A natureza do comércio das regiões brasileiras no Mercosul
Texto
(2) PAULO RICARDO FEISTEL. A NATUREZA DO COMÉRCIO DAS REGIÕES BRASILEIRAS NO MERCOSUL. Tese apresentada ao Programa de Doutorado em Economia de Universidade Federal de Pernambuco, Programa de Pós-Graduação em Economia – PIMES, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Doutor em Economia .. Orientador: Prof. Dr. Álvaro Barrantes Hidalgo. RECIFE-PE 2006.
(3) Feistel, Paulo Ricardo A natureza do comércio das regiões brasileiras no Mercosul / Paulo Ricardo Feistel. – Recife : O Autor, 2006. ix, 176 folhas : il., gráf., tab. Tese (doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco. CCSA. Economia, 2006. Inclui bibliografia e anexos. 1. Comércio internacional – Integração regional. 2. Mercosul. 3. Vantagens comparativas (Comércio). I. Título. 339.5 382. CDU (2.ed.) CDD (22.ed.). UFPE BC2006-230.
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(5) ii. A minha filha Karin e a minha esposa Graça..
(6) iii. AGRADECIMENTOS À Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e ao Departamento de Ciências Econômicas, pelo apoio institucional. À Universidade Federal de Pernambuco e ao PIMES. Ao meu orientador Prof. Álvaro B. Hidalgo, quero manifestar minha gratidão muito especial, pela orientação e conselhos em nossas conversas, os quais além de conduzirem a elaboração deste trabalho, em muito contribuíram para meu desenvolvimento profissional e pessoal. Ao Prof. Olimpio J. A. Galvão pela sua importância em minha vida acadêmica, e incentivo na superação de minhas limitações. Agradeço às pessoas e entidades que, de alguma maneira, contribuíram para o êxito deste trabalho, aos funcionários do PIMES, ao funcionário Biágio do Banco do Nordeste e em especial ao Prof. Joaquim José M. Guilhoto da USP. À CAPES, através do programa PICDT. Agradeço aos meus colegas de pós-graduação do PIMES que, não raras vezes acalmaram minhas angústias para que pudesse ultrapassar as dificuldades do curso e, de alguma forma contribuíram para a realização deste trabalho, especialmente: Adriano Firmino, Adriano Paixão, Luis Honorato, Liedje Siqueira, Magno Vamberto, Wellington Justo e Rodrigo Coutinho. A Pedro Maioli, Deise, Heictor, Carol e Thais, por me aceitarem como membro da família e pela amizade sempre de “Primeira”. Á família de Hugo Kutzer pelo apoio e amizade A Seu Francisco Alves dos Reis e Dona Suzanne pelo incentivo acadêmico e apoio emocional. Aos amigos Marisan e Cláudia pela amizade de sempre. À minha esposa, Maria das Graças, que, com sua paciência, compreensão e determinação, soube suportar as nossas dificuldades vivenciadas, incentivando e apoiando em todos os momentos. À minha filha Karin, que sempre teve um gesto de carinho para acalmar meus anseios, compreendendo as privações que a submeti. Aos meus pais..
(7) iv. RESUMO O Brasil, na última década, iniciou uma política de liberalização do comércio externo para atender às expectativas de inserção das economias globalizadas. O processo foi realizado juntamente com a promoção da estabilidade da economia brasileira, principalmente o controle da inflação e o surgimento e inserção do Brasil no Mercosul. A nova conjuntura da economia mundial e a política macroeconômica interna alteraram as relações de comércio do Brasil com seus parceiros comercias e com os demais membros do Mercosul. Como no Brasil as disparidades regionais são reais, é natural que se investigue o comportamento do comércio internacional das regiões brasileiras, em particular das Regiões Nordeste, Sudeste e Sul, as quais conjuntamente, são responsáveis por mais de 90,0% do comércio internacional brasileiro e 95,0% para o Mercosul. Assim, a investigação deste trabalho foi voltada para o comércio dessas regiões para com o Mercosul. Para isto, foi analisado o fluxo de comércio dessas regiões no padrão do comércio internacional tradicional, onde predomina a explicação do comércio interindústria e o fluxo do comércio intra-indústria, explicadas pelas economias de escala e pela diferenciação de produtos. Em particular, objetivou-se analisar as características do fluxo de comércio internacional das regiões Nordeste, Sudeste e Sul, em termos de intensidades fatoriais dentro das condições da teoria tradicional do comércio. Por outro lado, procurou-se averiguar a contribuição do comércio intra-indústria no crescimento do fluxo de comércio intra-bloco e as características deste tipo de comércio em cada uma destas regiões do Brasil. Os resultados mostram que em termos de comércio global, nas três regiões analisadas, as importações apresentaram maior intensidade de capital que as exportações, corroborando com os preceitos da teoria tradicional do comércio internacional. Com relação ao uso dos fatores, nas exportações da Região Nordeste para o resto do mundo e para o Mercosul, parece existir um comportamento paradoxal no aproveitamento das vantagens comparativas, pois há uma expressiva participação dos bens intensivos em capital em detrimento dos bens intensivos em recursos naturais e mão-de-obra. Nos resultados para a região Sul, na relação trabalho-recursos naturais, as exportações são intensivas em recursos naturais, portanto condizentes com os preceitos das vantagens comparativas para esta região. No entanto, suas exportações também se mostraram intensivas em capital corroborando os resultados encontrados para as Regiões Nordeste e Sudeste. Quanto ao comércio intra-indústria, os resultados mostram que os índices totais de comércio para as regiões analisadas foram sensíveis à implementação do Mercosul. Apesar dos problemas enfrentados por este bloco, houve aumento no comércio intra-indústria entre as Regiões Sudeste, Nordeste e Sul com os países do Mercosul. Com relação aos determinantes do comércio intra-indústria, os coeficientes encontrados indicam que este tipo de comércio está relacionado ao nível de renda mais alto e onde as barreiras tarifárias são menores..
(8) v. ABSTRACT. Over the last decade, Brazil started a policy of liberalization of external commerce, to meet the expectations of insertion of the globalized economies. This process was carried out together with the promotion of the stability of the Brazilian economy, mainly through inflation control and the appearance and insertion of the country in the Mercosul. The new situation of the world economy and the internal macroeconomics policy altered the commerce relations between Brazil and its commercial partners, as well as with the other members of Mercosul. Since the regional disparities are real in Brazil, it is only natural to investigate the behavior of the international commerce in the Brazilian regions, particularly in the Northeast, Southeast and South, which together are responsible for over 90% of the Brazilian international commerce, and 95% for the Mercosul. Thus, the investigation of this work was focused on the commerce between these regions and the Mercosul. In order to achieve that, we analyzed the commerce flow in these areas in terms of the traditional international commerce standard, where the inter-industry commerce approach predominates, and the intra-industry commerce flow, where the scale economics and difference in goods predominates. In particular, we aimed to analyze the characteristics of the intentional commerce flow in the Northeast, Southeast and South areas, in terms of the factorial intensities within the conditions of the traditional commerce theory. On the other hand, we tried to investigate the contribution of the intra-industry commerce in the growth of the intra-group commerce flow, and the characteristics of this type of commerce in each of those Brazilian areas. The results show that in terms of the global commerce in the three areas analyzed, the imports displayed a stronger capital intensity than the exports, confirming the precepts of the traditional theory of international commerce. Regarding the usage of the factors, in the exports from the Northeastern Area to the rest of the world and to Mercosul, there seems to be a paradox behavior in the exploration of the comparative advantages, since there is an expressive participation of the intensive capital goods, compared to the intensive goods in natural resources and workforce. In the results for the Southern area, in the relationship work-natural resources the exports are intensive in terms of natural resources, therefore agreeing with the precepts of the comparative advantages for that region. However, their exports have also shown to be intensive in terms of capital, confirming the results found for the Northeast and Southeast regions. As for the intraindustry commerce, the results show that the total indexes of commerce for the analyzed areas were sensitive to the implementation of Mercosul. Despite of the problems faced by this group, there was a growth in the intra-industry commerce between the Southeast, Northeast and South regions and the Mercosul countries. Regarding the determining factors of the intra-industry commerce, the coefficients found indicate that this type of commerce is related to the goods with a highest income and where the tax barriers are smaller.
(9) vi. LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Comparativo Entre Blocos e Mercados Econômicos em 2004....................................................... 11 Tabela 2 - Destino das Exportações, Origem das Importações e PIB da Argentina ........................................ 14 Tabela 3 - Destino das Exportações, Origem das Importações e PIB do Paraguai.......................................... 15 Tabela 4 - Destino das Exportações, Origem das Importações e PIB do Uruguai........................................... 16 Tabela 5 - Evolução do PIB e Comércio Exterior Brasileiro - 1990/2004 ...................................................... 19 Tabela 6 – Participação nas Exportações por Estados e Regiões do Brasil -1990/2004................................. 21 Tabela 7 - Principais Parceiros Comercias do Brasil - 1990/2004 .................................................................. 22 Tabela 8 - Participação das Regiões no PIB do Brasil - 1991/2002 ................................................................ 25 Tabela 9 - Exportações e Importações Brasileiras para o Mercosul em Percentual 1990/2004 ..................... 29 Tabela 10 - Coeficientes Diretos e Totais Sobre os Salários, Capital e Recursos Naturais e Vetores Normalizados das Exportações, Importações e Bens Domésticos - Região Sudeste - 1999.......... 72 Tabela 11 - Requisitos Diretos e Indiretos dos Fatores de Produção - Região Sudeste – 1999....................... 74 Tabela 12 - Composição das Intensidades Fatoriais: Capital-Trabalho, Capital-Recursos Naturais e Trabalho- Recursos Naturais - Região Sudeste - 1999 ................................................................. 75 Tabela 13 - Exportação para o Resto do Mundo Segundo Grupos de Produtos Região Sudeste -1990/2004 . 76 Tabela 14 - Participação dos Produtos no Valor Total das Exportações para o Resto do Mundo Segundo a Intensidade Fatorial Relativa - Região Sudeste – 1990/2004 ......................................................... 79 Tabela 15 - Participação dos Produtos no Valor Total das Importações do Resto do Mundo Segundo a Intensidade Fatorial Relativa - Região Sudeste/1999 ..................................................................... 79 Tabela 16 - Participação dos Produtos no Valor Total das Exportações para o Mercosul Segundo a Intensidade Fatorial Relativa - Região Sudeste – 1990/2004 ......................................................... 80 Tabela 17 - Participação dos Produtos no Valor Total das Importações do Mercosul Segundo a Intensidade Fatorial Relativa - Região Sudeste – 1990/2004 ......................................................... 81 Tabela 18 - Coeficientes Diretos e Totais Sobre os Salários, Capital e Recursos Naturais e Vetores Normalizados das Exportações, Importações e Bens Domésticos - Região Sul/1998.................... 83 Tabela 19 - Requisitos Diretos e Indiretos de Fatores de Produção - Região Sul/1998 ................................... 84 Tabela 20 –Estimativa da Composição das Intensidades Fatoriais : Capital-Tabalho, Capital-Recusros Naturais e Trabalho-Recursos Naturais - Região Sul/1998 ........................................................... 85 Tabela 21 - Exportação para o Resto do Mundo Segundo Grupos de Produtos - Região Sul - 1990/2004..... 86 Tabela 22 - Participação dos Produtos no Valor Total das Exportações para o Resto do Mundo Segundo a Intensidade Fatorial Relativa - Região Sul -1990/2004.................................................................. 89 Tabela 23 - Participação dos Produtos no Valor Total das Importações do Resto do Mundo Segundo a Intensidade Fatorial Relativa - Região Sul -1990/2004................................................................. 89 Tabela 24 - Participação dos Produtos no Valor Total das Exportações para o Mercosul Segundo a Intensidade Fatorial Relativa - Região Sul -1990/2004.................................................................. 90 Tabela 25 - Participação dos Produtos no Valor Total das Importações do Mercosul Segundo a Intensidade Fatorial Relativa - Região Sul -1990/2004................................................................. 91 Tabela 26 - Coeficientes Diretos e Totais Sobre os Salários, Capital e Recursos Naturais e Vetores Normalizados das Exportações, Importações e Bens Domésticos - Região Nordeste – 1997 ....... 93 Tabela 27- Requisitos Diretos e Indiretos de Fatores de Produção - Região Nordeste - 1997 ........................ 95 Tabela 28 - Estimativa da Composição das Intensidades Fatoriais: Capital-Tabalho, Capital- Recursos Naturais e Trabalho- Recursos Naturais – Região Nordeste -1997 ................................................ 96 Tabela 29 – Exportações para o Resto do Mundo Segundo os Grupos de Produtos Região Nordeste – 1990/2004....................................................................................................................................... 97 Tabela 30 -Participação dos Produtos no Valor Total das Exportações Para o Resto do Mundo Segundo a Intensidade Fatorial Relativa Região Nordeste -1990/2004 ......................................................... 100 Tabela 31 - Participação dos Produtos no Valor Total das Importações do Resto do Mundo Segundo a Intensidade Fatorial Relativa Região Nordeste – 1990/2004....................................................... 101 Tabela 32 - Exportação para o Mercosul Segundo Grupos de Produtos ...................................................... 102.
(10) vii Tabela 33 - Participação dos Produtos no Valor Total das Exportações para o Mercosul Segundo a Intensidade Fatorial Relativa Região Nordeste – 1990/2004...................................................... 102 Tabela 34 - Participação dos Produtos no Valor Total das Importações do Mercosul Segundo Intensidade Fatorial Relativa Região Nordeste – 1990/2004........................................................................... 103 Tabela 35 – Intensidades Fatoriais Relativas do Comércio Internacional para o Resto do Mundo : Comparativo entre as Regiões Nordeste, Sudeste e Sul – 1991/2004........................................... 105 Tabela 36 – Intensidades Fatoriais Relativas do Comércio Internacional com o Mercosul: Comparativo entre as Regiões Nordeste, Sudeste e Sul – 1991/2004 ................................................................ 107 Tabela 37 -Comércio Intra-Indústria da Região Sudeste com o Mercosul 1990 a 2004 ............................... 111 Tabela 38 - Regressões Estimadas do Comércio Intra-Indústria para o Mercosul- Região Sudeste – 1998 . 116 Tabela 39 - Comércio Intra-indústria da Região Sul com o Mercosul 1990 a 2004..................................... 118 Tabela 40 -Regressões Estimadas do Comércio Intra-Indústria para o Mercosul Região Sul -1998 ........... 121 Tabela 41 - Comércio Intra-Indústria da Região Nordeste com o Mercosul 1990 a 2004 ............................ 123 Tabela 42 - Regressões Estimadas do Comércio Intra-Indústria para o Mercosul - Região Nordeste – 1998 127 Tabela 43 - Comércio Intra-Indústria das Regiões Nordeste, Sudeste e Sul com o Mercosul - 1990/2004 ... 129 Tabela 44 - Características do Comércio Intra-Indústria das Regiões Sudeste, Sul e Nordeste com o Mercosul -1998............................................................................................................................. 130 Tabela 45 - Indicadores Econômicos do Mercosul – 2002............................................................................ 135.
(11) viii. LISTA DE FIGURAS Figura 1: Classificação das Intensidades Fatoriais ........................................................................................... 64 Figura 2 :Classificação das Intensidades Fatoriais Região Sudeste -1999 ....................................................... 78 Figura 3 : Classificação das Intensidades Fatoriais da Região Sul -1998......................................................... 88 Figura 4 : Classificação das Intensidades Fatoriais da Região Nordeste -1997................................................ 98. LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 – Exportações Mercosul Principais Destinos ..................................................................................144 Gráfico 2 – Origem das Importações do Mercosul ...... .................................................................................145.
(12) ix. SUMÁRIO LISTA DE TABELAS ...................................................................................................................................... vi LISTA DE FIGURAS ..................................................................................................................................... viii LISTA DE GRÁFICOS................................................................................................................................... viii 1. Introdução................................................................................................................................................... 1 2. MERCOSUL: Criação, Aspectos Macroeconômicos e Relações Comerciais dos Países Membros ............. 8 2.1 – O Surgimento do Mercosul.................................................................................................................... 8 2.2 – Mercosul: Aspectos Macroeconômicos dos Países-Membros ............................................................. 12 2.3 - O Padrão do Comércio Internacional das Regiões do Brasil................................................................ 17 2.3.1 – A Natureza do Comércio Internacional do Brasil no Mercosul.................................................... 26 2.4 – Considerações Finais .......................................................................................................................... 30 3. Aspectos Teóricos ....................................................................................................................................... 31 3.1 – Comércio Internacional: Regionalização Versus Multilateralismo .................................................... 31 3.1.1 – A Interação das Teorias de Comércio Internacional e o Regionalismo ............................................ 34 3.2 –A Teoria de Heckscher-Ohlin e a Abordagem Interindústria ............................................................... 39 3.3 –Economias de Escala e a Abordagem do Comércio Intra-Indústria ..................................................... 43 3.4 – Trabalhos Empíricos Sobre o Padrão do Comércio no Processo de Integração Brasil-Mercosul..... 46 3.5 – Considerações Finais .......................................................................................................................... 51 4. Método e Natureza dos Dados..................................................................................................................... 52 4.1 –Comércio Interindústria........................................................................................................................ 52 4.1.1 – O modelo insumo-produto............................................................................................................ 52 4.1.1.1 - Matrizes de Insumo-Produto Regionais no Brasil.......................................................................56 4.1.2 – Composição Fatorial dos Produtos ............................................................................................... 59 4.1.3 - Cálculo das Intensidades Fatoriais ................................................................................................ 59 4.1.4 – Classificação dos Produtos Segundo as Intensidades Fatoriais .................................................... 63 4.2 – Comércio Intra-Indústria ..................................................................................................................... 64 4.2.1 – Mensuração do Comércio Intra-Indústria .................................................................................... 65 4.2.2 – Estimação dos Determinantes do Comércio Intra-Indústria ......................................................... 66 4.2.3 - Fonte e Natureza dos Dados Utilizados......................................................................................... 69 4.3 – Considerações Finais .......................................................................................................................... 70 5. O Padrão do Comércio Interindústria das Regiões Sudeste, Sul e Nordeste do Brasil com o Mercosul ..... 71 5.1 –O Padrão do Comércio Interindústria da Região Sudeste..................................................................... 71 5.2 – O Padrão do Comércio Interindústria da Região Sul........................................................................... 81 5.3 – O Padrão do Comércio Interindústria da Região Nordeste.................................................................. 91 5.3.1 – Comércio Internacional: Comparação das Intensidades Fatoriais Entre as Regiões Nordeste, Sudeste e Sul............................................................................................................................. 104 5.4 – Considerações Finais ........................................................................................................................ 108 6. O Padrão do Comércio Intra-indústria das Regiões Sudeste, Sul e Nordeste do Brasil no Mercosul......... 110 6.1 – O Padrão de Comércio Intra-indústria da Região Sudeste com o Mercosul...................................... 110 6.2 –Características do Comércio Intra-Indústria da Região Sudeste no Mercosul.................................... 115 6.3 – O Padrão de Comércio Intra-indústria Entre a Região Sul e o Mercosul .......................................... 117 6.4 – Características do Comércio Intra-Indústria Entre a Região Sul e o Mercosul ................................. 120 6.5 – O Padrão de Comércio Intra-indústria Entre a Região Nordeste e o Mercosul ................................. 122 6.6 – Características do Comércio Intra-Indústria Entre a Região Nordeste e o Mercosul ........................ 126 6.6.1 – Comparativo do Comércio Intra-Indústria das Regiões Nordeste, Sudeste e Sul e o Mercosul 129 6.7 –Considerações Finais ......................................................................................................................... 131 7. Mercosul: Uma Discussão das Fragilidades e Perspectivas ....................................................................... 132 7.1 – Fragilidades do Mercosul .................................................................................................................. 132 7.1.1 – Conflito Tarifário: União Aduaneira ou Zona de Livre Comércio ............................................. 137 7.1.2 – ALCA e ou MERCOSUL........................................................................................................... 141 7.2 – Virtudes do Mercosul ........................................................................................................................ 143 7.3– Perspectiva para o Mercosul............................................................................................................... 146 7.4 – Considerações Finais ........................................................................................................................ 148 8. Considerações Finais .................................................................................................................................. 149 9. Referências Bibliográficas.......................................................................................................................... 154 Anexos............................................................................................................................................................ 161.
(13) 1. 1. Introdução Após diversas rodadas de negociações sob tutela do GATT (Acordo Geral Sobre Tarifas e Comércio)1, os fluxos do comércio mundial aumentaram consideravelmente como efeito da queda gradativa de barreiras tarifárias. Com a redução das tarifas, incrementadas após a formação do GATT, o mundo caminhava em direção ao livre comércio, ou, no mínimo, para uma situação em que o intercâmbio entre as nações ocorresse sem a excessiva intervenção do Estado. Este processo de liberalização, que posteriormente incluiu o fluxo de capital financeiro, veio acompanhado por um aumento da interdependência entre os países. Surgiu uma nova onda de globalização na economia mundial, que impôs às nações a reestruturação do seu modo de produção para que pudessem competir em um mercado mais aberto e ampliar suas fronteiras de comércio. No entanto, a eliminação das barreiras tarifárias trouxe aos países o receio de que a globalização destruísse seus setores produtivos, que então passaram a adotar outras formas de proteção não-tarifárias. Surgia o “novo protecionismo”, que aliado à complexidade de negociar a liberalização do comércio de maneira universal, serviu de incentivo para a formação de blocos preferenciais de comércio entre grupos reduzidos de países. Para muitos países a globalização tem um sentido ameaçador, tanto que a formação dos atuais blocos regionais de comércio como o Mercosul, o NAFTA e outros, procuram melhorar a competitividade e inserção internacional através de estratégias regionais, para proteger os produtos dos países membros com receio de que os seus setores produtivos perdessem competitividade ao enfrentar o mercado externo. Isto acontece, principalmente, porque o processo de globalização tornou-se muito mais rápido e agressivo na economia mundial.. 1. O General Agreement on Tariffs and Trade (GATT) foi assinado em 1947. O acordo foi projetado para fornecer um fórum internacional que incentivasse o comércio livre entre países membros, regulando e reduzindo tarifas de bens comercializados e fornecendo um mecanismo comum para resolver disputas de comércio. A Organização Mundial do Comércio inclui atualmente mais de 150 países..
(14) 2. Neste contexto, a formação de blocos como o Nafta, o Mercosul e vários outros em diversos continentes, surgiram influenciados pelo relativo sucesso da União Européia e cada um desses blocos tinha por objetivo. buscar a melhor forma de desenvolver as. economias dos países envolvidos, adquirindo maior eficiência produtiva e competitividade para inserir-se com mais eficácia nos mercados extra-bloco. A discussão acerca do comércio realizado entre as nações, seja através da globalização dos mercados, seja através da integração econômica, impôs aos pesquisadores do comércio internacional a responsabilidade de procurar explicar, ou mesmo de mensurar, os impactos do comércio entre países ou regiões. Na literatura internacional, estudos recentes foram realizados para verificar o padrão do comércio realizado entre as nações, como por exemplo: Jacquemin e Sapir (1988), Davis e Weistein (1999), Navarro (2001) e Neven e Röller (1991). Esses autores ressaltam que a natureza do comércio entre os países. pode ser. interindústria, quando o bem. produzido é determinado pelas dotações relativas de fatores, seguindo os princípios da teoria de Heckscher-Ohlin. Os autores também consideram que, se a natureza do comércio for intra-indústria, então o padrão do comércio está baseado em teoria mais recente do comércio internacional, ou seja, na diferenciação dos produtos e nas economias de escala. O padrão do comércio interindústria consiste na exportação e importação de produtos de diferentes setores e o comércio intra-indústria, consiste na exportação e importação de produtos de um mesmo setor industrial. Para Gonçalves et al (1998), a teoria da integração econômica tem duas vertentes, uma inspirada nos conceitos tradicionais da economia internacional, que são as vantagens comparativas, e outra em argumentos mais recentes que incorporam a idéia de economias crescentes de escala e concorrência imperfeita. Para o autor a natureza do comércio internacional pode ocorrer através das vantagens comparativas no comércio interindústria, não eliminando a possibilidade da existência, ao mesmo tempo, do comércio intra-indústria e o impacto desses dois tipos de comércio é observado na economia mundial e, em particular, no Mercosul..
(15) 3. Segundo Barros (1998), acompanhando o crescimento do comércio mundial, o aumento do comércio intra Mercosul tem possibilitado aos países-membros especializações em alguns setores produtivos das economias, que ocorreram através do incremento do comércio interindústria, no aproveitamento das vantagens comparativas estabelecidas por Hekscher-Olhin e pelo incremento do comércio intra-indústria, com aumento dos ganhos de escala. Assim, o comércio do Mercosul proporciona ganhos de bem-estar para as economias envolvidas. Neste contexto, para analisar o fluxo de comércio do Brasil no Mercosul, considerase, a despeito da existência do comércio interindústria entre os países do bloco, a ação do comércio intra-indústria2. Segundo Greenaway e Milner (1999), embora muito do comércio Norte-Sul seja explicável pelo Teoria de Heckscher-Ohlin, as evidências em trabalhos realizados mostram que entre os países em desenvolvimento tem aumentado o comércio intra-indústria, em particular no intercâmbio de bens manufaturados. No caso do Brasil, segundo Vasconcelos (2000), as exportações para o Mercosul são relativamente mais intensivas em capital que as importações. Os resultados de seu trabalho para o Brasil corroboram com os encontrados por Yeats (1998). Segundo este autor, o fluxo de comércio brasileiro para os demais países do Mercosul estaria ocorrendo com maior intensidade entre bens intensivos em capital, portanto, não condizente com a teoria tradicional de comércio internacional. Assim, Vasconcelos pondera, que: “....se por hipótese o Brasil é relativamente abundante no fator capital e relativamente escasso no fator trabalho em relação aos demais países que compõe o Mercosul, os resultados evidenciaram que o fluxo de comércio brasileiro intra-Mercosul, se adequou aos preceitos do teorema de Heckscher-Ohlin.”. Os efeitos sobre o comércio no Mercosul foram imediatos, o intercambio comercial entre os países membros aumentou consideravelmente já nos primeiros anos de integração. Em 1995, cerca de 20,0% do comércio total era intra-bloco e em 2004 este montante aumentou para 28,0%. No caso do Brasil, em 1990, as exportações para o Mercosul correspondiam a apenas 4,0%, do total exportado e em 1999 este percentual atingiu, aproximadamente, 14,0%, diminuindo para 9,2% em 2004. Quanto às importações brasileiras dos demais países do bloco se mantiveram praticamente constantes, pois em. 2. Modificações na pauta do comércio entre o Brasil e o Mercosul podem ser observado na Tabela 9..
(16) 4. 1990, mais de 11,0% eram procedentes do Mercosul, enquanto em 1999 este percentual atingia mais de 13,0% e em 2004 alcançava a 10,0%3. Em particular, para o caso do Brasil, ressalta-se que a maioria das pesquisas sobre comércio realizadas procuraram estudar o processo de integração econômica regional no âmbito macroeconômico, sem considerar as características econômicas de cada região do país. E, apesar de alguns estudos na literatura econômica abordarem a integração econômica e a questão regional, como por exemplo, Galvão (1998a), Barros (1998), Hidalgo e Vergolino (1998); Sá Porto (2002); Domingues e Haddad (2003); entre outros, esta relação ainda é pouco explorada pela literatura econômica brasileira, limitando, na maioria dos casos, a análise de impactos apenas a uma determinada região ou a um estado. Na literatura econômica internacional, há consenso de que a problemática da integração regional sofre os efeitos das disparidades regionais existentes, tanto nas economias desenvolvidas, quanto nas economias em desenvolvimento. O caso do Brasil pode ser resumido pelo Relatório Final da Comissão Especial Mista sobre o Desequilíbrio Econômico Inter-regional, apud Pacheco (1998), que relata: “(....)além das desigualdades entre macroregiões, os dados econômicos e sociais evidenciam acentuada diferenciação intra-regional, pela coexistência, dentro de uma mesma macroregião, de sub-regiões com distintos níveis de renda e qualidade de vida. Assim é que, nas regiões mais desenvolvidas e industrializadas do país, existem áreas estagnadas e grandes bolsões de miséria, especialmente nos grandes conglomerados metropolitanos. Da mesma forma, nas regiões atrasadas e de menor desenvolvimento relativo, podem ser identificados importantes pólos dinâmicos(...) as vantagens competitivas do Sul e Sudeste podem gerar aprofundamento da defasagem e mesmo deslocamento setorial das economias do Norte e Nordeste(...) Se, por um lado, são as economias do Sul e Sudeste que se preparam para a concorrência internacional, por outro, a abertura externa da economia brasileira e a integração econômico regional podem acabar com o mercado cativo(....) de forma que regiões periféricas podem se libertar do domínio do Sudeste buscando parceiros externos ”. Dadas às dimensões territoriais do Brasil e à heterogeneidade produtiva das diversas regiões, é de se esperar que os efeitos do comércio externo não se propaguem de maneira homogênea. Vale ressaltar, nesse contexto, que as exportações e importações brasileiras ao longo do tempo não tiveram desempenho uniforme do ponto de vista espacial, tanto no comércio para o resto do mundo, quanto no comércio realizado pelo Brasil com o Mercosul. 3. Fonte: Sistema Alice Web/MDIC.
(17) 5. Neste contexto, a Região Sudeste, por exemplo, em 1990 concentrava 60,0% das exportações brasileiras e 55,0% em 2004, a Região Sul exportou neste período 22,0% e 25,5%, respectivamente. A terceira região do Brasil que mais participou do mercado externo foi a Região Nordeste, com 6,0% das exportações em 1990 e 8,5% em 2004. Constata-se que essas três regiões em conjunto são responsáveis, em média, por mais de 90,0% do total exportado pelo Brasil no período de 1990 a 2004. Complementarmente as Regiões Centro-Oeste e Norte são responsáveis em media por menos de 10,0% das exportações brasileiras. A heterogeneidade das regiões brasileiras sobressai também quanto às exportações para o Mercosul. Em 1990, a Região Sudeste foi responsável por 70,0% das exportações brasileiras realizadas para este bloco, a Região Sul exportou 21,0%, neste ano e a Região Nordeste apenas 7,0%. Esta situação em 2004 modificou-se um pouco, pois a Região Sudeste exportou para o Mercosul 58,0% do total, a Região Sul aumentou sua participação para 27,0% e a Região Nordeste teve pequeno acréscimo nas exportações para 10,0%. Para o Mercosul, as Regiões Nordeste, Sudeste e Sul foram responsáveis no ano de 1990, por 98,0% das exportações brasileiras e no ano de 2004 houve pequena redução para 95,0%4. Partindo do pressuposto de que os fluxos de comércio e as vantagens comparativas estão relacionadas, constatando o crescimento do intercâmbio comercial entre o Brasil e os demais membros do Mercosul e considerando a existência de disparidades regionais na economia brasileira, procuraremos conhecer melhor como as vantagens comparativas e as economias de escala estão relacionadas com o processo de integração econômica regional. Com base no exposto, e em função da diversidade produtiva e da importância relativa das Regiões Nordeste, Sudeste e Sul nas relações de comercias, o presente trabalho procura conhecer melhor a natureza e o padrão de comércio que cada uma destas regiões possui no Mercosul. Para isto, utiliza-se o modelo de Heckscher-Ohlin e das economias de escala como instrumentos de análise, à medida que se procura uma resposta para a seguinte questão: estarão as regiões do Brasil promovendo o aproveitamento das vantagens comparativas dentro do Mercosul?. 4. Fonte: Sistema Alice Web/MDIC.
(18) 6. Assim, o objetivo principal deste trabalho é investigar os efeitos do ingresso do Brasil no Mercosul, considerando a natureza do comércio sobre as regiões brasileiras sob a ótica do aproveitamento ou não das vantagens comparativas regionais. Este objetivo é desmembrado nos seguintes objetivos específicos. a) b) c) d). analisar o comportamento desagregado do comércio para cada uma das regiões do Brasil com relação ao Mercosul; compreender melhor de que forma a integração econômica afeta as regiões brasileiras no aproveitamento das vantagens comparativas; analisar o padrão do comércio no aproveitamento das vantagens comparativas interindústria das regiões Nordeste, Sudeste e Sul, no comércio intra-Mercosul; analisar o padrão de comércio intra-indústria das regiões Nordeste, Sudeste e Sul, no comércio intra-Mercosul.. Espera-se com este trabalho contribuir para a literatura econômica, com análises pontuais do comércio das regiões brasileiras e agregar informações aos trabalhos realizados até o momento na tomada de decisões sobre a definição de políticas de comércio. Para este efeito, o trabalho compreende sete capítulos, além da introdução e das conclusões. No capítulo 2 será feito um breve relato da evolução do Mercosul, considerando os aspectos macroeconômicos dos países membros e o comportamento do comércio internacional. No capítulo 3 é feita uma resenha da literatura sobre os aspectos teóricos do comércio exterior, salientando as razões que levam os países a realizarem o intercâmbio com outros mercados para obterem vantagens através do comércio. Ainda neste capítulo, procura-se destacar a teoria do comércio interindústria e intra-indústria decorrentes da estratégia de promoção de exportações como instrumentos de análise. do comércio. internacional. O capítulo 4 tem como objetivo descrever os procedimentos metodológicos que serão utilizados para analisar a natureza do comércio interindústria e intra-indústria entre as Regiões Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil e o Mercosul. É descrita a técnica insumoproduto e a abordagem “triângulo de dotações”, utilizadas para avaliar a contribuição dos fatores de produção na formação do produto de cada setor. Neste capítulo, descreve-se.
(19) 7. também, o método para calcular o índice de comércio intra-indústria e o modelo dos determinantes deste comércio. O capítulo 5 dedica-se a aplicar a metodologia, apresentar e analisar os resultados obtidos do comércio interindústria para as Regiões Nordeste, Sul e Sudeste, considerando as principais características de cada região e a natureza de comércio praticada por essas regiões em decorrência da implementação do Mercosul. O capítulo 6 apresenta os índices do comércio intra-indústria obtidos pelo método de Grubel e Lloyd e através de regressão estimada analisam-se os determinantes deste tipo de comércio, dado à influência que o Mercosul exerce sobre as regiões brasileiras. O capítulo 7 tem por objetivo contribuir com o debate sobre a perspectiva de futuro do Mercosul. São expostos os principais problemas que fragilizam a integração deste bloco, relatando suas fragilidades macroeconômicas e institucionais. Por fim, realiza-se a discussão sobre os desafios futuros do Mercosul. No capítulo 8 apresentam-se as considerações finais..
(20) 8. 2. MERCOSUL: Criação, Aspectos Macroeconômicos e Relações Comerciais dos Países Membros Este capítulo tem como objetivo apresentar um breve relato da evolução do Mercosul, os aspectos macroeconômicos, bem como o comportamento do comércio internacional dos países-membros, que se verificou após a implementação deste bloco econômico. Em particular, a análise dos aspectos macroeconômicos e do comércio externo da economia brasileira é realizada em seção à parte, por ser o comércio do Brasil e das suas regiões com o Mercosul o principal objeto de estudo deste trabalho. Para atender aos objetivos propostos nesse capítulo, na seção 2.1 são descritos de forma breve as principais características que compõem o Mercosul e sua evolução histórica. Na seção 2.2, analisamos os aspectos macroeconômicos e as relações comerciais dos países membros, em particular Argentina, Paraguai e Uruguai. Na seção 2.3 descrevemos alguns aspectos macroeconômicos da economia brasileira, de suas relações comerciais e de suas regiões. E, por fim, trazemos um breve debate sobre a natureza do comércio praticado no Brasil. 2.1 – O Surgimento do Mercosul Após se passarem mais de dez anos do início do processo de integração do Mercosul, uma das questões mais importantes dessa regionalização refere-se ao grau de comércio que está sendo gerado. Nesse contexto, a dinâmica do comércio do bloco foi resultado do empenho dos países-membros para promover o comércio regional. Para isso, foram necessários ajustes constantes na política econômica e de comércio de cada país, visando consolidar o processo de integração econômica. Na recente história econômica da América Latina, o continente participou de vários processos de integração, que foram incentivados pela implantação e sucesso do Mercado Comum Europeu. Com este objetivo, foram reduzidas tarifas e estabelecidas regras comuns de comércio, a fim de aproximar o intercâmbio de bens entre os países latino-americanos e melhorar o bem-estar dos países participantes. Assim, ao longo das últimas décadas, os países latino-americanos formaram blocos econômicos, como a Associação Latino Americana de Livre Comércio (Alalc); o Grupo Andino, o Mercado da Comunidade do Caribe (Caricom); o Mercado Comum Centro-Americano; a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi) e outros de menor expressão Moreira (2003)..
(21) 9. Considerando os aspectos históricos e as diferenças estruturais (políticas e sociais) dos países latino-americanos, os processos de integração citados não alcançaram os resultados esperados, principalmente pela falta de tradição comercial entre as economias envolvidas. No entanto, ao mesmo tempo, a Aladi é considerada a integração mais bem sucedida e, juntamente com a Alalc, serviu de incentivo para a implementação do Mercosul (Giambiagi e Baremboin, 2005). Segundo Vizentini (2001), as razões do insucesso das experiências de integração anteriores estão relacionadas ao fato de os países latinos americanos terem suas economias estruturadas no processo de substituição às importações. O autor salienta que: “As economias desses países eram pouco propícias à abertura de mercados, ao caráter que os EUA e as organizações financeiras sob sua influência tentaram imprimir a essas integrações ..... Alguns países buscaram um relacionamento mais íntimo com os EUA, enquanto outros, como o Brasil, aprofundaram a industrialização por substituição às importações. Além disso, as concepções geopolíticas que os orientavam conduziram ao acirramento das desconfianças mútuas e rivalidades.”. A evolução para o modelo atual de regionalismo no cone sul somente ocorreu a partir da aproximação econômica entre Brasil e Argentina, iniciada em meados dos anos 80, e que viria a ser a espinha dorsal da integração regional e foi coroada com a formação do Mercosul em 1991. Este processo é descrito de forma resumida a seguir, obedecendo a ordem cronológica do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC). Em 1985, os presidentes do Brasil e da Argentina firmaram um acordo de integração conhecido como "Declaração de Iguaçu". Em 1986 foi assinada a Ata para a Integração Argentino-Brasileira, ocasião em que foi instituído o Programa de Integração e Cooperação Econômica, entre os dois países. A Ata baseia-se em princípios que mais tarde nortearam o Tratado de Assunção, possuindo flexibilidade que permite ajustes no ritmo e objetivos, gradualismo e simetria para que houvesse harmonização das políticas específicas que interferem na competitividade setorial e equilíbrio dinâmico, o que proporcionaria uma integração setorial uniforme. Em 1988, assinou-se o Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento Argentina - Brasil. Na oportunidade, foram assinados Protocolos (perfazendo um total de 24) sobre diversos temas, tais como: bens de capital, trigo, produtos alimentícios industrializados, setor automotivo, cooperação nuclear, transporte marítimo, transporte terrestre, entre outros..
(22) 10. Em julho de 1990 foi firmada a Ata de Buenos Aires, que fixou para janeiro de 1995 a data do início da vigência de um mercado comum entre os dois países. Em dezembro de 1990, os Protocolos referidos foram consolidados em um só instrumento denominado Acordo de Complementação Econômica-ACE 14, firmado entre Brasil e Argentina, que constituiu o referencial adotado posteriormente no Tratado de Assunção. Em 26 de março de 1991 foi firmado o Tratado de Assunção entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai para a constituição do Mercado Comum do Sul – MERCOSUL, que tem como objetivo a conformação de um mercado comum, por meio de: i) ii) iii) iv) v) vi). livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos; eliminação das restrições incidentes sobre o comércio recíproco; estabelecimento de uma tarifa externa comum; adoção de políticas comerciais comuns face a terceiros países; coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais. regime de adequação final à União Aduaneira: O processo de integração realizou a exclusão transitória de alguns produtos da área. de Livre Comércio, com um sistema voltado para o mercado intra-bloco. Os setores produtivos de cada um dos quatro países com maiores problemas de competitividade utilizavam-se desse regime e foram beneficiados com um prazo adicional para adaptaremse ao livre comércio. Esse regime foi estabelecido a partir de 1° de janeiro de 1995 e no Brasil e na Argentina, vigorou até 31 de dezembro de 1998, e no Paraguai e Uruguai até 31 de dezembro de 1999. Com o intuito de padronizar as relações comerciais do Mercosul foi elaborada com 8 dígitos pelos Estados-Partes, com base no Sistema Harmonizado de Designação e Codificação de Mercadorias (CUCI), a Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), a qual constitui o alicerce da Tarifa Externa Comum (TEC). A partir de janeiro de 1995, foi estabelecida a União Aduaneira, o que implicou a adoção da TEC e das Listas de Exceções. A TEC correlaciona os itens da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) com os direitos de importação incidentes sobre cada um desses itens, e se aplica somente às importações provenientes dos países não membros. Cada país membro elaborou uma Lista de Exceções à TEC, composta de produtos do setor de bens de capital, informática e telecomunicações e outras exceções nacionais, (produtos cuja incorporação imediata à TEC não causaria problemas a determinado membro do bloco)..
(23) 11. Cada país poderia incluir, no máximo, em suas respectivas listas até 300 itens, com exceção do Paraguai que poderia incluir até 399 produtos. Todos esses itens tarifários deveriam convergir aos níveis da TEC em 2001, exceto os bens de informática e telecomunicações, bem como as demais exceções do Paraguai que só convergirão à TEC em 2006. Com esses procedimentos, o Mercosul foi alcançando maior destaque à medida que os países firmaram empenho na aproximação comercial, promovendo paulatinamente o processo de liberalização por meio de redução gradual das tarifas e retiradas de entraves ao comércio externo. Esses esforços objetivavam incrementar as exportações, a reforma comercial e a integração regional para consolidação do Mercosul (Giambiagi e Baremboin, 2005). Tabela 1 - Comparativo Entre Blocos e Mercados Econômicos em 20045 Blocos Nafta União Européia Mercosul Pacto Andino MCCA Caricom. PIB Total População Total PIB per capita Integrantes (Milhões de US$) (milhões de hab.) (em US$) 3 Países 11.323.726 429,20 26.383,20 25 Países 10.519.691 454,90 23.125,28 4 Países 776.621 226,13 3.434.38 5 Países 167.156 121,16 2.205,08 5 Países 63.394 36,09 1.756,46 12 Países 3 Territórios 23.227* 6,33 3.667,04. *Excluindo as Ilhas Virgens Britânicas e as Ilhas Turks e Caicos Fonte: Banco Mundial. O Mercosul foi constituído em 1991, pelos países da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai e suas características principais são comparadas a outros blocos, na Tabela 1, para o ano de 2004. O Mercosul possui uma população de mais de 200 milhões de habitantes, uma superfície de quase 12 milhões de quilômetros quadrados e o seu PIB é relativamente modesto quando comparado com o da União Européia (EU) e o do NAFTA, mas superior ao do Pacto Andino, MCCA e ao do Caricom. 5. Em 2004, o NAFTA, North American Free Trade Agreement (Acordo de Livre Comércio da América do Norte), compunha dos Estados Unidos Canadá e México; a União Européia compunha da Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Holanda (Países Baixos), Hungria, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Polônia, Portugal, Reino Unido, República Tcheca e Suécia; o Mercosul congregava Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai; o Pacto Andino articulava a Venezuela, Colômbia, Peru, Equador e Bolívia; já o Mercado Comum Centro Americano compunha da Guatemala, Costa Rica, El Salvador, Honduras e Nicarágua; por fim, o Caricom congregava Antígua e Barbuda, Barbados, Belize, Dominica, Granada, Guiana, Jamaica, Santa Lúcia, São Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas, Trinidad e Tobago, Ilhas Virgens Britânicas, Ilhas Turks e Caicos, Montserrat e Suriname.
(24) 12. O relativo sucesso do Mercosul ao se passar mais de 10 anos, segundo autores como Moreira (2003), Fraquelli (2001) e Giambiagi e Baremboim (2005), tem a seu favor principalmente a reversão do relacionamento que a Argentina e o Brasil mantinham entre si até a assinatura da Ata do Iguaçu e o controle do processo de hiperinflação argentino no início dos anos 90, e brasileiro no meio desta década. Por outro lado, as dificuldades macroeconômicas pelas quais passaram o Brasil e a Argentina, o Paraguai e o Uruguai nas últimas décadas interferiram no aprofundamento do processo de consolidação do Mercosul, como veremos a seguir.. 2.2 – Mercosul: Aspectos Macroeconômicos dos Países-Membros Na análise do comportamento das variáveis macroeconômicos dos países membros do Mercosul, temos o caso Argentina, que possui recursos naturais abundantes e vantagens comparativas no setor agrícola, mas passou por um período de desindustrialização e estagnação econômica durante os anos 70 e 80, como reflexo da política econômica interna e da recessão mundial. Em meados dos anos 90 vieram os indícios de recuperação, resultado do aumento dos investimentos estrangeiros no setor industrial e do sucesso do combate à hiperinflação com a adoção do Plano Cavalo. Estava montado um cenário econômico propício para gerar crescimento na economia argentina e viabilizar o Mercosul. Segundo Fraquelli (2003), a implementação do Mercosul em 1991 possibilitou ao país estender e incrementar suas vendas externas aos integrantes do bloco, sendo que durante a década de 90 houve aumento das exportações argentinas, sobretudo de produtos manufaturados e nesse novo impulso comercial, o Brasil se tornou o maior comprador de seus produtos. O fato econômico mais importante ocorrido na economia argentina nos anos 90 foi o combate à inflação com a adoção do Plano de Conversibilidade da Moeda ou Plano Cavalo, através do qual a Argentina pôs fim ao período hiperinflacionário e manteve os preços controlados. Isto trouxe estabilidade ao país, tornando-se o principal fator do crescimento do PIB, que atingiu o seu maior valor histórico em 1999. (Ver Tabela 2)..
(25) 13. No entanto, a crise cambial que atingiu o Brasil em 1998 contribuiu para o processo de retração do PIB argentino. Esta queda foi complementada pela desvalorização do peso em janeiro de 2002, fazendo com que a inflação acumulada durante esse ano chegasse a 40,0%. É importante notar a grande sensibilidade que a economia Argentina apresentou frente a variações do câmbio devido, principalmente, ao fato de ser um grande exportador de commodities alimentícias6. Assim, o PIB da Argentina, após atingir o pico histórico em 1999 com U$ 299 bilhões de dólares, teve queda de 16% em 2002, quando comparado a 1999, tendência que começou a ser revertida em 2003, conforme mostra a Tabela 2. Com o fim da conversibilidade da moeda do Plano Cavalo em 2002, e com os problemas estruturais, foram afetadas a produtividade e a competitividade da economia argentina, estimulando a evasão fiscal. A economia do país entrou em um ciclo de aumento na dependência de poupança externa de difícil reversão, culminando no calote argentino e colocando em risco o futuro do Mercosul. Este país que passa no momento, por difíceis transformações políticas, sociais e econômicas, tem importância estratégica junto com o Brasil, na formação, construção e consolidação do Mercosul ( Sabbatini, 2001). Na participação do mercado externo, os dados da Tabela 2 mostram que a Argentina, após a criação do Mercosul, aumentou suas exportações principalmente para os demais países do bloco. Ao atingir a participação relativa de 36,3% no ano de 1997, o Mercosul passou a ser o principal destino dos produtos exportados. No entanto, a desvalorização da moeda brasileira em 1998, e da Argentina em 2002, modificaram a composição do comércio exterior argentino e como conseqüência, o Mercosul perdeu em importância como destino das suas exportações, tendo sido esse comércio desviado para os países asiáticos e para o resto do mundo. Por outro lado, conforme mostra a tabela a seguir, as importações argentinas com origem na UE e nos Estados Unidos, se reduziram progressivamente de 1991 até 2004 e, neste período, as importações oriundas do Mercosul aumentaram e representaram, no último ano da série, 36,7% do total importado pela Argentina.. 6. Estudos Econômicos do Banco Central da Argentina..
(26) 14. Tabela 2 - Destino das Exportações, Origem das Importações e PIB da Argentina Período Variável PIB* Exportações** Mercosul EUA UE Ásia Outros Merc. Importações** Mercosul EUA UE Ásia Outros Merc.. 1991. 1992. 1993. 1994. 1995. 1996. 1997. 1998. 1999. 2000. 2001. 2002. 2003. 2004. 189. 228. 236. 257. 258. 272. 293. 299. 283. 269. 258. 229. 249. 252. 16,7 10,7 33,6 10,1 28,9. 19,0 11,4 30,1 8,1 31,4. 28,1 10,0 28,1 9,1 23,9. 30,4 11,2 24,9 9,8 23,7. 32,9 9,0 21,4 10,2 26,5. 33,3 8,6 19,3 11,0 27,8. 36,3 8,7 15,2 10,7 29,1. 35,7 8,7 17,5 9,1 29,0. 30,4 11,7 20,4 8,6 28,9. 31,9 12,7 17,7 8,3 29,4. 28,1 11,5 17,1 10,8 32,5. 22,3 11,9 19,8 11,3 34,3. 19,1 13,5 17,2 14,2 36,0. 19,8 12,1 13,8 12,8 41,5. 21,0 21,1 24,2 17,7 16,0. 25,3 24,7 25,6 14,2 10,2. 25,1 26,0 25,8 14,0 9,1. 23,8 25,8 30,0 11,7 8,7. 22,9 23,9 29,9 12,3 11,0. 24,4 23,0 29,0 12,0 11,6. 25,0 22,1 27,4 13,1 12,4. 25,3 21,8 28,3 14,3 10,3. 24,7 22,6 29,1 14,2 9,4. 28,9 21,9 22,9 14,4 11,9. 29,1 21,1 22,9 15,2 11,7. 32,2 20,1 22,6 10,9 14,2. 35,6 17,3 18,6 13,8 14,7. 36,7 15,2 17,5 12,2 18,4. * PIB em Bilhões de dólares e ** Participação no total das exportações e importações. Fonte: CEPAL. No caso do Paraguai, durante o período de 1950 a 1980, o modelo de crescimento foi baseado nas exportações de produtos agrícolas, de pecuária e florestal, amparado em fatos que ajudaram a manter esse modelo, como a construção de Itaipu e Yaciretá e o comércio de fronteira com Brasil e Argentina. Este modelo se esgotou na década de 80 porém, mesmo o Paraguai não passando por desequilíbrios macroeconômicos como Brasil e Argentina, não teve ciclos de crescimento econômicos semelhantes a esses países. Segundo Fraquelli (2001), nos anos 90 boa parte da economia do Paraguai girou em torno do fluxo do comércio internacional, em que os produtos eram importados de fora do Mercosul e exportados para os demais países do bloco. Ficou estabelecida uma triangulação comercial, pois a indústria local é basicamente artesanal e poucos setores produtivos conseguiram se beneficiar com a integração regional. O crescimento médio do PIB do Paraguai na última década foi de somente 1,6% anual, considerado inferior aos crescimentos médios de 8,2% e 4,0% durante as décadas de setenta e oitenta, respectivamente. Segundo estudos do Banco Central do Paraguai7, o crescimento positivo do PIB no ano de 2003 quando atingiu U$ 8,72 bilhões de dólares, teve influência principalmente do desempenho do setor agrícola e do comportamento das exportações e importações, que incidiram diretamente sobre os resultados econômicos do país. (Ver Tabela 3).. 7. Fonte: Gerencia de Estudos Econômicos – Banco Central del Paraguai.
(27) 15. Tabela 3 - Destino das Exportações, Origem das Importações e PIB do Paraguai Período Variável PIB* Exportações** Mercosul EUA UE Ásia Outros Merc. Importações** Mercosul EUA UE Ásia Outros Merc.. 1990. 1991. 1992. 1993. 1994. 1995. 1996. 1997. 1998. 1999. 2000. 2001. 2002. 2003. 2004. 5,26. 6,25. 6,45. 6,87. 7,85. 9,02. 9,63. 9,61. 8,59. 7,74. 8,53. 7,73. 6,85. 8,72. 9,3. 39,5 4,9 31,7 3,7 20,2. 35,2 4,7 32,0 7,9 20,2. 37,5 5,3 34,3 3,7 19,2. 39,6 7,3 34,2 1,1 17,8. 52,1 6,9 27,7 1,6 11,7. 57,4 4,7 19,4 7,4 11,1. 63,2 3,6 21,7 2,5 9,0. 51,3 5,1 27,9 3,5 12,2. 52,3 8,1 28,1 1,6 9,9. 41,5 7,8 37,9 4,5 8,3. 63,4 3,8 13,6 3,6 15,6. 52,4 2,9 11,1 8,3 25,3. 58,1 3,9 8,7 4,6 24,7. 59,1 3,5 6,8 3,8 26,8. 63,9 3,5 6,4 2,3 23,9. 30,0 12,6 15,1 30,2 12,1. 29,9 15,0 14,2 28,2 12,7. 37,1 14,0 14,3 23,5 11,1. 37,5 14,1 11,8 24,9 11,7. 40,1 11,7 11,4 25,5 11,3. 39,4 12,5 11,1 30,7 6,3. 52,5 11,2 10,2 20,3 5,8. 51,4 10,6 12,8 19,5 5,7. 50,6 10,2 10,6 24,4 4,2. 51,6 13,7 13,6 17,1 4,0. 51,5 7,3 11,9 21,7 7,6. 55,1 5,9 9,0 20,4 9,6. 55,2 5,1 9,1 20,6 10,0. 57,9 3,8 8,2 19,5 10,6. 52,9 4,4 7,8 23,6 11,9. * PIB em Bilhões de dólares e ** Participação Relativa no total das exportações e importações. Fonte: CEPAL. A Tabela 3 mostra o comprometimento das exportações do Paraguai para o Mercosul. A participação relativa das exportações aumentou consideravelmente, principalmente durante a década de 90, quando atingiu o máximo de 63,2% em 1996, regredindo em 1999 para 41,5%, provavelmente como conseqüência da crise cambial brasileira. No entanto, já no ano seguinte as exportações do Paraguai recuperam espaço e voltam a crescer confirmando o Mercosul como o maior destino de suas exportações seguido pela União Européia. Quanto às importações, na Tabela 3 observa-se que o Mercosul transformou-se no maior fornecedor de bens e serviços para o Paraguai ao longo do período analisado, sendo que em 1990 as importações representavam 30,0% do total importado, crescendo até atingir a 57,9% no último ano da série. Já o segundo parceiro comercial em termos de importações, segundo exposto na tabela, são os países asiáticos apesar de regrediram sua participação relativa de 30,0% em 1990 para algo em volta de 20,0% em 2003. Estes países mantêm sua importância como fator de triangulação comercial entre o Paraguai e o Mercosul. No Uruguai, os desajustes econômicos que ocorreram na economia mundial, provocados pela crise do petróleo a partir da metade dos anos 70 e pela recessão internacional, nos anos 80, afetaram negativamente o crescimento econômico. Porém, mesmo com a crise econômica mundial que se estendeu da metade dos anos 70 até o início dos anos 80, o PIB uruguaio cresceu em média 4,7% ao ano. Além disso, nesse mesmo período o país aumentou sua inserção no mercado internacional e no Mercosul, mas para isto foi obrigado a adotar minidesvalorizações na taxa de câmbio8. 8. Fonte: Banco Central do Uruguai.
(28) 16. Ainda segundo os estudos do Banco Central do Uruguai, a retomada do crescimento econômico uruguaio começou na metade dos anos 80, com o aumento das exportações. No entanto, no fim da década, em virtude de uma política fiscal e monetária rígida e de uma seca prolongada que afetou a criação de gado, o PIB foi mais baixo que no início dos anos 80. Segundo Moreira (2003), da mesma forma que os demais países da região, o Uruguai nos anos 1990 aderiu às reformas políticas de abertura econômica e diminuição do Estado. No entanto, estas mudanças foram menos bruscas que nas economias vizinhas, o PIB do Uruguai após ter crescido em média 5,0% anualmente durante os anos 1990 até 1998, nos anos de 1999 a 2002 sofreu uma queda tendo como causa o reflexo dos problemas econômicos de seus países vizinhos, principalmente Argentina e Brasil. A maior influência negativa para a economia do Uruguai ocorreu com a crise da conversibilidade do peso na Argentina no período 2001-2002, fazendo com que diversos clientes originários desse país sacassem seus depósitos mantidos em bancos uruguaios. Isto provocou uma crise no sistema financeiro do país. Com a normalização da situação econômica no país vizinho e a elevação das cotações das principais mercadorias (commodities) produzidas pelo Uruguai, o PIB do uruguaio tem se recuperado nos últimos anos. (Ver Tabela 4) Tabela 4 - Destino das Exportações, Origem das Importações e PIB do Uruguai Período Variável PIB* Exportações** Mercosul EUA UE Ásia Outros Merc. Importações** Mercosul EUA UE Ásia Outros Merc.. 1990. 1991. 1992. 1993. 1994. 1995. 1996. 1997. 1998. 1999. 2000. 2001. 2002. 2003. 2004. 9,3. 11,2. 12,8. 15,00. 17,47. 19,3. 20,5. 21,7. 22,3. 20,9. 20,1. 18,7. 16,5. 16,8. 17,2. 35,1 9,5 25,3 7,3 22,8. 35,4 10,1 25,4 11,4 17,7. 33,6 10,7 26,7 11,4 17,6. 41,2 9,2 21,3 10,3 18,0. 47,0 6,9 20,8 10,1 15,2. 47,2 6,0 20,6 11,6 14,6. 51,3 5,9 16,9 11,2 14,7. 49,9 6,0 18,4 9,8 24,9. 55,8 5,8 15,8 7,0 15,6. 45,9 6,9 18,9 7,8 20,5. 44,9 8,4 15,4 9,4 21,9. 41,2 8,6 18,0 10,1 22,1. 33,0 7,7 22,9 10,8 25,6. 30,9 11,5 22,2 9,0 26,4. 26,1 19,7 19,3 7,2 27,7. 39,6 9,9 20,2 6,7 23,6. 42,2 9,9 18,3 7,9 21,7. 41,4 9,3 16,4 16,5 16,4. 44,9 9,0 22,4 11,6 12,1. 50,4 9,7 19,0 10,0 10,9. 46,1 9,9 20,9 8,9 14,2. 44,0 12,2 19,4 8,6 15,8. 43,5 11,7 19,3 10,0 15,5. 43,3 12,1 20,7 10,2 13,7. 43,5 11,3 18,7 9,3 17,2. 43,8 9,8 18,3 8,8 19,3. 44,1 8,9 18,2 9,7 19,1. 48,1 8,4 17,2 9,4 16,9. 47,6 7,6 13,4 9,3 22,1. 44,4 7,0 11,2 8,7 28,7. * PIB (Produto Interno Bruto) em Bilhões de dólares e Fonte: CEPAL. ** Participação no total das exportações e importações.. Com relação ao comércio externo, o Uruguai, após a criação do Mercosul, aumentou suas exportações para os países do bloco, atingindo o máximo de participação relativa de 55,8% em 1998. Os dados também mostraram ser o Mercosul o principal.
(29) 17. destino dos produtos exportados pelo Uruguai, no período analisado. No entanto, com a desvalorização da moeda brasileira em 1999 e argentina em 2002, como ocorreu com os demais membros do bloco houve modificação na composição do comércio externo uruguaio. (Ver Tabela 4). Observa-se na referida tabela que o Mercosul perdeu em importância como destino de exportações uruguaias. A participação relativa nas exportações que atingiram 26,1% no ano de 2004 foi menor que em 1990, quando o Uruguai exportou para os países membros do Mercosul 35,1%. No entanto, a participação das exportações destinadas à UE, recuperaram nos últimos anos da série a importância relativa que possuíam no início dos anos 90, o mesmo acontecendo em relação aos EUA e países asiáticos. Na Tabela 4 observa-se ainda que as importações oriundas dos demais países membros do Mercosul aumentaram progressivamente de 1990 até 2003, representando neste último ano da série 47,6% do total importado, consolidando o Mercosul como o principal fornecedor de bens para o Uruguai. 2.3 - O Padrão do Comércio Internacional das Regiões do Brasil O objetivo dessa seção é mostrar de forma breve alguns aspectos macroeconômicos da economia brasileira que influenciaram a participação do Brasil no processo de integração regional nos anos 90, até o início da presente década. Em particular, procura-se analisar os efeitos que a implementação do Mercosul, cuja adesão pelo Brasil ocorreu na última década, exerceu sobre o comércio internacional das regiões brasileiras. Para realizar esta análise, esta seção mostra os padrões de crescimento do produto e do comércio das regiões brasileiras para os períodos pré e pós-integração econômica do Brasil com o Mercosul. Para isto, é realizada a análise do comportamento do PIB e do comércio internacional brasileiro, bem como a participação relativa no mercado externo das regiões brasileiras com seus principais parceiros comerciais, ou seja, países e blocos econômicos. Sem voltar muito ao passado histórico da economia brasileira, podemos lembrar que a década de 80 iniciou com um crescimento explosivo da dívida externa e uma ausência de diretrizes econômicas. Esta década foi marcada também pela crise da economia.
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