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Mieko Ferreira Kanegae

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Academic year: 2021

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(1)

Mieko Ferreira Kanegae

Tamanho populacional, seleção de habitat e área

de vida de espécies de aves endêmicas e ameaçadas

do Cerrado na Estação Ecológica de Itirapina, São

Paulo.

São Paulo

2009

(2)

ii

Mieko Ferreira Kanegae

Tamanho populacional, seleção de habitat e área de vida de

espécies de aves endêmicas e ameaçadas do Cerrado na

Estação Ecológica de Itirapina, São Paulo.

Tese apresentada ao Instituto de

Biociências da Universidade de São

Paulo, para a obtenção de Título de

Doutor em Ciências, na Área de

Ecologia

Orientador: Prof. Dr. José Carlos

Motta-Junior

São Paulo

2009

(3)

iii

Kanegae, Mieko Ferreira

Tamanho populacional, seleção de

habitat e área de vida de espécies de aves

endêmicas e ameaçadas do Cerrado da Estação

Ecológica de Itirapina, São Paulo.

Número de páginas 111

Tese (Doutorado) - Instituto de

Biociências da Universidade de São Paulo.

Departamento de Ecologia.

1. Palavra-Chave Principal: aves,

Cerrado, São Paulo. 2. Palavra-Chave

Secundária: tamanho da população, seleção de

habitat, área de vida, Estação Ecológica de

Itirapina. I. Universidade de São Paulo.

Instituto de Biociências. Departamento de

Ecologia.

Comissão Julgadora:

________________________

_____ _______________________

Prof(a). Dr(a).

Prof(a). Dr(a).

_________________________

____________________________

Prof(a). Dr(a).

Prof(a). Dr(a).

Prof(a). Dr(a). Orientador(a)

(4)

Dedicatória

Ao Nino, meu grande amor e companheiro,

aos meus pais Toshihiro e Carlônia

a minha linda avó Livina

em memória da minha Batian.

(5)

v

Agradecimentos

Agradeço a todos aqueles que participaram em algum momento dessa etapa da minha vida.

Ao Severino A. Lucena Neto, pela compreensão e companhia durante todo o doutorado e pelo auxílio no campo, sem a qual não seria possível finalizar a coleta de dados.

Aos meus pais que me apoiaram durante a minha vinda para São Paulo e por me acompanhar e dar força, mesmo de longe em todo o percurso do doutorado.

Ao José Carlos Motta-Junior, pela orientação e apoio durante todo o desenrolar da tese.

Às amigas Gisele Levy e Marina Telles, pelas aventuras no cerrado e ajuda no campo e companhia na sorveteria, lanchonete e supermercado em Itirapina, por todos os bons momentos no alojamento, conversas ornitológicas e shows em São Carlos.

Ao Matheus Reis, João Cardoso Jr. e Andrea Sendoda pelo apoio e companhia durante a coleta de dados.

A Fabiana Pioker e Maria Vianna pelos almoços comunitários no alojamento e na USP, apoio no campo e companhia nos momentos de trabalho e descanso regados de sorvetes gostosos.

Ao Roberto G. Tovati, Hipólito Neto pelas sugestões e conversas biológicas na coleta de campo e pelos bons momentos no alojamento de Itirapina.

Ao Marco Granzinolli pela amizade e sugestões na coleta de dados, no uso do receptor, nas análises dos dados e no curso do Distance.

(6)

vi Ao Wellington Alessandro Bispo e Luis Carlos de Souza pelo auxílio nos programas, problemas no computador, pela paciência e disposição em ajudar.

À Dalva, a Bernardete e a Socorro pela disposição e paciência em resolver os nossos problemas e pelo carinho no atendimento.

À amiga Vivian Braz pelo grande auxílio nas análises com o Programa Distance e sugestões na tese.

Aos funcionários do Instituto Florestal Gilson, Major, Parada Louca, pela disposição e paciência em me socorrer dos inúmeros atolamentos na EEI em qualquer dia da semana ou horário.

À querida Isabel, funcionária do alojamento de Itirapina, pelo sincero apoio e amizade, pelas conversas descontraídas regadas de receitas e dicas culinárias de pães gostosos.

À Ana Cris Bondioli pelas preciosas dicas e ensinamentos de como e onde pedir apoio financeiro, sem essas aulas seria inviável grande parte do meu campo.

Ao Darius Tubelis pelas sugestões e idéias na coleta de campo. Ao Professor Sérgio Tadeu pelas sugestões na parte estatística.

À Fernanda Marques, ao Steven Buckland e ao Walfrido Tomás pelas sugestões no desenho amostral, pela paciência e ajuda na análise do Programa Distance.

Ao Paulo Vianney Vilela Rodrigues por ter recebido os equipamentos de doação nos EUA e ter trazido para o Brasil.

Ao Alexandre Franchin pela amizade e pela companhia durante a produção da tese. Aos Professores Manoel Martins Dias Filho & Mercival R. Francisco pelas informações e discussões sobre Melanopareia torquata.

À Professora Astrid de Matos Kleinert pelo auxílio e apoio durante o doutorado e por ter concordado em participar da banca.

(7)

vii À CAPES pela bolsa de doutorado.

Ao meu cachorro Juca que me acompanhou pacientemente durante a elaboração da tese e me proporcionou momentos de descontração e brincadeiras nos intervalos. Ao Departamento de Ecologia da USP pelo apoio financeiro com algumas diárias, pelo apoio no Congresso de Ornitologia.

Ao Museu de Zoologia da USP por ter me atendido solicitamente e cedido material para consulta.

Ao Instituto Florestal pelo apoio durante a pesquisa na Estação Ecológica de Itirapina. A Idea Wild, E. Alexander Bergstrom Memorial Research Award, Neotropical Grassland Conservancy, W. J., Virginia W. Moorhouse Memorial, Pamela e Alexander F. Skutch e Birders Exchange pelo apoio financeiro e doação de equipamentos.

(8)

viii

Índice

Resumo Geral

01

Introdução Geral

05

Capítulo 1. Tamanho populacional de espécies de aves endêmicas e

ameaçadas do Cerrado na Estação Ecológica de Itirapina, estado de São

Paulo, Brasil.

07

Resumo/ Abstract

08

1.1. Introdução

12

1.2. Materiais e Métodos

14

1.3. Resultados

23

1.4. Discussão

24

Capítulo 2. Seleção de habitat por Alectrurus tricolor e Culicivora

caudacuta (Aves, Tyrannidae) e Melanopareia torquata (Aves,

Melanopareiidae) na Estação Ecológica de Itirapina, estado de São Paulo,

Brasil: implicações para a conservação.

32

Resumo/ Abstract

33

2.1. Introdução

37

2.2. Materiais e Métodos

40

2.3. Resultados

46

2.4. Discussão

50

Capítulo 3. Área de vida de Melanopareia torquata (Wied) (Aves,

Melanopareiidae) na Estação Ecológica de Itirapina, estado de São Paulo.

59

Resumo/ Abstract

60

3.1. Introdução

63

3.2. Materiais e Métodos

65

3.3. Resultados

68

3.4. Discussão

76

(9)

ix

(10)

1 Resumo Geral: O Bioma Cerrado é considerado entre as áreas mundiais de grande prioridade para conservação por sua riqueza biológica e alto grau de alteração que vem sofrendo. Apesar da alta diversidade de aves do Cerrado (857 espécies), poucos estudos biológicos foram desenvolvidos com esse grupo. Os objetivos desse estudo foram: 1) estimar o tamanho populacional e a densidade de Melanopareia torquata, Culicivora caudacuta, Alectrurus tricolor, Cypsnagra hirundincea, Saltator atricollis, Neothraupis fasciata e Cyanocorax cristatellus; 2) investigar a seleção de habitat de M. torquata, C. caudacuta e A. tricolor; e 3) determinar o tamanho da área de vida de M. torquata. As coletas foram realizadas de setembro a dezembro de 2006 e 2007 em uma área de 2300 ha na Estação Ecológica de Itirapina (EEI) e em uma área contígua da Universidade de São Paulo (AUSP) com 420 ha. No Capítulo 1 foram obtidos os parâmetros populacionais das espécies pelo método de amostragem por distância com transecções por ponto. Neothraupis fasciata e C. hirundinacea apresentaram as maiores densidades médias estimadas, valores intermediários ocorreram para C. caudacuta, S. atricollis e A. tricolor, enquanto as mais baixas foram registradas para M. torquata e C. cristatellus. O tamanho médio das populações foi maior para N. fasciata, C. hiruncinacea e S. atricollis enquanto que para as demais espécies os valores foram abaixo de 100 indivíduos. No Capítulo 2 foi avaliada a seleção de macrohabitat e microhabitat. O macrohabitat foi estimado dispondo um total de 228 pontos de amostragem nas áreas campestres, savana, savana densa, cerrado alterado e áreas úmidas. Para detectar indivíduos de M. torquata foi utilizado o método de rádio-telemetria (12 rádio-transmissores). Melanopareia torquata selecionou apenas as áreas de campo cerrado, enquanto A. tricolor e C. caudacuta selecionaram as áreas campestres. O melhor modelo selecionado pelo AIC para explicar a presença de M. torquata incluiu a maior densidade de arbustos altos (> 1 m) e de gramíneas nativas.

(11)

2 O modelo mais relevante para C. caudacuta e A. tricolor a menor densidade de palmeira, Attalea geraensis e de árvores. No Capítulo 3 foi determinado o tamanho da área de vida, o qual foi estimado pelo método do Mínimo Polígono Convexo (MPC) 95% e a área nuclear de 70%, utilizando o Programa TRACKER 1.1. A área de vida se estabilizou para cinco indivíduos monitorados, sendo necessários em média (± Desvio Padrão) 36,4 ± 7,4 rádio-locações. A variação média (± DP) da área de vida e da área nuclear foi de 1,75 ± 1,66 ha e 0,44 ± 0,23 ha, respectivamente. Sugerimos algumas práticas para aumentar a sobrevivência e a viabilidade das populações na EEI: manejo da qualidade do habitat, aumento da área da EEI incorporando áreas naturais adjacentes e o estabelecimento de corredores ecológicos.

Palavras-chave: aves, cerrado, São Paulo, seleção de habitat, tamanho populacional, área de vida.

(12)

3 General abstract. The Cerrado Biome is one of the world areas with high conservation priority because of its biodiversity and elevated rate of disturbance. In spite of the high diversity of birds in Cerrado (857 species), biological studies of this group are uncommon in this biome. The aims of this study are: 1) to estimate the population size and density of Melanopareia torquata, Culicivora caudacuta, Alectrurus tricolor, Cypsnagra hirundincea, Saltator atricollis, Neothraupis fasciata, and Cyanocorax cristatellus; 2) to investigate the use and habitat selection of M. torquata, C. caudacuta, and A. tricolor; and 3) to determine the home range size of M. torquata. Data were obtained between September and December of 2006 and 2007, in a 2300 ha area, the Estação Ecológica de Itirapina (EEI), and in an adjacent area of Universidade de São Paulo (AUSP) with 420 ha. In Chapter 1 we measured population parameters of the species using distance sampling with point transect. Nethraupis fasciata and C. hirundinacea showed the largest average density estimates, intermediate ones occurred to C. caudacuta, S. atricollis and A. tricolor, and the lower density were reported to M. torquata and C. cristatellus. The population average size was large for N. fasciata, C. hiruncinacea and S. atricollis, while for other species the value were below 100 individuals. Macrohabitat, and microhabitat selection was discussed in Chapter 2. A total of 228 point samplings were set in grasslands, savannahs, woody savannah, disturbed cerrado, and flood areas. Radio-telemetry was used (12 radio-transmitters) for detecting individuals of M. torquata. In the habitat selection study, M. torquata only chose “campo cerrado” areas, while A. tricolor and C. caudacuta, grassland areas. The best model selected by AIC to explain M. torquata presence was the major density of tall bushes (> 1 m) and native grasses. The most relevant model for C. caudacuta and A. tricolor was the low density of the palm, Attalea geraensis and the trees. The home range size was evaluated in Chapter 3,

(13)

4 which was estimated by the method of Minimum Polygon Convex (MPC) 95% and the core area (70% of locations), analyzed by TRACKER 1.1 Program. The home range stabilized around five individuals tracked, on average (± Standard Desviation) 36.4 ± 7.4 radio-locations being sufficient. The mean (± SD) home range and core area was respectively 1.75 ± 1.66 ha and 0.44 ± 0.23 ha. We suggest some practices to increase the survival and viability of bird populations in EEI: management of habitat quality, increasing EEI area by incorporation of adjacent natural areas, and the establishment of ecological corridors.

(14)

5

I - Introdução Geral

Conhecer os requerimentos ecológicos de uma espécie é um pré-requisito para que as estratégias de conservação tenham sucesso (Evans & Gates 1997, Fredriksson & Nijman 2004, Oppel et al. 2004, Shochat & Tsurim 2004). Especialmente nos trópicos, as alterações antrópicas vêm reduzindo rapidamente diversos habitats naturais e a falta do conhecimento biológico dos organismos dificultam ainda mais a conservação efetiva das espécies (Oppel et al. 2004, Sodhi et al. 2008).

O Bioma Cerrado é considerado entre as áreas mundiais de grande prioridade para conservação por sua riqueza biológica e o alto grau de alteração que vem sofrendo (Myers et al. 2000, Klink & Machado 2005, Marini & Garcia 2005). Apesar de ser a maior, mais rica e provavelmente a mais ameaçada savana tropical do mundo (Silva & Bates 2002), apenas recentemente o Cerrado começou a receber uma maior atenção conservacionista (Myers et al. 2000).

O intenso processo de ocupação da terra resultou em substancial redução da vegetação nativa do Cerrado (Dias 1993, Cavalcanti 1999, Myers et al., 2000, Klink & Machado 2005). Atualmente restam cerca de 34% de sua área original, dos quais apenas 2,2% estão protegidos em unidades de conservação (Machado et al. 2004a).

A situação do Cerrado no estado de São Paulo é ainda mais crítica. A cobertura original correspondia a 14% da área do estado, atualmente restam apenas 0,81% dispostos em fragmentos isolados (Kronka et al. 2005). Esses fragmentos foram recentemente incluídos nas áreas importantes para a conservação das aves no Brasil (Bencke et al. 2006). Ao contrário das idéias conservacionistas correntes, no Estado de São Paulo, o grau de ameaça das aves de Cerrado é maior do que das aves de floresta Atlântica (Willis & Oniki 1992).

(15)

6 Apesar da alta riqueza de aves do Cerrado (857 espécies, com 33 espécies endêmicas) (Cavalcanti 1999, Silva 1995, Silva & Bates 2002, Silva & Santos 2005, Piratelli & Blake 2006), poucos estudos biológicos foram desenvolvidos envolvendo esse grupo (Cavalcanti 1999, Marini & Garcia 2005). Considerando a necessidade de informações ecológicas básicas como forma de embasar as estratégias de conservação das aves do Cerrado, o presente estudo tem os seguintes objetivos de estimar o tamanho populacional e a densidade de Melanopareia torquata, Culicivora caudacuta, Alectrurus tricolor, Cypsnagra hirundincea, Saltator atricollis, Neothraupis fasciata e Cyanocorax cristatellus; avaliar a seleção de habitat de M. torquata, C. caudacuta e A. tricolor durante o período reprodutivo e determinar o tamanho da área de vida e da área nuclear de M. torquata na Estação Ecológica de Itirapina.

(16)

7

Capítulo 1

Tamanho populacional de espécies de aves endêmicas e

ameaçadas do Cerrado na Estação Ecológica de Itirapina, São Paulo,

(17)

8 Resumo: As estimativas das populações são de fundamental importância para a ecologia aplicada. Através dessas informações é possível identificar espécies raras, monitorar o tamanho das populações e propor estratégias de conservação. O objetivo desse estudo foi estimar o tamanho populacional e a densidade de algumas espécies endêmicas e ameaçadas em um cerrado preservado. As coletas foram realizadas de setembro a dezembro de 2006, na Estação Ecológica de Itirapina (EEI) (2300 ha) e em uma área contígua da Universidade de São Paulo (AUSP) (420 ha), nos municípios de Itirapina e Brotas, estado de São Paulo. Os pontos de amostragem foram dispostos nos seguintes habitats: áreas campestres (campos sujo e limpo), savana (campo cerrado e cerrado sensu stricto), savana densa (cerradão), áreas alteradas e úmidas. Foram sistematicamente distribuídas 134 transecções pontuais em 2006. As amostragens de distâncias foram obtidas pela manhã (5:00 às 9:00 h) e durante a tarde (16:00 às 18:00 h). As maiores estimativas de densidade média para toda a área de estudo foram de N. fasciata e C. caudacuta (14,3 e 10,0 indivíduos/km2 respectivamente). C. hirundinacea e S. atricollis também apresentaram densidades altas (8,2 indivíduos/km2, 7,5 respectivamente). As densidades mais baixas foram registradas para Alectrurus tricolor, Melanopareia torquata e Cyanocorax cristatellus (4,6, 3,3 indivíduos/km2 e 2,3 respectivamente). O tamanho médio das populações foi maior para N. fasciata (248 indivíduos), C. hiruncinacea (142 indivíduos), S. atricollis (130 indivíduos) e C. caudacuta (112 indivíduos). Para as demais espécies os valores foram abaixo de 100 indivíduos. As densidades médias de C. caudacuta e A. tricolor observadas nas áreas campestres da EEI apresentaram valor semelhante ao observado em áreas extensas, como no Parque Nacional de Brasília (PNB, 42389 ha) e na Chapada dos Veadeiros (PNCV, 65512 ha), isso indica que a área campestre da EEI, apesar de pequena está em bom estado de conservação. As estimativas de tamanho

(18)

9 populacional obtidas nesse estudo mostram que nenhuma das espécies estudadas apresentou uma população acima de 500 indivíduos, o mínimo indicado para uma população viável. Um dos fatores limitantes mais evidentes é a disponibilidade de área. Apesar da restrição de tamanho, os fragmentos pequenos podem manter populações de aves endêmicas e ameaçadas, contribuindo, para a biodiversidade local e os processos ecológicos da região. Contudo, para a manutenção das populações na EEI, sugerimos o monitoramento da qualidade do habitat, o aumento da área da EEI incorporando áreas naturais adjacentes e o estabelecimento de corredores ecológicos com outros fragmentos de cerrado.

Palavras-chave: aves, cerrado, São Paulo, tamanho populacional.

(19)

10 Abstract: Population estimates are of fundamental importance in applied ecology for identifying rare species, monitoring population size, and for proposing conservation actions. The main goal of this study is estimate population size and density of some endemic and threatened species in a preserved Cerrado. The field study was conducted during September and December of 2006, in the Estação Ecológica de Itirapina (EEI) in Brotas and Itirapina municipalities, state of São Paulo. These points were set in the following habitats: grasslands (“campo sujo” and “campo limpo”), savannahs (“campo cerrado” and “cerrado sensu stricto”), woody savannah (“cerradão”), disturbed cerrado, and flood areas. We have systematically distributed 134 point transects in 2006. The distance samplings were obtained in the morning (05:00 to 09:00 h) and in the afternoon (16:00 to 18:00 h). Nethraupis fasciata and C. caudacuta presented the major values of average density estimates (14.3 e 10.0 individuals/km2 respectively) for the study area. Cypsnagra hirundinacea and Saltator atricollis also revealed high densities (8.2, 7.5 individuals/km2, respectively). Low densities were recorded for Alectrurus tricolour, Melanopareia torquata and Cyanocorax cristatellus (4.6, 3.54 and 2.15 individuals/km2, respectively). The population average size was larger to N. fasciata (248 individuals) C. hiruncinacea (142 individuals), S. atricollis (130 individuals) and C. caudacuta (112 individuals). For other species the values were below 100 individuals. The average densities of C. caudacuta and A. tricolor in grassland of EEI presented a similar value to those observed in larger areas than EEI, as the Parque Nacional de Brasília (PNB, 42389 ha), and the Parque Nacional Chapada dos Veadeiros (PNCV, 65512 ha), which indicate that the grassland area of EEI, in spite of its small area, has a good state of conservation. The population size estimates in this study showed that neither species studied presented a population above 500 individuals, the minimum recommended to a viable population. One of the

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11 most evident limitations is related to area’s size. In spite of this size restriction, small fragments can maintain endemic and threatened bird populations, contributing to the local biodiversity and the ecological processes in the region. We suggest some practices to increase the survival and viability of bird populations in EEI the management of habitat quality, increasing EEI area by incorporation of adjacent natural areas, and the establishment of ecological corridors connecting to other cerrado fragments.

(21)

12 INTRODUÇÃO

A estimativa populacional é um parâmetro fundamental para a ecologia aplicada (Newson et al. 2008). Através dessa informação, é possível identificar espécies raras que podem entrar na lista de ameaçadas de extinção (IUCN 2008) e detectar as áreas mais importantes para conservação (Perez-Arteaga et al. 2005). Esse parâmetro permite ainda comparar os tamanhos das populações em diferentes áreas, tentando, assim, entender as variações regionais (Thogmartin et al. 2006). Além disso, possibilita monitorar as flutuações dessas populações e identificar as possíveis causas de declínio (Salafsky & Reynolds 2005), direcionando ações conservacionistas (Keller & Bollmann 2004).

Diversos trabalhos de estimativa populacional foram realizados com aves do Cerrado. A maioria obteve parâmetros de abundância relativa (Negret 1983, Marini 1989, Figueiredo 1991, Ferreira 1995, Antas 1998, Abreu 2000, Tubelis & Cavalcanti 2000, Tubelis & Cavalcanti 2001, Roma 2006, Lopes 2004, Motta-Junior et al. 2008) e alguns de densidade (Machado 2000, Duca 2007). Contudo, tais estimativas, que desconsideram as diferenças na detectabilidade, não são métodos passíveis de comparação (Rosenstock et al. 2002, Norvell et al. 2003, Buckland et al. 2006). A variação na detectabilidade está relacionada com o desempenho e o comportamento do observador, as variações ambientais e de estrutura da vegetação, e as diferenças morfológicas e comportamentais da ave. O primeiro estudo com aves de Cerrado, que considera a questão da detectabilidade, foi realizado em áreas campestres do Parque Nacional dos Veadeiros e do Parque Nacional de Brasília (Braz 2008).

A principal ameaça à biodiversidade do Cerrado é o processo acelerado de conversão para a agricultura e pastagens (Machado et al. 2004a, Klink & Machado

(22)

13 2005, Silva & Santos 2005). No Estado de São Paulo, a vegetação natural de Cerrado cobria originalmente 14% da área (SEMA 1997). Atualmente, esses remanescentes correspondem a apenas 0,81% do estado (Kronka et al. 2005), que ocorrem em pequenos fragmentos isolados por pastagem, monoculturas, reflorestamentos e áreas urbanas (Durigan et al. 2007).

O Cerrado é um bioma com alta riqueza de aves, correspondendo a cerca de 50% do total para o Brasil (857 espécies) (Silva 1995, Silva & Santos 2005, Piratelli & Blake 2006), das quais 33 espécies são endêmicas (Cavalcanti 1999, Silva & Bates 2002) e destas, 11,8% está ameaçada (Marini & Garcia 2005). As aves endêmicas tendem a ser mais restritas ao habitat, sendo menos capazes de sobreviver em ambientes alterados, o que as torna mais sensíveis à destruição de seu ambiente (Stotz et al. 1996). Outro grupo ameaçado, devido, principalmente, à expansão da agropecuária, é o das aves campestres especialistas obrigatórias. Estas são adaptadas e dependentes desse habitat (Vickery & Herkert 2001).

Apesar de as aves serem um grupo relativamente fácil de se estudar, poucos estudos biológicos foram desenvolvidos com a avifauna do Cerrado (Cavalcanti 1999, Marini & Garcia 2005), especialmente com as endêmicas e ameaçadas (Garcia & Marini 2006). Devido à necessidade de informações básicas sobre este grupo, foram estimados o tamanho populacional e a densidade em cinco espécies endêmicas: Cypsnagra hirundinacea, Neothraupis fasciata, Saltator atricollis, Cyanocorax cristatellus e Melanopareia torquata, e em duas espécies especialistas obrigatórias das áreas campestres: Alectrurus tricolor e Culicivora caudacuta, em um Cerrado preservado do interior paulista, a fim de indicar estratégias para sua conservação.

(23)

14 MATERIAL E MÉTODOS

Área de Estudo

O presente estudo foi desenvolvido no Cerrado da Estação Ecológica de Itirapina (EEI), localizada a 230 km de São Paulo, nos municípios de Itirapina e Brotas (22º 15’ S; 47º 49’ W), com uma área de 2300 ha (Figura 1.1). Essa estação representa uma das últimas áreas de campos e campos cerrados naturais remanescentes do estado de São Paulo (Gianotti 1988). A AUSP, área pertencente à Universidade de São Paulo, é um terreno abandonado com cerca de 420 ha contíguo a EEI (Figura 1.1). Possui campo sujo, campo cerrado e cerradão com algumas ruínas de galpões de aeroporto não concluido e sem fiscalização. Até meados de 2009, havia invasão de pecuaristas que criavam cabras, porcos e, principalmente, gado. A vegetação arbórea e arbustiva está bem preservada, contudo, a vegetação herbácea é mais escassa devido ao consumo intenso e pisoteio pelos herbívoros domésticos.

(24)

15 Figura 1.1 Total de pontos amostrados em 2006 e 2007 na Estação Ecológica de

(25)

16 O Cerrado apresenta um complexo de formações campestres (campos limpo e sujo) e florestais (cerradão). Entre estes extremos estão as formações intermediárias de savana, como campo cerrado e cerrado sensu stricto. Neste estudo são adotadas seis fitofisionomias de acordo com Ribeiro & Walter (1998).

A fitofisionomia mais densa é o cerradão, que apresenta um dossel predominantemente contínuo com cobertura arbórea de 50-90%. A altura média do estrato arbóreo varia de 8 a 15 m.

O cerrado sensu stricto, por sua vez, apresenta os subtipos “denso e típico”. Estes possuem um dossel predominantemente contínuo com cobertura arbórea de 20-70%. A altura média deste estrato arbóreo varia de 8 a 15 m.

Com densidade intermediária, o campo cerrado apresenta cobertura arbórea variando de 5 a 20%, na qual predomina o estrato arbustivo-herbáceo com algumas árvores esparsas e altura média de 3 a 6 m.

As áreas campestres se subdividem em campo suje e limpo. O campo sujo é um tipo de fisionomia exclusivamente heráceo-arbustivo, com arbustos e subarbustos esparsos. As plantas são, muitas vezes, constituídas por indivíduos menos desenvolvidos das espécies arbóreas. Por outro lado, o campo limpo a vegetação predominantemente herbácea com raros arbustos e ausência de árvores.

As áreas úmidas se subdividem em campo limpo e sujo úmido. O campo limpo úmido é um campo limpo graminoso com herbáceas e arbustos raros. Esse tipo de fitofisionomia está localizado na borda de mata de galeria e apresenta inundação periódica. No período do estudo essas áreas se encontravam secas ou apenas úmidas, contudo, ainda não haviam sido alagadas. O campo sujo úmido e campo sujo com murundum são localizados em um lençol freático alto, com ou sem a presença de murunduns.

(26)

17 Por fim, as áreas alteradas consideradas são os locais em que anteriormente havia plantação de Pinus. spp. Atualmente a área encontra-se em recuperação natural e possui semelhança fisionômica ao campo cerrado.

A altitude da área de estudo varia entre 705 e 750 m (SEMA 1997). O clima é do tipo Cwa segundo a classificação de Köppen (1948) ou mesotérmico (Veiga 1975 apud Gianotti 1988). A precipitação média anual é de 1376 mm, com a estação seca, entre abril e setembro, variando de 32 a 88 mm mensal, e a estação chuvosa, entre outubro e março, com 117 a 257 mm mensal (DAEE Posto D4-014, Itirapina, SP). As temperaturas médias mensais oscilam entre 16,2 e 20,1º C, na estação seca, e 19,5 e 22,3 º C, na estação úmida (Gianotti 1988).

O Cerrado da EEI se encontra na lista de áreas prioritárias para conservação das aves no Brasil (Bencke et al. 2006), devido a sua alta riqueza de espécies. Em um levantamento recente registrou-se para EEI um total de 231 espécies de aves, das quais 38 (16,4%) encontram-se na lista de espécies ameaçadas para o estado de São Paulo e/ou são endêmicas do Cerrado (Motta-Junior et al. 2008).

O entorno da reserva apresenta diversos tipos de ocupação e uso do solo, fazendo divisa com pecuaristas, um condomínio, plantações de Pinus spp. e Eucalyptus spp. Podemos destacar entre as principais ameaças a expansão de espécies exóticas de gramíneas, como Brachiaria decumbens (capim braquiária), Melinis minutiflora (capim gordura). Além da entrada de espécies exóticas de árvores, como Pinus spp. e eucalipto vindos do entorno. Brachiaria decumbens é comum nas áreas marginais próximo às estradas e aceiros, enquanto M. minutiflora também é registrada nas áreas mais centrais da EEI. Outros fatores de perturbação são as invasões por caçadores e animais como gado, cabras, porcos e javalis (Motta-Junior et al. 2008).

(27)

18 Coleta dos dados

As amostragens ocorreram de setembro a dezembro de 2006, meses de maior vocalização das aves no campo, por ser o período reprodutivo no Cerrado (Alves & Cavalcanti 1990, Piratelli et al. 2000, Marini & Durães 2001, França 2005, Lopes & Marini 2005, Medeiros & Marini 2007, Sousa & Marini 2007). Os pontos de amostragem foram dispostos sistematicamente distando 300 m entre si. Cada habitat foi amostrado em proporções próximas a sua ocorrência na EEI e AUSP (Tabela 1.1).

Tabela 1.1 Tipos de habitat amostrados e número de pontos dispostos na Estação Ecológica de Itirapina (EEI) e na área da Universidade de São Paulo (AUSP) entre setembro e dezembro de 2006.

Habitats Área (ha) % habitat área em 2006 Pontos pontos % de

Áreas úmidas 420,12 17,19 24 17,91

Campos limpo e sujo 1162,28 47,57 68 50,75

Campo cerrado 571,44 23,39 30 22,39

Cerrado sensu stricto 121,36 4,97 6 4,47

Cerradão 52,88 2,16 2 1,49

Área alterada 115,48 4,73 4 2,99

Total 2443,26 100,00 134 100,00

Os tipos e a porcentagem de cada habitat foram obtidos pela análise do índice de vegetação diferença normalizada (IVDN), com base em imagens de satélites do CBERS 2, de 17 de julho de 2006, fornecidas pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). Foram utilizadas as faixas do infravermelho próximo e do vermelho (Mesquita Jr 1998, Bitencourt & Mesquita Jr 2005). Para a classificação da imagem foram atribuídos um intervalo de valores para as diferentes classes, com base nas informações dos pontos de amostragem. As assinaturas espectrais de cada

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19 fitofisionomia obtidas por Mesquita Jr (1998) serviram de referência para a classificação.

A nomenclatura científica segue a proposta pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO 2008). Para verificar o período de maior atividade das aves foi realizada uma amostra piloto. Os dados obtidos mostraram que as espécies apresentavam maior atividade durante o início da manhã e o final da tarde, sendo suficiente para o registro das espécies o período de 10 min para cada ponto de amostragem. Entre setembro e dezembro de 2006, cada ponto foi amostrado três vezes, sendo duas amostragens pela manhã (5:00 às 9:00 h) e uma durante a tarde (16:00 às 18:00 h).

Inicialmente foram sorteados um único ponto e a direção, para determinar a rota a ser seguida nas estradas e a seqüência de pontos para a amostragem. Para evitar duplicações de contagens e aumentar a independência dos dados, foi considerada uma distância mínima de 600 m entre os pontos. Durante a segunda visita, a ordem dos pontos foi então invertida, possibilitando a realização de amostragens em períodos distintos do dia. As aves não foram amostradas em dias com chuva e vento forte, ou ainda, com temperaturas muito altas, pois esses fatores alteram o seu comportamento diminuindo a detecção (Bibby et al. 2000).

Amostragem com distância

A amostragem com distância ilimitada é um dos métodos mais utilizados para gerar estimativas da população (Newson et al. 2008). A partir do ponto de amostragem são estimadas as distâncias dos indivíduos observados ao ponto, sendo a distância ilimitada. Essa metodologia tem como base a função de detecção g(r) para transecções pontuais. Essa função é estimada com os dados de distância sendo

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20 utilizado para calcular a probabilidade de detecção (p). A função de detecção compensa pelo fato da probabilidade de detecção diminuir com o aumento da distância ao observador. Em um caso mais simples, a densidade (D) é estimada como D = n/a x p, onde n é o número total de detecções, e a é a área amostrada (Burnham et al. 1980, Rosenstock et al. 2002, Buckland et al. 2006). Essa metodologia considera em sua análise as variações de detectabilidade da espécie, possibilitando a avaliação de grandes áreas, com baixos custos e em pouco tempo (Buckland et al. 2001).

A probabilidade de detectar uma ave pode variar com diversos fatores tanto ambientais, como comportamentais (observador e ave) e morfológicos da espécie alvo. Os modelos usados para a função de detecção são bastante robustos, isso significa que as estimativas de densidade não são afetadas por variações na probabilidade de detecção. Além disso, estes modelos também podem se adequar a uma ampla variedade de formatos (Rosenstock et al. 2002, Buckland et al. 2006).

A detecção ocorreu com uso da bioacústica e/ou visualização utilizando um binóculo, Swift 8 x 42. Para obter a densidade e o tamanho populacional das aves foi utilizada a amostragens de distância com transecções por ponto (Buckland et al. 2001). O termo transecção por ponto se refere a uma transecção de comprimento zero (Buckland et al. 2001). Essa metodologia é preferida para estudos populacionais com várias espécies, pois permite uma maior concentração do pesquisador durante as detecções. Além disso, áreas com formação de mosaicos de paisagem, como observado no Cerrado, podem ser mais bem representadas nas proporções de sua ocorrência na área (Buckland et al. 2001).

Uma das críticas para a transecção por ponto é a possibilidade da recontagem de um mesmo indivíduo após o seu deslocamento. Entretanto, essa questão não é preocupante se um animal é detectado mais de uma vez em diferentes ocasiões, no

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21 mesmo ponto de amostragem, ou se o mesmo animal detectado em um ponto é também registrado em outro ponto, desde que seja um movimento aleatório (Buckland et al. 2001). Para minimizar esse tipo de erro, foram obtidas as direções dos registros, o que possibilitou um melhor acompanhamento dos movimentos das aves.

A densidade e o tamanho populacional foram analisados utilizando-se o programa DISTANCE 5.1 (Thomas et al. 2005). Para a escolha da função de detecção foram utilizados os seguintes critérios: Critério de Informação de Akaike (Akaike 1973, Burnham & Anderson 2002), modelo estatístico de ajuste do qui-quadrado, e inspeção visual da probabilidade de detecção (Buckland et al. 2001).

As seguintes premissas do método foram consideradas (Buckland et al. 2001): 1. Todas as aves no ponto de amostragem serão detectadas. Como os pontos

foram identificados com marcadores e encontrados com ajuda do GPS (Sistema de Posicionamento Global), eTrex Summit, com a aproximaçãodo pesquisador ao ponto, a atenção foi intensificada para permitir a detecção da ave em suas proximidades.

2. As aves serão detectadas em sua posição inicial no momento da chegada do

observador. Aquelas aves sobrevoando a área, ou pousando, após iniciar o período de contagem, não foram registradas. Essa premissa pode ser violada com M. torquata, devido ao seu deslocamento no chão entre as gramíneas, o que dificulta a sua detecção. Entretanto, como a espécie é territorialista e apresenta deslocamentos curtos, a sua movimentação é mais restrita às proximidades do ponto (obs. pess.), aumentando as chances de detecção. 3. As distâncias das aves ao observador serão estimadas com precisão. Para isso,

foi utilizado um telêmetro monocular a laser, marca Bushnell (Yardage Pro), com alcance de 10 a 850 m. A fim de minimizar os erros durante a mensuração

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22 foi realizado um treinamento prévio para medidas menores que 10 m. Como na área de estudo é comum a observação de gramíneas altas (> 1,5 m de altura) foi necessária a utilização de um banco de plástico para o uso adequado do telêmetro. Este procedimento facilitou as observações e principalmente, as mensurações. Para algumas espécies, as distâncias mensuradas foram dispostas em categorias, de forma a diminuir possíveis erros da mensuração.

Outras considerações: Ocorrência em bandos

Para as espécies que ocorrem em bandos mono e/ou heteroespecíficos, como Cypsnagra hirundinacea, Saltator atricollis, Cyanocorax cristatellus e A. tricolor a análise foi realizada com populações em grupos (Ragusa-Netto 2000, 2001, Ridgley & Tudor 1994). A unidade amostral considerada foi o número de bandos detectados. Para os grupos em que não foi possível realizar a contagem dos indivíduos, o tamanho do bando foi determinado pelo número médio de indivíduos presentes nos grupos observados. Buckland et al. (2001) estabelece que a probabilidade de detecção é dependente tanto da distância do ponto, como do tamanho do bando. Assim, os bandos maiores são mais facilmente detectados a maiores distâncias do que os bandos menores. Para minimizar esse viés da amostragem a maioria dos dados foi truncada. Dessa forma foi possível a aumentar a correção entre a distância de detecção e o tamanho do bando (Buckland et al. 2001).

Tipos de habitat

Como os habitats amostrados diferiam na estrutura da vegetação, provavelmente influenciando na detectabilidade das espécies, a densidade foi

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23 calculada por habitat através da estratificação, ou com uso de covariáveis (Marques et al. 2007). Essa última abordagem utiliza todos os dados obtidos nos diferentes habitats para avaliar a função de detecção. As áreas de campo limpo e campo sujo foram analisados conjuntamente para C. caudacuta e A. tricolor. Isto ocorreu devido aos seus registros ocorrerem basicamente nas áreas campestres e às semelhanças do campo de visão nesses habitats, sem a presença de árvores.

Como N. fasciata apresentou poucos registros nas áreas de campo sujo e campo cerrado sendo o seu registro, principalmente auditivo, as suas observações foram agrupadas, sendo o tipo de habitat considerado como uma covariável. Esse tipo de análise é indicado para espécies com número de registros baixos por habitat. Para as demais espécies os registros esporádicos em outros habitats impossibilitaram a realização de uma análise separada, devido ao número mínimo de observações necessárias (n = 60) para o cálculo do tamanho da população.

RESULTADOS Densidade

As maiores estimativas de densidade média para toda a área de estudo foram de N. fasciata, C. caudacuta, C. hirundinacea e S. atricollis. As densidades mais baixas foram registradas para A. tricolor, M. torquata e C. cristatellus (Tabela 1.2).

Considerando as densidades estratificadas por habitats, verificamos que S. atricollis foi mais comum no campo cerrado do que nas áreas campestres. Por outro lado, C. hirundinacea e M. torquata apresentaram uma densidade similar nas áreas

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24 campestres e no campo cerrado. A densidade de M. torquata por habitat foi baixa, quando comparada com S. atricollis e C. hiruncinacea (Tabela 1.2).

A taxa de encontro, número de animais detectados por ponto amostrado, foi maior para C. caudacuta, C. cristatellus, M. torquata, A. tricolor e N. fasciata (Tabela 1.3). A probabilidade de detecção, por sua vez, foi maior para C. hirundinacea (campo limpo e sujo) e S. atricollis (campo limpo e sujo, campo cerrado). Todos os resultados obtidos apresentaram p > 0,05 para o teste de aderência, ou seja, os valores observados para a função de detecção foram semelhantes ao esperado.

Tamanho populacional

O tamanho médio das populações foi maior para N. fasciata, C. hiruncinacea, S. atricollis e C. caudacuta (Tabela 1.2). Para as demais espécies os valores foram abaixo de 100 indivíduos. As menores médias populacionais foram de C. cristetellus, A. tricolor e M. torquata. O coeficiente de variação da população total da área foi maior para A. tricolor (37,74), que apresentou tamanho populacional variando de 26 a 111 indivíduos. Os demais coeficientes foram abaixo de 25%.

Considerando os valores inferiores populacionais, os menores valores foram de A. tricolor e C. cristatellus, com cerca de 25 indivíduos, e M. torquata com 57 indivíduos. As maiores populações inferiores, com mais de 100 indivíduos, observadas foram de C. hiruncinacea e N. fasciata.

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25 Tabela 1.2. Estimativa da densidade (D - indivíduos por km2) ± Erro padrão (EP) e do tamanho populacional (N) ± (EP) das espécies de aves endêmicas e ameaçadas da EEI e AUSP entre setembro e dezembro de 2006. O intervalo de confiança considerado foi de 95% (ICi – inferior e ICs – superior), por habitat (cc – campo cerrado e clecs – campo limpo e campo sujo), CV – coeficiente de variação. A área total corresponde ao cálculo da média da densidade e do tamanho populacional obtido para toda a área de estudo.

Espécie Habitat D ± EP DICi DICs N ± EP NICi NICs CV M. torquata Cc 4,0 ± 0,8 2,6 6,0 23 ± 4,8 15 34 0,21 M. torquata Clecs 3,0 ± 0,6 2,0 4,3 34 ± 6,6 23 50 0,19 M. torquata Área total 3,3 2,5 4,4 57 43 76 0,14 C. caudacuta Clecs 9,6 ± 2,0 6,3 14,7 112 ± 24,1 73 171 0,21 A. tricolor Clecs 4,6 ± 1,7 2,2 9,5 53 ± 20 26 111 0,38 S. atricollis Cc 10,0 ± 1,9 6,9 14,6 57 ± 10,8 40 83 0,19 S. atricollis Clecs 6,3 ± 1,2 4,3 9,1 73 ± 13,9 50 106 0,19 S. atricollis Área total 7,5 5,6 10,1 130 97 176 0,15 C. hirundinacea Cc 9,2 ± 1,3 7,0 12,1 53 ± 7,4 40 69 0,14 C. hirundinacea Clecs 7,7 ± 1,5 5,3 11,2 89 ± 17,1 61 130 0,19 C. hirundinacea Área total 8,2 6,1 10,9 142 106 198 0,15 N. fasciata Csecc 14,3 ± 3,2 9,3 22,1 248 ± 55,33 161 384 0,22 C. cristatellus Cc 5,5 ± 1,2 3,7 8,4 32 ± 6,8 21 48 0,21 C. cristatellus Clecs 0,7 ± 0,2 0,4 1,2 8,0 ± 2,4 5 15 0,29 C. cristatellus Área total 2,3 - - 40 25 63 0,23

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26 Tabela 1.3 – As melhores análises obtidas pelo programa Distance 5.1. São apresentados os tipos de habitats (cc – campo cerrado, clecs – campo limpo e campo sujo), as análises executadas (ADC – amostragem por distância convencional, ADCM – amostragem por distância usando covariáveis múltiplas, Critério de Informação de Akaike (AIC), função - chave de detecção (SN – semi-normal, HZ – hazard rate e UN – uniforme) tipos de ajuste (cos – coseno, pol – polinômio simples), TR – percentagem de truncamento, n – número de observações por espécies, Esf. – esforço amostral, P.D. – probabilidade de detecção, T.E. – taxa de encontro, Largura Efetiva LE (m) ± Erro padrão (EP), coeficiente de variação e o GOF Chi-p – valor de p de aderência.

Espécie Habitat Análise AIC Fun TR n Esf. P. D. T. E. L.E. ± EP GOF

Chi-p M. torquata Cc CDS 202,54 UN cos 10% 63 135,0 0,37 0,63 192,87 ± 12,33 0,80

M. torquata Clecs CDS 278,88 UN cos 10% 87 217,0 0,47 0,53 207,97 ± 13,85 0,78

C. caudacuta Clecs CDS 459,23 UN cos 5% 47 202,0 0,24 0,76 87,70 ± 4,60 0,49

A. tricolor Clecs CDS 199,28 HN 0% 18 120,0 0,30 0,58 121,45 ± 12,52 0,56 S. atricollis Cc CDS 718,88 HN 5% 66 168,0 0,54 0,32 139,64 ± 9,76 0,07 S. atricollis Clecs CDS 781,18 HN 5% 71 216,0 0,59 0,27 161,83 ± 11,8 0,36 C. hirundinacea Cc CDS 98,8 UN cos 5% 50 111,0 0,44 0,34 176,49 ± 8,18 0,36 C. hirundinacea Clecs CDS 183,48 HN 5% 88 153,0 0,68 0,21 218,47 ± 17,27 0,34 N. fasciata Cs e cc MCDS 567,64 Hz 5% 55 311,0 0,34 0,56 84,54 ± 5,49 0,08 C. cristatellus Cc CDS 740,99 UN pol 3% 65 174,0 0,21 0,28 241,76 ± 11,75 0,98 C. cristatellus Clecs CDS 180,97 UN 3% 16 185,0 0,26 0,74 327,00 0,37

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27 DISCUSSÃO

Densidade

O primeiro trabalho quantitativo no Cerrado, considerando a variação na detectabilidade, enfocou as aves campestres (campos limpos, campos sujos, campos úmidos e campos rupestres) do Parque Nacional de Brasília (PNB) e do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (PNCV) (Braz 2008). Esse estudo mostrou que mesmo em áreas amplas e preservadas, em Unidades de Conservação localizadas próximas, podem existir grandes variações populacionais. Como exemplo, a espécie mais abundante nas áreas campestres no PNCV foi Coryphaspiza melanotis (23 indivíduos/km2), uma espécie vulnerável, que no PNB apresentou número de registros insuficientes para a análise da densidade.

As densidades médias de C. caudacuta e A. tricolor observadas nas áreas campestres da EEI apresentaram valorores semelhante ao observado em áreas extensas, como no Parque Nacional de Brasília e da Chapada dos Veadeiros. Essa semelhança sugere que a área campestre da EI, apesar de pequena, se encontra em bom estado de conservação.

A classificação de A. tricolor e C. caudacuta como vulnerável teve como base apenas a alta taxa destruição do habitat campestre no Brasil, não existindo consideração com relação à população das espécies (BirdLife International 2008a,b). A densidade mínima de A. tricolor observada, de 6,7 indivíduos/km2, representa valor bem maior do

que as estimativas considerada pela BirdLife International (2008a), 1 indivíduo/km2. Esta estimativa teve como base as menores densidades obtidas para espécies da família Tyrannidae. Os resultados obtidos mostram que os pequenos fragmentos preservados de

(37)

28 Cerrado podem conter densidades de espécies ameaçadas semelhantes, ou maiores, às áreas extensas e preservadas, como ocorrido com A. tricolor e C. caudacuta.

Alectrurus tricolor apresentou um número baixo de observações para machos (N

= 21) e fêmeas (N = 4). Essa diferença de detecção ocorreu, provavelmente, devido ao dimorfismo sexual da espécie. Os machos são facilmente detectados, pois possuem coloração branca e preta. Por outro lado, fêmeas e jovens, são mais camuflados e, portanto, apresentam menor detecção. Apesar do baixo número de machos registrados e do valor mais alto do coeficiente de variação (0,38), a análise foi, mesmo assim, realizada por ser essa uma espécie vulnerável (IUCN 2008).

Tamanho da População

Populações pequenas com distribuição restrita são altamente vulneráveis a extinção (Terborgh & Winter 1980, Gilpin & Soule 1986, Schoener & Spiller 1987). Existem muitas controvérsias a respeito do tamanho mínimo necessário para que uma população garanta a sua persistência (Reed et al. 2003). O tamanho mínimo viável para uma população (MVP) pode ser definido como o menor tamanho requerido da população de uma espécie, que apresente 99% de chances de persistir em 1000 anos (Shaffer 1981). Reed et al.(2003) analisando o tamanho mínimo viável para 102 espécies de vertebrados sugere que as áreas para programas de conservação sejam capazes de suportar aproximadamente 7000 indivíduos adultos, de forma a garantir a sua persistência. Outros estudos indicam um tamanho de população mais baixo, entre 500 – 1000 (Franklin & Frankham 1998), ou de 1000-5000 indivíduos (Lynch & Lande 1998).

(38)

29 As estimativas de tamanho populacionais obtidas nesse estudo indicam que nenhuma das espécies estudadas apresentou população acima de 500 indivíduos, o mínimo indicado para uma população viável (Franklin & Frankham 1998). O tamanho pequeno da população e o isolamento resultam em uma baixa diversidade genética (Reed & Frankham 2003, Willi et al. 2006), e na diminuição da aptidão reprodutiva (Reed 2005).

Apesar de C. caudacuta e A. tricolor serem incomuns, com localizações pontuais em toda a sua distribuição, apresentaram tamanhos relevantes de populações. Estas espécies, como são ameaçadas, devem ser monitoradas em longo prazo. Braz (2008) verificou que em unidades de conservação extensas, o tamanho populacional médio pode alcançar entre 1022 a 1786 indivíduos para C. caudacuta, e de 1374 indivíduos para A.

tricolor.

Estimativas indiretas especulam que o tamanho populacional para ambas as espécies esteja em torno de 10.000 indivíduos maduros (BirdLife International 2008a,b), entretanto, essa estimativa teve como base informações de outras espécies aparentadas (IUCN 2008). Provavelmente o valor real do tamanho da população desses tiranídeos não seja esse estimado. Apesar da densidade obtida nos estudos ser maior do que anteriormente previsto (BirdLife International 2008a,b), faz-se necessário conhecer a disponibilidade de áreas campestres, que ainda estão em bom estado de conservação, para se obter uma estimativa mais segura da população global. Considerando que os remanescentes de áreas campestres no Brasil encontram-se restritos a poucas Unidades de Conservação (Collar et al. 1992) e que a destruição fora dessas áreas é eminente (Stotz et

(39)

30

al. 1996), sugerimos que o status dessas espécies seja pelo menos mantidos caso não

ocorra uma averiguação detalhada dos seus habitats.

Melanopareia torquata é uma espécie territorialista de fácil detecção auditiva,

durante o período reprodutivo de setembro a dezembro na EEI. A sua densidade na região foi mais alta do que a observada em outras áreas de campo sujo e campo cerrado, como no PNB (obs. pess.). Essa espécie também apresenta área de vida pequena durante a época reprodutiva, variando de 0,54 a 1,62 ha (dados não publicados).

As demais espécies endêmicas que participam de bandos, como S. atricollis, N.

fasciata e C. hirundinacea tiveram uma diferença populacional considerável. Neothraupis fasciata é residente e territorialista durante o ano inteiro, com área de vida de (3,7 ± 0,6

ha) (Duca 2007) e grupos monoespecíficos que variam de quatro a seis indivíduos (Duca 2007, Alves 1990). Apesar de ser considerada quase ameaçada (IUCN 2008) foi a espécie mais comum na EEI dentre as aves endêmicas do Cerrado avaliadas. Duca (2007) estimou para a Estação Ecológica de Águas Emendadas, área com 6000 ha, uma população média de 3438 indivíduos, o que representou um valor inferior à capacidade de suporte estimada para N. fasciata nessa área.

Cyanocorax cristatellus é uma espécie oportunista, pouco sensível aos distúrbios

antrópicos (Lopes 2008). Esta espécie se estabelece facilmente em áreas agrícolas e pode ser encontrada em locais semi-urbanos das grandes cidades (Vasconcelos & Nemésio 2007). No presente estudo, apresentou o mais baixo tamanho populacional, provavelmente, por possuir uma área de vida média maior que os demais Passeriformes, 172 ha, podendo formar grupos extensos de 10 indivíduos (Amaral & Macedo 2003). Entretanto, na EEI observamos, em geral, a ocorrência de casais (N = 47 registros).

(40)

31 Provavelmente, áreas menores não suportem grupos grandes de gralhas, limitando também o tamanho das populações. Outra possibilidade é que este seja um comportamento mais restrito ao do período reprodutivo da espécie. O uso oportunístico de áreas alteradas (Lopes 2008) também foi constatado na EEI, onde foi comum a sua ocorrência em plantações de eucalptais e Pinus spp, tanto dentro, como nos arredores da EEI.

Considerações Finais

O presente trabalho contribui para mostrar a importância da preservação de áreas pequenas e fragmentadas do Cerrado, e a necessidade de manejo e expansão dessas áreas. As populações da EEI representam um dos últimos remanescentes da comunidade de aves de Cerrado do estado de São Paulo. Apesar da restrição de tamanho, os fragmentos pequenos podem abrigar populações de aves endêmicas e ameaçadas, contribuindo assim, para a biodiversidade local e os processos ecológicos da região. Entretanto, para a manutenção dessas populações é fundamental a realização de ações para monitorar o tamanho das populações ao longo do tempo e avaliar meios para incrementar a qualidade de habitat. Além disso, sugerimos uma avaliação de outras áreas que possam ser acrescentadas à EEI, ou utilizadas como corredores ecológicos. A manutenção dessas áreas poderia incrementar populações de espécies, com aparente baixa capacidade de dispersão, como M. torquata e C. caudacuta. Sugerimos que as áreas do seu entorno, mesmo aquelas alteradas, mas possíveis de recuperação sejam acrescentadas a EEI, como áreas da AUSP e da Sadia (campo limpo).

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32

Capítulo 2

Seleção de habitat por Melanopareia torquata (Aves,

Melanopareiidae), Culicivora caudacuta e Alectrurus tricolor (Aves,

Tyrannidae) na Estação Ecológica de Itirapina, Estado de São Paulo,

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33 Resumo: Diversos estudos realizados com uso e/ou seleção de habitat apresentaram implicações importantes para a conservação dos animais. O presente estudo tem como objetivo verificar a seleção de habitat de uma espécie de ave endêmica do Cerrado (tapaculo-de-colarinho, Melanopareia torquata), família Melanopareiidae, e de dois tiranídeos ameaçados (papa-mosca-do-campo, Culicivora caudacuta e galito, Alectrurus

tricolor), durante o período reprodutivo, em um cerrado preservado do sudeste do Brasil.

O estudo foi desenvolvido na Estação Ecológica de Itirapina (EEI), com 2300 ha, e em uma área contígua da Universidade de São Paulo (AUSP), com 420 ha, estado de São Paulo. Foram utilizadas duas escalas: macrohabitat e de microhabitat, durante o período reprodutivo (outubro e novembro de 2006 e 2007). Para avaliar o macrohabitat das três espécies e o microhabitat de C. caudacuta e A. tricolor foram amostrados 134 pontos sistematicamente distribuídos. Na análise de macrohabitat foram utilizadas informações de uso-disponibilidade com o intervalo de confiança de Bailey. Para obter a seleção de microhabitat de M. torquata foram utilizados 12 rádio-transmissores da Holohil Systems. Os modelos de regressão logística foram selecionados pelo Critério de Informação de Akaike (AIC). Melanopareia torquata selecionou apenas as áreas de campo cerrado. As áreas campestres e úmidas foram utilizadas em proporções menores do que o esperado.

Alectrurus tricolor ocorreu basicamente nas áreas campestres. Culicivora caudacuta

selecionou as áreas campestres, enquanto as áreas úmidas foram menos utilizadas do que o esperado. O melhor modelo de microhabitat selecionado pelo AIC para explicar a presença de M. torquata incluiu a maior densidade de arbustos altos (> 1 m) e gramíneas nativas. A importância dessas variáveis para M. torquata é evidenciada durante as vocalizações em arbustos altos. Além disso, o seu deslocamento, forrageamento e a

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34 reprodução (local do ninho) ocorrem basicamente no estrato inferior, entre moitas de gramíneas. As gramíneas exóticas não inibiram a presença de M. torquata. No entanto, preferência por gramíneas nativas pode indicar uma relação adversa indireta com as exóticas, uma vez que se observa uma relação competitiva entre essas gramíneas no Cerrado. O modelo mais relevante, para C. caudacuta e A. tricolor foi a menor densidade da palmeira, Attalea geraensis e de árvores. C. caudacuta selecionou áreas com maior densidade de arbustos baixos (< 1 m) e solo menos exposto, associados com a menor densidade de A. geraensis. Sugerimos para M. torquata o manejo da área com a remoção de gramíneas exóticas e a manutenção dos limites da área, sem a presença de grandes herbívoros domésticos. Para os tiranídeos estudados, sugerimos preservar e restaurar as áreas campestres naturais com dominância de gramíneas nativas, incluindo arbustos baixos.

(44)

35 Abstract: Studies on use and habitat selection are important to animal conservation. The present study has the goal to verify the use and habitat selection of an endemic Cerrado Collared crescentchest (Melanopareia torquata), Melanopareiidae, and two threatened tyrannids (Sharp-tailed Tyrant, Culicivora caudacuta and Cock-tailed Tyrant, Alectrurus

tricolor) during the reproductive period in a preserved Cerrado in southeast Brazil. The

study was developed in an area with 2300 ha, the Estação Ecológica de Itirapina (EEI), and in an adjacent area of Universidade de São Paulo (AUSP) with 420 ha, state of São Paulo. Two scales were considered: macrohabitat, and microhabitat during the reproductive period (October and November of 2006 and 2007). Macrohabitat selection was analyzed through use-availability data performing confidence intervals of Bailey. To evaluate macrohabitat selection of the three species, and microhabitat for C. caudacuta and A. tricolor, we sampled 134 point counts systematically distributed. To evaluate microhabitat selection, radio-telemetry was used (12 radio-transmitters, Holohil Systems) for detecting individuals of M. torquata. Logistic regression models were selected by Akaike Information Criterion (AIC). Melanopareia torquata selected only “campo cerrado” areas. The grassland and flood areas were used less than expected. Alectrurus

tricolor occurred mainly in grasslands. Culicivora caudacuta selected grassland areas,

while the flooded grasslands were less used than expected. The best model selected by AICc to explain M. torquata presence was the high density of tall shrubs (> 1 m) and native grasses. The importance of these variables to M. torquata is evident during its vocalizations on high shrubs. Its movement, foraging, and reproduction (nest location) occurs mainly in the lower stratum, among grassland bushes. The alien grasses did not inhibit M. torquata presence, although the native grasses selection could indicate an

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36 indirect adverse relation with alien grasses, because of the occurrence of a competitive relation among them. The low density of the palm, Attalea geraensis and trees was the most relevant model for C. caudacuta and A. tricolor. Akaike criterion selected other models as short shrubs (< 1 m), and lesser exposed ground associated with a low density of A. geraensis for C. caudacuta. The area management with the removal of alien grasses and the maintenance of bordering areas without the presence of large domestic herbivores could be beneficial to M. torquata.. We suggest for the tyrannids studied to preserve and restore natural grasslands with dominance of native grasses, including short shrubs. Keywords: bird, Cerrado, São Paulo, habitat selection.

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37 INTRODUÇÃO

A seleção de habitat é uma resposta comportamental do animal, inata ou aprendida, que permite a ele distinguir vários componentes do ambiente, resultando em um uso desproporcional destes. O resultado desse processo de decisão é observado na distribuição real dos indivíduos nos diferentes tipos de habitat (uso do habitat). A escolha realizada pela ave terá influência tanto na sua sobrevivência, como na sua aptidão reprodutiva (Hutto 1985, Block & Brennan 1993).

Diversos estudos realizados com uso e/ou seleção de habitat apresentaram implicações importantes para a conservação dos animais. Alguns a associam com os possíveis motivos para o declínio das populações (Peach et al. 2004, Hinsley et al. 2007) ou identificam os habitats apropriados para a ocorrência da espécie (Oppel et al. 2004). Considerando a importância dessas pesquisas, com aplicação direta na conservação, o presente estudo tem como objetivo verificar a seleção de habitat de três espécies de aves, durante o período reprodutivo, em um cerrado preservado do interior paulista.

O Bioma Cerrado é considerado entre as áreas mundiais de grande prioridade para conservação (Myers et al. 2000). No Cerrado foram registradas 857 espécies de aves, das quais 33 espécies são endêmicas (Cavalcanti 1999, Silva 1995, Silva & Bates 2002, Silva & Santos 2005, Piratelli & Blake 2006). Considerando a necessidade de pesquisas biológicas com aves do Cerrado (Cavalcanti 1999, Marini & Garcia 2005) como forma de subsídio para sua conservação e manejo das espécies, o presente estudo foi desenvolvido com uma espécie de ave endêmica, e duas ameaçadas do Cerrado.

O tapaculo-de-colarinho, Melanopareia torquata, é uma espécie endêmica do Cerrado (Silva & Bates 2002), que pertence à família Melanopareiidae (CBRO 2008).

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38 Habita os campos cerrados, savanas ricas em cupinzeiros e campos sujos (Sick 1997). A espécie não é muito comum em áreas muito abertas, como nos campos limpos (Ridgley & Tudor 1994), ou mais fechadas, como no cerrado sensu stricto (Tubelis & Cavalcanti 2000). Nas áreas alteradas, é mais freqüente nas áreas de campo cerrado com predominância de gramíneas exóticas, ocasionalmente ocorrendo em áreas alteradas, como pastagens com arbustos (Tubelis & Cavalcanti 2000).

O papa-mosca-do-campo, Culicivora caudacuta, é um tiranídeo que ocorre em áreas de campo sujo e campo limpo com capim alto (Silveira et al. 1998, Bagno & Marinho Filho 2001, Tubelis & Cavalcanti 2001, Willis 2004, Di Giacomo 2005, Sousa & Marini 2007, Braz 2008, Motta-Junior et al. 2008). Ocasionalmente é observado em áreas com capim introduzido, do gênero Brachiaria (Braz 2008), ou Andropogon (Wetmore 1926 apud Di Giacomo 2005). Sua ocorrência é mais eventual no campo cerrado (Lowen et al. 1996, Sousa & Marini 2007) e no errado sensu stricto (Sousa & Marini 2007), em locais próximos a áreas úmidas (Lowen et al. 1996), em áreas de transição entre campo úmidos e secos, e próximos de corpos d’água (Wetmore 1926 apud Di Giacomo 2005, Ridgley & Tudor 1994).

Alectrurus tricolor (Tyrannidae) ocorre nos campos limpos e sujos (Bagno &

Marinho Filho 2001, Tubelis & Cavalcanti 2001, Willis & Oniki 2003, Willis 2004, Braz 2008, Motta-Junior et al. 2008) com gramíneas altas (> 1 m) (Rigley & Tudor 1994, Esquivel et al. 2007), sendo menos comum nas proximidades de áreas úmidas ou de banhados, em áreas com gramíneas altas e queimadas recentes, ou com intenso pastoreio (Ridgley & Tudor 1994, Sick 1997, Fitzpatrick et al. 2004, Sigrist 2006). A espécie

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39 também é registrada em áreas com capim introduzido, do gênero Brachiaria (Braz 2008) ou Andropogon (Esquivel et al. 2007).

De acordo com a lista da IUCN (IUCN 2008) e do IBAMA (2003), C. caudacuta e

A. tricolor são espécies “vulneráveis”. Willis & Oniki (2003) consideram as espécies

quase extintas no estado de São Paulo. As suas populações estão declinando devido, principalmente, à perda de habitat, em decorrência da conversão dos campos em plantações de eucalipto, soja e pastagens (Parker III & Willis 1997) e as freqüentes queimadas no Cerrado (Ridgley & Tudor 1994). Na Lista dos Animais Ameaçados de Extinção do Estado de São Paulo A. tricolor e C. caudacuta estão na categoria “criticamente em perigo”, enquanto M. torquata está “em perigo” (São Paulo 2008).

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40 MATERIAL E MÉTODOS

Área de Estudo (ver Capítulo 1)

Procedimento de Campo

Para avaliar a seleção de habitat foram consideradas uma escala maior (paisagem), e outra menor (uso de poleiros, local de forrageamento) (Hutto 1985, Block & Brennan 1993, Jones 2001). A primeira, que denominamos de habitat, está relacionado com as características da paisagem, por exemplo, com as fitofisionomias do Cerrado. O microhabitat está relacionado às características da vegetação, como o uso de poleiros e no forrageamento.

Seleção de habitat

A seleção de habitat foi obtida tanto pela detecção auditiva, como pela observação direta da ave nos pontos de amostragem. Foram avaliados cinco tipos de habitats na EEI e AUSP: cerrado sensu stricto, campo cerrado, campo sujo, campo limpo, áreas úmidas e áreas alteradas.

Os tipos e a porcentagem de cada habitat na área de estudo foram obtidos pela análise do índice de vegetação diferença normalizada (NDVI, Normalized Difference Vegetation Index), com base em imagens de satélites do CBERS 2, datadas de 17 de julho de 2006, fornecidas pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). Para essa análise foram utilizadas as faixas do infravermelho próximo e do vermelho (Mesquita Jr 1998, Bitencourt & Mesquita Jr 2005). As imagens foram então classificadas, sendo atribuído

Referências

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