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Coronelismo Eletronico de Novo Tipo

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SUMÁRIO

SUMÁRIO

A. C

A. CORONELI

ORONELI SMO, C

SMO, CORONELI

ORONELI SMO ELETRÔNICO E CORONELISMO ELETRÔNI

SMO ELETRÔNICO E CORONELISMO ELETRÔNI CO DE

CO DE

NOVO T

NOVO TIP

IP O

O...

...

02

02

A.1 – O Coronelismo

A.1 – O Coronelismo

A.2 – O Coronelismo Eletrônico

A.2 – O Coronelismo Eletrônico

A.3 – O Coronelismo eletrônico de novo tipo

A.3 – O Coronelismo eletrônico de novo tipo

Município como ente federativo

Município como ente federativo

União compartilha e recupera poder (em parte)

União compartilha e recupera poder (em parte)

Os coronéis eletrônicos de novo tipo

Os coronéis eletrônicos de novo tipo

B. BREVE HI

B. BREVE HI STÓRICO DO USO DAS CONCE

STÓRICO DO USO DAS CONCESS

SSÕES DE RADIODI

ÕES DE RADIODI FUSÃO COMO MOEDA

FUSÃO COMO MOEDA

DE BARG

DE BARGANHA P

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OLÍTICA...

...

08

08

C.

C. “BRECHAS” L

“BRECHAS” L EGAIS:

EGAIS: A RADI

A RADI ODIFUSÃO EDUCATIVA

ODIFUSÃO EDUCATIVA ...

...

10

10

C.1 – “Brecha” UM: a

C.1 – “Brecha” UM: a transformação das retransmissor

transformação das retransmissoras mistas em geradoras

as mistas em geradoras

educativas

educativas

C.2 – “Brecha” DOIS:

C.2 – “Brecha” DOIS: as outorgas de radiodifusão educativa

as outorgas de radiodifusão educativa estão dispensadas de

estão dispensadas de

licitação

licitação

D.

D. A LITERA

A LITERA TURA SOBRE C

TURA SOBRE CORONELI

ORONELI SMO ELETRÔNICO

SMO ELETRÔNICO...

...

15

15

E. AS RADCOM: PROMESSA FRUSTRADA

E. AS RADCOM: PROMESSA FRUSTRADA ...

...

16

16

F. NOTA SOBRE A METODOLOGIA

F. NOTA SOBRE A METODOLOGIA...

...

18

18

G.

G. OS

OS “P

“P ROCEDIMENTOS BUROCRÁTICOS” E S

ROCEDIMENTOS BUROCRÁTICOS” E SUAS IMP

UAS IMP LICAÇÕES

LICAÇÕES POLÍ

POLÍ TICAS

TICAS...

...

26

26

G.1- no Ministério das Comunicações

G.1- no Ministério das Comunicações

a. arquivamentos e “Pleitos” 

a. arquivamentos e “Pleitos” 

b. a política dos ministros

b. a política dos ministros

G.2- no Palácio do Planalto

G.2- no Palácio do Planalto

H. QUEM C

H. QUEM CONTROLA AS RADCOM “AU

ONTROLA AS RADCOM “AU TORIZADAS”?

TORIZADAS”? ...

...

39

39

H.1 – RadCom vs política

H.1 – RadCom vs política

H.2 – RadCom vs religião

H.2 – RadCom vs religião

H.3 – duplicidade de outorgas

H.3 – duplicidade de outorgas

I. OBSERVAÇÕ

(4)

A. CORONELISMO, C

A. CORONELISMO, C

ORONELISMO

ORONELISMO

ELETRÔNICO E CORONELISMO

ELETRÔNICO E CORONELISMO

ELETRÔNICO DE

ELETRÔNICO DE

NOVO TIP

NOVO TIP

O

O

O conceito de

O conceito de coronelismo

coronelismo tem sua origem no estudo clássico do

tem sua origem no estudo clássico do jurista e professor

jurista e professor

Victor Nunes Leal sobre as práticas políticas no antigo Brasil rural –

Victor Nunes Leal sobre as práticas políticas no antigo Brasil rural – Coronelismo,

Coronelismo,

Enxada e Voto

Enxada e Voto – cuja primeira edição foi publicada pela Revista Forense em

– cuja primeira edição foi publicada pela Revista Forense em 1949.

1949.

O

O status

status teórico do conceito tem sido, no

teórico do conceito tem sido, no entanto, objeto de aguda controvérsia nas

entanto, objeto de aguda controvérsia nas

ciências sociais e o seu derivado –

ciências sociais e o seu derivado – coronelismo eletrônico

coronelismo eletrônico – carece de reflexão

– carece de reflexão

conceitual, além de padecer freqüentemente de uma série de

conceitual, além de padecer freqüentemente de uma série de equívocos e imprecisões

equívocos e imprecisões

no campo da

no campo da Comunicação (cf. Santos, 2006).

Comunicação (cf. Santos, 2006).

Apesar disso, optamos por sua utilização. Acreditamos que o fenômeno nomeado como

Apesar disso, optamos por sua utilização. Acreditamos que o fenômeno nomeado como

coronelismo eletrônico

coronelismo eletrônico guarda características e mantém traços comuns com o

guarda características e mantém traços comuns com o sistema

sistema

de dominação e relações políticas originalmente estudado por Nunes Leal na República

de dominação e relações políticas originalmente estudado por Nunes Leal na República

Velha que justificam seu uso.

Velha que justificam seu uso.

A explicitação dessas características e traços comuns foi que orientou o

A explicitação dessas características e traços comuns foi que orientou o

desenvolvimento desta pesquisa, paralelamente ao pressuposto de que a mídia – e,

desenvolvimento desta pesquisa, paralelamente ao pressuposto de que a mídia – e,

conseqüentemente, o seu controle – desempenha hoje um papel fundamental no

conseqüentemente, o seu controle – desempenha hoje um papel fundamental no

processo político da sociedade brasileira. Em especial, queremos contribuir para o

processo político da sociedade brasileira. Em especial, queremos contribuir para o

tardio reconhecimento da importância do rádio – comercial, educativo, comunitário ou

tardio reconhecimento da importância do rádio – comercial, educativo, comunitário ou

 “não-legalizado” – que nem sempre merece a atenção que deveria ter

 “não-legalizado” – que nem sempre merece a atenção que deveria ter nos estudos

nos estudos

sobre a mídia no Brasil.

sobre a mídia no Brasil.

A.1 – O Coronelismo

A.1 – O Coronelismo

Desde o Império até

Desde o Império até a República, a estrutura agrária concentrador

a República, a estrutura agrária concentradora da propriedade da

a da propriedade da

terra possibilitou o exercício do controle político do

terra possibilitou o exercício do controle político do município por lideranças locais por

município por lideranças locais por

intermédio de um complicado sistema de compromissos e troca de

intermédio de um complicado sistema de compromissos e troca de favores com as

favores com as

províncias (estados

províncias (estados) e a União.

) e a União. O coronel era o c

O coronel era o chefe político local e recebia ess

hefe político local e recebia essaa

designação como oficial da Guarda Nacional, criada ainda no século 19.

designação como oficial da Guarda Nacional, criada ainda no século 19.

A moeda de troca básica dos velhos coronéis era o

A moeda de troca básica dos velhos coronéis era o controle do voto – o

controle do voto – o chamado “voto

chamado “voto

de cabresto” –, inicialmente aberto e depois

de cabresto” –, inicialmente aberto e depois secreto. Como recompensa, eram eles que

secreto. Como recompensa, eram eles que

decidiam sobre a

decidiam sobre a alocação dos recursos orçamentários estaduais e federais no

alocação dos recursos orçamentários estaduais e federais no

município e faziam as indicações dos nomes que

município e faziam as indicações dos nomes que ocupariam os cargos de comando da

ocupariam os cargos de comando da

máquina pública – juiz, delegado de polícia,

máquina pública – juiz, delegado de polícia, coletor de impostos, agente dos Correios,

coletor de impostos, agente dos Correios,

professores do ensino público, dentre outros.

professores do ensino público, dentre outros.

Como reafirmou Leal (1980) “

Como reafirmou Leal (1980) “o coronelismo era um aspecto local da dominação

o coronelismo era um aspecto local da dominação

política, um aspecto local das lutas e

política, um aspecto local das lutas e dos entendimentos políticos, embora refletindo-se

dos entendimentos políticos, embora refletindo-se

nos círculos mais amplos e

nos círculos mais amplos e contribuindo, por suas características, para dar uma

contribuindo, por suas características, para dar uma

tonalidade própria a toda a vida política

tonalidade própria a toda a vida política do país

do país”.

”.

Esse coronelismo da República Velha

Esse coronelismo da República Velha encontra suas condições ideais de funcionamento

encontra suas condições ideais de funcionamento

num país de população majoritariamente rural, no contexto do poder central do Estado

num país de população majoritariamente rural, no contexto do poder central do Estado

fortalecido, de municípios isolados e tutelados, e da

fortalecido, de municípios isolados e tutelados, e da introdução de instituições

introdução de instituições

representativas na política

representativas na política

11

..

1

1

Existe uma ampla bibliografia sobre o coronelismo na política brasileira. Além da obra pioneira de V. N.

Existe uma ampla bibliografia sobre o coronelismo na política brasileira. Além da obra pioneira de V. N.

Leal, uma referência introdutória é o verbete

(5)

A.2 – O Coronelismo Eletrônico

O coronelismo eletrônico, por outro lado, é um fenômeno do Brasil urbano da segunda

metade do século 20, que sofre uma inflexão importante com a Constituição de 1988,

mas persiste e se reinventa depois ela. É também resultado da adoção do modelo de

curadoria (trusteeship model), isto é, da outorga pela União a empresas privadas da

exploração dos serviços públicos de rádio e televisão e, sobretudo, das profundas

alterações que ocorreram com a progressiva centralidade da mídia na política

brasileira, a partir do regime militar (1964-1985).

Emissoras de rádio e televisão, que são mantidas em boa parte pela publicidade oficial

e estão articuladas com as redes nacionais dominantes, dão origem a um tipo de poder

agora não mais coercitivo, mas criador de consensos políticos. São esses consensos

que facilitam (mas não garantem) a eleição (e a reeleição) de representantes – em

nível federal, deputados e senadores – que, por sua vez, permitem circularmente a

permanência do coronelismo como sistema.

Ao controlar as concessões, o novo “coronel” promove a si mesmo e aos seus aliados,

hostiliza e cerceia a expressão dos adversários políticos e é fator importante na

construção da opinião pública cujo apoio é disputado tanto no plano estadual como no

federal.

No coronelismo eletrônico, portanto, a moeda de troca continua sendo o voto, como no

velho coronelismo. Só que não mais com base na posse da terra, mas no controle da

informação – vale dizer, na capacidade de influir na formação da opinião pública.

A recompensa da União aos coronéis eletrônicos é de certa forma antecipada pela

outorga e, depois, pela renovação das concessões do serviço de radiodifusão que

confere a eles poder na barganha dos recursos para os serviços públicos municipais,

estaduais e federais.

Um feliz resumo das diferenças entre o coronelismo e o coronelismo eletrônico pode

ser encontrado em trabalho de Costa e Brener, publicado em 1997. Dizem eles:

Se as raízes dos velhos coronéis remontam ao Império, os coronéis de agora

emergiram principalmente a partir do regime militar. Os primeiros são

expressão de um Brasil predominantemente rural, enquanto os novos coronéis

são atores políticos de um país majoritariamente urbano. O coronel de hoje

mantém práticas típicas do antigo coronel, como usar a sua influência junto ao

(6)

oligarquias regionais identificadas por nomes como Barbalho, Sarney, Jereissati,

Garibaldi, Collor de Mello, Franco, Alves, Magalhães, Martinez e Paulo Octávio, dentre

outros.

A.3 – O Coronelismo eletrônico de novo tipo

Em palestra que fez mais de 30 anos após a publicação do estudo original, publicada

sob o título “O Coronelismo e o Coronelismo de cada um”, Victor Nunes Leal reforçou

algumas das principais características do velho coronelismo. Situou-o historicamente

na República Velha, lembrou que, apesar de suas repercussões nacionais, tratava-se

de um sistema de compromisso desenvolvido no âmbito dos estados e resultante da

 “fraqueza do Estado de um lado, e, de outro, [da] fraqueza social e política dos

coronéis, que necessitavam do prestígio de empréstimo do governo estadual para

reforçar o seu próprio prestígio local”.

O mais importante para o nosso argumento, todavia, é que, observando as eleições

municipais de 1976 – realizadas durante o regime militar e sob a presidência do

general Ernesto Geisel – Leal constata o surgimento de um “novo tipo de

compromisso”, agora “entre o Presidente da República e os municípios”. Trata-se de...

...um compromisso direto entre o governo federal e os chefes políticos locais

(portanto, com invasão da área que seria a do coronelismo típico, de vinculação

dos chefes locais ao governo do Estado) [...] Esse tipo de compromisso

eventual entre o governo federal e os municipais estava mencionado como

possibilidade no meu livro, porque àquele tempo já havia uma série de órgãos

econômicos, governados e alimentados pelo poder federal, que tinham atuação

nas comunas. Era previsível, portanto, que o governo federal, na medida em

que tivesse de passar por cima dos governos estaduais, abandonando a política

dos governadores, de Campos Sales, para fazer uma política presidencial,

procuraria estabelecer vínculos diretos entre a Presidência da República e as

prefeituras e câmaras municipais. Isto representou, suponho, um reforço ao

coronelismo, o que não era àquele tempo previsível com tanta clareza. Hoje, o

Presidente da República está tão ou mais interessado nos municípios, nos

chefes políticos do interior, como estão os governadores dos Estados. Este é

que talvez seja o aspecto novo a examinar no coronelismo.

A “política presidencial” identificada por Leal, irá ser reforçada, no contexto político

democrático, pela Constituição de 1988, que altera as condições anteriores em dois

pontos fundamentais e dá origem a um novo tipo de coronelismo eletrônico, que não

exclui o anterior, mas é complementar a ele.

Município como ente federativo

Primeiro, a Constituição conferiu ao município o status de ente federativo e introduziu

modificações importantes na distribuição de recursos e competências – sobretudo com

relação à saúde e a educação. Apesar de todas as dificuldades relativas, sobretudo, ao

repasse de verbas pela União, inicia-se o movimento de descentralização de políticas

públicas que confere aos municípios autonomia e introduz profundas mudanças no

federalismo e, portanto, na política local (cf. Andrade, 2004).

É no contexto do município não mais isolado, mas fortalecido, e da política local

revigorada que surge o que chamamos coronelismo eletrônico de novo tipo, vinculado

especificamente às permissões e autorizações dirigidas às comunidades locais. Essas

(7)

permissões e autorizações referem-se às RTVs

2

, em especial aquelas destinadas às

prefeituras (desde 1978), às emissoras de rádio FM e às rádios comunitárias

legalizadas.

Cerca de 70% de todos os novos atos de outorgas de radiodifusão, depois de 1998,

são exatamente de rádios comunitárias. Paralelamente, estima-se que existam hoje no

país cerca de 18 mil rádios comunitárias “não-legalizadas” em funcionamento, cerca de

10 mil processos arquivados e mais de 4 mil pedidos pendentes no Ministério das

Comunicações (MiniCom) (Carvalho, 15/3/07).

O fato de existir um número tão elevado de rádios comunitárias “não-legalizadas” é

revelador da pressão exercida por aqueles que controlam a radiodifusão comercial

sobre o poder concessionário (Executivo e Legislativo) para impedir que a

regularização aconteça. As comunitárias seriam suas competidoras diretas nos

municípios. Além disso, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e a Polícia

Federal exercem um controle rigoroso sobre as rádios “não-legalizadas” que são

diariamente fechadas e seus dirigentes, presos.

Importante ressaltar ainda que, apesar de a Constituição de 1988 dar aos municípios o

status de ente da Federação, ela reforça o poder exclusivo da União para outorgar e

renovar outorgas de radiodifusão, excluindo assim a possibilidade de municipalização

ou estadualização dessas atividades. A alínea “a” do inciso XII do seu Artigo 21, em

sua redação original e na alterada pela Emenda Constitucional n

o

8, de 1995, deixa

pouca margem de dúvida quanto a essa exclusividade, ao dizer que compete à União

 “explorar, diretamente ou mediante autorização, concessão ou permissão, os serviços

de radiodifusão sonora e de sons e imagens” 

3

.

Do ponto de vista técnico e prático, há pouco ou nenhum sentido nesta centralização

na esfera Federal da atividade de outorga. Existe, principalmente para as rádios de

menor potência que operam em FM, um interesse local muito mais evidente do que um

interesse nacional. A atividade de outorga dessas rádios poderia muito bem ser uma

atividade concorrente entre União, Estados e Municípios – à União caberia apenas ditar

as regras gerais, tais como a canalização do espectro de freqüência.

Executivo compartilha e recupera poder (em parte)

O segundo ponto alterado pela Constituição de 1988 diz respeito à exigência de

participação do Legislativo na aprovação tanto das concessões de rádio e televisão –

comerciais, educativas e comunitárias – como na sua renovação. Subtrai-se, portanto,

(8)

dizer, com os coronéis eletrônicos (ou seus representantes, deputados e senadores),

muitos, eles próprios, já concessionários dos serviços. Há, no entanto, uma

quase-exceção em relação às rádios comunitárias. Reguladas por lei em 1998

4

, já existiam e

operavam em número significativo, pelo menos desde o final da década de 1980. Elas

não dependem de licitações públicas, mas de um processo de avaliação interna no

Ministério das Comunicações (MiniCom). Depois, os atos são enviados à apreciação do

Congresso Nacional.

A Medida Provisória 2.143-33, de maio de 2001, no entanto, modifica as normas de

tramitação dos processos no Congresso e restitui ao Executivo – para as autorizações

de rádios comunitárias – parte significativa do poder que a Constituição de 1988 lhe

subtraíra. A MP 2.143-33 determina que, se as autorizações de rádios comunitárias

enviadas pelo Executivo ao Congresso Nacional não forem apreciadas num prazo de 90

dias, elas se transformarão, automaticamente, em “licenças provisórias” de

funcionamento

5

. Com isso, o Executivo acelera a efetivação de seus atos e tira

vantagem de sua agilidade potencial em relação à morosidade intrínseca do processo

legislativo. Dessa forma, as rádios comunitárias voltam a constituir, para o Executivo,

importante moeda de barganha política.

Neste contexto, é preciso observar que, desde o início do governo do presidente Luiz

Inácio Lula da Silva (2002), além da avaliação técnica e política dos pedidos de

outorga de rádios comunitárias realizada no MiniCom, foi acrescida ainda outra

instância de avaliação política, agora na Casa Civil da Presidência da República. Essa

análise política já existia no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, é

verdade, mas no governo Lula houve uma alteração importante que conferiu à

Secretaria de Relações Institucionais (SRI) da Presidência da República uma

participação na análise das outorgas de radiodifusão. Ou seja: foi inserida na

tramitação das outorgas de radiodifusão no Poder Executivo uma etapa específica a

cargo de um órgão que tem, entre outras funções, a de estabelecer elos entre o Poder

Executivo federal e os municípios.

Os coronéis eletrônicos de novo tipo

Os novos coronéis eletrônicos, como os anteriores, continuam tendo no controle do

voto a sua “moeda de troca” básica com o estado e a própria União. Só que agora com

a mediação de representantes em posição política hierarquicamente superior, tanto no

Legislativo quanto no Executivo – deputados estaduais e federais, senadores e

governadores – sejam eles os velhos coronéis eletrônicos ou não.

As rádios comunitárias, na sua maioria, são controladas, direta ou indiretamente, por

políticos locais – vereadores, prefeitos, candidatos derrotados a esses cargos, líderes

4

O texto completo da Lei 9.612/98 que institui o Serviço de Radiodifusão Comunitária está no Anexo L.1.

5

A edição da MP 2.143-33 levantou a suspeita de que se tratava de medida destinada a impedir a formação

da “CPI da Corrupção” no governo FHC, à época em debate no Congresso Nacional. O então ministro das

Comunicações Pimenta da Veiga negou a acusação e justificou a MP da seguinte forma:

 “Ao longo de dois anos, nós autorizamos a criação de 659 rádios comunitárias em todo o país,

fazendo a comunicação ao Congresso para que os processos fossem analisados. Apenas 29 já foram

aprovadas pelos parlamentares e estão autorizadas a funcionar por três anos. Depois desse tempo,

devem ser novamente avaliadas. A pressão pela aprovação das demais é insuportável. Em todos os

locais onde eu vou as pessoas perguntam. O problema é que nós examinamos, mas o Congresso

não. A medida provisória foi uma forma de agilizar a entrada em funcionamento. A pressão é tão

grande que há enorme desordem no espectro. Devem estar em funcionamento cerca de seis mil

rádios ilegais, o que é um absurdo”. [Cf. Fabiana Melo, “Nenhuma rádio foi autorizada a funcionar” 

em O Globo de 14/05/2001]

(9)

partidários – vindo num distante segundo lugar o vínculo religioso,

predominantemente da Igreja Católica.

Vereadores, prefeitos, candidatos derrotados a esses cargos, líderes partidários

representam, portanto, uma nova mediação dentro do sistema maior do coronelismo

eletrônico que sobrevive como prática política, nem sempre bem-sucedida, mas ainda

fundamental em muitos municípios brasileiros.

O Quadro 1 abaixo procura sintetizar algumas das principais características dos três

tipos de coronelismo.

Quadro 1 – Os três tipos de coronelismo

C a r a c t e r í s t i c a s   P r i n c i p a i s  

Coronelismo (

V. N u n e s L e a l  

)

Co ro ne li sm o E le tr ôn ic o

Co ro ne li sm o El et rô ni co de

Novo Tipo

Base material

Posse da terra

Concessão de Rádio e/ou

TV+RTVs, comerciais e

educativas

RadCom

(legalizada ou não), FM e

RTVs

Moeda de troca

Controle do voto

Controle do voto; apoio

político estadual e/ou

regional

Controle do voto; apoio

político comunitário (local)

Recompensas:

(a) mandatários

federais (direta

indiretamente)

(b) coronéis

(locais,regionais,

comunitários)

Eleição ou

reeleição

Nomear/demitir

Alocar recursos

públicos

Eleição ou reeleição; Controle

da informação política

Concessões de Ra,TV, RTVs;

nomear/demitir; alocar

recursos públicos

Eleição ou reeleição; Controle

da informação política

Concessões de FMs e

RadCom; compartilhar com

deputados e senadores poder

nomear/demitir; alocar

recursos públicos

Função política

Líder local

Senador, deputado federal,

governador (PR, Ministro)

Vereador, prefeito (deputado

estadual), líder partidário

local

Geografia

Interior rural

Rural e urbano (transição)

Urbano

Organização política

Município isolado e

sem autonomia

Estados e regiões

Município integrado, ente

federativo

Poder da União

Centralizado

Centralizado e

descentralizado

Descentralizado

Período histórico

República Velha

Anos 50 (TV) e Regime

Militar

Depois da Constituição de

1988

Exemplos

Coronel Chico

Romão (PE)

José Sarney (ex-deputado

federal, governador,

ex-presidente da República,

Antônio das Graças Filho

(prefeito, PSDB), Kelton

Pinheiro e Hermes Antônio

(10)

dos Deputados e pelo Senado Federal, e um decreto legislativo é assinado pelo

presidente do Congresso Nacional e publicado no Diário do Oficial da União.

6

O universo das rádios comunitárias constitui uma enorme “caixa preta” onde são

pouquíssimos os dados oficiais disponíveis e onde, portanto, qualquer levantamento de

dados constitui uma verdadeira corrida de obstáculos.

Esta é, portanto, a etapa mais importante de uma pesquisa ainda incompleta, que irá

incluir uma investigação também das FMs comerciais e educativas e das

retransmissoras de televisão (RTVs).

B. BREVE HISTÓRI CO DO USO DAS CONCESSÕES DE RA DIOD IF USÃO

COMO MOEDA DE BARGANHA P OLÍTI CA

O Código Brasileiro de Telecomunicações (CBT, Lei nº 4117/62) – que completa 45

anos em 2007 – determina que aquele que estiver em gozo de imunidade parlamentar

não pode exercer a função de diretor ou gerente de empresa concessionária de rádio

ou televisão (Parágrafo único do Artigo 38). Esta norma foi confirmada pelo

Regulamento dos Serviços de Radiodifusão (Decreto 52.795/63) que exige como um

dos documentos necessários à habilitação ao procedimento licitatório, declaração de

que os dirigentes da entidade “não estão no exercício de mandato eletivo” [número 2,

alínea “d” , § 5º do Artigo 15].

Apesar disso, pelo menos desde o início da década de 1980 se tem registro na mídia

impressa da utilização de concessões públicas de radiodifusão por políticos “no

exercício de mandato eletivo”, em seu benefício pessoal e interesse privado.

Tornou-se folclórica, mas nem por isso menos emblemática, a resposta do ex-senador

Atílio Fontana (1963-1971), eleito pelo PSD e, com a extinção dos partidos em 1965,

filiado à Arena de Santa Catarina, ao ser entrevistado por repórter da Rádio Rural de

Concórdia:

– Senador, o microfone é todo seu.

– Não só o microfone, meu rapaz, mas a rádio toda.

Matéria publicada no Jornal do Brasil de 7 de dezembro de 1980, sob o título “No ar, a

voz do dono”, já listava o nome e a filiação partidária de 103 políticos de 16 estados

que controlavam, direta ou indiretamente, emissoras de rádio e/ou televisão. À época,

o país se encontrava sob regime militar e estava em vigência a Lei Falcão, que

restringia o acesso ao rádio e à televisão dos candidatos a postos eletivos à

apresentação dos seus currículos e plataformas – acrescidos de seus retratos, na TV.

O vínculo entre radiodifusão e política é, portanto, fenômeno fortemente arraigado na

cultura e na prática política brasileira que perpassa os tempos de ditadura e os tempos

de democracia. Registre-se a agravante de que, até novembro de 2003, o cadastro dos

concessionários de radiodifusão do Ministério das Comunicações não estava disponível

para consultas – vale dizer, não se conhecia a relação nominal dos beneficiários das

concessões desse serviço público

7

.

6

A informação sobre o número de decretos legislativos já publicados com outorgas de rádios comunitárias

não está disponível no sítio web do Ministério das Comunicações.

7

Desde o início de 2007 o cadastro de concessionários de radiodifusão foi retirado do sítio do Ministério das

Comunicações sem que se conheçam publicamente as razões para tal procedimento.

(11)

Ao final do último governo autoritário (general João Baptista Figueiredo, 1979-1985),

uma das principais questões que alcançaram o debate público foi exatamente o

número inusitado de outorgas de concessões de canais de rádio e televisão num

período de tempo extremamente reduzido. Dados do Ministério das Comunicações

divulgados à época revelavam que, enquanto em todo o ano de 1982 foram

outorgadas 134 novas concessões, 80 em 1983 e 99 em 1984, somente nos últimos 74

dias de seu “mandato”, o general Figueiredo assinou 91 decretos de concessões de

canais de radiodifusão – ou mais de 1,22 decretos de outorga por dia. E a maioria

dos beneficiados eram políticos que se utilizavam dos mais variados artifícios e

obtinham o controle de emissoras de rádio e televisão através de parentes e/ou

 “testas-de-ferro”, burlando normas, prazos e planos (Lima, 1987).

O auge das outorgas para políticos, no entanto, ocorreu ao tempo que o ministro das

Comunicações era Antonio Carlos Magalhães, durante o período do Congresso

Constituinte de 1987-1988, quando estavam em jogo tanto a permanência do

presidencialismo como forma de governo, quanto o mandato do então ocupante do

cargo de presidente da República, José Sarney.

Levantamento realizado por Motter (1994) revela que 1028 outorgas foram assinadas

durante o governo Sarney entre 1985 e 1988, 91 dessas diretamente a deputados e

senadores constituintes. Desse total, 92,3% (84) votaram a favor do presidencialismo

e 90,1% (82) votaram a favor do mandato de cinco anos para o então presidente da

República.

O estudo identificou ainda que a chamada “bancada da comunicação” – composta por

concessionários de radiodifusão – reunia 146 parlamentares, ou 26,1% dos 559

constituintes. Apesar disso, a Constituição de 1988 reafirmou a norma do CBT ao

proibir que deputados e senadores mantivessem contrato ou exercessem cargos,

função ou emprego remunerado em empresas concessionárias de serviço público

(alíneas “a” e “b” do inciso I do Artigo 54).

Mas o Ministério das Comunicações interpreta esse preceito constitucional de outra

forma. É o que fica claro nas palavras de seu atual [maio de 2007] consultor jurídico,

Marcelo Bechara, que em audiência pública realizada na Comissão de Ciência e

Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara dos Deputados, em 25 de

abril de 2007, afirmou que “as regras do artigo 54 da Constituição não valem para as

concessões de radiodifusão” porque nesse caso não existiria o “favor decorrente de

contrato de pessoa jurídica de direito público” previsto na Carta Magna. O CBT também

não seria desrespeitado se o ocupante de cargo eletivo for “apenas” dono ou cotista de

(12)

opinião do Supremo é essencial para se dirimirem as muitas dúvidas ainda existentes

sobre a aplicabilidade ou não do que dispõe o artigo 54 às outorgas de radiodifusão.

Os casos a serem questionados pela eventual Adin são inúmeros. Pesquisa realizada

por Santos e Capparelli (2005) revelou que 39,6% ou 40 das emissoras geradoras

afiliadas à Rede Globo; 33,6% ou 128 de todas as emissoras de TV e 18,03% ou 1765

de todas as retransmissoras de televisão do país estavam controladas direta ou

indiretamente por políticos em 2005.

Da mesma forma, levantamento feito pela Agência Repórter Social, ao início da nova

legislatura, revelou que um terço dos senadores e mais de 10% dos deputados

federais eleitos para o quadriênio 2007-2010 controlam concessões de radiodifusão.

Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), o Decreto 1720, de

28/11/1995, estendeu à radiodifusão as exigências da Lei 8.666, de 21 de junho de

1993, alterando o Regulamento dos Serviços de Radiodifusão (Decreto 52.795 de

31/10/1963). A partir de então, outorgas de radiodifusão comercial pela União só

poderiam ser feitas através de licitação, como manda o artigo 175 da Constituição de

1988.

Estava, aparentemente, resolvida a velha questão do uso político das concessões de

radiodifusão. O tempo, no entanto, revelaria uma outra realidade.

C. “BR ECHAS” L EGAIS: A RA DIODI FUSÃO EDUCATIV A

Ao contrário do que se acreditava à época, pelo menos duas importantes “brechas” 

legais permaneceram abertas e permitiram a continuidade da utilização das

concessões de rádio e televisão como moeda de barganha política.

C.1 “Brecha” UM: a transformação das retransmissoras mistas em geradoras

educativas

A Portaria nº 236 de 1991, elaborada pelo então Ministério da Infra-Estrutura (o

Ministério das Comunicações havia sido extinto e suas atribuições absorvidas pelo

Minfra), criou a Retransmissora de TV (RTV) em Caráter Misto. Esse serviço podia ser

explorado por entidades com fins “exclusivamente educativos” e permitia às RTVs a

possibilidade de inserir programação própria, de acordo com percentuais estabelecidos

pela mesma Portaria.

A RTV mista existiu até 1998, quando o Decreto 2.593 de 15/5/98 instituiu o

Regulamento dos Serviços de Retransmissão e Repetição de Televisão, que extinguiu o

serviço. Abriu-se, todavia, a possibilidade da transformação das retransmissoras

mistas já existentes em geradoras educativas, sem licitação e de acordo com avaliação

do próprio MiniCom, como se vê no § 2º do Artigo 39, transcrito abaixo:

Art 39. As entidades que atualmente executam o Serviço de RTV com inserções

publicitárias ou de programação, interessadas em sua continuidade, deverão

solicitar ao Ministério das Comunicações a referência dos canais que utilizam do

Plano Básico de Distribuição de Canais de Retransmissão de Televisão para o

correspondente Plano Básico de Distribuição de Canais de Televisão.

(13)

§ 2º Efetivada a transferência de canais de retransmissão de sinais

provenientes de estação geradora de televisão educativa, o Ministério das

Comunicações analisará as solicitações recebidas para outorga de concessão

para execução do Serviço de Radiodifusão de Sons e Imagens Educativa.

Quase um ano depois, uma Portaria conjunta do MEC e do MiniCom (Portaria

Interministerial nº 651 de 15/4/99) definiu o que se entendia por “exclusivamente

educativo”.

No seu Artigo 3º está escrito:

A radiodifusão educativa destina-se exclusivamente à divulgação de

programação de caráter educativo-cultural e não tem finalidades lucrativas.

E no Artigo 1º define-se:

Por programas educativo-culturais entendem-se aqueles que, além de atuarem

conjuntamente com os sistemas de ensino de qualquer nível ou modalidade,

visem à educação básica e superior, à educação permanente e formação para o

trabalho, além de abranger as atividades de divulgação educacional, cultural,

pedagógica e de orientação profissional, sempre de acordo com os objetivos

nacionais.

Na verdade, essa definição se revelou apenas uma formalidade porque as geradoras

educativas nunca seguiram sua orientação. Uma prova disso é que, até hoje, existem

inúmeras concessões educativas controladas por diferentes igrejas – lideradas inclusive

por políticos – que fazem proselitismo religioso permanente.

A possibilidade de transformação das retransmissoras mistas em geradoras educativas

foi também referendada – dois anos depois – pelo Decreto 3451 de 9/5/2000, no § 2º

do seu artigo 47, transcrito a seguir:

Art. 47. As entidades que atualmente executam o Serviço de RTV com

inserções publicitárias ou de programação, interessadas em sua continuidade,

deverão solicitar ao Ministério das Comunicações a transferência dos canais que

utilizam do PBRTV para o correspondente Plano Básico de Distribuição de Canais

de Televisão.

(...)

(14)

dos 300 pedidos de “transformação” existentes no MiniCom, 168 deveriam ser

autorizados, além dos 12 que já haviam sido assinados pelo presidente da República e

encaminhados ao Congresso Nacional.

A matéria da Folha concluía que havia indícios de influência política nos pedidos

oriundos de Minas Gerais, estado com maior número de RTVs mistas e terra do então

ministro Pimenta da Veiga, das Comunicações.

Os pedidos existentes no ministério revelam indícios de influência política,

sobretudo em Minas Gerais, Estado do ministro Pimenta da Veiga

(Comunicações), que conta com o maior número das tais retransmissoras

mistas.

É o caso da Fundação Educacional e Cultural João Soares Leal Sobrinho, que

administra a Rádio e TV Imigrantes, em Teófilo Otoni (MG). A emissora é

controlada por Luís Leal, ex-prefeito e deputado federal pelo PMDB. Ele já teve

a concessão autorizada pelo presidente da República.

Em Formiga (MG), reduto eleitoral de Pimenta da Veiga, a concessão (também

 já autorizada por FHC) foi para a Fundação Integração do Oeste de Minas. O

presidente é Mozart Arantes, vice-prefeito na última legislatura na chapa do

atual prefeito, Eduardo Bras Almeida (PSDB).

Em Ubá, a TV educativa local é administrada por uma fundação presidida por

Daniel Coelho, filho do deputado federal Saulo Coelho (PSDB-MG), que até a

semana passada ocupava o cargo de ouvidor da Anatel (Agência Nacional de

Telecomunicações), órgão que fiscaliza as emissoras de TV.

A retransmissora educativa da cidade de Divinópolis, também em Minas Gerais,

está em nome da Fundação Jaime Martins, criada pelo pai do deputado federal

Jaime Martins Filho (PFL). Ele confirma que encaminhou a documentação com o

pedido de concessão ao ministério, mas declara não possuir vínculo com a

administração da entidade.(...)

Em pelo menos duas cidades mineiras, as retransmissoras são ligadas aos

prefeitos: a de Três Corações e a de Lambari.

Um ano e meio mais tarde, a possibilidade de “transformação” continuou garantida

pelos parágrafos 1º e 3º do Artigo 47 do Decreto 3.965 de 10/10/2001, transcritos

abaixo.

Art. 47. As entidades que atualmente executam o Serviço de RTV com

inserções publicitárias ou de programação, interessadas em sua continuidade,

deverão encaminhar ao Ministério das Comunicações solicitação de

transferência dos canais que utilizam, do PBRTV para o PBTV.

§ 1o O Ministério das Comunicações, entendendo procedente, encaminhará a

solicitação de transferência para a Agência Nacional de Telecomunicações.

(...)

§ 3o Efetivada a transferência dos canais para o PBTV na modalidade

educativa, o Ministério das Comunicações analisará as solicitações recebidas

para outorga de concessão para execução do Serviço de Radiodifusão de Sons e

Imagens Educativa, com base na legislação aplicável aos serviços de

(15)

§ 4o Efetivada a transferência dos canais, as estações das entidades

autorizadas a executar o Serviço de RTV nos canais transferidos poderão

permanecer em funcionamento, nas mesmas condições em que foram

autorizadas, até a instalação da estação geradora do Serviço de Radiodifusão de

Sons e Imagens.

Essa “brecha” na legislação só vai desaparecer com a edição do Decreto 5.371,

assinado pelo presidente Lula em fevereiro de 2005, que deixa de mencionar a

possibilidade. Durante um período de quase sete anos – de maio de 1998 até fevereiro

de 2005 – o beneficiário de uma autorização para explorar uma RTV mista pôde,

portanto, ser transformado em concessionário de televisão educativa, sem licitação e

de acordo com critérios estabelecidos pelo MiniCom.

C 2. “Brecha” DOIS: as outorgas de radiodifusão educativa estão dispensadas de

licitação

A transformação das retransmissoras mistas em geradoras educativas não era,

todavia, a única brecha para a continuidade do uso das concessões de emissoras de

rádio e televisão educativas como moeda de barganha política.

O Decreto 1720/1995, quando de sua assinatura pelo presidente Fernando Henrique

Cardoso, recebeu aprovação calorosa de setores comprometidos com a democratização

das comunicações e de parte da mídia.

Meses depois, quando o MiniCom anunciou a abertura das primeiras licitações já

dentro dos novos critérios, a revista Veja, por exemplo, publicou nota sob o título “Fim

de um ciclo” na qual se lia:

 “ao anunciar (...) que abrirá licitações para 610 novas emissoras de rádio e

televisão e definir as normas para a TV por assinatura, o Ministério das

Comunicações encerrou um ciclo histórico de manipulação política dessa área.

(...) Com isso, o MiniCom (...) abre mão de uma moeda de barganha que no

passado resultou na entrega para políticos de pelo menos 27% das emissoras

de televisão e 40% das rádios do país.” [Veja, ed.1462 de 18/9/96, p.39]

Na verdade, o Decreto 1720/95, embora importante, incidia somente sobre as

emissoras comerciais de radiodifusão que vinham de uma avalanche de concessões

nos governos Figueiredo e Sarney

8

. Ficara discretamente “aberta a porta” para a

(16)

Artigo 13. O edital será elaborado pelo Ministério das Comunicações,

observados, no que e quando couber, dentre outros, os seguintes elementos e

requisitos necessários à formulação das propostas para a exploração do serviço:

(...)

XV – nos casos de concessão, minuta do respectivo contrato, contendo suas

cláusulas essenciais.

(...)

2º Não dependerá de edital a outorga para execução de serviço de radiodifusão

por pessoas jurídicas de direito público interno e por entidades da

administração indireta instituídas pelos Governos Estaduais e Municipais, nem a

outorga para a execução do serviço com fins exclusivamente educativos.

Cerca de um ano depois, o Decreto 2108 de 24/12/1996 promove nova alteração que

consagrada o procedimento. Está lá no Parágrafo 1º do inciso XV do Artigo 13:

Artigo 13. O edital será elaborado pelo Ministério das Comunicações,

observados, dentre outros, os seguintes elementos e requisitos necessários à

formulação das propostas para a execução do serviço:

(...)

XV – nos casos de concessão, minuta do respectivo contrato, contendo suas

cláusulas essenciais.

(...)

1º É dispensável a licitação para a outorga para a execução de serviço de

radiodifusão com fins exclusivamente educativos.

Em agosto de 2002, uma seqüência de reportagens realizadas por Elvira Lobato e

publicadas pela Folha de S.Paulo mostrava detalhadamente como o governo de

Fernando Henrique Cardoso havia dado continuidade à pratica de distribuição de TVs

educativas a políticos aliados (cf. Lobato, 2005, pp. 228-261). Na matéria inicial, sob o

título “FHC distribuiu rádios e TVs educativas para políticos”, publicada em 25/8/2002,

está escrito:

Em sete anos e meio de governo, além das 539 emissoras comerciais vendidas

por licitação, FHC autorizou 357 concessões educativas sem licitação. (...) A

distribuição foi concentrada nos três anos em que o deputado federal Pimenta

da Veiga (PSDB-MG), coordenador da campanha de José Serra, esteve à frente

do Ministério das Comunicações. Ele ocupou o cargo de janeiro de 99 a abril de

2002, quando, segundo seus próprios cálculos, autorizou perto de cem TVs

educativas. Pelo menos 23 foram para políticos. A maioria dos casos detectados

pela Folha é em Minas Gerais, base eleitoral de Pimenta da Veiga, mas há em

São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Pernambuco, Alagoas,

Maranhão, Roraima e Mato Grosso do Sul.

Da mesma forma, quatro anos depois, em junho de 2006, novamente Elvira Lobato

publicou matéria na Folha de 19/6/2006, sob o título “Governo Lula distribui TVs e

rádios educativas a políticos”, na qual se afirmava:

O governo Lula reproduziu uma prática dos que o antecederam e distribuiu pelo

menos sete concessões de TV e 27 rádios educativas a fundações ligadas a

políticos. (...) Entre políticos contemplados estão os senadores Magno Malta

(PL-ES) e Leonel Pavan (PSDB-SC). A lista inclui ainda os deputados federais

João Caldas (PL-AL), Wladimir Costa (PMDB-PA) e Silas Câmara (PTB-AM), além

(17)

de deputados estaduais, ex-deputados, prefeitos e ex-prefeitos. Em três anos e

meio de governo, Lula aprovou 110 emissoras educativas, sendo 29 televisões e

81 rádios. Levando em conta somente as concessões a políticos, significa que

ao menos uma em cada três rádios foi parar, diretamente ou indiretamente, nas

mãos deles.

As emissoras de rádio e televisão educativas dispensam as licitações e podem ser

autorizadas através de critérios estabelecidos diretamente pelo Ministério das

Comunicações, embora continuem tendo que ser submetidas ao Congresso Nacional.

Além das “brechas” relativas à radiodifusão educativa, o que essa pesquisa pretende

mostrar, como já mencionado, é a continuidade do uso das concessões como moeda

de barganha política pela União, agora através de um coronelismo eletrônico de novo

tipo, dirigido, sobretudo, para as comunidades locais.

D. A LITERATURA SOBRE CORONELISMO ELETRÔNICO

Desde o início da década de 1980, o coronelismo eletrônico mereceu reportagens

investigativas de alguns veículos da mídia impressa, de entidades que trabalham pela

democratização das comunicações, de estudos acadêmicos e, mais recentemente, de

sites especializados na internet.

O Jornal do Brasil, a Folha de S.Paulo, o Correio Braziliense e as revistas Veja e

IstoÉ/Senhor trataram do assunto ao longo dos anos 1980. Da década de 1990 até

agora, além dos veículos já mencionados, as revistas Imprensa e a CartaCapital têm

publicado matérias sobre o tema.

O estudo acadêmico pioneiro foi o de Stadnik (1991), seguido por Motter (1994),

Capparelli e Santos (2002), Santos e Capparelli (2005), Lima (2001, 2004a, 2004b,

2006). Em 2001, Israel Bayma, à época vinculado à assessoria do Partido dos

Trabalhadores na Câmara dos Deputados, publicou importante levantamento sobre

políticos com participação societária em concessionárias de rádio e televisão. Mais

recentemente, livro da jornalista Elvira Lobato, da Folha de S.Paulo (2005), traz quatro

preciosos capítulos sobre concessões de RTV.

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) [www.fndc.org.br],

desde sua criação, em 1991, tem acompanhado com freqüência o assunto como parte

da luta pela democratização das comunicações. Por outro lado, os sites do

(18)

Existe, portanto, uma razoável literatura de referência sobre o vínculo direto ou

indireto de políticos – sobretudo deputados e senadores – com as concessões de rádio

e televisão na política brasileira.

E. AS RADCOM: PR OMESSA FRUSTRA DA

A radiodifusão comunitária nasceu oficialmente no Brasil com a Lei 9.612, de 19 de

fevereiro de 1998. De acordo com essa legislação, seria um serviço de rádios locais de

baixa potência (limite de 25 watts) e com cobertura restrita (posteriormente

estabelecida pelo Decreto 2.615/98

9

em um raio máximo de 1 km). Poderiam se

habilitar à prestação do serviço exclusivamente associações ou fundações comunitárias

com atividade na área na qual seria instalada a emissora.

A aprovação de uma legislação específica para a radiodifusão comunitária foi, em

grande parte, uma reação do Estado a uma realidade factual: a existência de um

grande número de rádios não-outorgadas, boa parte delas em baixa potência, que já

operavam no país. As estatísticas variam desde 2 mil a até 20 mil rádios funcionando

sem licença em 1998, ano de promulgação da lei de radiodifusão comunitária (Silveira,

2001).

O marco inicial da regulamentação da radiodifusão comunitária aconteceu em 1995,

quando o então ministro das Comunicações Sérgio Motta reconheceu publicamente a

existência de milhares de emissoras de baixa potência não-outorgadas. Segundo

Motta, havia a necessidade urgente de serem criados regulamentos que pudessem

tornar tal fenômeno legalmente reconhecido.

Entre abril de 1995 e final de 1996, sete Projetos de Lei foram apresentados na

Câmara dos Deputados propondo a regulamentação das rádios comunitárias. Todos

esses projetos – incluindo o PL 1778, de 1996, de autoria do Poder Executivo –

tramitaram apensados à primeira proposição: o PL 1521, de 1996, do deputado

Arnaldo Faria de Sá. O texto final, aprovado no Senado Federal em forma de

substitutivo, incluía pontos específicos dessas várias propostas, mas o cerne foi dado

primordialmente pelas propostas do deputado Arnaldo Faria de Sá e do Poder

Executivo.

Portanto, o Estado criou, por meio da Lei 9.612, de 1998, uma inovação jurídica que,

em primeira análise, parecia ser gerada pela necessidade de dar conta de um

fenômeno comunicacional que não era previsto anteriormente na legislação brasileira.

Além disso, respondia às reivindicações de diversas entidades organizadas que

lutavam pela regulamentação do serviço de radiodifusão comunitária.

A Lei 9.612 de 1998, todavia, não era exatamente “a resposta ideal” em termos de

democratização das comunicações e ampliação do acesso à radiodifusão. Longe disso,

na verdade, tratava-se de uma legislação restritiva, que dificultava – ao contrário de

facilitar – o acesso às outorgas e o funcionamento das rádios comunitárias, algo que

atendia perfeitamente aos interesses dos empresários de radiodifusão.

9

O texto completo do Decreto 2.615/98 que aprova o Regulamento do Serviço de Radiodifusão Comunitária

está no Anexo L.2.

(19)

Idealmente, as rádios comunitárias devem, como prevê a legislação, prestar serviços

sem fins lucrativos, sem qualquer tipo de proselitismo religioso, político ou de qualquer

outra espécie, com uma programação voltada para a comunidade e aberta a todos os

interesses dos seus ouvintes. A entidade detentora da outorga não pode estar

submetida a qualquer tipo de vínculo que a subordine à orientação de outra pessoa

mediante compromissos ou relações financeiras, religiosas, familiares,

político-partidárias ou comerciais. Exige-se que ela seja, portanto, capaz de se dedicar

exclusivamente às necessidades comunicacionais da comunidade na qual atua.

Contudo, a aplicação da legislação de radiodifusão comunitária deixou explícito que

uma estratégia de exclusão estava sendo posta em prática e não uma política de

inclusão. O processo de outorga criado pela legislação é demasiadamente burocrático,

com uma infinidade de exigências que tornam sua tramitação lenta, complicada e, por

conseqüência, gera um alto índice de arquivamento.

Para cada processo autorizado, 2,23 são arquivados. Além disso, quase 50% dos

processos de radiodifusão comunitária estão represados no Ministério das

Comunicações e sequer iniciaram sua tramitação. São no total mais de 8 mil entidades

que ainda aguardam a publicação de aviso de habilitação que disponibilize um canal

para, então, poderem iniciar o tortuoso processo que pode levar à outorga [cf. Gráfico

1] (Lopes, 2005).

Gráfico 1

Processos de outorga de radiodifusão comunitária que estiveram em tramitação no

Ministério das Comunicações entre 06 de agosto de 1998 e 20 de maio de 2004,

classificados por status

15,63%

5,90%

43,64%

Autorizados (2.189)

(20)

primeiro aviso de habilitação do governo Lula. Além disso, pretendia-se também gerar

subsídios para uma possível alteração na legislação do setor, o que foi consolidado em

um relatório final publicado pelo GT em 2 de julho do mesmo ano.

Ainda que tenha contribuído para a melhora das estatísticas operacionais do ministério,

 “desencalhando” alguns milhares de processos, a solução gerada pelo GT teve efeitos

limitados. Primeiro, porque não houve alterações substanciais na capacidade

operacional do MiniCom. Segundo, porque se manteve intacto o grande número de

exigências burocráticas relativas aos processos de outorgas de radiodifusão. O

resultado foi um rápido re-acúmulo de processos, e pouco se alterou na realidade das

milhares de entidades que ainda esperavam pela análise de seus pedidos de outorga

de autorizações de rádios comunitárias.

Um segundo grupo de trabalho foi criado por meio da Portaria nº 76, de 10 de

fevereiro de 2005. Dessa vez, tratava-se de um grupo interministerial (GTI), formado

por representantes do próprio Ministério das Comunicações; da Casa Civil; dos

ministérios da Educação, Justiça e Cultura; da Secretaria de Comunicação de Governo

e Gestão Estratégica, da Assessoria Especial e da Secretaria-Geral da Presidência da

República. O objetivo agora não era construir um novo mutirão de análise de

processos, mas sim gerar diagnósticos para a simplificação e agilização das análises

dos processos de outorga de radiodifusão.

Depois de pouco mais de seis meses de trabalho, o GTI gerou um extenso relatório, no

qual eram propostas diversas alterações na política de radiodifusão comunitária. As

conclusões não eram exatamente uma novidade. O relatório ressaltava que a atual

política de radiodifusão comunitária era excludente, na medida em que negava a

diversas entidades a outorga de autorizações devido a uma infinidade de exigências

burocráticas muitas vezes descabidas.

Mas, curiosamente, esse relatório final jamais foi divulgado e nem sequer entregue ao

presidente da República, como previa sua Portaria de criação. Isso porque, durante seu

funcionamento, uma importante alteração ocorreu na titularidade do Ministério das

Comunicações. Saiu Eunício de Oliveira e, em seu lugar, assumiu Hélio Costa, cujos

compromissos políticos com a radiodifusão comercial revelaram-se muito mais fortes

do que com a radiodifusão comunitária.

F. NOTA SOBRE A M ETODOLOGIA

O acesso a informações concernentes à radiodifusão comunitária é bastante

complicado. Há ainda poucos estudos sobre o tema, o que faz com que o pesquisador

tenha de construir por si só boa parte das informações necessárias. Mas, além disso, o

acesso aos subsídios necessários para a construção dessas informações é

consideravelmente dificultado pela quase ausência de dados oficiais.

Para a realização desta pesquisa, por exemplo, tínhamos a necessidade de ter acesso a

três dados fundamentais relativos às entidades de radiodifusão comunitária que

tiveram Portaria de autorização assinada pelo Ministro das Comunicações até

dezembro de 2004: o tempo de tramitação no Ministério das Comunicações; o tempo

de tramitação na Presidência da República – Casa Civil/SRI; e a composição da

(21)

Para conseguir a primeira informação – o tempo de tramitação no Ministério das

Comunicações – nos dirigimos ao órgão. Foram feitos diversos contatos com a

Secretaria de Serviços de Comunicação Eletrônica, mas todos eles infrutíferos. Para

todos os processos estudados, tínhamos a data de saída do ministério bem

determinada. Para tanto, era necessário consultar a data da Portaria de autorização

emitida para cada uma das rádios que receberam autorização de funcionamento até

dezembro de 2004. Mas a data de entrada desses processos nos era desconhecida e,

frente à ausência de resposta do ministério, fomos forçados a excluir essa primeira

análise do trabalho.

Para conhecer o tempo de tramitação na Presidência da República – Casa Civil/SRI,

fizemos o mais óbvio e contatamos ambos os órgãos em busca dessa informação. Mais

uma vez, o caminho mais curto não funcionou, e não recebemos qualquer resposta às

nossas requisições. Porém, ao contrário do que ocorreu com a primeira informação,

existia um caminho alternativo, bem mais longo, mas que poderia fornecer os dados

que procurávamos.

Para calcular o tempo de tramitação dos processos de radiodifusão na Presidência da

República – Casa Civil/SRI eram necessárias duas informações. A primeira era a data

da Portaria de autorização emitida pelo Ministério das Comunicações. Essa data marca

o momento de saída do processo do ministério e de entrada na Presidência da

República – Casa Civil/SRI. A segunda era a data da Mensagem que encaminha esses

processos ao Congresso Nacional, que marca a sua saída da Presidência da República /

Casa Civil e sua entrada na Câmara dos Deputados. Portanto, era necessário calcular o

intervalo entre as datas da Portaria e da Mensagem e teríamos o tempo de tramitação

de cada um desses processos na Presidência da República – Casa Civil/SRI.

As Portarias de autorização e sua data de expedição estão disponibilizadas no sítio web

do Ministério das Comunicações – portanto, foi possível acessá-las. Já as Mensagens

de encaminhamento ao Congresso Nacional e suas datas não estão disponíveis em

qualquer base de dados pública do Executivo. Porém, ao consultarmos os TVRs (como

são chamados os processos que apreciam os atos de outorgas de radiodifusão na

Câmara dos Deputados) das outorgas de rádios comunitárias, verificamos ser possível

conhecer também uma cópia das mensagens de encaminhamento ao Congresso

Nacional de todos os processos que já haviam sido encaminhados ao Legislativo.

Havíamos, assim, viabilizado parte das informações necessárias ao estudo.

Faltava ainda ter acesso ao nome dos membros das diretorias das emissoras de

(22)

Departamento de Outorga de Serviços, Carlos Alberto Freire Resende.

10

Jamais

recebemos qualquer resposta do Ministério das Comunicações.

Era necessário buscar um caminho alternativo, e esse caminho foi, mais uma vez, o

Legislativo – só que agora o Senado Federal. Ao chegarem lá, vindos da Câmara dos

Deputados, os processos de outorga de radiodifusão têm algumas de suas partes

reproduzidas. Alguns dos documentos trazem informações sobre a composição da

diretoria das entidades detentoras de outorgas de radiodifusão comunitária. Assim,

buscamos a tramitação, um por um, de todos os processos de radiodifusão comunitária

que já haviam passado pela análise do Senado Federal. E por meio de cópias de atas

de reuniões (cf. Figura 1); declarações de diretores (cf. Figura 2) ou de membros da

diretoria (cf. Figura 3); cópias de estatutos (cf. Figura 4) e relatórios do Ministério das

Comunicações (cf. Figura 5), em um trabalho exaustivo de leitura de centenas de

documentos, muitos deles manuscritos, identificamos a composição completa da

diretoria de exatas 2.017 rádios comunitárias.

Figura 1

Cópia de ata de reunião manuscrita

10

Ofício protocolado no Ministério das Comunicações sob o número 53000 086406/2006-31. Segundo o

sistema CPROD do ministério, o ofício foi distribuído à sua Coordenação de Radiodifusão Comunitária em 17

de novembro de 2006.

(23)

Figura 2

(24)

Figura 3

(25)

Figura 4

(26)

Figura 5

Relatório da Consultoria Jurídica do Ministério das Comunicações

A adoção dessa metodologia, todavia, ainda que tenha sido a única que tornou possível

o acesso a dados fundamentais, ocasionou a exclusão de nossa pesquisa daqueles

processos que tiveram Portarias de autorização concedida pelo Ministério das

Comunicações a partir de 2005

11

. Devido ao longo tempo de retenção de vários dos

processos de radiodifusão comunitária no Executivo, a maior parte desses processos

sequer foi encaminhada ao Congresso Nacional. Consequentemente, eles ainda não

haviam chegado ao Senado Federal em abril de 2007, tornando impossível calcular

seus tempos de tramitação na Presidência da República – Casa Civil/SRI ou conhecer

os nomes dos membros de suas diretorias.

Completada a base de dados referente ao período de 1999 a 2004, chegamos a um

universo total de 2.205 rádios comunitárias autorizadas pelo Ministério das

Comunicações, a maioria delas já funcionando legalmente. A partir daí, passamos à

fase de análise de dados, cruzamentos e levantamentos estatísticos.

Apesar do termos um número de 2.017 diretorias identificadas, optamos por calcular

os percentuais de vínculos políticos, religiosos e de duplicidade de outorgas sobre o

total das 2.205 rádios comunitárias que receberam portaria de autorização do

Ministério das Comunicações entre 1999 e 2004. Essa opção se deu porque, dentre as

188 rádios cujas diretorias não puderam ser identificadas, várias delas tiveram algum

11

No sítio do Ministério das Comunicações, constava, em abril de 2007, a informação atualizada para 10 de

 janeiro de 2007 de que 2.741 processos de rádios comunitárias já haviam sido autorizados.

(27)

tipo de vínculo detectado a partir do cruzamento do nome do seu representante legal

com as bases de dados pesquisadas. Vale ressaltar que a pesquisa foi capaz de

identificar os representantes legais de todas as 2.205 rádios comunitárias integrantes

da amostra.

Os seguintes levantamentos foram realizados:

** estatísticas referentes ao número de processos autorizados pelo Ministério das

Comunicações, divididos por ano e mês de publicação da portaria de autorização;

** estatísticas referentes ao número de processos encaminhados pela Presidência da

República – Casa Civil/SRI ao Congresso Nacional, divididos por ano e mês de

publicação da mensagem de encaminhamento;

** elaboração de quadro estatístico, com número de outorgas concedidas pelos

ministros Pimenta da Veiga, Juarez Quadros, Miro Teixeira e Eunício de Oliveira (que

ocuparam o Ministério das Comunicações durante o período estudado) divididas por

Estado (cálculos por número absoluto e número relativo);

** cálculo do tempo médio de tramitação dos processos de radiodifusão comunitária

na Presidência da República – Casa Civil/SRI, com indicativo do grau de dispersão da

amostra (desvio padrão);

** cruzamento dos dados referentes aos tempos de tramitação na Presidência da

República – Casa Civil/SRI com os dados do banco de dados “Pleitos” (apenas para os

anos de 2003 e 2004). (Ver Lopes, 2005b);

** cruzamento dos nomes dos representantes legais e membros das diretorias das

entidades analisadas com as seguintes listas:

candidatos eleitos e derrotados nas eleições municipais de 2000 e 2004;

candidatos eleitos e derrotados nas eleições estaduais e federais de 1998, 2002

e 2006;

doadores de campanha nas eleições de 2000, 2002, 2004 e 2006;

membros de partidos políticos (quando havia listas disponíveis);

arquivos de publicações editadas nos municípios na qual operam as rádios

comunitárias (quando disponíveis);

lista de cotistas, sócios, diretores e membros de diretorias de entidades de

(28)

Tendo em vista tal disfunção, utilizamos um procedimento diferenciado para a

obtenção de informações a partir do cruzamento da lista de proprietários e diretores de

emissoras educativas e comerciais, de modo a conferir também a esse cruzamento o

maior grau de confiabilidade possível. Para tanto, utilizamos inicialmente não uma,

mas duas listas diferentes: a relação de sócios das emissoras de rádio e televisão

classificada por sigla da UF, cidade e entidade, produzida pelo Ministério das

Comunicações em 05 de janeiro de 2004; e a relação de sócios e diretores das

entidades de serviços de radiodifusão produzida pela Agência Nacional de

Telecomunicações (Anatel) em janeiro de 2005.

Quando encontrados resultados positivos no cruzamento com uma dessas duas listas,

utilizávamos uma terceira forma de validação dos dados. Consultamos no Sistema de

Acompanhamento de Controle de Cotas (SIACCO) da Anatel as composições das

diretorias das entidades para as quais haviam sido detectadas duplicidades de

outorgas – membros de diretorias de emissoras comunitárias que também integravam

diretorias de emissoras comerciais ou educativas. Como o SIACCO é um sistema online

com atualização em tempo real, essa fase de validação suprimiu o problema da

desatualização das listas utilizadas nas primeiras duas fases, conferindo assim um grau

de confiabilidade similar ao obtido com os outros cruzamentos. Assim, apenas os

casos de duplicidade confirmados pelo SIACCO foram incluídos no resultado final.

G. OS “P ROCEDIM ENTOS BUROCRÁTI COS” E SUAS IMP LICAÇÕES

POLÍTICAS

G.1 – No Min istério das Comunicações

a. Arquivamentos e “Pleitos” 

Conseguir uma outorga de radiodifusão comunitária é uma tarefa bastante complicada.

Na verdade, a maior parte dos pedidos de outorga de radiodifusão comunitária resulta

em arquivamento. Em média, para cada processo aprovado, cinco são arquivados

(Lopes, 2005).

Na maior parte dos casos, a causa desse arquivamento é burocrática, e não técnica.

De 4.878 processos de outorga de radiodifusão comunitária arquivados entre agosto

de 1998 e maio de 2004, detectamos que mais de 80% tiveram como causa do

arquivamento o não-cumprimento de alguma exigência burocrática. Na maior parte

das vezes, a causa foi a não apresentação de um dos muitos documentos exigidos no

aviso de habilitação que abriu a concorrência na qual a entidade concorreu.

Mas esse índice de arquivamento é bastante diferente quando comparamos entidades

que tiveram “padrinhos políticos” com as que não os tiveram durante a tramitação de

seus processos de outorga. Isso pode ser concluído ao analisarmos os dados

constantes do banco de dados “Pleitos”, um programa para o cadastro e apreciação de

todos os pedidos de “acompanhamento de processo” encaminhados por políticos ao

Ministério das Comunicações. Graças a uma fonte no Ministério, pudemos ter acesso a

todos os processos constantes no “Pleitos” para os anos de 2003 e 2004.

Dos 1.822 processos que não tinham um “padrinho político”, apenas 146 foram

aprovados – uma taxa de sucesso de 8,01%. Já dos 1.010 processos apadrinhados,

357 foram aprovados – uma taxa de sucesso de 35,34%. Ou seja: entre 2003 e 2004,

Referências

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