem mais e alguns encerram suas atividades. A nave Terra navega na noite e na neblina.

Além disso, a fé na ciência, a muito afetada, se aprofunda. A modernidade apresenta sua face e ela não é bonita como se esperava. É a crise da modernidade. A perda da esperança do futuro traz um novo mal do século, a depressão. A angustia psicológica para Morin. Esse descontentamento com o futuro leva a valorização do passado. Assim, ideias política, religiosas, entre outras, até então consideradas perdidas, retornam com nova roupagem, fundamentalismo antigos se fazem revitalizados e com força.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.4,p.21354-21367 apr. 2020. ISSN 2525-8761 planeta. O progresso que submetia a natureza em seu nome, mostrou-se uma via com rumo a destruição do próprio homem. O modelo está errado e doente. O modelo tem que mudar, mas resiste a partir de interesses particulares e de grandes corporações Morin e kern (2003) salienta que:

O amor e a fraternidade, forças de resistência espontâneas ao mal de civilização, são ainda demasiado frágeis para serem seu remédio. Eles rechaçam o vazio com seu impulso para a plenitude, mas eles próprios são roídos e desintegrados pelo vazio, e daí um complexo de vazio/pleno que é muito difícil de perceber.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Terra-Pátria traz um enfoque crítico e perspicaz do processo iniciado, no Século XV, com o avanço da Europa e do capitalismo sobre o restante do mundo. Esse fato acentuou, como nunca, as contradições próprias da era planetária. Morin e kern nos advertem que esse estado caótico e conflituoso é o seu estado normal, ou seja, a era planetária tem como organização a desorganização, como equilíbrio o desequilíbrio. Para eles, deve-se evitar o termo “crise”. Não seria crise visto o crescimento das incertezas não trazem a possibilidade de um futuro seguro com uma diversidade de futuros possíveis; as rupturas de regulações, os perigos de destruição ligados ao desenvolvimento e sua própria consciência como solução, aponta, segunda o autor para uma policrise. A era planetária, os problemas se interligam e se realimentam. Não se pode se fechar na especialização como forma de solucionar um problema específico sem provocar o agravamento de outro. É necessário entender a situação como complexa e interligada. Toda ação reflete em desdobramentos múltiplos em todas as direções. Só a visão holística aliada as especializações possibilita uma ação coerente. Não se pode pensar a questão ambiental sem pensar nas questões citadas pelo autor como problemas de primeira e segunda evidências. Tudo se relaciona entre si.

A viagem ao cosmo mais distante só é possível se homem atingir seu interior como ser natural. A filosofia e a ciência têm que se reinventarem para tentar acompanhar as questões que se colocam com a era planetária. A história não está morta, nem a história das ciências, nem a história política, ao contrário a história está viva com toda sua força humana.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n.4,p.21354-21367 apr. 2020. ISSN 2525-8761

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001. BOAVENTURA, S, S. MENESES, M. P. Epistemologias do Sul. Coimbra. Almeida, 2009. GIL, A. C. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 4. ed. São Paulo: Editora Atlas S. A., 2008. 206p.

LATOUCHE, S. A ocidentalização do mundo: ensaios sobre a significação, o alcance e os limites da uniformização planetária. Petrópolis, Vozes, 1994.

MACLUHAN, M. FIORE, Q. O meio são as massagens. Rio de janeiro. Record, 1969. MORIN, E.; KERN, A. B. Terra-Pátria. Porto Alegre. Sulina, 2003.

SANTOS, M. Por Uma Outra Globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro. Record, 2001.

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