GESTÃO DE PROJECTOS
Gestão de projectos ⇒ vem do inglês Project management (realização/empreendimento)
Um projecto:
• A realização, empreendimento; realização tendo em vista um objecto.
• É um processo que se desenvolve no tempo, não é instantâneo, tem um início e um fim;
• Visa atingir um objectivo bem definido, é um processo específico para atingir aquele objectivo;
• Consumo de recursos (implica custos)
• Envolve riscos.
A função do gestor do projecto é a de definir a melhor trajectória, para a entidade ou pessoa que se designa de dono do projecto (que é quem define as necessidades do projecto), desde o ponto inicial até ao ponto final. A função “dono do projecto” é fundamental para o gestor; não é o gestor que define as restrições/objectivos, estes emanam antes daquele que decide levar o projecto avante. Neste contexto, a escolha da trajectória poderá não ser a mesma se houver alterações a nível do dono do projecto.
Num projecto podem estar envolvidas outras pessoas ou entidades (stakeholders) com interesses e objectivos diferentes dos do dono do projecto, e que podem ter o seu próprio gestor do projecto. Há situações em que podem existir vários donos do projecto, com os seus gestores do projecto, o que acarreta complicações à realização do projecto.
gestor do projecto ≠ dono do projecto
A definição de dono do projecto é fundamental para o gestor do projecto porque os objectivos, restrições e valores do projecto são estabelecidos pelo dono do projecto e são fundamentais para o gestor.
Exemplo: na avaliação de projectos para a construção da linha do metro Alameda – Expo’98 o factor mais importante que foi tido em conta foi o factor tempo de execução porque era necessário haver metro quando abrisse a Expo’98. Ora, este factor foi definido pelo dono do projecto e não pelo gestor.
Associado a um projecto existe um conjunto numeroso de entidades envolvidas:
- Dono do projecto;
- Gestor do projecto ou entidade gestora - Executante
- Entidade financiadora
- Equipa técnica ou projectista - Entidade auditora ou fiscalizadora
Para evitar que todas estas entidades entrem em conflito, para reduzir esta conflitualidade, o dono do projecto deve estabelecer regras claras de colaboração, ie, na fase de contratação devem estabelecer-se as regras a observar durante a realização do empreendimento, e esse estabelecimento deve ser feito pelo dono da obra a través do contrato. Isto não quer dizer que se estabeleça tudo, tem que haver algum espaço de manobra e apenas reduzir a conflitualidade. Não se deve vestir um
“colete-de-forças” aos intervenientes, sendo picuinhas, deve prevalecer o bom senso. Deve sempre ter-se o cuidado de, ao estabelecer as regras, não elaborar um contrato leonino.
Parcerias Público Privadas (PPP) ⇔ projectos onde intervêm entidades públicas e privadas e onde há transferência de riscos para as entidades privadas, havendo uma partilha dos mesmos. No entanto, por vezes existem cláusulas de equilíbrio financeiro, segundo as quais a entidade pública garante que há fundos para concluir o projecto, dai que não haja partilha de risco. O princípio da parceria é apetecível no que diz respeito aos benefícios (sobretudo para os privados).
Fases do projecto:
Um projecto tem três grandes fases de vida:
Têm cada um o seu próprio
gestor, porque os objectivos,
atribuições, missão e restrições
não são as mesmas para todas
estas entidades
1) Ideia – análise de
viabilidade 2) Detalhe e
desenvolvimento da ideia
3) Execução
Factores técnicos,
sociais e religiosos Só faz sentido iniciar esta fase quando existe um mínimo de viabilidade (plano de trabalhos)
1. O projecto termina com o objecto e inicia-se quando o dono do projecto tem a ideia (do tal objecto) que pretende atingir. A ideia surge quando se detecta:
• uma oportunidade ou,
• uma necessidade / carência,
e o objecto corresponde à satisfação dessa carência / necessidade ou ao agarrar da oportunidade.
2. Após a ideia deve-se fazer uma análise de viabilidade (não apenas financeira, mas de todos os factores que podem influenciar o projecto e comprometer a realização da ideia, tais como, factores económicos, financeiros, técnicos, religiosos, etc.). A análise de viabilidade deve ser realizada cedo para evitar o desperdício de recursos (tempo e dinheiro).
3. Após a análise de viabilidade temos a fase de detalhe e desenvolvimento da ideia, que engloba a definição do objecto e do processo tecnológico, bem como dos recursos que vamos necessitar. Só faz sentido iniciar esta fase quando existe um mínimo de viabilidade, e só faz sentido passar à próxima fase se não houver dúvidas nesta.
4. A última fase antes do objecto é a fase de execução.
A maior parte das vezes há sobreposição/retroactividade entre estas 3 fases:
• Entre a ideia e a análise de viabilidade é importante a sobreposição para se seleccionar alterar e/ou melhorar as ideias com descobertas feitas durante o estudo de viabilidade;
• Entre a fase de análise da viabilidade e a fase de detalhes e
desenvolvimento é quase obrigatório que exista esta sobreposição, porque
a fase de detalhes e desenvolvimento tem que respeitar o que foi definido
durante a análise de viabilidade ou então vai mostrar ao gestor do projecto
que a ideia poderá ser mudada e/ou ter outras alternativas e públicos alvo
4
construção a 100€/m 2 ⇒ mas o arquitecto planeia edifícios de luxo e diz ao gestor do projecto que é a habitação de luxo que vende ⇒ por isto o gestor vai alterar o objecto e tem que fazer nova análise de viabilidade);
• Entre a execução e a fase de detalhes e desenvolvimento da ideia não deve haver sobreposição porque leva a grandes derrapagens.
Em cada fase de um projecto deve haver planeamento e um plano. O planeamento não é a execução de um plano mas sim um processo ou a forma como se vai desenvolver o projecto. Na gestão do empreendimento tem que existir planeamento.
O gestor do projecto tem que estar atento às variáveis do mercado (variáveis exógenas ou conjunturais) que condicionam o seu projecto, variáveis que não controla, de modo a poder adequar o planeamento da melhor forma possível. A informação para o gestor é fundamental. O planeamento não é estático ⇒ é necessário existirem momentos de revisão do projecto.
A adaptação do plano à realidade é fundamental para o gestor porque a elaboração do plano se apoia em variáveis ⇒ daqui a importância da monitorização ⇒ saber se a elaboração está de acordo com o plano e se as variáveis locais conjunturais estão de acordo com o que estava definido no início do projecto e fazer os ajustes que se justifiquem.
A duração das fases de um projecto varia consoante a complexidade do projecto. Em grandes projectos (ex. OTA, TGV, ...) é típico demorar-se 2/3 do tempo em estudos e análises e 1/3 do tempo em execução ⇔ desta forma minimizam-se os erros e derrapagens.
Na grande maioria dos casos os custos de um projecto disparam na fase de execução, num projecto de engenharia civil os custos das 2 primeiras fases atinge no máximo 10% dos custos totais, o que faz com que se deva investir nestas fases, porque se se derrapar aqui, derrapa-se numa percentagem de 10% do projecto (por ex: uma derrapagem de 10% aqui, será 10% de 10% ou seja, 1% do total); se se derrapar na última fase será numa percentagem muito maior (no nosso ex: uma derrapagem de 10% aqui significa 10% de 90% o que corresponde a 9%, ou seja, mais 8% do que se fosse na 1ª/2ª fase).
Início Análise de viabilidade
Execução Detalhe e
desenvolvimento
Fim Objecto
€ 90 a 93% do
custo total
Um projecto vale em geral 5 a 6% do investimento geral, daí não ser lógico escolher os projectistas mais baratos. No entanto, erros no projecto devido à falta de qualidade do projecto levam a custos muito elevados na fase de execução.
Os vectores de preocupação do gestor do projecto são os vectores de preocupação do dono do projecto ⇒ custos, prazos e qualidade. Estes são 3 vectores de preocupação que têm de ser tratados pelo gestor.
Não se deve confundir o tempo de desenvolvimento do projecto com o tempo de espera de resposta das autoridades competentes, porque estas podem demorar muito tempo e não dependem de nós e levar-nos a fazer o resto a correr, para ganhar tempo, originando derrapagens futuras, por mau planeamento.
Qualidade ´ neste vector tem vindo a ser posto de parte aspectos relacionados com o ambiente e segurança (têm legislação própria).
Prazos ´ A forma mais comum de apresentar os prazos é através do gráfico de Gantt ou de barras (cada barra tem o comprimento adequado ao tempo que demora a execução da tarefa). Este gráfico permite representar de forma expedita a duração de cada tarefa e a sua localização.
Activ.
A B C D E F
7 a 10% do custo total
No caso de haver atrasos e ser necessário refazer o calendário de prazos e actividades deve ser feita uma abordagem sistémica ⇒ deve-se fazer coincidir o conceito de sistema com o conceito de empreendimento, ie, deve-se abordar o empreendimento como se fosse um sistema. Esta abordagem permite identificar os elementos distintos e as relações entre os mesmos, o que permite construir um modelo matemático que vai representar uma realidade simplificada.
Sistema ⇒ conjunto de elementos de natureza distinta e das relações que existem entre esses elementos, com vista a um dado output.
É importante olhar para um empreendimento como um sistema porque há actividades que estão relacionadas Ù ao alterar uma actividade posso estar a alterar outra (os prazos, custos, recursos, …).
Se tiver o empreendimento baseado em modelos matemáticos (perspectiva sistémica do empreendimento) temos a representação, em linguagem matemática, da realidade do empreendimento. Qualquer empreendimento é representado através de sistemas e é composto por 2 elementos: recursos e tarefas.
Tarefas ⇒ os atributos relevantes para a gestão podem ser a sua duração, a quantidade de trabalho, datas de início e fim, etc.
Os recursos podem ser:
• Acumuláveis ⇒ permitem a constituição de stocks que alimentam as necessidades do projecto no longo prazo; são medidos em potência;
• Não acumuláveis ⇒ correspondem à utilização de capacidades, pelo que a sua não utilização durante algum tempo implica uma perda irrecuperável; são medidos em quantidades (ex. recursos humanos, electricidade, …);
NB: Atributos dos recursos ⇒ disponibilidade, fornecedor, especialização. São alteráveis consoante as actividades;
Relações entre actividades:
Na maioria dos casos são relações de sequencialidade Ù a actividade B só pode
ser iniciada quando a actividade A tiver terminado. Para a actividade B só é iniciada
quando ocorrem determinadas condições, que têm que ser pré-iniciadas. As relações
de sequencialidade são restrições que uma actividade impõe à localização temporal de outras.
Que tipos de relações de sequencialidade existem:
a) Relações de disjunção: as actividades não podem ser realizadas em simultâneo;
b) Relações de conjunção: as actividades podem ser realizadas em simultâneo;
c) Relações entre pontos conpíscuos 1 das actividades: os pontos conspícuos entre actividades são o início e o fim. As relações entre pontos conspícuos da actividade são as relações entre o início e o fim;
d) Relações (modeladas no MS Project):
o FP ou FS (finish to start): o fim de uma actividade condiciona o início de outra; o início de B tem de ser posterior ao fim de A;
o PP ou SS (start to start): o início de uma actividade condiciona o início de outra; o início de B tem de ser posterior ao início de A;
o FF (Finish to Finish): o fim de B tem de ser posterior ao fim de A;
o PF ou SF (start to finish): o fim de B tem de ser posterior ao início de A;
“lag” ⇒ menor período de tempo que tem de obrigatoriamente decorrer entre instantes relacionados. O lag é sempre medido entre instantes relacionados, qualquer que seja a relação entre actividades; na bibliografia aparece como
“lag” mínimo.
Exemplo: betonagem/descofragem – relação FP: entre as duas actividades (fim da betonagem e início da descofragem) tenho de esperar um mínimo intervalo de tempo
A
B P
P F
F
betonagem descofragem
lag
“lag” máximo: maior intervalo de tempo que poderá ocorrer entre instantes relacionados (acontece com produtos perecíveis); não está modelado no MS Project.
Lag negativo: Perde o sentido, não há tempo negativo (apesar de os modelos em teoria permitirem a sua utilização).
Existem relações de sequencialidade porque o processo tecnológico assim o exige, ou seja, as relações de sequencialidade decorrem do processo tecnológico adoptado.
A disponibilidade de recursos pode levar também à existência de relações de sequencialidade (e neste caso não tem nada a ver com o processo tecnológico), ou seja, as relações de sequencialidade decorrem dos factores exógenos impostos por quem tem poder no projecto.
Há imposições exógenas (ex. tempo) ao projecto (vindas do dono do projecto ou de entidades reguladoras) que influenciam e obrigam à existência de relações de sequencialidade.
Relações entre recursos e tarefas:
• Relação de consumo Ù é o consumo de recursos por aquela actividade;
• Relação de afectação Ù quantos homens vou afectar àquela actividade;
Relações entre recursos:
P A F
B
P F
lag PF
lg FF lag PP
lag FP
• Relação de complementaridade ⇒ para usar um recurso tenho de ter obrigatoriamente a disponibilidade de outro (ex. o recurso grua só pode ser utilizado se for utilizado o recurso manobrador);
• Relação de custo sobre o recurso ⇒ num projecto existe um recurso mais importante que todos os outros, e que está relacionado com todos – o dinheiro, e é com este recurso que se gere a disponibilidade de todos os outros.
Em grandes empreendimentos na AP (grandes obras públicas) o recurso dinheiro é utilizado para pagar o output, a actividade (semelhante à escola americana); paga- se a empreitada. Em pequenos empreendimentos, realizados internamente na AP, continuamos a ter uma relação entre os custos sobre os recursos, ie, os custos estão associados a recursos e não sobre actividades.
Abordagem sistémica Ù representar a realidade, que é complexa!
⇓
Há duas formas de o fazer:
a) Modelos complexos ⇒ difíceis de utilizar ou,
b) Simplifica-se a realidade e criam-se modelos mais simples e mais fáceis de utilizar, apesar das limitações que decorrem da simplificação da realidade.
Um simplificação que foi feita foi a realizada pela marinha dos EUA nos anos 50 para a construção de mísseis rapidamente. O sistema criado só tinha tarefas e a relação entre elas é do tipo FP com “lag” 0 ⇒ Modelo PERT (Program Evaluation and Revue Technique).
Dinheiro: É o que permite adquirir
todos os outros recursos
⇓
Representa o processo de cálculo
Praticamente em simultâneo, na Europa foi desenvolvido um modelo semelhante ao PERT, o modelo CPM (Critical Path Method = Método do Caminho Crítico).
Estes dois modelos são muito semelhantes e ignoram as limitações impostas pelos recursos (para a marinha dos EUA não havia limitações de recursos).
Continuam ambos a ser muito utilizados na gestão de projectos (apesar de já terem sofrido algumas alterações).
• O PERT assume a natureza aleatória da duração das tarefas 2 ;
• O CPM admite que as tarefas (as suas durações) são determinísticas 3 .
MODELO PERT/CPM
¾ Outputs:
- Duração mínima do empreendimento;
- Localização temporal das tarefas por forma a atingir a duração mínima;
- Identificar as actividades que determinam a duração mínima;
¾ Inputs:
- Identificação das tarefas;
- Identificação das relações de sequencialidade;
- Estimativa da duração das tarefas.
Inputs outputs
2 Variável aleatória: o valor apenas é determinável à custa da realização da experiência;
3