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A proposta do dragão. João Neto

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Academic year: 2022

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A proposta do dragão

João Neto (twitter/instagram: @netojpv)

— Repito minha oferta: deixem-me matar,

voluntariamente, um de vocês, que permitirei que levem a arca que vocês vieram buscar.

O corpo desfalecido de Johan tinha acabado de cair no chão quando a voz gutural do dragão repetiu a proposta.

— Vocês já me feriram gravemente, minha asa direita está destruída. Eu já matei três de vocês.

Vocês quatro estão cansados e feridos. Pelas

minhas contas, consigo derrubar mais dois ou três antes de morrer. Minha oferta é honesta: peguem o que vieram buscar e tudo o que peço é a vida de um de vocês em troca.

Jonas relaxou um pouco a postura. Abaixou o

escudo e o pesado martelo de guerra. Apoiou seu corpo escoriado sobre o cabo e olhou para seus

companheiros. Viu a hesitação de Marla. Os cabelos

dela ainda esvoaçavam devido à onda de energia

que emanava de seu grimório. Estava concentrada

no feitiço que usaria contra o dragão — sua última

chance de fazer uma contribuição significativa para

a batalha. Mas foi pega de surpresa pela barganha

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do monstro. Desconcertada, perdeu a concentração e seus cabelos repousaram em seus lugares.

Lindon retesava sua balestra enquanto pensava na oferta indecorosa. Restava-lhe poucas setas,

certamente não o suficiente para por cabo ao

monstro. Suas armadilhas, adagas e venenos pouco serviriam contra as labaredas de fogo que

escapavam das narinas daquela coisa.

Alestara, por sua vez, surpreendera-se: dragões não costumam ser tão ruins em cálculo estatístico. Ela estava convencida de que o monstro conseguiria matar os quatro sem muita dificuldade.

Portanto, foi Alestara quem quebrou o silêncio:

— Penso que Lindon é quem deve morrer.

— É, já tínhamos o informado quanto a nossa insatisfação com a maneira como ele vem se comportando. — Complementou Jonas.

— E acho que da última vez ele passou dos limites.

— Marla ratificou.

Lindon ficou preocupado. Sabia que não andava se comportando muito bem, e que da última vez

vacilara mesmo. Mas não achava que isso era

motivo o suficiente para ser condenado a uma pena

de morte. Explicou isso ao grupo, mas os

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companheiros fizeram pouco caso de suas explicações, e logo Jonas mudou de assunto:

— Respeitamos muito sua história conosco, Lindon.

E apesar da maneira como você vem se comportando, tivemos três bons anos de

convivência. Portanto penso que todos concordam que você deve ter o direito de escolher como

morrer.

Todos concordaram, inclusive Lindon.

— Penso que queimado não seja muito agradável.

Além do mais, o ritual fúnebre de meu povo

culmina em colocar o corpo dos guerreiros em um barco e incendiá-lo. Meus parentes poderiam achar redundante incendiar um corpo já carbonizado.

Alestera achou a ponderação válida, e expressou isso a Lindon.

— Talvez se o dragão te desse um golpe com a

calda? — disse Jonas. Todos acharam a sugestão de bom gosto.

— Não sei… o impacto acabaria rompendo alguns ossos, o que deixaria meu corpo com um aspecto repugnante, não daria um velório digno…

A essa altura, todos já estavam começando a achar

que Lindon estava sendo insensato.

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— Ora, Lindon, você não está sendo razoável.

Quando sua família ver o tesouro, ela ficará

satisfeita em receber o seu corpo independente do estado dele. — retrucou Alestera, que já ia

perdendo a paciência. Mas ela respirou fundo e continuou.

— E tem mais, se você se despir da sua cota,

poderemos vesti-la em você depois do golpe, e os ossos partidos ficarão ocultos. O dragão é justo e sensato, saberá evitar esmagar sua úmula ou outras partes que causariam repulsa à sua viúva.

O dragão confirmou.

— Realmente... É que é tudo muito novo, não sei me comportar nessas situações. Mas acho que você tem razão. Sendo assim, só me resta escolher qual tipo de barco levará meu corpo para o outro

mundo.

O grupo começou a se agitar e a perder a paciência.

Comentaram, aos cochichos, que ele estava se comportando de modo inconveniente de novo.

Marla — sem paciência para mais um dos

disparates de Lindon — acusou-o, aos gritos, de

estar sendo irritante, como daquela vez em que ele

passou dos limites. O alvoroço foi geral. Lindon não

negava, sabia que estava sendo um pouco

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desagradável. Mas ele se defendia, dizendo que para seu povo a escolha da embarcação era

importante.

— Tudo bem, tudo bem. Escolha a embarcação, mas não demore muito, você sabe como é

burocrático conseguir uma ordem de construção de barcos, mesmo dos pequenos, hoje em dia. E a

demanda costuma ser alta nessa época do ano. — um comentário cirúrgico de Jonas, conforme a opinião de Alestera.

Lindon concordou, a guarda costeira estava sendo irritantemente lenta ultimamente. Então ele pensou em seguir o caminho de seu avô, e ser velado em um pequeno uru de carvalho, mas sua ideia logo foi descartada pois o grupo concluiu que o carvalho era uma madeira muito nobre, que poderia ser melhor investida em uma mesa de centro ou num criado- mudo. Lindon concordou que não era razoável, e sugeriu uma jangada de salgueiro. O grupo achou a ideia boa, salgueiros eram árvores comuns na

região. Jonas disse que a ideia era ótima, mas sabia que salgueiros não tinham muita impermeabilidade, o barco de Lindon afundaria na praia.

— Bom, tudo pronto então? — finalizou Marla.

— Acho que sim. — Respondeu Lindon.

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Todos se despediram de Lindon. A despedida foi um pouco fria, não houve grandes discursos nem

longos abraços, afinal, todos ainda estavam muito decepcionados com os últimos vacilos que o Lindon tinha dado.

Mas, no fim, foi uma bela morte. O dragão deu o golpe conforme prometera: limpo, certeiro e muito profissional. A gravidade, porém, não foi tão gentil:

o corpo de Lindon chocou-se contra a parede e ele acabou tendo um afundamento no crânio e

perdendo alguns dentes. Sua viúva se espantaria um pouco.

Terminados os negócios, o dragão ofereceu-lhes a arca.

Ela era mais pesada do que eles previam, haviam muitos tesouros lá dentro e eles contavam que seriam sete a carregá-la, não três.

Assim, os heróis não puderam fazer outra coisa que não abandonar o corpo de Lindon para trás.

Era o mais razoável a se fazer.

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