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HERMENÊUTICA FILOSÓFICA
TEXTO 2
1.1.1. (Hermeneúo): estudo linguístico
O verbo (hermeneúo) deixa-se traduzir normalmente por
“interpretar”, “expor”, “explanar”, “explicar”1. O substantivo (hermeneía) quer dizer “exposição”, “explanação”2. O substantivo (hermeneús) ou o
(hermeneutés) quer dizer “expositor”, “intérprete”3.
O verbo (hermeneúo) quer dizer, basicamente, expor, no sentido de dar notícia. Neste sentido, (hermeneía) é a exposição traz uma mensagem, dá uma notícia, torna acessível um sentido. O discurso em seu caráter hermenêutico e aquele que profere um tal discurso se põe na proximidade e na esfera de
(Hermés)4. Este é o nome para o deus, mensageiro, o portador do anúncio, do recado, dos deuses. Ele traz a mensagem do destino.
1 Por exemplo, Platão, na República (453c): (hermeneúsai) – expor – um (lógos) – um discurso, uma tese. De modo semelhante, no Evangelho de Lucas (24, 27) se lê: “E começando por Moisés e todos os profetas, ele lhes explicou - (dierméneusen) – em todas as Escrituras o que lhe concernia”.
2 Cf. Platão, República (524b): “tais (hermeneíai) – exposições – são estranhas para a alma e carecem de um atento exame”. Cf. também Teeteto 209a.
3 Platão, no livro das Leis (907d), refere-se a um (lógos) – discurso – que é (hermeneús) das leis. No diálogo Político (290c), o Estrangeiro remete à arte (mantiké), isto é, da predição, e diz que os que têm um saber afim a este são considerados, de certo modo, como
(hermeneútai) dos deuses junto aos homens.
4 No Crátilo (407e – 408a), brinca-se com o nome “Hermógenes” (filho de Hermes). Sócrates aproxima
“Hermógenes” de “Hermes” e compreende o significado do nome (nomen est omem – nome é destino!) no sentido do ofício de ser o hermeneuta, isto é, o intérprete e expositor, o (ángelos) – anunciador, mensageiro, núncio –, o (klopikós) – fraudulento, trapaceiro – e o
(apatelós en lógois) – o enganador nas palavras – e o (argorastikós) – o mercador, o comerciante, o traficante; e observa que todas estas atividades e habilidades e competências concernem à e permanecem na esfera da potência da palavra, da linguagem:
(perì lógou dýnamín estin pasa haúte he pragmateia).
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No diálogo Íon (534e), Platão faz Sócrates dizer a respeito dos poetas:
(oudèn all’e hermenés eisin ton theon) – nada mais são do que mensageiros, porta-vozes, dos deuses. Por sua vez, os rapsodos são os mensageiros e arautos das palavras dos poetas. Eles exercem o ofício de recitar os
poetas. A respeito deles Sócrates pergunta:
(houkoún hermenéon hermenés gígnesthe?) –
“portanto, não sereis vós os mensageiros dos mensageiros?”5.
Assim, (hermeneús) é aquele que comunica, anuncia, o que o outro
“quer dizer”; é aquele que intermedia, media tal comunicação, tal anúncio. No diálogo Sofista (246e; 248a), Platão usa o verbo (aphermeneúo), no sentido de relatar, anunciar, dar notícia, do que os outros pensam. No Teeteto (209a), Sócrates usa a palavra (hermeneía) no sentido de tornar noto, conhecido, sabido. Este tornar noto é um fazer explícito.
Em sentido derivado, porém, os exercícios da linguagem, como expor, explanar, explicar, são tomados no sentido do interpretar de um comentário. A exposição ou explanação, agora, toma o sentido do exercício da interpretação no sentido do comentário. O (hermeneús) ou o (hermeneutés) se torna, assim, o expositor e intérprete, no sentido do comentador.
Depois, o verbo (hermeneúo) significa “indicar”, “exprimir”,
“expressar”6. A palavra (hermeneía) significa, às vezes, “expressão”, seja pela palavra, no exercício da fala, seja pelo som, na música. Significa, assim, também “modo de se expressar”, “estilo” de expressão.
Enfim, o verbo (hermeneúo) quer dizer também “traduzir”7. Entendemos, normalmente, o traduzir, como um “transpor de uma linguagem estranha
5 Cf. Heidegger, Martin. A caminho da linguagem. Petrópolis/Bragança Paulista: Vozes/Edusf, 2003, p. 96.
6 Cf. Platão, no diálogo das Leis (966b), faz o Ateniense dizer que os custódios das leis devem realmente saber a verdade que concerne a elas, ser capazes de, pelo (lógos), isto é, pelo discurso, pelo pensamento discursivo, que mostra, (hermeneúein), indicar, interpretar, e de seguir estas mesmas leis nas suas obras, discernindo o que é bom e o que não é segundo o que é constitutivo segundo a natureza.
7 Na Bíblia encontramos este uso, por exemplo, em: 2 Esdras 4,7; Jo 1, 38.42; 9,7; Hb 7, 2.
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para uma linguagem familiar”. Isso significa: interpretar como intermediar8. Assim, às vezes, (hermeneía) significa “tradução”. Consoante isso,
(hermeneutés) pode significar “tradutor”, “intérprete” (entre duas línguas,
duas comunidades linguísticas)9.
Os quatro significados de (hermeneúo) se reúnem no conceito tradicional de hermenêutica:
Numa longa história de constituição foi-se firmando o costume de se entender hermeneúein e hermeneia, interpretari e interpretatio, como um nome comum, onde se empacotam todas as funções semânticas da linguagem: explicar, traduzir, comentar, expressar. No NT encontramos o nome usado para designar estas quatro funções semânticas da linguagem.
O denominador comum de todas elas costuma-se encontrar no fato de que sempre em qualquer função hermeneía e hermeneúein exercem o papel de esclarecer, seja uma mensagem obscura, uma língua estranha, uma passagem pouco clara ou uma vontade desconhecida. Por isso também, assim se usa dizer, a hermeneía se aplica às palavras divinas, à mensagem de Deus, que, sendo por sua própria natureza obscuras e misteriosas, necessitam de interpretação. Os métodos e técnicas, as leis e teoria desta interpretação proporcionam uma ciência, a hermenêutica. Ora, estas leis e métodos, estas técnicas e teoria da interpretação são os mesmos do pensamento objetivo que o homem emprega sempre que pretende conhecer em sua intenção o sentido de qualquer contexto semântico. Daí a definição hoje corrente de hermenêutica: a leitura do sentido de uma estrutura significante em sua intenção significativa dentro de uma comunidade linguística10.
8 No Simpósio Platão faz Diotima explicar a Sócrates a natureza de (Éros), o amor. Diz que ele é um grande (daímon) – isto é, uma grande cintilação em que se dá e se reparte o mistério de ser. E todo (daimónion), isto é, tudo o que é enviado pelos deuses, e é, consoante isso, maravilhoso, extraordinário, admirável, excelente, é algo de mediador e intermediário entre o deus e o mortal. Sua
potência consiste em
(hermeneúo n kaì diaporthmeúon theoís tà par’anthrópon kaì anthrópois tà parà theôn) – dar a compreender e transmitir aos deuses as coisas que vêm dos homens e aos homens as coisas que vêm dos deuses.
9 Cf. na história do patriarca José, na Bíblia: Gn 42, 23.
10 Leão, Emmanuel Carneiro. “Hermenêutica, Revelação, Teologia”. In: Aprendendo a Pensar I: O pensamento na modernidade e na religião. Teresópolis: Daimon, 2008.
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É justamente esta definição corrente de hermenêutica que tentaremos destruir, isto é, desconstruir, fazendo-a remontar às suas fontes, ou, se quisermos, ao seu chão.
Mas, por ora vejamos como se deu a “longa história de constituição” desta definição.
1.1.2. (Hermeneúo) e (hermeneía) em Aristóteles
Vimos já que (hermeneúo) tem o sentido fundamental de expor, no sentido de tornar noto, fazer explícito, num comunicar, anunciar, dar notícia. A linguagem põe em obra o tornar acessível do real. Aristóteles, no De Anima (tratado sobre a alma – isto é, a vida, o ser do vivente) [420b] diz que o ente, enquanto vivente, necessita da língua, para duas funções, a saber, por um lado, para saborear, por outro, para a linguagem, isto é, para a conversa que emerge da lida com as coisas:
(he diálektos)11. O uso da língua para o saborear é necessário para muitos seres vivos. É mais difuso. Já o uso da língua para a (hermenéia), quer dizer, para o conversar, para o dirigir a palavra a e o discutir de algo com os outros (conversar sobre algo) está aí, em vista da melhor vida, isto é, de garantir o mais próprio ser, a mais própria realização do ser de um vivente (o homem) em seu mundo e com o seu mundo.
Nesta passagem, (hermenéia) equivale a (he diálektos), o discurso no sentido da conversa, da discussão coloquial no círculo da convivência cotidiana, na circulação do diálogo, no exercício da pluralidade12.
11 Esta expressão - (he diálektos) – significa colóquio, conversação, discussão; linguagem comum; mas também modo de falar, inflexão; daí: língua, dialeto; dicção, estilo; locução particular de um lugar. Também se usa (he diálektos) a linguagem e a expressão de um instrumento musical.
12Hanna Arendt, em “A condição humana”, salienta a importância do discurso no sentido da conversa entre os homens, em sua convivência plural, que caracteriza a vida na pólis. Ela escreve: “E tudo o que os homens fazem, sabem ou experimentam só tem sentido na medida em que se possa fala sobre. Pode haver verdades para além do discurso e que podem ser de grande relevância para o homem no singular, isto é, para o homem na medida em que, seja o que for, não é um ser político. Os homens no plural, isto é, os homens na medida em que vivem, se movem e agem neste mundo, só podem experimentar a significação porque podem falar uns com os outros e se fazer entender aos outros e a si mesmo”. Arendt, Hanna. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010, p. 5. Esse pensamento é repercutido também pelo professor Emmanuel Carneiro Leão: “Pois tudo que o homem conhece, sente, pensa, sabe ou faz, só se torna realmente significativo, só adquire sentido essencial, se houver possibilidade de conversa e diálogo, na medida em que dele se puder falar a partir da linguagem. Não há verdade no singular, fora de toda e qualquer envergadura de discurso. Toda verdade é plural. A verdade só se dá por existirmos na linguagem do plural, numa correnteza que nos arrasta para uma convivência de diálogo. Enquanto vivermos, pensarmos e agirmos na Terra, só faz sentido o que pudermos falar uns
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Pressuposta é, aqui, a compreensão do homem como (zoon logon echon). O mesmo Aristóteles, na Ética a Nicômaco (cf. I, 7, 1098 a 3 s) procura caracterizar a vida do homem. O viver (zên) não é a obra própria do homem, com efeito, ele tem em comum o viver com as plantas. Também a vida dos sentidos (- zoé aisthetiké) não é a realização própria do homem, com efeito, ele tem em comum essa vida sensitiva com o cavalo, com o boi, ou com qualquer outro animal. Resta, portanto, a vida que se caracteriza como
(praktiké tis toû lógon échontos), isto é, certa vida
concernente à práxis, à ação, que tem por característica ater-se ao “lógos”.
O (ánthropos: homem) é o (zôon: vivente, animal) ao qual se atribui o viver na (práxis: ação) se atendo ao (lógos). As três determinações conjugadas constituem a essência do homem: /
/(zoè / praktikè / toû lógon échontos). O homem é o vivente que, segundo o seu modo de ser, tem a possibilidade de agir. Para ele, ser é viver, e viver é agir. A sua não é mera vida, (zoé), mas sim (bíos), vida, no sentido de “existência”, isto é, de ação13. A ação não é, aqui, mera atividade. Mas é o empenho do cuidado com as coisas, com o humano mesmo, com tudo o que é, enfim, com o Todo. Esta é a vida que é própria do homem.
Entretanto, o que significa o (lógos) neste contexto? Certamente, não significa o mesmo que “ratio”, razão. Significa, antes, fala, no sentido do discurso, da conversa14. O (lógos) é, aqui, mais do que (voz). É o falar no sentido do falar uns com os outros em comunidade, no mundo compartilhado da convivência, na ação, isto é, nas ocupações e preocupações do cuidado cotidiano. Isso implica um falar do homem a respeito do mundo em que ele é, vive, existe (no sentido do agir, do cuidar).
O mundo é tido pelo homem como aquilo de que ele fala na comunicação com os outros, na conversa. O (lógos) é tanto o falar como o falado. Ele tem a função de
com os outros, o que puder receber um significado na e da linguagem”. Leão, Emmanuel Carneiro.
Aprendendo a pensar, Vol. II. Petrópolis, Vozes, 2000, p. 103s.
13A palavra “existência” tem, aqui, o sentido restrito ao modo de ser humano, enquanto um ente determinado pela liberdade e pelo referimento de ser ao ser do ente como um todo (insistência na verdade do ser).
14 Cf. Heidegger, Martin. Ontologie (Hermeneutik der Faktizität) – Gesammtausgabe Band 63. Tübingen:
Vittorio Klostermann, 1995, p. 21.
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(apophaínesthai): deixar e fazer ver aquilo de que fala para quem se fala.
No discurso, aquilo de que se fala, aquilo a partir de que se discorre, há de se tornar manifesto e acessível para os outros15. O discurso deve ter a função de (deloûn), isto é, de trazer uma coisa que está em questão para o seu mostrar-se no falar, que é, ao mesmo tempo, um falar sobre algo, um falar uns com os outros e um falar no sentido de pronunciar-se de quem fala. É trazer isso que se fala à sua datidade, de modo que se possa experimentar como a coisa é16. O (lógos), assim, está em função do
(aletheúein): do desvelamento do ente no seu ser.
O falar e dizer tem, para os gregos, o sentido de (deloûn), isto é, revelar aquilo de que trata a fala – em Aristóteles: (apophaínesthai): fazer e deixar ver – (phaínesthai) – aquilo sobre que se está discorrendo. O lógos deixa e faz ver aquilo de que discorre. Na comunicação a fala tem o caráter de lógos, é uma apóphansis, uma de-claração, quando clareia, isto é, quando esclarece, torna acessível aos outros, aquilo de que fala. A fala, no sentido da de-claração, é um deixar ver mostrador – um modo privilegiado de tornar patente alguma coisa. Um pedido também torna patente, só que de outro modo.
Por conseguinte, (he diálektos), a conversa coloquial, a discussão,
(he hermenéia), se dá e se realiza no modo do (lógos apophántikós), do discurso mostrador. Assim, (he hermenéia) é a fala, não no mero sentido de vocalização e locução, mas a fala no sentido do discurso mostrador, isto é, da fala que deixa e faz ver algo, que deixa e faz descobrir alguma coisa, por partir da coisa mesma que há de ser descoberta. Trata-se daquela fala que retira o que diz daquilo de que está falando. Deste modo, (he hermenéia) é a fala no sentido da (apóphansis), do discurso revelador. O discurso no sentido de falar de alguma coisa ocupa-se com o (deloun): tornar evidente, manifestar, mostrar, tornar noto, fazer saber, revelar17. Este revelar, no entanto, de início e na maior parte das vezes, não tem o sentido teorético, mas prático. No ser ou existir cotidiano,
15 Cf. Heidegger, Martin. Sein und Zeit. Tübingen: Niemeyer, 1986, p. 32-33.
16 Cf. Heidegger, Martin. Grundbegriffe der aristotelischen Philosophie – Gesammtausgabe Band 18.
Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 2002, p. 19-20.
17 Cf. o adjetivo (délos): visível, manifesto, claro, evidente. é o nome de uma ilha, terra natal do deus Apolo.
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na vida prática, na convivência plural entre os homens, em que está em jogo o deliberar e o querer, o que se busca revelar, como diz Aristóteles na Política (A 2, 1253a 14ss) é
(tò symphéron kaì tò blaberón) – de um lado, o que contribui, o que convém, para a vida, e, de outro lado, o que é danoso, nocivo. Isto quer dizer que (he hermenéia), enquanto discurso coloquial cotidiano, é a fala que se dá no diálogo entre os homens, enquanto esta busca fazer manifesto o ente (o real) que se tem em vista, no seu caráter de contribuição (conveniência, vantagem, préstimo) e de não contribuição (nocividade, dano). Assim, Péricles, num discurso reportado por Tucídides, apresenta-se como um homem competente para saber (- gnonaí) e para tornar noto (- hermeneúsai) aquelas coisas que são necessárias, devidas, oportunas, para a (pólis)18.
Na Poética, Aristóteles, falando das partes constitutivas da tragédia19, inclui a
(léxis)20. E sentencia:
(légo dé,..., léxin eínai tèn dià tes onomasías hermeneían) – digo pois que o discurso é o tornar noto (hermeneía) através do uso de nomes – (onomasía)21.
Um dos escritos de Aristóteles recebeu o nome de (Perì hermeneías). O nome não foi dado pelo próprio Estagirita. Este título, porém, já era conhecido na época de Andrônico de Rodes (séc. I a. C.), principal organizador dos escritos de Aristóteles. Uma hipótese é que este título tenha surgido na primeira geração após a de Teofrasto (+287 a.C.). O texto parece ser um esboço inacabado. O interesse do tratado (- pragmateía) se dirige para o (lógos), discurso, enquanto (apóphansis): o enunciado, no sentido da proposição
18 De Bello Peloponnesiaco. Apud Heidegger, M. Ontologia (Hermenêutica da faticidade). Petrópolis:
Vozes, 2013, p. 16-17.
19 Estas são seis: (Mýthos): narração; (ethe): modos habituais de comportamento, usos, costumes, caráteres; (léxis): o discurso; (diánoia): pensamento; (ópsis): espetáculo;
e (melopoiía): música.
20 (léxis) significa discurso; modo de falar, dicção, elocução, estilo; língua; palavra, frase, expressão;
significado literal de um texto; trecho de um texto ou um texto mesmo. Remete a (légo): recolher, colher, escolher > contar, expor, narrar; falar, dizer; declarar, anunciar; querer dizer; ordenar; recitar;
declamar; afirmar, revelar; fazer saber; numerar; narrar.
21 (onomasía) quer dizer: uso de nomes, denominação; linguagem, expressão.
Posteriormente: designação. O verbo (onomázo) quer dizer chamar pelo nome, voltar-se a outro usando a palavra, nomear, enumerar; dar nome, denominar; exprimir, dizer; dedicar, consagrar; designar.
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mostradora, declaratória22. Sua função é deixar ver o ente (o real) em seu ser e estar descoberto.
Em Ser e Tempo (§ 33), de Heidegger, o enunciado é tratado como modo derivado da interpretação. O enunciado precisa ser tematizado no contexto do discurso.
O discurso é a articulação da compreensibilidade. Está estruturalmente vinculado à possibilidade de ser do homem denominada de compreensão. O discurso traz à fala uma compreensão. Chamamos de sentido o que pode ser articulado. O sentido é o que torna algo compreensível como algo. Compreender é, fundamentalmente, apreender algo como algo (significância). A interpretação é a elaboração da compreensão em formas.
Na interpretação, o compreender se apropria do que compreende. Na fala, nós pronunciamos o que compreendemos e como interpretamos o que está em questão. O discurso se concretiza em falas. As falas são formas de dizer. O dizer é, porém, um mostrar o que se descobriu ou o que se abriu, ou seja, é um deixar e fazer ver o que veio à luz através da compreensão e interpretação. O sentido já se prelineou como possibilidade de articulação na compreensão. Na interpretação, este sentido é efetivamente articulado. É exposto, explicitado. O enunciado se funda no compreender e constitui uma forma derivada do exercício de interpretação. Daí, também o enunciado tem sentido. A palavra “enunciado”, porém, tem três sentidos:
1) Enunciado significa, em primeiro lugar, “lógos” enquanto “apóphansis”
(lógos apophántikós – discurso demonstrativo: demonstração)23: um deixar e fazer ver o ente (o real) a partir dele mesmo e por si mesmo – por exemplo, no enunciado “o martelo é pesado demais” o que se mostra não é um sentido, mas o ente mesmo no modo de seu ser à mão (manualidade). O enunciado visa o ente mesmo e não uma mera representação desse ente
22 Aristóteles diz: é um discurso demonstrativo aquele em que pode haver o ser-descobridor (o verdadeiro) ou o ser-encobridor (o falso) (Peri Hermeneias IV 17 a 2). O lógos apophántikós (discurso demonstrativo) é uma espécie do lógos semantikós (discurso com sentido). O enunciado de um juízo pode ser dito proposição (prótasis).
Esta pode ser catafática (afirmativa) ou apofática (negativa). Aristóteles também diz:
- a proposição é o discurso que afirma ou nega algo de algo.
23 Demonstração tem aqui um sentido fenomenológico e não um sentido lógico.
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(nem no sentido do contéudo da representação nem no sentido do ato de representar).
2) Enunciado significa, em segundo lugar, predicação. De um “sujeito” enuncia- se um “predicado”. O predicado determina o sujeito. O enunciado do enunciado (no sentido daquilo com o que o enunciado, enquanto predicação, se comporta; aquilo que ele visa) não é o predicado (“pesado demais”), mas o próprio ente (o martelo mesmo!) [com isso, se dá a posição do sujeito]. O que se enuncia disso que é visado se dá como uma determinação (o que determina o martelo é “pesado demais”) [Com isso se dá a posição do predicado]. Na determinação, o determinado sofre uma restrição em seu conteúdo. O segundo significado de enunciado (predicação) se funda sobre o primeiro (demonstração). A demonstração deixa e faz ver, descobre, aquilo que está em questão. A predicação restringe a visão do que se deixa e faz ver, do que se descobre. Restringindo a visão, mostra-se expressamente, o que se revela em sua determinação [sujeito e predicado são postos a partir do acontecimento apofântico]. A restrição, neste caso, tem o sentido de uma concentração (não é uma perda, mas um ganho no conhecimento).
3) Enunciado significa, em terceiro lugar, comunicação (declaração). O deixar ver no modo do determinar comunica e compartilha com os outros o ente mostrado a partir de si mesmo e por si mesmo em sua determinação. Com a comunicação torna-se comum (compartilha-se) o ser para o ente em questão que se torna acessível numa visão comum. Este ser-para se funda no ser- junto-a o ente, traço característico do ser-no-mundo (constituição ontológica fundamental do humano). A comunicação se funda, além disso, no ser-com os outros (compartilhamento existencial). O enunciado enquanto comunicação requer ser pronunciado no compartilhamento do mundo comum no ser-com da convivência humana. O enunciado, porém, enquanto pronunciado, pode ser passado adiante sem que os que o escutem tenham acesso à visão comum que foi compartilhada. Neste caso, o que se mostrava a si mesmo se vela.
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A obra da fala, isto é, o préstimo, o desempenho, do discurso mostrador, demonstrador, consiste em tornar aberto, patente, acessível, o real (o ente) em sua realidade (ser). Consiste, pois, em (aletheúein) - descortinar, desencobrir: o que antes estava escondido, encoberto, tornar disponível como desencoberto, aberto aí, patente24. Este é justamente o sentido da (hermeneía). Por isso, o título
(Perì hermeneías) para um escrito que trata do (lógos) enquanto (apóphansis) parece apropriado.
24 Heidegger, M. Ontologia (Hermenêutica da Faticidade). Petrópolis: Vozes, 2013.