(em constru¸ c˜ ao)
Leonardo D. Secchin
UFES
S˜ ao Mateus, 2020
Sum´ ario
1 Matrizes 3
1.1 Opera¸c˜oes usuais com matrizes . . . 4
1.2 Matrizes invers´ıveis . . . 6
1.3 Demonstra¸c˜oes . . . 7
1.4 Exerc´ıcios . . . 7
2 Sistemas Lineares 10 2.1 Opera¸c˜oes e matrizes elementares . . . 11
2.2 Resolu¸c˜ao de sistemas lineares . . . 15
2.3 Um processo para invers˜ao de matrizes . . . 17
2.4 Demonstra¸c˜oes . . . 18
2.5 Exerc´ıcios . . . 19
2.6 Notas . . . 21
3 Determinantes 22 3.1 Desenvolvimento de Laplace . . . 23
3.1.1 Casos particulares . . . 26
3.2 Determinantes e matrizes elementares . . . 27
3.3 Propriedades adicionais dos determinantes . . . 29
3.4 Demonstra¸c˜oes de resultados . . . 30
3.5 Exerc´ıcios . . . 32
3.6 Notas . . . 34
4 Espa¸cos Vetoriais 35 4.1 Motiva¸c˜ao . . . 35
4.2 Espa¸cos Vetoriais . . . 35
4.3 Subespa¸cos vetoriais . . . 38
4.4 Combina¸c˜ao linear . . . 41
4.5 Dependˆencia e independˆencia linear . . . 43
4.6 Base e dimens˜ao de um espa¸co vetorial . . . 44
4.7 Mudan¸ca de base . . . 50
4.8 Demonstra¸c˜oes . . . 53
4.9 Exerc´ıcios . . . 54
5 Transforma¸c˜oes Lineares 58 5.1 Motiva¸c˜ao . . . 58
5.2 Transforma¸c˜oes Lineares – defini¸c˜ao . . . 59
5.3 Exemplos . . . 59
5.3.1 Transforma¸c˜oes deR2 em R2 (do “plano no plano”) . . . 59
5.3.2 Outros exemplos . . . 63
5.4 Conceitos e teoremas . . . 64 1
5.4.1 Imagem e N´ucleo . . . 65
5.4.2 Injetividade e sobrejetividade . . . 66
5.5 A matriz de uma transforma¸c˜ao linear . . . 68
5.6 Demonstra¸c˜oes . . . 74
5.7 Exerc´ıcios . . . 77
6 Autovalores e Autovetores 81 6.1 Matrizes . . . 83
6.2 C´alculo de autovalores – o polinˆomio caracter´ıstico . . . 85
6.2.1 Casos particulares . . . 88
6.3 Autovalores de operadores via matrizes . . . 89
6.4 Multiplicidades alg´ebrica e geom´etrica . . . 90
6.5 Autopares e cˆonicas rotacionadas . . . 91
6.6 Exerc´ıcios . . . 95
7 Diagonaliza¸c˜ao 96 7.1 Diagonaliza¸c˜ao de operadores . . . 96
7.1.1 Bases formadas por autovetores . . . 96
7.1.2 Matrizes . . . 100
7.1.3 O polinˆomio minimal . . . 100
7.1.4 Diagonaliza¸c˜ao e multiplicidade geom´etrica – uma vis˜ao geom´etrica . . . 106
7.2 Diagonaliza¸c˜ao de matrizes sim´etricas . . . 106
7.3 Matrizes semelhantes . . . 107
7.4 Demonstra¸c˜oes . . . 109
7.5 Exerc´ıcios . . . 112
8 Produto Interno 114
A Dicas e respostas dos exerc´ıcios 115
Cap´ıtulo 1 Matrizes
Uma matriz Am×n de ordem m×n ´e uma tabela de n´umeros reais dispostos em m linhas e n colunas
Am×n =
a11 a12 · · · a1n a21 a22 · · · a2n
... ... · · · ... am1 am2 · · · amn
= [aij]m×n
Defini¸c˜ao 1.1. Duas matrizes A = [aij]m×n e B = [bij]r×s s˜ao iguais se m = r, n = s e aij =bij para todos i= 1,· · ·m e j = 1,· · · , n.
Dada uma matriz A= [aij]m×n, dizemos que A´e
quadrada sem =n. Neste caso, podemos dizer simplesmente que A tem ordemn.
matriz nula seaij = 0 para todosi, j.
matriz linha seA tem ordem 1×n (possui apenas uma linha).
matriz coluna se A tem ordemm×1 (possui apenas uma coluna).
matriz diagonalseA´e quadrada eaij = 0 sempre quei6=j. Os elementosa11, a22,· · · , ann constituem adiagonal principaldeA. Por exemplo, a matrizAabaixo ´e matriz diagonal:
A=
1 0 0
0 2 0
0 0 −1
. Em particular, a matriz diagonal
In =
1 0 · · · 0 0 1 · · · 0 ... ... · · · ... 0 0 · · · 1
cuja diagonal principal ´e formada de 1’s ´e chamada matriz identidade (de ordem n).
matriz triangular superior se A´e quadrada e aij = 0 sempre quei > j. Por exemplo,
A =
1 1 2
0 0 3
0 0 −1
´e matriz triangular superior.
3
matriz triangular inferior se A´e quadrada e aij = 0 sempre quei < j. Por exemplo,
A =
1 0 0
2 −1 0 7 −5 1
´e matriz triangular inferior.
matriz sim´etrica seA ´e quadrada eaij =aji para todos i, j. Por exemplo,
A =
1 1 2
1 0 −1
2 −1 −1
´e matriz sim´etrica.
1.1 Opera¸ c˜ oes usuais com matrizes
Dadas A= [aij]m×n e B= [bij]m×n matrizes de mesma ordem m×n ek ∈R, definimos as opera¸c˜oes com matrizes:
asoma A+B ´e a matriz C= [cij]m×n de ordem m×n tal que cij =aij +bij para todos i, j.
amultiplica¸c˜ao por escalarkA´e a matriz C= [cij]m×n de ordemm×n tal quecij =kaij para todosi, j.
Exemplo 1.1. Seja A=
1 0
−1 2
e B=
1 −1
4 2
. Ent˜ao
A+ 2B =
1 0
−1 2
+ 2
1 −1
4 2
=
1 0
−1 2
+
2 −2
8 4
=
3 −2
7 6
As opera¸c˜oes de soma e multiplica¸c˜ao por escalar seguem as mesmas regras que a de n´umeros reais.
Teorema 1.1 (Propriedades da soma e da multiplica¸c˜ao por escalar). Dadas matrizes A, B e C de ordem m×n e a, b∈R, vale:
(i) A+B =B+A (comutatividade) (ii) A+ (B+C) = (A+B) +C (iii) a(bA) = (ab)A
(iv) A+0m×n=A, onde 0m×n ´e matriz nula1. (v) a(A+B) =aA+aB
(vi) (a+b)A=aA+bA
1Denotaremos a matriz nula por0(emnegrito) e o n´umero real zero por 0.
CAP´ITULO 1. MATRIZES 5 (vii) 0A =0m×n (a multiplica¸c˜ao da matriz A pelo escalar 0´e matriz nula)
A transposta de uma matriz A= [aij]m×n ´e a matriz At= [aji]n×m. Exemplo 1.2.
A=
1 2 3
−1 0 2
2×3
⇒At =
1 −1
2 0
3 2
3×2
.
Teorema 1.2 (Propriedades da transposi¸c˜ao de matrizes). Seja A uma matriz e a∈R. Vale:
(i) A ´e sim´etrica se, e somente se At=A.
(ii) (At)t=A.
(iii) (A+B)t =At+Bt. (iv) (aA)t=aAt.
Agora, dadasA = [aij]m×p eB= [bij]p×n definimos a multiplica¸c˜ao AB(de matrizes) como a matriz C= [cij]m×n tal que
cij =ai1b1j+ai2b2j +· · ·+aipbpj =
p
X
k=1
aikbkj.
Muita aten¸c˜aonas ordens das matrizes: o produto AB s´o´e poss´ıvel se o n´umero de colunas deA´e igual ao n´umero de linhas deB(veja que a soma acima s´o faz sentido neste caso). Ent˜ao ao multiplicar matrizes, observe as ordens:
h
m×pi h
p×ni
=h
m×ni
N˜ao confunda a multiplica¸c˜ao de uma matriz por um escalar com a multiplica¸c˜ao de duas matrizes. S˜ao opera¸c˜oes diferentes!
A express˜ao de cij acima significa que a entrada (i, j) do produtoAB´e obtida somando os
“produtos correspondentes entre a linha i deA e a coluna j de B”. De fato, observe na soma que aparecem os ´ındices ai∗ e b∗j (o ´ındice k percorre a linha de A e a coluna de B).
No exemplo a seguir, imagine a multplica¸c˜ao da linha 1 de A contra a coluna 1 de B; isso fornecer´a o elemento da primeira linha, primeira coluna de AB. Fa¸ca o mesmo racioc´ınio para os outros elementos de AB.
Exemplo 1.3.
A=
1 2 3
−1 0 2
2×3
, B=
1 0 −1 4
2 2 1 0
0 1 0 −1
3×4
⇒AB=
5 7 1 1
−1 2 1 −6
2×4
.
Ao contr´ario das outras opera¸c˜oes com matrizes, a multiplica¸c˜ao entre matrizes n˜ao se comporta exatamente como a multiplica¸c˜ao entre n´umeros reais. O exemplos a seguir mostra que
nem sempre´e verdade que AB=BA;
nem sempre´e verdade que se AB=0 ent˜ao A=0 ou B=0.
Exemplo 1.4.
A =
1 −1 1 −1
, B=
1 1 1 1
⇒ AB=
0 0 0 0
, BA=
2 −2 2 −2
.
Teorema 1.3 (Propriedades da multiplica¸c˜ao entre matrizes). Sejam A, B e C matrizes.
Desde que as opera¸c˜oes sejam poss´ıveis, vale:
(i) AI=A e IA=A
(ii) A(B+C) = AB+AC (distributividade) (iii) (A+B)C=AC+BC (distributividade)
(iv) (AB)C=A(BC) (associatividade) (v) (AB)t=BtAt
(vi) A0=0 (a multiplica¸c˜ao da matriz A pela matriz nula ´e matriz nula)
Atividade 1.1. Verifique as propriedades (ii) e (v) para matrizes A de ordem 2×3 e B, C de ordem 3×3. Tente se convencer que vale para quaisquer ordens.
1.2 Matrizes invers´ıveis
Dada uma matriz quadrada A de ordem n, dizemos que B ´e uma inversa de A se AB= BA=In (B tamb´em deve ser quadrada de ordem n). Neste caso diremos que A´einvers´ıvel.
Teorema 1.4 (Unicidade da inversa). Se A admite uma inversa, ela ´e ´unica.
Devido `a unicidade da inversa, denotaremos a inversa de A por A−1
O pr´oximo resultado ´e ´util para verificar se uma matriz ´e a inversa de outra. Ele diz que para verificar que B ´e a inversa de A, basta verificar se alguma das express˜oes vale: AB=I ouBA=I; ou seja, n˜ao ´e necess´ario verificar as duas. N˜ao daremos uma demonstra¸c˜ao neste momento.
Teorema 1.5. Se A ´e matriz quadrada e B ´e tal que BA = I (ou AB = I), ent˜ao A ´e invers´ıvel e A−1 =B.
CAP´ITULO 1. MATRIZES 7 Exemplo 1.5. A matriz B= 1
2
−4 2 3 −1
´
e a inversa de A =
1 2 3 4
. De fato,
AB=
1 2 3 4
1 2
−4 2 3 −1
= 1 2
1 2 3 4
−4 2 3 −1
=I2.
Teorema 1.6(Inversa do produto). SejamA eB matrizes invers´ıveis de mesma ordem. Ent˜ao AB´e invers´ıvel, com
(AB)−1 =B−1A−1.
1.3 Demonstra¸ c˜ oes
Demonstra¸c˜ao do Teorema 1.4. Se B e C s˜ao inversas de A ent˜ao AB = BA = I e AC = CA=I. Assim,
B=BI=B(AC) = (BA)C=IC=C.
Demonstra¸c˜ao do Teorema 1.6. Como A−1 e B−1 s˜ao matrizes quadradas de mesma ordem, o produto B−1A−1 pode ser realizado. Neste caso,
(B−1A−1)(AB) =B−1(A−1A)B=B−1(IB) =B−1B =I, e pelo Teorema 1.5 conclu´ımos que AB´e invers´ıvel, e sua inversa ´e B−1A−1.
1.4 Exerc´ıcios
1. Dadas as matrizes A=
0 0 1 0
, B =
1 2
−1 3
, C=
3 0 2 −2
, D=
1 2 −1 1 0 2
e E=
3 2 −1
−1 3 0 0 1 −1
, fa¸ca:
(a) A+B (b) −3B+ 4B
(c) B3 =BBB
(d) 2A(C−2Bt) (e) AB(DE) (f) EtDt
(g) Mostre que A ´e idem- potente, isto ´e, que A2 =AA =0
(h) Mostre que CB6=BC 2. SeA eB s˜ao matrizesm×n quaisquer, mostre que (A+B)t=At+Bt e (αA)t =αAt,
onde α∈R.
3. Mostre que para qualquer matrizA(quadrada ou n˜ao),AAteAtAs˜ao matrizes sim´etricas.
4. SejamA, B matrizes sim´etricas.
(a) Mostre que A+B ´e sim´etrica.
(b) Mostre que AB´e sim´etrica se, e somente se, BA=AB.
(c) Mostre que A2 =AA ´e sim´etrica.
(d) Mostre que 2A2−3A+In ´e sim´etrica.
(e) Indicamos por Xm o produto XX· · ·X, ondeX ´e multiplicada m vezes. Se p(X) = akXk+ak−1Xk−1+· · ·+a1X+a0In´e um polinˆomio, ondeX´e uma matriz de ordem n, ent˜aop(A) ´e sim´etrica? Justifique.
5. SejaA uma matriz de ordemn.
(a) Mostre que A+At ´e sim´etrica.
(b) Uma matriz B = [bij] de ordem n ´e dita anti-sim´etrica se bij = −bji,∀i, j (nesse caso, quem ´e a diagonal principal?). Mostre queA−At´e anti-sim´etrica.
(c) Mostre que A ´e escrita, de maneira ´unica, como A = S+K, onde S ´e sim´etrica e K´e anti-sim´etrica.
(d) Mostre que se A2−3A+I=0 ent˜aoA−1 = 3I−A.
(e) Mostre que se A2 =0 ent˜aoI−A´e invers´ıvel.
(f) Mostre que seA3 =0 ent˜aoI−A´e invers´ıvel.
(g) Generalizando os dois itens anteriores, mostre que se Ak+1 =0 para algum inteiro k≥0, ent˜ao (I−A)−1 =I+A+· · ·+Ak.
(h) Mostre que se A2+ 2A+I=0 ent˜aoA ´e invers´ıvel.
(i) Mostre que se A3−A+I=0 ent˜aoA ´e invers´ıvel.
(j) Se A ´e invers´ıvel e AB=AC, mostre que B=C.
(k) Dˆe um exemplo em que A´e n˜ao nula e AB=AC, mas B6=C
(e portanto vocˆe n˜ao pode “cortar” a matrizA como faz com n´umeros reais).
6. Mostre que seA ouB n˜ao for invers´ıvel ent˜aoAB tamb´em n˜ao ´e (ou equivalentemente, se ABfor invers´ıvel ent˜ao A e B tamb´em s˜ao).
7. SejaA uma matriz invers´ıvel. Mostre que (a) (At)−1 = (A−1)t.
(b) BA−1 =A−1B se, e somente se, AB=BA.
(c) A+B eI+BA−1 s˜ao ambas invers´ıveis ou ambas n˜ao invers´ıveis.
8. Mostre que se uma matriz quadradaAsatisfazA3+ 4A2−2A+ 7I=0ent˜aoAttamb´em satisfaz.
9. Mostre que seAtA=A ent˜aoA ´e sim´etrica e A=A2.
10. Seja A = [aij] uma matriz de ordem n. O tra¸co de A, tr(A), ´e a soma de todos os elementos da diagonal principal, isto ´e, tr(A) =a11+a22+· · ·+ann. Mostre que
(a) tr(αA) =αtr(A), onde α∈R. (b) tr(A+B) = tr(A) +tr(B).
(c) tr(AB) =tr(BA).
(d) tr(At) =tr(A).
(e) tr(AtA)≥0.
Dica: Fa¸ca as contas para uma matriz A de ordem 3. Talvez vocˆe consiga visualizar melhor o processo.
11. Mostre que n˜ao existem matrizes A e B de ordem n tais que AB−BA=In.
CAP´ITULO 1. MATRIZES 9 12. Considere A eB como matrizes quadradas de mesma ordem, e suponha que AB=BA.
Mostre que (A+B)2 =A2+ 2AB+B2 e (A+B)(A−B) = A2−B2.
13. (a) Seja A a matriz de ordem 3 cujas entradas da diagonal principal e abaixo dela s˜ao nulas, enquanto as entradas acima da diagonal principal s˜ao todas iguais a 1:
A=
0 1 1 0 0 1 0 0 0
.
EncontreA2,A3,A4, . . .. Fa¸ca o mesmo para matrizes de ordem 4.
(b) Seja B=A+I3. Calcule A2,A3 e A4. 14. Seja A =
cosθ −senθ sen θ cosθ
. Mostre que A2 =
cos 2θ −sen 2θ sen 2θ cos 2θ
. Por indu¸c˜ao, determine Ak para qualquer inteiro positivo k.
15. Mostre que se A e B s˜ao matrizes quadradas de mesma ordem tais que Ak = 0 para algum inteiro k≥1 e AB=BA, ent˜ao (AB)k=0.
16. Diz-se que uma matriz quadrada A ´e nilpotente quando existe um inteiro k ≥ 1 tal que Ak =0. Mostre que qualquer matriz nilpotente n˜ao ´e invers´ıvel.
17. Mostre que uma matriz diagonal A = [aij] de ordem n tal que a11a22· · ·ann 6= 0 ´e invers´ıvel, e calcule sua inversa.
18. Mostre que se a matriz A =
a b c d
´e invers´ıvel ent˜ao ad−bc 6= 0. Neste caso calcule A−1.
19. Sejam A e B matrizes quadradas de ordem n. Mostre que se AX = BX para todas as matrizes X de ordem n×1, ent˜ao A=B.
20. Mostre que seAB=A eBA=B ent˜aoA2 =A e B2 =B.
Sistemas Lineares
Uma equa¸c˜ao linear nas vari´aveis x1, . . . , xn ´e uma equa¸c˜ao do tipo a1x1+· · ·+anxn =b onde os ai’s e b s˜ao escalares. Um sistema de equa¸c˜oes lineares (ou simplesmente um sistema linear) com m equa¸c˜oes e n inc´ognitas ´e dado por
a11x1 +a12x2 · · · a1nxn = b1 a21x1 +a22x2 · · · a2nxn = b2
... ... ... ...
am1x1 +am2x2 · · · amnxn = bm
(2.1)
Umasolu¸c˜aodo sistema linear (2.1) ´e uma lista de nn´umeros (x1, . . . , xn) que satisfaz cada uma de suas m equa¸c˜oes.
Tomando A = [aij]m×n, X =
x1
... xn
e B =
b1
... bm
, podemos escrever o sistema (2.1) na forma matricial
AX=B.
Neste caso, A ´e dita matriz dos coeficientes de (2.1); X´e ditamatriz das inc´ognitas de (2.1) e B ´e dita matriz dos termos independentes de (2.1). Em particular, se B =0 ent˜ao o sistema AX = 0 ´e dito sistema homogˆeneo. Considerando a forma matricial de um sistema linear, diremos tamb´em que a matriz X0 ´e solu¸c˜ao do sistema AX=B se AX0 =B.
A matriz
[A|B] =
a11 a12 · · · a1n b1 a21 a22 · · · a2n b2
... ... · · · ... am1 am2 · · · amn bm
m×(n+1)
´
e a matriz ampliada do sistema (2.1).
10
CAP´ITULO 2. SISTEMAS LINEARES 11
2.1 Opera¸ c˜ oes e matrizes elementares
Numa matrizA de ordem m×n, consideramos trˆes opera¸c˜oes sobre suaslinhas:
(i) troca da linha i com a linhaj (i6=j). Indicaremos essa opera¸c˜ao por Li ↔Lj. (ii) multiplica¸c˜ao da linha i por um n´umero realk 6= 0 (Li →kLi).
(iii) substitui¸c˜ao da linha i pela linha i somada ao m´ultiplo k da linha j (i 6=j). Neste caso pode-se ter k = 0. Indicaremos essa opera¸c˜ao por Li →Li+kLj.
As trˆes opera¸c˜oes acima s˜ao chamadas opera¸c˜oes elementares.
Exemplo 2.1. Seja A=
1 0
4 −1
−3 2
.
realizemos a opera¸c˜ao elementar L1 ↔L2 sobreA:
A=
1 0
4 −1
−3 2
→A1 =
4 −1
1 0
−3 2
.
realizemos a opera¸c˜ao elementar L3 →2L3 sobre A1:
A1 =
4 −1
1 0
−3 2
→A2 =
4 −1
1 0
−6 4
.
realizemos a opera¸c˜ao elementar L2 →L2+ 3L1 sobre A2:
A2 =
4 −1
1 0
−6 4
→C=
4 −1 13 −3
−6 4
.
Defini¸c˜ao 2.1. SejamAeCmatrizes de mesma ordem. Dizemos queC´elinha equivalente
`
a A se C pode ser obtida de A pela aplica¸c˜ao de finitas opera¸c˜oes elementares.
Assim, no exemplo anterior C´e linha equivalente `a matriz A.
O estudo de matrizes equivalentes ´e ´util na resolu¸c˜ao de sistemas lineares. Diremos que dois sistemas linearesAX=BeCX=D que possuem as mesmas solu¸c˜oes s˜aoequivalentes. Nesse contexto, temos o
Teorema 2.1. Dois sistemas lineares cujas matrizes ampliadas s˜ao linha equivalentes s˜ao equi- valentes.
Em outras palavras, o Teorema anterior afirma que ao aplicarmos opera¸c˜oes elementares sobre a matriz ampliada de um sistema, mantemos solu¸c˜oes do sistema. Logo, podemos resolver um sistema linear transformando-o em um sistema mais f´acil, como no exemplo a seguir. Essa ´e a justificativa para o processo de escalonamento.
Exemplo 2.2. Considere o sistema linear S :
2x1 +4x2 +2x3 = 6
−x1 +x3 = −2
x1 +x2 −x3 = 3 .
Apliquemos opera¸c˜oes elementares em sua matriz ampliada:
2 4 2 6
−1 0 1 −2
1 1 −1 3
L3→L3+L2
L1→1/2L1
−−−−−−→
1 2 1 3
-1 0 1 −2
0 1 0 1
L2→L2+L1
−−−−−−→
1 2 1 3
0 2 2 1
0 1 0 1
L1→L1−2L3 L2→L2−2L3
−−−−−−−→
1 0 1 1
0 0 2 −1
0 1 0 1
L2→1/2L2 L2↔L3
−−−−−−→
1 0 1 1
0 1 0 1
0 0 1 −1/2
L1→L1−L3
−−−−−−→
1 0 0 3/2
0 1 0 1
0 0 1 −1/2
= [C|D].
O sistema CX=D dado por
x1 = 3/2
x2 = 1
x3 = −1/2
´
e equivalente ao sistema original S, e claramente tem ´unica solu¸c˜ao (3/2,1,−1/2). Portanto o
sistema inicial S tem esse terno como ´unica solu¸c˜ao.
A ´ultima matriz [C|D] do exemplo anterior tem uma forma interessante pois o sistema asso- ciado ´e de f´acil resolu¸c˜ao. A fim de resolver sistemas lineares de uma forma geral, procuraremos formalizar a estrutura dessa matriz.
Defini¸c˜ao 2.2. Uma matriz A de ordem m×n ´e matriz linha reduzida `a forma escada (MLRFE) satisfaz as seguintes propriedades:
(i) O primeiro elemento n˜ao nulo (da esquerda para a direita) de uma linha n˜ao nula ´e 1 (esse ´e o elemento l´ıder da linha);
(ii) Cada coluna que cont´em o l´ıder de alguma linha tem todos os seus outros elementos nulos;
(iii) Toda linha nula ocorre abaixo das linhas n˜ao nulas;
(iv) Se as linhas 1,2, . . . , r s˜ao as linhas n˜ao nulas de A, e se o l´ıder da linha i ocorre na coluna ki, i= 1, . . . , r, ent˜ao k1 < k2 <· · ·< kr (forma escada).
Exemplo 2.3. S˜ao matrizes linha reduzidas `a forma escada:
1 0 0 3/2
0 1 0 1
0 0 1 −1/2
0 1 2 0 3
0 0 0 1 −1
0 0 0 0 0
In
0m×n
Teorema 2.2. Toda matriz A ´e linha equivalente a uma ´unica matriz linha reduzida `a forma escada.
CAP´ITULO 2. SISTEMAS LINEARES 13 O Teorema acima diz que o processo de escalonamento feito no exemplo anterior ´e universal:
ele sempre´e poss´ıvel, para qualquersistema linear.
Relacionaremos agora opera¸c˜oes elementares com produtos de matrizes.
Defini¸c˜ao 2.3. Uma matriz A quadrada de ordem n ´e dita elementar se pode ser obtida da identidade In por uma ´unica opera¸c˜ao elementar.
Exemplo 2.4. S˜ao exemplos de matrizes elementares:
E=
0 1 0 1 0 0 0 0 1
(L1 ↔L2 em I3)
E=
2 0 0 1
(L1 →2L1 em I2)
E=
1 2 0 0 1 0 0 0 1
(L1 ↔L1 + 2L2 em I3)
Quando convenienete, denotaremos por e(A) a matriz resultante da aplica¸c˜ao da opera¸c˜ao elementar e sobre a matriz A.
Teorema 2.3. Sejae uma opera¸c˜ao elementar e E=e(Im)a matriz elementar correspondente.
Ent˜ao para toda matriz A de ordem m×n temos e(A) =EA.
Em outras palavras, o Teorema 2.3 diz que aplicar uma opera¸c˜ao elementar emA´e o mesmo que multiplicar A a esquerda pela matriz elementar correspondente.
Cada matriz elementar ´e invers´ıvel, e sua inversa ´e a matriz elementar correspondente
`
a opera¸c˜ao que desfaza original:
a opera¸c˜ao Li → 1kLi desfaz a opera¸c˜ao Li → kLi. Assim por exemplo, se E =
1 0 0 k
ent˜aoE−1 =
1 0 0 1/k
(verifique este fato constatando que EE−1 =I2).
a opera¸c˜ao Li → Lj desfaz a pr´opria opera¸c˜ao Li → Lj. Assim por exemplo, se E = 0 1
1 0
ent˜aoE−1 =E (verifique!).
a opera¸c˜ao Li → Li −kLj desfaz a opera¸c˜ao Li → Li +kLj. Assim por exemplo, se E=
1 0 2 1
ent˜aoE−1 =
1 0
−2 1
(verifique!).
Atividade 2.1. Fa¸ca exemplos de inversas de matrizes elementares de ordem 3. Mostre que em geral matrizes elementares tem inversas descritas anteriormente.
Uma consequˆencia imediata do Teorema 2.3 ´e o seguinte:
Corol´ario 2.1. Sejam A e B matrizes de mesma ordem. Ent˜ao B ´e linha equivalente a A se, e somente se B =EkEk−1· · ·E2E1A para certas matrizes elementares E1, . . . ,Ek.
Exemplo 2.5. Mostre que s˜ao linha equivalentes as matrizes A =
1 2 3 6
eB =
9 18 6 12
. Vamos calcular a MLRFE de A:
A=
1 2 3 6
L2→1/3L2
−−−−−−→
1 2 1 2
L2→L2−L1
−−−−−−→C=
1 2 0 0
.
Observe que, sendo E1 =
1 0 0 1/3
eE2 =
1 0
−1 1
as matrizes elementares corresponden- tes `as opera¸c˜oes realizadas, temos
C=E2E1A.
Agora, calculemos a MLRFE de B:
B=
9 18 6 12
L1→1/9L1
−−−−−−→
1 2 6 12
L2→1/6L2
−−−−−−→
1 2 1 2
L2→L2−L1
−−−−−−→
1 2 0 0
=C.
Sendo E3 =
1/9 0 0 1
e E4 =
1 0 0 1/6
temos C=E2E4E3B,
e assim E2E4E3B = E2E1A ⇒ E4E3B = E−12 E2E1A ⇒ · · · ⇒ B = E−13 E−14 E1A. Pelo
Corol´ario anterior, B ´e linha equivalente `aA.
Em particular, se B ´e matriz quadrada de ordem n, linha equivalente `a In, ent˜ao B = Ek· · ·E1In. O produto Ek· · ·E1 =A ´e invers´ıvel com inversa A−1 =E−11 · · ·E−1k (verifique!).
Assim, B = AIn ⇒ A−1B = In, e B ´e invers´ıvel com inversa B−1 = A−1 = E−11 · · ·E−1k . Conclu´ımos ent˜ao que se B ´e linha equivalente `a In (ou equivalentemente, se B ´e produto de matrizes elementares) ent˜ao B ´e invers´ıvel.
A rec´ıproca deste fato tamb´em ´e verdadeira, isto ´e, seB´e invers´ıvel ent˜ao ´e linha equivalente a In (Exerc´ıcio 9). Resumindo esse fato e considerando o Corol´ario 2.1, temos o
Teorema 2.4. Seja A uma matriz quadrada de ordem n. S˜ao equivalentes as afirma¸c˜oes:
(i) A ´e invers´ıvel.
(ii) A ´e linha equivalente `a In.
(iii) A=Ek· · ·E1, para certas matrizes elementares E1, . . . ,Ek.
Com as opera¸c˜oes e matrizes elementares, estabeleceremos uma maneira de 1. Resolver um sistema linear;
2. Inverter uma matriz, ou constatar que n˜ao h´a inversa.
Veremos isso nas se¸c˜oes seguintes.
CAP´ITULO 2. SISTEMAS LINEARES 15
2.2 Resolu¸ c˜ ao de sistemas lineares
A possibilidade de simplifica¸c˜ao da matriz ampliada de um sistema linear para a forma reduzida, garantida pelo Teorema 2.2, resulta em um processo sistem´atico para resolu¸c˜ao de qualquer sistema linear.
Este processo (de escalonamento) nos fornecer´a:
as solu¸c˜oes do sistema, caso existam;
se o sistema possui ´unica ou v´arias solu¸c˜oes;
se o sistema n˜ao possui solu¸c˜ao.
O estudo da quantidade/existˆencia de solu¸c˜oes est´a relacionado com a no¸c˜ao de posto e nulidade das matrizes associadas ao sistema linear.
Defini¸c˜ao 2.4. Dada uma matriz A de ordem m×n, seja B sua MLRFE. Ent˜ao o posto de A´e o n´umero de linhas n˜ao nulas de B. A nulidade de A´e o n´umero n−p, onde p´e o posto de A.
Exemplo 2.6. Seja A =
2 −1 3
1 4 2
1 −5 1 4 16 8
. A MLRFE de A ´e a matriz B =
1 0 14/9 0 1 1/9
0 0 0
0 0 0
, e portanto o posto de A´e 2, e a nulidade deA ´e 3−2 = 1.
Exemplo 2.7. SejaA =
2 1 4
1 2 3
1 −4 −1
. A MLRFE de A´e a matriz B =
1 0 5/3 0 1 2/3
0 0 0
, e
portanto o posto de A´e 2, e a nulidade deA ´e 3−2 = 1.
Teorema 2.5. Seja AX=Bum sistema linear, comm equa¸c˜oes en inc´ognitas (A tem ordem m×n). Ent˜ao
(i) AX = B admite solu¸c˜ao se, e somente se o posto da matriz ampliada [A|B] ´e igual ao posto da matriz dos coeficientes A.
(ii) Se A e [A|B] tˆem mesmo posto p=n ent˜ao AX =B tem ´unica solu¸c˜ao.
(iii) Se A e [A|B] tˆem mesmo posto p < n ent˜ao AX = B tem infinitas solu¸c˜oes. Dizemos neste caso que a nulidade de A ´e o grau de liberdade de AX=B.
Exemplo 2.8. Para cada sistema linear abaixo, diga se h´a ou n˜ao solu¸c˜ao e, caso possua, se ´e
´
unica, infinitas; neste caso, calcule-as (faremos durante a aula):
(a) S :
2x1 +4x2 = 2
x2 = 3
x2 +x3 = 4
Calculemos a MLRFE da matriz ampliada do sistema, escalonando-a:
2 4 0 2 0 1 0 3 0 1 1 4
L1→1
2L1
−−−−−→
1 2 0 1
0 1 0 3
0 1 1 4
L3→L3−L2
L1→L1−2L2
−−−−−−−→
1 0 0 −5
0 1 0 3
0 0 1 1
.
Vemos que o n´umero de linhas n˜ao nulas da MLRFE da matriz ampliada e da MLRFE da matriz dos coeficientes (as trˆes primeiras colunas da ´ultima matriz acima) s˜ao iguais a 3.
Ou seja,
p= posto [A|B] = postoA = 3 =n.
Pelo Teorema 2.5(ii), o sistema S admite ´unica solu¸c˜ao. O sistema equivalente, associado
`
a MLRFE da ampliada, ´e
S0 :
x1 = −5
x2 = 3
x3 = 1 ,
cuja solu¸c˜ao ´eX= (−5,3,1). Geometricamente, o sistema original S´e a interse¸c˜ao de trˆes planos 2 a 2 n˜ao paralelos.
(b) S :
x1 +x2 +x4 = 0
x2 +2x4 = 1
+x2 +x3 = 2
Primeiro escalonamos a matriz ampliada do sistema:
1 1 0 1 0
0 1 0 2 1
0 1 1 0 2
L3→L3−L2
−−−−−−→
1 1 0 1 0
0 1 0 2 1
0 0 1 −2 1
L1→L1−L2
−−−−−−→
1 0 0 −1 −1
0 1 0 2 1
0 0 1 −2 1
Vemos que o n´umero de linhas n˜ao nulas na matriz ampliada escalonada ´e 3, igual ao n´umero de linhas n˜ao nulas da matriz dos coeficientes escalonada (as quatro primeiras colunas da ´ultima matriz acima). Ou seja,
p= posto [A|B] = postoA = 3<4 =n.
Pelo Teorema 2.5(iii), o sistema S admite infinitas solu¸c˜oes. Para encontr´a-las, considera- mos o sistema escalonado, proveniente da forma reduzida da matriz ampliada,
S0 :
x1 −x4 = 0
x2 +2x4 = 1
+x3 −2x4 = 1 ,
cujo conjunto solu¸c˜ao ´e
{X∈R4 |X = (−1 +x4, 1−2x4, 1 + 2x4, x4), x4 ∈R}.
Veja que a nulidade desse sistema ´en−p= 1, o que indica que temos “1 grau de liberdade”, isto ´e, podemos escolher qualquer valor para uma das vari´aveis (no conjunto acima, x4), obtendo v´arias solu¸c˜oes. Assim, x4 faz o papel de vari´avel livre, enquanto as demais est˜ao em fun¸c˜ao de x4.
E interessante observar a geometria do conjunto solu¸c˜´ ao: trata-se de uma reta em R4, passando pelo ponto (−1,1,1,0) na dire¸c˜ao do vetor (1,−2,2,1).
(c) S :
x1 +x2 = 1 2x1 −x2 = 2 x1 −2x2 = 0
CAP´ITULO 2. SISTEMAS LINEARES 17 Escalonemos a matriz ampliada do sistema:
1 1 1
2 −1 2 1 −2 0
L3→L3−L1
−−−−−−→
1 1 1
2 −1 2
0 −3 −1
L2→L2−2L1
−−−−−−−→
1 1 1
0 −3 0
0 −3 −1
L3→L3−L2
L2→12L2
−−−−−−→
1 1 1
0 1 0
0 0 −1
L1→L1−L2 L3→−L3
−−−−−−→
1 0 1
0 1 0
0 0 1
L1→L1−L3
−−−−−−→
1 0 0 0 1 0 0 0 1
.
Assim, as matrizes reduzidas `a forma escada da ampliada e da matriz dos coeficientes s˜ao, respectivamente,
1 0 0 0 1 0 0 0 1
e
1 0 0 1 0 0
.
Essas matrizes tˆem posto diferente: a primeira tem posto 3, e a segunda, 2. Do Teo- rema 2.5(i), conclu´ımos que o sistema S n˜ao possui solu¸c˜ao.
2.3 Um processo para invers˜ ao de matrizes
Sabemos que uma matriz quadrada A ´e invers´ıvel se, e somente se A =E−11 · · ·E−1k , onde E−11 , . . . ,E−1k s˜ao matrizes elementares. Neste caso,
Ek· · ·E1A=I e A−1 =Ek· · ·E1I.
Assim, aplicando as opera¸c˜oes elementares relativas `as matrizes elementares E1, . . . ,Ek sobre [A|I], obtemos a sequˆencia
[A|I]−→E1 [E1A|E1I]−→ · · ·E2 −→Ek [Ek· · ·E1A|Ek· · ·E1I] = [I|A−1].
Em outras palavras, A ´e invers´ıvel se, e somente se [A|I] ´e linha equivalente a uma matriz [I|S], e neste casoA−1 =S.
Exemplo 2.9. Calcular a inversa de cada matriz abaixo, se existir.
(a) A=
1 0 1
−1 2 1 0 2 0
.
[A|I3] =
1 0 1 1 0 0
−1 2 1 0 1 0 0 2 0 0 0 1
L2→L2−L3
L1→L1+L2
−−−−−−→
0 0 2 1 1 −1
−1 0 1 0 1 −1
0 2 0 0 0 1
L2→−L2
L1↔L2 L2↔L3
−−−−−→
1 0 −1 0 −1 1
0 2 0 0 0 1
0 0 2 1 1 −1
L2→1/2L2
L3→1/2L3 L1→L1+L3
−−−−−−→
1 0 0 1/2 −1/2 1/2
0 1 0 0 0 1/2
0 0 1 1/2 1/2 −1/2
.
Logo A−1 = 1 2
1 −1 1
0 0 1
1 1 −1
.
(b) B =
1 2
−2 −4
.
[B|I2] =
1 2 1 0
−2 −4 0 1
L2→L2+2L1
−−−−−−−→
1 2 1 0 0 0 2 1
.
Observe que a MLRFE de B´e a matriz
1 2 0 0
6=I2, e da´ıB n˜ao ´e invers´ıvel.
2.4 Demonstra¸ c˜ oes
Demonstra¸c˜ao do Teorema 2.1. Seja AX = B um sistema linear. ´E suficiente mostrar que cada uma das trˆes opera¸c˜oes elementares sobre [A|B] resulta num sistema linear CX=D com as mesmas solu¸c˜oes de AX =B. Fa¸camos a prova para a opera¸c˜ao Li → Li +kLj (i 6=j) e deixamos as outras duas como exerc´ıcio. Supomos que ao realizar a opera¸c˜ao Li → Li +kLj
sobre [A|B], obtemos a matriz linha equivalente [C|D]. Comparando os sistemas AX = B e CX=D, vemos que a ´unica diferen¸ca est´a na linha i:
ai1x1+ai2x2+· · ·+ainxn =bi ´e a linha i deAX =B;
(ai1+kaj1)x1+ (ai2+aj2)x2 +· · ·+ (ain+ajn)xn= (bi+kbj) ´e a linha i deCX=D;
Ent˜ao,
(x1, . . . , xn) ´e solu¸c˜ao deCX=D m
(ai1+kaj1)x1+ (ai2+aj2)x2+· · ·+ (ain+ajn)xn= (bi+kbj), ak1x1+ak2x2+· · ·+aknxn=bk,∀k 6=i
m
ai1x1+ai2x2+· · ·+ainxn=bi−k(aj1x1+aj2x2+· · ·+ajnxn−bj)
| {z }
0
, ak1x1+ak2x2+· · ·+aknxn=bk,∀k 6=i
m
ak1x1+ak2x2+· · ·+aknxn=bk,∀k m
(x1, . . . , xn) ´e solu¸c˜ao de AX =B, isto ´e, CX=D eAX =B tˆem as mesmas solu¸c˜oes.
Atividade 2.2. Complete a prova do teorema anterior fazendo a demonstra¸c˜ao para as opera¸c˜oesLi ↔Lj e Li →kLi.
Demonstra¸c˜ao do Teorema 2.3. Deixamos a prova do resultado para as opera¸c˜oes Li ↔ Lj e Li → kLi para o leitor. Seja e a opera¸c˜aoLi → Li+kLj (i6=j). Sem perda de generalidade,
CAP´ITULO 2. SISTEMAS LINEARES 19 vamos supor que i= 1 e j = 2. Assim
EA=
1 k 0 · · · 0 0 1 0 · · · 0 ... ... ... · · · ... 0 0 0 · · · 1
a11 a12 a13 · · · a1n
a21 a22 a23 · · · a2n ... ... ... · · · ... am1 am2 am3 · · · amn
=
a11+ka21 a12+ka22 a13+ka23 · · · a1n+ka2n a21 a22 a23 · · · a2n
... ... ... · · · ... am1 am2 am3 · · · amn
=e(A).
Atividade 2.3. Complete a prova do teorema anterior.
2.5 Exerc´ıcios
1. Fa¸ca os exerc´ıcios 1, 3, 4, 5, 6, 7, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 19, 21, 22 do Cap´ıtulo 2 do livro texto [2].
2. Mostre que A eB s˜ao matrizes linha equivalentes.
(a) A=
4 1 3 1
, B=
1 0 0 1
(b) A=
1 2 3 4
, B=
2 1 0 3
(c) A=
2 1 4 0 2 3 0 0 4
,B =
1 0 0
−1 4 0 2 3 4
3. Encontre a inversa de cada matriz se poss´ıvel.
(a)
1 1 0 0 1 1 1 0 2
(b)
1 2 1 0 1 2 1 1 1
(c)
1 2 2 0 1 2 1 3 4
(d)
1 1 −1
2 1 1
3 −1 1
(e)
1 2 −3 1
−1 3 −3 −2
2 0 1 1
3 1 −2 3
4. Mostre que se X0 ´e uma solu¸c˜ao do sistema AX = 0 e X1 ´e uma solu¸c˜ao de AX = B ent˜ao X0+X1 ´e solu¸c˜ao de AX =B. O sistema AX =0 cujos termos livres s˜ao todos nulos ´e chamado sistema homogˆeneo.
5. Mostre que se X1 e X2 s˜ao solu¸c˜oes de AX = B ent˜ao X1−X2 ´e solu¸c˜ao de AX = 0.
Conclua que toda solu¸c˜aoXdeAX=B´e a soma de uma solu¸c˜ao do sistema homogˆeneo AX=0 com uma solu¸c˜ao particular X1 deAX =B.
6. Diga se os sistemas abaixo tem ´unica, infinitas ou nenhuma solu¸c˜ao analizando os postos de suas matrizes. Ent˜ao resolva-os, se for o caso.
(a)
2x −y +z = 0
2y +z = 1
x +y +2z = 3 (b)
−x −y +z = 0
2x +y +z = 1
5x +4y −2z = 1 (c)
x +y +2z = 8
−x −2y +3z = 1 3x −7y +4z = 10
(d)
3x +2y −z = −15 5x +3y +2z = 0 3x +y +3z = 11
11x +7y = −30
(e)
3x1 +4x2 −x3 +2x4 = 2 2x1 −2x2 +x3 −3x4 = 5
−x1 +3x2 +2x3 −x4 = 3 2x1 +7x2 +x3 +x4 = −1
(f)
x +y +z = 2
x −y +z = 2
x +2y +z = −1 (g)
−2x +y +z = 1
x −2y +z = 1
x +y −2z = 1
(h)
−x +y +2z = 1
2x −y −z = 1
3x +2y −z = 2
(i)
−x +y +2z = 1
2x −y −z = 1
3x −2y −3z = 0
x +z = 2
(j)
x1 +2x2 −x3 +2x4 = −1 3x1 −x2 +2x3 −5x4 = 5 4x1 +x2 +x3 −3x4 = 4 7x1 +3x3 −8x4 = 9
(k)
x1 +3x2 −2x3 +2x5 = 0
2x1 +6x2 −5x3 −2x4 +4x5 −3x6 = −1 5x3 +10x4 +15x6 = 5 2x1 +6x2 +8x4 +4x5 +18x6 = 6
7. Encontre um polinˆomio p(x) = a3x3+a2x2+a1x+a0 que passe pelos pontos (−2,24), (−1,24), (1,60) e (2,12).
8. Considere a matriz
A=
1 0
−5 2
(a) Encontre matrizes elementares E1 e E2 tais que E2E1A=I2.
(b) A partir do item anterior, escreva A eA−1 como produto de matrizes elementares.
9. Mostre que seA ´e uma matriz invers´ıvel, ent˜ao A´e produto de matrizes elementares.
10. Usando matrizes elementares, mostre que se A ´e invers´ıvel e B ´e linha equivalente `a A ent˜aoB tamb´em ´e invers´ıvel.
Dica: Vocˆe pode usar a seguinte propriedade: se duas matrizes quadradas CeD de ordem n s˜ao invers´ıveis ent˜ao (CD)−1 =D−1C−1.
11. ( ´Algebra b´asica do m´etodo simplex para resolu¸c˜ao de problemas de otimiza¸c˜ao linear) Considere um sistema linear Ax = b, onde A ´e matriz m ×n com m < n.
Escrevemos A =
B N
, onde B ´e a matriz quadrada de ordem n formada pelas n primeiras colunas de A, e N a matriz das n −m ´ultimas colunas de A. Tomemos x =
xB xN
, onde xB ´e formado pelas n primeiras entradas de x e xN formado pelas n−m ´ultimas entradas dex. O sistema Ax=b pode ser ent˜ao escrito como
B N xB
xN
=b.
CAP´ITULO 2. SISTEMAS LINEARES 21 (a) Mostre que
B N xB
xN
= BxB +NxN, e que portanto o sistema Ax = b pode ser escrito como
BxB+NxN =b
(isto indica que a multiplica¸c˜ao de matrizes pode ser feita por blocos).
(b) Se B for invers´ıvel, mostre que x =
B−1b−B−1NxN
xN
´
e solu¸c˜ao do sistema Ax=b, para qualquer xN escolhido.
Em particular, conclua que, fazendo xN = 0, x =
B−1b 0
´
e solu¸c˜ao de Ax = b (esta solu¸c˜ao se chama solu¸c˜ao b´asica deAx = b e ´e a base para o funcionamento do m´etodo simplex).
(c) Encontre uma solu¸c˜ao b´asica do sistema abaixo identificando as matrizes B, N, usando o item anterior, e fazendoxN =0:
2x1 +2x4 +25x5 = 2
−x2 −13x4 −11x5 = 5 x3 −x4 +8x5 = 3
2.6 Notas
O m´etodo de resolu¸c˜ao de sistemas lineares visto nesta se¸c˜ao ´e conhecido comom´etodo do escalonamento, ou m´etodo da elimina¸c˜ao de Gauss, ou ainda m´etodo da elimina¸c˜ao de Gauss-Jordan, ainda que alguns autores os diferenciem entre zerar elementos superiores e inferiores dos elementos l´ıderes, ou somente os inferiores.
Resolver sistemas lineares numericamente ´e uma necessidade frequente: aparece em com- puta¸c˜ao gr´afica, otimiza¸c˜ao, resolu¸c˜ao de equa¸c˜oes diferenciais etc.
A ideia de escalonar um sistema ´e muito antiga, data, pelo menos, do s´eculo 18. A eli- mina¸c˜ao de Gauss consiste em uma maneira sistem´atica (implement´avel em computador) para resolu¸c˜ao de sistemas lineares quaisquer usando as 3 opera¸c˜oes elementares sobre linhas da matriz ampliada do sistema, como visto aqui. As opera¸c˜oes s˜ao aplicadas de forma ordenada, de modo que os zeros na matriz ampliada apare¸cam primeiro nas colunas `a esquerda, depois nas colunas `a direita. Veja o Wikipedia para uma explica¸c˜ao ”super-r´apida”(ou o Wikipedia em inglˆes, que est´a melhor escrito).
Mas, e da´ı?
Da´ı que, por incr´ıvel que pare¸ca, a ideia deste m´etodo resiste at´e hoje em pacotes compu- tacionais modernos. Talvez o exemplo mais famoso seja a “rotina MA57”. Esta rotina ´e usada em in´umeros m´etodos computacionais de hoje em dia, e ´e considerada como uma esp´ecie de
“padr˜ao de qualidade” na resolu¸c˜ao de sistemas. Evidentemente, os m´etodos implementados nas rotinas modernas s˜ao vers˜oes melhoradas daquele exposto aqui (eles envolvem, por exemplo, t´ecnicas “espertas” para escolha de opera¸c˜oes elementares, e os chamados pr´e-condicionadores).
Vocˆe pode consultar a implementa¸c˜ao em Fortran da MA57 de um grande grupo de pesquisa do Reino Unido em http://www.hsl.rl.ac.uk/catalogue/ma57.html (sim, Fortran ainda ´e usado fortemente em computa¸c˜ao de alto desempenho!). A descri¸c˜ao do pacote diz que ele implementa uma variante do m´etodo da elimina¸c˜ao de Gauss. A ´ultima vers˜ao deste pacote ´e de 2016, e baseia-se em um artigo cient´ıfico de 1983 (1983 parece antigo, mas quando comparado
`
a ideia de escalonamento, “´e ontem”). E tenha certeza que artigos cient´ıficos foram submetidos
`
a revistas especializadas em 2020 usando esta rotina!!! Ou seja, a ideia de escalonar uma matriz est´a presente na pesquisa de ponta at´e hoje.
Determinantes
Dada uma matriz A= [aij] quadrada, vamos associar um n´umero real detA,
chamado determinante de A. A seguir, exibimos como calcular o determinante de matrizes de ordem ≤3.
Matrizes de ordem 1: A matriz` A= [a11], definimos detA=a11.
Matrizes de ordem 2: A matriz` A=
a11 a12 a21 a22
, definimos detA=a11a22−a12a21.
Matrizes de ordem 3: A matriz` A=
a11 a12 a13 a21 a22 a23 a31 a32 a33
, definimos
detA=a11a22a33−a11a23a32−a12a21a33+a12a23a31+a13a21a32−a13a22a31. (3.1) Nosso objetivo ´e definir o determinante de uma matriz de ordemnqualquer (n≥1). Perceba que na defini¸c˜ao do determinante de matrizes de ordem 2 e 3 ocorre uma certa regularidade: em cada produto de elementos da matriz, os termos das linhas aparecem ordenados, enquanto os termos das colunas n˜ao. Observe ainda que nos ´ındices das colunas, todas as ordens poss´ıveis dos n´umeros 1,2,3 (ou 1,2 no caso de ordem 2) aparecem. O que n˜ao ´e muito vis´ıvel por hora
´
e como o sinal de cada produto ´e atribu´ıdo. O que faremos no caso geral ´e “estender” essa regularidade. Portanto, tenha os determinantes anteriores em mente!
Uma forma de definirmos o determinante de uma matriz qualquer ´e fazer um estudo minu- cioso de produtos do tipo
±a1j1a2j2· · ·anjn,
ondej1, . . . , jns˜ao os ´ındices das colunas em alguma ordem (umapermuta¸c˜ao de 1, . . . , n). Essa
´
e uma forma direta de estender a soma (3.1) para matrizes de ordemn×n. O livro do Boldrini faz dessa maneira. Por´em essa forma de apresentar o determinante n˜ao nos d´a uma maneira pr´atica de calcul´a-lo. Portanto, apresentaremos o determinante por meio de um m´etodo para calcul´a-lo: o desenvolvimento de Laplace.
22
CAP´ITULO 3. DETERMINANTES 23
3.1 Desenvolvimento de Laplace
Voltemos ao determinante de matrizes de ordem 2:
det
a11 a12
a21 a22
=a11a22−a12a21. Observe que podemos escrever
det
a11 a12 a21 a22
=a11
(−1)1+1detA11
+a12
(−1)1+2detA12]
(lembre-se que o determinante de uma matriz 1×1 ´e o pr´oprio elemento da matriz), onde as matrizes Aij s˜ao obtidas da matriz A eliminando a linha ie a coluna j:
a11 a12 a21 a22
−→ A11= a22
a11 a12 a21 a22
−→ A12= a21
O mesmo ocorre com o determinante de ordem 3 det
a11 a12 a13 a21 a22 a23
a31 a32 a33
=a11a22a33−a11a23a32−a12a21a33+a12a23a31+a13a21a32−a13a22a31. Podemos escrever
det
a11 a12 a13 a21 a22 a23 a31 a32 a33
=a11(a22a33−a23a32)−a12(a21a33−a23a31) +a13(a21a32−a22a31), que por sua vez pode ser escrito como
det
a11 a12 a13 a21 a22 a23 a31 a32 a33
=a11
(−1)1+1detA11
+a12
(−1)1+2detA12
+a13
(−1)1+3detA13 ,
onde as matrizes Aij s˜ao obtidas de maneira an´aloga:
a11 a12 a13 a21 a22 a23 a31 a32 a33
−→ A11=
a22 a23 a32 a33
a11 a12 a13 a21 a22 a23 a31 a32 a33
−→ A12=
a21 a23
a31 a33
a11 a12 a13 a21 a22 a23 a31 a32 a33
−→ A13=
a21 a22 a31 a32