Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais
Registro de Candidatura Nº 875-13.2014.6.13.0000Impugnante(S): COLIGAÇÃO MINAS PRA VOCÊ
Impugnado(S): COLIGAÇÃO A VEZ DE MINAS (DEM / PSDB / PP / PR / PSD / SD) VITOR PENIDO DE BARROS, CARGO DEPUTADO FEDERAL, Nº: 2526
Relator(a): Juiz Alberto Diniz Júnior Ementa:
Registro de candidatura. Eleições 2014. Ação de Impugnação de Registro de Candidatura – AIRC. Alegação de inelegibilidade. Suspensão dos direitos políticos. Improbidade administrativa. Decisão proferida por Tribunal de Justiça. Apresentação de embargos de declaração.
O julgamento de embargos de declaração, tenham eles ou não efeito modificativo, complementa e integra o acórdão atacado, formando um todo indissociável. A decisão colegiada com embargos de declaração pendentes de julgamento não pode ser considerada para fins de reconhecimento de inelegibilidade perante a Justiça Eleitoral.
Improcedência da AIRC. Registro deferido.
RELATÓRIO
Trata-se de requerimento de registro de candidatura (RRC) de VITOR PENIDO DE BARROS, ao cargo de Deputado Federal pelo(a) COLIGAÇÃO A VEZ DE MINAS (DEM / PSDB / PP / PR / PSD / SD).
A COLIGAÇÃO MINAS PRA VOCÊ (PT/PMDB/PC do B/PROS/PRB) apresentou ação de impugnação ao registro de candidatura – AIRC em face de VITOR PENIDO DE BARROS (fls. 29-37).
Alega que o impugnado requereu seu registro como pretenso candidato à reeleição ao cargo de Deputado Federal pela COLIGAÇÃO A VEZ DE MINAS e, conforme consta do sistema DivulgaCand 2014, ele apresentou apenas certidão criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, descuidando da natureza cível, bem como daquela “para fins eleitorais”, que o referido tribunal fornece. Ressalta que o ato, tudo indica, foi propositadamente pensado para
tentar subtrair o conhecimento deste TRE e da Procuradoria Regional Eleitoral de Minas Gerais sobre a condenação, confirmada na instância estadual em ação civil pública por improbidade administrativa, com acórdão publicado em 7/3/2014, decisão esta confirmada por meio de embargos de declaração, que suprimiu omissão apontada pelo Ministério Público Estadual, julgando reexame necessário omitido quando da apreciação da apelação e, nessa oportunidade, explicitou aplicação da pena de suspensão de direitos políticos por três anos. Afirma que o impugnado está inelegível com base no art. 1º, I, “l”, da Lei Complementar 64, de 18/5/1990 (Lei de Inelegibilidade) decorrente da condenação colegiada “primeva”, somada à pena de inelegibilidade aplicada pela Corte Estadual em embargos de declaração, decisão publicada em 11/7/2014. Sustenta que o ato doloso de improbidade configurou enriquecimento ilícito, pois como já afirmado pelo TJMG declarou ter havido evidente fraude a procedimento licitatório para beneficiamento do filho do então prefeito, ora impugnado e sua empresa. Menciona trechos do julgado do TJMG. Ressalta que o dano ao erário é presumido com base no art. 10 da Lei 8.429/1992 (Lei de Improbidade Administrativa) e diante da “desfaçatez” com a qual se fraudou procedimento licitatório para benefício próprio e de seu filho. Menciona precedentes no tocante ao disposto no art. 1º, I, “l”, da Lei de Inelegibilidade. Acrescenta que o quadro fático, comprovado pela documentação anexada, dá conta que o pretenso candidato incorre em causa de inelegibilidade não podendo pretender registro de candidatura. Arrola testemunhas e também requer o depoimento pessoal do impugnado. Pede que seja requisitado o Município de Nova Lima para apresentar documentos: a) planilha detalhada informando quanto foi gasto com à empresa que fraudulentamente contratou com aquele município; b) cópia de recursos, petições e outros documentos referentes à improbidade em questão; c) eventuais procedimentos administrativos instaurados contra a empresa envolvida na fraude. Pede o processamento da impugnação, intimação do Ministério Público para integrar a lide, bem como para expedir ofício ao TJMG e ao Município de Nova Lima, para que apresentem nos autos cópias dos documentos referentes à condenação por improbidade administrativa que
sustenta esta demanda. Requer, ao final, a procedência do pedido para o fim de indeferir o registro de candidatura em questão.
Junta documentos (fls. 38-687).
VÍTOR PENIDO DE BARROS e a COLIGAÇÃO A VEZ DE MINAS apresentaram contestação (fls. 693-713). Alega que o impugnante se equivocou ao afirmar que o caso se enquadra no art. 1º, I, “l”, da Lei de Inelegibilidade. Afirma que o dispositivo legal exige que a decisão proferida por órgão colegiado seja definitiva, o que não ocorreu na ação civil apontada. Destaca que o cenário processual da ação civil pública é o seguinte:
“* Em primeira instância a Ação Civil Pública foi julgada parcialmente procedente com a condenação do Impugnado Vitor Penido de Barros e outros, por ato de improbidade administrativa, por atos atentatórios aos Princípios da Administração Pública, proibindo-os de contratar com o Poder Público ou receber benefícios e incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual sejam sócios, pelo prazo de três anos (Doc. 01)
* Desta sentença foi interposto, pelo ora Impugnado e outros, recurso de apelação, sendo que pelo Autor – Ministério Público Estadual, não foi aviado qualquer recurso.
* O recurso de apelação foi julgado parcialmente procedente tendo sido o acórdão publicado em 07/03/2014. (Doc. 02)
* Publicado referido acórdão, o Ministério Público interpôs embargos de declaração com pedido de efeitos modificativos, argüindo a ausência de manifestação sobre o reexame necessário (Doc. 03)
* Em julgamento ocorrido em 3/7/2014, foram acolhidos, com efeitos modificativos, os embargos de declaração procedendo-se na sequência ao reexame necessário da sentença, culminando na sua reforma parcial. Ressalte-se que é nesta reforma parcial da sentença, que foi incluída a condenação do ora Impugnado à penalidade de suspensão dos direitos políticos pelo prazo de 03 (três) anos.
* Este novo acórdão, referente tanto aos embargos de declaração quanto ao reexame necessário foi publicado em 11/07/2014. (Doc. 04)
* Entretanto, pelo ora Impugnado foram interpostos embargos de declaração, também com pedido de efeitos modificativos, por haver, neste novo acórdão publicado em 11/07/2014, contradição na parte em que foram julgados os embargos de declaração e nulidade, por error in procedendo, no que se referiu ao julgamento do reexame necessário, conforme se demonstra através da peça processual referentes aos embargos de declaração, em anexo, devidamente protocolada tempestivamente junto ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais. (Doc. 05)”.
Conclui que a decisão na qual se baseia a impugnante para requerer a procedência do pedido está pendente de julgamento, não havendo decisão aperfeiçoada proferida por órgão judicial colegiado. Ressalta que não se trata
de segundos embargos opostos pelo impugnado, o que, segundo o impugnado, não retiraria o efeito suspensivo provocado pela interposição de embargos, mas de embargos de declaração interposto a primeira vez diante do novo acórdão publicado. Menciona precedentes. Afirma que não há dúvida quanto à inexistência de decisão definitiva proferida pelo TJMG, “posto que a decisão proferida pelo órgão colegiado quando do julgamento da apelação, encontra-se suspensa, pendente de julgamento de embargos de declaração, recurso que nos termos do art. 538 do CPC, possui efeito suspensivo, fato este que, por si só, impede a pretensão aviada na Impugnação ao Registro de Candidatura”. Ressalta que ainda que fossem interpostos embargos de declaração de embargos de declaração este Tribunal decidiu que a matéria também estaria pendente de julgamento. Menciona precedentes.
Acrescenta que este não é o único fato que impede a procedência do pedido, pois há ainda a ausência dos requisitos previstos na Lei da Ficha Limpa. Alega que a sentença concluiu pela existência de ato ímprobo pela não observância aos princípios da Administração Pública (art. 11 da Lei de Improbidade Administrativa). Sustenta que o acórdão publicado em 7/3/2014, embora parcialmente procedente, ratificou o entendimento proferido na sentença, mantendo a condenação do impugnado com base no art. 11 da Lei de Improbidade Administrativa, ou seja, “não se verificou a hipótese de condenação das hipóteses típicas do art. 9º - enriquecimento ilícito e do art. 10 – dano ao erário”. Afirma que o acórdão proferido quando do julgamento dos embargos de declaração e reexame necessário, manteve a condenação exclusivamente nos termos do artigo 11 da Lei de Improbidade Administrativa, ficando consignado a inexistência de dano ao erário. Destaca que pelo acórdão não se cogitou, em nenhum momento, acerca da existência de dano ao erário ou do seu enriquecimento ilícito. Acrescenta que o texto legal é claro no sentido de que, para ser inelegível, o candidato deve ter sido condenado por ato doloso de improbidade administrativa e enriquecimento ilícito. Menciona precedentes.
Alega também que o prazo para registro de candidatura, prazo este no qual o candidato dever reunir todas as condições de elegibilidade para a
eleição disputada, encerrou-se em 5/7/2014 e o referido acórdão sustentado pela impugnante foi publicado apenas em 11/7/2014.
Afirma que a demanda possui contornos bem delimitados e exclusivamente de direito, pois o que está em análise é uma ação ajuizada, instruída e julgada em primeira instância e pendente de julgamento pelo Tribunal de Justiça de Mina Gerais, não havendo de se falar em produção de outras provas que não a documental representada pela ação judicial, pois nesta instância não de se falar em novo juízo de valor acerca do caso. Assim sendo, está afastada a hipótese de produção de prova testemunhal, requisição de documentos e planilhas e eventuais procedimentos administrativos do Município de Nova Lima. Menciona posicionamento do TSE a respeito.
Por fim, pede que seja julgado improcedente o pedido da AIRC e junta documentos (fls. 717-774).
Foi indeferida a produção de provas, por ser desnecessária (fls. ...)
Foram apresentados embargos de declaração pela COLIGAÇÃO MINAS PRA VOCÊ que foram recebidos como agravo regimental.
VITOR PENIDO DE BARROS e a COLIGAÇÃO A VEZ DE MINAS apresentaram alegações e sustentaram que no lapso temporal havido entre a petição de contestação e as presentes alegações não houve surgimento de fato novo. Ratifica integralmente a contestação apresentada (fls. 816-818).
A COLIGAÇÃO MINAS PRA VOCÊ também apresentou alegações. Ressalta que o acórdão que “desproveu a apelação do impugnado na Ação Civil Pública, publicado em 07.03.2014 (cópia nos autos), anotou, sem meias palavras: “Compulsando a vasta documentação que instrui o feito, verifica-se que dúvidas inexistem de que o apelante Vitor Penido de Barros, no exercício de cargo público (Prefeito), utilizou-se de suas funções para beneficiar [dolo] um participante em detrimento de outros [dano/lesão] e, causando, ainda, enriquecimento ilícito de terceiro [enriquecimento de terceiro]”. Acrescenta que, além da incursão pelo art. 10 da Lei de Improbidade Administrativa, a conduta atraiu a extensão das penas dos arts. 11 e 12 da mesma norma, não deixando possibilidade de se negar aplicação da Lei da Ficha Limpa.
em Ação Civil Pública, afirma que esta não procede, pois basta uma leitura do art. 1º, I, “l” da Lei de Inelegibilidade que apresenta duas alternativas: a decisão transitada em julgado ou aquela proferida por órgão colegiado para se observar a possibilidade de se escolher uma das duas. Afirma que o próprio impugnado informou que a decisão do TJMG se encontra sob efeitos de embargos que não têm o condão de rediscutir a causa, senão colmatar omissões, acertar contradições e/ou esclarece obscuridades. Menciona precedentes do TSE e deste Tribunal. Ao final, após apresentar seus demais argumentos, pede o provimento dos embargos anteriormente apresentados e, devolução do prazo para prática dos atos instrutórios, assim como renovação das presentes alegações finais e, por cautela, pede a procedência do pedido com indeferimento do registro.
A Procuradoria Regional Eleitoral teve vista dos autos (fls. 929). É o relatório.
VOTO
Inicialmente, ressalto que o processo está devidamente saneado não comportando qualquer dilação probatória, conforme já decidido também no Agravo Regimental interposto pela COLIGAÇÃO MINAS PRA VOCÊ (embargos de declaração recebidos como agravo regimental e já decididos por este Tribunal).
O objeto da demanda consiste em aferir se VITOR PENIDO DE BARROS estava inelegível ao tempo do pedido de seu registro de candidatura, com base em condenação em ação civil pública que versa sobre suposta fraude em procedimento licitatório com aplicação de pena de suspensão dos direitos políticos pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
No presente caso, a Juíza de Direito da 2ª Vara Cível de Nova Lima julgou procedente em parte o pedido e condenou VITOR PENIDO DE BARROS, Vitor Sarti Barros e Posto Bicame Ltda por ato de improbidade administrativa por atos atentatórios aos princípios da administração pública, proibindo-os de contratar com o Poder Público ou receber benefícios e incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa
jurídica da qual sejam sócios, pelo prazo de três anos. A magistrada condenou apenas os réus ao pagamento proporcional a 50% das custas processuais e honorários advocatícios, estes fixados em R$ 6.000,00, sem condenação do autor em custas e honorários (fls. 520).
Desta decisão, houve apelação ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que deu provimento parcial ao apelo apenas para afastar a condenação do Posto Bicame Ltda., VITOR PENIDO DE BARROS e Vitor Vinícius Sarti Barros ao pagamento de honorários advocatícios (fls. 602).
O Ministério Público Estadual apresentou embargos de declaração que foram acolhidos pelo TJMG que proferiu novo acórdão, em 3/7/2014, e em reexame necessário, reformou parcialmente a sentença para condenar os requeridos à penalidade de “‘perda dos direitos políticos pelo prazo de 03 (três) anos’ (Vitor Penido de Barros e Vitor Vinícius Sarti Barros), bem como à de ‘proibição de contratar com o Poder Público ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de três anos’ (Vitor Penido de Barros, Vítor Vinícius Sarti Barros e Posto Bicame Ltda) (artigos 11 e doze da Lei nº 8.429/92)” (fls. 685).
Esta decisão foi publicada em 11/7/2014 (fls. 687).
Em 18/7/2014, VITOR PENIDO DE BARROS, Vítor Vinícius Sarti Barros e Posto Bicame Ltda apresentaram no TJMG embargos de declaração (fls. 757).
Feitas essas considerações, tem-se que no julgamento do Recurso Eleitoral 75-12.2012.6.13.0046, Relatora Juíza Alice de Souza Birchal, julgamento em 22/8/2012, este Tribunal decidiu que:
“...conforme entendimento desta Corte Regional no julgamento do RE 216-17, em 7/8/2012, a decisão colegiada com embargos de declaração pendentes de julgamento não pode ser considerada para fins de reconhecimento de inelegibilidade perante a Justiça Eleitoral. Adotando-se o seguinte precedente do TSE:
ELEIÇÃO 2010. REGISTRO DE CANDIDATURA. DEPUTADO ESTADUAL. RECURSO ORDINÁRIO. ARTIGO 1º, I, l, da LC Nº 64/90, COM A REDAÇÃO DADA PELA LC Nº 135/2010. CONDENAÇÃO. SUSPENSÃO DOS DIREITOS POLÍTICOS. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. LESÃO AO PATRIMÔNIO PÚBLICO. ENRIQUECIMENTO ILÍCITO. RECONHECIMENTO DE CAUSA DE INELEGIBILIDAE. RECURSO PROVIDO. (Recurso Ordinário nº 213689, Acórdão de 25/11/2010, Relator(a) Min. HAMILTON CARVALHIDO, Publicação: PSESS – Publicado em Sessão, Data 25/11/2010)
Naquela oportunidade prevaleceu o entendimento do relator Ministro Hamilton Carvalhido, que fixou o termo de eficácia do acórdão com a proclamação do resultado do julgamento dos embargos de declaração, ponderando:
O julgamento dos declaratórios, tenham eles ou não efeito modificativo, complementa e integra o acórdão atacado, formando um todo indissociável. E, como ato processual, tem na publicação que ocorre com a proclamação do resultado do julgamento o termo inicial de sua existência jurídica, que em nada se confunde com aqueloutro com que se dá ciência às partes do conteúdo, intimação, que marca a lei como inicial do prazo para eventual impugnação recursal”.
Assim sendo, neste caso, havendo pendência de julgamento de primeiros embargos de declaração (fls. 757) opostos por VITOR PENIDO DE BARROS em relação à decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que lhe aplicou a suspensão dos direitos políticos, nos autos de ação civil pública, ainda não se aperfeiçoou o julgado. Afirmamos que nos embargos de declaração opostos no TJMG o impugnado pleiteia até a nulidade de parte do acórdão daquele Tribunal.
Registre-se, ainda, que ao opor seus embargos de declaração às fls. 792 destes autos de Registro de Candidatura a própria COLIGAÇÃO MINAS PRA VOCÊ ressalta que os embargos colaboram para o “aperfeiçoamento da atividade jurisdicional”.
Desta forma, conclui-se que é desnecessário examinar a decisão proferida pelo TJMG para verificar se VITOR PENIDO DE BARROS está ou não inelegível na forma do art. 1º, I, “l”, da Lei Complementar 64, de 18/5/1990 (Lei de Inelegibilidade), pois como mencionado acima a decisão do TJMG ainda não se aperfeiçoou .
POSTO ISSO, julgo improcedente o pedido da AIRC apresentada pela COLIGAÇÃO MINAS PRA VOCÊ e, de conseqüência, defiro o registro de VITOR PENIDO DE BARROS.