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Medidas de Pobreza. Marcelo Neri

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Academic year: 2021

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Medidas de Pobreza

Marcelo Neri

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As manifestações expressas por integrantes dos quadros da Fundação Getulio Vargas, nas quais constem a sua identificação como tais, em artigos e entrevistas publicados nos meios de comunicação em geral, representam exclusivamente as opiniões dos seus autores e não, necessariamente, a posição institucional da FGV. Portaria FGV Nº19.

NERI, Marcelo C.

“Medidas de Pobreza” (Marcelo Neri), Rio de Janeiro, RJ – 2019 - FGV Social – 8 páginas.

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Medidas de Pobreza

Marcelo Neri

O conceito pobreza visa medir carências humanas. Ele mede as dificuldades vividas por diferentes indivíduos numa dada sociedade e as agrega em um único número, o que permite auferir o desempenho de políticas de inclusão social e nortear o seu desenho. Sua compreensão possibilita alguns desdobramentos: (1) compará-lo a outros conceitos; (2) fixar o olhar no desenho destas políticas; e (3) privilegiar aspectos úteis para a definição de metas sociais, como mecanismo de mobilização e coordenação de ações do Estado e da sociedade no sentido da superação da pobreza.

Cabe, inicialmente, apontar semelhanças e diferenças entre alguns conceitos próximos às medidas de pobreza aqui discutidas. Em primeiro lugar, os conceitos de

bem-estar social e de pobreza procuram ambos agregar o nível de bem-bem-estar de diferentes

indivíduos em uma dada sociedade, em um único número. Isto permite comparações simples entre sociedades ou numa mesma sociedade ao longo do tempo. A diferença é que o conceito de bem-estar leva em conta a situação quantificada de todos os indivíduos do grupo social, enquanto o de pobreza só capta a parcela de indivíduos cujo bem estar se encontra abaixo de um determinado parâmetro, denominado linha de pobreza. Em outras palavras, a idéia do conceito de pobreza é captar a descontinuidade entre aqueles que participam minimamente da cidadania e aqueles que não participam.

Há medidas de pobreza com muitas dimensões e outras, mais simples, com uma única dimensão. No primeiro caso, temos aquelas que levam em conta a falta de acesso a outros elementos básicos, como saneamento e eletricidade. A literatura latino-americana tem utilizado o conceito de Necessidades Básicas Insatisfeitas (NBI), que computa a proporção da população que não tem acesso a uma determinada cesta básica de bens ou serviços. Já o Índice de Pobreza Humana (IPH), concebido e acompanhado pelo Programa das Nações Unidas de Desenvolvimento (PNUD), seguindo a linha do Índice de Desenvolvimento Humano, computa a falta de acesso de uma parcela da sociedade a itens

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Na prática, apesar de ignorarem algumas complexidades, os índices de pobreza que se restringem a uma única dimensão monetária são mais usuais por conta de sua operacionalidade. Mas mesmo quando o cálculo da desigualdade considera apenas a dimensão monetária, é necessário escolher entre a dimensão renda e as despesas de consumo como unidades de medida. Despesas de consumo são internacionalmente mais aceitas como unidade de medida, pois o nível de bem-estar das pessoas está mais relacionado ao que consomem do que ao valor de seus ganhos. No entanto, este não é o caminho em geral tomado nas estimativas de bem-estar encontradas no Brasil, onde se consolidou a tradição de se perguntar a renda das pessoas nas pesquisas domiciliares.

Como dissemos anteriormente, o cálculo de indicadores de pobreza entendida em termos de insuficiência de renda requer a fixação de uma linha abaixo da qual os indivíduos são considerados pobres. A adoção de uma linha oficial é o primeiro passo lógico para a adoção de metas de redução da miséria ao longo do tempo. O essencial é se adotar uma linha, independentemente do valor arbitrado, mas a linha oficial mais interessante seria aquela acima de idiossincrasias locais.

Como o objetivo de combate à miséria transcende mandatos de governos e fronteiras nacionais, é possível escolher as linhas de US$1,00 ou US$2,00 por pessoa, ajustadas pela paridade de poder de compra (PPP), que leva em conta diferenças de custo de vida entre países, sempre traduzida em moeda local e ajustada pelo índice de inflação oficial doméstico. O Brasil fixou em 2011 uma linha oficial de pobreza de R$ 70 reais por pessoa. Os EUA o fizeram em 1963, seguidos de Índia e Irlanda.

Na literatura brasileira deve ser evitado o uso de faixas de salário mínimo comum, por pelo menos duas razões. Em primeiro lugar, o poder de compra do salário mínimo tem mudado sistematicamente ao longo do tempo. Na época do Censo 2000, a linha da FGV – Fundação Getúlio Vargas, adotada usualmente – superava a linha de 1/2 salário mínimo. A preços de 2009, a mesma linha equivale a pouco mais de 1/4 de salário mínimo, ajustada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do IBGE. Ou seja, o uso do salário mínimo como numerário falha em manter constante o poder de compra ao longo do tempo, que seria uma motivação inicial para seu uso como linha de pobreza absoluta. Além disso,

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o uso do salário mínimo não vem, em geral, acompanhado de diferenciadores do custo de vida regional.

As linhas de indigência delimitam os valores monetários que permitem suprir necessidades calóricas básicas. No Brasil, no Centro de Políticas Sociais da FGV, optou-se por uma linha de miséria baseada apenas em necessidades alimentares mínimas, fixadas pela OMS (2288 calorias/dia) e traduzidas em valores monetários segundo os hábitos de consumo das pessoas situadas entre os 20% e os 50% mais pobres da população. O resultado é uma linha de R$144,00 mensais por pessoa, avaliada a preços médios nacionais de Setembro de 2009.

Existe também um componente subjetivo na definição da linha de miséria. A Pesquisa de Padrões de Vida implementada pelo IBGE, usando a metodologia do Banco Mundial, contém perguntas cuja resposta é subjetiva. Uma pergunta de particular interesse aqui é: considerando a sua família, qual seria a menor renda mensal necessária para cobrir gastos de alimentação? A média das respostas é 40% maior que a linha da FGV.

O cálculo de linhas de pobreza encerra todas as escolhas metodológicas da linha de indigência, além de embutir outras relativas ao consumo de outros bens e serviços, como as despesas alimentares, as de habitação, de vestuário e de transporte.

Além de linhas de pobreza absolutas, existem linhas relativas nas quais se usa algum parâmetro da distribuição - como uma fração da média ou da mediana de renda - de forma que sociedades mais abastadas possuem níveis absolutos de linha de pobreza mais altos. A análise de linhas absolutas de pobreza, calculadas separadamente para um número grande de países, demonstra que, onde o nível de renda estabelecido segundo o custo de vida nacional é mais alta, também é mais alta a linha de pobreza absoluta. Isto quer dizer que, no fundo, a pobreza absoluta varia conforme as condições dos diferentes países.

No estabelecimento das linhas de pobreza ou de indigência, temos uma série de outros elementos subjetivos - e arbitrários - envolvidos no processo de agregação dos pobres. A literatura de pobreza baseada em renda (ou consumo) usa, em geral, três indicadores que descrevem a extensão e a intensidade da pobreza e sua variação entre os considerados pobres, chamados família FGT (Foster-Greer-Thorbecke). Em primeiro lugar,

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no índice denominado proporção dos pobres (P0), conta-se a parcela da população cuja renda familiar per capita está abaixo de uma linha de miséria arbitrada.

O P1 constitui um indicador mais interessante, já que leva em conta a intensidade da

miséria. Revela quanta renda adicional cada miserável deveria receber para satisfazer as suas necessidades básicas. A utilidade desse indicadorno desenho de políticas sociais é direta, pois ele é capaz de informar os valores mínimos necessários para erradicar a miséria. A hipótese subjacente é que cada miserável receberia apenas o suficiente para içá-lo até a linha de pobreza.

Finalmente, o indicador conhecido como P2 eleva ao quadrado a insuficiência de renda dos pobres, priorizando as ações públicas aos mais desprovidos. Se a meta fixada fosse a redução do P0, existiriam incentivos espúrios para a adoção de políticas focadas no segmento logo abaixo da linha de pobreza, e não nos mais miseráveis. Por exemplo, dar em primeiro lugar R$1,00 a quem tem renda de R$79,00 e não R$ 80,00 a quem tem zero. Além dessa inversão de prioridades, o foco das políticas redistributivas seria bastante sensível à escolha sempre arbitrária da linha de miséria.

No caso do P2, independentemente da linha arbitrada, a prioridade é sempre voltada aos de menor renda. A adoção do P2 corresponde à instituição de uma espécie de ascensor social que partiria da renda zero. A meta de redução do P2, ao conferir prioridade máxima às ações voltadas para os mais carentes, é mais eficiente em termos fiscais. Em suma, o P0 conta miseráveis, o P1 conta o dinheiro que falta para se pôr fim ao problema e o P2 nos dá

o norte das ações, dizendo por onde começar.

Outra questão associada é que as metas sociais deveriam de alguma forma levar em conta a trajetória do indicador escolhido ao longo do tempo. Por exemplo, se a meta for reduzir à metade a proporção de miseráveis até determinada data, digamos primeiro de janeiro de 2015, a maneira mais barata de atingi-la seria completar na véspera, ou seja, 31 de dezembro de 2014, a renda dos 50% menos miseráveis até a linha.

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BIBLIOGRAFIA:

BARNAJEE, A.; BÉNABOU, R.; MOOKHERJEE, D. 2006. Understanding poverty. Oxford: Oxford University Press.

BARROS, R. P.; FOGUEL, M. N.; ULYSSEA, G. (orgs.) 2007. Desigualdade de Renda no

Brasil: uma análise da queda recente (2 vols.). Rio de Janeiro: IPEA.

DEATON, A.1997. The Analysis of Household Surveys. Washington: World Bank.

FOSTER, J.; GREER, J.; THORBECKE, E. 1984. A Class of Decomposable Poverty Measures. Econometrica, 52, p. 761-5.

NERI, M.; XEREZ, M. 2008. On The Political Economy of Poverty Alleviation. In: KAKWANI, N.; SILBER, J. (ed.)The Many Dimensions of Poverty.New York Palgrave Macmillan, p. 231-250.

MARCELO NERI, é economista-chefe do Centro de Políticas Sociais e professor da

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Praia de Botafogo, 190, Sala 1501 - CEP: 22250-900 - Rio de Janeiro - RJ Tel.: (21) 3799-2320 / E-mail: [email protected]

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