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Margarida Corção
prefácio
Margarida Corção tem uma longa ligação com o magistério, e é filha de um mestre da língua portuguesa. Conviveu com as palavras a vida toda (ainda hoje dá aulas particulares de redação).
Seu primeiro livro, Paisagem na Memória, surgiu em 2004. Ei-la que volta com um segundo livro, Itinerário, que é poesia mas também meditação sobre a vida, sobre sua vida. Vida de pessoa hipersensível, a que se soma um lado prático (foi dona de restaurante). Vida de quem nasceu e cresceu em família grande, conheceu todos os dramas e alegrias desse tecido intrincado.
É um texto ágil, enxuto, em que as experiências são destiladas por aguda observação. São cinquenta poemas e alguns não têm mais do que uma linha. Como ela mesma diz, “um bom verso sabe na hora a hora de acabar”. Ou então: “Um
bom verso é como um trem que chega na hora”.
A memória é um de seus terrenos preferidos, “A menina
das tardes que aconteciam estava lá. Poucas frases ditas durante o encontro mágico. Puxavam balas de coco e enrolavam olhos de sogra como uma religião. Raramente desciam desse trono para qualquer conversa íntima”.
Margarida é capaz sempre de densidade humana, como quando se inspira em Cora Coralina: “Eu creio na fala dos
A exemplo de seu ilustre pai, ela pode praticar a “descoberta do outro”. “À minha frente, parada e tímida, a
moça do dente de ouro olhando o desastre. Tomava um copo de água gelada como se fosse um cálice de vinho, uma sede que não estava na boca. Vontade de saber seu nome, idade, tipo sanguíneo, algo que impedisse sua fuga repentina.”
A dor marca presença: “Te emprestei minha alma e a
ilusão do mundo. Foi-me devolvida seca, miúda e desvalida.”
E a memória, tingida de poesia: “Hoje sonhei com ele
numa mesa de jantar forrada com toalha branca, como a casa de nossa avó. Pude ver o moço quieto, muito quieto, lembrando um grande boneco de pano, um espantalho de jardim. Bem perto, bem perto, vi que era meu irmão, transfigurado.” O irmão que
era tempestade, correu mundo e morreu cedo.
E de novo a figura poderosa do pai, que era amante das estrelas. “O pai chegava ao telescópio por uma escada desgastada,
perigo ignorado pelo homem descobridor de curiosidades. De mãos dadas, a filha presa às veredas de surpresas. A coragem chegando devagar, por empréstimo.”
É a poesia se imiscuindo nas reentrâncias do real.
Luiz Paulo Horta Jornalista Membro da Academia Brasileira de Letras
sala de espera
Ter uma falta é a nossa condenação
Carmem Hanning Quanto ao homem que saía havia o porte as mãos o cheiro de suor seu pior Ainda assim sentiu sua falta sem bem saber por quê
poética
Que o céu esteja preparado
para receber a passagem das aves migratórias. Em sua magnífica visita
uma imensa asa-delta voa na direção sul em liderança alternada
esfumaçando apenas a beleza de sua formação geométrica e incansável.
calçadas
Rebuliço de palco
orquestrado por passos apressados cheiro de mijo
celulites exageradas quadris volumosos esquinas desencontradas paredes rabiscadas
Marli, eu te amo, João.
E a vida a nos avançar como uma maratona.
duas primaveras
Para Hebe Corção, minha mãe.
in memoriam
Esperava te ver ainda hoje logo cedo como naquela tarde no Jardim Botânico em flor: orquídeas, vitórias régias, bromélias e risos sob mangueiras centenárias, tempo de calor úmido e previsível. Agora minhas mãos, em gesto esquecido, são pássaro machucado sem espaço livre para te tocar.
confessionário
A felicidade são apenas ecos de enorme silêncio. João Guimarães Rosa
nada justifica ali sua presença:
nenhum orgulho superlativo qualquer soberba estrábica supostas culpas
pecados imaginários torcidos ou descascados