R ev is t a d a S o c ie d a d e B ra s ile ira d e M e d i c in a T ro p ica l 2 9 ( 3 ) : 2 9 1 - 2 9 2 , m a i- j u n, 1 9 9 6 .
CA RTA A O ED ITO R
O EN V O LV IM EN TO D O SISTEM A N ERV O SO CEN TRA L NA
FO RM A CRÔ N ICA DA D O EN ÇA D E CHAGAS
Sr. Edito r,
Li co m m uito interesse o artig o d e auto ria d e Jõ rg ME e c o ls6. No referid o artig o o s a u to r e s f a z e m a lg u m a s o b s e r v a ç õ e s d ep reciativ as, a m eu v er sem fund am ento , acerca d e um artig o d e rev isão d e m inha au to ria so b re o e n v o l v i m e n t o d o s is t e m a n erv o s o c e n t ra l (SN C ) n a d o e n ç a d e C h a g a i .
O s referid o s auto res afirm am q ue três d e seus trabalho s p ublicad o s3 ’ 5 não fo ram citad o s na rev isão . D e fato , esses três trabalho s não fo ram citad o s p o rque, co m o assinalad o no parágrafo 2 da Intro d u ção 9, a rev isão só lev o u em co nta estud o s em q ue o env o lv im ento do SNC fo i co nfirm ad o p o r exam e anáto m o -p ato ló g ico . A fin alid ad e d a re v isão fo i situ ar a p o ssív e l histó ria natural d o env o lv im ento d o SNC na d o ença d e Chagas d o p o nto d e v ista anáto m o - p ato ló g ico . Mais ad iante Jõ rg e co ls.6 afirm am q u e seus estud o s fo ram d esv alo riz ad o s e que o p resente auto r, além d e ad o tar um a p o stura p reco nceitu o sa neg ativ a quanto a existência d e um aco m etim ento encefálico p elo T. cruz i,
na fo rm a crô nica da d o ença, v alo rizo u tão so m ente o s p ró p rio s trabalho s. Na realid ad e, ao analisar criticam ente o s trabalho s existentes p ublicad o s e ag rup á-lo s co nfo rm e o m aterial e a m e to d o lo g ia u tiliz ad o s e o s resu ltad o s o btid o s, o p resente auto r tento u ap enas situar o co nju nto das o b serv açõ es, interp retaçõ es e c o n h e c im e n to s ad q u irid o s d en tro d e u m a p ersp ectiv a neuro p ato ló g ica. Tal p ersp ectiv a não hav ia sid o ap resentad a até então p elo s d iv erso s auto res q ue estud aram e/ o u revisaram o assunto . Em relação ao s m eus trabalho s7810, afirm o 9 q ue caracteriz am -se p ela: 1) grand e casuística (ju ntam ente co m a d e Q ueiro z 11, no s quais fo ram estud ad o s 31, 31, 50 e 114 p acientes c h a g á s ic o s c r ô n i c o s , r e s p e c tiv a m e n te , rep resentam as m aio res séries d e estud o s histo p ato ló g ico s d o encéfalo na d o ença de Chagas crô nica; 2) m eto d o lo g ia ad equad a,
Laboratório de N europatologia, D epartam ento de A natomia Patológica e M edicina Legal da Faculdade de M edicina da U niversidade Federal de M inas G erais. Av. A lredo Balena 1 9 0 ,3 0 1 3 0 - 1 0 0 Belo H orizonte, MG.
Receb id o para p ub licação em 2 3 / 1 0 / 9 5 .
p o is além d e se faz er o estu d o sistem atiz ad o d o encéfalo (frag m ento s rep resentativ o s das d iferentes reg iõ es cerebrais), utilizaram -se a inclu são em celo id ina (q u e p erm ite p ro cessar grand es frag m ento s d o s hem isfério s cerebrais, aum entand o assim a área d e tecid o nerv o so analisad a quand o co m p arad o à inclu são em p arafina) e m éto d o im uno -histo q uím ico para id entificar am astig o tas d e T. c ru z i em co rtes histo ló g ico s (p ro ced im ento esse sup erio r à co lo ração co nv encio nal q uand o se p retend e av aliar o p arasitism o tecid u al). D ev e ser d estacad o q ue p ela p rim eira v ez esses d o is m é to d o s fo ram e m p re g ad o s em c o rte s histo ló g ico s d e um a g rand e série d e encéfalo s d e chag ásico s crô nico s. Parece-m e q ue a an álise h isto p ato ló g ic a siste m atiz ad a d o e n c é f a lo , in c lu in d o o e x am e d e g ran d e s frag m ento s d o s hem isfério s c ereb rais e a utiliz ação d e m éto d o im uno -histo q uím ico para a i d e n ti f i c a ç ã o d e p a r a s ita s e m c o r te s histo ló g ico s, é ap ro p riad a p ara se estud ar um a d o ença causad a p o r um p ro to z o ário q ue no SNC p arasita célu las gliais e p ro d uz reação inflam ató ria q uand o há ruptura d e ninho s d e am astig o tas. A liás, p assad o s m ais d e 80 ano s d a id e n tif ic aç ão d a d o e n ç a d e C h ag as, a ab o rd ag e m h isto p ato ló g ic a fo i e c o n tin u a se n d o ap ro p riad a e m u ito p ro v e ito sa na caracterização m o rfo ló g ica das fo rm as agud as c a r d ía c a e n e r v o s a ( in c lu in d o o s c a s o s recentem ente d escrito s da fo rm a agud a nerv o sa reativ ad a em ind iv íd uo s im uno ssup rim id o s) e d as fo rm as crô nicas card íaca e d igestiv a.
Uma q uestão tam bém lev antad a p o r Jõ rg e co ls.6 em v ário s trecho s refere-se ao fato do p resente auto r ter exam inad o exclusiv am ente o encéfalo d e chag ásico s crô nico s p o rtad o res d a fo rm a card íaca da d o ença e d e não hav er i n c l u í d o p a c i e n t e s c o m a s í n d r o m e encefalo p atica m anifesta. D e fato , em nenhum d o s p acientes exam inad o s p o r m im fez -se clinicam ente esse d iag nó stico , em bo ra v ário s d eles tenham tid o m anifestaçõ es neuro ló g icas d eco rrentes d e alteraçõ es cerebrais isquêm icas (infarto , n ec ro se n eu ro n al seletiv a e tc .) 7. Seg und o Jõ rg e co ls.6, a encefalo p atia chag ásica crô nica: 1) aco m ete um a m ino ria d e ind iv íd uo s (5 para cad a 1000 p acientes p o rtad o res d e
C a rt a a o Edit o r. P it t ella JE H . R ev is t a d a S o c ie d a d e B ra s ile ira d e M e d i c in a T ro p ica l 2 9 - 2 9 1 - 2 9 2 m a i- iu n 1 9 9 6 .
card io p atia chag ásica m anifesta); 2) ap resenta- se c li n i c a m e n te c o m s in a is e s in to m a s inesp ecífico s. O s auto res supracitado s d estacam , ain d a, q u e g ran d e p arte d o s p ac ie n te s p o rtad o res da sínd ro m e encefalo p ática era p ro ced ente d o interio r d o p aís (A rg entina) e m ais d e 90% p o ssuíam “co nd ició n so cial y eco nó m ica p o b re, escaso s en recurso s, en cultura y en iniciativ a”6. Sab e-se q ue uma situação só cio -eco nô m ica e cultural p recária c o m o a relatad a p o r Jõ rg e c o ls.6 p o d e p ro p iciar o ap arecim ento d e d iv erso s o utro s fato res (p . ex., nutricio nais e infeccio so s) que p o d eriam em co nju nto ser resp o nsáv eis p o r g rand e p arte d as m an ifestaç õ es clínicas o bserv ad as. A lém d isso , p ara v ário s auto res, algumas das alteraçõ es clínicas neuropsiquiátricas m ais freq ü entem ente d escritas em chag ásico s c r ô n ic o s p o d e r ia m s e r e x p l ic a d a s p e lo co m p ro m etim ento iso lad o d o sistem a nerv o so au tô no m o , co m p reserv ação d o SNC. Nas p alav ras d e Jard im 2, um d o s m ais ard o ro so s d efenso res da existência da fo rm a crô nica n e rv o sa d a d o e n ç a d e C hag as, “é p o ssív e l e n c o n tr a r - s e n o s c h a g á s ic o s c r ô n ic o s p ertu rb açõ es da reg u lação da ho m eo stase atrav és da ap licação d e testes funcio nais... a fo rm a crô nica nerv o sa seria fund am entalm ente caracteriz ad a p o r p ertu rbaçõ es auto nô m icas d e reg u lação da ho m eo stase em g eral.”
Ju lg o q ue a p o ssív el histó ria natural d o env o lv im ento d o SNC na d o ença d e Chagas p ro p o sta recentem ente9 rep resenta nad a mais d o que uma interp retação de minhas o bserv açõ es n e u ro p a to ló g ic a s e d o s c o n h e c im e n to s acum ulad o s no p assad o e atuais registrad o s na literatura. C o nco rd o inteiram ente co m Jõ rg e co ls6 q u e “la inv estig ació n so bre este tem a... q u e d a n a b ie r ta s a la in q u ie tu d d e lo s estu d io so s p o r encim a d e p rejuicio s auto rales fund ad o s en v isió n p arcial o sesg ad a.” Para co ncluir, lem bro co m Freud 1 q u e o p ensam ento c i e n tí f i c o é u m p e n s a m e n to a b e r to à v erificação , à d em o nstração e à refutação ; a ciência d iscip lina o s d esejo s p ela necessid ad e d e um a v erificação co nfiáv el e p elo tip o d e atm o sfera aberta, ú nica cap az d e p erm itir que
as c o n v ic ç õ es e cren ç as sejam refinad as, m o d ificad as e, se necessário , aband o nad as.
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Jo s é E y m a rd H o m e m P ittella
Faculd ad e d e M ed icina da Univ ersid ad e Fed eral d e Minas Gerais
Belo H o riz o nte, MG