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HERMENÊUTICA FILOSÓFICA

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Academic year: 2022

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HERMENÊUTICA FILOSÓFICA

TEXTO 2

1.1.1. (Hermeneúo): estudo linguístico

O verbo (hermeneúo) deixa-se traduzir normalmente por

“interpretar”, “expor”, “explanar”, “explicar”1. O substantivo (hermeneía) quer dizer “exposição”, “explanação”2. O substantivo (hermeneús) ou o

(hermeneutés) quer dizer “expositor”, “intérprete”3.

O verbo (hermeneúo) quer dizer, basicamente, expor, no sentido de dar notícia. Neste sentido, (hermeneía) é a exposição traz uma mensagem, dá uma notícia, torna acessível um sentido. O discurso em seu caráter hermenêutico e aquele que profere um tal discurso se põe na proximidade e na esfera de

(Hermés)4. Este é o nome para o deus, mensageiro, o portador do anúncio, do recado, dos deuses. Ele traz a mensagem do destino.

1 Por exemplo, Platão, na República (453c): (hermeneúsai) – expor – um (lógos) – um discurso, uma tese. De modo semelhante, no Evangelho de Lucas (24, 27) se lê: “E começando por Moisés e todos os profetas, ele lhes explicou - (dierméneusen) – em todas as Escrituras o que lhe concernia”.

2 Cf. Platão, República (524b): “tais (hermeneíai) – exposições – são estranhas para a alma e carecem de um atento exame”. Cf. também Teeteto 209a.

3 Platão, no livro das Leis (907d), refere-se a um (lógos) – discurso – que é (hermeneús) das leis. No diálogo Político (290c), o Estrangeiro remete à arte (mantiké), isto é, da predição, e diz que os que têm um saber afim a este são considerados, de certo modo, como

(hermeneútai) dos deuses junto aos homens.

4 No Crátilo (407e – 408a), brinca-se com o nome “Hermógenes” (filho de Hermes). Sócrates aproxima

“Hermógenes” de “Hermes” e compreende o significado do nome (nomen est omem – nome é destino!) no sentido do ofício de ser o hermeneuta, isto é, o intérprete e expositor, o (ángelos) anunciador, mensageiro, núncio –, o (klopikós) – fraudulento, trapaceiro – e o

(apatelós en lógois) – o enganador nas palavras – e o (argorastikós) – o mercador, o comerciante, o traficante; e observa que todas estas atividades e habilidades e competências concernem à e permanecem na esfera da potência da palavra, da linguagem:

(perì lógou dýnamín estin pasa haúte he pragmateia).

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No diálogo Íon (534e), Platão faz Sócrates dizer a respeito dos poetas:

(oudèn all’e hermenés eisin ton theon) – nada mais são do que mensageiros, porta-vozes, dos deuses. Por sua vez, os rapsodos são os mensageiros e arautos das palavras dos poetas. Eles exercem o ofício de recitar os

poetas. A respeito deles Sócrates pergunta:

(houkoún hermenéon hermenés gígnesthe?) –

“portanto, não sereis vós os mensageiros dos mensageiros?”5.

Assim, (hermeneús) é aquele que comunica, anuncia, o que o outro

“quer dizer”; é aquele que intermedia, media tal comunicação, tal anúncio. No diálogo Sofista (246e; 248a), Platão usa o verbo (aphermeneúo), no sentido de relatar, anunciar, dar notícia, do que os outros pensam. No Teeteto (209a), Sócrates usa a palavra (hermeneía) no sentido de tornar noto, conhecido, sabido. Este tornar noto é um fazer explícito.

Em sentido derivado, porém, os exercícios da linguagem, como expor, explanar, explicar, são tomados no sentido do interpretar de um comentário. A exposição ou explanação, agora, toma o sentido do exercício da interpretação no sentido do comentário. O (hermeneús) ou o (hermeneutés) se torna, assim, o expositor e intérprete, no sentido do comentador.

Depois, o verbo (hermeneúo) significa “indicar”, “exprimir”,

“expressar”6. A palavra (hermeneía) significa, às vezes, “expressão”, seja pela palavra, no exercício da fala, seja pelo som, na música. Significa, assim, também “modo de se expressar”, “estilo” de expressão.

Enfim, o verbo (hermeneúo) quer dizer também “traduzir”7. Entendemos, normalmente, o traduzir, como um “transpor de uma linguagem estranha

5 Cf. Heidegger, Martin. A caminho da linguagem. Petrópolis/Bragança Paulista: Vozes/Edusf, 2003, p. 96.

6 Cf. Platão, no diálogo das Leis (966b), faz o Ateniense dizer que os custódios das leis devem realmente saber a verdade que concerne a elas, ser capazes de, pelo (lógos), isto é, pelo discurso, pelo pensamento discursivo, que mostra, (hermeneúein), indicar, interpretar, e de seguir estas mesmas leis nas suas obras, discernindo o que é bom e o que não é segundo o que é constitutivo segundo a natureza.

7 Na Bíblia encontramos este uso, por exemplo, em: 2 Esdras 4,7; Jo 1, 38.42; 9,7; Hb 7, 2.

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para uma linguagem familiar”. Isso significa: interpretar como intermediar8. Assim, às vezes, (hermeneía) significa “tradução”. Consoante isso,

(hermeneutés) pode significar “tradutor”, “intérprete” (entre duas línguas,

duas comunidades linguísticas)9.

Os quatro significados de (hermeneúo) se reúnem no conceito tradicional de hermenêutica:

Numa longa história de constituição foi-se firmando o costume de se entender hermeneúein e hermeneia, interpretari e interpretatio, como um nome comum, onde se empacotam todas as funções semânticas da linguagem: explicar, traduzir, comentar, expressar. No NT encontramos o nome usado para designar estas quatro funções semânticas da linguagem.

O denominador comum de todas elas costuma-se encontrar no fato de que sempre em qualquer função hermeneía e hermeneúein exercem o papel de esclarecer, seja uma mensagem obscura, uma língua estranha, uma passagem pouco clara ou uma vontade desconhecida. Por isso também, assim se usa dizer, a hermeneía se aplica às palavras divinas, à mensagem de Deus, que, sendo por sua própria natureza obscuras e misteriosas, necessitam de interpretação. Os métodos e técnicas, as leis e teoria desta interpretação proporcionam uma ciência, a hermenêutica. Ora, estas leis e métodos, estas técnicas e teoria da interpretação são os mesmos do pensamento objetivo que o homem emprega sempre que pretende conhecer em sua intenção o sentido de qualquer contexto semântico. Daí a definição hoje corrente de hermenêutica: a leitura do sentido de uma estrutura significante em sua intenção significativa dentro de uma comunidade linguística10.

8 No Simpósio Platão faz Diotima explicar a Sócrates a natureza de (Éros), o amor. Diz que ele é um grande (daímon) – isto é, uma grande cintilação em que se dá e se reparte o mistério de ser. E todo (daimónion), isto é, tudo o que é enviado pelos deuses, e é, consoante isso, maravilhoso, extraordinário, admirável, excelente, é algo de mediador e intermediário entre o deus e o mortal. Sua

potência consiste em

(hermeneúo n kaì diaporthmeúon theoís tà par’anthrópon kaì anthrópois tà parà theôn) – dar a compreender e transmitir aos deuses as coisas que vêm dos homens e aos homens as coisas que vêm dos deuses.

9 Cf. na história do patriarca José, na Bíblia: Gn 42, 23.

10 Leão, Emmanuel Carneiro. “Hermenêutica, Revelação, Teologia”. In: Aprendendo a Pensar I: O pensamento na modernidade e na religião. Teresópolis: Daimon, 2008.

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É justamente esta definição corrente de hermenêutica que tentaremos destruir, isto é, desconstruir, fazendo-a remontar às suas fontes, ou, se quisermos, ao seu chão.

Mas, por ora vejamos como se deu a “longa história de constituição” desta definição.

1.1.2. (Hermeneúo) e (hermeneía) em Aristóteles

Vimos já que (hermeneúo) tem o sentido fundamental de expor, no sentido de tornar noto, fazer explícito, num comunicar, anunciar, dar notícia. A linguagem põe em obra o tornar acessível do real. Aristóteles, no De Anima (tratado sobre a alma – isto é, a vida, o ser do vivente) [420b] diz que o ente, enquanto vivente, necessita da língua, para duas funções, a saber, por um lado, para saborear, por outro, para a linguagem, isto é, para a conversa que emerge da lida com as coisas:

(he diálektos)11. O uso da língua para o saborear é necessário para muitos seres vivos. É mais difuso. Já o uso da língua para a (hermenéia), quer dizer, para o conversar, para o dirigir a palavra a e o discutir de algo com os outros (conversar sobre algo) está aí, em vista da melhor vida, isto é, de garantir o mais próprio ser, a mais própria realização do ser de um vivente (o homem) em seu mundo e com o seu mundo.

Nesta passagem, (hermenéia) equivale a (he diálektos), o discurso no sentido da conversa, da discussão coloquial no círculo da convivência cotidiana, na circulação do diálogo, no exercício da pluralidade12.

11 Esta expressão - (he diálektos) – significa colóquio, conversação, discussão; linguagem comum; mas também modo de falar, inflexão; daí: língua, dialeto; dicção, estilo; locução particular de um lugar. Também se usa (he diálektos) a linguagem e a expressão de um instrumento musical.

12Hanna Arendt, em “A condição humana”, salienta a importância do discurso no sentido da conversa entre os homens, em sua convivência plural, que caracteriza a vida na pólis. Ela escreve: “E tudo o que os homens fazem, sabem ou experimentam só tem sentido na medida em que se possa fala sobre. Pode haver verdades para além do discurso e que podem ser de grande relevância para o homem no singular, isto é, para o homem na medida em que, seja o que for, não é um ser político. Os homens no plural, isto é, os homens na medida em que vivem, se movem e agem neste mundo, só podem experimentar a significação porque podem falar uns com os outros e se fazer entender aos outros e a si mesmo”. Arendt, Hanna. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010, p. 5. Esse pensamento é repercutido também pelo professor Emmanuel Carneiro Leão: “Pois tudo que o homem conhece, sente, pensa, sabe ou faz, só se torna realmente significativo, só adquire sentido essencial, se houver possibilidade de conversa e diálogo, na medida em que dele se puder falar a partir da linguagem. Não há verdade no singular, fora de toda e qualquer envergadura de discurso. Toda verdade é plural. A verdade só se dá por existirmos na linguagem do plural, numa correnteza que nos arrasta para uma convivência de diálogo. Enquanto vivermos, pensarmos e agirmos na Terra, só faz sentido o que pudermos falar uns

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Pressuposta é, aqui, a compreensão do homem como (zoon logon echon). O mesmo Aristóteles, na Ética a Nicômaco (cf. I, 7, 1098 a 3 s) procura caracterizar a vida do homem. O viver (zên) não é a obra própria do homem, com efeito, ele tem em comum o viver com as plantas. Também a vida dos sentidos (- zoé aisthetiké) não é a realização própria do homem, com efeito, ele tem em comum essa vida sensitiva com o cavalo, com o boi, ou com qualquer outro animal. Resta, portanto, a vida que se caracteriza como

(praktiké tis toû lógon échontos), isto é, certa vida

concernente à práxis, à ação, que tem por característica ater-se ao “lógos”.

O (ánthropos: homem) é o (zôon: vivente, animal) ao qual se atribui o viver na (práxis: ação) se atendo ao (lógos). As três determinações conjugadas constituem a essência do homem: /

/(zoè / praktikè / toû lógon échontos). O homem é o vivente que, segundo o seu modo de ser, tem a possibilidade de agir. Para ele, ser é viver, e viver é agir. A sua não é mera vida, (zoé), mas sim (bíos), vida, no sentido de “existência”, isto é, de ação13. A ação não é, aqui, mera atividade. Mas é o empenho do cuidado com as coisas, com o humano mesmo, com tudo o que é, enfim, com o Todo. Esta é a vida que é própria do homem.

Entretanto, o que significa o (lógos) neste contexto? Certamente, não significa o mesmo que “ratio”, razão. Significa, antes, fala, no sentido do discurso, da conversa14. O (lógos) é, aqui, mais do que (voz). É o falar no sentido do falar uns com os outros em comunidade, no mundo compartilhado da convivência, na ação, isto é, nas ocupações e preocupações do cuidado cotidiano. Isso implica um falar do homem a respeito do mundo em que ele é, vive, existe (no sentido do agir, do cuidar).

O mundo é tido pelo homem como aquilo de que ele fala na comunicação com os outros, na conversa. O (lógos) é tanto o falar como o falado. Ele tem a função de

com os outros, o que puder receber um significado na e da linguagem”. Leão, Emmanuel Carneiro.

Aprendendo a pensar, Vol. II. Petrópolis, Vozes, 2000, p. 103s.

13A palavra “existência” tem, aqui, o sentido restrito ao modo de ser humano, enquanto um ente determinado pela liberdade e pelo referimento de ser ao ser do ente como um todo (insistência na verdade do ser).

14 Cf. Heidegger, Martin. Ontologie (Hermeneutik der Faktizität) – Gesammtausgabe Band 63. Tübingen:

Vittorio Klostermann, 1995, p. 21.

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(apophaínesthai): deixar e fazer ver aquilo de que fala para quem se fala.

No discurso, aquilo de que se fala, aquilo a partir de que se discorre, há de se tornar manifesto e acessível para os outros15. O discurso deve ter a função de (deloûn), isto é, de trazer uma coisa que está em questão para o seu mostrar-se no falar, que é, ao mesmo tempo, um falar sobre algo, um falar uns com os outros e um falar no sentido de pronunciar-se de quem fala. É trazer isso que se fala à sua datidade, de modo que se possa experimentar como a coisa é16. O (lógos), assim, está em função do

 (aletheúein): do desvelamento do ente no seu ser.

O falar e dizer tem, para os gregos, o sentido de (deloûn), isto é, revelar aquilo de que trata a fala – em Aristóteles: (apophaínesthai): fazer e deixar ver –  (phaínesthai) – aquilo sobre que se está discorrendo. O lógos deixa e faz ver aquilo de que discorre. Na comunicação a fala tem o caráter de lógos, é uma apóphansis, uma de-claração, quando clareia, isto é, quando esclarece, torna acessível aos outros, aquilo de que fala. A fala, no sentido da de-claração, é um deixar ver mostrador – um modo privilegiado de tornar patente alguma coisa. Um pedido também torna patente, só que de outro modo.

Por conseguinte, (he diálektos), a conversa coloquial, a discussão,

(he hermenéia), se dá e se realiza no modo do (lógos apophántikós), do discurso mostrador. Assim, (he hermenéia) é a fala, não no mero sentido de vocalização e locução, mas a fala no sentido do discurso mostrador, isto é, da fala que deixa e faz ver algo, que deixa e faz descobrir alguma coisa, por partir da coisa mesma que há de ser descoberta. Trata-se daquela fala que retira o que diz daquilo de que está falando. Deste modo, (he hermenéia) é a fala no sentido da (apóphansis), do discurso revelador. O discurso no sentido de falar de alguma coisa ocupa-se com o (deloun): tornar evidente, manifestar, mostrar, tornar noto, fazer saber, revelar17. Este revelar, no entanto, de início e na maior parte das vezes, não tem o sentido teorético, mas prático. No ser ou existir cotidiano,

15 Cf. Heidegger, Martin. Sein und Zeit. Tübingen: Niemeyer, 1986, p. 32-33.

16 Cf. Heidegger, Martin. Grundbegriffe der aristotelischen Philosophie Gesammtausgabe Band 18.

Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 2002, p. 19-20.

17 Cf. o adjetivo (délos): visível, manifesto, claro, evidente. é o nome de uma ilha, terra natal do deus Apolo.

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na vida prática, na convivência plural entre os homens, em que está em jogo o deliberar e o querer, o que se busca revelar, como diz Aristóteles na Política (A 2, 1253a 14ss) é

(tò symphéron kaì tò blaberón) – de um lado, o que contribui, o que convém, para a vida, e, de outro lado, o que é danoso, nocivo. Isto quer dizer que (he hermenéia), enquanto discurso coloquial cotidiano, é a fala que se dá no diálogo entre os homens, enquanto esta busca fazer manifesto o ente (o real) que se tem em vista, no seu caráter de contribuição (conveniência, vantagem, préstimo) e de não contribuição (nocividade, dano). Assim, Péricles, num discurso reportado por Tucídides, apresenta-se como um homem competente para saber (- gnonaí) e para tornar noto (- hermeneúsai) aquelas coisas que são necessárias, devidas, oportunas, para a (pólis)18.

Na Poética, Aristóteles, falando das partes constitutivas da tragédia19, inclui a

(léxis)20. E sentencia:

(légo dé,..., léxin eínai tèn dià tes onomasías hermeneían) – digo pois que o discurso é o tornar noto (hermeneía) através do uso de nomes – (onomasía)21.

Um dos escritos de Aristóteles recebeu o nome de (Perì hermeneías). O nome não foi dado pelo próprio Estagirita. Este título, porém, já era conhecido na época de Andrônico de Rodes (séc. I a. C.), principal organizador dos escritos de Aristóteles. Uma hipótese é que este título tenha surgido na primeira geração após a de Teofrasto (+287 a.C.). O texto parece ser um esboço inacabado. O interesse do tratado (- pragmateía) se dirige para o (lógos), discurso, enquanto (apóphansis): o enunciado, no sentido da proposição

18 De Bello Peloponnesiaco. Apud Heidegger, M. Ontologia (Hermenêutica da faticidade). Petrópolis:

Vozes, 2013, p. 16-17.

19 Estas são seis: (Mýthos): narração; (ethe): modos habituais de comportamento, usos, costumes, caráteres; (léxis): o discurso; (diánoia): pensamento; (ópsis): espetáculo;

e (melopoiía): música.

20 (léxis) significa discurso; modo de falar, dicção, elocução, estilo; língua; palavra, frase, expressão;

significado literal de um texto; trecho de um texto ou um texto mesmo. Remete a (légo): recolher, colher, escolher > contar, expor, narrar; falar, dizer; declarar, anunciar; querer dizer; ordenar; recitar;

declamar; afirmar, revelar; fazer saber; numerar; narrar.

21 (onomasía) quer dizer: uso de nomes, denominação; linguagem, expressão.

Posteriormente: designação. O verbo (onomázo) quer dizer chamar pelo nome, voltar-se a outro usando a palavra, nomear, enumerar; dar nome, denominar; exprimir, dizer; dedicar, consagrar; designar.

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mostradora, declaratória22. Sua função é deixar ver o ente (o real) em seu ser e estar descoberto.

Em Ser e Tempo (§ 33), de Heidegger, o enunciado é tratado como modo derivado da interpretação. O enunciado precisa ser tematizado no contexto do discurso.

O discurso é a articulação da compreensibilidade. Está estruturalmente vinculado à possibilidade de ser do homem denominada de compreensão. O discurso traz à fala uma compreensão. Chamamos de sentido o que pode ser articulado. O sentido é o que torna algo compreensível como algo. Compreender é, fundamentalmente, apreender algo como algo (significância). A interpretação é a elaboração da compreensão em formas.

Na interpretação, o compreender se apropria do que compreende. Na fala, nós pronunciamos o que compreendemos e como interpretamos o que está em questão. O discurso se concretiza em falas. As falas são formas de dizer. O dizer é, porém, um mostrar o que se descobriu ou o que se abriu, ou seja, é um deixar e fazer ver o que veio à luz através da compreensão e interpretação. O sentido já se prelineou como possibilidade de articulação na compreensão. Na interpretação, este sentido é efetivamente articulado. É exposto, explicitado. O enunciado se funda no compreender e constitui uma forma derivada do exercício de interpretação. Daí, também o enunciado tem sentido. A palavra “enunciado”, porém, tem três sentidos:

1) Enunciado significa, em primeiro lugar, “lógos” enquanto “apóphansis”

(lógos apophántikós – discurso demonstrativo: demonstração)23: um deixar e fazer ver o ente (o real) a partir dele mesmo e por si mesmo – por exemplo, no enunciado “o martelo é pesado demais” o que se mostra não é um sentido, mas o ente mesmo no modo de seu ser à mão (manualidade). O enunciado visa o ente mesmo e não uma mera representação desse ente

22 Aristóteles diz: é um discurso demonstrativo aquele em que pode haver o ser-descobridor (o verdadeiro) ou o ser-encobridor (o falso) (Peri Hermeneias IV 17 a 2). O lógos apophántikós (discurso demonstrativo) é uma espécie do lógos semantikós (discurso com sentido). O enunciado de um juízo pode ser dito proposição (prótasis).

Esta pode ser catafática (afirmativa) ou apofática (negativa). Aristóteles também diz:

- a proposição é o discurso que afirma ou nega algo de algo.

23 Demonstração tem aqui um sentido fenomenológico e não um sentido lógico.

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(nem no sentido do contéudo da representação nem no sentido do ato de representar).

2) Enunciado significa, em segundo lugar, predicação. De um “sujeito” enuncia- se um “predicado”. O predicado determina o sujeito. O enunciado do enunciado (no sentido daquilo com o que o enunciado, enquanto predicação, se comporta; aquilo que ele visa) não é o predicado (“pesado demais”), mas o próprio ente (o martelo mesmo!) [com isso, se dá a posição do sujeito]. O que se enuncia disso que é visado se dá como uma determinação (o que determina o martelo é “pesado demais”) [Com isso se dá a posição do predicado]. Na determinação, o determinado sofre uma restrição em seu conteúdo. O segundo significado de enunciado (predicação) se funda sobre o primeiro (demonstração). A demonstração deixa e faz ver, descobre, aquilo que está em questão. A predicação restringe a visão do que se deixa e faz ver, do que se descobre. Restringindo a visão, mostra-se expressamente, o que se revela em sua determinação [sujeito e predicado são postos a partir do acontecimento apofântico]. A restrição, neste caso, tem o sentido de uma concentração (não é uma perda, mas um ganho no conhecimento).

3) Enunciado significa, em terceiro lugar, comunicação (declaração). O deixar ver no modo do determinar comunica e compartilha com os outros o ente mostrado a partir de si mesmo e por si mesmo em sua determinação. Com a comunicação torna-se comum (compartilha-se) o ser para o ente em questão que se torna acessível numa visão comum. Este ser-para se funda no ser- junto-a o ente, traço característico do ser-no-mundo (constituição ontológica fundamental do humano). A comunicação se funda, além disso, no ser-com os outros (compartilhamento existencial). O enunciado enquanto comunicação requer ser pronunciado no compartilhamento do mundo comum no ser-com da convivência humana. O enunciado, porém, enquanto pronunciado, pode ser passado adiante sem que os que o escutem tenham acesso à visão comum que foi compartilhada. Neste caso, o que se mostrava a si mesmo se vela.

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A obra da fala, isto é, o préstimo, o desempenho, do discurso mostrador, demonstrador, consiste em tornar aberto, patente, acessível, o real (o ente) em sua realidade (ser). Consiste, pois, em (aletheúein) - descortinar, desencobrir: o que antes estava escondido, encoberto, tornar disponível como desencoberto, aberto aí, patente24. Este é justamente o sentido da (hermeneía). Por isso, o título

(Perì hermeneías) para um escrito que trata do (lógos) enquanto (apóphansis) parece apropriado.

24 Heidegger, M. Ontologia (Hermenêutica da Faticidade). Petrópolis: Vozes, 2013.

Referências

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