JOSÉ LUIS DE JESUS
EVOLUÇÃO DO DIREITO AMBIENTAL:
A RESPONSABILIDADE DO GERADOR DE RESÍDUOS
Araranguá
2011
EVOLUÇÃO DO DIREITO AMBIENTAL:
A RESPONSABILIDADE DO GERADOR DE RESÍDUOS
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Direito.
Orientador: Prof. Rejane Da Silva Johansson, Esp.
Araranguá
2011
JOSÉ LUIS DE JESUS
EVOLUÇÃO DO DIREITO AMBIENTAL:
A RESPONSABILIDADE DO GERADOR DE RESÍDUOS
Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de Bacharel em Direito e aprovado em sua forma final pelo Curso de Graduação em Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina.
Araranguá, 05 de dezembro de 2011
______________________________________________________
Prof. e orientadora Rejane Da Silva Johansson, Esp.
Universidade do Sul de Santa Catarina
______________________________________________________
Prof. Fatima Hassan Caldeira, Msc.
Universidade do Sul de Santa Catarina
______________________________________________________
Prof. Enoir Noemia Alexandrino, Esp.
A todos os amigos, colegas, e familiares que
estiveram sempre ao meu lado, auxiliando e
incentivando, para que fosse possível realizar
este trabalho.
AGRADECIMENTOS
Agradeço aos meus pais que me apoiaram e incentivaram para que eu pudesse
trilhar caminhos diferentes daqueles trilhados por eles, baseados no estudo, no conhecimento
e no desenvolvimento.
Agradeço a todos os professores que compartilharam comigo seus conhecimentos,
em especial a minha orientadora, Rejane Da Silva Johansson, por sua competência e
orientação, além de sua paciência e dedicação, durante o desenvolvimento do presente, a
professora Fátima Hassan Caldeira, o professor Adriano Caldeira e o colega Fernando
Niehues.
Agradeço acima de tudo a Deus por ter me dado força e perseverança para
concluir esse caminho.
“A teoria também se converte em graça material uma vez que se apossa dos homens.” (Karl
Marx).
RESUMO
O presente trabalho foi desenvolvido na área do Direito Ambiental, cujo cunho legal abrange
a esfera de direitos e obrigações individuais, considerando-se que a natureza é direito de cada
um dos indivíduos, além do cunho indivisível, pois o bem tutelado pertence a todos, sem que
possa ser definido como posse de um único dono. A defesa do meio ambiente, as
preocupações com sua preservação e o próprio Direito Ambiental são abordagens recentes em
nosso país, com base em crenças antigas de que o homem seria possuidor do meio e sobre ele
poderia exercer utilização e uso dentro de suas necessidades. Com o advento dos Códigos
Florestais, da Constituição Federal e das demais leis ambientais, o meio ambiente passa a ser
visto como direito da população, porém não como posse. Por meio ambiente classifica-se todo
conjunto de recursos que fazem parte da vida e contribuem para a qualidade de vida da pessoa
humana, a citar os recursos hídricos, fauna, flora, ar, solo, etc. O presente demonstrou que a
criação de legislação ambiental específica permite ao Estado imputar sanções administrativas,
civis e penais aos infratores, seja pessoa física ou jurídica. A pesquisa realizada para a
obtenção dos dados necessários foi de caráter explicativo exploratório, de cunho bibliográfico,
aproximando o pesquisador da teoria e da prática que envolvem o Direito Ambiental. Os
resultados obtidos foram a maior compreensão do conjunto de leis que regem o meio
ambiente enquanto patrimônio individual e social, a importância das leis para a garantia do
direito constitucional à vida da pessoa humana, as características dos delitos passíveis de
sanções e as formas de aplicação das mesmas, além da compreensão da responsabilidade do
gerador de resíduos perante a lei e a sociedade. Ao gerador de resíduos serão aplicadas as
sanções cabíveis e, em caso de uso de má-fé através de suas atividades, este será levado a
extinguir suas atividades, demonstrando que a lei não caracteriza apenas um conjunto de
medidas teóricas, mas uma ferramenta de ordenamento e responsabilidade social.
Palavras-chave: Gerador de resíduos. Direito Ambiental. Meio ambiente. Legislação
brasileira.
ABSTRACT
The present work was developed in the environmental law area, whose legal matrix encloses
the individual sphere of rights and obligations, considering that the nature is a right of each
one of the individuals, beyond the indivisible matrix, because the tutored object belongs to
everyone, being not possible its definition as ownership of one individual.
The defense of the environment, the concerns with its preservation and the environmental law
itself are recent approaches in our country, based on old beliefs that man would posses the
environment and they could use it to accomplish their needs. With the advent of the Forest
Codes, of the Federal Constitution and the environmental laws, the environment gets to be
seen as a right of the population, not as ownership. As environment, it is characterized as the
resources that take part of life and contribute for the human being life quality, as water
resources, fauna, flora, air, ground, etc. The present work showed that the creation of specific
environmental legislation allows the State to impute administrative, civil and criminal
sanctions to the infractors, being them people or company. The research done for the
attainment of the necessary data was of exploratory research, approaching the researcher of
the theory and the practical views that involve the environmental law. The results obtained
through the present work were the best understanding of the set of laws that conduct the
environment while an individual and social patrimony, the importance of the laws for the
guarantee of the constitutional law to the human being life, the characteristics of damages and
sanctions and the forms of application of the them, beyond the understanding of the waste
generator legal e social responsibility. To the waste generator the possible sanctions will be
applied, in cases of misconduct through its activities, it will be lead to extinguish its activities,
demonstrating that the law does not characterize only a set of theoretical measures, but a tool
of order and social responsibility.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 9
2 DIREITO AMBIENTAL ... 12
2.1 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO DIREITO AMBIENTAL... 14
2.2 MEIO AMBIENTE ... 20
2.3 POLÍTICA NACIONAL DO MEIO AMBIENTE ... 23
2.4 CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE – CONAMA ... 26
2.5 O DIREITO AMBIENTAL EM FACE DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL ... 29
3 RESÍDUOS SÓLIDOS ... 34
3.1 DAS RESPONSABILIDADES DO GERADOR DE RESÍDUOS... 38
3.2 LEI DE CRIMES AMBIENTAIS ... 48
3.3 TERMO DE AJUSTAMENTO DE CONDUTA... 51
4 CONCLUSÃO... 57
REFERÊNCIAS ... 59
ANEXOS ... 65
ANEXO A - LEI Nº 6.938, DE 31 DE AGOSTO DE 1981... 66
1 INTRODUÇÃO
O Direito Ambiental pode ser descrito como direito de terceira geração, já que
transcende os limites da esfera de direitos e obrigações individuais. É um direito indivisível,
cujos titulares são indetermináveis e estão unidos entre si por circunstâncias de fato, e
imaterial, pois tutela bens jurídicos que não podem ser apropriados.
O Direito Ambiental é muito recente no Brasil, demonstrando que até alguns anos,
a legislação não possuía dispositivos legais para julgar crimes e delitos cometidos contra a
natureza.
Leite e Ayala (2010, p. 71) enfatizam o fato de o ordenamento jurídico voltar-se à
questão ambiental somente há alguns anos, assegurando que o Direito Ambiental “é um tema
recente”.
O Código Florestal de 1934 e posteriormente o Código Florestal de 1965
demonstraram a preocupação dos legisladores em estabelecer ações e práticas como
apropriadas e lesivas para a manutenção saudável do meio ambiente, todavia, o respaldo legal
maior à proteção da natureza surgiu em 1988, com o advento da Constituição Federal.
A CF estabelece o direito universal à vida, permitindo interpretar que ações que
degradem a natureza e consequentemente ameacem a vida da pessoa humana, da flora e da
fauna, caracterizam-se como contravenção e estão sujeitas às sanções apropriadas a cada caso.
Como meio ambiente estabelece o legislador “o conjunto de condições, leis,
influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida
em todas as suas formas”. (BRASIL, 2011f).
Nesse sentido, o conjunto das condições e fatores que cercam a pessoa humana,
interferem ou recebem interferência dos indivíduos, são componentes do meio ambiente e,
portanto, são protegidos por lei.
Para obter êxito no intuito de proteger e preservar o meio ambiente é necessário
que exista uma legislação específica, voltada para a fragilidade do bem ambiental, que sirva
de proteção e apoio para o mesmo.
Todavia, a preservação ambiental eficiente depende da existência de leis que
estabeleçam normas e parâmetros de conduta, de modo a guiar ações, práticas e medidas e
estabelecer sanções necessárias.
A Política Nacional do Meio Ambiente, estabelecida através da Lei nº 6.938/81
determinou políticas públicas brasileiras para o meio ambiente.
O presente foi desenvolvido baseado na responsabilidade do gerador de resíduos,
tendo como objetivo primário apurar de que formas o gerador de resíduos pode ser punido por
suas ações lesivas ao meio ambiente.
Percebeu-se, ainda, a importância do termo de ajustamento de conduta como
ferramenta de proteção ambiental e justiça social, por ser este o estabelecimento de prazos
para que o gerador de resíduos ou qualquer dano ao meio ambiente se adeque à legislação.
Para tanto, fez-se necessário buscar conhecimentos sobre o processo evolutivo do
Direito Ambiental, o respaldo oferecido pela CF ao Direito Ambiental, a conceituação legal
do meio ambiente, poluição, danos e geradores de resíduos.
A realização do presente justifica-se pela extrema relevância do Direito Ambiental
dentro do Direito brasileiro, não como tema de maior importância, mas como tema de
existência mais recente e menor conhecimento na sociedade.
Para a seleção e coleta das informações necessárias, procedeu-se de um processo
de pesquisa científica, através da qual o pesquisador buscou encontrar e agrupar as
informações mais relevantes sobre o tema proposto.
A descrição detalhada e rigorosa dos procedimentos de campo ou laboratório utilizados, bem como dos recursos humanos e materiais envolvidos, do universo da pesquisa, dos critérios para seleção da amostra, dos instrumentos de coleta, dos métodos de tratamento dos dados, etc. Também é frequentemente chamada de materiais e métodos. (SANTOS, 2002, p. 37).
Nesse sentido, Gil (2002, p. 17) descreve a pesquisa científica como
“procedimento racional e sistemático que tem como objetivo proporcionar respostas aos
problemas propostos”.
A pesquisa realizada durante a condução do presente trabalho assumiu natureza
descritiva, em outras palavras, o pesquisador buscou encontrar e agrupar o máximo de
conhecimentos possíveis sobre o tema, bem como as abordagens dadas pelos autores da área,
semelhantes ou opostas.
“As pesquisas descritivas são, juntamente com as exploratórias, as que
habitualmente realizam os pesquisadores sociais preocupados com a atuação prática.” (GIL,
2002, p. 42).
O caráter qualitativo da pesquisa deve-se ao fato de que a mesma não recolheu,
agrupou ou formatou dados numéricos, geralmente utilizados quando a intenção é mediar a
ocorrência de fenômenos relacionados à características específicas, como faixa etária, sexo,
nacionalidade, de maior ocorrência de determinado fenômeno ou característica.
A metodologia qualitativa visa analisar e interpretar aspectos mais profundos,
descrevendo a complexidade do comportamento humano. “Fornece análise mais detalhada
sobre as investigações, hábitos, atitudes, tendências de comportamento, etc”. (MARCONI;
LAKATOS, 2007, p. 269).
Ao utilizar tais procedimentos, o pesquisador tem a possibilidade de aproximar
expressivamente do tema proposto para sua pesquisa, podendo assim desenvolver um trabalho
de qualidade que obterá o respaldo desejado na comunidade acadêmica.
Para o pesquisador, a elaboração e desenvolvimento do presente representaram
maior proximidade e familiaridade com o tema, permitindo uma prática mais eficiente da
atividade profissional.
Para a sociedade, o presente oferece a possibilidade de conhecimento do Direito
Ambiental de modo amplo, objetivo e preciso, servindo como base para despertar no leitor a
ânsia por coletar maiores informações sobre o assunto.
2 DIREITO AMBIENTAL
O Direito Ambiental trata-se do ramo do ordenamento jurídico voltado para a
proteção das condições de vida de todos os seres vivos, através da proteção do meio ambiente,
recurso necessário para a manutenção do equilíbrio, da vida e da saúde.
O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado no Brasil, a exemplo de outros países, é apresentado e estruturado como direito fundamental por ser essencial à sadia qualidade de vida; e tem como meta, entre outras, a defesa dos recursos ambientais de uso comum, ou seja, o patrimônio da humanidade, necessário para uma vida digna.
Este direito é portador de uma mensagem de interação entre o ser humano e a natureza para que se estabeleça um pacto de harmonia e de equilíbrio. Ou seja, um novo pacto: homem e natureza. Fixada sua importância, passa a ser reconhecida como fundamental, embora não conste como tal no catálogo destes direitos. (TEIXEIRA, 2006, p. 67).
De acordo com Sampaio (1998), como principal tarefa do Direito Ambiental
pode-se citar o estabelecimento de normas que possam prever e desencorajar condutas
nocivas aos objetivos de proteção e recuperação do meio ambiente, levando a uma
compatibilização entre as atividades cotidianas do homem e o meio em que vive.
O Direito Ambiental trata-se de uma área do conhecimento jurídico desenvolvida
recentemente, com intuito de estudar e compreender as maneiras como o homem interage com
o meio ambiente, além de estabelecer mecanismos legais voltados para proteção desse meio
ambiente.
Leite e Ayala (2010, p. 71), no que se refere ao Direito Ambiental, afirmam que
“a preocupação jurídica do ser humano com a qualidade de vida e a proteção do meio
ambiente, como bem difuso, é um tema recente”.
Monteiro e Ferreira (2009, p. 11) expressam opinião semelhante afirmando que
“apenas bem recentemente, o ser humano passou a preocupar-se com a efetiva proteção dos
recursos naturais e com o controle das ações humanas sobre a natureza”.
Antunes (2004) declara que o Direito Ambiental apresenta como princípios, ações
voltadas para a garantia e proteção da vida, das gerações presentes e futuras.
As particularidades do Direito Ambiental, obviamente, implicam uma série de princípios diversa daquela que, usualmente, informa os demais ‘ramos’ da ciência jurídica. Os princípios do Direito Ambiental estão voltados para a finalidade básica de proteger a vida, em qualquer forma que esta se apresente, e garantir um padrão de existência digno para os seres humanos desta e das futuras gerações, bem como de conciliar os dois elementos anteriores com o desenvolvimento econômico ambientalmente sustentado (ANTUNES, 2004, p. 31).
Para Grizzi (2008) o Direito Ambiental, além de proteger e garantir a vida,
representa a evolução do próprio direito.
O direito ambiental representa a evolução do direito privado, consagrador dos direitos de primeira geração, e do direito público, consagrador dos direitos de segunda geração. Por esse motivo, não deve ser contextualizado no mundo jurídico como sub-ramo do direito privado, tampouco como sub-ramo do direito público. (GRIZZI, 2008, p. 20).
Seguindo esta ótica, Antunes (2001) afirma que o Direito Ambiental assume
características ecológicas, humanas, econômicas e de desenvolvimento:
O Direito Ambiental pode ser definido como um direito que se desdobra em três vertentes fundamentais, que são constituídas pelo direito ao meio ambiente, direito sobre o meio ambiente e direito do meio ambiente. Tais vertentes existem, na medida em que o Direito Ambiental é um direito humano fundamental que cumpre a função de integrar os direitos à saudável qualidade de vida, ao desenvolvimento econômico e á proteção dos recursos naturais. Mais do que um Direito autônomo, o Direito Ambiental é uma concepção de aplicação da ordem jurídica que penetra, transversalmente, em todos os ramos do Direito. O Direito Ambiental, portanto, tem uma dimensão humana, uma dimensão ecológica e uma dimensão econômica que se devem harmonizar sob o conceito de desenvolvimento sustentado. (ANTUNES, 2001, p. 09).
Como princípios básicos da Tutela Ambiental, Machado (1998) expõe 10 pontos
considerados essenciais.
1. O homem tem direito fundamental a condições de vida satisfatórias, em um ambiente saudável, que lhe permita viver com dignidade e bem-estar, em harmonia com a natureza, sendo educado para defender e respeitar esses valores.
2. O homem tem direito ao desenvolvimento sustentável, de tal forma que responda eqüitativamente às necessidades ambientais e de desenvolvimento das gerações presentes e futuras.
3. Os países têm responsabilidade por ações ou omissões cometidas em seu território, ou sob seu controle, concernentes aos danos potenciais ou efetivos ao meio ambiente de outros países ou de zonas que estejam fora dos limites da jurisdição nacional.
4. Os países têm responsabilidades ambientais comuns, mas diferenciadas, segundo seu desenvolvimento e sua capacidade.
5. Os países devem elaborar uma legislação nacional correspondente à responsabilidade ambiental em todos os seus aspectos.
6. Quando houver perigo de dano grave e irreversível, a falta de certeza científica absoluta não deverá ser utilizada como razão para adiar-se a adoção de medidas eficazes em função dos custos, para impedir a degradação do meio ambiente (princípio da precaução).
7. O Poder Público e os particulares devem prevenir os danos ambientais, havendo correção, com prioridade, na fonte causadora.
8. Quem polui deve pagar e, assim, as despesas resultantes das medidas de prevenção, de redução da poluição e da luta contra a mesma, devem ser suportadas pelo poluidor.
9. As informações ambientais devem ser transmitidas pelos causadores, ou potenciais causadores de poluição e degradação da natureza, e repassadas pelo Poder Público à coletividade.
10. A participação das pessoas e das organizações não governamentais nos procedimentos de decisões administrativas e nas ações judiciais ambientais deve ser facilitada e encorajada. (MACHADO, 1998, p. 08).
Recentemente as questões ambientais e as tentativas de proteção e prevenção do
meio ambiente têm tomado proporções maiores, alcançando trabalhadores, empresas,
governos, legisladores, etc.
No perpassar destes últimos anos, poucas questões suscitaram tão ampla e heterogênea preocupação. A luta pela defesa do patrimônio comum ecológico – de cunho verdadeiramente ecumênico – se converteu em um novo humanismo. (PRADO, 2009, p. 63)
Neste sentido, Marchesan, Steigleder e Capelli (2010), afirmam que não é
possível conhecer a abordagem dos textos ambientais escritos ao longo da história, sem que se
tenha consciência de que o tema, em sua essência, só foi trazido à pauta do ordenamento
jurídico no final do século XX.
Para conhecer um pouco do desenvolvimento dos textos legais que ao longo da história trataram dos bens ambientais, deve-se ter em mente que o tema meio ambiente só aparece em seu sentido atual no final do século XX. Antes disso, elementos que o compõem eram vistos apenas como recursos naturais necessários ao utilitarismo de uma exploração economicista, numa ótica exclusivamente antropocêntrica. (MARCHESAN; STEIGLEDER; CAPELLI, 2010, p. 16).
O Direito Ambiental trata-se, então, de uma forma de buscar, além da proteção e
preservação dos recursos ambientais, a mudança de ações e hábitos que venham a gerar
impactos negativos sobre um bem que não pode ser dividido, distribuído ou simplesmente
comercializado, pois se trata de um bem que pertence a todos os seres humanos, em parcelas
iguais e sem distinção.
2.1
EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO DIREITO AMBIENTAL
Para Teixeira (2006), as primeiras normas civis e administrativas ambientais
brasileiras foram instituídas tendo como base as normas de Portugal, que defendia e protegia
legalmente os bens considerados escassos e importantes economicamente, tais como petróleo
e florestas.
Em 26 de junho de 1911 foi sancionado o Decreto nº 8.843, por meio do qual se
criou a primeira reserva florestal do Brasil, no antigo território do Acre.
O então Presidente da República Hermes da Fonseca assinalou a necessidade de
proteção ambiental:
O Presidente da República dos Estados Unidos do Brazil, attendendo a que a devastação desordenada das mattas está produzindo em todo o paiz effeitos sensiveis e desastrosos, salientando-se entre elles alterações na constituição climaterica de varias zonas e no regimen das aguas pluviaes e das correntes que dellas dependem; e reconhecendo que é da maior e mais urgente necessidade impedir que tal estado de cousa se estenda ao Territorio do Acre, mesmo por tratar-se de região onde como igualmente em toda a Amazonia, ha necessidade de proteger e assegurar a navegação fluvial e, consequentemente, de obstar que soffra modificação o regimen hydrographico respectivo. (BRASIL, 2011a original).
Em 28 de dezembro de 1921, foi criado o Serviço Florestal do Brasil,
posteriormente substituído pelo Departamento de Recursos Naturais Renováveis e este, por
sua vez, substituído pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal – IBDF.
O Código Florestal de 1934 impôs limites ao direito de propriedade, que na época
baseavam-se no disposto pelo Código Civil, no tocante ao direito de vizinhança.
Art. 1º As florestas existentes no territorio nacional, consideradas em conjuncto, constituem bem de interesse commum a todos os habitantes, do paiz, exercendo-se os direitos de propriedade com as limitações que as leis em geral, e especialmente este codigo, estabelecem.
Art. 2º Applicam-se os dispositivos deste codigo assim às florestas como às demais formas de vegetação, reconhecidas de utilidade às terras que revestem. (BRASIL, 2011b).
Em 15 de setembro de 1965 foi instituído um novo código florestal, através da Lei
nº 4.771, que tratou das florestas de todo território brasileiro.
Art. 1º As florestas existentes no território nacional e as demais formas de vegetação, reconhecidas de utilidade as terras que revestem, são bens de interesse comum a todos os habitantes do País, exercendo-se os direitos de propriedade, com as limitações que a legislação em geral e especialmente esta Lei estabelecem. (BRASIL, 2011c).
Todavia, segundo explana Teixeira (2006), a preocupação com o desgaste e
comprometimento do meio ambiente tomou maior impulso somente a partir dos anos 70,
quando o ambiente passou a integrar realmente a preocupação dos juristas brasileiros.
A partir de 1970, em face à enorme devastação dos recursos naturais não-renováveis e o comprometimento do habitat do homem, a preocupação com o ecossistema equilibrado despertou o interesse de juristas brasileiros. O ambiente passou a ser objeto de debates e de proteção legislativa. Portanto, face à imperiosa necessidade de adaptação à nova realidade imposta, o período de transição entre a mudança de
condutas culturais e a adequação de um sistema à legislação é o da gênese da própria evolução dos institutos jurídicos (2006, p. 50).
Em 30 de outubro de 1973 foi promulgado o Decreto nº. 73.030, que cria a
SEMA, órgão de fiscalização ambiental, substituído em 1989 pelo IBAMA. (BRASIL,
2011d).
O Decreto Lei nº 1.413, de 14 de agosto de 1975 buscou controlar a poluição
ambiental ocorrida por meio das atividades industriais.
Art. 1o - As indústrias instaladas ou a se instalarem em território nacional são obrigadas a promover as medidas necessárias a prevenir ou corrigir os inconvenientes e prejuízos da poluição e da contaminação do meio ambiente. (BRASIL, 2011e).
Em 17 de outubro de 1977 foi promulgada a Lei nº 6.453, com o intuito de
disciplinar a exploração da energia nuclear no país.
A Lei nº 6.938 de 31 de agosto de 1981 estabelece a Política Nacional do Meio
Ambiente.
Art 2º - A Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo a preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, visando assegurar, no País, condições ao desenvolvimento sócio-econômico, aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana, atendidos os seguintes princípios:
I - ação governamental na manutenção do equilíbrio ecológico, considerando o meio ambiente como um patrimônio público a ser necessariamente assegurado e protegido, tendo em vista o uso coletivo;
II - racionalização do uso do solo, do subsolo, da água e do ar; Ill - planejamento e fiscalização do uso dos recursos ambientais;
IV - proteção dos ecossistemas, com a preservação de áreas representativas; V - controle e zoneamento das atividades potencial ou efetivamente poluidoras; VI - incentivos ao estudo e à pesquisa de tecnologias orientadas para o uso racional e a proteção dos recursos ambientais;
VII - acompanhamento do estado da qualidade ambiental; VIII - recuperação de áreas degradadas;
IX - proteção de áreas ameaçadas de degradação;
X - educação ambiental a todos os níveis de ensino, inclusive a educação da comunidade, objetivando capacitá-la para participação ativa na defesa do meio ambiente. (BRASIL, 2011f).
A Constituição Federal de 1988 deu atenção específica para as questões
ambientais no país. Todo capítulo VI refere-se ao meio ambiente, obrigações e direitos da
população e do poder público sobre ele.
A vigente Constituição Federal Brasileira, de 8 de outubro de 1988, introduziu, pela primeira vez em nossa história, um capítulo próprio para o meio ambiente. Além de demonstrar o acolhimento das idéias de grupos ambientalistas organizados, rasgando, de forma inédita, o modelo meramente burocrático estatal e
desenvolvimentista, a CF o considerou como bem jurídico autônomo e de uso comum, representando uma quebra de paradigma em relação à exploração econômica fundada no descontrole fundiário, na degradação ecológica e na desigualdade social. (MARCHESAN; STEIGLEDER; CAPELLI, 2010, p. 15).
A Lei nº 7.754 de 14 de abril de 1989 estabeleceu medidas voltadas para a
proteção das florestas localizadas nas nascentes dos rios.
Art. 2º Para os fins do disposto no artigo anterior, será constituída, nas nascentes dos rios, uma área em forma de paralelogramo, denominada Paralelogramo de Cobertura Florestal, na qual são vedadas a derrubada de árvores e qualquer forma de desmatamento.
1º Na hipótese em que, antes da vigência desta Lei, tenha havido derrubada de árvores e desmatamento na área integrada no Paralelogramo de Cobertura Florestal, deverá ser imediatamente efetuado o reflorestamento, com espécies vegetais nativas da região. (BRASIL, 2011g).
Em 27 de abril de 1981 foi sancionada a Lei nº 6.902, que dispõe sobre a criação
de estações ecológicas, áreas de proteção ambiental. Todavia, esta lei só foi regulamentada
em 1990, através do Decreto nº 99.274.
Em 1989, através da Lei nº 7.735 foi criado o IBAMA - Instituto do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, que atualmente é o órgão responsável por
fiscalizar as atividades que tenham alguma interferência sobre o meio ambiente.
Art. 2º É criado o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, entidade autárquica de regime especial, dotada de personalidade jurídica de direito público, autonomia administrativa e financeira, vinculada ao Ministério do Interior com a finalidade de formular, coordenar, executar e fazer executar a política nacional do meio ambiente e da preservação, conservação e uso racional, fiscalização, controle e fomento dos recursos naturais renováveis. (BRASIL, 2011h).
O Decreto nº 99.274 de 6 de junho de 1990 regulamenta a Lei nº 6.902 de 27 de
abril de 1981.
Art. 1º Na execução da Política Nacional do Meio Ambiente cumpre ao Poder Público, nos seus diferentes níveis de governo:
I - manter a fiscalização permanente dos recursos ambientais, visando à compatibilização do desenvolvimento econômico com a proteção do meio ambiente e do equilíbrio ecológico;
II - proteger as áreas representativas de ecossistemas mediante a implantação de unidades de conservação e preservação ecológica;
III - manter, através de órgãos especializados da Administração Pública, o controle permanente das atividades potencial ou efetivamente poluidoras, de modo a compatibilizá-las com os critérios vigentes de proteção ambiental;
IV - incentivar o estudo e a pesquisa de tecnologias para o uso racional e a proteção dos recursos ambientais, utilizando nesse sentido os planos e programas regionais ou setoriais de desenvolvimento industrial e agrícola;
V - implantar, nas áreas críticas de poluição, um sistema permanente de acompanhamento dos índices locais de qualidade ambiental;
VI - identificar e informar, aos órgãos e entidades do Sistema Nacional do Meio Ambiente, a existência de áreas degradadas ou ameaçadas de degradação, propondo medidas para sua recuperação; e
VII - orientar a educação, em todos os níveis, para a participação ativa do cidadão e da comunidade na defesa do meio ambiente, cuidando para que os currículos escolares das diversas matérias obrigatórias contemplem o estudo da ecologia. Art. 2º A execução da Política Nacional do Meio Ambiente, no âmbito da Administração Pública Federal, terá a coordenação do Secretário do Meio Ambiente. (BRASIL, 2011i).
Em 1998 foi criada a Lei nº 9.605, que estabelece as sanções penais e
administrativas em caso de desrespeito à Lei e oferta de riscos ao meio ambiente.
Art. 2º Quem, de qualquer forma, concorre para a prática dos crimes previstos nesta Lei, incide nas penas a estes cominadas, na medida da sua culpabilidade, bem como o diretor, o administrador, o membro de conselho e de órgão técnico, o auditor, o gerente, o preposto ou mandatário de pessoa jurídica, que, sabendo da conduta criminosa de outrem, deixar de impedir a sua prática, quando podia agir para evitá-la.
Art. 3º As pessoas jurídicas serão responsabilizadas administrativa, civil e penalmente conforme o disposto nesta Lei, nos casos em que a infração seja cometida por decisão de seu representante legal ou contratual, ou de seu órgão colegiado, no interesse ou benefício da sua entidade.
Parágrafo único. A responsabilidade das pessoas jurídicas não exclui a das pessoas físicas, autoras, co-autoras ou partícipes do mesmo fato.
Art. 4º Poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados à qualidade do meio ambiente. (BRASIL, 2011j).
O Decreto nº 4.339 de 2002 institui os princípios para a implementação da
Política Nacional da Biodiversidade, levando em consideração os compromissos brasileiros
com a proteção ambiental.
Considerando os compromissos assumidos pelo Brasil ao assinar a Convenção sobre Diversidade Biológica, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento - CNUMAD, em 1992, a qual foi aprovada pelo Decreto Legislativo no 2, de 3 de fevereiro de 1994, e promulgada pelo Decreto n° 2.519, de 16 de março de 1998;
Considerando o disposto no art. 225 da Constituição, na Lei no 6.938, de 31 de agosto de 1981, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, na Declaração do Rio e na Agenda 21, ambas assinadas pelo Brasil em 1992, durante a CNUMAD, e nas demais normas vigentes relativas à biodiversidade; e
Considerando que o desenvolvimento de estratégias, políticas, planos e programas nacionais de biodiversidade é um dos principais compromissos assumidos pelos países membros da Convenção sobre Diversidade Biológica. (BRASIL, 2011k).
Para Freitas (2005 apud SILVA, T., 2009) o Direito Ambiental ainda não constitui
assunto totalmente aceito e incorporado à cultura legal e pessoal, como ocorre com o direito
penal, criminal, trabalhista ou civil, por exemplo.
O Direito Ambiental, apesar da evolução que o assunto vem experimentando nos últimos anos, não é totalmente aceito. Reluta-se em receber um ramo novo do
Direito que se distingue de todos os demais. É que o Direito Ambiental, mesmo sendo autônomo, é dependente dos tradicionais ramos do Direito. Com efeito, é impossível imaginar o Direito Ambiental alheio ao Constitucional, ao Civil, ao Penal e ao Administrativo. Mas é impossível também como mera fração, parte de qualquer das vertentes citadas. É preciso, pois, encará-lo como algo atual, fruto das condições de vida deste final de milênio e, por isso mesmo, dotado de características e peculiaridades novas e incomuns. (FREITAS, 2005 apud SILVA, T., 2009, p. 24).
Milaré (2001 apud SILVA, T., 2009, p. 153) apresenta um conceito semelhante ao
de Freitas (2005), acrescentando ainda a importância da consciência ambiental, suportada pelo
Direito Ambiental e pela ética jurídica, para a manutenção plena do desenvolvimento humano
saudável.
Como ocorreu no passado, em situações cruciais, ou de mudanças profundas, a Questão Ambiental sacudiu também a estrutura do Direito. A velha árvore da Ciência Jurídica recebeu novos enxertos. E assim se produziu um ramo novo e diferente, destinado a embasar novo tipo de relacionamento das pessoas individuais, das organizações e, enfim, de toda a sociedade com o mundo natural. O Direito Ambiental ajuda-nos a explicitar o fato de que, se a Terra é um imenso organismo vivo, nós somos a sua consciência. O espírito humano é chamado a fazer as vezes da consciência planetária. E o saber jurídico ambiental, secundado pela Ética e municiado pela Ciência, passa a co-pilotar os rumos desta nossa frágil espaçonave.
Derani (2001 apud SILVA, T., 2009, p. 80) concorda com o exposto, quando
discorre:
Como todo novo ramo normativo que surge, o direito ambiental responde a um conflito interno da sociedade, interpondo-se no desenvolvimento dos seus atos. Dührenmatt já nos lembrava que quando uma sociedade entra em conflito com seu presente produz leis. É exatamente o que ocorre com as normas chamadas de proteção ao meio ambiente. São elas reflexo de uma constatação social paradoxal resumida no seguinte dilema: a sociedade precisa agir dentro de seus pressupostos industriais, porém estes mesmos destinados ao prazer e ao bem-estar podem acarretar desconforto, doenças e miséria. Para o solucionamento deste conflito, desenha-se todo um novo cabedal legislativo, que, uma vez parte do ordenamento jurídico, produzirá efeitos em todos os seus ramos.
Diante do exposto, percebe-se que o histórico de luta ambiental no país é extenso,
tendo seus primeiros passos ocorridos há mais de um século, porém, ainda são poucos os
resultados integrais obtidos.
Afirma-se isso com base no fato de que a proteção efetiva do meio ambiente
precisa tornar-se tarefa cotidiana evitando, em caráter de prioridade, a ocorrência de ações
degradativas, considerando-se que o ato de punir é importante, mas, na maioria das vezes, não
é suficiente para recuperar o dano causado.
Não obstante, percebe-se que o desenvolvimento das leis ambientais é de suma
importância para a proteção de um bem comum aos seres humanos, o meio ambiente, e, para
que sejam formuladas em bases efetivas, é essencial que o legislador conheça o meio
ambiente como um conceito amplo e bem definido.
2.2
MEIO AMBIENTE
O meio ambiente é o conjunto dos recursos hídricos, fauna, flora, entre outros, que
cercam os seres humanos. Da existência saudável do meio ambiente depende também a saúde
dos seres humanos.
A destruição do meio ambiente constitui, sem nenhuma dúvida, um dos mais ingentes problemas que a humanidade tem deparado nesta primeira metade do século XXI, cuja gravidade é de todos conhecida, pelo que representa para a vida e para a própria sobrevivência do homem. (PRADO, 2009, p. 63).
Na concepção de Leite (2003, p. 94) “o dano ambiental [...] constitui uma
expressão ambivalente, que designa, certas vezes, alterações nocivas ao meio ambiente e
outras, ainda, os efeitos que tal alteração provoca na saúde das pessoas e em seus interesses”.
O dano ambiental apresenta a característica básica de, muitas vezes, tornar-se
irreversível, quando, por exemplo, causa a extinção de espécies, a poluição e contaminação
dos recursos hídricos, solo, etc.
O meio ambiente é bem jurídico de difícil, por vezes impossível, reparação. O sujeito passivo não é um indivíduo, como no estelionato ou nas lesões corporais. É toda a coletividade. O alcance é maior. Tudo deve ser feito para criminalizar as condutas nocivas, a fim de que o bem jurídico, que na maioria das vezes é de valor incalculável, seja protegido. (FREITAS, 2000, p. 198).
Em total acordo com Freitas (2000), Antunes (2000) determina que a recuperação
do meio ambiente é uma ação difícil, ou, em alguns casos, impossível, de acordo com o dano
que houver sido causado.
“Melhor será, sempre, a ação preventiva, visto que há lesões irreparáveis ‘in
specie’, como a derrubada ilegal de uma floresta nativa ou a destruição de um bem histórico,
valioso pela sua origem e autenticidade”. (MEIRELLES, 1983, p. 91).
Sob este prisma, torna-se indispensável que a legislação ambiental seja clara e
objetiva, visando não somente a proteção do ambiente, mas também as devidas sanções aos
infratores.
Para melhor interpretar as leis de proteção do meio ambiente, primeiramente
faz-se necessário conhecer faz-seu conceito, porém, “conceituar qualquer bem jurídico tutelado não é
das tarefas mais fáceis, sendo certo que dessa regra não foge a tentativa de conceituar o bem
de natureza ambiental”. (AKAOUI, 2010, p. 24).
De acordo com a Lei nº 6.938, em seu art. 3°, inc. I, meio ambiente pode ser
definido como “o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física,
química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”. (BRASIL,
2011f).
“Conforme se verificou, de início, o legislador brasileiro optou por uma
conceituação que realça a interação e interdependência entre o homem e a natureza. É neste
aspecto que se denota a proteção jurídica do meio ambiente como um bem unitário”. (LEITE;
AYALA, 2010, p. 79).
Grizzi (2008, p. 23) coloca o meio ambiente como um bem público e privado,
afirmando que “bem ambiental é bem público e bem privado aos quais foi acrescido o valor
ambiental, o qual, por sua vez, tende a conduzir ao meio ambiente ecologicamente equilibrado
essencial à sadia qualidade de vida”.
Destarte, como se pode verificar é o bem ambiental bem jurídico de uso comum do povo, e, portanto, não integrante do patrimônio público ou particular, e é essencial à sadia qualidade da vida, o que se coaduna com a transindividualidade dos bens difusos quanto à titularidade, que recai sobre pessoas indeterminadas ligadas por circunstância de fato, sendo indivisível. (AKAOUI, 2010, p. 26).
Freitas (2002, p. 17) caracteriza meio ambiente como um meio que inclui “[...]
urbanismo, aspectos históricos, paisagísticos e outros tantos essenciais, atualmente, à
sobrevivência do homem na Terra”.
Segundo a Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente da Polícia Civil do Paraná, o
meio ambiente “é uma expressão que traduz a interação do conjunto de elementos naturais,
artificiais e culturais que propiciem o desenvolvimento equilibrado da vida em todas as suas
formas”. (DELEGACIA DE PROTEÇÃO AO MEIO AMBIENTE, 2011, p. 01).
Silva (1981, p. 435) conceituou o meio ambiente como “a interação do conjunto
de elementos naturais, artificiais e culturais que propiciem o desenvolvimento equilibrado da
vida humana”.
Sob esse prisma, pode-se afirmar que o meio ambiente também pode ser
constituído pelas cidades, ruas, prédios, casas e toda estrutura criada para melhorar a
qualidade de vida dos seres humanos, o chamado ambiente artificial.
Como ambiente artificial pode-se descrever como o “espaço ocupado e
transformado pelo ser humano, de forma continuada, onde ele desenvolve suas relações
sociais. É o produto da interação do homem com o meio ambiente natural.” (SÉGUIN, 2000,
p. 18).
Por ser construído pelo homem, o ambiente artificial é adaptado a cultura e as
necessidades de cada povo, todavia, não se pode perder de vista que, apesar de serem
construídas para os homens, as cidades, principal forma de ambiente artificial, precisam
respeitar o ambiente natural a sua volta, para que se ofereçam conforto e comodidade sem
oferecer riscos a sobrevivência. (SÉGUIN, 2000).
O meio ambiente é o espaço onde os seres vivem, desenvolvem-se, realizam suas
atividades, reproduzem-se e, nesse sentido, Milaré (2005) afirma que “a questão ambiental é
uma questão de vida ou morte, não apenas de animais e plantas, mas do próprio homem e do
planeta que o abriga”. (MILARÉ, 2005, p. 50).
“Qualquer que seja o conceito que se adotar, o meio ambiente engloba, sem
dúvida, o homem e a natureza, como todos os seus elementos” (LEITE; AYALA, 2010, p.
73).
Somente uma conversão – ou uma reconversão ética – poderá inverter o círculo vicioso da inércia, da gastança, do desperdício, da insensibilidade, para uma existência de zelo pela natureza. De uso responsável. De desenvolvimento sustentável. De sensibilidade ambiental. De amor à natureza e de amor ao próximo. De respeito à vida. De luta permanente para a consecução de uma vida digna. (NALINI, 2003 apud MARINO JUNIOR, 2009).
Não basta que os conceitos, as necessidades e dificuldades do meio ambiente
sejam de conhecimento público, é necessário que se crie uma consciência da importância do
patrimônio ambiental como fator indispensável para a manutenção da vida das futuras
gerações.
Nesse sentido, temos as palavras de Teixeira (2006, p. 53) que afirma que “a
maior preocupação ainda se restringe ao ambiente como bem econômico e à saúde pública, e
não diretamente ao meio ambiente ecologicamente equilibrado com interesse autônomo”.
Para que o Direito Ambiental ganhe força e possa defender plenamente o meio
ambiente, uma mudança de consciência é essencial, seja no âmbito individual, seja no âmbito
coletivo.
2.3
POLÍTICA NACIONAL DO MEIO AMBIENTE
A Política Nacional do Meio Ambiente trata-se da formalização de medidas legais
necessárias para a proteção do meio ambiente como bem de suma importância para os
indivíduos e para a sociedade como um todo.
“Na esfera federal, as regras para o controle da poluição ambiental foram
estabelecidas em 31/8/1981, quando foi sancionada a Lei nº 6.938, que institui a Política
Nacional do Meio Ambiente”. (MONTEIRO; FERREIRA, 2009, p. 12).
O conjunto de metas e mecanismos que visam reduzir os impactos negativos da ação antrópica – aqueles resultantes da ação humana – sobre o meio ambiente. Como toda política, possui justificativa para sua existência, fundamentação teórica, metas e instrumentos, e prevê penalidades para aqueles que não cumprem as normas estabelecidas. Interfere nas atividades dos agentes econômicos e, portanto, a maneira pela qual é estabelecida influencia as demais políticas públicas, inclusive as políticas industriais e de comércio exterior. (LUSTOSA; CANÉPA; YOUNG, 2003, p. 135).
A Lei nº 6.938/81 dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente e institui o
Sistema Nacional do Meio Ambiente.
Art 1º - Esta lei, com fundamento nos incisos VI e VII do art. 23 e no art. 235 da Constituição Federal, estabelece a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, constitui o Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama) e institui o Cadastro de Defesa Ambiental. [...]
Art 2º - A Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo a preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, visando assegurar, no País, condições ao desenvolvimento sócio-econômico, aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana. (BRASIL, 2011f).
Essa lei é de extrema relevância no Direito Ambiental, tendo em vista que, com o
respaldo da Constituição Federal, essa lei determinou políticas públicas brasileiras para o
meio ambiente.
A dedução é simples: se a Política Nacional do Meio Ambiente protege a vida em todas as suas formas, e não só o homem possui vida, então todos que a possuam são tutelados e protegidos pelo direito ambiental, sendo certo que um bem, ainda que não seja vivo, pode ser ambiental, na medida em que seja essencial à sadia qualidade de vida de outrem, em face do que determina o artigo 225 da Constituição Federal (bem material ou mesmo imaterial). (FIORILLO, 2000 apud CRUZ, 2008, p. 31).
Como princípios para a proteção da dignidade, da vida e do meio ambiente, a Lei
nº. 6.938 estabelece:
I - ação governamental na manutenção do equilíbrio ecológico, considerando o meio ambiente como um patrimônio público a ser necessariamente assegurado e protegido, tendo em vista o uso coletivo;
II - racionalização do uso do solo, do subsolo, da água e do ar; III - planejamento e fiscalização do uso dos recursos ambientais;
IV - proteção dos ecossistemas, com a preservação de áreas representativas; V - controle e zoneamento das atividades potencial ou efetivamente poluidoras; VI - incentivos ao estudo e à pesquisa de tecnologias orientadas para o uso racional e a proteção dos recursos ambientais;
VII - acompanhamento do estado da qualidade ambiental; VIII - recuperação de áreas degradadas; (Regulamento) IX - proteção de áreas ameaçadas de degradação;
X - educação ambiental a todos os níveis de ensino, inclusive a educação da comunidade, objetivando capacitá-la para participação ativa na defesa do meio ambiente. (BRASIL, 2011f).
De acordo com Sirvinskas (2005) a lei nº 6.938 estabeleceu conceitos essenciais,
como meio ambiente, como visto no item 2.2 deste trabalho, degradação, poluição, resíduos,
além de esclarecer os objetivos e diretrizes da política do meio ambiente.
Art 3º - Para os fins previstos nesta Lei, entende-se por:
I - meio ambiente, o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas;
II - degradação da qualidade ambiental, a alteração adversa das características do meio ambiente;
III - poluição, a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente:
a) prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população; b) criem condições adversas às atividades sociais e econômicas; c) afetem desfavoravelmente a biota;
d) afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente;
e) lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos;
IV - poluidor, a pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado, responsável, direta ou indiretamente, por atividade causadora de degradação ambiental;
V - recursos ambientais: a atmosfera, as águas interiores, superficiais e subterrâneas, os estuários, o mar territorial, o solo, o subsolo, os elementos da biosfera, a fauna e a flora. (BRASIL, 2011f).
Como objetivo primário da Política Nacional do Meio Ambiente, Oliveira (2005)
destaca a viabilização de uma compatibilização entre desenvolvimento socioeconômico e a
utilização racional dos recursos ambientais, de modo que a exploração do meio ambiente
ocorra somente quando não oferecer riscos à vida ou à qualidade de vida dos indivíduos.
Os objetivos da política do meio ambientes estabelecidos pela lei são:
I - à compatibilização do desenvolvimento econômico social com a preservação da qualidade do meio ambiente e do equilíbrio ecológico;
II - à definição de áreas prioritárias de ação governamental relativa à qualidade e ao equilíbrio ecológico, atendendo aos interesses da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios;
III - ao estabelecimento de critérios e padrões da qualidade ambiental e de normas relativas ao uso e manejo de recursos ambientais;
IV - ao desenvolvimento de pesquisas e de tecnologias nacionais orientadas para o uso racional de recursos ambientais;
V - à difusão de tecnologias de manejo do meio ambiente, à divulgação de dados e informações ambientais e à formação de uma consciência pública sobre a necessidade de preservação da qualidade ambiental e do equilíbrio ecológico; VI - à preservação e restauração dos recursos ambientais com vistas á sua utilização racional e disponibilidade permanente, concorrendo para a manutenção do equilíbrio ecológico propício à vida;
VII - à imposição, ao poluidor e ao predador, da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados, e ao usuário, de contribuição pela utilização de recursos ambientais com fins econômicos. (BRASIL, 2011f).
As diretrizes estabelecidas pela lei para as atividades e ações que exerçam
influência sobre o meio ambiente são:
Art. 5º - As diretrizes da Política Nacional do Meio Ambiente serão formuladas em normas e planos, destinados a orientar a ação dos Governos da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios no que se relaciona com a preservação da qualidade ambiental e manutenção do equilíbrio ecológico, observados os princípios estabelecidos no art. 2º desta Lei.
Parágrafo único. As atividades empresariais públicas ou privadas serão exercidas em consonância com as diretrizes da Política Nacional do Meio Ambiente. (BRASIL, 2011f).
Os instrumentos estabelecidos pela Lei nº 6.938 para o efetivo funcionamento da
Política do meio ambiente são:
Art 9º - São instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente: I - o estabelecimento de padrões de qualidade ambiental;
II - o zoneamento ambiental; (Regulamento) III - a avaliação de impactos ambientais;
IV - o licenciamento e a revisão de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras; V - os incentivos à produção e instalação de equipamentos e a criação ou absorção de tecnologia, voltados para a melhoria da qualidade ambiental;
VI - a criação de reservas e estações ecológicas, áreas de proteção ambiental e as de relevante interesse ecológico, pelo Poder Público Federal, Estadual e Municipal; VI - a criação de espaços territoriais especialmente protegidos pelo Poder Público federal, estadual e municipal, tais como áreas de proteção ambiental, de relevante interesse ecológico e reservas extrativistas;
VII - o sistema nacional de informações sobre o meio ambiente;
VIII - o Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental;
IX - as penalidades disciplinares ou compensatórias ao não cumprimento das medidas necessárias à preservação ou correção da degradação ambiental.
X - a instituição do Relatório de Qualidade do Meio Ambiente, a ser divulgado anualmente pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis - IBAMA; .
XI - a garantia da prestação de informações relativas ao Meio Ambiente, obrigando-se o Poder Público a produzi-las, quando inexistentes;
XII - o Cadastro Técnico Federal de atividades potencialmente poluidoras e/ou utilizadoras dos recursos ambientais. .
XIII - instrumentos econômicos, como concessão florestal, servidão ambiental, seguro ambiental e outros. (BRASIL, 2011f).
Milaré (2007, p. 196), sobre a proteção ambiental, argumenta:
A proteção desse patrimônio é função tanto pública quanto privada. Essa função, naturalmente, é exercida segundo várias circunstâncias e na medida das atribuições específicas, conforme se trate do Poder Púbico ou da sociedade através de seus diferentes segmentos, com ênfase no setor produtivo.
Para obter êxito no intuito de proteger e preservar o meio ambiente é necessário
que exista uma legislação específica, voltada para a fragilidade do bem ambiental, que sirva
de proteção e apoio para o mesmo.
Portanto, pode-se afirmar que a Política Nacional do Meio Ambiente norteia ações
e práticas, discernindo o certo do errado e estabelecendo sanções no caso de seu
descumprimento.
Normas ambientais eficazes resultam no cumprimento das finalidades do direito ambiental, quais sejam, a finalidade imediata (desenvolvimento sustentável) e a finalidade mediata (sadia qualidade de vida), rompendo as barreiras econômicas e sociais vivenciadas no presente. (GRIZZI, 2008, p. 34).
A Política Nacional do Meio Ambiente fornece um guia para que os indivíduos e
empresas saibam quais práticas são permitidas e quais se enquadram como delito, oferecendo
assim a possibilidade de evitar ações ilegais futuras.
2.4
CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE – CONAMA
"O Conselho hoje é o espaço democrático que recepciona as diferenças de opinião
e pensamento e que também representa o ideal de luta pela consolidação da democracia dos
últimos 30 anos. É o espaço legítimo para a mudança do meio ambiente no país!". (Ministra
do Meio Ambiente, Izabella Teixeira). (CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE,
2011).
O Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA é o órgão consultivo e
deliberativo do Sistema Nacional do Meio Ambiente - SISNAMA foi instituído pela Lei
6.938/81, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, regulamentada pelo
Decreto 99.274/90. (CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE, 2011).
Qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que direta ou indiretamente, afetam: I - a saúde, a segurança e o bem estar da população; II - as atividades sociais e econômicas; III - a biota; IV - as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; e V - a qualidade dos recursos ambientais. (CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE, 2011).
O CONAMA é composto por Plenário, CIPAM, Grupos Assessores, Câmaras
Técnicas e Grupos de Trabalho. O conselho é presidido pelo Ministro do Meio Ambiente e
sua Secretaria Executiva é exercida pelo Secretário-Executivo do Ministério do Meio
Ambiente - MMA.
O Conselho é um colegiado representativo de cinco setores, a saber: órgãos
federais, estaduais e municipais, setor empresarial e sociedade civil. (CONSELHO
NACIONAL DO MEIO AMBIENTE, 2011).
Por competências do CONAMA pode-se citar o estabelecimento, mediante
proposta do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis -
IBAMA, dos demais órgãos integrantes do SISNAMA e de Conselheiros do CONAMA,
normas e critérios para o licenciamento de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras, a
ser concedido pela União, pelos Estados, pelo Distrito Federal e Municípios e supervisionado
pelo referido instituto. (CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE, 2011).
Além disso, cabe ao conselho determinar, quando necessário, a realização de
estudos das alternativas e das possíveis consequências ambientais de projetos públicos ou
privados, requisitando aos órgãos federais, estaduais e municipais, bem como às entidades
privadas, informações, notadamente as indispensáveis à apreciação de estudos prévios de
impacto ambiental e respectivos relatórios, no caso de obras ou atividades de significativa
degradação ambiental, em especial nas áreas consideradas patrimônio nacional. (CONSELHO
NACIONAL DO MEIO AMBIENTE, 2011).
Estudos Ambientais: são todos e quaisquer estudos relativos aos aspectos ambientais relacionados à localização, instalação, operação e ampliação de uma atividade ou empreendimento, apresentado como subsídio para a análise da licença requerida, tais como: relatório ambiental, plano e projeto de controle ambiental, relatório ambiental preliminar, diagnóstico ambiental, plano de manejo, plano de recuperação de área degradada e análise preliminar de risco. (CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE, 2011).
É o CONAMA que irá decidir, após o parecer do Comitê de Integração de
Políticas Ambientais, em última instância administrativa, em grau de recurso, mediante
depósito prévio, sobre as multas e outras penalidades impostas pelo IBAMA. (CONSELHO
NACIONAL DO MEIO AMBIENTE, 2011).
Cabe ainda ao conselho a responsabilidade de determinar, mediante representação
do IBAMA, a perda ou restrição de benefícios fiscais concedidos pelo Poder Público, em
caráter geral ou condicional, e a perda ou suspensão de participação em linhas de
financiamento em estabelecimentos oficiais de crédito, além de estabelecer, privativamente,
normas e padrões nacionais de controle da poluição causada por veículos automotores,
aeronaves e embarcações, mediante audiência dos ministérios competentes. (CONSELHO
NACIONAL DO MEIO AMBIENTE, 2011).
Estabelecer normas, critérios e padrões relativos ao controle e à manutenção da
qualidade do meio ambiente, com vistas ao uso racional dos recursos ambientais,
principalmente os hídricos é importante função do conselho, que também estabelece os
critérios técnicos para a declaração de áreas críticas, saturadas ou em vias de saturação.
(CONAMA, 2011).
Acompanha a implementação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação
da Natureza - SNUC conforme disposto no inciso I do art. 6º da Lei 9.985, de 18 de julho de
2000 e estabelecer sistemática de monitoramento, avaliação e cumprimento das normas
ambientais. (CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE, 2011).
Incentivar a criação, a estruturação e o fortalecimento institucional dos Conselhos
Estaduais e Municipais de Meio Ambiente e gestão de recursos ambientais e dos Comitês de
Bacia Hidrográfica, avaliar regularmente a implementação e a execução da política e normas
ambientais do país, estabelecendo sistemas de indicadores e recomendar ao órgão ambiental
competente a elaboração do relatório de qualidade ambiental, previsto no inciso X do art. 9º
da Lei 6.938, de 1981. (CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE, 2011).
O CONAMA estabelece o sistema de divulgação de seus trabalhos, promove a
integração dos órgãos colegiados de meio ambiente, elaborar, aprovar e acompanhar a
implementação da Agenda Nacional do Meio Ambiente, a ser proposta aos órgãos e às
entidades do SISNAMA, sob a forma de recomendação, deliberar, sob a forma de resoluções,
proposições, recomendações e moções, visando o cumprimento dos objetivos da Política
Nacional de Meio Ambiente e elaborar o seu regimento interno. (CONSELHO NACIONAL
DO MEIO AMBIENTE, 2011).
Figura 1 – Elaboração das decisões do CONAMA Fonte: Conselho Nacional do Meio Ambiente, 2011
2.5
O DIREITO AMBIENTAL EM FACE DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL
A Constituição Federal Brasileira estabelece quais são as medidas consideradas
legais e ilegais no que tange os recursos ambientais no país, sendo necessário o devido
conhecimento do texto da lei para que a sociedade – cidadãos, empresas e governos - venha a
respeitá-la e cumpri-la.
Segundo Silva, J. (2009), a Constituição Federal desperta para importância dos
recursos naturais e coloca a natureza sob um prisma de recurso essencial para a vida de todos
os seres vivos.
A qualidade do meio ambiente se transformará num bem, num patrimônio, num valor mesmo, cuja preservação, recuperação e revitalização se tornaram num imperativo do Poder Público, para assegurar a saúde, o bem-estar do homem e as condições de seu desenvolvimento. Em verdade, para assegurar o direito fundamental à vida. (SILVA, J., 2009, p. 848-849).
Ao avaliar o Direito Ambiental e buscar embasamento para seu texto na
Constituição Federal, antes ainda de adentrar o capítulo VI que se refere exclusivamente ao
meio ambiente, encontra-se no artigo 5º o ponto de partida para o Direito Ambiental.
Em seu artigo 5º a Constituição Federal garante a todos os indivíduos que residem
em território brasileiro o direito à vida.
“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito
à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade [...]”. (BRASIL, CF, 2011).
Pois bem, por direito à vida pode-se citar o direito de cada indivíduo de respirar ar
puro, ter água potável disponível, alimentos livres de contaminação, fatos que dependem da
preservação do meio ambiente.
“O direito ambiental constitucional será observado na Constituição Federal de
1988 exatamente dentro de aludido contexto: um direito à vida voltado às necessidades de
toda população brasileira, interessado em proteger os valores fundamentais da pessoa
humana”. (FIORILLO, 2010, p. 50-51).
Se o ambiente é aspecto essencial do desenvolvimento da pessoa, e se cada um, no seu status personae, tem direito a um habitat que garanta a qualidade da vida, deve-se reconhecer a cada um o direito de agir para que isso deve-se realize. O interesdeve-se é juridicamente protegido pelo próprio Texto Constitucional. Além da tutela do patrimônio do Estado, a proteção do ambiente refere-se à tutela da qualidade da vida como direito que se relaciona diretamente ao status personae. (PERLINGIERI, 2007, p. 173).
Dessa maneira, o meio ambiente, “bem criado pela Constituição Federal de 1988
é, pois, um bem de uso comum, [...], um bem que pode ser desfrutado por toda e qualquer
pessoa dentro dos limites constitucionais”. (GRAF, 2000, p. 54).
Prado (2009, p. 64) afirma que “a questão ambiental emerge, portanto, no terreno
político-econômico e da própria concepção de vida do homem sobre a terra”.
No sentido de direito à vida, assegurado a todos os cidadãos, o artigo 225 da
Constituição Federal, corrobora para a interpretação do meio ambiente como garantia de vida
e de qualidade de vida.
“Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem
de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à
coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
(BRASIL, CF, 2011).
Como toda pessoa é o valor fonte, é o fundamento do ordenamento jurídico, todo ser humano possui direitos da personalidade como razão de ser de sua própria existência, sendo os direitos da personalidade a ela inerentes, como atributo essencial à sua constituição. Continua, enunciando que a cada civilização