ARTHUR JANOV
O GRITO PRIMAL
TERAPIA PRIMAL:
A CURA DAS NEUROSES
Tradução de
LUIZ CORÇÃO
Do original norte-americano THE PRIMAL SCREAM Copyright © 1970 by Arthur Janov
Copyright 1974 da edição em português Editora Artenova S.A.
Tradução Luiz Corção
Revisão Salvador Pittaro
Capa
Studio Artenova
Reservados todos os direitos desta tradução. Proibida a reprodução, parcial, sem expressa autorização da Editora Artenova S.A.
editora artenova
SArua prefeito olímpio de melo, 1774 tels. pbx 228-7124 228-7125 end. telegráfico ARTNOVA são cristovão rio gb departamento jornalístico departamento gràfico departamento editorial
Este livro é dedicado aos meus pacientes, que foram suficientemente íntegros para reconhecerem que estavam doentes e que queriam parar a luta, e aos jovens do mundo que são a esperança da humanidade.
NOTA DO TRADUTOR
A palavra PRIMAL existe na língua inglesa, mas ainda não se encontra dicionarizada em português, nem mesmo nos compêndios especializados de psiquiatria ou psicanálise a que recorremos.
Achamos que não será descabido usá-la mesmo que isso signifique a cunhagem de uma nova expressão que talvez venha acabar fazendo parte do linguajar todo especial dessa especialidade da medicina.
Os dicionários Michaelis, Random House e Webster consignam PRIMAL como: primitivo, primordial, primevo. Pelo auxílio que me prestaram na preparação deste livro, quero agradecer a Karol Karkley, minha assistente de pesquisas, e a Ann Farnell Blow que me auxiliou na revisão. Agradeço também aos meus filhos, Ricky e Ellen, que me auxiliaram na tarefa de criá-los. Eles me ensinaram o verdadeiro significado de "integridade". Sou também reconhecido a Tony Velie por sua valiosa assistência na organização do livro.
Mas existe uma pessoa que tornou possível este livro: minha esposa Vivian que, trabalhando como diretora de treinamento no Instituto Primal, auxiliou-me na
Sumário
INTRODUÇÃO ... 9
A DESCOBERTA DA DOR PRIMAL ... 9
1 - O PROBLEMA... 12
2 - AS NEUROSES ... 15
A Cena Primal ... 21
O Eu Verdadeiro e o Falso... 26
DISCUSSÃO ... 27
3 - A DOR ... 30
4 - A DOR E AS LEMBRANÇAS ... 35
5 - A NATUREZA DA TENSÃO ... 40
6 - O SISTEMA DE DEFESA ... 48
Discussão ... 54
7 - A NATUREZA DO SENTIMENTO ... 57
8 - A CURA ... 68
A Primeira Hora ... 69
O Segundo Dia ... 73
O Terceiro Dia ... 74
Depois do Terceiro Dia ... 75
O Grito Primal ... 78
A Resistência ... 79
A Primal Simbólica ... 79
A Experiência de Grupo ... 86
Ficando Bom ... 87
Discussão ... 88
Kathy ... 91
9 - A RESPIRAÇÃO, A VOZ E O GRITO ... 102
10 - AS NEUROSES E A DOENÇA PSICOSSOMÁTICA ... 108
O Desaparecimento dos Sintomas ... 112
Discussão ... 118
11 - O FATO DE SER NORMAL ... 120
12 - O PACIENTE PÓS-PRIMAL ... 133
Relação com os pais ... 141
Gary ... 143
13 - A RELAÇÃO DA TERAPIA PRIMAL COM OUTROS MÉTODOS
TERAPÊUTICOS ... 177
A Escola Freudiana ou Psicanalítica ... 177
Wilhelm Reich ... 180
A Escola Behaviorista ou de Condicionamento ... 182
A Escola Racional ... 185
A Terapia da Realidade ... 187
Meditação Transcendental ... 190
Existencialismo ... 191
Psicodrama ... 197
Laura ... 199
14 - INSIGHT E TRANSFERÊNCIA EM PSICOTERAPIA ... 205
A Natureza do Insight ... 205
A Transferência ... 211
Phillip ... 213
15 - SONO, SONHOS E SÍMBOLOS ... 223
Discussão ... 230
16 - A NATUREZA DO AMOR ... 233
17 - SEXUALISMO, HOMOSSEXUALISMO, BISSEXUALISMO ... 240
Amor e Sexo ... 243
Frigidez e Impotência ... 244
Perversões ... 249
Lenny ... 250
Jim ... 253
Homossexualismo ... 258
Identidade e Homossexualismo ... 261
Bissexualismo e Homossexualismo Latentes ... 262
Discussão ... 264
Elizabeth ... 266
18 - OS FUNDAMENTOS DO MEDO E DA RAIVA ... 275
A Raiva ... 275
Ciúme e Inveja ... 280
Medo ... 281
Contrafobia ... 284
Medos Infantis ... 286
Discussão ... 287
Kim ... 288
Suicídio ... 293
19 - DROGAS E VÍCIO ... 297
Dietilamida do Ácido Lisérgico (LSD-25) ... 297
Heroina ... 303
Discussão ... 306
Maconha ... 308
Sally ... 310
Voracidade ... 314
20 - PSICOSE: DROGA E ANTIDROGA ... 317
21 - CONCLUSÕES ... 323
APÊNDICE A ... 333
TOM ... 333
Conclusões ... 353
APÊNDICE B ... 357
INTRODUÇÃO
A DESCOBERTA DA DOR PRIMAL
Alguns anos atrás eu ouvi algo que iria mudar o curso de minha vida profissional e as vidas de meus pacientes. O que ouvi, e que mudou a natureza da psicoterapia atual, foi um grito fantástico que irrompeu de dentro de um jovem, deitado no chão, durante uma sessão de terapia, e que só podia ser comparado ao que escapa de uma pessoa prestes a ser assassinada. Este livro é sobre aquele grito e o seu significado no esclarecimento dos segredos das neuroses.
O jovem que emitiu o grito será aqui chamado de Danny Wilson, um estudante de vinte e dois anos. Ele não era psicótico e nem tampouco histérico. Era um estudante medíocre, ensimesmado, susceptível e calado. Durante uma pausa em nossa sessão de terapia de grupo, ele nos contou a história de um homem chamado Ortiz que representava nos palcos londrinos uma peça na qual ele se apresentava de fraldas, bebendo leite na mamadeira. Durante todo o espetáculo Ortiz gritava: "Mamãe! Papai! Mamãe! Papai!" em altos brados. No final do ato ele vomitava. Oferecia-se, então, aos espectadores sacos plásticos para que pudessem seguir o exemplo do ator.
A fascinação de Danny pela peça levou-me a uma tentativa elementar, que antes não me ocorrera. Pedi-lhe que gritasse "Mamãe! Papai!" Ele recusou, alegando que não via sentido em tal criancice, coisa com a qual eu concordava. Mesmo assim insisti e ele acabou cedendo. Quando começou a chamar pelos pais, foi se transformando. Subitamente pôs-se a espernear, contorcendo-se no chão, em agonia. Sua respiração era rápida e espasmódica: "Mamãe! Papai!" gritava quase involuntariamente, em altos brados. Parecia estar em estado de coma ou de hipnose. As contorções foram substituídas por pequenas convulsões, até que finalmente ele soltou o grito de agonia mortal, lancinante, que abalou as paredes de meu consultório. Todo esse episódio durou apenas alguns minutos, e nem Danny nem eu tivemos uma noção exata do que acontecera. Tudo que ele depois conseguiu dizer foi o seguinte: "Consegui! Não entendo muito bem, mas sinto-o!"
O que acontecera com Danny deixou-me perplexo durante meses. Eu já fazia terapia de insight havia dezessete anos, como assistente social psiquiátrico e como psicólogo. Trabalhei numa clínica psiquiátrica freudiana e também num departamento da Administração dos Veteranos, de tendência menos freudiana. Durante muitos anos fiz parte da equipe do departamento de psiquiatria do Hospital
Infantil de Los Angeles. Nunca, durante todo esse tempo, havia presenciado coisa semelhante. Como eu gravara a sessão de grupo naquela noite, tive oportunidade de ouvir várias vezes o que se passara durante os meses seguintes, numa tentativa de entender o que havia acontecido. Mas tudo foi inútil.
Algum tempo depois consegui afinal compreender um pouco mais.
Um homem de trinta e nove anos, a quem chamaremos de Gary Hillard, contava com muito sentimento como seus pais o criticavam, não podendo amá-lo e prejudicando-lhe a vida. Insisti com ele para que gritasse por eles. Resistiu, dizendo que sabia que não o amavam, e portanto não fazia sentido chamar por eles. Pedi-lhe que satisfizesse o meu capricho. Meio contrariado ele começou a chamar "Papai! Mamãe!" Logo sua respiração acelerou-se, ficando mais profunda. Seu apelo transformou-se em uma representação involuntária, na qual ele se contorceu em convulsões, até chegar a um grito.
Ambos ficamos chocados. O que eu pensara ser um acidente, uma idiossincrasia de um paciente, acabava de se repetir de um modo idêntico.
Mais tarde, quando se acalmou, Gary sentiu-se inundado de insights. Disse-me que toda sua vida parecia subitaDisse-mente tomar um sentido. Esse hoDisse-mem, geralmente sem sofisticação, começou a se transformar diante de meus olhos numa outra pessoa. Tornou-se alerta. Seu aparelho sensorial desabrochou. Parecia compreender o que se passava com ele.
Em virtude da semelhança das duas reações, comecei a ouvir cada vez mais com maior atenção as gravações que fizera das duas sessões. Tentei analisar quais os fatores comuns ou quais as técnicas que haviam produzido tais reações. Vagarosamente comecei a perceber um certo significado. Durante os meses seguintes tentei várias modificações e táticas para pedir aos pacientes que chamassem por seus pais. Todas as vezes repetiu-se o resultado dramático. Agora eu entendo que aquele grito é a consequência da dor central e universal que habita todos os neuróticos. Chamo-a de Dor Primal por ser a dor original, primeira, sobre a qual crescem as neuroses posteriores. Em minha opinião essa dor persiste permanentemente em todo o neurótico, seja qual for a forma de sua neurose. Ela geralmente não é consciente sendo difundida através de todo o organismo e afetando os órgãos, os músculos, o sistema venoso e linfático e, finalmente, destorcendo nosso comportamento.
A Terapia Primal tem por objetivo erradicar tal dor. É uma terapia revolucionária porque implica no desmoronamento do sistema neurótico em virtude de um impacto brutal. Na minha opinião as neuroses só podem ser eliminadas por um processo como esse.
A Terapia Primal é um desenvolvimento de minhas observações a respeito dos motivos das transformações específicas. Devo acentuar que nenhuma teoria
precedeu à experiência clínica. Quando observei Danny e Gary contorcendo-se no chão vitimados pela Dor Primal, eu não sabia como encarar tal fenômeno. A teoria foi ampliada e aprofundada pelos frequentes relatórios dos diversos pacientes que foram curados das neuroses.
1 - O PROBLEMA
Uma teoria é o significado que damos à observação de uma determinada sequência da realidade. Quanto mais próxima da realidade esteja a teoria, mais válida ela é. Uma teoria é válida quando nos permite estabelecer previsões por se enquadrar à natureza daquilo que está sendo observado.
Desde os tempos de Freud que somos obrigados a confiar nas teorias aposteríori, isto é, usando nossos sistemas teóricos para explicar ou racionalizar o que já aconteceu. À proporção que os dados observáveis foram ganhando complexidade, nossas observações nos conduziram a um emaranhado de diferentes sistemas ou escolas teóricas. Na psicoterapia atual, a fragmentação e a especialização são abundantes. Parece que as neuroses se desenvolvem de formas tão variadas, nesta última metade do século, que a palavra "cura" já não é mais mencionada pelos psicólogos, e a palavra "neurose" foi desmembrada num grande número de áreas de problemas. Existem, portanto, livros sobre sensações, percepções, aprendizagem, cognição etc. As neuroses são hoje rotuladas, por qualquer um que tenha propensões teóricas, com nomes como fobia, depressão, sintoma psicossomático, incapacidade de funcionar, indecisão. Desde Freud que os psicólogos vêm se interessando pelos sintomas e não pelas causas. O que nos falta é uma estrutura global que nos ofereça uma diretriz concreta do procedimento a ser adotado com os pacientes durante cada hora de terapia.
Antes de descobrir aquilo que iria se transformar em uma Teoria Primal, eu sabia, de um modo geral, o que devia esperar de cada um de meus pacientes. Preocupava-me, contudo, assim como outros colegas meus, com a falta de continuidade de uma sessão para outra. Parecia-me estar apenas fazendo remendos. Sempre que havia uma rotura no processo de defesa de um de meus pacientes, eu estava ali, como o lendário menino holandês. Um dia eu analisava um sonho, outro dia encorajava uma livre associação de ideias. Na semana seguinte focalizávamos acontecimentos passados, e outras vezes eu ajudava o paciente a se situar no momento atual.
Como muitos de meus colegas, eu me sentia perplexo ante a complexidade dos problemas apresentados pelos pacientes atormentados. A previsão, que é o fundamento de um método teórico válido, muitas vezes tinha que ser substituída por uma espécie de confiança intuitiva. Eu acreditava, sem verbalizar tal crença, que, se houvesse um insight profundo, o paciente cedo ou tarde chegaria a conhecer-se tão bem que poderia controlar seu comportamento neurótico. No entanto, agora eu acredito que as neuroses têm muito pouco a ver com o entendimento do problema e
da própria neurose.
A neurose é uma enfermidade do sentimento. Seu cerne é a supressão do sentimento e sua transmutação em uma ampla variedade de comportamentos neuróticos.
A estonteante variedade dos sintomas neuróticos, que vão da insônia à perversão sexual, fizeram-nos pensar na neurose como pertencendo a categorias, porém os diferentes sintomas não implicam diferentes enfermidades. Todas as neuroses provêm da mesma causa específica e reagem ao mesmo tratamento específico.
Apesar de toda a sua genialidade, Freud nos legou dois infelizes conceitos, que nós aceitamos como verdades evangélicas. Um deles é o que diz não haver um começo para a neurose. Em outras palavras, todo ser humano nasce neurótico. O outro é o que afirma que a pessoa que possui um forte sistema de defesa é consequentemente mais capaz de funcionar adequadamente na sociedade.
A Terapia Primal baseia-se na hipótese de que nascemos sendo nós mesmos. Não nascemos neuróticos ou psicóticos. Apenas nascemos.
A Terapia Primal implica a desmontagem das causas de tensão, dos sistemas de defesa e das neuroses. Portanto, a Terapia Primal indica que as pessoas mais saudáveis são as que não possuem sistemas de defesa. Tudo que contribui para a montagem de um forte sistema de defesa aprofunda a neurose. Quando isto acontece, a tensão neurótica é enquadrada em camadas de mecanismos de defesa que permitem à pessoa ter um funcionamento exterior melhor, ao passo que são açoitadas por uma maior tensão interna.
Eu não me consolo com a racionalização de que vivemos em uma época de neuroses (ou ansiedade), sendo portanto de se esperar que as pessoas sejam neuróticas. Gostaria de sugerir que existe alguma coisa além de uma melhor atuação social, alguma coisa além do alívio dos sintomas e de uma percepção mais profunda de nossas motivações.
Existe um estado de espírito bem diferente daquele que nos habituamos a conhecer: uma vida descontraída, livre de defesas, em que cada um é o que é, conhecendo sentimentos profundos e unidade interior. É esse o estado de espírito que pode ser alcançado pela Terapia Primal. As pessoas se tornam autênticas e continuam assim.
Isso não quer dizer que o paciente depois de passar pela Primal nunca mais vai se sentir triste ou infeliz. O que quero dizer é que, a despeito do que lhe possa acontecer, ele há de encarar seus problemas com uma atitude realista e atual. Já não irá encobrir a realidade com falsidades. Não sofrerá mais a inexplicável tensão do medo.
A Terapia Primal já foi usada com sucesso no tratamento de uma ampla variedade de neuroses, inclusive no vício da heroína. As sessões da Terapia Primal são inter-relacionadas e, geralmente, o Terapeuta Primal pode predizer o desenvolvimento da terapia de seu paciente. As implicações dessa afirmativa tornar-se-ão cada vez mais importantes, pois se podemos curar as neuroses de um modo sistemático e ordenado, também poderemos conseguir isolar os fatores que poderão ser úteis à sua prevenção.
2 - AS NEUROSES
Nós somos criaturas com necessidades. Nascemos necessitando, e a maioria morre depois de uma vida de lutas, sem termos realizado nossos anseios. Essas necessidades não são excessivas: é preciso que sejamos alimentados, acalentados e estimulados, e que nos mantenhamos protegidos para que possamos nos desenvolver em compasso próprio. Essas necessidades de caráter Primal são a realidade central do bebê. O processo neurótico começa quando tais necessidades não são atendidas durante certo tempo. Um recém-nascido não sabe que deve ser acalentado quando chora, ou que não deve ser desmamado antes do tempo, mas quando suas necessidades não são atendidas, ele sofre.
A princípio o bebê fará tudo que lhe for possível para ver suas necessidades serem atendidas. Ele levantará os braços para ser acalentado, chorará quando tiver fome, esperneará e se contorcerá a fim de chamar atenção sobre si. Se suas necessidades não forem atendidas durante algum tempo, se não for acalentado, se não lhe mudarem as fraldas e não o alimentarem, ele sofrerá até que seus pais o atendam ou até que ele mesmo suprima sua dor, suprimindo sua necessidade. Se sua dor for bastante forte, ele poderá morrer, como mostram os estudos feitos em algumas instituições infantis.
Como o bebe não pode, sozinho, vencer sua sensação de fome (isto é, ele não pode dispor da geladeira) ou encontrar uma afeição substituta, ele terá que separar suas sensações (fome, desejo de acalento) da consciência delas. Esta separação de si mesmo e de suas necessidades e sentimentos é uma manobra instintiva a fim de isolar a dor excessiva. Nós chamamos esta forma de procedimento de split ou cisão. O organismo faz o split a fim de proteger sua continuidade. Mas isso não quer dizer que desaparecem as necessidades que não forem atendidas. Ao contrário, elas continuam a se fazer sentir através de toda a vida, exercendo uma força, canalizando interesses, e produzindo motivações para satisfazê-las. Mas em virtude da dor que ocasionam, as necessidades foram suprimidas no inconsciente, e o indivíduo tem de procurar satisfações substitutas. Deve, então, procurar satisfazer suas necessidades de um modo simbólico. Por não ter podido exprimir-se, ele poderá ser compelido a procurar, mais tarde em sua vida, outras pessoas que o compreendam e o ouçam.
Não são somente as necessidades não atendidas que persistem até atingirem um grau de intolerabilidade dissociada da consciência, mas também suas sensações são transportadas para áreas onde possam obter maior alívio ou controle. Sendo assim, certas sensações podem ser aliviadas pela urina (mais tarde pelo sexo) ou controladas pela supressão da respiração profunda. A criança não atendida está
aprendendo a disfarçar e transformar suas necessidades em atos simbólicos. Ao chegar à idade adulta poderá não sentir a necessidade de sugar o seio da mãe, por ter sido desmamado prematuramente, mas poderá se tornar um fumante inveterado. Sua necessidade de fumar é uma necessidade simbólica, e a essência das neuroses é a busca de satisfações simbólicas.
A neurose é o comportamento simbólico defendendo o indivíduo da excessiva dor psicobiológica. A neurose perpetua-se automaticamente pois a satisfação simbólica não pode satisfazer às necessidades reais. Para que as verdadeiras necessidades sejam satisfeitas, é preciso que sejam sentidas e experimentadas. Infelizmente a dor fez com que essas necessidades fossem sepultadas. Quando isso acontece, o organismo estabelece um estado contínuo de alerta. Esse estado de alerta é a tensão. Ela impele o bebê e mais tarde o adulto, em direção à satisfação das necessidades da maneira que for possível. Esse estado de alerta e emergência é necessário para garantir a sobrevivência da criança. Ela pode até morrer se tiver que abdicar à esperança de ver suas necessidades atendidas. O organismo continua a viver custe o que custar, e esse preço é geralmente a neurose que encobre os sentimentos e as necessidades físicas que não foram atendidas, já que a dor é grande demais para ser suportada.
Tudo que é natural é realmente necessário. Por exemplo, crescer e se desenvolver em um compasso próprio. Isso quer dizer que uma criança não deve ser desmamada prematuramente; não deve ser obrigada a andar ou a falar antes do tempo; não deve ser forçada a jogar bola antes que seu aparelho neurológico possa realizar tal ato de modo natural. As necessidades neuróticas não são necessidades naturais, pois se desenvolvem devido ao não atendimento de necessidades reais. Nós não nascemos necessitando ouvir elogios, porém se os esforços de uma criança são sempre ridicularizados desde a mais tenra idade, quando ela começar a entender que por mais que faça, nunca consegue obter a aprovação e o amor de seus pais, isso pode então resultar num anseio de elogios. Paralelamente, a necessidade da criança para se exprimir pode ser suprimida até mesmo pela falta de alguém que a ouça. Tal rejeição pode fazer com que a criança fale incessantemente.
Uma criança amada é aquela cujas necessidades naturais são sempre atendidas. O amor elimina sua dor. Uma criança que não é amada sofre por não ser atendida. Uma criança amada não necessita ser elogiada pois não foi ridicularizada. Ela é apreciada pelo que é, não pelo que possa fazer para satisfazer às necessidades de seus pais. Uma criança amada não se transforma em um adulto com um desejo sexual insaciável. Ela já foi acalentada e acariciada por seus pais e não necessita usar o sexo para satisfazer essa necessidade primitiva. As necessidades verdadeiras surgem de dentro para fora, e não ao contrário. A necessidade da criança em ser acalentada e acariciada faz parte da necessidade de ser estimulada. A pele é o nosso mais vasto órgão sensorial e requer tanto estímulo como qualquer outro órgão sensorial. O estímulo insuficiente nos primeiros tempos de vida pode produzir
consequências desastrosas. Os sistemas orgânicos podem se atrofiar se não são estimulados. Inversamente, como o demonstrou Krech1, eles podem se desenvolver se são estimulados corretamente. Deve sempre haver estímulo físico e mental.
As necessidades não satisfeitas anulam qualquer outra atividade do homem, até serem atendidas. Quando as necessidades são satisfeitas, a criança pode sentir. Ela percebe seu corpo e o ambiente em que vive. Quando as necessidades não são atendidas, a criança sente apenas tensão, que é o sentimento desligado da consciência. Sem essa ligação necessária o neurótico não sente. A neurose é a patologia do sentimento.
A neurose não começa no momento em que a criança suprime seu primeiro sentimento, mas podemos dizer que o processo neurótico começa então. A criança fecha-se por etapas. Cada repressão e negação de uma necessidade faz com que a criança se feche um pouco mais. Acontece, então, um momento em que ocorre uma mudança crítica na qual a criança se desliga, na qual ela é mais falsa do que verdadeira, e ao atingir esse ponto crítico nós podemos considerá-la neurótica. Daí em diante ela operará em um sistema de personalidade dupla. O verdadeiro eu são as necessidades e os sentimentos do organismo. O falso eu é o disfarce desses sentimentos e vai se transformar na fachada que é necessária aos pacientes neuróticos a fim de conseguirem satisfazer suas próprias necessidades. Pais que se sintam inseguros por terem sido constantemente humilhados por seus pais, podem exigir dos filhos um respeito e uma submissão total. Um pai imaturo pode exigir que o filho cresça rapidamente, a fim de poder fazer o seu trabalho, e a criança torna-se, então, adulta, muito antes de estar pronta para tal, para que o pai continue a ser cuidado como criança.
As exigências que tornam a criança falsa nem sempre são muito explícitas. No entanto, a necessidade de ter pais é uma exigência implícita da criança. A criança nasce de uma necessidade dos pais e começa a lutar para atendê-los desde o momento em que nasce. Ela pode ser obrigada a sorrir (para parecer feliz), a balbuciar, a acenar com as mãos, a sentar e a andar, antes do tempo, para que os pais possam dizer que têm um filho esperto. À proporção que a criança se desenvolve, essas exigências vão se tornando mais complexas. O menino terá que ser bom aluno, terá que ser prestativo e ajudar nas tarefas domésticas, terá que ser calmo e sem exigências, não deverá falar demais, deverá dizer coisas muito inteligentes e praticar atletismo. O que não poderá fazer é ser ele mesmo. A grande quantidade de transações que ocorrem entre as crianças e seus pais negarão a necessidade Primal natural da criança e ela sofrerá com isso, não podendo ser quem é e ser amada. A essas dores profundas eu chamo de Dor Primal (ou Dores). A Dor Primal engloba as necessidades e sentimentos que são reprimidos ou negados pela
1
D. Krech, C. Bennett, M. Diamonde M. Rosenzweig, "Chemical and Anatomical Plasticity of Brain", Science, Vol 146 (outubro de 1964), pp. 610-1 9.
consciência, fazendo sofrer por não poderem ser exprimidos ou satisfeitos. Todas essas Dores podem ser resumidas nesta frase:
Eu não sou amada e nem posso ter esperança de receber amor enquanto for eu mesma.
Cada vez que uma criança não é acalentada quando necessita sê-lo, cada vez que se exige seu silêncio, cada vez que é ridicularizada, ignorada ou obrigada a um comportamento além de sua capacidade, aumenta o volume de seu poço de sofrimentos, que chamo de Poço Primal. Cada adição a este poço torna a criança mais falsa e neurótica.
À proporção que aumentam os assaltos ao sistema, a verdadeira personalidade começa a ser destruída. Um dia acontecerá alguma coisa que, mesmo não tendo um conteúdo traumatizante, poderá perturbar o equilíbrio entre o eu falso e o verdadeiro, tornando a criança neurótica. A tal acontecimento eu dou o nome de Cena Primal principal. É nessa época da vida da criança que todas as humilhações passadas, as negações, as privações se somam numa compreensão incipiente: "Não há esperança de ser amado pelo que sou." Então ela se defende contra essa catastrófica descoberta, dissociando-se de seus sentimentos, e entregando-se à neurose. Essa descoberta não é consciente, e a criança até começa a comportar-se, tanto em casa como socialmente, do modo desejado pelos pais, falando e fazendo como eles. Quando se comporta desse modo, está agindo de forma falsa, isto é, não age de acordo consigo mesmo, com suas próprias necessidades e desejos. Dentro de pouco tempo o comportamento neurótico se torna automático.
A neurose implica no desligamento, no split, dos próprios sentimentos. Quanto maior for a violência dos pais sobre a criança, mais profundo será o abismo entre o eu verdadeiro e o falso. A criança começará a andar do modo indicado, só tocará seu corpo nas áreas permitidas, não será exuberante ou triste, conforme a exigência, e assim por diante. O split é, contudo, necessário a uma criança fraca. É o modo reflexivo (isto é, automático) do organismo manter sua sanidade. A neurose é pois a defesa contra a catástrofe da realidade a fim de proteger o desenvolvimento e a integridade psicofísica do organismo.
A neurose implica em ser o que não se é, a fim de se obter o que não existe. Se existisse amor, a criança seria o que é, pois é isso o amor: deixar que a pessoa seja aquilo que é. Portanto não é necessário acontecer nada terrivelmente traumatizante para produzir uma neurose, já que ela pode aparecer quando se força uma criança a dizer "por favor" e "obrigada" sempre que pronunciar uma frase, a fim de provar que seus pais são pessoas finas e educadas. Também pode aparecer como uma consequência de não se permitir que a criança se queixe ou chore quando se sente infeliz. Os pais podem se precipitar para a criança e consolá-la por ansiedade. Podem não permitir que demonstre raiva, "meninas bem educadas não fazem cenas",
"meninos bem educados não respondem aos mais velhos". Também pode ser uma fonte de futuras neuroses o hábito de se exigir da criança que recite poesias nas reuniões em casa de amigos, ou de obrigá-la a resolver problemas abstratos. Qualquer que seja a forma que tome a exigência, a criança logo compreenderá o que se espera dela. Ou concorda, ou então é castigada: não recebe amor, ou o que passa por ser amor, aprovação, carinho, um sorriso. A criança acaba habituando-se a representar e sua vida se transforma em um ritual a serviço das exigências paternas.
O que causa o split é o amargo desespero de não ser nunca amada. A criança tem, então, que negar essa compreensão de que suas necessidades não serão nunca satisfeitas, por mais que se esforce. Ela não pode viver sabendo que é desprezada ou que ninguém está realmente interessado nela. Para ela é intolerável saber que não há um meio de fazer com que o pai seja menos crítico e a mãe mais amorosa. A única maneira que encontra para se defender disso tudo é desenvolvendo necessidades substitutas que são neuróticas.
Tomemos como exemplo um menino que está sempre sendo censurado pelos pais. No colégio ele poderá falar sem parar (e sofrer a repreensão do professor); no recreio ele poderá se vangloriar ininterruptamente (alienando as outras crianças). Mais tarde, poderá desenvolver um desejo incontrolável e exigir em altos brados algo que seja tão patentemente simbólico (para os que o observam) como "a melhor mesa do salão" em um restaurante de luxo.
O lugar na mesa não poderá desfazer a "necessidade" que ele tem de se sentir importante. Se assim for ele não precisará comportar-se de tal forma toda vez que entrar num restaurante. Dissociado de sua verdadeira necessidade inconsciente (a de ser reconhecido como um ser humano digno de atenção), ele procura dar "sentido" à sua existência sendo cumprimentado pelo nome nos vários restaurantes e hotéis de luxo que frequenta.
As crianças nascem, pois, com necessidades biológicas reais2 que, por um ou outro motivo, seus pais deixam de satisfazer. Pode ser que alguns pais e mães não reconheçam as necessidades de seus filhos ou que tais pais, com o desejo de não cometerem qualquer erro, sigamos conselhos de alguma célebre autoridade em educação e só segurem os filhos em horas certas, alimentando-os pelo relógio, com uma pontualidade que faria inveja a uma companhia de aviação, desmamando-o segundo uma tabela prescrita, e educando suas necessidades fisiológicas o mais cedo possível.
No entanto eu não acredito que a ignorância ou a metodologia possam ser responsáveis pela prodigiosa safra de neuroses que a humanidade vem produzindo desde que a história começou. A principal razão das crianças tornarem-se neuróticas,
2
Muitos pais cometem o erro de não tirar do berço a criança com medo de "estragá-la", e é exatamente isso que acontece quando a ignoram. Mais tarde a criança irá exigir deles, de um modo insaciável, substitutos simbólicos desses gestos, até o momento em que os pais se cansem de atendê-la. E a consequência disso é tanto inevitável como terrível .
segundo pude descobrir, é que seus pais estão empenhados em uma luta contínua contra suas próprias necessidades infantis insatisfeitas.
Sendo assim uma mulher pode engravidar a fim de ser acalentada, que é realmente o que ela sempre quis durante toda sua vida. Enquanto for o centro de atenção, ela sentir-se-á feliz. Quando tiver a criança, poderá sentir-se deprimida. A gravidez servirá à sua necessidade, não tendo relação alguma com o parto de um novo ser humano sobre a terra. A criança poderá até sofrer por ter nascido, privando sua mãe de gozar a única época de sua vida em que conseguiu fazer com que outras pessoas se interessassem por ela. Como ela não está preparada para a maternidade, seu leite poderá secar, deixando o recém-nascido com a mesma sensação de privação que ela mesma sentiu.
Dessa maneira os pecados dos pais recairão sobre os filhos em um ciclo aparentemente interminável.
Eu chamo de luta a tentativa da criança para agradar aos pais. Essa luta começa com os pais e mais tarde se generaliza e abrange todo o mundo, espalhando-se para além da família pois o indivíduo carrega consigo suas necessidades insatisfeitas, que têm de ser equacionadas. Ele procurará pais substitutos com os quais representará seu drama neurótico, ou fará com que qualquer pessoa (até mesmo seus filhos) tome o lugar dos pais que satisfarão suas necessidades. Se o pai foi um indivíduo reprimido, que nunca pôde manifestar-se verbalmente, seus filhos saberão ouvi-lo. Eles, a seu turno, sendo obrigados a ouvir, procurarão alguém que os ouça para satisfazerem sua necessidade suprimida. Esse alguém poderá muito bem ser o seu próprio filho.
O campo da luta pode se transferir da necessidade verdadeira para a neurótica, do corpo para a mente, pois as necessidades mentais ocorrem quando as necessidades básicas são negadas. Mas as necessidades mentais não são necessidades reais. Em verdade, não existem necessidades puramente psicológicas. As necessidades psicológicas são necessidades neuróticas porque não atendem às verdadeiras exigências do organismo. Por exemplo, o homem que tem que ter a melhor mesa do restaurante para se sentir importante está agindo baseado em uma necessidade que se desenvolveu devido à falta de amor em sua vida, porque seus esforços verdadeiros foram ignorados ou suprimidos. Ele pode ter necessidade de ser reconhecido pelo nome pelos maîtres porque anteriormente ele era apenas mencionado numa categoria como "filho". Isso quer dizer que ele foi desumanizado pelos pais e está tentando obter simbolicamente uma reação humana através de outras relações. Se tivesse sido tratado por seus pais como um ser humano único, seria menor sua necessidade de se sentir importante. O que o neurótico faz é dar rótulo novo (a necessidade de se sentir importante) às antigas necessidades inconscientes (ser prezado e amado). Com o tempo eles acabarão acreditando que esses rótulos são sentimentos verdadeiros e que sua busca é necessária.
A fascinação de vermos nossos nomes em letreiros luminosos ou nas páginas de publicações é uma das indicações de uma profunda privação de reconhecimento como indivíduo. Essas realizações, não importando seu valor real, são uma busca simbólica do amor dos pais. A luta passa a ser a tentativa de agradar a uma determinada plateia.
É essa luta que faz com que uma criança não se sinta impotente. Ela pode ser representada pelo excesso de zelo nos estudos ou no atletismo. A luta é a esperança do neurótico de receber amor. Em vez de ser ele mesmo, ele luta para ser uma outra versão de si mesmo. Mais cedo ou mais tarde a criança passa a acreditar que essa versão é o seu verdadeiro eu. O "ato" já não é mais voluntário e consciente mas sim neurótico.
A Cena Primal
Há duas espécies de Cena Primal: a principal e a secundária. A Cena Primal principal é o acontecimento isolado e devastador na vida da criança. É aquele momento de solidão cósmica e gélida, a mais amarga de todas as epifanias. É o instante em que ela começa a compreender que não é amada pelo que é e não o será.
Anteriormente à Cena Primal, a criança já passou por um sem-número de experiências secundárias nas quais foi ridicularizada, rejeitada, esquecida, humilhada, obrigada a representar. Chega finalmente o dia em que todos esses acontecimentos deletérios começam a ter um sentido para a criança. Um acontecimento crucial parece somar todas essas experiências passadas: "Eles não gostam de mim como sou." Essa é uma explicação catastrófica, que é negada e abafada, e em seu lugar começa a luta do falso eu. Deste momento em diante a experiência será protegida por essa frente de modo que a criança muitas vezes não saberá quando está sofrendo. Sua luta encobrirá sua Dor.
Alguns pacientes conseguem lembrar uma cena crucial que foi a soma de todas as outras cenas secundárias anteriores. Para outros, houve apenas um lento e monótono acréscimo de pequenos traumas, cada um deles insignificante em si, mas que um dia se transformam em uma brecha de grandes proporções, brecha essa que pode acontecer de um modo dramático na forma de uma cena principal ou simplesmente como o resultado de um acúmulo de cenas secundárias, e faz com que um dia a criança se torne mais falsa do que verdadeira.
O split ocasionado por essa cena principal significa o fim da criança como um ser integrado e entrosado.
idade. É nessa época que a criança aprende a generalizar partindo de experiências concretas. É nessa época que a criança começa a entender o significado de cada acontecimento isolado já sucedido.
A cena principal não é necessariamente traumática, de um ponto de vista objetivo. Não é preciso que seja um acidente de automóvel ou de avião. É mais que tudo uma compreensão, uma visão rápida e brutal da verdade que aparece para a criança durante um acontecimento que pode ser até vulgar. Um paciente, por exemplo, lembra-se de ter chamado a mãe, quando era bem pequeno, e de ter sido atendido pelo pai a quem temia, em lugar da mãe. A visão foi: "Minha mãe nunca vem quando eu preciso dela". Esse raciocínio tinha por base as muitas vezes em que ele chamou pela mãe para lhe pedir um copo de água. Ela nunca vinha. Era seu pai que vinha. Um dia ele descobriu que sua mãe nunca viria quando ele precisasse dela. Sentiu-se então partido ao meio, pois querer a mãe e pedir que ela o atendesse era chamar o temido pai e receber seu castigo por estar dando trabalho. Portanto querer era receber o que não queria. Ele nunca mais a chamara pretendendo poder viver muito bem sem mãe, até o dia, em meu consultório, em que no meio de grande sofrimento chamou "mamãe!"
As cenas secundárias são simplesmente pequenos acontecimentos que atingem o eu verdadeiro como críticas ou humilhações até que um dia acontece uma cena principal e o eu se rompe com a tensão.
É possível que uma Cena Primal principal possa ocorrer durante os primeiros meses de vida. Isso acontece quando o evento é tão desastroso que acriança pequena não podendo defender-se tem que sofrer um split a fim de sobreviver à experiência. Esse evento produzirá uma rotura irreparável que durará até ser revivida outra vez em toda a sua intensidade. Um exemplo disso é a criança que é separada dos pais muito cedo e criada num orfanato.
A Cena Primal pode ser um dado significativo pois representa centenas de experiências semelhantes, cujo resultado é sempre um grande sofrimento. Por isso, quando tais cenas são revividas durante a Terapia Primal, trazem em consequência um dilúvio de lembranças associadas. O que liga todos esses eventos é um sentimento (tal como "Não há ninguém que possa me ajudar").
Vejamos alguns exemplos de Cena Primal. A seguinte narração é a principal cena na vida de Nick. Quando tinha seis anos de idade, a Segunda Grande Guerra tinha terminado e seu pai havia voltado para casa, tendo sido desligado do Exército. Aquele seria o primeiro Natal que a família passaria junta desde Pearl Harbour, sendo por isso uma ocasião muito festiva. Nick esperava por aquele dia com a intensidade que só os muito pequenos possuem. Ele comprou uma gravata para o pai, embrulhando-a da melhor maneira possível, com um cartãozinho que ele mesmo desenhou. Às duas horas da tarde todos os presentes tinham sido abertos, menos o que ele dera ao pai. Às três todos estavam comendo o peru recheado exceto Nick.
Seu pai ignorara completamente seu presente.
Finalmente alguém o descobriu debaixo da árvore e o trouxe para a sala de jantar. Como contou Nick: "Meu pai estava bêbado, e logo que viu o embrulho começou a fazer pilhérias. — Será um automóvel? O que poderá ser isso? Será uma lancha? Não. Isso só pode ser um aeroplano, embrulhado de um jeito tão grosseiro! É claro que é um aeroplano! Todos riram muito e eu tive vontade de sumir dentro do chão. Quando meu pai bebia era implacável. Ele fingiu que não sabia de quem era o presente, embora o cartão dissesse "Papai", e eu fosse o único filho. Finalmente ele acabou abrindo o embrulho, e então veio até onde eu estava sentado, balbuciando "Minha vida, meu amor, de todos os milhões de gravatas em meu guarda-roupa, esta vai ser para todo o sempre a minha favorita..." Coisa assim. Ele empilhou insulto sobre insulto. Finalmente quando ele disse pela quinta vez, 'Você não deveria ter gasto o seu dinheiro com seu velho pai', eu não aguentei mais, levantei-me e saí correndo da mesa, pensando: Eu não devia mesmo! Você está danado de certo!
Objetivamente, num mundo cuja dieta diária consiste de bombas atômicas, campos de concentração e genocídio, muito pouca coisa aconteceu naquela tarde de Natal. No entanto foi o suficiente, como a última gota d’água, para condenar um homem a quase um quarto de século de distúrbios nervosos, aberrações sexuais e profundas crises de depressão. Para Nick, aquela gravata simbolizou o sentimento de que "Nada que eu faça será suficiente para fazer você gostar de mim, papai!"
A Cena Primal principal traz à tona centenas de incidentes que destroem todas as esperanças da criança. Desde o dia em que ocorrem, os sentimentos verdadeiros se galvanizam formando o falso eu, e assim a criança sentirá dificuldade em reconhecer muitos de seus sentimentos. (Assim, depois de chegar à puberdade, Nick disfarçou sua necessidade de ter um pai amoroso dedicando-se a fantasias homossexuais.) O verdadeiro eu, além de tudo, suprime esses mesmos desejos verdadeiros de modo que não podem ser relacionados e equacionados. ("Objetivamente", Nick sentia pelo pai alcoólatra apenas um grande desprezo.) A Cena Primal principal é um salto qualitativo em direção à neurose.
Antes do Dia de Natal de 1946, já Nick havia estado tenso. Depois, a tensão não se evaporou, do mesmo modo que suas necessidades e sentimentos reprimidos não desapareceram, já que ficaram dentro dele, codificados no seu cérebro na forma de lembranças reprimidas que permearam todo seu sistema físico, mantendo-o tenso. Essa tensão impediu-o de entender o seu comportamento, impelindo-o na luta para preencher simbolicamente aquela necessidade com o homossexualismo. Pode-se ver claramente, portanto, que o cerne da luta neurótica é a esperança, a esperança de que suas ações vão trazer-lhe amor e carinho. Essa esperança deve, no entanto, ser falsa, pois força-o a tentar buscar através da luta neurótica algo que simplesmente não existe: pais amorosos. O neurótico tenta converter o mundo em pais interessados, amigos e atuantes. Se eles em verdade tivessem sido pessoas
assim essa luta não teria sido necessária.
Depois da crise de uma Cena Primal principal podem ocorrer muitas centenas de experiências danosas no decorrer da vida em família. Cada uma delas aumenta o abismo e aprofunda a neurose. Cada uma delas torna a criança menos verdadeira. Um outro paciente meu sofreu uma Cena Primal mais dramática.
Peter, com seus quatro anos de idade, era frequentemente espancado por seu pai pelos motivos mais variados. Ele sofria as surras sentindo que devia ter feito coisas terríveis para merecê-las. Um dia, quando estava fazendo compras com sua mãe, houve um acidente e o carro da família foi avariado. Quando Peter chegou em casa com a mãe, seu pai estava esperando por eles, furioso. "Como é que você pôde ser tão estúpida?" foi sua primeira pergunta. Ainda assustada pelo acidente a mãe de Peter começou a chorar, aumentando ainda mais a raiva do pai. Finalmente ele a esmurrou, jogando-a ao chão. Gritando, o garotinho atirou-se sobre o pai, segurando-lhe o braço que estava em posição para um novo murro. O pai de Peter segurou-o e depois de sacudi-lo jogou-o de encontro à parede. Naquele momento Peter compreendeu que seu pai poderia matá-lo se ele o provocasse.
Desse dia em diante o menino teve que prestar atenção em cada palavra que dizia na frente do pai, em cada movimento que fazia. Sua infância tornou-se uma época de terror, em que procurava continuamente aplacar a ira do pai. Mas ele ainda tinha a mãe para ampará-lo. Porém ela, depois de um certo tempo, não suportando a vida com aquele homem brutal começou a beber até ter de ser internada num hospício. Depois que foi levada de casa, Peter compreendeu que aquilo era "o fim". E de fato foi o fim de Peter como um ser normal, integrado. Durante os vinte anos que se seguiram ele comportou-se de forma simbólica com todas as pessoas que encontrava. Ele representava o sentimento "Por favor, não me bata, papai!" e esse sentimento envenenou todos os aspectos de sua vida.
Um outro exemplo de neurose começando como um estado de espírito e que parece inócuo é o de Anne e sua Cena Primal principal.
Um dia, quando tinha seis anos, Anne foi apanhada por uma chuvarada. Uma mulher de sua vizinhança encontrou-a toda molhada e tremendo de frio. Levou a menina para sua casa e aqueceu-a junto à lareira, acalentando-a. Anne subitamente sentiu-se "esquisita", e, sem uma palavra de agradecimento à boa senhora, fugiu da casa e saiu correndo na chuva. Em seu quarto ela soluçou durante quase uma hora e não soube explicar à sua mãe o motivo de seu choro. Ela apenas sentia-se angustiada. Depois, enxugou as lágrimas e desceu, indo ajudar a mãe a fazer o jantar. Foi apenas isso o que aconteceu. Essa foi sua Cena Primal principal. No entanto foi mais traumática do que qualquer surra, já que não podia ser integrada e compreendida.
sujar, porque rasgava as roupas e todas essas coisas que acontecem normalmente a qualquer um de nós. Em todas essas ocasiões ela achara que havia agido de maneira errada, pedira desculpas e continuara vivendo sua vida. Mas sentira completamente todas essas experiências. No dia da chuva, no entanto, ela não fizera coisa alguma errada. Não houve necessidade de desculpas, nada que pudesse explicar o porquê daquilo que então sentira.
O carinho da vizinha mostrou-lhe o vazio da vida. Ela teve uma visão do que nunca tivera em casa, de um momento dedicado a ela, de carinho, conforto e compreensão, e entendeu que nunca poderia ser o que era e alcançar o amor de sua mãe. Saiu então correndo para ir chorar em casa antes de compreender completamente o que lhe acontecia, antes do impacto devastador daquele "nunca" ser sentido.
Depois de chorar, quando a menininha desceu para ajudar a mãe, sua vida verdadeira cessou. Exteriormente ela se tornou delicada, meiga, atenta. As tensões internas começaram a se avolumar.
Ela tentava libertar-se de seu desconforto ajudando a mãe que estava sempre doente. Ofereceu-se para tomar conta do irmão menor. Lutou e a tensão aumentou, assim como a sua neurose. Ela não queria tomar conta do irmãozinho, ela queria ser cuidada e acalentada. Ela não queria lavar os pratos, ela queria ir brincar. Mas cedia às exigências da mãe e se acomodava. Levou toda uma vida tentando converter a mãe naquela boa vizinha que lhe oferecera amor sem quid pro quo. A luta impediu-a de sentir a verdade, isto é, que sua mãe não iria nunca ser a pessoa amorosa que ela necessitava. A menininha fora aprisionada.
Se deixasse de agir com delicadeza e sujeição, desencadearia o ressentimento de sua mãe por ter que ser mãe. A humildade de que a "mamãe" fosse a menininha enquanto ela mesma adotava o papel de mãe. Foi por essa esperança3 falsa que Anne carregou a sua cruz. Ela esperava que algum dia tivesse uma recompensa e portanto lutava pelo amor imaginário de sua mãe, mas a única coisa que recebeu foram os pratos para lavar.
Nesse caso, a Cena Primal foi um acontecimento que não foi completamente vivido, permanecendo desligado e sem ser equacionado. Isso não quer dizer que só durante uma época de nossas vidas é que se produzem neuroses, mas sim que naquele momento, isto é, na Cena Primal principal, é estabelecido um curso inalterável, e cada novo trauma aumenta o abismo entre o eu verdadeiro e o falso.
A principal Cena Primal é a ocasião em que o acúmulo de pequenos sofrimentos, rejeições e supressões se congelam para formar um novo estado de espírito, a neurose. É a época em que a criança começa a compreender que para
poder viver tem que abdicar de parte de si mesma. Essa compreensão, dolorosa demais para ser suportada, nunca é completamente consciente, de modo que a criança começa a agir neuroticamente sem uma centelha de entendimento do que está acontecendo consigo.
Como acabamos de ver, algumas das cenas principais podem ser dramáticas. Outras não o são necessariamente. Quando a mãe diz: "Se você fizer isso outra vez eu vou mandá-la embora", não é propriamente a cena; é o seu significado que é devastador para a criança. Uma ameaça aparentemente sem gravidade ou uma pequena surra pode ser subjetivamente tão traumatizante como ser mandada para o orfanato.
O Eu Verdadeiro e o Falso
Embora faça referência a um eu verdadeiro e a um eu falso devo lembrar que ambos são aspectos de um mesmo eu. O eu verdadeiro é o eu natural, o que éramos até descobrirmos que nossos pais não nos aceitavam assim. Nós nascemos verdadeiros. E ser verdadeiro não é algo que necessite de esforço.
A carapaça que usamos para envolver nosso eu verdadeiro é o que os freudianos chamariam de Sistema de Defesa. Mas os freudianos acreditam que um sistema de defesa é uma necessidade dos humanos e que "uma pessoa saudável e integrada" é aquela que possui um sistema de defesa bastante forte. Eu vejo o ser normal como uma pessoa totalmente sem defesas, uma pessoa sem um eu falso. Quanto mais forte for o sistema de defesa, mais doente é a pessoa, isto é, mais falsa ela é.
O faquir que anda sobre brasas ou dorme numa cama de pregos é um exemplo típico do modo como o verdadeiro eu é suprimido. Todos os dias, em minhas atividades de terapeuta, eu vejo pessoas que conseguiram fazer um completo split de sua personalidade como uma proteção contra a Dor, e que já não mais sentem seu sofrimento psicológico assim como o faquir não sente a dor física.
De vez em quando o neurótico tem uma visão de si mesmo. Uma doença ou umas férias impedem-no de lutar e ele é subitamente confrontado consigo mesmo. Algumas vezes isso produz sintomas psiquiátricos, ele se sente despersonalizado, esquisito, como se tivesse perdido o rumo de sua vida. Essa despersonalização é muitas vezes o começo da realidade e ele começa a perceber que seu eu verdadeiro é uma espécie de força que lhe é estranha. Geralmente ele bate em retirada para sua habitual falsidade e logo sente-se novamente como "era antes". Se pudesse dar um passo à frente, se conseguisse sentir a realidade de sua falsidade, creio que poderia tornar-se verdadeiro.
Então, no neurótico, o eu verdadeiro está trancado junto da Dor original. Por isso é preciso que sinta a Dor a fim de libertar-se. A Dor faz com que o eu falso se desmorone, do mesmo modo que a negação da Dor criou esse eu falso.
O eu falso é um sistema de superposição, por isso o corpo parece rejeitá-lo como rejeitaria um corpo estranho. O esforço é sempre no sentido do eu verdadeiro. Como os pais neuróticos não nos permitem sermos verdadeiros, nós escolhemos um caminho complicado, isto é, neurótico, para chegar à realidade. A neurose é justamente o modo falso com que tentamos ser verdadeiros.
O sistema falso é que torce o corpo deformando-o, e tendo como resultado o impedimento do desenvolvimento, do crescimento. Ele suprime o verdadeiro sistema endócrino ou o superestimula desnecessariamente. Ele causa uma tensão indevida a vários órgãos vulneráveis, causando explosões periódicas. Para resumir, o sistema falso é total: não é apenas um comportamento isolado. Ser neurótico significa não ser totalmente verdadeiro. Portanto, parte alguma do organismo pode funcionar suavemente, de um modo normal. A neurose é tão abrangedora como a normalidade, pois se difunde em todas as ações, em todas as atitudes do indivíduo.
Há um modo do neurótico atingir o âmago de sua luta simbólica a fim de enfrentar a Dor que o impulsiona. É a esse processo que eu chamo de Terapia Primal, e que é o ataque sistemático ao falso eu, ocasionando por fim uma nova espécie de vida, a normalidade, do mesmo modo que os ataques originais ao eu verdadeiro produziram um novo estado de espírito, a neurose. A Dor é tanto a porta de entrada como a porta de saída.
DISCUSSÃO
A Teoria Primal encara a neurose como a síntese de duas personalidades ou sistemas em conflito. A função do sistema falso é suprimir o verdadeiro, mas como as necessidades verdadeiras não podem ser erradicadas, o conflito é interminável. Na tentativa de serem apaziguadas, essas necessidades se transformam em virtude do sistema falso, de modo que só podem ser satisfeitas simbolicamente. Os sentimentos reais que se tornaram dolorosos por não terem sido satisfeitos devem ser suprimidos para que a criança não seja destruída pela Dor. No entanto, paradoxalmente, essas necessidades não podem ser satisfeitas se não forem percebidas.
Se encararmos essas necessidades e sentimentos reprimidos como sendo uma forma de energia que impulsiona o organismo, poderemos compreender que o neurótico é como um mecanismo que tem o motor ligado permanentemente. Nada que ele faça desligará esse motor ligado até que suas necessidades e sentimentos sejam percebidos em toda sua agonia e exatamente pelo que são. Isso quer dizer que o sistema falso tem que ser derrubado para que o verdadeiro encontre expressão.
Um exemplo bem simples como o impedimento de chorar nos primeiros anos de vida pode elucidar essa discussão. Para onde irão essas lágrimas? Para alguns elas se transformam em rinite crônica ou sinusite (que desaparecem quando, durante a Terapia Primal, a pessoa chora com todas as fibras de seu ser). Para outros, a tristeza suprimida encontra expressão nos lábios caídos e no olhar melancólico. A necessidade verdadeira nunca é sentida, pois é representada simbolicamente. É essa representação que faz com que a pessoa não reconheça sua necessidade, não podendo por conseguinte equacioná-la. Assim o neurótico continua a negar-se a satisfação de suas necessidades reais.
O sistema falso transforma as necessidades verdadeiras em enfermidade. O indivíduo pode se empanzinar de comida para não sentir seu vazio interior. O alimento simboliza o amor.
A voracidade, então, é um exemplo de uma transferência simbólica. Quando as necessidades verdadeiras se transformam em necessidades doentias, elas já não mais podem ser satisfeitas. Isso quer dizer que do momento que o principal desligamento se dá na Cena Primal principal, então se criam as duas personalidades em constante contradição dialética. O eu falso impede a necessidade verdadeira de emergir e de ser satisfeita. É por isso que, por exemplo, o amor e o carinho de uma professora primária podem ser apenas um paliativo, e a criança não sentirá a dor enquanto estiver sendo acarinhada e protegida pela professora interessada nela. Mas o comportamento da professora não poderá desfazer o split que foi causado pela rejeição dos pais onipotentes, durante os primeiros e cruciais anos da vida da criança. Desde que o split tenha ocorrido, o carinho da professora poderá apenas ocasionar Dor pelo que a criança nunca recebeu.
A Dor Primal é desligada da consciência porque a consciência disso significa uma dor intolerável. A Dor Primal é o que a criança sente quando não pode ser ela mesma. A tensão começa quando a Dor é desligada da consciência. A Dor então se difunde. Torna-se a pressão dos sentimentos reprimidos e desligados que lutam para ser libertados. A tensão produz o homem de negócios, o viciado, o homossexual, cada um deles sofrendo a seu modo mas tendo desenvolvido uma "personalidade" a fim de procurar diminuir, e eventualmente amortecer o sofrimento. O viciado é algumas vezes mais sincero do que os outros dois exemplos citados. Ele geralmente sabe que sente Dor.
A Dor Primal é a necessidade Primal não satisfeita. A Tensão é o sentimento dessas duas necessidades desligadas da consciência. A tensão opera na mente como incoerência, confusão e falta de memória, e no corpo como musculatura tensa e distorções dos processos viscerais. A tensão é a marca exterior da neurose. Ela impele a pessoa em direção ao equacionamento. No entanto, não poderá haver equacionamento até que a Dor Primal seja sentida, isto é, até que seja experimentada conscientemente.
A luta do neurótico é interminável porque aquelas necessidades primitivas permanecem insatisfeitas. A luta é a tentativa constante para impedir o organismo de necessitar. No entanto, é essa luta que nos impede de sentir a grande Dor da necessidade verdadeira e só assim pode equacioná-la. Uma pessoa pode ser amada por uma dezena de apaixonados e nunca equacionar a necessidade do amor dos pais. Uma pessoa pode fazer conferências para milhares de estudantes e continuar sentindo uma necessidade desesperada de se fazer ouvir e entender pelos pais, uma necessidade não percebida que fará com que se sinta impelido a fazer sempre mais e mais conferências. A luta é insatisfatória precisamente porque é simbólica e não verdadeira.
Qualquer necessidade verdadeira ou qualquer sentimento reprimido que tenha raízes nas relações primárias com os pais têm que ser equacionados simbolicamente quando não são dirigidas para eles. A função da Terapia Primal é auxiliar as pessoas a serem verdadeiras levando-as abaixo das atividades simbólicas em direção aos seus sentimentos verdadeiros. Isso quer dizer, auxiliar as pessoas a quererem o que necessitam. Uma criança em desenvolvimento normal quer o que necessita porque sente tais necessidades. Ao se tornar neurótico essas necessidades e desejos sofrem um split (pois ele não pode ter o que necessita) e passa a querer o que não necessita. Para o adulto isso pode tomar a forma de um desejo de bebidas alcoólicas, de drogas, roupas, dinheiro, que são procurados como um alívio para a tensão das verdadeiras necessidades não reconhecidas. Mas nunca haverá bebida suficiente, ou roupas, ou dinheiro para preencher o vácuo.
3 - A DOR
Para chegarmos a entender a Teoria Primal e a Terapia Primal será importante saber como reagiremos à dor. Tentarei mostrar em breves palavras os resultados de pesquisas que muito contribuíram para a formulação da teoria.
E. H. Hess, ao investigar a contração e dilatação das pupilas, quando submetidas a certos estímulos, descobriu que a contração tem lugar quando o estímulo é desagradável e a dilatação quando ele é agradável.4 As pupilas das pessoas que se submetiam ao estudo contraíam-se quando lhes eram apresentadas fotografias de cenas de torturas e havia uma constrição automática e involuntária quando se lhes pedia que lembrassem de tais cenas dolorosas. Acredito que isso mesmo acontece de forma generalizada quando uma criança presencia cenas desagradáveis. Temos então que a fuga da dor é uma reação total do organismo que envolve os órgãos sensoriais, os processos cerebrais, o sistema muscular, etc., como foi o caso com as experiências de Hess.
Eu afirmo que a fuga às grandes dores é uma atividade humana reflexiva que vai desde retirar repentinamente a mão de um fogão quente até evitar olhar para cenas especialmente horrorosas num filme tenebroso como se quiséssemos esconder do ego os sentimentos e pensamentos dolorosos. Eu acredito que este princípio é intrínseco ao desenvolvimento das neuroses.
Na Cena Primal, então, o organismo da criança fecha-se contra a plena percepção e torna-se inconsciente dessa percepção da mesma forma que uma dor suficientemente física pode tornar inconsciente até mesmo os mais valentes. A Dor Primal, a mágoa não experimentada, e a neurose podem ser vistas desse ângulo como um reflexo: a instantânea reação à Dor de todo o organismo.
T. X. Barber já fez experiências fisiológicas com pacientes sob hipnose. Eram pessoas aparentemente despertas que eram submetidas a um estímulo doloroso depois de hipnoticamente informadas que nada sentiriam. Diziam então não sentir dor alguma, embora todas as medidas físicas indicassem que estavam reagindo a ela. Em outras experiências ocorriam mudanças eletroencefalográficas em pessoas hipnotizadas e submetidas à dor embora informassem nada sentirem.5
O que isso indica em termos de Teoria Primal é que o corpo e o cérebro estão
4
E. H. Hess e J. M. Polt, "Pupil Size in Relation to Interest Value of Visual Stimuli", Science, Vol. 132 — 1960.
5
T. X. Barber e J. Coules, "Electrical Skin Conductance and Galvanic Skin Response During Hypnosis", International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, Vol. 7 (1959).
constantemente reagindo à dor, até mesmo quando a pessoa não se dá conta que está sendo atacada por ela. As medições fisiológicas mostram que os corpos das pessoas continuam a reagir aos estímulos dolorosos mesmo depois de estarem sob a ação de analgésicos. A reação física à dor e o fato de a percebermos são dois fenômenos distintos.
Quando o corpo reage fechando-se contra uma dor intolerável, ele precisa de alguma coisa para conservar escondidas e suprimidas as Dores Primais. A neurose desempenha essa função. Ela desvia o sofredor de sua Dor incutindo-lhe esperança, isto é, sobre o que ele pode fazer para satisfazer suas necessidades. Uma vez que o neurótico tem necessidades tão urgentes, embora não realizadas, suas percepções e cognições devem ser afastadas da realidade.
O conceito do bloqueio da dor é importante para a minha hipótese, porque eu acredito que o sentimento, ou a sensação, é unitário, é um processo total do organismo, e quando nós bloqueamos grandes sensações críticas como as Dores Primais, nós estamos também criando dificuldades à nossa possibilidade de sentir.
As sensações primais são como um depósito gigantesco de onde nos servimos. As neuroses são o tampo desse depósito. Elas servem para suprimir quase todas as sensações, todos os prazeres e todas as dores. É por isso que todos os pacientes que já passaram pela Terapia Primal dizem sempre que já estão novamente em condições de sentir. Dizem que realmente sentem prazer novamente, pela primeira vez desde a infância.
Essa noção de um depósito de Dor dentro do neurótico é mais alguma coisa do que uma simples metáfora, pois é o que geralmente dizem os pacientes Primais de uma forma ou outra, como se carregassem dentro deles um depósito de dor devidamente esterilizado. Por exemplo, cada vez que o pai espanca o filho, o que ele sente é: “Papai, por favor, seja bom para mim! Por favor, não me faça ter medo de você!'' Acontece, porém, que a criança não diz isso por diversas razões. Geralmente ela está tão preocupada com a situação que não chega a se dar conta de seus sentimentos, e mesmo que se desse, a sua sinceridade ao confessar ao pai que tem medo dele redundaria talvez em um maior castigo. Sendo assim, ela esconde seus sentimentos mostrando-se mais disposta a submeter-se, a agradar comportando-se com mais delicadeza.
As Dores Primais vão-se armazenando uma a uma em lâminas empilhadas de tensões que procuram libertar-se, mas isso só pode acontecer desde que haja ligações com suas origens. Não será preciso reviver cada incidente, mas é preciso que exista a sensação geral ligada aos acontecimentos. No caso acima, quando a sensação está ligada ao pai, a pessoa será bombardeada com uma lembrança depois da outra, de quando teve medo de seu pai, já que todas elas estão armazenadas no “depósito." Isto é uma prova da existência de Cenas Primais de importância capital que representam muitos acontecimentos, cada um deles ligados à sensação central.
O processo Primal é um esvaziamento metódico do depósito das Dores. Quando o depósito se esvazia eu considero a pessoa curada.
Por baixo de todas as Dores Primais está a necessidade de sobreviver. A criança faz o que os pais mandam tentando agradar-lhes. Um paciente explicou: "Eu me eliminei de mim mesmo. Matei o pequenino Jimmy porque ele era bruto, selvagem e barulhento e eles queriam uma coisa mansa e delicada. Fui obrigado a livrar-me de Jimmy para poder sobreviver com os pais loucos que tinha. Matei o meu melhor amigo. Fiz um mau negócio, mas não podia fazer outra coisa."
Desde que nós somos seres humanos unificados, o verdadeiro eu sempre virá à superfície para estabelecer essas ligações mentais. Se não houvesse uma necessidade intrínseca de ser íntegro, então poderíamos nos descartar em definitivo do verdadeiro eu que ficaria tranquilamente dentro de nós sem jamais tentar intrometer-se no nosso comportamento. O que alimenta a neurose é a necessidade de ser novamente íntegro, a necessidade de sermos nós mesmos. O eu que não é real representa uma barreira, representa o inimigo que deve ser finalmente destruído.
É preciso um grande esforço de parte do Terapeuta Primal para obrigar o organismo a repetir as Dores primeiras. Por mais que o paciente deseje ver-se curado, existe sempre uma forte resistência contra a possibilidade de sentir novamente todas aquelas sensações dolorosas. Aliás, muitos pacientes sentem medo pensando que vão ficar loucos quando estão à beira de novamente sentir essas Dores.
Para os nossos propósitos, o aspecto mais significativo da Dor Primal é que ela permanece encapsulada internamente tão pura e intensa como no dia em que começou. Permanece a salvo das contingências da vida quaisquer que tenham sido os acontecimentos. Pacientes com quarenta e cinco anos de idade continuam a experimentar as mágoas primitivas com a mesma intensidade devastadora, como se lhes estivesse acontecendo pela primeira vez aquilo que já lhes acontecera quarenta anos antes. E eu realmente acredito que assim seja. A Dor nunca foi sentida em toda a sua extensão pois foi abortada e oculta antes que todo o seu impacto se fizesse sentir. Mas essa Dor é terrivelmente paciente. Fica nos acicatando, mostrando-nos que ainda existe, pelas formas mais sutis durante toda a nossa existência. Raramente pedirá para ser libertada.
O que é mais comum é a Dor passar a fazer parte da tessitura do sistema da personalidade, onde continua sem ser sentida e até mesmo irreconhecível. É então que o sistema neurótico faz surgir a Dor.
Isso acontece automaticamente, já que a Dor precisa ser liberada de alguma maneira, seja ela reconhecida ou não. Essa liberação pode vir naquele sorriso perpétuo que diz "Seja bom para mim" ou na doença física que importuna com um