1 de 12 Excelentíssimo Senhor Presidente
Desembargador WILSON FERNANDES
Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região
São Paulo - SP
Ref.: Ofício nº 484/2016-TRT2/SGP/CLP/SPADM
Assunto: Servidor Público Civil | Sistema Remuneratório e Benefícios | Descontos Indevidos (10296)1
Ementa: Constitucional e Administrativo. Servidores Públicos. Greve. Manutenção do pagamento da indenização de transporte. Princípio da continuidade dos serviços públicos. Possibilidade de compensação. Negociação dos dias paralisados. Portaria Corpo Direito nº 1/2016 e Portaria Corpo Direito nº 2/2016. Serviços considerados compensados. Ausência de afronta à Tese de Repercussão Geral nº 531 do STF. Enriquecimento ilícito.
ASSOCIAÇÃO DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA
AVALIADORES FEDERAIS DA JUSTIÇA DO TRABALHO DA 2ª REGIÃO – AOJUSTRA, já qualificada nos autos do processo em epígrafe, em face de
decisão proferida em 07/12/2016, da qual teve ciência em 13 de janeiro de 2017, com suporte nos artigos 56, 59 e 66 da Lei 9.784/19992, 107 e 108 da Lei
8.112/19903 e no Regimento Interno 4 do TRT-2, tempestivamente, interpõe
RECURSO ADMINISTRATIVO, nos termos das razões inclusas.
São Paulo, 26 de janeiro de 2017.
Thiago Duarte Gonçalves
Vice-Presidente da Aojustra
1 De acordo com as Tabelas Processuais Unificadas do Poder Judiciário, expedidas pelo Conselho
Nacional de Justiça.
2 Lei 9.784, de 1999: “Art. 56. Das decisões administrativas cabe recurso, em face de razões de
legalidade e de mérito. § 1º O recurso será dirigido à autoridade que proferiu a decisão, a qual, se não a reconsiderar no prazo de cinco dias, o encaminhará à autoridade superior. [...] Art. 59. Salvo disposição legal específica, é de dez dias o prazo para interposição de recurso administrativo, contado a partir da ciência ou divulgação oficial da decisão recorrida.
§ 1º Quando a lei não fixar prazo diferente, o recurso administrativo deverá ser decidido no prazo máximo de trinta dias, a partir do recebimento dos autos pelo órgão competente.”
3 Lei 8.112/1990: “Art. 107. Caberá recurso: I - do indeferimento do pedido de reconsideração;” 4 Regimento Interno do TRT-2: “Art. 61. Compete ao Órgão Especial: [...] V - julgar os recursos de
decisões do Presidente do Tribunal sobre postulações dos servidores em matéria administrativa e de Magistrados, das quais não caiba recurso específico;”
2 de 12 Excelentíssimos Senhores Desembargadores do Órgão Especial
Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região
São Paulo - SP
Ref.: Ofício nº 484/2016-TRT2/SGP/CLP/SPADM
Recorrente: AOJUSTRA
Ato recorrido: Decisão da Presidência do TRT-2
Assunto: Servidor Público Civil | Sistema Remuneratório e de Benefícios | Descontos Indevidos (10296)5
Ementa: Constitucional e Administrativo. Servidores Públicos. Greve. Manutenção do pagamento da indenização de transporte. Princípio da continuidade dos serviços públicos. Possibilidade de compensação. Negociação dos dias paralisados. Portaria Corpo Direito nº 1/2016 e Portaria Corpo Direito nº 2/2016. Serviços considerados compensados. Ausência de afronta à Tese de Repercussão Geral nº 531 do STF. Enriquecimento ilícito.
Excelências,
A decisão recorrida merece ser reformada, pois não se conforma com a melhor solução prevista em Direito, notadamente porque não respeitou o caráter alimentar da remuneração dos grevistas, desconsiderou que houve a efetiva
compensação dos serviços represados e contrariou recente entendimento fixado
pelo STF, conforme se passa a discutir.
1. SÍNTESE DO PROCESSO E DA DECISÃO RECORRIDA
O requerente congrega oficiais de justiça vinculados à Justiça do Trabalho da 2ª Região e agiu em favor daqueles substituídos no requerimento administrativo indeferido pela decisão recorrida, postulando a manutenção do pagamento da indenização de transporte enquanto perdurasse o movimento paredista, visto se tratar de parcela que foi objeto de compensação após o término da greve.
Foi proferido parecer da Coordenadoria de Gestão de Pessoas, posteriormente ratificado pelo Diretor da Secretaria de Gestão de Pessoas, seguido de endosso da Diretoria-Geral da Administração, no sentido de que, em razão de
5 De acordo com as Tabelas Processuais Unificadas do Poder Judiciário, expedidas pelo Conselho
3 de 12 normas do CSJT e do TRT-2, não seria possível o pagamento de indenização de transporte nos dias em que o Oficial de Justiça não tenha realizado serviço externo.
A despeito da juntada de precedentes administrativos que deveriam nortear o deferimento do pedido formulado, a Presidência deste Tribunal, utilizando-se de entendimento exposto pela Secretaria de Gestão de Pessoas, indeferiu o pagamento de indenização de transporte relativa aos dias em que os associados aderiram ao movimento grevista.
Após a interposição de pedido de reconsideração, sobreveio nova decisão da Presidência, recebendo e indeferindo o pedido, com base no Parecer nº 1305/2016, da Coordenadoria de Legislação de Pessoal do TRT-2, o qual, por sua vez, se baseou na tese de Repercussão Geral nº 531 do Supremo Tribunal Federal. Cabe transcrever alguns trechos do parecer:
1. Trata-se recurso administrativo formulado pela Associação dos Oficiais de Justiça Avaliadores Federais da Justiça do Trabalho da 2ª Região – AOJUSTRA pleiteando, em favor dos Oficiais de Justiça deste Regional a reforma da decisão deste Regional que indeferiu o pagamento de indenização de transporte relativas aos dias em que os Oficiais de Justiça aderiram ao movimento paredista.
[...]
9. Desta forma, a Resolução nº 11/2005 do Conselho Superior da Justiça do Trabalho, citada pelo Parecer nº 373/2016/CLP.SAEL é clara ao afirmar em seu art. 2º que só caberá a indenização pleiteada no caso de efetivo serviço externo realizado, in verbis:
Art. 2º - Somente fará jus à indenização de transporte no seu valor integral o servidor que, no mês, haja efetivamente realizado serviço externo durante, pelo menos, vinte dias.
[...]
11. Ressalta-se, ainda, que o raciocínio acima exposto está em consonância com o entendimento recentemente firmado pelo Supremo Tribunal Federal sobre corte da remuneração dos servidores grevistas. No julgamento do tema, o STF assim se manifestou:
“O Tribunal Pleno, por maioria, em decisão proferida no julgamento de recurso extraordinário, repercussão geral reconhecida, entendeu ser constitucional o desconto no vencimento dos servidores públicos dos dias parados por adesão à greve, exceto se houver acordo de compensação ou se o movimento paredista tiver sido deflagrado por conduta ilícita do Poder Público [...]”
12. Da análise do julgado acima, fica claro que a Tese 531 adotada pelo Supremo Tribunal Federal determina o dever da Administração Pública de proceder ao desconto dos dias de paralisação decorrentes do exercício do direito de greve pelos servidores.
13. Destarte, sugerimos o indeferimento do presente pedido de reconsideração, pois não cabe a este Regional dispor contrariamente a dispositivo normativo
4 de 12 vinculante expedido pelo Conselho Superior da Justiça do Trabalho, bem como diante da Tese 531 firmada pelo Supremo Tribunal Federal acerca do dever da Administração Pública descontar os dias de paralisação em decorrência do exercício do direito de greve pelos servidores públicos.
Assim, como referido, pautou-se a Presidência desta Corte no equivocado Parecer nº 1305/2016, culminando na decisão ora combatida:
Nos termos do art. 50, § 1º, da Lei nº 9.784/1999, adoto como razões de decidir o contido no Parecer elaborado pela Secretaria de Gestão de Pessoas para receber o presente recurso como pedido de reconsideração e indeferi-lo por violação direta ao art. 2º, da Resolução nº 11/2005, do Conselho Superior da Justiça do Trabalho, bem como diante da Tese de Repercussão Geral nº 531 do Supremo Tribunal Federal a qual determina o dever da Administração Pública de descontar os dias de paralisação em decorrência do exercício do direito de greve pelos servidores públicos.
Ocorre que, conforme será analisado a seguir, não merece prosperar o entendimento supratranscrito, pois, além de o serviço já ter sido considerado
compensado pela Portaria Corpo Diretivo nº 2/2016 e pelas chefias dos oficiais de justiça, o pagamento da indenização de transporte está em consonância com o entendimento fixado pelo STF e o artigo 2º da Resolução CSJT nº 11/2005, ao
contrário do posicionamento insculpido na decisão guerreada.
Por isso, devem ser pagos aos Oficiais de Justiça os valores a título de indenização de transporte, referentes aos dias em que aderiram ao movimento paredista e efetivamente compensaram o serviço represado.
2. RAZÕES RECURSAIS
2.1 – DA EFETIVA COMPENSAÇÃO E O PRINCÍPIO DA CONTINUIDADE. A recorrente pretende a modificação da decisão combatida para fins de possibilitar o pagamento da indenização de transporte relativa aos dias em que os substituídos participaram do movimento grevista, não merecendo prosperar o entendimento fixado na decisão vergastada, dado que, de fato, houve a compensação dos serviços represados.
Embora possa parecer, em um primeiro momento, não haver motivos para que se pagasse a indenização de transporte aos oficiais de justiça que aderiram ao movimento grevista, porquanto não se encontravam em atividade, impõe-se a observância do fato de que tal verba, que busca reparar os gastos dos oficiais no cumprimento das diligências com veículo próprio, é comumente paga à categoria, tendo seu suporte legal na Lei 8.112/1990:
5 de 12 Art. 60. Conceder-se-á indenização de transporte ao servidor que realizar
despesas com a utilização de meio próprio de locomoção para a execução de serviços externos, por força das atribuições próprias do cargo, conforme se dispuser em regulamento.
Vê-se, portanto, que tal indenização é praticamente inerente ao exercício do cargo de oficial de justiça, pelo fato de que a prática comum da Administração é o pagamento da indenização de transporte, em detrimento do fornecimento de veículo aos oficiais de justiça. Assim, as ordens judiciais são cumpridas mediante a utilização do veículo do próprio servidor, que arca com as despesas ordinárias de seu meio de transporte.
Nesse diapasão, resta evidente que, embora se possa pensar que não é devida a indenização de transporte enquanto os oficiais de justiça permanecem em greve, pois evidente que não estão a utilizar seus veículos próprios, em razão do
princípio da continuidade do serviço público, deve ser pago, inclusive durante o
movimento paredista, o valor da indenização, porquanto, ao final, deve haver a
compensação dos serviços acumulados, sob pena de restarem configurados graves
danos aos administrados.
Com efeito, em que pese aparentar haver discricionariedade sobre a compensação, a realidade do serviço público demanda algumas outras atenções em razão da finalidade da atividade administrativa e dos efeitos multilaterais que caracterizam a greve nesse setor, vez que, além dos servidores e da Administração Pública, a sociedade é diretamente afetada com as paralisações.
Logo, não pode o administrado sofrer com a legítima suspensão
coletiva dos serviços públicos, pois o seu direito à prestação pública não se perde com o movimento paredista, e aí reside a diferença do sentido que o artigo 7º da Lei 7.783/1989, tem para a iniciativa privada e para o poder público,
porque o risco da atividade econômica já impôs um ônus insuperável ao empregador, que é a perda de mercado, sendo que às vezes não há motivo para a compensação dos dias paralisados.
A única forma, portanto, de conciliar a legitima defesa coletiva dos servidores exercida através da greve com a continuidade e efetividade da prestação pública esperada pelos administrados é a compensação dos serviços paralisados, com a consequente preservação dos direitos do servidor relativos ao período.
Os serviços paralisados em face da greve acumulam-se durante o período paredista, carecendo de reposição as rotinas de trabalho atrasadas. É o que
se verificou na greve dos Oficiais de Justiça vinculados à Justiça do Trabalho da 2ª Região, visto que carecem de cumprimento as ordens judiciais acumuladas,
6 de 12 necessárias.
Em razão disso, respeitando o princípio da continuidade do
serviço público, a Administração do TRT da 2ª Região, através da Portaria Corpo Diretivo nº 4/2015, possibilitou a compensação do serviço represado durante o
movimento paredista:
Dispõe sobre a compensação das ausências dos servidores durante o movimento grevista deflagrado a partir de junho de 2015, no âmbito do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, e define os critérios a serem observados.
Art. 1° Os critérios a serem observados, no âmbito do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, para a compensação das ausências dos servidores em decorrência da adesão ao movimento grevista deflagrado durante o período compreendido entre 10 de junho e 11 de setembro de 2015 obedecerá ao disposto nesta Portaria.
[...]
Art. 5° A compensação dos dias não trabalhados, na forma estabelecida nesta Portaria, deverá ocorrer até 30 de junho de 2016.
Parágrafo único. O descumprimento do prazo fixado no caput importará o desconto, proporcional ao período remanescente, sobre a remuneração do servidor
Depois, alterando o plano de compensação previamente estabelecido, a Portaria Corpo Diretivo nº 1/2016 (anexa) alterou sua antecessora, fixando novo prazo para compensação dos dias não laborados em virtude do movimento grevista, com prazo de término previsto para 30 de abril do corrente
ano:
Art. 1º O artigo 5º da Portaria Corpo Diretivo Nº 04, de 19 de novembro de 2015, passa a vigorar com a seguinte redação:
Art. 5º A compensação dos dias não trabalhados, na forma estabelecida nesta Portaria, deverá ocorrer até 30 de abril de 2017.
Ocorre que, antes mesmo de 30 de abril de 2017, sobreveio a Portaria CORPO DIRETIVO nº 2/2016 (anexa), após a Corregedoria-Regional ter verificado que o serviço atrasado por conta da greve já havia sido devidamente regularizado, considerou compensado o trabalho referente ao período da paralisação:
Dispõe sobre a compensação do trabalho relativo à paralisação de servidores no período de que especifica.
7 de 12 REGIÃO, no uso de suas atribuições legais e regimentais,
CONSIDERANDO os termos das Portarias Corpo Diretivo nºs 04/2015, de 19 de novembro de 2015 e 01/2016 de 30 de junho de 2016, que tratam da compensação do serviço em atraso em decorrência de greve dos servidores; CONSIDERANDO que a Corregedoria-Regional, por ocasião das correições ordinárias, verificou que o serviço que atrasara em razão do movimento paredista já se encontra regularizado;
CONSIDERANDO o princípio constitucional da eficiência, consagrado pelo artigo 37, da Constituição da República,
RESOLVEM:
Art. 1º Considera-se compensado o trabalho relativo ao período de paralisação dos servidores, a que aludem as Portarias Corpo Diretivo nºs 04/2015, de 19 de novembro de 2015 e 01/2016 de 30 de junho de 2016. Art. 2º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário. [grifou-se]
Ou seja, não há mais trabalho em atraso a ser compensado na
Justiça do Trabalho da 2ª Região, conforme constatação da própria Corregedora e chancela dos demais membros do Corpo Diretivo. Deve-se,
assim, ser reformada a decisão que indeferiu o pagamento de indenização de transporte.
2.2 DA PROIBIÇÃO LEGAL DO LOCKOUT
Caso prevaleça o entendimento da decisão recorrida, qual seja, o não pagamento da indenização de transporte do período de greve, não havendo meios para execução do trabalho na rua do oficialato, incidir-se-á no artigo 17 da
Lei 7.783, de 19896! Tal aplicabilidade à greve de servidores públicos foi admitida
pela Suprema Corte, vedando este agir da Administração Pública, pois se, de qualquer modo, a estagnação das atividades decorre de ato do empregador, está-se diante de lockout veementemente repudiado pelo ordenamento jurídico, pátrio e universal: é que os únicos protagonistas legitimados à paralisação das
atividades públicas são os servidores, e não a Administração.
É esse o sentido conferido pelo Supremo Tribunal Federal quando admitiu aplicar o artigo 17 da Lei de Greve ao serviço público, pois afirmou, em
6 Lei 7.783: Art. 17. Fica vedada a paralisação das atividades, por iniciativa do empregador, com
o objetivo de frustrar negociação ou dificultar o atendimento de reivindicações dos respectivos empregados (lockout).
8 de 12 semelhantes termos, que tanto os servidores quanto a administração devem comungar dos meios necessários à conciliação da greve com a continuidade do serviço público, e por isso, não se pode impedir a oportunização da compensação das atividades paralisadas, porquanto violará o direito dos administrados à tempestividade e celeridade do serviço público.
2.3 O PAGAMENTO DA INDENIZAÇÃO DE TRANSPORTE DO PERÍODO DE GREVE NÃO AFRONTA A DECISÃO DO STF.
A decisão vergastada não reconheceu o direito dos Oficiais de Justiça à indenização de transporte referente aos dias que foram compensados. Para tanto, utilizou-se do entendimento exposto pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do Recurso Extraordinário nº 693456, no qual ficou fixada a seguinte tese de repercussão geral (Tema 531):
A administração pública deve proceder ao desconto dos dias de paralisação decorrentes do exercício do direito de greve pelos servidores públicos, em virtude da suspensão do vínculo funcional que dela decorre, permitida a
compensação em caso de acordo. O desconto será, contudo, incabível se ficar
demonstrado que a greve foi provocada por conduta ilícita do Poder Público.
[grifou-se]
Ora, apesar do espanto dos trabalhadores do judiciário e do serviço público de uma maneira geral com tal decisão que permite solapar verba de caráter alimentar, mitigando o direito de greve, haja vista inexistir dissídio coletivo de caráter econômico, convenção ou acordo coletivos no serviço público, além de afrontar a Lei 8.112/90 e princípios constitucionais, o caso em tela não afronta tal
decisão!
Como se vê, a tese acima exposta permite o desconto dos dias de paralisação decorrentes do exercício do direito de greve pelos servidores públicos, no entanto, ressalva a possibilidade de compensação. Em outros termos, havendo a efetiva compensação (o que é o caso em tela, conforme constatou a própria
Corregedora), não há que se falar em descontos.
Caso este não seja entendimento, é público e notório que o efeito da decisão do STF é ex nunc, não prejudicando direito do oficialato ora reivindicado.
Outrossim, convém repisar precedente já juntado nesses autos. Trata-se do termo de compromisso firmado entre o Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no Rio Grande do Sul – Sintrajufe/RS e o TRT-4, no qual ficou
estabelecido o pagamento da indenização de transporte eventualmente suspenso em virtude da greve:
9 de 12 a média mensal de mandados cumpridos, será efetuado o pagamento de indenização de transporte dos oficiais de justiça, eventualmente suspenso por conta da adesão à greve. [grifou-se]
Diante do exposto, é devido o pagamento da indenização de transporte pleiteada no requerimento exordial, haja vista ter havido a efetiva compensação, tudo de acordo com a decisão do STF de repercussão geral.
2.4 – OFENSA AO PRINCÍPIO DA IGUALDADE.
Os oficiais de justiça não podem se tratados diferente dos demais servidores deste Tribunal.
Aqui, cabe frisar: o oficial de justiça da 2ª região, a permanecer tal entendimento acima, será o ÚNICO segmento da categoria “trabalhadores do judiciário da 2ª região” que exerceu o legítimo direito a greve em 2015 e foi penalizado, ofendendo o princípio da igualdade insculpido no artigo 5º da Carta Magna!
Nenhum outro servidor, que não oficial, teve desconto na sua remuneração, contrariando o artigo 45 da Lei 8.112/90: “art. 45. Salvo por
imposição legal, ou mandado judicial, nenhum desconto incidirá sobre a remuneração ou provento.”.
Todavia, entendeu a Presidência do TRT-2 que o pagamento da indenização de transporte relativa aos dias de greve aos Oficiais de Justiça esbarraria na tese fixada pelo STF, no entanto, como visto, o que ocorreu é
exatamente o contrário: houve a devida compensação, razão pela qual deve ser
adimplida a indenização de transporte do período,
sob pena de enriquecimento
ilícito da Administração e ofensa ao princípio da igualdade.
2.5 – DO ENRIQUECIMENTO ILÍCITO – ART. 884 DO CC.
Com efeito, o não pagamento da indenização devida aos Oficiais de Justiça gera para a Administração do TRT-2 um locupletamento ilícito às expensas da perda sofrida pelos servidores.
Para casos assim, e de acordo com o posicionamento consolidado na doutrina e na jurisprudência, o legislador pátrio teve por bem inserir no atual Código Civil artigo específico sobre a matéria, com a determinação de obrigatoriedade de restituição dos valores indevidamente auferidos, com a devida atualização, nos seguintes termos:
10 de 12
Art. 884. Aquele que, sem justa causa, se enriquecer à custa de outrem, será obrigado a restituir o indevidamente auferido, feita a atualização dos valores monetários.
A premissa é evidente: as diligências a cargo dos substituídos deveriam ser inevitavelmente cumpridas após o período. No entanto, a indenização de transporte é calculada de acordo com uma jornada ordinária, ao passo em que a jornada pós-greve é, por óbvio, acumulada, razão pela qual o pagamento da verba durante a suspensão das atividades não é benesse administrativa, mas sim a correta indenização pelos gastos acumulados que esses servidores terão consequentemente. Mais razão ainda há quando o serviço já foi compensado,
como se afigura no presente caso.
Soma-se a isso, o RECENTÍSSIMO acórdão da Justiça Federal de São Paulo, que reconheceu aos oficiais de justiça o direito à manutenção do pagamento da indenização de transporte durante o período de greve:
“DJF - 3ª Região
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017 Arquivo: 334 Publicação: 32
TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 3ª REGIÃO PUBLICAÇÕES JUDICIAIS I ? TRF
SUBSECRETARIA DA 11ª TURMA
00018 APELAÇÃO CÍVEL Nº 0001428-45.2011.4.03.6100/SP 2011.61.00.001428-9/SP RELATORA : Juíza Federal em Auxílio NOEMI MARTINS APELANTE : SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIARIO FEDERAL NO ESTADO DE SAO PAULO SINTRAJUD ADVOGADO : SP207804 CESAR RODOLFO SASSO LIGNELLI e outro(a) APELADO(A) : Uniao Federal ADVOGADO : SP000019 LUIZ CARLOS DE FREITAS No. ORIG. : 00014284520114036100 1 Vr SAO PAULO/SP EMENTA SERVIDOR PÚBLICO. GREVE. OFICIAL DE JUSTIÇA AVALIADOR FEDERAL. COMPENSAÇÃO DOS DIAS PARADOS.
INDENIZAÇÃO DE TRANSPORTE. PRINCÍPIO DA
PROPORCIONALIDADE. VEDAÇÃO AO ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA DA UNIÃO. - Em face do disposto no artigo 14 da Lei n. 13.105/2015, aplica-se a esse processo o CPC/73; - Não se confundem as faltas decorrentes do movimento grevista, com simples faltas injustificadas. No entanto, por força da lei que ora rege a greve no serviço público, não há direito subjetivo ao pagamento dos dias de paralisação. Não obstante, havendo acordo de compensação, será devida a remuneração dos dias parados. Precedentes do STF; - Na hipótese ora em análise, foram baixadas duas Portarias pelo Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (Portaria GP 2/2006, posteriormente substituída pela Portaria GP 40/2006), que autorizaram a compensação pelos servidores dos dias de paralisação, que se deu, no caso dos oficiais de justiça, com o aumento proporcional no número de mandados; - O pagamento da indenização de transporte é devido, por força
11 de 12 dos princípios da razoabilidade e da vedação ao enriquecimento sem causa da Administração, haja vista que foram executados todos os mandados referentes aos dias de paralisação e, consequentemente, houve o aumento da despesa com o meio de transporte por parte dos substituídos, justamente na proporção do que teriam gasto, caso trabalhassem no período da greve; - Apelação provida. ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, decide a Egrégia Décima Primeira Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, por unanimidade, dar provimento à apelação, nos termos do relatório e voto que ficam fazendo parte integrante do presente julgado. São Paulo, 13 de dezembro de 2016. NOEMI MARTINS Juíza Federal em Auxílio”
Desse modo, não há qualquer afronta ao artigo 2º da Resolução CSJT nº 11/20057, tendo em vista que o trabalho foi compensado e houve efetivo
trabalho, à luz da Portaria Corpo Diretivo n
º 2/2016
.Ainda que assim não fosse, uma resolução não tem força normativa acima da Lei (art. 884 do Código Civil) e da Constituição (artigo 5º), além de não poder contrariar decisão do STF de repercussão geral (Tese 531). Ora, se considerarmos, apenas para debate, que há um conflito entre uma resolução e o
Código Civil (art. 884), não se pode duvidar que prevalece o segundo, uma vez que
este pressupõe processo legislativo de elaboração, estando em consonância com o caráter dogmático de observância ao princípio da legalidade estatuído na Carta Magna de 1988.
Portanto, não há qualquer afronta à tese fixada pelo STF quando do julgamento do Tema nº 531, tampouco ao art. 2º da Resolução CSTJ nº 11/2005, pois é incontroversa a efetiva compensação do serviço (ou seja, “efetivo serviço externo”) represado durante o último movimento grevista realizado pelos Oficiais de Justiça.
Por tais razões, deve ser paga a indenização de transporte relativa aos dias compensados pelos servidores, sob pena de enriquecimento ilícito da Administração.
3. PEDIDOS RECURSAIS
7 Resolução CSJT nº 11/2005: “Art. 2º - Somente fará jus à indenização de transporte no seu valor
integral o servidor que, no mês, haja efetivamente realizado serviço externo durante, pelo menos, vinte dias. Parágrafo único - Ao servidor que, no mês, executar serviço externo em número de dias inferior ao previsto no caput deste artigo, a indenização de transporte será devida à razão de 1/20 (um vinte avos) do seu valor integral por dia de efetiva realização desse serviço.”
12 de 12
Ante o exposto, requer o conhecimento e o provimento do presente
recurso para reformar a decisão recorrida, a fim de que sejam pagos aos substituídos os valores de indenização de transporte relativa aos dias em que participaram do movimento grevista de 2015, cumulativamente com a indenização de transporte paga pela jornada ordinária, tendo em vista a compensação efetivamente realizada.
São Paulo, 26 de janeiro de 2017.
Thiago Duarte Gonçalves