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Para governo, presidente da Aneel é voz isolada no setor

Paulo de Tarso Lyra Brasília

O governo montou uma operação para isolar o presidente da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Jerson Kelman. Na terça-feira, preocupado com o pequeno volume de água nos reservatórios, Kelman disse não ser "provável que falte energia neste ano, mas não é impossível". E sugeriu que seria bom uma campanha de racionamento de energia. A declaração repercutiu muito mal no governo. Na noite de quarta-feira, numa reunião no Palácio do Planalto com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff - que antecipou o retorno das férias devido às declarações de Kelman -, o presidente da Aneel foi considerado uma voz isolada até mesmo na agência que preside.

A avaliação foi repetida ontem, durante reunião da coordenação política - dessa vez sem Kelman. Diante do núcleo central de governo e do presidente Lula, Dilma garantiu que o sistema energético é seguro e que funciona justamente para evitar os mesmos erros do passado - o apagão de energia de 2001, fruto da falta de investimentos na construção de hidrelétricas e linhas de transmissão, entre outras coisas. De acordo com a ministra, o sistema elétrico projetado no governo Lula possui mecanismos suficientes para afastar o risco de racionamento ou apagão.

Dilma também deixou claro que, se houver de fato algum tipo de ameaça - a diminuição do nível dos reservatórios, por exemplo, em função da falta de chuvas - a estratégia do governo será aumentar a oferta de energia, com o acionamento das usinas termelétricas, movidas a gás ou carvão, e não conter a demanda. A ministra não explicou como ampliará a oferta com a crise do gás.

Kelman não quis dar declarações ontem, mas seus assessores informaram que ele tem mantido suas avaliações nas reuniões internas do governo, não vai se omitir e não cogita, em hipótese alguma, renunciar.

O governo descarta lançar algum tipo de campanha publicitária para estimular a economia de energia além das que já ocorrem atualmente.

No encontro de emergência de quarta-feira à noite, com a presença de Lula, do ministro interino de Minas e Energia, Nelson Hubner, do presidente do Operador Nacional do Sistema (ONS), Hermes Chipp, e do presidente da Empresa De Pesquisa Energética, Maurício Tolmasquim, além de Dilma Rousseff, Kelman foi desautorizado. Lula cansou de repetir, nos últimos meses, que não há risco de apagão, que toda a energia necessária já foi contratada e que o preço do quilowatt/hora desabou para os padrões dos anos 90.

Falou isso inclusive no encontro com os 100 principais empresários brasileiros, preocupados com o risco de apagão que inibiriam os investimentos privados.

Em dezembro, Lula comemorou o leilão para as obras da Usina de Santo

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Antonio, no rio Madeira, depois de uma longa batalha com o Ministério do Meio Ambiente.

Em um ano em que aposta no crescimento da economia, o que menos o presidente quer ver são notícias negativas nos meios de comunicação. Dilma, que estava de férias desde a semana passada, voltou às pressas para pressionar Kelman e provar que ele é voz dissonante, inclusive na ANEEL.

A demonstração desse isolamento seria uma votação recente, na própria agência, para definir quais os limites mínimos de segurança hídrica dos reserva tórios - a partir do qual se torna necessário o acionamento das térmicas.

Cinco diretores da Agência votaram e Kelman foi derrotado por 4 a 1. "Ele divergiu sozinho em um colegiado de cinco diretores. Da mesma forma, ele está repetindo agora o cenário. Ele pensa de uma forma, o sistema elétrico como um todo pensa de maneira distinta", afirmou um assessor palaciano.

Ontem, na reunião de coordenação política, Dilma mostrou que, apesar de não haver necessidade de alarmismo, a situação dos reservatórios e a escassez das chuvas tornam necessário um acompanhamento do governo, especialmente do Comitê De Monitoramento do Setor Elétrico, grupo que inclui o ONS e outros órgãos do setor elétrico e que aponta defeitos e propõe soluções para o sistema. (Colaborou DR, de Brasília)

LYRA, P. Para governo, presidente da Aneel é voz isolada no setor. Valor Econômico, Brasil, pág A3, 11/01/2008.

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