BrazJOtorhinolaryngol.2017;83(3):241---242
www.bjorl.org
Brazilian
Journal
of
OTORHINOLARYNGOLOGY
EDITORIAL
Acute
otitis
media
in
children:
a
vaccine-preventable
disease?
夽
Otite
média
aguda
na
infância:
uma
doenc
¸a
prevenível
por
vacinas?
A otite média aguda (OMA) é uma das mais fre-quentes doenc¸as na infância, sendo a principal causa de consulta médica e de prescric¸ão de antimicrobia-nos em países desenvolvidos, onde lactentes usam em média mais de 40 dias de antimicrobianos por ano. Na era anterior à introduc¸ão das vacinas pneumocóci-cas conjugadas estimava-se que quatro em cada cinco crianc¸as apresentariam um episódio de OMA até comple-tar três anos, com o pico de incidência entre seis e 18meses,eque40%delasteriampelomenosseisepisódios recorrentesatécompletarseteanos.
Outro aspecto de vital importância em saúde pública é que a carga da doenc¸a e suas complicac¸ões têm um impacto muito mais significativo em países em desenvol-vimento. Estimativas da Organizac¸ão Mundial da Saúde (OMS)mostramqueaproximadamente51.000mortes ocor-rem anualmente, em crianc¸as menores de cinco anos, atribuídas às complicac¸ões da OMA, como, por exemplo, as infecc¸ões intracranianas.Adicionalmente, aproximada-mente 60% das centenas de milhões de indivíduos que evoluemcomotitecrônicasupurativaapresentamprejuízo naaudic¸ãoealterac¸õesdocomportamento.1
Essascaracterísticas daOMAtornam a possibilidadede preveni-la,através devacinas,aprincipal emaisatrativa opc¸ãoparaoseumanejo.Emrelac¸ãoaospatógenos bacte-rianoscausadoresdeOMA,inúmerosestudosdemonstraram queoS.pneumoniaejuntocomoHaemophilusinfluenzae
nãotipável(HiNT)eaMoraxellacatarrhalissãoos princi-paisagentesetiológicosenvolvidos.Streptococcuspyogenes
eStaphylococcus aureussãopatógenostambém encontra-dos, porém em muito menor proporc¸ão. Finalmente, os
DOIserefereaoartigo:
http://dx.doi.org/10.1016/j.bjorl.2017.02.004
夽 Comocitaresteartigo:SáfadiMA,JarovskyD.Acuteotitismedia
inchildren:avaccine-preventabledisease?BrazJOtorhinolaryngol. 2017;83:241---2.
agentesvirais[influenza,vírus sincicialrespiratório(VRS), adenovírus, parainfluenza e outros] respondem, isolada-mente,poraproximadamente30%doscasose,emconjunto com bactérias, por aproximadamente 15% dos casos de OMA.2
A incorporac¸ão das vacinas pneumocócicas conjugadas emprogramasdeimunizac¸ãorotineirodelactentesemum númerocadavezmaiordepaísesnomundo,assimcomoa ampliac¸ãodasrecomendac¸õesdavacinadeinfluenzapara diversosgruposetários pediátricos, criaramuma expecta-tivadereduc¸ãodamorbidaderelacionadaàsOMAsnessas populac¸ões.Aexperiênciaobtidacomaconsolidac¸ãodesses programasemtodoomundonosensinouimportanteslic¸ões, quemerecemumaanálisenesteeditorial.
A avaliac¸ão do impacto da vacina de influenza na reduc¸ão de episódios de OMA, em estudos randomizados econtrolados,mostrou resultadosconflitantesem relac¸ão àeficáciadavacinadegripeparaprevenc¸ão deepisódios deOMAemcrianc¸as.Apresenc¸adeumamploespectrode vírus respiratórios potencialmente implicados na OMA em crianc¸as, além da menor eficácia da vacina de influenza emlactentes---ogrupoetáriomaisacometidopelasotites ---sãoosprincipaismotivosdalimitadaeficáciadasvacinas deinfluenzaemprevenirepisódiosdeOMAemcrianc¸as.3
Apesardeteremsidodesenvolvidascomoobjetivo precí-puodeprevenirasdoenc¸aspneumocócicasinvasivas (menin-gite,sepseepneumoniabacteriêmica),acontribuic¸ãodas vacinaspneumocócicasconjugadas(PCVs)paraadiminuic¸ão dasinfecc¸õesmucosas(em especialdasotites)semprefoi umtemadegrandedebate.Osresultadosdosestudos pré--licenciamentodessasvacinasapontavamparauma poten-cialreduc¸ãodenomáximo10%dosepisódiosdeOMAentre crianc¸as vacinadas. Entre asprincipais razõesdolimitado desempenhodasPCVsnaprevenc¸ãodaOMAdestacamoso fatode que os sorotipos contemplados nas diversas vaci-nasexistentes(PCV7,PCV10ePCV13)sãoresponsáveispor umapequena parceladesses casos,selevarmos em conta o número total de sorotipos de pneumococos circulantes
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(pelomenos98jáforamidentificados).Alémdisso,os estu-dosmostraramumatendênciadesubstituic¸ãodospatógenos causadoresdeOMAnaspopulac¸õesvacinadas,comaumento na prevalência de outros otopatógenos e de sorotipos de pneumococosnãoincluídosnasvacinas(fenômenode repla-cement--- substituic¸ão).4Aindanessesestudosfoiverificada
umamaioreficácia paradesfechosconsiderados mais gra-ves,associadosàsotites complexas,como acolocac¸ãode tubosdetimpanostomia,eapresenc¸adeotitemédia recor-rente. Esses resultados sugeriam que o uso das PCVs em lactentes jovens seria mais efetivo para a prevenc¸ão de otitescomplexaseotitescrônicas comefusãodoquepara prevenc¸ãodeepisódiosdeotitemédiaagudasimples.
O S. pneumoniae é reconhecido como um patógeno responsável porinfecc¸ões precoces, podefuncionar como um gatilho para a ocorrência de lesão da orelha média, desencadear uma cascata de eventos que resultam em infecc¸ões subsequentes polimicrobianas, mais frequente-mente relacionadas às cepas de HiNT e formac¸ão de biofilmes.Asinfecc¸õescausadaspeloHiNTtêmmaiorrisco defalhasdetratamentoecomplicac¸õescomorecorrênciae cronicidade.5
Outro achado importante desses estudos foi a
constatac¸ão de que a administrac¸ão tardia das PCVs, em pré-escolarescommais deumano,mostrou-sepouco efetivaparaaprevenc¸ãodecasoscomplexosquando com-paradacomaadministrac¸ãodaPCVsem lactentesjovens. Aprovável interpretac¸ãodesse achadoé que a vacinac¸ão com PCVs em crianc¸as mais velhas, que já tiveram um episódioinicialdeotitepneumocócica,nãopoderáexercer efeito protetor na prevenc¸ão dos eventos que levam à formac¸ãodaotitemédiacomplexaecrônica,umavezque as alterac¸ões patogênicas que predispõem essas crianc¸as aosepisódiossubsequentesjáforamdesencadeadasenesse estágio os sorotipos contemplados nas PCVs não são uma causarelevantedeinfecc¸ão.5
Após a introduc¸ão das diversas PCVs em progra-masdeimunizac¸ãodelactentes,osestudosobservacionais, de‘‘mundo real’’, constataramuma reduc¸ão significativa não apenas nos episódios de OMA, mas principalmente na incidência e na prevalência de casos complexos. De maneira geral a magnitude de reduc¸ão excedeu substan-cialmente as previsões baseadas nos resultados obtidos nos estudos pré-licenciamento. Por exemplo, nos Esta-dos Unidos, poucos anos após a introduc¸ão da PCV7, foi observada uma reduc¸ão de até 28% nas taxas de otite média frequente, 23% nas taxas de colocac¸ões de tubo de ventilac¸ão, 42% nas prescric¸ões de antimicro-bianos e de 43% nas taxas de consultas ambulatoriais relacionadas à otite média em crianc¸as menores de 2anos.No ReinoUnido,observou-seumareduc¸ão de22% nastaxasdeincidênciadeotitemédiaem crianc¸asabaixo de10anos após aintroduc¸ãodaPCV7, com umareduc¸ão adicionalde19%apósasubstituic¸ãodaPCV7pelaPCV13.4,5
Demaneirasimilar,noBrasil,astaxasdeconsultas ambu-latoriaisrelacionadas àsotites médias de todasascausas diminuíram 44% em crianc¸as de dois a 23 meses após a introduc¸ãodaPCV10.6 Merecedestaque,ainda,areduc¸ão
nas taxas de incidência de pneumococos resistentes à penicilina,tantoentreosisoladosdedoenc¸ainvasivacomo entreosisoladosdeorelhamédiaedenasofaringe.4,5
O licenciamento da vacina pneumocócica 10-valente (PCV10), que usa como proteína carreadora,em oito dos seus 10 sorotipos, a proteína D do Haemophilus influen-zaetraziaaperspectivadeumpotencialbenefícioadicional deprotec¸ãocontraasinfecc¸õescausadaspeloHiNT. Entre-tanto, até esse momento não foi possível demostrar de maneiraconvincente,nosdiversospaísesemqueessavacina foiintroduzida,queesseefeitopossaserobtidoemcrianc¸as vacinadascomaPCV10.
Dessaforma,apesardosdadospromissoresemrelac¸ãoao impactodasPCVsnacargadaOMAedesuascomplicac¸ões,é importantesalientarqueobenefícioprincipaldessasvacinas continuaaseraprevenc¸ãodasdoenc¸asinvasivas pneumocó-cicasnainfância.Odesenvolvimento,naspróximasdécadas, de vacinas maisefetivas contrao vírus influenza; vacinas contraoutrosvírusderelevânciaclínicacomoVRS, adenoví-ruseoparainfluenza;vacinasproteicasquepossamoferecer protec¸ão universal contratodos ossorotipos pneumocóci-cos; assimcomo vacinasefetivascontra asinfecc¸õespelo HiNT,geralmenteassociadasàsotitesrecorrentese comple-xas; será de fundamental importância paraque possamos finalmente considerar a otite umadoenc¸a prevenível por vacinas.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
Referências
1.Vergison A, Dagan R, Arguedas A, Bonhoeffer J, Cohen R, DhoogeI,etal.Otitismediaanditsconsequences:beyondthe earache.LancetInfectDis.2010;10:195---203.
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MarcoAurélioPalazziSáfadia,b,∗e DanielJarovskya,b aSantaCasadeSãoPaulo,FaculdadedeCiênciasMédicas,
DepartamentodePediatria,SãoPaulo,SP,Brasil
bHospitalInfantilSabará,Servic¸odeInfectologia
Pediátrica,SãoPaulo,SP,Brasil
∗Autorparacorrespondência.