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Reforma Ricardo Jorge

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HISTÓRIA DA CARREIRA DOS TDT (21 de Maio de 2015)

Um agradecimento especial à Professora Isabel Coutinho pelo convite que me dirigiu para participar nesta mesa de reflecção histórica da carreira dos profissionais das ciências e tecnologias da saúde.

Um cumprimento aos meus colegas de intervenção neste painel e em especial ao Dr. Francisco Ramos que assinou o articulado da carreira dos TDT que ainda se encontra em vigor e, também um cumprimento a todos os participantes.

Para enquadrar o tema, vou fazer uma referência aos sistemas de saúde que, a meu ver, contribuíram, durante o percurso histórico de mais de um século, para a constituição de carreiras profissionais nas áreas de diagnóstico e terapêutica e defino 3 momentos:

1 - Reforma Ricardo Jorge (1901)

2 - Reforma de Saúde e Assistência, também denominada Sistema Nacional de Saúde ou Reforma Gonçalves Ferreira (1971)

3 - Reforma pós 25 de abril de 1974 ou Serviço Nacional de Saúde (1979)

Começo pela Reforma Ricardo Jorge.

Em 1899, Ricardo Jorge foi encarregado de proceder à reorganização dos Serviços de Saúde e Beneficência Pública de que resultou a publicação, em 24 de Dezembro de 1901, de um “Laboratório de Analyse Clinica”, organizado em 5 secções do seguinte modo:

* analyses anatomo-pathologicas * analyses bacteriológicas e

* analyses chimicas, comprehendendo a analyse de substancias alimentares * analyse radioscopica, radiographia e photographia

* electro-diagnostico e electro-therapia

Este Laboratório não se assemelha aos atuais laboratórios de análises clínicas mas esta estrutura no hospital de S. José, projeta já 5 das áreas de diagnóstico e terapêutica cujas carreiras estamos a debater: anatomia patológica, ACSP, radiologia, cardiopneumologia e fisioterapia.

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No entanto, em 1902 é publicado o Regulamento deste Laboratório que define os profissionais para cada secção, respetivas funções e conduta e também as instruções práticas para os diferentes atos.

Neste contexto surgem duas denominações de Preparador: O Preparador e o Preparador Assistente do Diretor.

As competências expressas no Regulamento indiciam funções de execução e funções de gestão embora seja omisso em relação à habilitação académica exigida para esses profissionais, facto que só será clarificado em 1927 quando se regulamenta o exame para obtenção do diploma de habilitação para o exercício das funções de preparador.

No entanto, esta figura de preparador é referenciada nos anuais das universidades do Porto e Coimbra como um profissional de apoio às aulas do curso de medicina ao qual esse exige formação de nível superior.

Como conclusão podemos afirmar que desta primeira reforma resultam 5 áreas de diagnóstico e terapêutica e o profissional Preparador

Reforma Gonçalves Ferreira

Este sistema de saúde, dominado pelos princípios caritativo-assistenciais sem uma dependência das estruturas e objetivos da saúde ao princípio da cobertura global da população, prolongou-se por 70 anos e, quando Gonçalves Ferreira exerce o cargo de Secretário de Estado da Saúde e Assistência, foi responsável pela primeira definição duma política nacional de saúde em Portugal, denominada Sistema Nacional de Saúde.

Pela primeira vez são criadas carreiras para profissionais com habilitação técnica devidamente titulada, com a seguinte justificação “exercício de funções predominantemente complementares ou auxiliares de modo a assegurar completo e harmonioso funcionamento do conjunto sistemático do trabalho nos campos da saúde pública, dos hospitais e da assistência, incluindo a do serviço social (nº 6 do decreto-lei nº 414/71)”.

Destas carreiras de tipo 2, destaco:

• Carreira de técnicos auxiliares de laboratório com 4 categorias (preparador de 2ª classe, preparador de 1ª classe, técnico auxiliar de laboratório de 2ª classe e técnico auxiliar de laboratório de 1ª classe)

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• Carreira de técnicos auxiliares sanitários com 3 categorias (agente sanitário de 2ª classe, agente sanitário de 1ª classe e fiscal sanitário)

• Carreira de técnicos terapeutas com 5 categorias (Técnico auxiliar terapeuta de 2ª classe, Técnico auxiliar terapeuta de 1ª classe, Técnico terapeuta de 3ª classe, Técnico terapeuta de 2ª classe, Técnico terapeuta de 1ª classe e Técnico terapeuta chefe)

No decreto-lei são definidos os respetivos graus, condições de ingresso e acesso mas não há qualquer referência a competências técnicas.

Esta reforma não foi implementada em todas as vertentes e as carreiras referidas só foram implementadas no INSA, no IPO e no hospital do Ultramar.

Gonçalves Ferreira também considera a importância de se estudar um grupo de “Técnicos” nos quais engloba enfermeiros, técnicos de laboratório, técnicos de radiologia, dietistas, fisioterapeutas e técnicos especializados em material médico de diferentes especialidades.

Desta reforma resulta:

Exercício de funções predominantemente, complementares ou auxiliares; Carreira de Tipo II;

Indefinição de competências técnicas.

Reforma Pós 25 de Abril

A alteração política a que assistimos após a revolução dos cravos proporcionou um avanço no sistema de saúde, com a criação do Serviço Nacional de Saúde que foi efetivado em 1979, (Lei nº 56/79, de 15 de setembro) sob coordenação do ministro António Arnaut.

Esta alteração política também foi propícia ao aparecimento de associações sindicais, que contribuíram para a negociação e desenvolvimento das carreiras o que se verificou em 3 momentos consecutivos.

Carreira de Técnico Auxiliar dos Serviços Complementares de Diagnóstico e Terapêutica

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Dois anos após 25 de Abril, o Decreto-Lei nº 59/76, de 23 de Janeiro, vem permitir a atualização das carreiras e criar a Carreira de Técnico Auxiliar dos Serviços Complementares de Diagnóstico e Terapêutica para vigorar nos serviços dependentes do Ministério dos Assuntos Sociais, que assume “a natureza especial das atividades profissionais do pessoal técnico auxiliar dos serviços complementares de diagnóstico e terapêutica que o distingue no conjunto em que se enquadra (…)

Pela primeira vez é desenhada uma carreira que engloba 13 perfis profissionais diferentes das hoje denominadas tecnologias da saúde não abrangidas pelo Decreto-Lei nº 414/71 (Decreto Regulamentar nº 87/77, de 30 de Dezembro), com a terminologia de diagnóstico e terapêutica

Mantém as funções de caráter auxiliar

São definidas 4 categorias e os critérios de ingresso e acesso a cada categoria Técnico auxiliar de 2ª classe

Técnico auxiliar de 1ª classe Técnico auxiliar Principal Técnico Coordenador

Este diploma contempla a necessidade de implementar um curso especial complementar de administração e ensino, destinando-se ao exercício de funções administrativas hospitalares e ao ensino (artº 3º), condição para acesso à categoria de Técnico Coordenador e anuncia a realização de cursos de promoção para pessoal em exercício de funções e sem habilitação profissional.

As alterações ocorridas na área da tecnologia médica e em especial no domínio do diagnóstico e terapêutica tornou desajustado o ensino pelo que em 1982 são criadas as escolas técnicas dos serviços de saúde de Lisboa, Porto e Coimbra e os cursos passam a ter a duração de 3 anos, após o 12º ano de escolaridade.

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Esta situação pressupõe cursos de bacharelato a que correspondem funções de nível técnico e, por isso o caráter auxiliar da carreira torna-se desajustado. Deste modo, é criada a carreira de Técnico de Diagnóstico e Terapêutica, através do Decreto-Lei nº 384-B/85, de 30 de Setembro.

Carreira de Técnico de Diagnóstico e Terapêutica 1985

Este diploma reforça a identidade e especificidade dos profissionais e no qual se destaca:

a) A alteração da designação da carreira de Técnico auxiliar dos serviços complementares de Diagnóstico e Terapêutica para Carreira de Técnico de Diagnóstico e Terapêutica (TDT), sendo equiparada à carreira técnica do regime geral, destinada a bacharéis;

b) A alteração da designação dos profissionais, deixando cair ao vocábulo auxiliar;

c) A definição do enquadramento profissional com a seguinte redação: o TDT actua integrado numa equipa de saúde, enquadrada e sob prescrição do respectivo elemento médico ou técnico superior (artº 4º, nº 1). No contexto das suas funções o TDT actua em conformidade com o pré-diagnóstico, o diagnóstico e a prescrição terapêutica efectuados pelo elemento médico ou técnico superior da sua equipa de saúde, devendo para o efeito programar, executar e avaliar as técnicas adequadas e comunicar os resultados aos restantes elementos da mesma equipa (artº 4º, nº 2). Poderá, também, integrar órgãos de gestão ou direcção do estabelecimento ou organismo a que pertença, nos termos da legislação aplicável e participar na gestão das Escolas Técnicas dos Serviços de Saúde e no ensino nelas ministrado (artº 4º, nº 3);

d) A definição de 5 categorias profissionais. A carreira passa a ter a seguinte configuração: Técnico de 2ª classe, Técnico de 1ª classe, Técnico Principal, Técnico Especialista e Técnico Especialista de 1ª classe. Para estas

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duas categorias também é exigida a posse de um Curso Complementar de Ensino e Administração (CCEA) e A possibilidade de nomeação do Técnico Diretor, com as inerentes funções de chefia;

e) A definição dos conteúdos funcionais por profissão e competências técnicas por categoria;

Destaco as competências de gestão da categoria de topo e, no âmbito do ensino a colaboração, como Monitor, nos cursos de formação, promoção e aperfeiçoamento profissional ministrados nas ETSS.

f) A participação na condução dos concursos para ingresso e acesso na carreira;

h) A autonomia na classificação de serviço; Pela primeira vez é publicado o Regulamento do processo de classificação de serviço, que constitui um fator importante na progressão na carreira.

Reestruturação da Carreira de Técnico de Diagnóstico e Terapêutica - 1999

Para além da evolução científica e tecnológica e do desenvolvimento de práticas inovadoras no campo da saúde, assistiu-se em 1993 à integração do ensino no sistema educativo nacional, ao nível do ensino superior politécnico e as escolas além de poderem conceder, numa primeira fase o grau de bacharel e mais tarde o grau de licenciado, podem também conceder equivalências.

Mais uma vez, as mudanças verificadas no ensino criaram a necessidade de rever o estatuto da carreira, o que se verificou através do Decreto-Lei nº 564/99, de 21 de dezembro e que “melhor evidencie o papel dos profissionais no sistema de saúde, como agentes indispensáveis para a melhoria da qualidade e eficácia da prestação de cuidados de saúde, adotando uma escala salarial adequada aos níveis de formação anteriormente consagrados e a um

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desempenho profissional que releva de crescente complexidade e responsabilidade” (preâmbulo)

Também se assume, no mesmo preâmbulo, a necessidade de uma reestruturação mais aprofundada que compatibilize o respetivo exercício com o processo de reforma do ensino em curso.

Este novo estatuto apresenta os seguintes aspetos inovadores:

1. Redação melhorada da natureza das funções: onde aparecem os termos conceber, planear e uma mudança clara em termos de autonomia técnica e responsabilidade profissional.

2. A definição das competências de direção – Técnico Diretor

Para exercer as funções de Técnico Diretor é necessária a posse do grau de licenciado ou seu equivalente legal, através de um diploma de estudos pós-graduados em Gestão ou Administração Pública ou de um curso de Estudos Superiores Especializados em Ensino e Administração, de modo a proporcionar competências específicas para desempenhar as funções inerentes à liderança de forma mais eficaz, eficiente e adaptativa.

3. A definição das funções de coordenação – Técnico Coordenador e Técnico Subcoordenador.

4. A criação de um Conselho Técnico nos serviços e estabelecimentos com, pelo menos, duas profissões das tecnologias da saúde a que cabe: promover a articulação das atividades dos respetivos setores e ainda emitir pareceres sobre matérias relacionadas com o exercício profissional no âmbito das atividades de diagnóstico e terapêutica.

5. A clarificação da avaliação do desempenho.

6. A alteração e autonomia dos concursos públicos. O júri dos concursos é constituído unicamente por pessoal da carreira e da profissão a que respeitem os lugares a preencher. (artº 40º)

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Este Diploma Legislativo ainda está em vigor mas encontra-se desvalorizado ou mesmo esquecido pois a contratação de recursos humanos está focalizada para contratos individuais de trabalho, o que facilita a desintegração ou mesmo a desmotivação do grupo profissional.

Para concluir apresento o diagrama que resume a transformação que se verificou nas carreiras das Tecnologias da saúde ao longo do século.

Atualmente ainda se encontra em vigor a carreira publicada em 1999 apesar de ser ainda insipiente e não acompanhar a transformação do ensino e de que resultou a valorização científica e académica dos profissionais.

Termino com as palavras sábias do nosso prémio Nobel da literatura José Saramago quando refere: “Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos e sem responsabilidade talvez não mereçamos existir”

Referências

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