TÍTULO: JANELAS DA MEMÓRIA | LEITURAS PARA UMA DIRETRIZ DE INTERVENÇÃO TÍTULO:
CATEGORIA: CONCLUÍDO CATEGORIA:
ÁREA: ENGENHARIAS E ARQUITETURA ÁREA:
SUBÁREA: ARQUITETURA E URBANISMO SUBÁREA:
INSTITUIÇÃO: UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU INSTITUIÇÃO:
AUTOR(ES): VINICIUS MARTINS DE OLIVEIRA AUTOR(ES):
ORIENTADOR(ES): KÁTIA AZEVEDO TEIXEIRA ORIENTADOR(ES):
1 JANELAS DA MEMÓRIA | LEITURAS PARA UMA DIRETRIZ DE INTERVENÇÃO
1. RESUMO
A pesquisa visa o estudo de três interpretações para a construção da memória, na cidade de Santa Maria, dando atenção a uma rede de edifícios e lugares pertencentes ao cenário urbano, em especial, bens ligados ao patrimônio ferroviário. Para tornarem claros os motivos que levaram a escolha da cidade como objeto de estudos, inclui-se a importância de sua malha ferroviária, estrutura que lhe proporcionou status de importante entroncamento ferroviário do estado e vetor de desenvolvimento para a cidade, informações sobre bens tombados ou com interesse afetivo e histórico para proteção patrimonial, seus sítios paleontológicos, responsáveis por estimular o interesse de acadêmicos do mundo todo, sua significante estrutura social de habitat do conhecimento, dado seu caráter de cidade universitária, e atividades econômicas desenvolvidas. Chega-se, então, com a relação de coexistência entre a cidade e sua relação com o patrimônio, identificando bens de importância e potenciais usos para incentivo à cultura patrimonial, para entender conceitos ligados a memória coletiva. Adota-se, como fonte de referência, os ensaios de ROSSI (2001) e HALBWACH (2003). A pesquisa, que aqui se conclui, deve subsidiar uma diretriz para intervenção, como trabalho final de graduação.
2. INTRODUÇÃO
Localizada no centro geográfico do estado do Rio Grande do Sul1, a 286 km da capital Porto Alegre, emoldurada por montes, a cidade de Santa Maria integra a paisagem de Pampas que caracteriza parte do território gaúcho. À memória da cidade - história e vida de seus habitantes - importa a ferrovia implantada na segunda metade do século XIX (1869), dela decorrem o traçado principal da cidade, as edificações atualmente tombadas pelo patrimônio – como o primeiro conjunto habitacional do estado, a Vila Belga, com 84 casas de arquitetura eclética, construído para moradia dos funcionários da estrada de ferro em 1906. De outra escala – porque memória da humanidade e da história evolutiva do planeta - é o
1 O centro geográfico do Rio grande do Sul está associado a uma depressão central. O tipo climático é o subtropical, com temperaturas médias em torno de 19ºC, a parte mais alta está na região serrana e passa de 400 metros. A vegetação florestal é do tipo Mata Subtropical e nela são incluídas árvores de grande porte como o angico e a imbuia. Fonte: VIEIRO, Lia Margot Dornelles. Atlas municipal geográfico escolar – Santa Maria.
2 significado da presença de vestígios de vida de vários milhões de anos na área do município: em 1902 ali foi coletado o primeiro fóssil da América do Sul, um Rincossauro, na área denominada sítio paleontológico Sanga da Alemoa, que está situado dentro da área urbana da cidade.2 A cidade, integrada à paleorrota3 brasileira, contém mais de vinte sítios paleontológicos demarcados, importantes para o patrimônio científico do país e do mundo.
E a outra memória, a memória da perda inesperada, que constrói nos habitantes o justo desejo da homenagem, com a transformação do local desolado em lugar de paz, do local da ausência trágica em lugar de presença lembrada de seus filhos, considera o atual desejo dos habitantes – consternados com acontecimentos recentes4 - para a transformação do local do desastre em lugar de homenagem, do local da perda em lugar de lembrança de seus filhos, do local da tragédia em lugar de paz. São essas três memórias identificadas, abordadas a partir do conceito de memória coletiva, que conduzem de reflexão para conduzir possíveis diretrizes para o projeto de arquitetura e urbanismo, tomando como base um estudo de caso feito em Santa Maria, Rio Grande do Sul.
3.OBJETIVOS
A pesquisa insere-se no quadro dos estudos relativos à compreensão do patrimônio nas cidades contemporâneas, enfrentar a questão de como essa memória agora requisitada pode vir a ser relacionada com aquela ligada ao patrimônio existente na cidade; estudar uma estratégia para novas alternativas de turismo (que não estejam ligados somente às rotas ecológicas existente), que possam participar da economia local, considerando o patrimônio ferroviário existente.
2 Refere-se a um pequeno número de ossos coletados em 1902 pelo Dr. Jango Fischer, compreendido por três corpos vertebrais quase completos. Fonte: BARROS, Rodrigo Carrilho do Rêgo, Os Rincossauros do Rio Grande do Sul, Tese de mestrado.
3 Geoparque Paleorrota, Paleontologica no Rio Grande do Sul, Brasil. A Rodovia dos Dinossauros. Caminho com valiosos achados paleontológicos que se propôs a criar um percurso com fins de turismo e pesquisa que mapeou um eixo que vai do município da Mata, passando por São Pedro do Sul, Santa Maria, São Sepé, Quarta Colônia, Candelária, Cachoeira do Sul, Rio Pardo, Venãncio Aires, Santa Cruz do Sul, Canoas e Porto Alegre. Fonte: Paleorrota < http://paleorrota.blogspot.com.br/> Consultado em Agosto de 2014.
4 Trata-se do incêndio, amplamente noticiado da boate Kiss, ocorrido em 27 de janeiro de 2013, no qual morreram cerca de 242 jovens da cidade.
3 4.METODOLOGIA
Para a elaboração do trabalho, foram realizadas etapas que envolveram: a) Referências bibliográficas sobre o conceito de memória coletiva e de sua relação com o espaço habitado, como Arquitetura e cidade, de Aldo Rossi (2001); e A memória coletiva, de Maurice Halbachs (2003), no intuito de compreender a ideia de memória e o modo como a mesma é construída no imaginário das pessoas. b) Leitura do ensaio “Entre”, de Carlos Moreira Teixeira, texto que aborda o conceito de espaços efêmeros e de espaços equacionados a partir da ideia de “vazio” e que permitem a permanência e a ocupação fora do senso comum que define a maioria dos projetos de arquitetura, uma ideia de espaço pensado a partir da ausência do construído, contribuindo para definir alguns caminhos de projeto que se pretende seguir neste trabalho. c) leitura de bibliografia específica sobre a cidade de Santa Maria, além de periódicos e material do arquivo da cidade, com o objetivo de entender a formação história da cidade; d) visitas à campo com o objetivo de realizar documentação fotográfica, em dias e horários distintos, durante o mês de janeiro de 2014, período coincidente com aquele em que a cidade lembrava a tragédia da boate Kiss.5
5.DESENVOLVIMENTO
Pela importância em relação à memória de Santa Maria e sua relevância arquitetônica e histórica, foram escolhidos o conjunto de edificações do complexo ferroviário, localizado a norte, composto pela estação, largo, galpões de armazenamento, vila residencial dos trabalhadores; além do colégio Industrial Hugo Taylor, localizado a sul do conjunto principal, considerado o principal edifício do conjunto referente ao patrimônio ferroviário, pois foi fundado pela cooperativa dos empregados da Viação Férrea do Rio Grande do Sul, com o objetivo de oferecer uma educação técnica aos filhos dos ferroviários. Cumprindo sua tarefa, a rede ferroviária proporcionou o escoamento da produção de toda uma região, rica e produtiva do Rio Grande do Sul, aos grandes centros comerciais. Santa Maria foi o centro de convergência e distribuição, acolhendo vultos significativos, homens de
5 Na data em que se realizaram as visitas (Janeiro de 2014) a cidade lembrava 1 ano da tragédia, o que possibilitou uma importante leitura da memória pelo viés do luto.
4 negócios, estudantes com suas famílias que chegavam constantemente à procura de saber e do aprimoramento pessoal.
A posição geográfica favoreceu que a cidade se transformasse em ponto de cruzamento de todas as linhas férreas, situação que permitiu um crescimento significativo de 1885 a 1905, aumentando nesses 20 anos a população de 3 mil para 5 mil habitantes e de 400 para 1500 prédios. (FOLETTO, 2008, p. 41).
Contando com um fluxo considerável de passageiros, sendo entroncamento de várias linhas, foi surgindo ao redor da estação férrea e ao longo do eixo da Avenida Rio Branco, formou-se uma rede hoteleira que buscava servir a esses passageiros (comerciantes, produtores, turistas e outros). Com os hotéis, veio a instalação de um comércio que buscava resolver os problemas de demanda de mercadorias, de infra-estrutura, de alimentos e de cultura, proporcionando assim um crescimento acelerado e valorização urbana para a cidade em decorrência da ferrovia, como aponta FOLETTO (2008, p. 42)
Com população aproximada de 261,031 habitantes6 e área total de 1,788,121 km², Santa Maria é a segunda cidade mais verticalizada do rio Grande do Sul7. Seu perímetro urbano concentra uma grande quantidade de equipamentos ligados à educação, além de escolas de 1º e 2° graus, outras para formação técnica e várias instituições de nível superior, o que permite à cidade auto intitular-se Cidade Universitária, abrigando a Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Faculdades Unifra, Scalifra, Centro Universitário Franciscano, Direito Ulbra Sma, Instituto Master, Faculdade Fapas, Faculdades Fascla, e Coc Santa Maria.
6 Segundo IBGE. FONTE:<http://cidades.ibge.gov.br/painel/painel.php?codmun=431690> Consultado em Agosto de 2014.
7 Segundo infográfico realizado pelo jornal O Globo que considerou Porto Alegre como a segunda capital mais verticalizada do país, cabendo ao município de Santa Maria o posto de segunda cidade do interior mais verticalizada no ranking. Fonte: <https://portoimagem.wordpress.com/2013/05/06/porto-alegre-e-a-segunda-capital-mais-verticalizada-do-pais/> Consultado em: Agosto de 2014.
5 No começo do século XX, foram descobertos os primeiros fósseis na cidade, o que na época era um achado de grande valor para o campo disciplinar - existiam pelo menos quatro grandes jazigos pertencentes à área determinada como sítio paleontológico.8
Figura 1 – Desenho
elaborado pelo pesquisador com base em mapa do acervo particular de Sergio
Kaminski. Sítios
paleontológicos identificados na cidade de Santa Maria. Fonte: OLIVEIRA, Mapa de manchas. São Paulo, 2014. LEGENDA: 1 – Vila gaturrita / 2 – Vila Kennedy / 3 – Xavier Rocha e Silva Jardim / 4 – Sanga da Alemoa / 5 – Jazigo / 6 – Sanga do Armário / 7 – Vila dos Sarjentos / 8 – Cidade dos meninos / 9 – Colégio militar / 10 – Arroio cancela / 11 – Padre Cargnim / 12 – Cerrito I / 13 – Cerrito II / 14 – Cerrito III / 15 - Jardim Beleze / 16 – Cabeceira de Raimundos / 17 – Arroio Passo das tropas / 18 – Olaria Campus UFSM.
5.1 AV. RIO BRANCO: O EIXO DE DESENVOLVIMENTO URBANO, CULTURAL E ECONÔMICO.
A Avenida Rio Branco apresenta-se como principal eixo para a comunicação entre o centro da cidade e o Largo da Estação Ferroviária, sendo ocupada ao longo de sua história por usos comerciais, igrejas e alguns dos principais hotéis da cidade. Com a decadência da ferrovia nas últimas quatro décadas a maioria desses equipamentos foram vieram a falência ou tiveram seus usos reconvertidos.
O canteiro central da Avenida Rio Branco esteve, durante muitos anos, ocupado pelo comércio ambulante, situação que levou a prefeitura a instaurar um plano urbano de requalificação urbana (sic) para a região central, transferindo posteriormente os comerciantes para o prédio do antigo cinema de Santa Maria, o Cine Independência.
8 Com a expansão urbana da cidade alguns foram destruídos. A formação da cidade de Santa Maria situa-se no Meso-Neotriássico, intervalo Ladiniano Eonoriano, tal posição é determinada com base no seu abundante conteúdo fossilífero, que se constitui em fragmentos de plantas e assembleias de vertebrados fósseis. Fonte: BARROS, Rodrigo Carrilho do Rêgo, Os Rincossauros do Rio Grande do Sul
6 Essa e outras iniciativas integram o plano de requalificação urbana do centro histórico da cidade, batizado de "Reviva centro: Santa Maria feliz". Trata-se de uma operação urbana organizada pela esfera pública, juntamente com o extinto Escritório da cidade, que prevê uma série de ambiciosos projetos de intervenção urbana, revitalizando o setor histórico da cidade, para assegurar a memória e a identidade, aliada ao desenvolvimento urbano e econômico para uma cidade 'contemporânea'.
Figura 2 – Desenho elaborado pelo autor com base em a partir de documento digital fornecido pelo Instituto de Planejamento Urbano de Santa Maria. Recorte para o estudo. 01 – Estação ferroviária / 02 – Conjunto da Vila Belga / 03 – Estação ferroviária / 04 - Avenida Rio Branco / 05 – Edifício Hugo Taylor e Hipermercado Carrefour / 06 - Boate Kiss / 07 – Praça Saldanha Marinho. Fonte: OLIVEIRA, São Paulo, 2014.
Atualmente o canteiro central da Av. Rio Branco encontra-se em fase final de obras, com o comércio informal transferido pela iniciativa pública a intenção é de que a cidade volte a se apropriar do espaço para atividades ligadas a cultura e recreação.
5.2 PATRIMÔNIO E CONTEXTO.
A leitura da paisagem urbana se dá através de uma proposta que consiste em interpretar quatro lugares distintos pertencentes ao patrimônio ferroviário de Santa Maria, o prédio da Estação férrea e seu respectivo largo cuja construção remete ao final do século XIX; Vila Belga (1906) e A Escola de Artes e Ofícios Hugo Taylor (1918). Edifícios referenciais para a história da ferrovia na cidade, desde a sua inauguração até os dias atuais.
A história do edifício Hugo Taylor – ou Colégio Industrial – começa em 1917, quando a Cooperativa Ferroviária adquiriu um terreno junto a Avenida Rio Branco, e em seguida lançou uma concorrência pública para escolher o autor para o projeto,
7 dos seis projetos apresentados, foi selecionado o de João Baade, trata-se de um conjunto com dois edifícios, sendo o corpo principal um edifício com 25 mt de frente e 12 mt de fundos, dois andares e um subsolo que serviam para organizar o programa composto por oficinas, alojamentos, secretarias e pavilhões para aulas.
Figura 3 – Desenho elaborado (vetorizado) pelo pesquisador à partir de fotografias do conjunto. Levantamento de fachada do conjunto. Fonte: OLIVEIRA, São Paulo, 2014.
Figura 4 – Croqui
elaborado pelo
pesquisador com base visita a campo. Fonte: OLIVEIRA, São Paulo, 2014.
Em 1923 optaram por construir um anexo para que servisse como refeitório e alojamento aos alunos e funcionários, além de propor salas para recreação, o proprietário, Manoel Ribas, adquiriu na Europa algumas das máquinas utilizadas nas oficinas.9 Dentre seus alunos ilustres, a escola conta com o pintor e gravurista Iberê Camargo.
Trata-se de imóvel familiar, pertencente à família Saccol, que em 2007 fechou contrato com a rede de hipermercados francesa Carrefour10, em outubro deste mesmo ano o edifício foi reformado e ocupado pelo novo uso. Trata-se de um contrato de 15 anos11.
9 No ano de sua inauguração, a escola encontrava-se aparelhada para receber 124 alunos matriculados. Em 1923 recebeu a matrícula de 277 alunos, o ensino profissional seguia o modelo do Instituto Parobé, de Porto Alegre. Fonte: FOLETTO, 2008, p. 84
10 O contrato finda-se em 2022, foi previsto legalmente a ocupação total do conjunto, onde a rede se compromete a manter a fachada original com algumas alterações - necessárias a compatibilizar o edifício com o uso comercial - o investimento previsto foi de R$ 30 milhões de reais na construção do complexo de 18 mil metros quadrados que se apropriou do terreno e do edifício existente. Fonte: http://templo-de-isis.blogspot.com.br/2007/03/escola-de-artes-e-ofcios-saga.html
11 Segundo informações fornecidas Pela Jornalista Luísa Kanaan, do blog 'Templo de Isis', publicação online especializada no universo arquitetônico de Santa Maria - RS. (Fonte: http://templo-de-isis.blogspot.com.br/2007/03/escola-de-artes-e-ofcios-saga.html)
8 5.3 MEMÓRIA.
Os estudos sobre o tema perpassam disciplinas de diferentes campos do conhecimento, como psicológica, sociologia, a antropologia, e também a arquitetura e urbanismo, pelas relações que essa área procura estabelecer com o patrimônio edificado e cultural de um lugar.
Para a psicologia social, na visão de Halbwachs (2003), a principal função e importância da memória coletiva é aquela que contribui para o sentimento de pertinência – a um lugar, a um grupo, a um acontecimento, a uma história comum - em que as memórias unem os indivíduos e são por eles compartilhadas, como aponta o autor.
Cada grupo estabelece uma diferente relação com a memória, que se modifica e se rearticula para atender necessidades culturais distintas e, nesse sentido, as lembranças se alimentam das diversas memórias oferecidas pelo grupo, assim como as lembranças pessoais de qualquer indivíduo podem estar em constante interação social. Se o grupo e a memória que ele cultiva representam uma ideia de permanência, o mesmo se dá, segundo o autor, com aqueles objetos materiais com os quais as pessoas mantém contato diário: oferecem uma imagem de continuidade e de estabilidade.
Nesse sentido, os lugares fornecem referências visuais das vivências coletivas, e a organização dos grupos em lugares – essa permanência no espaço - define suas próprias relações sociais. Um local específico pode conter ou receber as marcas de um grupo, tornando – se especial para ele, um sentido que muitas vezes só é percebido por aqueles que convivem com aquilo.
Figura 5 – Desenho elaborado pelo pesquisador em visita ao local da tragédia da boate Kiss. Os tapumes instalados pelo Corpo de bombeiros para isolar o local passou a ser utilizado como memorial, nele são vistas fotografias, Mensagens e tributos fúnebres deixados principalmente por familiares. Fonte: OLIVEIRA, São Paulo, 2014.
Na área de arquitetura e urbanismo, tal como coloca Rossi (2001) existe a articulação entre o que se denomina “fatos urbanos” de uma cidade e a ideia de
9 pertencimento, de memória. Há um caráter que confere uma significação ligada aos seus espaços físicos, um caráter reconhecido pela memória, pois é resultado da ação de um grupo humano quando se apropria de um determinado espaço, e o transforma de acordo com seus costumes e estilo próprio de vida.
Por isso, para esse autor, a memória é indissociável dos lugares da cidade e a identificação dos fatos urbanos de importância permite estabelecer diretrizes, por um lado, sobre o que preservar e, por outro, sobre como o novo pode ser inserido em um determinado contexto. Assim, a memória coletiva transposta para uma leitura urbana, considera que ela – a memória - se torna a própria transformação do espaço, a cargo da coletividade, funcionando como um fio condutor que age através das artes, dos monumentos existentes, dos lugares significativos para os habitantes.
6.RESULTADOS
Para a pesquisa realizada, são considerados resultados importantes:
a) O conceito de memória permite um entendimento das características física das cidade, a partir do conceito de fatos urbanos (ROSSI, 2001), além daqueles advindos da ciência e da memória desejada( a homenagem), orientando intervenções que incentivem atividades ligadas ao turismo , a cultura e ao cuidado com o meio. b) Algumas edificações passaram por grandes modificações com alterações e descaracterizações internas e/ou externas, o que as torna as desinteressantes para o tombamento stricto senso, mas carregam valor histórico e afetivo suficientes para serem classificadas como patrimônio da cidade, por exemplo, o Edifício Hugo Taylor, que entrou com processo de tombamento em 2006, mas não foi contemplado devido às modificações ocasionadas por reformas, demolições e incêndios ocorridos ao longo das últimas décadas. c) Os sítios paleontológico identificados na cidade carecem de uma estratégia para preservação adequada, estrutura de apoio para turistas e estudantes, o que significa baixa integração do município na Paleorrota gaúcha. Só a efetiva organização do local do conjunto garante sua participação definitiva em programas como a “Rota dos Dinossauros” e a “Georota”12.
12 A ideia é considerar o conceito de geoparque, tornando a região sustentável, utilizando-se a receita da circulação de turistas para cobrir os custos com pesquisa e educação. O problema atual é a falta de conhecimento das autoridades de turismo e pesquisa sobre este o assunto e que leva a falta de investimentos. Fonte: Paleorrota. < http://paleorrota.blogspot.com.br/ > Acesso: 26/08/2014
10 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O intuito da pesquisa consiste em buscar estratégias que permitam considerar o patrimônio, inserido dentro de um circuito de interesse turístico, valorizando as características de importância da história e cultura de Santa Maria. Assim, ações de restauro, de intervenção e de recuperação da memória são identificadas como necessárias a um conjunto edificado reconhecido como patrimônio histórico por tombamento estadual. Ressalta-se, como uma diretriz fundamental, a articulação desse patrimônio composto por edifício da estação ferroviária central, o conjunto habitacional da Vila Belga e o edifício da escola Hugo Taylor. relacionando o conjunto com essa nova memória que os habitantes desejam ver instituída e com o eixo viário, a Av. Rio Branco, em toda a sua extensão.
A cidade carece de bons espaços públicos destinados às manifestações culturais mais amplas que possam envolver toda a cidade, locais que permitam também a apropriação e uso de modo espontâneo, necessários à vida contemporânea, condição que assume maior importância quando se considera a população cuja maioria é constituída por jovens, vindos de todo o estado, em busca de formação no ensino superior. Constatou-se grande potencial para o turismo de interesse arqueológico e arquitetônico, o que representaria, é claro, investimentos adequados para permitir não apenas a requalificação e ocupação adequada dos espaços e edifícios, como uma estratégia de educação patrimonial, que permitisse envolver os habitantes com sua própria memória, articulando-as com as necessidades sociais da cidade.
8. FONTES CONSULTADAS
Livros: FOLETTO, Vani Terezinha, Apontamentos sobre a história da arquitetura de Santa Maria. Santa Maria: Pallotti, 2008. / ROSSI, Aldo. A Arquitetura da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 2001. / TEIXEIRA, Carlos Moreira, Entre. Belo Horizonte: Instituto Cidades Criativas, 2010. / HALBWACHS, Maurice, A Memória Coletiva. São Paulo: Centauro, 2003. / VIEIRO, Lia Margot Dornelles. Atlas municipal geográfico escolar – Santa / Maria. Santa Maria: Jornal diário de Santa Maria, 2003. / Artigos: / FIGUEIREDO, Lauro César. A Memória Urbana Esquecida no Tempo: O Centro Histórico da Cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul, XII Simpósio Urb. 2011. / Mestrado: BARROS, Rodrigo Carrilho do Rêgo, Os Rincossauros do Rio Grande do Sul, 2004, Mestrado, UFRGS