SOLANGE FERNANDES ESTADO E POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL PARTICULARIDADES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NOS CENTROS DE REFERÊNCIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL DO ESTADO

Texto

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SOLANGE FERNANDES

ESTADO E POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL

PARTICULARIDADES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NOS

CENTROS DE REFERÊNCIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL DO ESTADO

DO PARANÁ.

DOUTORADO EM SERVIÇO SOCIAL

PONTÍFICIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

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SOLANGE FERNANDES

ESTADO E POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL

PARTICULARIDADES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NOS

CENTROS DE REFERÊNCIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL DO ESTADO

DO PARANÁ.

Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de DOUTORA, em área de Serviço Social, sob a orientação da Professora Doutora Raquel Raichelis Degenszajn.

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DEDICATÓRIA

À Isabella Beatriz: a mais bela entre todas as cinderelas. Minha doce e amada princesa dos campos, razão da minha existência.

A Luiz Carlos, amore mio, por acreditar que o diferente também pode ser amado. Obrigada, por não desistir de construir o nós.

À Nair, minha doce, sábia e querida mãe. Meu desejo de superação.

Às minhas maravilhosas irmãs: Odete, Cida, Ivete e Helena. Vocês são muito mais

do que eu mereço. Inspiradoras, carinhosas, acolhedoras, incansáveis. Exemplos de vida e luta.

Aos meus Irmãos: Edezio e João, por vocês conseguirem e mostrar que é possível.

Mesmo quando tudo parece impossível. Ao Marquinhos, o cidadão do mundo cuja

capacidade de sonhar e realizar é um exemplo. Ao Wilson e Deja eu sei que vocês

podem conseguir. Amo vocês!

E ao meu pai Manoel Fernandes que sonhou em ter uma filha doutora. EU

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AGRADECIMENTOS

À minha filha Isabela Beatriz, pelo amor incondicional e dar sentido à minha vida.

Você anda de pantufa de joaninha no meu coração.

Às Minhas Irmãs e minha amada Mamãe, lindas mulheres guerreiras cujos exemplos me encorajaram em cada empreitada desta vida.

A Luiz Carlos que abre a porta da geladeira sem pedir permissão. E por nunca acreditar que o não, era verdadeiro. Te amo.

A Cleo e Leonardo pessoas especiais que amo muito. Às minhas amigas da PUCPR:

Ilda Lopes Witiuk: cujo ritmo me obriga parar, cuja fé me ensina a orar, cujo amor me ensina a acreditar.

Márcia Terezinha de Oliveira: cuja garra e persistência são exemplos de vida. Maria Izabel S. Pires: cuja competência e compreensão tem me ensinado a cada dia.

Jucimeri I. Silveira: cujo profissionalismo me inspira, cuja coragem me impulsiona. SamiraKauchakje: cuja lucidez e brilhantismo são inspiradores.

Zely Batista Barbosa: cujo carinho e colo acolhedor me fazem acreditar que o mundo ainda tem jeito.

Às amigas da SETP:

Denise Colin: por acreditar em meu potencial e apoiar-me em tempos difíceis. Ana PaulaGonçalves: pelos exemplos de superação, persistência e resistência. Ironi de Camargo : doce amiga de olhar terno que socorre com o alento de “tudo vai dar certo”

Às minhas amadas amigas e confidentes Néia (nóia), Márcia (ursinha) e Sandra

(Sagüi) lindas e doces, souberam me acolher nas dores e partilhar as alegrias.

Às minhas pupilas e brilhantes profissionais da CDI – Kellen (a Dalcin), Daniella

(Danny), Renata (Re), Kelli (Keki), Michelli (Perla) e às estagiárias Odelita, Thaís

(Tata), Priscila (Pri). Sem vocês eu não conseguiria.

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Aos Meus amigos: Murillo e Ivo. Aos conselheiros dos CEAS e do CEDI. Obrigada pelo apoio e torcida.

Aos meus amigos inesquecíveis de uma vida inteira: Regina e Rogério

À minha orientadora Raquel Raichellis. Agora eu sei por que te chamam:

“Professora”. Você ensinou a ser uma pessoa e uma profissional melhor. Nunca vou te esquecer.

À minha querida e eterna professora Dilséa A. Bonetti: simplesmente incomparável.

À professora Odária Battini, minha mestre, cuja sabedoria me indicou os caminhos

e a cada escorregada lá estava ela, às vezes a soprar, às vezes a passar metiolate nas feridas, mas sempre estava lá.

À professora Maria Carmelita Yasbeck, profissional e professora brilhante, de

idéias claras e convicção quase que inabalável é exemplo de vida e luta. Obrigada! À Kátia, secretaria do programa que me salvou muitas vezes, socorrendo-me e encurtando as distâncias.

Aos professores do programa, com quais tive a honra de conviver e partilhar momentos raros de discussão e reflexões sobre a profissão, a sociedade e a vida. À Cappes, que investiu em minha qualificação tornando possível esse momento.

A todos os profissionais que participaram dessa pesquisa e torceram pelo meu

sucesso.

Aos meus alunos da PUCPR e da FIES incansáveis no desejo de saber sempre

mais.

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EPÍGRAFE

Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. A indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes. A indiferença é o peso morto da história. É bala de chumbo para o inovador e a matéria que afoga freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, o fosso que circula a velha cidade (...)·.

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RESUMO

Essa pesquisa teve como foco conhecer as particularidades do trabalho do assistente social vinculado ao setor público estatal, operando a Política Pública de Assistência Social no Estado do Paraná a partir da organização do Sistema Único de Assistência Social que atuam nos Centros de Referência de Assistência Social. Foram envolvidos na primeira fase de coleta de dados 76 profissionais de Serviço Social e 7 profissionais na segunda fase. Tivemos como direção nos aproximarmos de reflexões a respeito das particularidades que assume o trabalho dos assistentes sociais que atuam nos CRAS(s) no estado do Paraná; conhecer as respostas profissionais vêm sendo dadas às demandas postas nos CRAS; tomar ciência se ações desenvolvidas pelos assistentes sociais nos CRAS do estado do Paraná indicam para uma retomada do trabalho de base sócio-político-educativo estimulando o protagonismo crítico e participativo da população e contribuindo para a construção de sujeitos mais autônomos E ainda, em direção oposta, em que medida essas ações desenvolvidas pelos assistentes sociais nos CRAS apresentam traços que representem mais uma estratégia de gestão local da pobreza, reapresentando velhas práticas reiterativas de vigilância e controle social e moral, reafirmando a dependência e subserviência da população ao poder local instituído. Neste sentido, essa pesquisa ancorou-se no movimento do real, pretendendo identificar as novas determinações e mediações essenciais para compreender a particularidade do trabalho dos assistentes sociais nos CRAS do Paraná, buscando captar a partir do trabalho concreto a direção social que o assistente social está imprimindo em seu exercício cotidiano. Entendendo que essa direção social deve estar em consonância com os princípios de um projeto profissional coletivo, distinto do projeto neoliberal pretensamente hegemônico. Objetivamos também com essa investigação explicitar as condições históricas de implantação e implementação do SUAS e dos CRAS, reconstruir o processo histórico de sua implantação no Paraná, conhecer o espaço sócio-ocupacional e as condições de trabalho dos assistentes sociais nos CRAS do estado do Paraná, refletir sobre o significado social do trabalho profissional no espaço público estatal, bem como identificar como os profissionais vêm construindo as respostas técnicas e políticas frente às demandas nos territórios onde se encontram localizados. Acreditamos que a elaboração desta pesquisa possa contribuir para o debate sobre o exercício profissional dos assistentes sociais, entendo-os como trabalhadores submetidos aos mesmos constrangimentos que sofrem o conjunto de trabalhadores brasileiros, mas também como sujeitos que protagonizam trajetórias profissionais singulares e particulares, que na multiplicidade das relações que compõem o mundo do trabalho, constroem a história coletiva.

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ABSTRACT:

The focus of this scientific study is to find out about the particularities of the Work as a Social Worker in a Public state sector, to manage the public politics of social assistance in the Parana state as a Unique System Organization of Social Assistance to act in a social Assistance of the Reference Centers. In the first part of information collected 76 social workers were involved and in the second part, 7 professionals. Our intentions are to come close to the analyses about the particularity of the work as a social worker in the CRAS’s of the state of Parana: to Know about the professional answers to face a demand to CRAS’s, Investigate if the development actions of the social workers in CRAS’s of Parana indicating the return of the work to an educational-politic-social basis, to stimulating the criticism and a popular participation, that contributes to the autonomy of constructing the subject. And still at the opposite direction, to ask how the developing actions of the social workers in CRAS’s have represented the local poverty administration strategy, representing as an older practice, to repeat a vigilant, social and moral control. Re-affirming the population’s dependence and submission to the local power. In that context the study, anchoring at the real movement, with the intention of identifying new determinations and analyses, to comprehend the particularity of the work of the social workers at CRAS’s in Parana, to seek the concrete work of social direction that social workers have been improving everyday.

The important things to understand are that the social direction must have the same direction as the principal collective professional project, differing from the Neo-liberal project. Also, our objective is to explain about historical conditions implementation, the SUS and CRAS implementation, re-building their historical implementation process in Parana, to find out about social- occupational space, the work conditions of social worker at the CRAS’s in Parana and also, to reflect about the social meaning of this professional work at the public state space, and Identify how the professionals have been building political and technical answers according to the demand at their local area.

We believe that our study will contribute to a debate about the professional exercise of the social workers, like an entirety of suffering Brazilian workers but also, like a subject that has a protagonist trajectory as a professional particularly and singularly, that multiple relations in the world of work in the construction of collective history.

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LISTA DE TABELAS

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LISTA DE GRÁFICOS

GRÁFICO 1 - Tempo de formação em Serviço Social ...177

GRÁFICO 2 - Tempo de trabalho na esfera pública estatal...178

GRÁFICO 3 - Vínculo contratual ...175

GRÁFICO 4 - Educação Continuada...181

GRÁFICO 5 - Carga horária efetiva nos CRAS...183

GRÁFICO 6 - Média salarial...184

GRÁFICO 7 - Plano de Cargos e salários...185

GRÁFICO 8 - Satisfação com o local de trabalho...186

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LISTA DE ANEXOS

Anexo 1 - Formulário para coleta de dados com assistentes sociais que

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LISTA DE SIGLAS

ABESS - Associação Brasileira de Ensino em Serviço Social

ABEPSS - Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social ALCA - Área de Livre Comércio das Américas.

BF – Bolsa Família

BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento

BIRD – Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento BPC – Benefício de Prestação Continuada

CAD-Único - Cadastro Único

CDI - Coordenadoria de Desenvolvimento Integrado da Política de Assistência Social CEAS – Conselho Estadual de Assistência Social

CEIP - Fundo Carnegie para a Paz Mundial

CEPAL - Comissão Econômica para América Latina e o Caribe CESINE - Coordenação Estadual do Sistema Nacional de Empregos CF - Constituição Federal

CFESS - Conselho Federal de Serviço Social

CGM - Coordenadoria de Apoio à Gestão Municipal da Política de Assistência Social CIB – Comissão Intergestora Bipartite

CIDE - Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico CLT – Consolidação das Leis do Trabalho

CNAS – Conselho Nacional de Assistência Social

COFINS - Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social CPI- Comissão Parlamentar de Inquérito

CPMF - Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira CRAS - Centro de Referência de Assistência Social

CREAS - Centro de Referência Especializado de Assistência Social CRESS - Conselho Regional de Serviço Social

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CUT - Central Única dos Trabalhadores DAS – Departamento de Assistência Social

DASP – Departamento Administrativo de Serviço Público DC – Desenvolvimento de Comunidade

DIOE/PR – Diário Oficial do Estado do Paraná DRU- Desvinculação das Receitas da União DSS - Departamento de Serviço Social

DSSCI - Divisão de Serviço Social dos Casos Individuais

DSSOC - Divisão de Serviço Social de Organização da Comunidade EUA – Estados Unidos da América

ENADE - Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes FASPAR - Fundação de Ação Social do Paraná

FCBIA - Fundação Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência FEAS – Fundo Estadual de Assistência Social

FIDES - Fundação de Integração de Desenvolvimento de Entidades Social FGTS - Fundo de Garantia por Tempo de Serviço

FGV - Fundação Getúlio Vargas. FHC - Fernando Henrique Cardoso FMI - Fundo Monetário Internacional FNT - Fórum Nacional do Trabalho

FPEx- Fundo Constitucional de Compensação pela Exportação de produto Industrializados

GINI - Indicador mais freqüentemente usado para medir desigualdade no mundo GIT - Grupo Interinstitucional de Trabalho

IAD - Diálogo Internacional

IASP - Instituto de Ação Social do Paraná

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

ICMS - Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços IDH - Índice de Desenvolvimento Humano

IES – Instituições de Ensino Superior INSS – Instituto Nacional do Seguro Social

IPVA – Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores IPI - Imposto Sobre Produtos Industrializados

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ISS - - Imposto Sobre Serviços ITR – Imposto Territorial Rural IVA- Imposto sobre Valor Agregado LBA - Legião Brasileira de Assistência LOAS - Lei Orgânica de Assistência Social

MARE – Ministério de Administração Federal e Reforma do Estado MDS - Ministério de Desenvolvimento e Combate a Fome

MNMMR - Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua NOB – Norma Operacional Básica

NOB/RH - Norma Operacional Básica de Recursos Humanos

NOB/SUAS – Norma Operacional Básica do Sistema Único de Assistência Social NUCLEAS - Núcleo de Coordenação Estadual da Política de Assistência Social OMC - Organização Mundial do Comércio

ONG – Organização Não-Governamental ONU - Organização das Nações Unidas

OPEP – Organização dos Países Exportadores de Petróleo PCS - Programa Comunidade Solidária

PEC - Proposta de Emenda Constitucional PhD - Philosophical Doctor

PIB - Produto Interno Bruto

PIS - Programa de Integração Social

PNAS - Política Nacional de assistência Social

PNDA – Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios PNUD- Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento PPP – Parceria Público Privada

PRO-JOVEM – Programa Agente Jovem PROUNI – Programa Universidade para Todos

PROMORAR- Fundação de promoção Social do Paraná. PROVOPAR – Programa do Voluntariado Paranaense PSDB - Partido Social Democrático Brasileiro

PT – Partido dos Trabalhadores

PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil PUCPR – Pontifícia Universidade Católica do Paraná

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SAF – Secretaria de Administração Federal da Presidência da República SEJA - Secretaria de Estado da Justiça, Trabalho e Ação Social.

SETA – Secretaria de Estado do Trabalho e da Ação Social. SECR - Secretaria de Estado da Criança e Assuntos da Família

SEDAP – Secretaria de Administração Pública da Presidência da República SETP - Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego e Promoção Social. SERT - Secretaria de Estado do Emprego e Relações do Trabalho SEJU - Secretaria de Estado da Justiça

SINAES - Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior SNAS – Secretaria Nacional de Assistência Social

SSAP - Secção de Serviço de Assistência Psicotécnica SSM - Secção de Serviços de Menores

SSD - Secção de Serviço de Desvalidos SSSE - Secção de Serviço Social de Egressos SSSF - Secção de Serviço Social de Família

STAS - Secretaria de Estado dos Negócios do Trabalho e Assistência Social SUAS - Sistema Único de Assistência Social

UEPG – Universidade Estadual de Ponta Grossa URV- Unidade Real de Valor

USP – Universidade de São Paulo

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...16

CAPÍTULO 1...43

1.1 O TRABALHO NA SOCIEDADE CAPITALISTA...43

1.2 OS SENTIDOS DO TRABALHO NA (DES)ORDEM CAPITALISTA...53

CAPÍTULO 2...58

2.1 “GLOBALIZAÇÃO” OU ESTRATÉGIA DE REORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO CAPITALISMO?...58

2.2 O NEOLIBERALISMO NO CONTEXTO DE REORGANIZAÇÃO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO...64

2.2.1 Neoliberalismo no Brasil...78

2.3 ESTADO BRASILEIRO: UMA HISTÓRIA DE REFORMAS...94

2.3.1 O processo de (contra)reforma do setor público brasileiro: principais condicionantes históricos...104

2.4 A POLÍTICA PÚBLICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL NO NEOLIBERALISMO E O REORDENAMENTO DO ESTADO...130

2.4.1 A política de Assistência Social no Estado do Paraná...138

2.4.2 A política pública de Assistência Social no tempo do SUAS...160

CAPÍTULO 3...169

3.1 O SERVIÇO SOCIAL E O TRABALHO PROFISSIONAL NA CONTEMPORANEIDADE...169

3.2 O TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NOS CENTROS DE REFERÊNCIA DA ASSISTÊNCIA SOCIAL...174

3.2.1 As condições de trabalho do Assistente Social nos Centros de Referência de Assistência Social...175

3.2.2 As condições técnicas para o desenvolvimento do trabalho...190

3.3 A REORGANIZAÇÃO DO “SUAS” E A INSERÇÃO DOS PROFISSIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL NOS CENTROS DE REFERÊNCIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL...200

CONSIDERAÇÕES FINAIS...238

BIBLIOGRAFIA...246

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INTRODUÇÃO

Vivemos um tempo especial, isso é inegável! Trouxemos para o século XXI

uma herança marcada por mudanças e transformações inimagináveis,

estabelecemos novos padrões de civilidade e sociabilidade, sobretudo no que se

refere aos avanços tecnológicos e científicos. Por outro lado, essas profundas

transformações incidiram em mudanças significativas na relação entre o Estado e a

sociedade, forjadas por um quadro de profunda recessão nos anos 19801, pelo

neoliberalismo2 dos anos de 1990 e todo um rol de conseqüências resultantes desse

processo, como privatizações, desemprego, acirramento das expressões da questão

social3.

Os segmentos organizados da sociedade civil reagiram frente às perdas dos

direitos sociais e trabalhistas impostas pelo ajuste fiscal e econômico proposto pelo

Consenso de Washington4. A expressão mais significativa dessa reação aqui no

Brasil foi a organização do Fórum Social Mundial, em uma clara oposição ao Fórum

Econômico Mundial que acontece todos os anos no mês de janeiro na Suíça, na

cidade de Dávos. A reação internacional ficou por conta da publicação da pesquisa

1

Década de 1980 ficou conhecida como a “década perdida” em função de um fenômeno denominado pelos estudiosos como estagflação referindo-se a um período de recessão com altas taxas de inflação.

2

O neoliberalismo no Brasil tem sua marca registrada a partir das eleições para presidente de Fernando Collor de Mello, que durante o período que permaneceu a frente do governo federal estabeleceu o redirecionamento do papel do Estado brasileiro que sob os influxos do ideário neoliberal, propõe um Estado menor, mais ágil, que tem na iniciativa privada o principal motor do processo de modernização. No que se refere a questão social, a direção assumida é da “refilantropização”.

3 Questão social entendida como o conjunto de manifestações do processo de desigualdade social constitutiva da

sociedade capitalista.

4 Segundo Fiori (1995:231-245

apud RAICHELIS, 2000:73), Consenso de Washington é a denominação dada a

um plano único de medidas de ajustamento dos países capitalistas periféricos, chancelado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo Banco Mundial, pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pelo governo norte- americano, em reunião ocorrida em Washington em 1989, quando se inaugura a introdução

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sobre a pobreza mundial realizada por duas grandes instituições de pesquisa

americana5, em documento denominado “Dissenso de Washington6.

Segundo Iamamoto (2002) o “Dissenso de Washington” não propôs

mudanças no rumo da política, somente indicou uma “retificação da programática

anterior para manter a mesma rota”, ou seja, reafirmou o propósito de combate à

pobreza de forma localizada e pontual, mantendo a mesma ortodoxia ao recomendar

o disciplinamento fiscal dos países. O documento dá ênfase a medidas focais de

combate à pobreza, a exemplo do Programa Bolsa Escola do Governo do Distrito

Federal e outras experiências Latino Americanas que se desenvolviam naquele

período.

O neoliberalismo e a pretensão de se tornar hegemônico, com a reprodução

da falsa idéia de Estado causador da crise, provocou estragos do ponto de vista das

perdas de direitos sociais e trabalhistas conquistados historicamente, promoveu um

desmonte do Estado com sucessivas propostas de reformas, reduziu investimentos

em política pública e realizou um amplo processo de privatização das empresas

estatais. Esse movimento precarizou ainda mais as condições de trabalho,

promovendo desregulamentação dos direitos trabalhistas conquistados

historicamente pela classe trabalhadora desse país.

Esse processo, que o Brasil viveu particularmente a partir dos anos 1990,

provocou agudização das expressões da questão social com novas formas de

manifestação: altos índices de desemprego, fome, miséria e violência urbana. O

5

O Fundo Carnegie para Paz Mundial (CEIP) e o Diálogo Internacional (IAD) (Folha de São Paulo 26/08/2001, p. A 12 apud IAMAMOTO, 2002:4).

6

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Estado por sua vez se retrai e reduz seus parcos investimentos nas políticas sociais

privilegiando as medidas de estabilização econômica.

Esses novos cenários apresentam mudanças significativas para os

trabalhadores brasileiros, decorrentes do processo de mundialização da economia,

da reestruturação produtiva e da contra-reforma do Estado, com um quadro de

perdas de direitos e profundas alterações nas formas de organização e gestão do

trabalho no interior das instituições empregadoras.

Todos esses fatos e acontecimentos incidirão sobre o trabalho do assistente

social, reduzindo o mercado de trabalho, desregulamentando as relações de

trabalho, provocando alterações nos processos, demandas e nas condições de

trabalho do assistente social e, particularmente, do profissional que atua na esfera

pública estatal.

As relações de trabalho tendem a ser desregulamentadas e flexibilizadas. Verifica-se uma ampla retração dos recursos institucionais para acionar a defesa dos direitos e dos meios de acessá-los. Enfim, tem-se um redimensionamento das condições do exercício profissional, porque ele se efetiva pela mediação das condições do assalariamento (IAMAMOTO, 2002:10).

A discussão sobre o trabalho profissional do assistente social é um tema

presente no interior da categoria profissional, nas universidades e nos órgãos de

representação – Conselho Regional de Serviço Social, - CRESS, Conselho Federal

de Serviço Social, - CFESS, Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço

Social-ABEPSS e organizações estudantis. Pesquisadores, professores e

intelectuais do Serviço Social vêm nos últimos anos se dedicando ao debate sobre o

trabalho do assistente social, procurando aproximar-se do cotidiano institucional dos

profissionais e das diversas atividades que desenvolvem.

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vinculado ao setor público estatal, operando a Política Pública de Assistência Social

no Estado do Paraná a partir da organização do Sistema Único de Assistência Social

- SUAS.

Consideramos ser esse um momento privilegiado para os profissionais de

Serviço Social, pois com o processo de organização do SUAS amplia-se

consideravelmente o mercado de trabalho para o assistente social. Entretanto, novas

requisições se colocam exigindo novas competências para atender a essas

demandas.

Não é objeto desta pesquisa adentrar nos meandros do acalorado debate

sobre o Serviço Social enquanto um tipo de trabalho inserido na divisão social e

técnica do trabalho, como uma especialização do trabalho coletivo, como propõe

Marilda Iamamoto, ou como uma dimensão ideológica, defendida por Sérgio Lessa,

embora essas referências estejam presentes nas reflexões desenvolvidas.

A pesquisa pretende dedicar-se ao debate sobre as particularidades que

assume o trabalho do assistente social do Estado do Paraná na esfera

público-estatal junto à Política de Assistência Social. Delimitando um pouco mais o campo

investigativo, nesta vasta área de atuação e inserção do profissional, o recorte será

o do trabalhador na política de assistência social atuando nos Centros de Referência

de Assistência Social (CRAS).

Desenvolver uma pesquisa que tem como eixo central o trabalho do

assistente social é um interesse recorrente em nossa vida acadêmica. Iniciou-se

durante a graduação em Serviço Social, concluída em 1992, quando realizamos uma

primeira pesquisa que resultou em nosso trabalho de conclusão de curso: “O Serviço

(21)

categoria trabalho, durante o curso de mestrado7, construindo uma dissertação que

tratava do Trabalho Profissional do Assistente Social com Catadores de Papel.

Além disso, no âmbito profissional, quando iniciamos nossas atividades

docentes, o debate sobre o trabalho profissional do assistente social sempre se fez

presente. A partir de 2001, por conta da revisão curricular ocorrida na Pontifícia

Universidade Católica do Paraná (PUCPR)8 assumimos a responsabilidade sobre a

condução da disciplina de Serviço Social e Trabalho e, desde então, temos

procurado construir coletivamente reflexões em torno do trabalho profissional,

entendendo o assistente social como trabalhador assalariado inserido no mundo do

trabalho, pensando as particularidades que as ações profissionais assumem no

contexto do trabalho coletivo.

Desde os primeiros esboços do projeto para o doutorado em Serviço Social

na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, temos nos centrado no eixo do

trabalho profissional. Contudo, nosso objeto de pesquisa só foi se tornando mais

claro durante o estágio de pesquisa9 realizado durante o ano de 2005 na Secretaria

de Estado do Trabalho, Emprego e Promoção Social (SETP)10, sob a orientação da

professora Drª Samira Kauchakje, assessora técnica do Núcleo de Coordenação

Estadual da Política da Assistência Social (NUCLEAS). Durante o período de estágio

conhecemos melhor a proposta do governo federal e estadual para a Política de

Assistência Social e todas as discussões pertinentes à construção do Sistema Único

da Assistência Social (SUAS) e, particularmente, dos Centros de Referência de

7

Mestrado em Ciência Sociais Aplicadas da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), concluído em 2001.

8

Instituição de Ensino Superior em que desenvolvemos atividade docente desde junho de 2000.

9 Estágio de pesquisa é exigência curricular do programa de doutorado em Serviço Social da Pontifícia

Universidade Católica de São Paulo, para cumprimento dos créditos.

10 A SETP resultou da fusão de duas Secretarias de Estado: Secretaria de Estado do Emprego e Relações do

(22)

Assistência Social (CRAS). Constatamos, a partir das diversas capacitações e

seminários realizados pela SETP, os inúmeros desafios enfrentados pelos

assistentes sociais do Estado ao operar com essa política. Neste sentido é que

emergiu o interesse por conhecer e analisar as condições de trabalho do assistente

social inserido nas equipes profissionais dos CRAS(s) do Paraná e as

particularidades de sua prática profissional.

O campo temático da assistência social não é novo. Forjado no âmbito das

relações econômicas, político-culturais e sociais, foi adquirindo ao longo da história

brasileira traços estruturais e diferentes contornos específicos de cada conjuntura.

Na esteira das conquistas no campo dos direitos sociais desde a Constituição

Federal de 1988 e da aprovação da Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) em

1993, podemos considerar que houve avanços significativos na consolidação da

assistência enquanto política pública e universal, afirmando a primazia da condução

do Estado neste processo.

A Política Nacional de Assistência Social (PNAS) definiu pela implantação do

Sistema Único de Assistência Social (SUAS). “O SUAS permite entre outros

aspectos, a articulação de ações sócio-assistenciais, a universalização de acessos e

a hierarquização de serviços por níveis de complexidade e porte de município”

(SILVEIRA & COLIN, 2006: 20). Sua regulamentação, por meio de uma base legal,

como a nova Norma Operacional Básica (NOB/SUAS) e outros instrumentos

jurídico-normativos devem impulsionar reordenamentos das redes sócio-assistenciais para o

atendimento da população usuária, na direção da superação de ações segmentadas,

fragmentadas, pontuais, sobrepostas e assistencialistas, por um modelo de gestão

unificado, continuado e afiançador de direitos.

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descentralizado, participativo e integrado, que tem como princípios norteadores a

gestão do conteúdo específico da assistência social no campo da proteção social

brasileira (NOB/2005), compreendendo os serviços sócio-assistenciais de órgãos

públicos e entidades não governamentais, tendo a família como foco de atenção e o

território como base de organização. Pressupõe a articulação com outras políticas

sociais e define graus de complexidade e níveis de atuação dos serviços e

programas sociais: proteção social básica e proteção social especial, esta última

comportando média e alta complexidade11. No que se refere aos níveis de gestão,

se organizam em inicial, básica e plena, e para cada nível são definidos requisitos,

incentivos e responsabilidades. Contudo, Silveira e Colin, chamam a atenção para o

fato que a implantação do SUAS não deve se “limitar à mera análise da legislação

regulamentadora, podendo expressar uma tendência tecnicista, com distanciamento

do significado sócio-histórico desta política quanto ao processo de construção da

Seguridade Social brasileira na relação com os demais direitos conquistados”

(2006:21).

Os avanços em relação à construção da política pública de assistência social

e seu sistema único são muito significativos, contudo, existem muitas contradições e

pontos de tensão quanto a sua aplicabilidade prática que precisam ser melhor

explicitados e aprimorados.

Um destes pontos, e que se apresenta como um grande desafio, é a

construção de um pacto federativo como pilar de sustentação na definição de

responsabilidades do SUAS, definindo os papéis dos municípios, dos estados e da

11Ações de alta complexidade: Prestadas diretamente pela esfera estadual e/ou por entidades conveniadas

(24)

federação. Todavia a viabilização desse processo é complicada, pois “a união fica

com 59%, os estados com 24,9% e municípios com 16,1% do bolo tributário nacional

(cerca de 36% do PIB)” (CARVALHO, 2006: 127). Com essa constatação é possível

afirmar que os municípios brasileiros, principalmente os de pequeno porte (que

representam a grande maioria), não possuem recursos próprios para financiar a

política, tornando-se operadores dos programas federais e estaduais, o que pode

comprometer sua autonomia em relação à destinação dos recursos, pois se

encontram condicionados aos programas.

Em relação à gestão estadual da política de assistência social, a crítica recai

sobre a quase inexistência de inovação em relação à política de assistência social e

ao fato dos estados preocuparem-se mais com os programas de governo. Sposati

afirma que os estados restringiram-se a repassar os recursos federais aos

municípios, “aplicando, porém, critérios próprios e difusos sem publicização”

(2006:104).

As utilizações de diferentes procedimentos técnicos e recursos tecnológicos

também são considerados pontos fortes desse novo ordenamento da política de

assistência social, e sinais de inovações nessa área. Entretanto, se faz necessário

um investimento maior na construção de um sistema em rede12 capaz de articular e

12A Rede SUAS é o sistema de informação do Sistema Único de Assistência Social e tem a função de responder

(25)

publicizar dados sobre o sistema único e toda sua estrutura no território brasileiro.

Além disso, o pleno funcionamento desse sistema reduziria significativamente o (re)

trabalho dos municípios que preenchem diversos instrumentos encaminhados pelos

gestores federais e estaduais.

A criação dos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) nos

municípios visa o atendimento da população no eixo da Proteção Social Básica,

através de ações de caráter preventivo que promovam a inclusão social das

populações socialmente vulneráveis13, objetivando desenvolver potencialidades e a

retomada ou fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. Visa também

atender a população vítima de acelerado processo de empobrecimento, que vivencia

precária ou total ausência de condições sócio-econômicas expressando modos de

vida que resultam em pobreza, privação e exclusão das condições mínimas de

existência.

A idéia é que essa nova configuração possibilite uma melhor organização do

sistema municipal de assistência social e que os próprios municípios, a partir de sua

realidade, possam dar enfrentamento às demandas locais. A partir desse

entendimento, e para que a política de assistência social pudesse se materializar

com maior eficácia e efetividade através de seus programas, projetos, serviços e

benefícios, criou-se a proposta de implantação dos Centros de Referência de

Assistência Social - CRAS.

Os CRAS são unidades estatais localizadas estrategicamente em locais onde

exista maior número de famílias em situação de vulnerabilidade social e

Monitoramento da Comissão Intergestora Bipartite (CIB), Georeferenciamento, CADSUAS PR. Todos também preenchidos eletronicamente.

13 Condição de vulnerabilidade social é aquela decorrente da pobreza, privação (ausência de renda, precário ou

(26)

econômica14. A proposta e a expectativa é que a equipe interdisciplinar que atue

nestes espaços possibilite a articulação com as demais políticas, estabelecendo a

interface e potencializando os serviços, otimizando recursos, estimulando

participação através de uma ação política que desperte o protagonismo popular,

reforçando vínculos familiares e sócio-comunitários. Em princípio essas unidades

estatais devem priorizar o atendimento aos beneficiários dos programas federais

(Bolsa Família, Benefício da Prestação Continuada, Programa de Erradicação do

Trabalho Infantil) e programas estaduais, no caso do Paraná podemos citar: o Leite

das Crianças, Luz Fraterna, Tarifa Social, entre outros.

Segundo orientações do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à

Fome (MDS), os serviços prestados no CRAS, por situarem-se no âmbito da

proteção social básica, devem primar por atuar com famílias, seus membros e

indivíduos em seu contexto comunitário, com vistas a fortalecer os vínculos

sócio-familiares e a inserção nos serviços, programas, projetos e benefícios da rede de

proteção social - básica e especial - da assistência social e das demais políticas

públicas.

A organização do Sistema Municipal de Assistência Social exige a necessária implantação do CRAS como equipamento que por si só constitui um direito. Mas, é importante afirmar que não é uma extensão e nem se confunde com o órgão gestor, é um equipamento social que nos desafia a fazer a diferença, a ser mais do que porta de entrada dos direitos. O CRAS representa a estratégia fundamental de construção de protagonismos pelos próprios sujeitos de direitos e reversão de processos de desigualdade (SILVEIRA e COLIN, 2006:26).

14 O número de CRAS por município é definido pela NOB/SUAS considerando o porte de

(27)

A Norma Operacional Básica do Sistema Único da Assistência Social

(NOB/SUAS) orienta ainda que os municípios que se encontram com habilitação15

em gestão básica ou plena devem necessariamente implantar o CRAS. Contudo a

diferença que se estabelece é que os municípios que se encontram em gestão plena

possuem maior autonomia no que tange ao desenvolvimento das ações, devendo

organizar além de todas as atividades de atendimento básico também a rede de

proteção especial de atendimento aos casos considerados de média e alta

complexidade, como por exemplo: crianças vítimas de violência, moradores de rua,

idosos negligenciados ou em situação de abandono, etc.

Estima-se que existam hoje aproximadamente 4000 CRAS16 no Brasil e após

dois anos dessa experiência já é possível considerar alguns pontos frágeis dessa

organização. Um dos pontos que merece destaque é o grande número de famílias

atendidas pelos CRAS - cerca de 8 milhões - o que revela o agravamento expressivo

da “questão social” e demanda uma mega estrutura para colocar em prática as

ações de enfrentamento a pobreza propostas pelo SUAS.

Essa necessidade crescente por atendimento sócio-assistencial, resultado de

acelerado processo de empobrecimento da população, seja pelos diversos

processos de exclusão social, seja pela perda ou ausência de empregos, se

confronta com uma estrutura de atendimento público estatal ainda precário e,

freqüentemente, pouco adequado às necessidades da população.

A quase inexistência de unidades públicas de assistência social nos municípios, somada a sua frágil capilaridade no país, conduziu a reedição, ou melhor, a persistência de traços caritativos e filantrópicos. Porém, desta feita, sobre o invólucro

15 Em relação a situação de habilitação dos municípios do Paraná encontra-se a seguinte situação: dos 399

municípios, 226 encontram-se em gestão inicial; 138 em gestão básica e 35 em gestão plena.(Secretaria Técnica da CIB- Fevereiro 2008)

16 Dados apresentados pela Secretária Nacional de Assistência Social, Ana Lígia Gomes, na VI Conferência

(28)

da política de parcerias, do solidarismo e do voluntariado modernos. Na verdade, sob o desígnio de novas bases para a relação entre Estado e a sociedade civil, o velho se recompõe e assume nova roupagem. (SITCOVSKY, 2006:106).

Estima-se a população do Paraná em 9. 932.752 habitantes (IBGE/2003). A

população alvo da assistência social são pessoas e famílias em situação de

vulnerabilidade e risco social, prioritariamente com renda até ½ Salário Mínimo, o

que no Paraná significa 2.322.578 pessoas, correspondendo a 589.420 famílias.

Para fazer frente a esse quadro, o estado do Paraná co-financiou 22 CRAS17

em regiões que apresentavam maiores índices de vulnerabilidade social e alta

concentração de pobreza.18 E mais 59 CRAS em municípios cuja renda per capita

das famílias não ultrapassa ½ salário mínimo. Estes últimos encontram-se em

processo de construção ou implantação. Estima-se que hoje existam no Paraná

aproximadamente 199 CRAS e 81 deles com co-financiamento do Estado e da

União. Se considerarmos as condições sócio-econômicas da população paranaense,

tomando o número de famílias com renda de até meio salário mínimo, percebemos

que esse número de unidades de referência da política de assistência social está

muito aquém das reais necessidades da população.

Além disso, não se trata apenas da instalação pelo órgão gestor, de um

espaço físico adequado e diferenciado para atendimento à população; trata-se de

organizar toda uma estrutura que atenda às demandas e necessidades da

população, com acolhimento adequado que garanta privacidade de atendimento e

respeito a trajetórias individuais e organizações familiares, atendimento profissional

ético, competente e comprometido com a defesa e ampliação dos direitos sem

17 Municípios de: Barbosa Ferraz, Roncado, Cerro Azul, Quitandinha, Rio Bonito do Iguaçu, Palmital, Laranjal,

Cantagalo, Turvo, Candói, Pinhão, Rebouças, Santa Maria do Oeste, Candido de Abreu, Pitanga, Jardim Alegre, Curiúva, Mangueirinha, Reserva, Ortigueira, São João do Triunfo e Cruz Machado.

18

(29)

discriminação de qualquer natureza, fortalecimento de vínculos familiares, sociais e

comunitários estimulando o sentimento de pertença.

Enfim, é necessário mais do que um espaço, é preciso a materialização de

um local onde o direito se concretize na inclusão, nos programas ali desenvolvidos,

no acolhimento, na escuta qualificada, no respeito aos saberes populares, no

atendimento sócio-familiar, na construção da rede, na articulação política local, com

investimento no trabalho comunitário e incentivo ao protagonismo dos sujeitos

populares.

Para tanto, a questão da gestão do trabalho é algo que merece uma atenção

especial, pois é considerada, ao lado da descentralização, financiamento e controle

social, um dos eixos estruturantes do SUAS.

Contudo, dadas as condições precárias em que se encontram os serviços

públicos em todas as esferas de governo, com ausência de profissionais, recursos

físicos e financeiros, resultado dos anos de desmonte promovido pelo ajuste

neoliberal, temos um cenário caótico no que tange aos recursos humanos com:

subcontratações via organizações não-governamentais; saída de trabalhadores sem

reposição (exonerações ou aposentadorias); baixa remuneração; rotatividade de

profissionais; ausência de concursos públicos; contratações de um número

significativo de trabalhadores em cargos de comissão; precarização das relações e

condições de trabalho; perda de direitos trabalhistas; redução na capacidade de

articulação política em função da quebra de vínculos de confiança construídos com

organizações e movimentos sociais em função da rotatividade de profissionais

contratações temporárias através de contratos por tempo determinado, entre outras

formas de exploração da força de trabalho, o que acabou por fragilizar ainda mais o

(30)

Em 13 de dezembro de 2006 foi aprovada a Norma Operacional Básica de

Recursos Humanos (NOB-RH), tendo como pressuposto que um atendimento

sócio-assistencial de qualidade encontra-se diretamente relacionado a uma boa e

estruturada equipe de trabalho, com trabalhadores valorizados e qualificados.

A partir dessa compreensão, esse documento apresenta uma proposta de

equipe mínima para o atendimento nas unidades de proteção social básica e

especial. Além disso, a NOB-RH indica que o preenchimento dos cargos para

atuarem no SUAS e, particularmente, nos CRAS, deve ser de servidores efetivos, ou

seja, ocupantes de cargos criados por lei através de concursos públicos, em número

suficiente à execução da gestão dos serviços sócio-assistenciais em conformidade

com a necessidade de cada local.

Em relação à composição, as equipes nos CRAS foram assim definidas:

municípios de pequeno porte I (até 2.500 famílias Referenciadas19), dois técnicos de

nível superior, sendo um profissional assistente social e outro preferencialmente

psicólogo; municípios de pequeno porte II (até 3.500 famílias Referenciadas), 03

técnicos de nível superior, sendo dois profissionais assistentes sociais e

preferencialmente um psicólogo; municípios de médio, grande, metrópole e Distrito

Federal (a cada 5.000 famílias Referenciadas), 04 técnicos de nível superior, sendo

dois profissionais assistentes sociais, um psicólogo e um profissional que compõe o

SUAS. Além disso, orienta-se que os CRAS devam ter um coordenador também

com nível superior, concursado e com experiência em trabalhos sócio-assistenciais e

comunitários.

19 Família Referenciada: “é aquela que vive em áreas caracterizadas como de vulnerabilidade, definidas a partir

(31)

Do ponto de vista da profissão de Serviço Social, a organização do SUAS e a

implantação dos CRAS, além de consolidar direitos e expandir acessos, se

apresenta como ampliação de mercado de trabalho para o assistente social.

Contudo, levantam-se questões, tais como: em que condições estão se incluindo os

profissionais nestas unidades de atendimento sócio-assistencial - CRAS? De que

forma estão sendo contratados? A que condições de trabalho vêm sendo

submetidos os profissionais de Serviço Social? Que ações vêm desenvolvendo nos

CRAS, que crescem a um ritmo acelerado, e com que qualidade é possível

desenvolver o trabalho?

Em 2006 a SETP/ NUCLEAS20 realizou diversas capacitações que reuniram

aproximadamente dois mil profissionais que atuam nos CRAS, bem como gestores e

conselheiros da assistência social. O objetivo das capacitações foi o de ampliar e

aprofundar o debate em torno da implantação e implementação das ações

desenvolvidas nos CRAS.

Durante esse processo de capacitação21 desencadeado pelo Núcleo de

Coordenação Estadual da Política de Assistência Social (NUCLEAS), constatamos

as dificuldades que os profissionais que estão atuando nos CRAS vêm enfrentando,

como o seu vínculo empregatício (contratações temporárias, cargos comissionados,

entre outros), o que provoca insegurança e instabilidade no profissional e dificulta

(em alguns casos) a criação de laços de compromisso e comprometimento com o

local de trabalho, uma vez que sua condição de trabalhador é temporária e

20

NUCLEAS – Núcleo de Coordenação Estadual da Política de Assistência Social do Paraná é responsável por conduzir a política no estado. Congrega mais três Coordenadorias: Desenvolvimento Integrado, Gestão Municipal e Combate a Fome e mais 18 Escritórios Regionais. Juntos realizam capacitações, assessoram os municípios, acompanham a implantação e implementação dos programas federais e estaduais, acompanham assessoram os Conselhos, Fóruns e Comissões estaduais, acompanham entidades, realizam pesquisas, estudos e publicações na área de assistência social.

21

(32)

transitória; a pressão cotidiana por dar respostas qualificadas às demandas, de fazer

uma estrutura de atendimento precária funcionar (em alguns casos) e,

principalmente, de saber lidar com a angústia de atuar em uma proposta nova que

vem carregada de imensa expectativa, mas sem uma orientação consistente, com

frágeis e quase inexistente estruturas de assessoramento técnico municipal,

estadual e federal.

Entretanto, mesmo diante de um contexto adverso e contraditório é possível

visualizar as possibilidades e, neste sentido, encontramos profissionais que

identificam em seu trabalho junto às populações atendidas pelos CRAS, a

possibilidade da construção e retomada de um trabalho de base, protagonismo

político e autonomia dos sujeitos.

Neste sentido, o trabalho profissional pode assumir duas direções opostas:

de reprodução do atendimento pontual e operacional de programas, projetos,

serviços e benefícios; mas também de resistência na construção de mecanismos

que contribuam com a ruptura da dependência e clientelismo peculiar à política de

assistência social no Brasil, construindo um trabalho que supere a perspectiva da

vigilância e de controle sobre a população atendida, e retome o trabalho que

valorize histórias, trajetórias e saberes populares.

Enfim, a montagem de um Sistema Único de Assistência Social da dimensão

do SUAS, que vem gerando desafios técnicos e profissionais tão novos e amplos,

em uma conjuntura econômica e política tão desfavorável, tem colocado nas mãos

das equipes de trabalhadores e, particularmente, dos assistentes sociais, um peso

considerável. Entre tantos desafios podemos destacar: operar com condições de

trabalhos precários e com alta rotatividade dos trabalhadores; atuar em um campo

(33)

trabalhar com metodologias ainda pouco sistematizadas e com alto nível de

imprecisão; requerer de seus trabalhadores uma forte responsabilidade ética,

profissional e política, posicionamento que se confronta a todo o momento com as

precárias condições de vida da maioria da população e com as parcas possibilidades

de superação real destas condições, pelo menos a curto e médio prazo; conviver

diariamente com a miséria e com o sofrimento humano.

Evidentemente, o quadro de miséria que vive a população atendida pelo

CRAS mobiliza a indignação dos profissionais e, conseqüentemente, os coloca em

movimento reafirmando o engajamento e compromisso com o trabalho para mudar a

realidade. Contudo, é importante ter cuidado para perceber os limites impostos pelas

condições de trabalho e as possibilidades reais que elas colocam. O longo período

em que a assistência social foi implementada apenas como forma de ajuda pontual,

assim como a ausência de recursos e investimentos nesta área, comprometem as

condições de produção de respostas mais eficazes e irão requerer mais tempo,

muito esforço e mobilização de diversos setores da sociedade para superação desse

status quo.

Na busca de nos aproximarmos dessa realidade, elaboramos algumas

questões com o propósito de orientar e dar a direção à nossa pesquisa. Nossos

questionamentos caminham na direção de perguntar: Quais são as particularidades

que assume o trabalho dos assistentes sociais que atuam nos CRAS(s) no estado

do Paraná? Que respostas profissionais vêm sendo dadas às demandas postas nos

CRAS? As ações desenvolvidas pelos assistentes sociais nos CRAS do estado do

Paraná indicam para uma retomada do trabalho de base sócio-político-educativo

estimulando o protagonismo crítico e participativo da população e contribuindo para

(34)

medida as ações desenvolvidas pelos assistentes sociais nos CRAS do estado do

Paraná podem apresentar traços que representem mais uma estratégia de gestão

local da pobreza, reapresentando velhas práticas reiterativas de vigilância e controle

social e moral, reafirmando a dependência e subserviência da população ao poder

local instituído?

O espaço público estatal enquanto campo investigativo é rico em

possibilidades e para essa pesquisa assume uma especial relevância, pois além de

historicamente se constituir com o maior empregador de assistente social 22 (Serra,

2000) é o espaço onde, por excelência, se materializam as demandas resultantes

dos conflitos vinculados às necessidade de reprodução social.

Pensar a esfera pública estatal como espaço de trabalho do assistente social

é considerar os processos de reordenamento do mundo do trabalho, resultantes de

um novo modo de organização da produção, aliado às mudanças nos padrões de

acumulação do capital e sua incidência sobre os Estados nacionais, afetando a idéia

de Estado-Nação, promovendo reformas estruturais, resultando em perdas dos

direitos sociais e trabalhistas.

Os assistentes sociais que atuam na esfera pública estatal possuem uma

dupla inserção neste contexto: primeiro, por se inserir como trabalhadores

assalariados que vendem sua força de trabalho para sobreviver; segundo, porque ao

vincularem-se ao campo da Assistência Social atuam numa realidade contraditória,

com aumento da demanda e redução dos investimentos nas políticas sociais

promovidos pela “contra-reforma do Estado”.

22 Segundo pesquisa realizada em 2004 pelo Conselho Federal de Serviço Social indicou que 78,16% dos

(35)

Segundo Behring (2003:198) a “reforma” do Estado brasileiro, tal como foi

conduzida, “permite caracterizar o processo como modernização conservadora, mas

como uma contra-reforma, que mantém a condução conservadora e moderniza

apenas pelas pontas”.

A “reforma” passaria por transferir para o setor privado atividades que podem ser controladas pelo mercado, a exemplo das empresas estatais. Outras formas é a descentralização, para o setor público não estatal, de serviços que não envolvem o exercício do poder do Estado, mas devem, ser subsidiado por ele, como: educação, saúde, cultura e pesquisa cientifica. Este processo é caracterizado como

publicização e é uma novidade da reforma que atinge diretamente as políticas sociais. O Estado reduz a prestação direta de serviços, mantendo-se como regulador e provedor (BEHRING, 2003:178 - 179).

Neste sentido é que salientamos a relevância dessa pesquisa, pois além de

trazer à tona a discussão sobre o trabalho do assistente social, centra-se na política

de Assistência Social que historicamente tem nos assistentes sociais o profissional

de referência.

O profissional de Serviço Social, ao atuar no campo das políticas públicas,

vivencia as contradições resultantes das demandas e das novas requisições

oriundas das rápidas alterações no cenário político, econômico e social brasileiro,

que incidem nas expressões da questão social, matéria prima do trabalho do

assistente social. O profissional de Serviço Social que desenvolve suas atividades

no âmbito público estatal, particularmente na política de assistência social, vivencia,

ao lado de outros trabalhadores, uma realidade marcada pela descontinuidade

política na administração pública, mudanças de gestão, ausência de concursos

públicos, redução dos quadros técnicos sem substituição, terceirizações e

contratações temporárias em cargos de comissão.

Destacamos também a relevância do nosso estudo considerando a existência

(36)

sócio-institucional na discussão do exercício profissional enquanto locus privilegiado

em que se materializam as demandas sociais e que exigem respostas concretas e,

muitas vezes, imediatas do profissional.

Ademais, é preciso considerar que o debate sobre a atuação profissional

dos assistentes sociais nos CRAS compareceu muito recentemente no cenário

brasileiro, uma vez que seu processo de implantação no país só começa a ocorrer a

partir da entrada em vigor da PNAS-2004 e do SUAS-2005. Tal processo merece,

pois, um estudo mais aprofundado das condições sobre as quais se desenvolve

esse trabalho, bem como sobre as particularidades que os profissionais do estado

do Paraná estão imprimindo às ações profissionais. Por outro lado, é preciso

observar que as mesmas razões colocam também limites a essa pesquisa, pois seu

objeto relaciona-se a uma política e a um sistema de gestão que estão em processo

muito recente de implantação; acresce-se ainda o fato da pesquisadora participar

diretamente da gestão estadual, decorrente do cargo que ocupa no órgão

responsável pela política de assistência social, como já mencionado.

Segundo Iamamotto (2005) existem poucos estudos que tratam do trabalho

do assistente social enquanto força de trabalho mercantilizada “inscrita na

organização do trabalho coletivo das organizações empregadoras”, o que dificultaria

a elucidação de seu significado social “no processo de produção e reprodução das

relações sociais, no cenário da sociedade brasileira contemporânea” (2005: 07,

Volume II).

O distanciamento de um debate mais enraizado e profícuo sobre os

fundamentos do Serviço Social e o trabalho profissional, acaba possibilitando uma

atuação mais focalizada em situações muito particulares e segmentadas, descoladas

(37)

modo de produção capitalista. Neste sentido, as respostas tendem a ser imediatas e

podem, a médio e longo prazos, levar o profissional a uma compreensão fatalista da

profissão, além de passarem a responsabilizar os usuários de seus serviços pela

condição em que se encontram.

Isso porque a particularidade dessa atividade profissional, na divisão social e técnica do trabalho social, não decorre apenas do valor de uso dos serviços prestados - da qualidade do trabalho realizado - mas, também de sua participação na produção e ou distribuição da mais-valia, socialmente produzida; e na luta pela hegemonia entre forças sociais, o que passa pelas mediações do mercado de trabalho, enquanto uma atividade de caráter profissional (IAMAMOTO, 2005: 8 volume II).

Essa pesquisa, ancorada diretamente no movimento do real, pretende

identificar as novas determinações e mediações essenciais para compreender a

particularidade do trabalho dos assistentes sociais nos CRAS do Paraná, buscando

captar a partir do trabalho concreto a direção social que o assistente social está

imprimindo em seu exercício cotidiano. Entendendo que essa direção social deve

estar em consonância com os princípios de um projeto profissional coletivo, distinto

do projeto neoliberal pretensamente hegemônico. “A possibilidade de imprimir uma

direção social ao exercício, moldando o seu conteúdo e o modo de operá-lo, decorre

da relativa autonomia que dispõe o assistente social, resguardado pela legislação e

passível de reclamação judicial” (IAMAMOTO, 2005 :8 VOLUME II).

Nesses termos, são objetivos dessa investigação explicitar as condições

históricas de implantação e implementação do SUAS e dos CRAS, reconstruir o

processo histórico de sua implantação no Paraná, conhecer o espaço

sócio-ocupacional e as condições de trabalho dos assistentes sociais nos CRAS do estado

do Paraná, refletir sobre o significado social do trabalho profissional no espaço

(38)

construindo as respostas técnicas e políticas frente às demandas nos territórios

onde se encontram localizados.

O exame mais circunstanciado dessas questões é relevante também se

considerarmos a luta desenvolvida pelos profissionais de Serviço Social e as

instâncias de representação da categoria profissional, para a consolidação da

política pública de Assistência Social em um Sistema Único. Tratando-se de um

movimento complexo, em que atuam poderosas forças contrárias, a produção de

conhecimentos torna-se imprescindível para a análise crítica do processo em curso e

a formulação de estratégias de ação eficazes pelo grupo de trabalhadores

envolvidos e pelos profissionais que os assessoram.

Também consideramos importante destacar que as ações profissionais

devem pautar-se por um projeto ético-político na defesa de direitos universalistas e

democráticos, que busquem garantir a integralidade, a equidade e a cidadania,

valores fundantes do Código de Ética Profissional do Serviço Social. Neste sentido,

faz-se necessário conhecer o cotidiano profissional e as ações desenvolvidas, com o

intuito de identificar possíveis tensões entre a realização do projeto

ético-político-profissional e as condições em que opera o exercício ético-político-profissional do assistente

social como trabalhador assalariado.

E, finalmente, consideramos que a elaboração desta pesquisa poderá

contribuir para o debate sobre o exercício profissional dos assistentes sociais,

entendo-os como trabalhadores submetidos aos mesmos constrangimentos que

sofrem o conjunto de trabalhadores brasileiros, mas também como sujeitos que

protagonizam trajetórias profissionais singulares e particulares, que na multiplicidade

das relações que compõem o mundo do trabalho, constroem a história coletiva, no

(39)

fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob

aquelas que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”

(MARX, 1978:17).

A reconstrução teórico-metodológica do objeto de pesquisa teve como

fundamento o pressuposto marxiano de que a realidade não se dá a conhecer

apenas pela descoberta dos nexos que a constituem, mas pela contribuição à

constituição desta realidade, partindo do concreto ao abstrato (IANNI, 1986). A partir

desse entendimento, procuramos nos aproximar da realidade do trabalho do

assistente social nos CRAS, que não é passível de ser conhecida de forma imediata,

dado a sua complexidade e contradições, o que exigiu o seu desvelamento através

de reflexões acuradas a respeito dos elementos que emergiram durante o processo,

e desta forma trilhar, à maneira afirmada por IANNI “um percurso contínuo entre o

que é aparência e o que é a essência, entre a parte e o todo, e o singular e o

universal” (IANNI, 1986).

A construção e reconstrução das categorias se deram na forma explicitada

por Battini (1998), para quem: “categorizar implica em desdobrar aquilo que é mais

específico da realidade, do seu ser. É superar o nível da aparência. Não é apenas

revelar a visão real do real, mas a sua visão crítica” (BATTINI, 1998: 49).

Segundo IANNI (1986), a construção da categoria é um desfecho, é como se

explica cientificamente um acontecimento, como se constrói a explicação. A

construção da categoria é o núcleo, o desfecho da reflexão dialética, que é difícil e

ao mesmo tempo fascinante, que é o fato de que a reflexão vai caminhando e

parece que não vai deixando nada de lado. Vai reincorporando os elementos que

estão sendo registrados. As reflexões que estão sendo descobertas são como se a

(40)

muito daquilo que estava no começo e vai recriando num percurso. Isto é um

trabalho de reflexão complexo, que implica em desvendar o real, dimensões,

significados, tendências que definitivamente não são dadas no nível dos

acontecimentos vistos como fatos empíricos. Essa reflexão confere ao objeto uma

nova realidade. (IANNI, 1986).

Para o desenvolvimento do estudo utilizamos diversas fontes de pesquisa.

Inicialmente nos apoiamos em uma pesquisa documental e de revisão bibliográfica,

que foi incorporada durante todo o processo de elaboração da tese, seguida da

pesquisa de campo, com base nos dados informados pelos municípios nos planos

municipais.

A pesquisa documental apoiou-se em seleção criteriosa de investigações já

realizadas, de explicações já dadas referentes ao tema abordado pela pesquisa.

(CHIZOTTI 1991: 122).

Como fontes de pesquisa secundária foram utilizados os Relatórios de Gestão

de 2006, consolidados pelo Núcleo Estadual da Política de Assistência Social da

SETP para os 399 municípios do Estado do Paraná, nos itens que se referem aos

CRAS.

Os sujeitos da pesquisa foram os profissionais de Serviço Social que atuam

nos CRAS, contabilizados aqueles municípios que possuíam CRAS em

funcionamento no período da coleta de dados.

A amostra foi definida de duas maneiras e em etapas distintas.

Inicialmente elaboramos um roteiro fechado de coleta de dados e distribuímos

167 formulários aos profissionais de Serviço Social que participavam de uma

capacitação sobre CRAS realizada pela Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego

(41)

formulários distribuídos obtivemos o retorno de 76 formulários, os quais tabulamos

transformando-os em gráficos apresentados no corpo do trabalho.

Em um segundo momento, definimos uma amostra intencional constituída a

partir da indicação pelos chefes de Escritórios Regionais da SETP, daqueles

profissionais da região que poderiam ser considerados referência para serem

entrevistados na pesquisa.

No final chegamos a indicação de aproximadamente 20 nomes de

profissionais no Paraná que poderiam e se dispuseram a participar da pesquisa. No

decorrer do processo de coleta de dados ocorreram desistências e impedimentos de

diversas ordens, restando o total de 07 profissionais de Serviço Social que foram

entrevistados, e que aqui nesta pesquisa foram considerados sujeitos significativos

da pesquisa. Em função da redução da amostra, não foi possível estabelecer

comparações entre as diversas regiões do Estado, mas sim realizar indicações mais

amplas, sem comprometer a qualidade dos resultados da pesquisa.

Para trabalhar os dados coletados adotou-se a análise de conteúdo que, na

perspectiva explicitada por Chizzotti:

Procura reduzir o volume amplo de informações contidas em uma comunicação a algumas características particulares ou categorias conceituais que permitam passar dos elementos descritivos à interpretação ou investigar a compreensão dos atores sociais no contexto cultural em que produzem a informação ou, enfim, verificando a influência desse contexto no estilo, na forma e no conteúdo da comunicação (CHIZZOTTI, 1991: 99).

Espera-se também que o trabalho forneça aos pesquisadores da temática em

questão, elementos para a apreensão do movimento de construção teórica a partir

da realidade de sujeitos concretos, trazendo “(...) reflexões decisivas na práxis

(42)

A tese que ora apresentamos está estruturada em três capítulos que apesar

de distintos possuem estreita ligação entre si.

O primeiro capítulo objetiva refletir sobre a categoria trabalho e sua

representação na materialidade cotidiana dos trabalhadores do Serviço Social,

particularmente do assistente social que atua na esfera pública estatal, entendendo

sua história, cultura e processos de trabalho. Para tanto, desdobramos as

discussões em dois momentos: a dimensão ontológica do trabalho e o modo de

organizar o trabalho na sociedade capitalista.

No segundo capítulo construímos categorias teóricas refletindo sobre a

reorganização do capital, o processo de globalização, o neoliberalismo no Brasil e

no mundo. Essa base teórica possibilitou entender a lógica da contra-reforma do

Estado ocorrida no Brasil a partir dos anos de 1990. Compõe também, esse

capítulo, a discussão sobre a política social de Assistência Social no Brasil e

particularmente no Paraná, quando recontamos a história e trajetória dessa política

no estado.

No terceiro capítulo passamos a discutir o Serviço Social realizando uma

breve incursão histórica até a contemporaneidade. Apresentamos uma reflexão

sobre os Centros de Referência de Assistência Social relacionando com os dados

empíricos retirados dos instrumentos de coleta de dados. A apresentação e análise

dos dados seguiram a seguinte organização: as condições de trabalho e as

condições técnicas para realização do trabalho do assistente social.

Imagem

Tabela 1 – Divisão Regional do Estado do Paraná

Tabela 1

– Divisão Regional do Estado do Paraná p.156
Tabela 2 – Divisão por Porte de Município

Tabela 2

– Divisão por Porte de Município p.157
Tabela 3 – Níveis de Gestão

Tabela 3

– Níveis de Gestão p.158
GRÁFICO 1

GRÁFICO 1

p.177
GRÁFICO 2

GRÁFICO 2

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GRÁFICO 4  Educação Continuada 53% 26% 45% 61% 1% 10% 0% 20%30%40%50%60%70%

GRÁFICO 4

Educação Continuada 53% 26% 45% 61% 1% 10% 0% 20%30%40%50%60%70% p.181
GRÁFICO 5 -

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GRÁFICO 6  Média Salarial 44% 48% 5% 2% 1% 0% 10%20%30%40%50%60% 1 a 3 sal. min. 4 a 6 sal.min

GRÁFICO 6

Média Salarial 44% 48% 5% 2% 1% 0% 10%20%30%40%50%60% 1 a 3 sal. min. 4 a 6 sal.min p.184
GRÁFICO 7

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GRÁFICO 8

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GRÁFICO 9

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Referências