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MELISSA DA SILVA FERREIRA

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Academic year: 2019

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MELISSA DA SILVA FERREIRA

MITOLOGIA E ASCESE:

JERZY GROTOWSKI “ALÉM DO TEATRO”

FLORIANÓPOLIS

(2)

UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA – UDESC

CENTRO DE ARTES – CEART

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEATRO (MESTRADO)

MELISSA DA SILVA FERREIRA

MITOLOGIA E ASCESE:

JERZY GROTOWSKI “ALÉM DO TEATRO”

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Teatro (Mestrado), do Centro de Artes Cênicas da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Teatro.

Orientador: Prof. Dr. Antônio Carlos Vargas Sant’Anna

FLORIANÓPOLIS – SC

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MELISSA DA SILVA FERREIRA

MITOLOGIA E ASCESE:

JERZY GROTOWSKI “ALÉM DO TEATRO”

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Teatro (Mestrado), do Centro de

Artes Cênicas da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, como requisito parcial

para a obtenção do grau de Mestre em Teatro.

BANCA EXAMINADORA:

Orientador: _____________________________________________ Prof. Dr. Antônio Carlos Vargas Sant’Anna

Universidade do Estado de Santa Catarina

Membro: _________________________________________________ Prof. Dr. André Luiz Antunes Netto Carreira

Universidade do Estado de Santa Catarina

Membro: __________________________________________________ Prof. Dr. Rafael Raffaelli

Universidade Federal de Santa Catarina

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AGRADECIMENTOS

Gostaria de agradecer a todas as pessoas que, de alguma forma, contribuíram para a realização desta dissertação, principalmente:

Antônio Carlos Ferreira, que num momento crucial não me deixou desistir, e por ter instalado em mim a curiosidade de saber o como e o porquê das coisas.

Sônia C. Da Silva, pela sua extrema fé e confiança em mim e em tudo que eu faço.

Milton de Andrade, pela revisão desta dissertação, por sua presença e seu amor.

Prof. Antônio Vargas, por sua orientação paciente e encorajadora.

Prof. André Carreira e prof. Rafael Raffaelli, pela disposição em compor a banca, e por todos os comentários e sugestões na qualificação.

Mila, que, na secretaria do PPGT, sempre esteve disposta a ajudar com atenção e simpatia.

Cleuza Ganzert Bassetti, pelo acolhimento e afeto.

Juarez Nunes e Samuel Romão, companheiros de sonhos e conquistas.

José Alvim, pelo incentivo e carinho.

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Dizer que a espiritualidade viva do artista é o conteúdo da arte é o mesmo que dizer que quem faz arte é uma pessoa única e irrepetível, e esta, para formar sua obra, se vale de toda sua experiência, do seu modo de pensar, viver, sentir, do modo de interpretar a realidade e posicionar-se diante da vida. (...) A obra de arte tem como conteúdo a pessoa do artista, não no sentido de tomá-la como seu objeto próprio, fazendo dela o seu “tema” ou assunto ou argumento, mas no sentido de que o “modo” como esta foi formada é o modo próprio de quem tem aquela determinada e irrepetível espiritualidade: entre a espiritualidade do artista e seu modo de formar existe um vínculo tão estreito e uma correspondência tão precisa, que um dos dois termos não pode subsistir sem o outro, e variar um significa necessariamente variar também o outro.

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RESUMO

Este estudo se propõe articular as relações entre as características e os temas da mitologia heróica e o percurso teatral, “além do teatro”, do encenador polonês Jerzy Grotowski. Na primeira parte deste volume, são expostas as origens culturais, sociais e teóricas do pensamento e da prática de Grotowski, demonstrando, assim, a relação entre as suas buscas pessoais e o seu percurso teatral. Na segunda parte do trabalho, são discutidas as formas de tratamento do mito no trabalho de Grotowski, sua função, sua importância e a sua influência nos vários campos do processo artístico, como a escolha e o tratamento dos textos, o papel do público, o trabalho com o ator na construção da personagem e as técnicas de preparação de ator. O referencial teórico utilizado para a abordagem das questões míticas e simbólicas provém da hermenêutica simbólica. Em termos conclusivos, são destacadas as semelhanças entre as ações da mitologia heróica e o trabalho de Grotowski, no que diz respeito, principalmente, ao ato sacrificial como forma de consolidação da dimensão espiritual.

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ABSTRACT

This study proposes to bring in relation properties and themes of heroic mythology and the theatrical career, in the para-theatrical approach, of the Polish director Jerzy Grotowski. The first part of this work explains cultural, social and theoretical sources of Grotowski´s thought and practice, and demonstrates the relationship between his individual searches and his theatrical career. The second one puts in discussion modes to interpret myths in Grotowski´s work, its function, its significance and its influence on different kinds of artistic process: choice and treatment of texts, audience parts, actor´s work on character composition and actor ´s training. Theoretical references about mythical and symbolic questions are extracted from symbolic hermeneutic theory. In terms of conclusion, this dissertation puts in relief similarities between actions in the heroic mythology and Grotowski´s work, fundamentally, sacrificial acts as an way to consolidate an spiritual dimension.

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 – Jerzy Grotowski

Figura 2 – As cadeiras

Figura 3 – Akropolis

Figura 4 – Akropolis

Figura 5 – O Príncipe Constante

Figura 6 – O Príncipe Constante

Figura 7 – Riszard Cièslak

Figura 8 – Casa de campo onde aconteceram alguns dos projetos do parateatrais do Teatr Laboratorium, em Brzezinka, Polônia

Figura 9 – Casa de campo em Brzezinka com neve

Figura 10 – Campo de concentração – Brzezinka (Birkenau em alemão), Polônia

Figura 11- Seleção nazi em Birkenau

Figura 13 – Varsóvia, Polônia, destruída pela guerra, 1945.

Figura 14 – Tanques de guerra durante a Lei Marcial na Polônia em 1982

Figura 15 – Ascona, Suiça

Figura 16 – Arunashala, Índia

Figura 17 – Ramana Maharishi

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...11

1 GROTOWSKI: ENTRE A VANGUARDA E A TRADIÇÃO ...15

1.1 A BUSCA POR UM “SENTIDO ESPIRITUAL” NO “NOVO TEATRO” DO SÉCULO XX...15

1.2 OS ELOS DA CORRENTE DAS PERFOMING ARTS ...22

1.3 GROTOWSKI E A MEMÓRIA SOCIAL DA POLÔNIA...31

2 MITOLOGIA, ASCESE E O TRABALHO TEATRAL, “ALÉM DO TEATRO”, EM GROTOWSKI ...46

2.1 O SER E A TRADIÇÃO...51

2.2 O TRATAMENTO DO TEXTO: A DIALÉTICA DA EXALTAÇÃO ...57

2.3 CORPOREIFICAÇÃO DO MITO...62

2.4 MITO E SACRIFÍCIO ...65

CONSIDERAÇÕES CONCLUSIVAS...80

CRONOLOGIA DE JERZY GROTOWSKI ...85

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...100

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INTRODUÇÃO

Este trabalho propõe relações entre a mitologia heróicae o percurso teatral, “além do

teatro”, do encenador polonês Jerzy Grotowski (1933-1999), um dos principais expoentes do

teatro no século XX.

Para realizar tal aproximação, procura-se identificar um fio condutor do percurso de

vida de Grotowski, que pode ser evidenciado em motivações que o impulsionaram em suas

escolhas pessoais e profissionais, bem como analisar as condições histórico-sociais em que

esteve inserido. Elementos de sua biografia, da história social da Polônia, e conteúdos do

imaginário simbólico polonês serão colocados em evidência, com o intuito de delinear tal

contexto de surgimento das experiências do Teatr-Laboratorium de Grotowski.

Conforme nos lembra Eugenio Barba (2000), apesar de Grotowski ter sido acusado

por seus contemporâneos de não ter uma atitude política frente à situação da Polônia, sua

relação com a tradição e a história de seu país demonstram que seu trabalho não tinha nada de

apolítico. A escolha dos textos no Teatr-Laboratorium, por exemplo, remodelados de acordo

com a identificação e a exaltação do mito fundamental presente na dramaturgia, revelava o

envolvimento de Grotowski com a resistência cultural ao massacre do imaginário simbólico

ao longo da história da Polônia.

No primeiro capítulo desta dissertação, denominado Grotowski: entre a vanguarda e a tradição, são expostas algumas características no “novo teatro” do século XX, do qual Grotowski é considerado um dos mestres refundadores. Estas características, que abarcam

principalmente renovações em instâncias estéticas, pedagógicas e éticas, estão relacionadas à

recuperação do imaginário simbólico em vários campos teóricos e práticos como a filosofia, a

psicologia, a antropologia e, em particular, as artes cênicas e as pesquisas sobre mitologia e

símbolo.

No segundo capítulo, Mitologia, ascese e o trabalho teatral, “além do teatro”, em Grotowski, é evidenciada a importância do mito no trabalho de Grotowski, sua função simbólica e existencial, e sua influência no processo artístico, em termos de escolha e

tratamento dos textos, o papel do público, o trabalho do ator na composição da personagem e

as técnicas de preparação psicofísica.

Os papéis atribuídos ao público no Teatr-Laboratorium, de acordo com os temas

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trabalho de Grotowski. O público é testemunha de um processo de revelação simbólica do

ator. Do ponto de vista da recepção teatral, não acontece meramente um processo de

identificação com o mito, mas também um questionamento constante de valores exaltados.

Este processo de exaltação e ridicularização dos valores fundamentais da cultura

polonesa, denominado pelo critico polonês, Konstantin Puzina, de “burla e apoteose”, ou pelo

próprio diretor, de “adoração e profanação”, será entendido como semelhante à forma

paradoxal, presente no mito do herói, de resgatar, reafirmar e manter a tradição através de

questionamentos, negação e abandono.

Será discutido, ainda no segundo capítulo, como os temas da mitologia heróica,

ligados principalmente ao sacrifício, estão presentes nos discursos e escritos de Grotowski, na

prática desenvolvida por ele e nos estudos realizados por teóricos do teatro. O referencial

teórico utilizado para tal análise provém da hermenêutica simbólica, através dos conceitos

acerca do imaginário simbólico, do mito e do símbolo, desenvolvidos pelos autores ligados ao

Círculo de Eranos, como Carl Gustav Jung, Joseph Campbell, Mircea Eliade, Gilbert Durand

e outros seguidores destes, entre eles, Andrés Ortiz-Osés, Luis Garagalza, Eckard Neumann,

Patxi Lanceros.

Pretende-se ainda discutir as relações entre a mitologia heróica e a construção das

identidades artísticas. O enfoque dado a este estudo, provém principalmente das pesquisas de

Jung, Durand e Campbell, nas quais o mito do herói é considerado uma estrutura do

imaginário simbólico, ou arquétipo, que tem forte influência na vivência do indivíduo e na sua

relação com a sociedade, e, mais especificamente, conforme Jung, no processo de

“individuação”.

Foi incluída nesta dissertação a Cronologia das obras e principais eventos da vida e percurso profissional de Grotowski, com o objetivo de revelar informações pouco divulgadas a respeito da biografia do diretor, e que permitem estabelecer relações com os

temas da mitologia heróica, como a ascese, o sacrifício, a renúncia, o questionamento, o

afastamento do mundo, etc.

Para tal, a principal fonte de pesquisa foi o livro autobiográfico de Eugenio Barba, La

Tierra de Cenizas y Diamantes: Mi aprendizaje em Polônia (2000),sobre sua temporada de

trinta meses no Teatr 13- Rzedow em Opole na Polônia, no qual, além de detalhes do trabalho

do Teatr -Laboratorium, o autor revela informações sobre os interesses, as referências e a

(13)

enviadas pelo diretor de 1963 a 1969. O livro de Barba traz, ainda, detalhes sobre a situação

sócio-cultural da Polônia, como a ação da censura, o ambiente cultural, o público, os artistas e

os críticos da época.

Além deste livro, a obra Los imaginários sociales: Memorias y esperanzas colectivas

de Bronislaw Bacsco, com um capítulo dedicado exclusivamente ao período de busca pela

restituição do imaginário simbólico polonês na segunda metade do século XX, teve grande

importância para nos delinear a Polônia de Jerzy Grotowski.

Apesar dos livros, teses, dissertações, artigos e estudos sobre o percurso teatral de

Jerzy Grotowski, pouco se publicou sobre sua biografia e sobre o período do início dos anos

setenta até sua morte, em 1999. Entre os trabalhos acadêmicos realizados no Brasil, que

podemos destacar, encontram-se a tese de doutoramento da Profa. Dra. Marta Isaacsson, O

processo criador do ator - Stanislavski e Grotowski, estudo de uma filiação, de 1991, que

trata especificamente do trabalho do ator. No âmbito do Programa de Pós -Graduação em

Teatro da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), podemos ainda destacar duas

dissertações recentes desenvolvidas por Moira Stein, Corpo e Palavra: Organicidade e

Ritualização da Fala em Práticas Formativas do Ator Contemporâneo, e Ismael Scheffler,

Características do Sagrado nas Propostas teatrais de Antonin Artaud e Jerzy Grotowski, que

também utiliza conceitos da hermenêutica simbólica como referencial teórico. Devemos

destacar também as pesquisas da Profa. Dra. Silvana Garcia da Universidade de São Paulo

(USP) sobre as influências de Grotowski nas vanguardas teatrais do Brasil.

Como fonte primária de pesquisa, foi usada grande parte da bibliografia disponível em

português, espanhol e italiano, dando destaque para o livro O Teatro Laboratório de Jerzy

Grotowski/ 1959 – 1969, que foi publicado pela Editora Perspectiva em 2007, com textos

inéditos em português, bem como os dois livros recentes da coleção Opere e Sentieri,

publicados na Itália, também em 2007, Il Workcenter of Jerzy Grotowski and Thomas

Richards e Jerzy Grotowski – Testi 1968-1998.

Como fonte secundária, deve-se dar destaque ao material de Jeniffer Kumiega, Marco

De Marinis, Eugenio Barba, Peter Brook, Richard Schechner, Jean-Jacques Roubine, Felipe

Reys Palacio, Christopher Innes, Odete Aslan, Fabrizio Cruciani, Nicola Savarese, Eugenia

(14)

Esta pesquisa tem o intuito de trazer novas reflexões e contribuições no que concerne

ao percurso teatral, “além do teatro”, de Grotowski, no período em que ainda realizou

espetáculos. O termo “além do teatro” se refere aos seus objetivos e buscas que nunca

estiveram estritamente ligados ao campo da representação e da direção teatral, mas ao seu

desenvolvimento espiritual, de seus atores, do ser humano.

Grotowski usa o termo “salvação” quando se refere ao seu principal objetivo com o

teatro, afirmando que pretendia “salvar-se através do sacrifício teatral”, como veremos

adiante. Esta afirmação provocadora gera uma questão central para nossa pesquisa: em que

consiste a salvação para Grotowski?

A busca em responder esta questão traz novas perspectivas para os estudos já

existentes sobre Grotowski e sobre o Teatr-Laboratorium, pois além de localizar seu percurso

na história do teatro, na história da Polônia e da Europa, traz à tona suas fontes, inspirações, e

(15)

1 GROTOWSKI: ENTRE A VANGUARDA E A TRADIÇÃO

1.1 A BUSCA POR UM ‘SENTIDO ESPIRITUAL’ NO “NOVO TEATRO” DO SÉCULO

XX

Segundo o teórico italiano Marco De Marinis, “a revolução do teatro do século XX

não foi exclusiva, nem sequer principalmente, estética”. A tradição que se desenvolveu neste

século, segundo o autor, trouxe uma renovação nas atribuições, necessidades e exigências em

relação à arte teatral. O teatro passou a “dar voz a necessidades e exigências que nunca até

então, havia tratado de satisfazer: instâncias éticas, pedagógicas, políticas, cognitivas,

espirituais”. Segundo ele, um dos motivos fundamentais desta transformação foi a

investigação sobre a eficácia do teatro. A eficácia entendida como “ação real do ator sobre o

espectador, do homem sobre o homem, mas também, e primordialmente, como trabalho sobre

si mesmo”. (DE MARINIS, 2005, p. 227).

Nas três primeiras décadas do Século XX, quando aconteceu a Grande Reforma

Teatral, a partir das pesquisas de Stanislavski, Meyerhold e Vakthangov, entre outros,

difundiu-se a realização de uma prática teatral que não está diretamente ligada à cena. Se um

por um lado, conforme Eugenio Barba, estas pesquisas resultaram numa dimensão amadora

do teatro, difundindo a prática de seminários e cursos, em que é possível viver um cotidiano

teatral, sem pensar necessariamente num resultado artístico; por outro lado, a prática do que

hoje é conhecido como treinamento teatral, tornava-se a “expressão de uma identidade

profissional diversa”:

(...) era a confirmação diária, humilde tangível, da decisão de devotar-se ao teatro, através da busca por rigor e autodisciplina. Era a conquista pessoal do ator, do como

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A necessidade de manter grupos que realizassem um trabalho sistemático e cotidiano

gerou intensas experiências grupais no âmbito das artes cênicas durante o século XX. A partir

do trabalho pioneiro dos “reformadores teatrais”, métodos e sistemas experimentais foram

criados, porém, o principal resultado destes, foi a consciência da necessidade da construção de

valores, de uma ética grupal e pessoal no trabalho teatral. Para a construção de valores e de

uma “identidade profissional diversa”, se fez necessária a recriação de vínculos entre aqueles

que faziam teatro, ou seja, uma nova lógica nas relações humanas: “a construção de um

mundo dentro do outro”. Experiências de afastamento e isolamento como as de Jacques

Copeau, Rudolf Laban, Jerzy Grotowski e Eugenio Barba, entre outros, são exemplos da

busca de valores, da busca de uma ética no trabalho do ator através da criação de um espaço

coletivo “laboratorial”, no qual voltava-se o olhar para si mesmo.

Jacques Copeau realizou esta experiência na França, pela primeira vez em 1913,

quando levou um grupo de atores para sua casa de campo, para experimentar várias atividades

que, segundo ele, tinham como objetivo o “enriquecimento do ator”, como leituras, exercícios

físicos e estudo de textos dramáticos. Este encontro, focado na pedagogia do ator, deu início à

escola do Vieux-Colombier, fundada em Limon, neste mesmo ano.

Rudolf Laban transferiu sua escola de dança e arte para o Monte Verità, comunidade

fundada na Suíça, como veremos adiante, também em 1913, para tentar realizar uma

experiência de vida comunitária com seus alunos. No Monte Verità, segundo a teórica italiana

Eugenia Casini Ropa, a dança de Rudolf Laban, “de caráter livre e totalizante”, tornou-se a

expressão ideal daquele novo mundo que estava sendo criado:

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espécie de oração vibrante, a quintessência da própria alma coletiva.1 (ROPA, 1988,

p. 32-33).

Estas experiências, porém, não ocorreram somente no âmbito das artes cênicas, mas

fizeram parte de um “movimento” mais amplo que teve início no final do século XIX,

caracterizando-se pelo retorno à natureza e pela redescoberta do corpo humano através da

dança e do gesto.

A crescente industrialização da Europa no século XIX gerou uma crise na organização

social européia, principalmente na Alemanha. A fim de fugir da crise e da poluição das

grandes cidades, “cidades-jardins” foram criadas para que se pudesse viver em harmonia com

a natureza. Em torno deste novo modo de vida criou-se um movimento de Reforma da Vida

(Lebensreform), que buscava “a redescoberta e liberação do homem – compreendido na sua

totalidade como corpo, alma e intelecto – e das suas potencialidades físicas, psíquicas e

intelectuais ignoradas ou reprimidas”2 (ROPA, 1988, p. 28).

Uma das experiências mais interessantes que ocorreram neste período foi a fundação

da comunidade Monte Verità, em Ascona, na Suíça. Em Monte Verità os princípios da

Lebensreform puderam ser colocados em prática: lá se plantava o próprio alimento,

praticava-se o naturismo, realizavam-praticava-se cantos e danças rituais resgatados das antigas tradições. Os

fundadores de Monte Verità, segundo Ropa (1988, p. 29),

(...) educavam os próprios organismos a ritmos biológicos primordiais, os alimentavam só com produtos da terra, os expunham nu a luz, ao ar, ao calor, os fortaleciam com exercícios físicos constantes, num esforço autopedagógico que, através da revitalização do corpo, buscava a reconquista de uma pureza do espírito própria da alegria de viver conscientemente de acordo com a natureza e com a própria humanidade.3

1

“La danza “libera” che egli ricercava, in contrasto con ogni accezione accademica e virtuosistica e in consonanza con l’intuizione duncaniana, si definiva come espressione sostanzialmente individuale, lirica manifestazione esteriore delle riccchezze interiori e delle più alte aspirazioni di ognuno. Per accordare quindi le singole individualità in una danza “corale” – grande e perene aspirazione di Laban – in cui ciascuno, pur conservando la pianezza della propria libertà espressiva, vivrasse all’unissono con gli altri, era necessaria una prolungata esperienza di vita e di lavoro realmente comunitari. Solo affrontando e superando insieme giorno per giorno i problemi materiali e psicologici del gruppo, dividendo privazioni e fatiche come aspirazioni e soddisfazioni, Laban pensava che il gruppo avrebbe potuto trasformarsi nel “tempio vibrante” della sua utopia espressiva, una comunità che sapesse esprimire danzando, in una sorta de vibrante preghiera, la quintessenza della propria anima colletiva."

2 “la riscoperta e la liberazione dell’uomo – inteso come totalità di corpo, anima e intelletto – e delle sue

ignorate o represe potenzialità fisiche, psichiche e intellettuali.”

3 “educavano i propi organismi a ritmi biologici primigenii, li alimentavano dei soli prodotti della terra, li

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A descoberta do Oriente como fonte de pesquisa de práticas corporais, filosofias e

religiões foi uma das características da comunidade. Além de Rudolf Laban, muitos artistas,

teóricos, pesquisadores passaram por lá, onde puderam desenvolver suas pesquisas e criações

artísticas como Hermman Hesse, Mary Wigman, Rudolf Steiner, Isadora Duncan, Otto Gross,

Emile Jacques-Dalcroze, entre outros.

Também em Ascona, em 1933, foi fundado o Círculo de Eranos por Olga

Fröebe-Kaptein. O Círculo teve orientação filosófica, por muitos anos, de Carl Gustav Jung, porém,

caracterizou-se por integrar pesquisadores de diversas áreas por várias gerações, que

realizaram conferências anuais até 1988.

O Círculo foi fundado inicialmente, com o objetivo de estabelecer uma aproximação

entre as culturas do ocidente e do oriente. A partir da colaboração de Jung, os estudo de

Eranos se orientaram, também, em direção à hermenêutica, resgatando a tradição

hermético-gnóstica, contrapondo-se, assim, ao positivismo agnóstico, dominante na cultura ocidental. A

busca em Eranos deu-se no sentido de estabelecer uma visão intermediária entre a razão e o

mito, adotando uma posição que busca a complementaridade dos opostos.

Nos últimos anos de Eranos, o antropólogo e simbólogo francês Gilbert Durand,

discípulo de Gaston Bachelard, teve grande importância na condução das pesquisas acerca do

imaginário simbólico. Na obra O Imaginário Simbólico, Durand identifica três formas de

tratamento da imagem simbólica desde o século XIII: a iconoclastia, as hermenêuticas

redutoras e as hermenêuticas instauradoras.

A iconoclastia, com origem no pensamento aristotélico, foi difundida pelo pensamento

cartesiano: “O cartesianismo assegura o triunfo do “signo” sobre o símbolo. A imaginação,

como, aliás, a sensação, é rejeitada por todos os cartesianos como a senhora do erro”

(DURAND, 1988, p. 25).

Foi a psicanálise e a psicologia social que, depois de séculos de repressão do

imaginário, restituíram a importância das imagens. Porém, segundo Durand, “essas doutrinas

só descobrem a imaginação simbólica para tentar reduzir a simbolização a um simbolizado

sem mistério” (1988, p. 41); e, por isso, são denominadas por ele de “hermenêuticas

redutoras”. Sigmund Freud foi o principal responsável por restituir importância às imagens

simbólicas; porém, seu principal erro, segundo Durand (1988, p. 44), foi ter dado ao símbolo

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uma causalidade única, a “libido imperialista”: “o símbolo sempre acabará reconduzido, em

última instância, à sexualidade imatura porque insatisfeita”.

As “hermenêuticas instauradoras” tiveram início com as pesquisas de Ernst Cassirer,

sendo aprofundadas e difundidas por diversos pesquisadores, como Bachelard, Levi-Strauss, e

os participantes de Eranos.

Estes movimentos de revitalização do corpo e instauradores da importância da função

do imaginário simbólico, localizados na Europa, estiveram ligados, também, a um processo de

resgate de um “sentido espiritual” nas artes no século XX.

Para o estudioso Eckhard Neumann (1986), esta busca por um sentido espiritual nas

artes, e na vida em geral, na primeira metade do século XX, se caracteriza como sintoma de

uma sociedade que se viu sem uma identidade espiritual sólida.

Para Jung, e os autores do Círculo de Eranos, a perda de identidade espiritual está

ligada a um longo processo de perda de sentido de imagens simbólicas e símbolos dogmáticos

no Ocidente. Este processo é descrito pelo autor no ensaio Sobre os arquétipos do

inconsciente coletivo, no qual discorre sobre a função do dogma e dos símbolos dogmáticos

na consolidação da consciência da humanidade. Segundo ele, os ensinamentos tribais

sagrados, “perigosos” por revelarem os “movimentos invisíveis da alma”, eram contentores de

sabedoria revelada, originalmente oculta, e exprimiam os “segredos da alma em imagens

magníficas”. Porém, quanto mais “belas, sublimes e abrangentes” estas imagens se tornaram

ao longo da história, mais afastaram o homem da experiência individual e direta. As fórmulas

religiosas, o dogma, pois, substituem a experiência direta das vivências anímicas da

“experiência de Deus”. A vida do inconsciente coletivo foi “canalizada para as idéias

dogmáticas de natureza arquetípica, fluindo como uma torrente controlada no simbolismo do

credo e do ritual”. (JUNG, 2003, p. 19).

Com a Reforma da Igreja Católica, porém, a sociedade ocidental cristã, antes protegida

contra as “coisas abissais da alma” pelas imagens e símbolos dogmáticos, começa a se ver

relegada a uma total falta de proteção. A iconoclastia da Reforma, segundo Jung, “abriu uma

fenda na muralha protetora das imagens”. Os muros, construídos contra os perigos do

inconsciente, desabam no momento em que os símbolos perdem a sua vitalidade. (JUNG,

(20)

Para Neumann, esta falta de sentido para a existência humana gerada pela iconoclastia,

na contemporaneidade “só pode ser coberta de uma forma muito trabalhosa pela luta por

valores materiais ritualizada pela sociedade” 4 (NEUMANN, 1986, p. 94).

O mesmo já havia dito o sociólogo francês Guy Debord na obra A Sociedade do

espetáculo, lançada em 1967 na França, em que faz uma análise da sociedade contemporânea

e de suas formas de relação com o mundo. O conceito de espetáculo, proposto por Debord,

não é um evento ou um acontecimento, mas uma lógica produzida e consolidada pelo sistema

atual de consumo, no qual a vida contemporânea é o próprio espetáculo, ou é passível de se

espetacularizar, ou seja, “é a afirmação da aparência”. O autor discute a inversão de valores

da sociedade contemporânea em relação ao sagrado e ao profano, a verdade e a ilusão, e

afirma que “tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação” (DEBORD,

1997, p. 13).

Conforme Debord, o espetáculo aparece como mediador e norteador dos valores da

vida do homem contemporâneo, da mesma forma que o dogma foi, na história da

humanidade, um mediador do homem com seus processos anímicos inconscientes. O símbolo

dogmático que tinha a função de reconduzir o homem para “a experiência de Deus”, para a

vivência, não direta, mas intuitiva, de uma experiência transcendente, estaria sendo

substituído pelo dogma material, ou seja, “a reconstrução material da ilusão religiosa”, que

reconduz a uma base puramente terrena.

Esta idéia também aparece em Frederic Jameson, quando ele afirma que, ao invés do

que previu Frederich Hegel, a dicotomia entre corpo e espírito, presente na figuração, não

acaba na pós-modernidade, no sentido da sublimação, mas num surpreendente arraigamento

na matéria: “a figuração, por assim dizer, se distrai de sua missão e destino últimos e se detém

ainda mais perigosamente na matéria e o corpo” 5 (JAMESON, 1999, p. 111).

Renato Barilli, teórico italiano que esforça-se para situar a experiência mística na

pós-modernidade, afirma que a epifania na contemporaneidade se dá em relação ao próprio

mundo, e não mais em relação a um princípio transcendente, gerando o que ele chama de

êxtase materialista. (BARILLI, 1981, p. 211).

4 “solo pude ser cubierta de una forma muy trabajosa por la lucha por los valores materiales ritualizados pela

sociedad”.

5 “la figuración, por así decirlo, se distrae de su misión y destino últimos y se atasca aún más peligrosamente

(21)

Este processo de perda das imagens simbólicas gerou um mal estar social que, segundo

Neumann, se reflete na imagem e função do artista no século XX. A negação do modo de vida

do século XIX, dos padrões pré-estabelecidos e o desejo de mudar o mundo, como vimos de

forma mais radical nos artistas da Lebensreform, ou mais sutil, mas não menos importante, no

momento em que os fazedores de teatro passam a assumir novos compromissos, éticos,

pedagógicos e espirituais, fez com que, segundo o autor, alguns artistas assumissem

compromisso com a “cura social”, principalmente na segunda metade do século XX.

O percurso de Grotowski “além do teatro” no anos 70, fez com que algumas vezes ele

fosse incluído num círculo de artistas que se autoproclamaram “arautos da salvação”, se

apoderando de mitos e rituais antigos e esquecidos, e utilizando-os com finalidade de “cura

social” contra os males do sistema capitalista e materialista. Conforme Neumann,

O surgimento de numerosas idéias pseudo antropológicas de “xamanismo” e os experimentos de identificação e formação de ritos na arte dos primeiros anos setenta não só refletem as nostalgias deste “novos transcendentalistas”: são ao mesmo tempo as causas de uma crescente autoridade do artista no papel de arauto da salvação. Com curandeiro, xamã, mago e profeta, se converte em psicoterapeuta artístico na sociedade. Sua crítica social, que diagnostica a carência de espiritualidade elementar, cai no círculo vicioso do mágico secreto e oculto, e quer sugerir imagens regressivas contrapostas como remédio dos erros do materialismo, do positivismo e do racionalismo prático. (NEUMANN, 1986, p. 96).

Pois este foi o trabalho desenvolvido por Grotowski: a criação de um mundo

confinado, longe dos apelos do sistema; a pesquisa das “fontes” das culturas não ocidentais,

dos rituais, dos mitos e das práticas arcaicas como a yoga. Além disso, Grotowski sempre

deixou claro que seu percurso no teatro tinha, sobretudo, uma dimensão espiritual. Mesmo na

sua fase teatral, afirmou, em declarações e conferências, que escolheu a arte, assim como

poderia ter escolhido outro meio, para chegar a uma dimensão espiritual. Porque se preocupar

com a arte, segundo ele: “é um amadurecimento, uma evolução, uma ascensão que nos torna

capazes de emergir da escuridão para uma luz fantástica”. (GROTOWSKI, 1987, p. 211).

Segundo ele, seu grupo não procurava criar espetáculos brilhantes, mas desenvolvia

“uma procura religiosa de valores” (GROTOWSKI apud ASLAN, 1994, p. 283). Para ele, a

construção da ética no trabalho artístico e cênico estava ligada com a busca e a revelação de

um princípio transcendente na arte, tendo como foco o próprio homem. A dimensão espiritual,

(22)

dimensão espiritual se revela no encontro entre os homens. No encontro profundo, no qual as

fronteiras entre um e outro deixam de existir.

Para Kumiega (1985, p. 99) “é opinião quase geral que o trabalho e pesquisa de

Grotowski possa ser definida como messiânica”6, pois em cada etapa da sua trajetória, ele

permaneceu convicto de que o teatro poderia mudar as pessoas.

1.2 OS ELOS DA CORRENTE DAS PERFOMING ARTS

Grotowski, apontado por De Marinis como um dos principais expoentes do “Novo

Teatro” e como o homem que tem uma das chaves para entender a revolução do teatro do

século XX, pesquisou profundamente a eficácia do teatro, não só em relação aos espetadores,

mas principalmente, como trabalho sobre si mesmo.

A experiência teatral de Grotowski, porém, inicialmente não foi tão radical no que diz

respeito ao isolamento do mundo e a vida comunitária, como nas várias experiências do início

do século XX, citadas anteriormente. O Teatr-Laboratorium, inicialmente Teatr 13 Rzedow

(Teatro das Treze Filas), nasceu em 1959, em Opole, uma pequena cidade na região sudoeste

da Polônia. Apesar do trabalho realizado em Opole ter princípios rígidos e declarados,

conforme Eugenio Barba, os atores tinham uma relação profissional comum e pouco se

encontravam fora do horário de trabalho: “não era nem um teatro de grupo e nem um teatro

rebelde”. Segundo ele, o Teatr 13 Rzedow,

Era conhecido como um teatrinho tradicional de província com atores díspares e com um diretor artístico e outro literário que tinham acabado de se conhecer. Os atores não eram personalidades extraordinárias, pensavam que na província obteriam papéis importantes. (...) O Teatr 13 Rzedow compreendia, em miniatura, todas as hierarquias e especializações dos grandes teatros. Havia técnicos, administradores, secretarias e inclusive uma pessoa que ajudava aos atores a botar o figurino, e quando acabava o espetáculo, cuidava dele. No total umas quinze pessoas.7

(BARBA, 2000, p. 34).

6 “È opinione quase generale che il lavoro e la ricerca teatrale di Grotowski possono essere definiti

messianici.”

7

(23)

Experiências de isolamento, e em alguns casos, com um convívio mais intenso, foram

realizadas posteriormente, no período em que Grotowski já não realizava espetáculos, ainda

na Polônia na década de setenta; nos EUA, na década de oitenta; e na Itália, na década de

noventa. Apesar disso, Grotowski referia-se ao seu teatro, mesmo na fase em que produzia

espetáculos, ainda em Opole e Wroclaw, como um ashram8- nas cartas enviadas por ele a

Eugenio Barba. Esta forma de denominar seu ambiente de trabalho e convívio com os atores

dá a entender que a pesquisa teatral tinha um duplo sentido.

Uma das formas que Grotowski costumava explicar este duplo sentido da pesquisa

teatral era afirmando que nas performing arts existe uma corrente formada por muitos elos: o

“elo visível”, que é o espetáculo, o “elo quase invisível”, formado pelos ensaios para o

espetáculo, e o “treinamento”, que não está ligado diretamente à cena. Estes dois elos, para

ele, estariam numa extremidade da corrente das performing arts. Na outra extremidade,

estaria uma forma de teatro muito antiga, que já existiu no passado nos Mistérios, que não é

focada na percepção do espectador, mas na consciência proprioceptiva de quem o faz. Para

Grotowski, esta extremidade da corrente das performing arts se tornou seu objetivo final e seu

ponto de chegada depois de percorrer todas as etapas desde a outra extremidade da corrente.

A primeira extremidade desta corrente, ele denominou de Arte como Apresentação, e a última, e para ele mais importante, de Arte como Veículo.

Seguindo as indicações deixadas pelo próprio Grotowski no texto “A Arte como

Veículo”, bem como por Marco De Marinis e Zbgniew Osinski (em artigos da revista

mexicana Máscara, em número especial sobre Grotowski), além da bibliografia a respeito do

Teatr-Laboratorium, de Eugenio Barba a Jennifer Kumiega, pode-se identificar fases distintas

na trajetória de trabalho de Grotowski, ligadas diretamente às duas extremidades da corrente

das performing arts.

Apenas na primeira das etapas, conhecida como Arte como Apresentação ou Teatro do Espetáculo, Grotowski realizou espetáculos. Neste período, que foi de 1957 a 1969, Grotowski desenvolveu-se como diretor teatral, após sua formação na área de atuação e

direção na Universidade da Cracóvia. Depois de ter realizado alguns espetáculos, foi

convidado a fundar com Ludwick Flazsen, o Teatr 13- Rzedow em Opole, em 1959.

8 A palavra ashram deriva do sânscrito e, antigamente, era usada para designar os heremitérios hindus, que se

(24)

Posteriormente, o teatro passou a ser denominado Teatr-Laboratorium, evidenciando o caráter

de investigação, “de pesquisa no domínio da arte teatral”. Desenvolveu-se nesta etapa, todos

os princípios do que foi denominado “teatro pobre”: a eliminação de tudo que pudesse ser

supérfluo na cena, exaltando a relação do ator e do espectador; a pesquisa de um espaço

cênico adequado para cada espetáculo; a autonomia da cena em relação à matriz literária; a

dialética da adoração e da profanação em relação ao mito identificado nas obras dramáticas,

poéticas ou literárias. O tempo de preparação dos espetáculos no Teatr-Laboratorium, que em

Orfeu (1959) havia durado apenas três semanas, foi se tornando cada vez mais longo,

chegando a durar vários anos. Os últimos espetáculos, O Príncipe Constante (1965) e

Apocalypsis cum figuris (1969) não só tiveram um longo tempo de preparação, mas

ganharam diferentes versões, conforme o desenvolvimento pessoal dos atores.

Neste período, o “trabalho sobre si mesmo” surgiu em forma de treinamento que

atendia as necessidades específicas de cada processo criativo, como no espetáculo Akropolis

(1962). Logo, o treinamento foi incorporado ao cotidiano do grupo, e denominado por

Grotowski de método da via negativa, no qual cada ator tinha uma seqüência própria de

exercícios com o objetivo de eliminar tudo o que o impedia de agir. Os objetivos, como o

desnudamento, o desvelamento, a auto-revelação, que se buscavam através do treinamento e

que deveriam explicitar-se no ato teatral, se estendiam também ao espectador. Ou seja, o

trabalho sobre si mesmo realizado pelo ator deveria também atingir o espectador, provocando

um expurgo coletivo.

Durante este período, Grotowski teve de transferir seu grupo da pequena Opole, para a

cidade universitária de Wroclaw, que tinha meio milhão de habitantes. Além de algumas

turnês pela própria Polônia, o grupo realizou poucas viagens internacionais e era

desconhecido no exterior. Somente em 1966, o espetáculo O Príncipe Constante, foi levado a

Oslo (Noruega) pelo Odin Teatret, de Eugenio Barba, que foi quem divulgou o trabalho de

Grotowski no exterior.

Após um período na Índia, em 1970, Grotowski decidiu não realizar mais espetáculos,

e iniciou uma fase que foi denominada de Parateatro, Teatro Participativo ou Cultura Ativa, que foi até 1978. Em palestra no Brasil, neste período, em 1974, Grotowski afirmou em relação ao período anterior: “Há muito tempo já, no nosso trabalho artístico propriamente

(25)

representação” (GROTOWSKI, 1974 b). Nesta nova fase, dando continuidade a esta busca,

encontros eram organizados pelos integrantes do Teatr-Laboratorium em lugares isolados, e

conduzidos com o objetivo de aprofundar a vivência coletiva e possibilitar o reencontro

verdadeiro do indivíduo consigo mesmo e com o outro, livre dos papéis sociais. Para isso,

segundo De Marinis, Grotowski elaborou uma fórmula extraordinária, “desarmar-se

reciprocamente por completo”. Este período foi o único com efetiva participação de pessoas

externas ao grupo e de diferentes âmbitos e profissões. Esta fase foi provavelmente a mais

caótica e livre, apesar de haver uma direção no sentido de atingir os objetivos. Grotowski

referiu-se, posteriormente, a este período, como uma “sopa emotiva”, um momento impreciso

e confuso do Teatr-Laboratorium. Apesar de tudo, este período produziu resultados muito

interessantes no sentido das relações humanas, “verdadeiros milagres”, conforme afirmou De

Marinis em palestra na Universidade Estadual de Santa Catarina, em agosto de 2006.

Para que ocorresse este aprofundamento das relações e desvelamento recíproco dos

participantes, segundo De Marinis, existia uma “dramaturgia do encontro”. Os atores, ou

ex-atores, do Teatr-Laboratorium, guiavam os participantes e se utilizavam de material teatral

para proporcionar o “encontro” e, através dele, conhecer-se a si mesmo.

No final dos anos setenta e início dos anos oitenta, na fase denominada Teatro das Fontes, a busca por técnicas de diversas tradições antigas indica um retorno aos interesses antropológicos e histórico-religiosos, que Grotowski nutria desde a infância incentivado por

sua mãe e irmão. Neste período Grotowski viajou a diversas partes do mundo pesquisando

rituais de transe e possessão, não com o objetivo de realizar um intercâmbio entre as culturas,

mas para buscar o que havia de unitário, de comum nas origens destas técnicas. Esteve no

Haiti, no México, na Nigéria, na Índia, no Japão, entre outros países. Esta pesquisa, depois,

foi aprofundada por Eugenio Barba, que a denominou de Antropologia Teatral.

Grotowski, segundo De Marinis, retomou a idéia de trabalho sobre si mesmo

desenvolvida por Stanislavski, mas que já não visava a criação espetacular. Ao contrário do

período anterior, em que a intercomunicação era o objetivo principal, o trabalho nesta fase é

solitário e individual. As técnicas pesquisadas por Grotowski em suas viagens, estavam

focadas naquilo que o ator, ou performer, “pode fazer na sua solidão”, e estavam centradas

(26)

Este período teve um fim dramático com o golpe na Polônia, no qual foi implantada a

Lei Marcial pelo governo em 1982. Grotowski, com medo de ser preso e morto pelo regime,

como aconteceu com milhares de artistas, se viu obrigado a abandonar a Polônia, e após um

período no Odin Teatret, na Dinamarca, e também na Itália e Haiti, refugiou-se nos EUA,

onde realizou uma pesquisa na Universidade de Irvigne (Califórnia), denominada de Drama Objetivo, e considerada por Osisnki uma transição para a próxima fase. Segundo Grotowski, o Drama Objetivo tinha como meta “reevocar uma forma de arte muito antiga, quando o ritual

e a criação artística eram a mesma coisa” 9. (GROTOWSKI apud OSINSKI, 1993, p. 97).

Conforme Osinski (1993), o Drama Objetivo foi realizado em três categorias de

“workshops” ou grupos de trabalho: o primeiro era fechado e destinado apenas a estudantes

da Faculdade de Teatro da Universidade de Irvigne, e a artistas de teatro interessados no

trabalho; o segundo, era uma extensão dos cursos universitários; e o terceiro, “workshops

públicos”, que reuniam os participantes dos primeiros grupos, especialistas em diversas áreas

das ciências sociais e participantes em geral.

Grotowski contava com alguns instrutores-assistentes, que tinham experiência em

canto, dança, ritmo e movimento. Segundo Osinski (1993, p. 99), “cada um tinha algumas

experiências interculturais que permitia fazer pontes entre a cultura antiga e a nossa, entre a

tradicional e a contemporânea”10. Eles trabalhavam como instrutores nos workshops e como

atores principais nas performances que realizavam nos cursos.

A experiência de trabalhar com pessoas de diversas culturas, com as características

descritas por Osinski, ou seja, a capacidade de fazer pontes, do trabalho realizado por eles,

com a tradição, se mantém permanentemente no trabalho realizado por Grotowski. É nessa

época que Grotowski inicia sua parceria com Thomas Richards, que era aluno dos workshops,

e de descendência jamaicana.

De volta à Itália, na Toscana, Grotowski inicia a última fase do seu trabalho

denominada Artes Rituais ou Arte como Veículo. Em 1986, na cidade de Pontedera, Grotowski funda The Workcenter of Jerzy Grotowski, incentivado pelo Centro per la

Sperimentazione a la Ricerca Teatrale, dirigido por Roberto Bacci e Carla Pollastrelli.

9 “Revocar una forma de arte muy antigua, cuando el ritual y la creación artística eran la misma cosa.”

10 “Cada uno tenía algunas experiencias interculturales que permitía echar puntes entre la cultura antigua y la

(27)

Neste período Grotowski inicia sua fase mais ermitã. Em Pontedera, a experiência de

isolamento é levada à radicalidade, pois, não só o trabalho possui princípios rígidos, mas a

vida cotidiana ganha características comunitárias e quase monásticas.

Segundo a descrição de Osinski (1993), que pôde testemunhar as atividades, os grupos

de trabalho eram compostos de vinte pessoas. As condições de trabalho eram muito simples e

os custos eram pagos pelos próprios participantes. A maioria das pessoas era jovem e nunca

tinha trabalhado com Grotowski, anteriormente. O trabalho acontecia seis dias por semana, de

dez a dezesseis horas por dia, em grupos menores, guiados por Maud Robert e Thomas

Richards. Grotowski interferia pouco no trabalho com os grupos, trabalhava diretamente

apenas com os condutores, Robert e Richards. O treinamento físico constituía a parte

constante do programa de trabalho. Dentro da sala de trabalho, cada um dos participantes

executava diariamente, nove exercícios. Eram exercícios particulares de cada um, conforme a

necessidade de cada participante para vencer seus bloqueios e limitações psicofísicas. Além

dos nove exercícios, cada participante trabalhava sobre uma dança própria.

No final do dia, ao ar livre, realizava-se durante uma hora o que era denominado

Motion: uma série complexa de posições e estiramentos do corpo. Estas posições estavam

orientadas sempre para os seis pontos cardeais: leste, oeste, norte, sul, zênite e nadir. Os olhos

devem ser mantidos sempre bem abertos, fixados no horizonte. Conforme Osinski, se

trabalhava muito sobre os detalhes em todos os exercícios executados durante o dia de

trabalho, e procurava-se a máxima precisão na execução de cada movimento.

As últimas etapas das pesquisas de Grotowski colocam em evidência a tendência de

deslocar-se do campo da representação em direção a uma experiência, que apesar de

localizar-se no campo das performing arts, possuía um caráter ritualístico.

O interesse de Grotowski pelo ritual e por outras culturas, não foi exclusivo ao período

do Teatro das Fontes. Neste período seu interesse se tornou mais explícito, pois empreendeu

diversas expedições investigativas “naqueles lugares do globo terrestre onde seguem ainda

vivos os ritos arcaicos”11 (OSINSKI, 1993, p. 96). Nas diferentes etapas do seu percurso,

Grotowski buscou inspiração dentro e fora do âmbito das artes. A aproximação com o oriente

foi uma forte característica do seu percurso pessoal e profissional. A filosofia budista, a Ópera

(28)

de Pequim, o Kathakali, mas principalmente a tradição yogui tântrica indiana, marcaram

profundamente a prática e os objetivos do trabalho de Grotowski.

Por outro lado, suas principais referências teatrais ocidentais, segundo De Marinis, são

Stanislavski, cuja obra teve contato em Moscow em 1956, e a Reduta, uma instituição teatral

polonesa que funcionou em caráter de associação entre as duas guerras mundiais, sob a

direção de Juliuz Osterwa e de Mieczyslaw Limanowski.

De Stanislavski, Grotowski herdou a tradição técnica, o exemplo do “experimentador

incansável que, como verdadeiro ‘cientista’ teatral, se esforça em pensar só sobre a base do

prático e concreto, disposto sempre a abrir o debate, com coragem e honestidade, sobre seu

trabalho precedente”12 (DE MARINIS, 1987, p. 103). Esta forma de trabalhar influenciou

Grotowski na idéia da criação de um teatro laboratório, de um teatro de pesquisa que está

permanentemente sendo questionado e reformulado.

A tradição ética do trabalho de Grotowski teve influência da Reduta, que era ao

mesmo tempo um teatro e uma escola para atores: “durante alguns períodos, a escola se

organizou como uma comunidade em que mestres e discípulos viviam de acordo com uma

disciplina quase monástica, cultivando uma investigação mais ética do que

tecnoprofissional”13 (DE MARINIS, 1987, p. 102).

Jenifer Kumiega (1989, p. 85) afirma que a ética, “ou a atitude com a qual vem-se a

descobrir, verificar e realizar é de extrema importância para aqueles que pretendem apanhar a

essência do trabalho de Grotowski”14, e ressalta o repúdio de Grotowski ao desenvolvimento

de um método rígido e permanente: “não existe um método universal, que venha de encontro

com a exigência de todos”. Para Kumiega, se é que se pode falar em “método Grotowski”, ele

era composto de duas partes: técnica e ética. A técnica, parte mínima do método, é o que

produz o resultado verificável, a ética, porém, é a “guia do uso da técnica”. Mais importante

do que a técnica do Teatro Laboratório, para ela, era a existência de um “núcleo ético sempre

em evolução”.

12 “experimentador inagotable que, como verdadero “científico” teatral, se esfuerza em pensar sólo sobre la

base de lo práctico y lo concreto, dispuesto siempre a abrir el debate, con coraje y honestidad, sobre su labor precedente”.

13 “durante algunos períodos, la escuela se organizó como una comunidad em la que que maestros y discípulos

vivían de acuerdo con una disciplina casi monástica, cultivando una investigación más ética que tecnoprofissional”.

14 “ovvero l'atteggiamento con cui queste vengono scopere, verificate e realizzate, ad assere di primaria

(29)

O fortalecimento deste modo de viver o teatro, seguindo estas duas tradições, resultou

na diminuição na freqüência de produção de espetáculos no Teatr-Laboratorium. Grotowski

institui, assim, desenvolvendo a herança de Stanislavski, a importância da pesquisa no teatro:

a pesquisa que extrapola a técnica, que exige autodisciplina, autodeterminação, a quebra de

paradigmas e a construção de novos valores.

Grotowski, em 1968, se referiu ao teatro como uma “missão moral e social centrada

sobre um núcleo de valores intelectuais, dedicada ao progresso e sustentação de uma nova

ética, laica e racional”15 (GROTOWSKI apud KUMIEGA, 1985, p. 99).

Porém, apesar disso, já em 1974, Grotowski tinha clareza de que não era diretamente

através da arte que poderia mudar o mundo.

Em que medida podemos mudar a vida, eis a questão.

É uma questão de eficiência; e se pudermos mudar a vida de um modo geral, devemos faze-lo. Mas não se consegue fazê-lo através da arte.

De qualquer maneira, existe a questão de saber até que ponto se pode, ao mudar a vida, mudá-la para melhor.

No entanto, dentro de cada um de nós existe a esperança e a vontade de faze-lo, mas é essencial sabermos que não é através da cultura que se realiza isso, quero dizer, não através de um caminho tão indireto como é o da cultura.

Através da cultura, é verdade, pode-se falar a propósito das modificações do mundo. Através da criação pode-se falar como mudar a vida, as estruturas, as civilizações, como tornar o mundo melhor. Mas “falar a respeito” não modifica nada. Lamento. (GROTOWSKI, 1974 b).

No seu trabalho, “os meios” foram gradativamente se tornando “os fins”. Em um

primeiro momento, o resgate do imaginário simbólico, de mitos fundamentais da cultura

polonesa, tinha finalidade de promover o questionamento e a profanação dos conteúdos

simbólicos vitais daquela cultura, através da própria história pessoal e social de atores e

espectadores, buscando a transformação de ambos. Em um segundo momento, a utilização de

rituais arcaicos e técnicas orientais de respiração, por exemplo, tinham o objetivo de

proporcionar o autoconhecimento do ator, através da disciplina e da autodeterminação. Por

fim, o abandono do espetáculo, para ele significava um rompimento com a lógica do mercado,

que exigia a produção constante de novas obras, e a quebra com a representação e a

espetacularização da vida. Ele queria apenas um lugar para conhecer-se a si mesmo e

encontrar o outro:

15 “missione morale e sociale imperniata su un nucleo di valori intellettuali, dedicata al progresso e sostenitrice

(30)

Apesar de todos os nossos condicionamentos, o que mais nos distingue são as maneiras de representar na vida real. Se pararmos a representação, o que é bem difícil e raro nos tempos que correm, teremos superado as diferenças.

Estaremos ainda condicionados pela história, pelas nossas feridas, pelos nossos medos, pelas nossas esperanças. Mas, apesar de tudo isso, seremos semelhantes. Acontece que toda a civilização é uma grande formação de representações (e uso aqui o verbo representar no sentido inglês de to act,, to perform). (GROTOWSKI, 1974 b).

Esta decisão criou uma aura mítica em torno do seu trabalho e da sua pessoa, e faz com

que ele seja uma forte referência na história do teatro no século XX. Porém, não são seus

espetáculos que continuam tocando aqueles que fazem teatro, mas sim o fato de, no auge de

sua carreira, ter tido a coragem de se perguntar se o teatro ainda era necessário para ele, se era

eficaz na realização dos seus objetivos; e ter decidido abandoná-lo enquanto espetáculo. Esta,

pois, é a provocação que se mantém viva. Para Barba:

A conversão do Teatro 13 Rzedow em Teatr-Laboratorium é um exemplo de um teatrinho que começa como uma vanguarda artístico-literária e termina encarnando um processo criativo que é uma tomada de posição artística, política e espiritual.16

(BARBA, 2000, p. 35).

Zbgniew Osinski chama a atenção para o fato de que, apesar de Grotowski ser

conhecido como homem de teatro, esteve em seus últimos trinta anos de vida pesquisando o

trabalho do ator sem a realização de espetáculos. O mistério que se criou em torno do seu

trabalho, se deve a estes trinta anos de investigação, nos quais poucas pessoas tiveram o

privilégio de ser convidadas a conhecer os resultados do trabalho.

A radicalidade da experiência teatral de Grotowski está na dimensão que o trabalho

ganhou na sua própria vida e na vida dos participantes daquela experiência. No

Teatr-Laboratorium criou-se um cotidiano especificamente teatral, não voltado ao desenvolvimento

de técnicas interpretativas e representacionais, mas à criação de um espaço de essencialização

do ato teatral, entendido como fenômeno da presença. Este princípio tornou-se tão

predominante que o espetáculo deixa de ser necessário. Permanece o teatro como espaço de

autoconhecimento. Para Barba (2000, p. 34), referindo-se ao século XX, “a transformação

16 “La conversión del Teatr 13 Rzedów en el Teatr-Laboratorium es el ejemplo de un teatrito que empieza

(31)

deste teatro de província e um conjunto cuja intransigência artística será a semente de uma

profunda regeneração de nossa arte é um dos episódios mais emblemáticos do nosso século”17.

1.3 GROTOWSKI E A MEMÓRIA SOCIAL DA POLÔNIA

Apesar do trabalho de Grotowski estar situado como um dos expoentes do “novo

teatro”, De Marinis afirma que ele “ocupa uma posição muito singular, mais uma vez anômala

e contra-corrente, entre a vanguarda e a tradição”18, pois “mostra nexos muito mais estreitos

com a tradição e com o passado, em particular polaco, do que com a cultura das vanguardas

européias”19. (DE MARINIS, 1987, p. 100).

Para Osinski (1993), Grotowski “nunca foi em essência um artista moderno”, pois

como pesquisador e artista, nas diferentes etapas de seu percurso, buscou “as leis imutáveis,

as formas eternas do mundo”, aquilo que era unitário nas culturas. Conforme Flaszen, o que o

Teatr-Laboratorium realizava era mais coerente com a “retaguarda”, do que com a vanguarda:

Nossa atividade pode ser compreendida como uma tentativa de restituição dos valores arcaicos do teatro. Não somos modernos, pelo contrário, somos totalmente tradicionais. (...) Acontece assim, que o mais surpreendente sejam as coisas que alguma vez já existiram. E estas nos surpreendem, pela novidade, tanto mais forte, quanto mais profundo seja o poço do tempo que nos separa delas.20

(FLASZEN apud OSINSKI, 1993, p. 112).

Grotowski relaciona-se com o passado realizando o que Durand denomina de

“comparativismo sincrônico” (GARAGALZA, 1990, p. 98), pois sua busca não se dirige na

direção de “descobrir” ou inventar algo novo, nem de resgatar com fidelidade histórica um

tema do passado. Sua pesquisa está direcionada para “o jogo dos eternos retornos”, ou seja,

17 “La transformación de este teatro de província e un conjunto cuya intransigencia artística será la semilla de

una profunda regeración de nuestro arte es uno de los episodios más emblemáticos de nuestro siglo.”

18 “ocupa una posición muy singular, una vez más anómala y contra la corriente, entre la vanguardia y la

tradición”.

19

“muestra, sin embargo, nexos más estrechos con la tradición y con el passado, en particular polacos, que con la cultura de las vanguardias europeas”.

20 “Nuestra actividade puede ser comprendida como un intento de restitución de los valores arcaicos del teatro.

(32)

para tudo aquilo que ressurge do passado e tem força e vitalidade no imaginário simbólico de

um povo, de uma cultura, no caso, especificamente a polonesa, no presente.

Grotowski considerava-se produto da sua tradição:

Penso que a cada momento em que não mentimos para nós mesmos, retomamos contato com esta tradição. Não adianta, porém, buscar um contato consciente. A tradição age de modo real quando é como o ar que se respira - sem pensar nele. Se alguém deve forçar-se, fazer esforços compulsivos para aferrar-se a ela, mostrá-la com ostentação - isso significa simplesmente que essa tradição já não está viva nele. Ora o que não é vivo em nós não vale um ato, pois este não será verdadeiro. (GROTOWSKI, 1974).

A mais importante tradição com a qual Grotowski teve um contato profundo e

constante no período em que realizou espetáculos, segundo De Marinis, foi o drama

romântico polaco, com autores como Adam Mickiewicz (1798-1855), Stanislaw Wyspianski

(1869-1907), e Juliusz Slowacki (1809-1849), os mais importantes artistas do romantismo

polonês.

A escolha pela dramaturgia polaca do século XIX, obviamente, não se deu por acaso,

mas pela identificação com aquela forma de “sentir o mundo”, que produziu posteriormente,

como apontou o crítico polonês Konstanty Puzyna, uma semelhança com os modos de

representar nos seus espetáculos:

(...) tanto nos dramas polacos do século XIX como nos espetáculos de Grotowski se avança mediante mudanças bruscas, contrastes violentos, verdadeira contraposição de contrários no melhor estilo barroco: sublime/ ridículo, bondade/ crueldade, dotes visionários/ realismo, apoteose/ burla (...).21

(DE MARINIS, 1987, p. 102).

A escolha dos textos no Teatro Laboratório procurava satisfazer a busca por conteúdos

simbólicos significativos na cultura polonesa, ou seja, os arquétipos e temas míticos

fundamentais capazes de estabelecer associações psicofísicas nos atores e espectadores. Os

textos eram remodelados de acordo com a identificação e a exaltação do mito fundamental

presente na dramaturgia.Porém, apesar da manipulação e aparente dessacralização dos textos

da dramaturgia romântica polaca, De Marinis concorda com Puzyna que observa que as

21 “tanto em los dramas polacos del siglo XIX como em los espetáculos de Grotowski se avanza mediante

(33)

versões dirigidas por Grotowski respeitam a Weltanschauung22 daquelas obras, o que, como

veremos adiante, nos revela o envolvimento de Grotowski com a resistência cultural ao

massacre do imaginário simbólico polonês ao longo da história da Polônia.

O Romantismo foi um movimento artístico e filosófico que surgiu, no final do século

XVIII na Europa, como uma resistência ao racionalismo clássico e neoclássico, rejeitando

seus preceitos de ordem, equilíbrio e idealização. O início do Romantismo foi marcado por

um forte nacionalismo, já que a Europa passava por grandes revoluções que marcavam o fim

dos governos despóticos e o início do liberalismo político com a consolidação dos estados

nacionais.

Na Polônia, o movimento romântico fez nascer grandes heróis nacionais. Além das

inúmeras invasões e desmembramentos, que marcaram profundamente a história e a cultura

polonesa, o século XIX foi um momento de inúmeras desilusões políticas para o povo

polonês que culminou com o exílio de intelectuais e artistas em vários países da Europa,

dentre eles, Frédéric Chopin (1810-1849), Slowacki, Wyspiánski e Mickiewcz, que se tornou

um herói do nacionalismo polonês.

O movimento romântico dos artistas poloneses foi intensificado por um sentimento de

nostalgia nacionalista dos exilados, que encontravam nos símbolos e dramas nacionais, na

tradição folclórica polaca e na alma popular, os temas e meio de expressão do nacionalismo,

por uma pátria que nunca existiu.

Este espírito revolucionário e ao mesmo tempo nostálgico parece ter sido a forma de

“sentir o mundo” romântica com a qual identificava-se Grotowski, afinal na metade do século

XX, depois de duas grandes guerras mundiais que devastaram o país e sob o comando russo, a

Polônia não vivia uma situação muito diversa do que a realidade dos artistas do século

anterior. Segundo Eugenio Barba, Grotowski sabia de memória fragmentos das obras

românticas nacionalistas e constantemente descrevia a insurreição contra os russos e o exílio

dos intelectuais:

Estava obcecado pela Polônia, mas seu patriotismo não era nacionalismo, era orgulho dos artistas que não haviam se deixado quebrar nem submeter. Passava horas inteiras explicando-me episódios da história e literatura polacas. Estava

22

(34)

apaixonado pelos grandes autores românticos Slowacki, Norwid e sobre tudo Mickiewicz.23 (BARBA, 2000, p. 54).

Se em toda a Europa o depauperamento dos símbolos dogmáticos na Reforma e

Contra-Reforma, como afirma Jung, provocou uma sensação coletiva de desgarramento, na

Polônia, tornou-se ao longo do tempo, não uma sensação, mas uma situação real. Pois tão ou

mais grave do que as invasões, os desmembramentos e as mortes em massa foi o massacre do

imaginário simbólico da cultura polonesa. Para entendermos isso, não é necessário descrever

toda a história da Polônia, basta tomarmos como exemplo, o passado recente, no qual esteve

inserido Grotowski.

Na Segunda Guerra Mundial, a Polônia sofreu um duplo ataque, após um Pacto de

Não-Agressão assinado entre Alemanha e União Soviética, que pretendiam dividir o território

polonês. Entre 1939 e 1945 foram mortos cerca de seis milhões de poloneses e mais de

quinhentos mil foram deportados para a Sibéria, entre eles, funcionários públicos, nobreza e

padres. Com o fim da Segunda Guerra, a Polônia ficou sob forte controle da União Soviética

até 1981, num regime totalitário que usava de todos os artifícios para se manter no poder. E o

principal deles, segundo o polonês Bronislaw Bacsko, foi a manipulação da memória coletiva:

Tanto na ficção como na realidade, a intenção totalitária é fundamentalmente a mesma: garantir ao poder o controle das mentalidades, e muito particularmente, da memória coletiva considerada como uma peça mestra. As técnicas desse controle são essencialmente as mesmas: rigorosa censura de qualquer informação sobre o passado; supressão de certos fatos históricos, fabricação de “fatos” novos; permanente atualização das representações do passado em função das necessidades políticas e ideológicas do presente; fabricação de novas mitologias históricas, fabricação do carisma do “chefe”, etc.24 (BACSKO, 1991, p. 159).

23 “Estaba obsesionado por Polônia, pero su patriotismo no era nacionalismo, era orgullo hacia los artistas que

no habían dejado quebrar ni someter. Se pasaba horas enteras explicándome episodios de la historia y la literatura polacas. Estaba enamorado de los grandes autores románticos Slowaki, Norwid y sobre todo Mickiewiz.”

24

Imagem

Figura 1 – Jerzy Grotowski
Figura 2 – As cadeiras
Figura 3 – Akropolis
Figura 5 – O Príncipe Constante
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Referências

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