• Nenhum resultado encontrado

A ESQUERDA BEM INFORMADA 1

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "A ESQUERDA BEM INFORMADA 1"

Copied!
20
0
0

Texto

(1)

A ESQUERDA BEM INFORMADA

1

Mônica Mourão2

Resumo: A partir de uma análise do portal Vermelho, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), em comparação com o veículo mais antigo do partido, A Classe Operária, desenvolvemos a idéia de que utilizar a linguagem do jornalismo canônico é fundamental para a comunicação partidária atingir um público mais amplo, extrapolando o âmbito dos filiados e militantes da organização. Acreditamos que essa linguagem funciona como ferramenta de uma estratégia de conquista de hegemonia desenvolvida pelo portal.

Palavras-Chave: Jornalismo. Internet. Partido Comunista do Brasil.

1. Introdução

“A esquerda bem informada”. Um dos slogans do portal Vermelho, mantido pela Associação Vermelho em convênio com o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), sugere-nos algumas frentes de análise dessa página na internet. Extraímos da frase duas características do portal: o público para o qual ele se volta – a esquerda – e o conteúdo que tal público deve encontrar – informação. Esses traços nada teriam de incomum para uma página que compete como uma das melhores de política na internet e que foi premiada nessa categoria pelo iBEST em 2004 e em 2007.

O que chama atenção na atual estratégia comunicativa do PCdoB é sua relação com o passado. O partido se formou em 1962, a partir de uma divisão no Partido Comunista Brasileiro (PCB)3. Apesar das divergências que levaram à cisão, o PCdoB herdou do chamado Partidão, dentre outras questões, a estratégia comunicativa baseada num modelo leninista. Parte concreta desse legado foi o jornal A Classe Operária, órgão central do PCB que se tornou, a partir de 1962, do PCdoB.

1

Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho “Comunicação e Política”, do XVIII Encontro da Compós, na PUC-MG, Belo Horizonte, MG, em junho de 2009.

2

Universidade Federal Fluminense (UFF). [email protected] 3

O nome do partido criado em 1922 era Partido Comunista do Brasil, com a sigla PCB. Com sua divisão, em 1962, a “nova” organização manteve esse nome, mas com a sigla PCdoB, para diferenciá-lo do agora Partido Comunista Brasileiro (que continuaria sendo PCB).

(2)

O jornal foi elaborado e circulou livremente de 1962 até março de 1964, sendo fechado devido ao golpe militar. Retornou no ano seguinte e manteve-se na ilegalidade durante toda a ditadura. Era um veículo de formação e reforço de orientação política, voltado para os militantes do partido. Com as sinalizações de abertura, ele continuou com esse perfil, sendo criado outro veículo para atingir um público mais amplo e desenvolver a nova orientação política de “frente ampla”: o jornal Tribuna da Luta Operária. O jornal circulou pela primeira vez em outubro de 1979 e era distribuído por militantes e simpatizantes do PCdoB em fábricas, sindicatos e universidades. Marcante devido à sua inserção na sociedade civil, o Tribuna da Luta Operária parece realmente ter cumprido seu papel político no período de abertura, tendo deixado de circular em 1988, três anos depois do fim do regime militar no Brasil.

Assim, não ignoramos que a mudança de estratégia comunicativa do PCdoB foi gradual. Mas optamos por trabalhar com dois períodos de grande contraste: a mais dura clandestinidade e a intensa participação no regime democrático.

Se compararmos o portal Vermelho ao mais antigo veículo de comunicação do partido, o jornal A Classe Operária, vamos vislumbrar diferenças radicais: enquanto um servia como reforço de idéias e condutas para um grupo restrito, o outro tem a pretensão de abranger todos os segmentos da esquerda através da informação, utilizando-se para isso, principalmente, da linguagem jornalística. Entretanto, o próprio editorial do portal, intitulado “Manifesto Vermelho”, aproxima o que, à primeira vista, parece díspar.

O ferramental da interatividade abre todo um universo de possibilidades para Vermelho ter um uso múltiplo, polivalente. Os jornais operários de cem anos atrás já se colocavam as tarefas de organizadores coletivos. Um portal na internet permite que se eleve ao cubo essa função, e que se agregue muitas outras, de finanças, formação, acervo das idéias, das obras e da memória do movimento, para não falar da mobilização concreta em torno das batalhas de cada momento (Manifesto Vermelho, 2002).

Como se pode ler acima, o novo veículo de comunicação do partido dialoga com os antigos meios, assumindo uma mesma função: a de organizador coletivo. Desde o seu lançamento, o portal assume como herança um modelo usado décadas antes, mostrando que também existe semelhança entre tais estratégias comunicativas.

Para realizar uma análise do portal Vermelho que considere historicamente a comunicação partidária do PCdoB, precisamos nos referir a veículos anteriores ao portal. Por

(3)

isso, antes de lidarmos com nosso objeto em si, vamos tratar da tradição da comunicação do Partido Comunista do Brasil, vinculada às concepções de Vladimir Ilicht Lênin. Veremos, brevemente, o que ele propunha e sua vinculação – ou afastamento – em relação ao jornal A Classe Operária na década de 1970. Essa se constitui a primeira parte do presente trabalho.

Consideramos que a função primordial do jornal naquele momento era manter coeso o grupo de militantes do partido, oferecendo orientação política e reforçando certa identidade comunista. Isso significaria que a informação jornalística, se pensarmos no jornalismo como uma formação discursiva, não constituída matéria-prima d’A Classe Operária nesse período. Tal constatação nos faz abandonar uma perspectiva transmissional da comunicação, na qual seu principal papel seria transmitir informações, e nos atermos a uma perspectiva ritual, ligada a reforço de valores e idéias. Também nessa parte do artigo, discutimos a relação do jornalismo praticado pela Classe com o chamado publicismo, que seria a defesa de certos ideais, sem acionar recursos jornalísticos como a objetividade – ou os rituais de objetividade, já que ela própria seria inalcançável.

A segunda parte deste artigo se refere ao Vermelho. Por ser um portal, voltado a um público amplo, é a porta de entrada para os demais meios de comunicação do partido4. Trata-se de um espaço com forte caráter jornalístico e que coaduna com uma visão geral e agregadora de esquerda – não fechada aos princípios partidários do PCdoB, embora estes tenham destaque em relação às demais correntes. A parte central do portal é formada por notícias. Assim como nos jornais standard, elas são separadas em dois espaços: na parte superior, as notícias em destaque, com trechos das matérias e fotos. Na inferior, o portal apresenta divisões por editoria (FIG. 1).

4

Atualmente, podem ser acessados através dele: o site do PCdoB; o jornal Classe Operária; a revista

(4)
(5)

Como a parte central é o espaço mais privilegiado da página, essas observações já são suficientes para aferirmos que o Vermelho busca, prioritariamente, conquistar o público em geral, através da informação. Essa função é oposta àquela desempenhada pelo jornal A Classe Operária durante a década de 1970. Além disso, o Vermelho apresenta dezenas de atualizações diárias, e sua organização espacial se assemelha com a de outros portais de notícias que podem ser acessados através da internet.

A organização espacial e a multiplicidade de públicos que o portal pode abranger serão os principais aspectos analisados nessa parte. Defendemos que os lugares do portal também comunicam a função de seus textos, além da maneira como eles são escritos. E essa função está intrinsecamente ligada ao tipo de público que se almeja como interlocutor. Defendemos que a inserção do partido num amplo debate de idéias, através de um veículo que se ancora na identidade partidária, mas não se limita a ela, necessita do acionamento da linguagem jornalística canônica ou da organização especial ligada a esse tipo de jornalismo.

2. A herança leninista e o jornal A Classe Operária

Afirmando-se como uma organização marxista-leninista, o jornalismo do PCdoB não poderia deixar de ser tributário ao modelo desenvolvido por Vladimir Ilitch Lênin. Um dos principais líderes da Revolução Russa, Lênin também foi um teórico. O modelo leninista dizia respeito aos órgãos de imprensa de um partido comunista, que estariam intimamente ligados à construção do partido, como organizador coletivo. A idéia era de que o jornal, através da capilaridade adquirida em todo o país devido à sua rede de agentes (ou correspondentes), formasse o partido. Depois de criada a organização, o problema se inverteria, e esta passaria a definir o jornal, estando a atividade jornalística sob o comando do Comitê Central (Lênin, 1979).

O jornal deveria ter uma capilaridade suficiente para abranger todo o país e, assim, organizar a luta política e unificá-la. Mas um partido comunista não deveria se valer apenas de um jornal, e sim de uma “imprensa social-democrata”5. Lênin propunha que os veículos dessa imprensa deveriam se dirigir a diferentes setores do proletariado, de acordo com seu nível de consciência de classe. Todos deveriam fazer propaganda e agitação, mas em graus

5

Nome utilizado por Lênin para se referir ao conjunto de veículos de comunicação de um partido comunista revolucionário (Worontzoff, 1977).

(6)

diferentes. Através da propaganda é que o nível de conscientização seria elevado, com a interpretação de informações dos mais variados assuntos. A agitação é que levaria os leitores da teoria à ação.

Desse modo, Lênin sugeria três tipos de veículos: 1) o órgão central, para os operários avançados; 2) um jornal popular, para os operários médios e 3) manifestos, brochuras populares – imprensa legal – e mesmo a agitação oral para as camadas inferiores do proletariado. Essa divisão dos proletários dizia respeito ao nível de conscientização dos mesmos. Lênin pretendia, assim, tanto adequar a imprensa ao público como elevar seu grau de consciência política.

A criação do partido, segundo Lênin, de nada adiantaria caso não houvesse um jornal que pudesse traduzir seu pensamento e fornecer explicações públicas para os acontecimentos políticos, guiando manifestações. Os responsáveis pelo órgão central deveriam então reunir os documentos do partido e analisá-los através do jornal, além de fornecer interpretações para os fatos da atualidade. Para abranger todo o país e não deixar escapar importantes acontecimentos, o jornal deveria contar com uma ampla rede de colaboradores – tanto da estrutura do partido, quanto operários interessados em compartilhar experiências locais de luta (Worontzoff, 1977).

Durante um breve período de legalidade do partido, muitas dessas diretrizes leninistas foram seguidas pela “Imprensa Popular”, nome dado à rede de jornais e revistas legais do PCB de 1945 a 1947 (Serra, 2007, p. 2). Já durante os anos 1970, após a divisão do chamado “Partidão”, encontramos um momento de dura clandestinidade. As condições não permitiam ao PCdoB manter uma imprensa de massas, com uma forte rede de colaboradores. Mas acreditamos que não só o contexto político impedia a ampliação do público leitor d’A Classe Operária. Estar voltado para um grupo restrito fazia parte da própria estratégia do partido de fortalecer sua militância e está de acordo com a idéia de que os militantes comunistas formavam a vanguarda da oposição à ditadura militar, sendo os organizadores e condutores das lutas do proletariado.

Consideramos que um dos objetivos da comunicação, talvez mais importante do que a transmissão de informações, é tornar comum certa visão de mundo entre os leitores, espectadores ou ouvintes de determinado veículo (Carey, 1989). Essa é uma função presente em todos os meios de comunicação, visto que reforçam e amplificam sentimentos ou ideais coletivos, mesmo quando também – ou principalmente – transmitem informações.

(7)

No caso do circuito comunicativo construído em torno d’A Classe Operária nos anos 1970, sua vinculação mais forte se dá com o ritual midiático, ao mesmo tempo em que se afasta da perspectiva transmissional, já que esse jornal não fornecia aos seus leitores “informações” em forma de “notícias”, tal como as conhecemos no que chamamos de jornalismo canônico. A Classe não seguia um modelo de jornalismo baseado em notícias construídas de forma a não revelar a subjetividade de quem as escreve, com técnicas como o uso de citações e a ausência de adjetivos. Seus textos seriam considerados artigos de opinião, mas o jornal não era dividido entre seções informativas e opinativas.

Escolhemos o excerto reproduzido abaixo como exemplo de que A Classe não se encaixa no modelo de jornalismo que se pretende objetivo. O trecho faz parte da matéria intitulada “Cresce movimento de protestos contra violências da ditadura”, que trata de diferentes movimentos da sociedade civil denunciando prisões e torturas do regime militar.

Simultaneamente com a onda repressiva, oficiais das Forças Armadas desmandam-se em declarações furibundas. O general Potiguara, comandante do IV Exército, babando ódio, afirmou que seus iguais não estariam dispostos a esquecer “os perturbadores da ordem, autênticos criminosos que nada mais desejam do que entravar o processo do nosso (isto é, deles, militares-NR) desenvolvimento” (A Classe Operária, n° 100, set 1975, p. 04, grifo nosso).

Essa é uma das raras matérias do jornal, nesse período, que utiliza citações. Mas, como se percebe, ela não foi usada para dar ao texto uma aura de objetividade.

O tipo de texto veiculado pela Classe poderia ser classificado como publicismo, ao invés de jornalismo, caso consideremos as definições desenvolvidas por Chalaby. Para ele, os publicistas defendem os interesses políticos de uma classe social em nome de quem eles falam e analisam o processo político do ponto de vista particular da classe social que representam (Chalaby, 1996, p. 16). Contudo, acreditamos que essa função é compatível com o jornalismo, enquadrando-se ou não no modelo canônico considerado por Chalaby.

Para esse autor,

o jornalismo é uma invenção do século XIX. A profissão do jornalista e o discurso jornalístico é o produto da emergência, durante esse período, de um campo de produção discursiva especializado e cada vez mais autônomo, o campo jornalístico (Chalaby, 1996).

(8)

Ele enfatiza ainda que o jornalismo seria uma invenção anglo-americana, constituindo-se de formas narrativas organizadas em torno de fatos e que utiliza as práticas de reportagem e entrevista. Utilizaremos a definição de jornalismo de Chalaby para nos referirmos ao jornalismo canônico, o que permite uma comparação com as práticas desenvolvidas pelos meios de comunicação do PCdoB. Mas consideramos que esse conceito é apenas uma prática possível dentro da atividade jornalística, que não excetuaria produções como A Classe Operária.

3. “A esquerda bem informada”: o portal Vermelho

Slogan do portal Vermelho, a frase “A esquerda bem informada” resume bem a proposta desse veículo. Como dissemos anteriormente, o portal apresenta traços de que não é voltado para um público interno ao partido, mas sim para o público “em geral”. O que não significa qualquer público: são pessoas que coadunam com uma visão “de esquerda”. Para atingi-las, o Vermelho utiliza a informação e abrange temas que não estariam presentes caso o veículo se restringisse a questões partidárias. Mas nem todo o conteúdo do Vermelho parece ser endereçado a um público mais amplo. Algumas seções mostram-se de interesse das pessoas do PCdoB.

Desse modo, relacionamos dois tipos de público: interno (militantes, filiados e líderes) e externo (simpatizantes, leitores, pessoas de outros partidos). A possibilidade de reunir públicos diversos num só veículo, facilitada pela internet, demonstra que o portal é instrumento de uma estratégia comunicativa múltipla: ao mesmo tempo em que serve para a educação e mobilização da militância, também se apresenta como contra-hegemônico em relação aos meios de comunicação comerciais ou como tentativa de construir hegemonia entre os veículos de esquerda. Essa última função só pode ser desenvolvida quando o portal se volta para o público geral ou externo ao partido através da linguagem ou da organização espacial jornalística.

A forma como o portal se organiza constrói um mapa social, demonstra a maneira como essa mídia se imagina e atua (Barnhurst; Nerone, 2001, p. 03). Se a forma corporifica as relações entre a mídia, a sociedade e a política, o portal Vermelho apresenta diferentes lógicas

(9)

comunicativas, que dependem não apenas de cada seção, mas de cada espaço na página. A organização do portal também comunica sobre a função das seções e dos textos.

Assim, sugerimos um mapa de leitura do Vermelho, dividindo-o em três espaços principais: a parte central, a coluna da direita e a coluna da esquerda. Cada uma dessas partes apresenta papel e público prioritários. A central e a da direita podem ser entendidas como estando integradas numa lógica jornalística canônica, na qual desempenham papéis complementares: a primeira se caracteriza como um espaço fundamentalmente informativo, estruturado em torno de notícias; a segunda se configura como um espaço de caráter opinativo.

Ao organizar estes dois tipos de conteúdo em espaços distintos, o portal segue a lógica característica do discurso jornalístico canônico através da separação formal entre fato e opinião. Isso não significa necessariamente que o espaço do centro seja dominado por uma lógica do fato “puro”. Como veremos adiante, matérias inseridas nesta parte apresentam um caráter fortemente opinativo. O ponto a se destacar é que, ao inserir essas matérias no espaço “factual”, o portal busca dar a elas uma base de autoridade mais ampla do que aquela que se constitui a partir da identificação ideológica por parte de militantes e simpatizantes, o que fornece um claro exemplo de uso da linguagem jornalística como recurso de hegemonia.

A principal função desempenhada pelos textos da parte central do Vermelho é informativa. Ela é voltada para o público externo, ao contrário d’A Classe Operária da década de 1970. O portal Vermelho não tem como função principal aglutinar o grupo formado por militantes do PCdoB. Acreditamos que seu papel prioritário é desenvolver uma estratégia de conquista de hegemonia através da comunicação.

O centro do portal é o espaço mais privilegiado da página, o que ocupa maior espaço e tem mais visibilidade. Dedicá-lo um conteúdo jornalístico de interesse geral e não específico de questões partidárias mostra que o circuito comunicativo formado visa à inserção do PCdoB na sociedade civil. Por outro lado, essa estratégia não exclui a identidade do partido em seus meios de comunicação, mesmo os voltados especialmente para o público externo. É função da coluna da esquerda do portal ancorá-lo na lógica partidária, com seções como “Quem somos”, “Manifesto Vermelho” (uma “proclamação de compromissos” do portal) e trechos de notícias sobre o PCdoB, com link para o site do partido (“Partido Vivo”) (FIG. 2).

(10)
(11)

O espaço central, dedicado a notícias, é dividido em cinco. Em destaque na página está um grupo de quatro matérias, uma delas sempre com foto, na parte superior da página. Abaixo delas, temos notícias organizadas por tema: Brasil, América Latina, Economia, Mundo, Movimentos, Geral, Mídia e Cultura. Separando esses dois grupos principais, o Vermelho utiliza um banner que reúne notícias sobre o tema candente do momento. No período pesquisado6, tratava-se da “Crise do capitalismo” (FIG. 3).

6

(12)
(13)

Há ainda dois espaços de menor destaque: o “Vermelho on line”, no topo da página, com chamadas para algumas das atualizações do dia; e os temas “Especiais”: Eleições 2008, Petróleo Pré-sal, Rádio Vermelho, Bloqueio de Cuba, Prosa @ Poesia. Em seguida, uma janela permite que se acessem “Mais especiais”. Tanto a categoria “Especiais” como a “Mais especiais” são formadas por notícias publicadas sob uma das oito retrancas e ali reunidas para permitir o acesso a tudo o que foi publicado no Vermelho sobre um tema mais específico.

A escolha das retrancas e dos assuntos destacados como “Especiais” mostra qual a visão de mundo do portal. Nenhuma organização temática é aleatória, mas aqui podemos observar que algumas “editorias” fogem ao que é convencional nos jornais comerciais, como América Latina; Mídia e Movimentos. Mesmo retrancas tradicionais, como Economia, reúnem matérias incomuns a veículos comerciais.

Um exemplo pode ser dado a partir dos três textos publicados sob essa retranca no dia 16 de novembro de 2008. Os títulos eram os seguintes: “Luiz Gonzaga Belluzzo: a queda das moedas emergentes”; “G20 decide lançar pacote contra crise financeira global” e “Mantega comemora ‘perfeita sintonia’ do G20 em Washington”. O primeiro desses textos é um artigo de opinião, publicado originalmente na Folha de S. Paulo, no dia 16. A segunda matéria trata das resoluções tomadas pelo encontro do G20, citando-as em listas que não foram organizadas à maneira de um texto jornalístico:

Os líderes chegaram a um consenso sobre cinco temas-chave:

- As causas básicas que originaram a crise global - Revisão das medidas que os países tomaram e que tomarão para resolver a crise

imediata e fortalecer o crescimento. - Princípios comuns para reformar os mercados financeiros.

- Plano de ação para aplicar esses princípios. Pediram aos ministros que desenvolvam recomendações específicas que serão consideradas pelos líderes em

uma cúpula posterior. - Compromisso com os princípios de livre mercado (Vermelho, 16/11/2008).

Já o terceiro texto é o que mais se aproxima do formato canônico do jornalismo: a notícia. A matéria, sobre encontro do G20 acerca da crise financeira internacional, apresenta citações entre aspas do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e do texto aprovado pelos chefes de Estado e de Governo que formam o G20. A fonte é a Agência Brasil. Apesar do formato jornalístico-informativo, a matéria tem um “abre” com forte teor opinativo:

(14)

Até mesmo os países ricos reconhecem: a maior crise financeira global desde 1929 começou nos países desenvolvidos e acabou se alastrando pelo mundo. Assim, soluções devem ser articuladas globalmente. Essa é a principal conclusão da primeira cúpula de chefes de Estado e de Governo do G20 financeiro, realizada neste sábado em Washington (Vermelho, 16/11/2008).

A partir desses três textos, podemos refletir sobre algumas características do conteúdo das matérias do portal Vermelho. Mesmo no espaço reservado para notícias, encontramos textos cujo conteúdo foge do formato informativo, ou por serem jornalisticamente opinativos ou por não serem jornalísticos, ao menos no sentido de Chalaby. Mas todos têm a legitimidade das notícias por causa do seu posicionamento na página.

Retomando a discussão sobre jornalismo e publicismo, observamos que o Vermelho, apesar de ter como foco a informação, desempenha funções de publicista, assim consideradas por Chalaby. Acreditamos que defender os interesses políticos de uma classe social e analisar o processo político do ponto de vista dessa classe sejam papéis desempenhados pelo portal. Mas consideramos que as funções do publicismo podem ser compatibilizadas com formatos do jornalismo informativo; porém, este último utiliza uma linguagem que ativa rituais de objetividade7, indícios que conferem legitimidade aos textos. Quando não é utilizada a linguagem jornalística, o posicionamento do texto na página é que informa como o leitor deve encará-los: além do destaque às matérias mais importantes, um artigo ou um texto que fuja ao formato noticioso ganha status de notícia quando colocado na parte central do portal.

A segunda parte do portal que analisamos é a coluna da direita. Também aqui todos os links são voltados para o público externo. É a parte opinativa do portal (FIG. 4).

7

Estratégias usadas pelos jornalistas na tentativa de buscar uma objetividade nunca alcançada. Entre elas, destacam-se o uso da aspas para marcar citações e a ausência de adjetivos ou sua utilização respaldada por uma informação suplementar, mecanismos para que o texto pareça isento de subjetividade (Tuchman, 1996).

(15)
(16)

Um dos poucos recursos de interação do portal está nessa parte, o “Fala Povo”, que contém opiniões diversas dos internautas sobre assuntos pautados pelo Vermelho. Também chama a atenção, entre esses links, o de charges, que é uma seleção de materiais publicados em outros veículos, inclusive da imprensa comercial. É na coluna da direita que se pode assistir ao canal Telesur, projeto do presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Ainda nessa parte, encontramos alguns espaços comemorativos, como o “Hoje”, que relembra o aniversário de algum fato histórico, e o “Especial Maio 68”, comemorado em todo o mundo em 2008, quando completou 40 anos. Esses espaços, ao mesmo tempo em que comemoram – e que mostram o que o partido considera que deve ser celebrado –, têm um caráter educativo. Matérias assim eram comuns no jornal A Classe Operária na década de 1970. No Vermelho, comemoração e educação continuam sendo funções estratégicas. Mas, enquanto antes eram exercidas através de textos longos e com destaque, agora se restringem a espaços específicos dentro de um portal voltado basicamente para a informação.

A última parte em que dividimos a página inicial do portal é a coluna esquerda. Todos os links para o público interno coincidem com espaços do site do PCdoB. A diferença é que o mapa do Brasil, no portal, permite que se leiam notícias referentes a cada Estado da federação, com cores que servem de legenda para informar o grau de atualização dessas notícias. No site, também há um mapa, mas que remete aos endereços e contatos dos comitês regionais, mostrando-se ainda mais específico para militantes e simpatizantes do partido. Os links estão listados abaixo (TAB. 1):

TABELA 1

Links da coluna da esquerda

Links Público Mapa do Brasil (atualizado por Estado) Interno Campanha “Contribua com o Vermelho” Externo Cadastro para receber notícias do

Vermelho por email

Externo

Partido Vivo (notícias relacionadas ao partido + link para o site do PCdoB)

Interno

(17)

Inst. Maurício Grabois; Cadernos de Formação; Linha do Tempo

Manifesto Vermelho Externo

Logotipo Interno

Quem somos Externo

Editora Anita Garibaldi Externo

Publicações: A Classe Operária; Revista Princípios; Outras páginas (links para páginas recomendadas)

Interno

English texts Externo

Textos Español Externo

A Classe Operária Interno

Revista Princípios Interno

Arquivos anteriores a 04 de abril de 2006 Interno

Trataremos da exceção nesse espaço do portal: os links voltados para o público externo. À exceção do cadastro para receber notícias por email e dos textos em inglês e espanhol, todos os demais são relacionados à identidade do veículo ou apresentam forte ligação com o público interno ao partido, embora este não seja seu foco. Vale observar que os links que permitem a leitura de textos em outras línguas, algo de interesse de um público externo ao partido, tiveram sua última atualização em 2007. Assim, esses links provavelmente não agregam um novo grupo de leitores ao portal.

O link Marxismo + Brasil, embora considerado de interesse geral, já que traz importantes textos de Marx e de Lênin, tem também uma função formativa, preocupação explícita no modelo leninista de comunicação e que se mantém, de outra forma, na internet. Se a biblioteca marxista é voltada a qualquer pessoa interessada no assunto, também constitui um espaço educativo para a militância, para a formação de quadros do partido. Não por coincidência, o link remete ao site do PCdoB e apresenta também coletâneas de documentos do partido comunista.

Aqui ainda se encontram os textos que dão identidade ao portal: o Manifesto Vermelho e o Quem Somos. O Manifesto, que se autodeclara uma “proclamação de compromissos”, data de 2002, quando foi lançado o portal. Através desse texto, o Vermelho afirma seu

(18)

objetivo de se engajar na luta “por outra realidade, por um mundo novo, um novo Brasil”. O Manifesto traz, assim, evidências de uma estratégia de conquista da hegemonia.

Toda noite tem aurora. E toda aurora tem seus galos, clarinando no escuro o dia por nascer. A ambição do portal Vermelho é ser um galo assim na internet. Contribuir para dissipar treva neoliberal. Trabalhar para que venha logo a alvorada dos trabalhadores e povos da Terra (Manifesto Vermelho).

Assim, o Vermelho se coloca numa posição de aglutinador de um processo de mudança na sociedade. O galo a que se refere o texto é o símbolo do portal, e se encontra acima de todos os links. E a proposta do galo-portal é se inserir na internet, aproveitando os baixos custos desse meio, como um elemento transformador num ambiente que, segundo o Manifesto, é o “fiel espelho virtual” de uma realidade desigual. Para mudar o status quo, o Vermelho pretende atuar especialmente para três segmentos: “a juventude; a intelectualidade; e, por fim mas não por último, a numerosa parcela do proletariado moderno que freqüenta a internet no trabalho ou em casa”.

O link “Quem Somos” informa que o portal é “uma página mantida e gerida pela Associação Vermelho, entidade sem fins lucrativos, em convênio com o Partido Comunista do Brasil – PCdoB”. Isso permite ao Vermelho captar recursos através de publicidade, o que não aconteceria se o portal se caracterizasse como um meio de comunicação partidário. Embora até hoje ainda não tenha sido fechado nenhum contrato publicitário, existe abertura para que isso aconteça. Por enquanto, o portal se sustenta através do partido e de apoiadores, a partir da campanha “Contribua com o Vermelho”, também presente nesse espaço. Assim, a própria inserção do partido na internet através do portal se dá de modo a vincular-se mais fortemente com a sociedade civil num sentido mais restrito (excluindo-se a sociedade política).

O Vermelho se constitui uma tentativa de referência dentre os portais de esquerda no Brasil. A tentativa de abranger variados assuntos, a possibilidade de se assistir ao Telesur e ainda a participação do Vermelho em eventos que reúnem diferentes entidades – a maioria, não-partidárias8 – são traços que nos permitem aferir a tentativa do partido de se tornar referência entre os movimentos sociais e os setores de esquerda. Essa seria uma tentativa de conquista de hegemonia na sociedade civil, num processo amplo e permanente. Importante

8

(19)

sublinhar que, para Gramsci, a sociedade civil, assim como a hegemonia, faz parte da superestrutura, estando relacionada a processos ideológico-culturais, não meramente materiais (Bobbio, 1982, p. 32-33).

Desse modo, o portal também se insere na sociedade civil no sentido de oposição à estrutura, às relações econômicas. Jorge Almeida (2002) questiona se a mídia no Brasil atual pode ser considerada integrante da sociedade civil, como Gramsci a considerou na Itália dos anos 1920 e 1930. As mudanças dessas duas realidades levaram o autor a considerar que a imprensa é “um setor de ponta da própria economia e tem um papel estrutural na política e na sociabilidade contemporâneas” (Almeida, 2002, p. 30).

O autor abre uma exceção às rádios e TVs comunitárias e à imprensa de organizações da sociedade civil. Acreditamos que esse é o caso do portal Vermelho. Situá-lo na sociedade civil, todavia, não o isenta de configurar-se um instrumento de busca de hegemonia, e o fato de haver certo distanciamento em relação ao partido é também estratégico para uma maior aproximação e legitimidade frente aos movimentos sociais organizados. Exemplo disso é o link na seção “Especiais” sobre o I Fórum de Mídia Livre, que aconteceu em junho de 2008 no Rio de Janeiro. O Vermelho foi um dos participantes do encontro; o PCdoB, não.

4. Considerações finais

Observamos, ao longo das reflexões deste artigo, que o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) mudou sua forma de se comunicar, porém seguindo diretrizes semelhantes. Enquanto, na década de 1970, o órgão central do partido, A Classe Operária, veiculava textos não-noticiosos e que visavam a reiterar a visão política de seus militantes, atualmente o portal Vermelho utiliza-se da linguagem do jornalismo canônico. Embora haja importantes exceções, o formato do portal comunica que se trata de um veículo que prioriza a divisão formal do jornalismo entre fato e opinião. Contudo, o portal ainda segue a tradição leninista, buscando formar militância, mesmo que esse não seja seu papel principal, e colocando-se como organizador coletivo.

Os circuitos comunicativos mais amplos desenvolvidos em torno do Vermelho, que privilegiam o público externo, inserem-se numa tentativa de conquista de hegemonia através

(20)

da comunicação. Para isso, o partido implanta-se na sociedade civil de maneira mais vigorosa, afastando o vínculo direto à atuação partidária.

Nesse empreendimento, a linguagem e a organização espacial do jornalismo canônico são importantes ferramentas. São essas ferramentas que dão ao portal legitimidade perante outros públicos, que não o dos filiados e militantes do partido. Para esses, a autoridade do partido poderia bastar; para atingir o público externo, contudo, é necessário ancorar-se na legitimidade jornalística.

Referências

A CLASSE OPERÁRIA, n° 100, set 1975.

ALMEIDA, Jorge. Marketing político: hegemonia e contra-hegemonia. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo; Xamã, 2002.

BARNHURST, Kevin; NERONE, John. The form of news. New York: The Guilford Press, 2001. BOBBIO, Norberto. O conceito de sociedade civil. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982.

CAREY, James W. Communication as culture: essays on media and society. Boston: Unwin Hyman, 1989. CHALABY, Jean K. Journalism as an Anglo-American invention: a comparison of the development of

French and Anglo-American journalism, 1830s-1920s. European Journal of Communication, London [etc],

1996.

LÊNIN. Vladimir Ilicht. Que fazer? As questões palpitantes do nosso movimento. São Paulo: Hucitec, 1979. [on line] Disponível na internet em http://www.vermelho.org.br/img/obras/quefazer.asp. Acessado no dia 28 de outubro de 2007.

MANIFESTO Vermelho. [on line] Disponível na internet em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=0&ex=manif. Acesso no dia 29 de setembro de 2008.

SERRA, Sônia. Jornalismo político dos comunistas no Brasil: diretrizes e experiências da “Imprensa

Popular”. Anais do II Congresso da Associação Brasileira de Pesquisadores de Comunicação e Política, 2007.

[on line] Disponível na internet em http://www.fafich.ufmg.br/compolitica/anais2007/gt_jmp-sonia.pdf. Acessado no dia 10 de dezembro de 2007.

TUCHMAN, Gaye (1993). “A objectividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objetividade dos jornalistas” In TRAQUINA, Nélson (org.) Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Lisboa: Vega, p. 61-73.

WORONTZOFF, Madeleine. Nome: Lenine. Profissão: Jornalista. Lenine e a imprensa revolucionária. Lisboa: Antídoto, 1977.

Referências

Documentos relacionados

Excluindo as operações de Santos, os demais terminais da Ultracargo apresentaram EBITDA de R$ 15 milhões, redução de 30% e 40% em relação ao 4T14 e ao 3T15,

No entanto, maiores lucros com publicidade e um crescimento no uso da plataforma em smartphones e tablets não serão suficientes para o mercado se a maior rede social do mundo

O valor da reputação dos pseudônimos é igual a 0,8 devido aos fal- sos positivos do mecanismo auxiliar, que acabam por fazer com que a reputação mesmo dos usuários que enviam

JFRJ Fls 1775.. vários anos, também exercia a advocacia profissional através de seu escritório ANCELMO ADVOGADOS. Observa o MPF que a investigada Adriana Ancelmo,

Os resultados deste estudo mostram que entre os grupos pesquisados de diferentes faixas etárias não há diferenças nos envoltórios lineares normalizados das três porções do

Os testes de desequilíbrio de resistência DC dentro de um par e de desequilíbrio de resistência DC entre pares se tornarão uma preocupação ainda maior à medida que mais

3 O presente artigo tem como objetivo expor as melhorias nas praticas e ferramentas de recrutamento e seleção, visando explorar o capital intelectual para

No entanto, expressões de identidade não são banidas da linguagem com sentido apenas porque a identidade não é uma relação objetiva, mas porque enunciados de identi- dade