SAFRA 2011/12 COMEÇA A SER PLANEJADA
Com a finalização da colheita da safra de verão 2010/11, iniciam-se os planejamentos para a safra 2011/12. Em algumas regiões, já houve compras de insumos nos meses de março e abril. A expectativa de preços a serem pagos pelos insumos e as cotações de venda dos produtos agrícolas, os quais têm grande impacto sobre a rentabilidade da cultura, passa a ser o grande foco de produtores.
Neste momento de preparação de uma nova safra, tradicionalmente, um dos fatores que mais pesam na decisão dos agricultores é a relação de troca do seu produto pelos principais insumos – que se apresenta muito favorável, cenário oposto ao da safra passada. Esse período pós-colheita da soja e do milho 1ª safra é marcado por especulações e análises de produtores sobre a proporção a ser adotada para a oleaginosa e o cereal.
O milho era a cultura que tinha relação de troca mais desfavorecida nesse período de planejamento da safra 2010/11. Em alguns momentos do primeiro semestre de 2010, o cereal foi negociado a preços que não eram suficientes nem para cobrir os custos operacionais de produção.
Mesmo assim, a área destinada ao milho verão na safra 2010/11 no Brasil teve aumento de 0,6% em relação à temporada anterior, em função do aumento das áreas destinadas à cultura na região Nordeste. Essa região, porém, apresenta ritmo de negociação de insumos mais tardio, em função até mesmo da liberação mais atrasada de crédito agrícola, com os negócios sendo concentrados no segundo semestre. Como em 2010 houve reação expressiva das cotações no segundo semestre, houve tempo para ajuste das áreas de cultivo por parte de produtores daquela região.
Porém, cabe destacar a queda na área cultivada com milho verão nas mais tradicionais regiões produtoras, que decidem sobre o plantio no primeiro semestre. Segundo levantamento da Conab (2011), no Paraná, a área com milho 1ª safra teve redução de 17,2% entre as temporadas 2009/10 e 2010/11. Outros três importantes estados produtores de milho no verão, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, tiveram reduções de área de 7,5%, 1,5% e 4,5%, respectivamente, no mesmo período.
A relação de troca desfavorável no começo de 2010 explica essa redução de área. Se considerarmos uma média dos custos e preços de venda dos meses de março e abril do ano de 2010 com os mesmos meses de 2011, em Uberaba (MG), o custo operacional para produção de milho 1ª safra correspondia a 143,4 sacas/ha para as variedades convencionais e 151,8 sacas/ha para as transgênicas em 2010.
Considerando-se o mesmo período em 2011, os valores caem para 86,9 sacas/ha e 92,3 sacas/ha, respectivamente. Em média, a variação representa melhora de 40% no poder de compra do produtor.
No Sul do País, também houve melhora para o produtor. Na região de Londrina, a relação de troca
melhorou 35%, em Cascavel e em Passo Fundo (RS), 33% (Figura 1).
A melhora na relação de troca de um ano para outro reflete a forte valorização do milho, já que os custos também aumentaram no período. O fertilizante 08-20-20, por exemplo, em abril/10, era cotado a R$ 843,50/t em Cascavel; já em abril/11, atingiu R$ 969,00/t. A valorização do milho, no entanto, permitiu que a relação de troca caísse de 60,7 sacas de milho por tonelada de fertilizante para 40,5 sacas de milho/t.
Com a redução das lavouras de milho verão nas regiões mais tradicionais do Sul e Sudeste, ocorreu aumento nas áreas de soja na safra 2010/11. Nos estados do Paraná, Rio Grande do Sul e Minas Gerais o avanço da soja foi de 2,4%, 2,7% e 1,0% respectivamente em relação à temporada anterior.
Para a soja, embora a relação de troca não estivesse tão favorável no início de 2010 quanto pode ser verificado em 2011, a margem sobre o custo operacional era superior à do milho (Figura 02).
Considerando-se os preços médios de venda de soja e milho em março e abril de 2010 e as informações de produtividade obtidas em painéis de levantamentos de custos realizados pelo Cepea, observa-se que em Uberaba a produtividade de nivelamento (143,4 sc/ha nas variedades convencionais e 151,8 sc/ha nas transgênicas) necessária para pagar o custo operacional era superior à produtividade de 140 sacas de milho/ha esperada. Já a cultura da soja, nesse mesmo período de 2010, gerava receita líquida operacional equivalente a cerca de 10 sacas de soja/ha.
Com a melhora dos preços de venda e conseqüente favorecimento da relação de troca, a produtividade
de nivelamento, em sacas /ha, foi cerca de 20% menor em março e abril/11, se comparada ao mesmo
período do ano passado. Esse excelente cenário tanto para a cultura da soja quanto para a do milho em
2011 pode acabar restabelecendo o equilíbrio na alocação da área entre o cereal e a oleaginosa na
próxima safra. Vale ressaltar também que o produtor deve ficar atento para o melhor momento de
compra de insumos, levando em conta não apenas o preço nominal dos mesmos, mas também o poder
de compra do seu, seja ele soja ou milho.
Fonte: Cepea/CNA
Figura 1: Custo Operacional, em sacas/ha, de milho verão OGM - preços referentes aos meses de março e abril de 2010 e 2011.
Fonte: Cepea/CNA
Figura 2: Custo Operacional, em sacas/ha, de soja OGM – preços referentes aos meses de março e
abril de 2010 e 2011.
TRITICULTURA EM MAUS LENÇÓIS
A baixa remuneração obtida com o trigo nos meses de tomada de decisão e semeadura deve resultar em recuo de 12% na área cultivada no Paraná, segundo estimativa do Deral/Seab. Em contrapartida, o órgão estima que a área de milho de segunda safra aumentará 21%. Até o final de abril, aproximadamente 30% da área prevista para o trigo já havia sido semeada no estado.
No Paraná, o trigo deve ser prioridade apenas para agricultores que utilizam a lavoura na rotação de culturas, para aqueles que não conseguiram semear todo o milho safrinha planejado – devido principalmente ao atraso na colheita da soja e do milho verão – e para aqueles que não possuem outra(s) opção(ões). Para os agricultores que se enquadram nestes perfis, só resta semear e torcer para que tudo ocorra da melhor forma possível e que os preços do cereal se recuperem para garantir ao menos a liquidação dos custos operacionais.
Nas regiões em que produtores já iniciaram o semeio do trigo, a decisão de compra dos insumos foi tomada entre os meses de fevereiro e abril/11. Considerando-se o preço de venda e os valores de compra de insumos neste período e a produtividade média dos anos de 2004 á 2008 (IBGE), a receita bruta não seria suficiente para saldar nem o custo operacional.
Em Cascavel, tomando-se por base os preços médios de fev-abril/11, o produtor típico desembolsaria R$ 1.260,20/ha e obteria receita bruta média de R$ 762,33/ha, caso colha em média 33,8 sacas/ha, comercializadas a R$ 22,53. Em Londrina, o quadro se repete, com um desembolso por hectare de R$
1.358,96 e receita bruta de R$ 914,85.
Em Carazinho, no Rio Grande do Sul, a semeadura do cereal não havia sido iniciada até o final de abril, e os produtores ainda estavam em período de tomada de decisão sobre o que cultivar no inverno.
Porém, o quadro não difere significativamente do apresentado nas duas regiões paranaenses descritas anteriormente. O desembolso de R$ 1.331,11/ha estimado pelo Cepea para Carazinho não seria pago com a receita bruta de R$ 994,09/ha, tomando-se por base produtividade de 45 sacas/hectare ao preço médio de R$ 22,09/saca entre os meses de fevereiro/11 e abril/11.
Essa situação desfavorável ao trigo no Brasil reflete os preços atuais, que estão nos menores patamares observados desde início da década de 2000, início da série de preços do Cepea. No segundo semestre, momento de comercialização, tradicionalmente, os preços são ainda menores.
Nas figuras abaixo, apresentam-se índices de sazonalidade dos preços do trigo em algumas regiões os
preços foram transformados em índices, com a média de jan/02 a dez/10 assumindo valor 100. Os
dados apontam que os maiores valores são observados no primeiro quadrimestre de cada ano, que
coincide com o período de decisão do produtor e também com o pico da entressafra. Assim, criar
expectativa para uma recuperação dos preços do trigo nos próximos meses pode não parecer a decisão
Nos meses de pós-colheita, de junho em diante no Paraná e a partir de outubro no Rio Grande do Sul, os preços do trigo no mercado de balcão ficam abaixo da média anual. Geralmente a venda, dada a necessidade de caixa do produtor, ocorre neste período.
Apesar de se ter em mãos médias estatísticas, é preciso destacar a dificuldade de previsão de preços, sinalizada pela disparidade das linhas de limites superiores e inferiores ao índice médio em cada gráfico. É no período de pós-colheita também que acontece a maior incerteza sobre os preços pagos ao produtor. Tanto no norte como no oeste do Paraná, a análise gráfica do comportamento dos preços mostra que os mesmos podem variar entre 19% acima e 15% abaixo da média anual no mês de outubro, quando a safra já finalizou – em alguns anos, o Cepea não conseguiu captar nem mesmo indicação de preços nestas regiões. No centro-norte do Rio Grande do Sul, a situação é similar, porém, variando de 14% acima a 11% abaixo da média de outubro.
Do ponto de vista do produtor, “a sorte está sendo lançada”, ou melhor, semeada nos campos para a temporada de inverno. Só resta torcer pelo clima, esperar que os preços compensem os investimentos e torcer para o êxito de todos os agentes envolvidos com a cultura.
80 82 84 86 88 90 92 94 96 98 100 102 104 106 108 110 112 114 116
jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
PASSO FUNDO - BALCÃO
Índice sazonal Limite superior limite inferior
Fonte: Cepea
Figura 3: Índice de sazonalidade de preços do trigo pago ao produtor em Passo Fundo (RS).
80 82 84 86 88 90 92 94 96 98 100 102 104 106 108 110 112 114 116 118 120 122
jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
OESTE - BALCÃO
Índice sazonal Limite superior limite inferior
Fonte: Cepea
Figura 4: Índice de sazonalidade de preços do trigo pago ao produtor na região Oeste do Paraná.
80 82 84 86 88 90 92 94 96 98 100 102 104 106 108 110 112 114 116 118 120 122
jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
NORTE - BALCÃO
Índice sazonal Limite superior limite inferior
Figura 5: Índice de sazonalidade de preços do trigo pago ao produtor na região Norte do Paraná.
CONDIÇÕES FAVORÁVEIS PROMOVEM SAFRA RECORDE DE SOJA
A produção de soja no Brasil na safra 2010/11 deve se concretizar como a maior da história, atingindo 72,2 milhões de toneladas. Entre os fatores que justificam o crescimento citam-se o aumento de área de produção e a condição climática favorável para o desenvolvimento da lavoura.
No período do planejamento da safra, a expectativa positiva de bons preços das commodities agrícolas motivou os agricultores a expandir a área de soja e a aumentar o investimento em insumos. Durante o ciclo de desenvolvimento das lavouras, a distribuição regular das chuvas, ao contrário das estimativas pré-safra, proporcionou bom desenvolvimento com baixa incidência de doenças, garantindo alta produtividade. Com isso, a rentabilidade também foi favorecida, com melhores resultados que o planejado antes do cultivo em 2010.
A área estimada para a safra 2010/11 supera 24 milhões de hectares no País, a maior já registrada no Brasil. Nos últimos dez anos, a área cultivada com soja aumentou nas cinco regiões do País, entretanto a participação dessa oleaginosa na área total das regiões Sul e Sudeste diminuiu. Nesse período, a região Norte teve o maior aumento percentual de área, saindo de 141 mil para 604 mil hectares, principalmente nos estados do Tocantins, Rondônia e Pará, segundo a Conab. Apesar disso, esta região representa apenas 2,5% da área nacional de soja. A região Centro-Oeste segue na liderança, com 44,75% da área total, com destaque para os estados de Mato Grosso e de Goiás, segundo a Conab.
A produtividade também bateu recorde, de 2.989 kg por ha (média nacional), com ganho de 2,2%
sobre a safra 2009/10. Desde a safra 1976/77, a produtividade média brasileira subiu 71%, mas com ganhos principalmente até início da década de 2000. Na safra 2010/11, as maiores produtividades foram obtidas nas regiões Nordeste e Centro-Oeste, com destaque para o Distrito Federal, Piauí e Mato Grosso.
A estiagem ocorrida no inverno de 2010 no Cerrado brasileiro, o que era esperado, proporcionou maior sucesso ao vazio sanitário e, conseqüentemente, reduziu o potencial de inóculo do fungo Phakopsora pachyrhizi, agente causal da ferrugem asiática da soja. Assim, segundo colaboradores do Cepea, foram exigidas menos aplicações com fungicidas e a produtividade provavelmente foi pouco prejudicada pela doença nesta safra.
Além da menor incidência da ferrugem, o ambiente foi favorável à produtividade, com chuvas bem
distribuídas. Alguns problemas foram registrados devido ao excesso de chuvas no período de colheita,
principalmente quando a operação foi realizada em janeiro e fevereiro. Entretanto, em poucos casos
ocorreram queda de produtividade, o que não afetou as médias nacionais.
Por fim, a produção total nacional superou 72 milhões de toneladas de soja, a maior quantidade registrada na história brasileira. Desde 1976/77, a produção aumentou 494,7%, sendo que apenas nas últimas 10 safras a produção aumentou 71%, segundo dados da Conab.
Para completar, a rentabilidade foi favorável nesta safra. Considerando os meses de junho a agosto (2010) como de compra de insumos e com preços médios de venda de janeiro a abril (2011), em todas as regiões analisadas o custo total foi pago com folga (Figura 1). Os bons preços da oleaginosa proporcionaram retorno sobre o custo total de 12,6% em Rondonópolis a 47,9% em Luiz Eduardo Magalhães. Importante destacar que os cálculos foram baseados nos coeficientes técnicos e produtividades obtidas em painéis de custos da safra 2009/10.
R$ - R$ 500,00 R$ 1.000,00 R$ 1.500,00 R$ 2.000,00 R$ 2.500,00 R$ 3.000,00
Carazinho - RS Londrina - PR Maracaju - MS Rio Verde - GO Rondonópolis - MT
Uberaba - MG Luis Eduardo Magalhães - BA Custo total (planejamento) Receita total (colheita)
Fonte: Cepea/Cna
Figura 6: Custo total de produção de soja (R$/ha) de junho a agosto de 2010 e rentabilidade de janeiro a abril de 2011 para diferentes regiões brasileiras.
Vale lembrar que algumas regiões do país não tiveram o mesmo resultado econômico positivo, pois registraram excesso de chuvas no período da colheita da soja ou seca no desenvolvimento das lavouras. No caso mais extremo e isolado, registraram-se situações em que os produtores não conseguiram colher a oleaginosa, como no sul de Mato Grosso do Sul e Sul de Goiás e outros tiveram perdas de qualidade do grão.
Em geral, a safra 2010/11 foi positiva e ajudará o agricultor a liquidar suas dívidas de outras
temporadas. Para os mais capitalizados, o retorno positivo os anima a ampliar os investimentos, mas
essa tomada de decisão não deve ser feita por impulso e sim devidamente avaliada para se evitar
problema futuro.
MILHO DE PRIMEIRA SAFRA: MENOS ÁREA E MAIOR PRODUTIVIDADE
A produtividade do milho primeira safra tem sido crescente no Brasil, proporcionando elevação contínua também da produção. Do lado da rentabilidade, devido à boa produtividade e ao aumento dos preços, a safra 2010/11 foi lucrativa aos produtores.
O milho de primeira safra ultrapassou 7 milhões de hectares em 2010/11, segundo dados da Conab.
No entanto, as áreas das duas safras recentes (apenas para o milho de primeira safra) foram às menores da série. A produtividade média nacional, no entanto, foi a maior já registrada, de 4.427 kg ha por hectare (safra 2010/11) acréscimo de 0,34% em comparação a 2009/10. Com isso, a produção total foi de 34,3 milhões de toneladas, inferior apenas aos valores alcançados nas safras 2000/01, 2002/03, 2006/07 e 2007/08, nas quais a área cultivada foi expressivamente maior.
O custo total de produção do milho de primeira safra considerando-se os coeficientes técnicos da safra 2009/10 e preços de compra de insumos da safra 2010/11 (média dos preços no varejo de junho a agosto de 2010), foi de R$ 2.996,59 em Londrina (PR) a R$ 4.625,32 em Luiz Eduardo Magalhães (BA) (Figura 2). Considerando-se que o milho foi vendido a preços médios de inicio de 2011 (janeiro a abril), a rentabilidade sobre o custo total alcançou 87,7% em Luiz Eduardo Magalhães e 39,42% em Londrina.
R$ - R$ 500,00 R$ 1.000,00 R$ 1.500,00 R$ 2.000,00 R$ 2.500,00 R$ 3.000,00 R$ 3.500,00 R$ 4.000,00 R$ 4.500,00 R$ 5.000,00